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sábado, 20 de fevereiro de 2021

Friedrich Nietzsche, o filósofo da afirmação da vida


Rebelde e provocador, o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) se propôs a desmascarar as fundações da cultura ocidental, mostrando que há interesses e motivações ocultas, e não valores absolutos, em conceitos como verdade, bem e mal. Com isso, Nietzsche aplicou um golpe nos sistemas filosóficos, morais e religiosos. Sua frase mais conhecida ("Deus está morto") não trata apenas de ateísmo, mas da necessidade de romper a "moral de rebanho" - as verdades tidas como inquestionáveis e o que é aceito por imposição - para viver as potencialidades humanas em sua plenitude.

Nietzsche foi professor universitário e escreveu textos específicos sobre Educação. "A máxima "tornar-se aquilo que se é" orienta seu pensamento nessa área", diz Rosa Maria Dias, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. "Com essa frase, ele indica a tarefa do educador de levar seus alunos a pensar por si mesmos."

O filósofo criticava o sistema escolar por ser um reforço da moral de rebanho: ao uniformizar o conhecimento e os próprios alunos, a instituição se curva às exigências externas do mercado e do Estado. Na Educação de seu país, ele via o avanço do ensino técnico sobre todos os níveis escolares com a finalidade de preparar profissionais e servidores competentes. Em lugar da massificação e do utilitarismo, Nietzsche propunha o aprimoramento individual e uma "Educação para a cultura" (leia o quadro na página 28). Entenda-se por cultura a criação de "personalidades harmoniosamente desenvolvidas", segundo Rosa Dias.

A habilidade de transformar

Se Nietzsche combatia a vulgarização dos conteúdos escolares, também criticava o saber voltado para a erudição. Para ele, havia em sua época um excesso de cultura histórica, que gerava uma reverência paralisante ao passado. Com isso, sufocava-se a força do agora e impedia-se o surgimento do novo. Mais ainda: a tendência histórico-cientificista impossibilitava a presença efetiva da Arte e da Filosofia no ensino, por se tratarem de campos de conhecimento instáveis e desafiadores, que estimulam a crítica.

Sem ser contra o ensino de História nem subestimar o sentido histórico dos fatos, o filósofo via no sistema engessado um entrave para a percepção da "força plástica" do ser humano - isto é, sua habilidade de transformar. "Para não agir como coveiro do presente, é necessário conhecer a capacidade de crescer por si mesmo, assimilar o passado, cicatrizar feridas, preparar perdas, reconstruir as formas destruídas - tudo isso é força plástica", diz Rosa Dias.

Nietzsche lamentava que uma espécie de ditadura da praticidade tivesse causado a perda da importância da leitura e do estudo de língua nas escolas, levando à degeneração da cultura. Naquele momento, dizia ele, ou se via o idioma como um organismo morto a ser dissecado, ou se encaminhavam a escrita e a leitura para os usos meramente comunicativos, reduzindo os textos a um padrão simplificado, supostamente ágil e moderno.

Um dos primeiros pensadores a conceber a leitura como uma atividade que não se limita à assimilação passiva de informações, Nietzsche achava que ler era uma experiência transformadora, inclusive no sentido físico. Isso porque, para se formar leitor, é necessário educar a postura, treinar a concentração e perseverar.

Vontade de potência

Como grande admirador da Antiguidade, principalmente da cultura clássica grega, o filósofo não aceitava a separação entre o corpo e o espírito. Tampouco dissociava, em seus textos, pensamento e vida. Segundo o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995), no ideal de Educação de Nietzsche, "os modos de vida inspiram as maneiras de pensar e os modos de pensar criam maneiras de viver".

Encontra-se nesse processo contínuo a vontade de potência, que na filosofia nietzschiana é a força motriz do ser humano. "A vida é antes de tudo uma capacidade de acumular forças", explica Rosa Dias. "Ela é essencialmente o esforço por mais potência, e para isso precisamos ser instruídos." Portanto, para Nietzsche, a Educação deveria se especializar em formar personalidades fortes, não homens teóricos ou pessoas ilustradas.

Cabe à escola, de acordo com o filósofo, produzir nos alunos a capacidade de dar novos sentidos às coisas e aos valores. Nietzsche dizia que só os jovens poderiam entender suas contestações. É, então, de supor que a idade escolar seja a melhor para levar o ser humano a pensar criticamente a respeito do mundo a sua volta. Mas, para isso, a sala de aula precisa valorizar "uma cultura da exceção, da experimentação, do risco, do matiz", nas palavras do filósofo.

Finalmente, ao educador cabe o papel de modelo, alguém que demonstra como se educar com disciplina e paciência. "Educar-se para ser educador significa, basicamente, estar à altura daquilo que se ensina", diz Rosa Dias. "O professor precisa ser mestre e escultor de si mesmo."

Biografia
Vida marcada por conhecimento e dor

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 em Röcken, Alemanha, filho e neto de protestantes. Nas universidades de Bonn e Leipzig, estudou Filologia, disciplina que lecionou na Universidade da Basiléia, na Suíça. Apaixonado por música, chegou a compor peças para piano. Sua carreira universitária começou a declinar com a publicação de sua primeira obra, "O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música" (1872). Em 1877, publicou "Humano, Demasiado Humano", na forma de aforismos. Quase cego, com frequentes crises de enxaqueca, se aposentou em 1879. Entre 1883 e 1888, publicou, entre outros livros, "Assim Falou Zaratustra" e dois títulos para explicá-lo ("Além do Bem e do Mal" e "Genealogia da Moral"). Passou os últimos 11 anos de vida mergulhado na loucura e morreu em 1900, de paralisia geral, na cidade alemã de Weimar.

Os caminhos de Nietzsche
A experiência estética no início de tudo

As grandes influências de Nietzsche surgiram na época em que ele era estudante na Universidade de Leipzig. Lá ele descobriu a filosofia de Arthur Schopenhauer (1788-1860) e a música de Richard Wagner (1813-1883), de quem se tornou amigo mais tarde. Além da filosofia e da música, a Antiguidade clássica grega era seu terceiro interesse primordial. Nos três, se encontrava o papel central da experiência estética. Nietzsche via em Wagner o renascimento da grande arte grega. Mais tarde, o filósofo se distanciou do compositor, por considerar que ele se curvava ao gosto do público burguês, e da obra de Schopenhauer, por ver em seu pessimismo um sintoma de decadência cultural. Na maturidade, Nietzsche analisou a origem e a função dos valores na vida e na cultura, concluindo que uma "moral de escravos" se impôs à humanidade desde o predomínio da tradição judaico-cristã. Compaixão, humildade, ressentimento e ascetismo teriam, então, constrangido a vontade de potência, que seria o princípio de toda a vida. Nietzsche, que abominava o anti-semitismo e o nacionalismo, foi visto durante muito tempo como inspirador do nazismo por causa da edição forjada e mal-intencionada que sua irmã, Elizabeth, fez dos escritos deixados por ele.


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terça-feira, 18 de abril de 2017

Documentários sobre Nietzsche, Heidegger e Sartre que você deveria assistir

A série da BBC  ‘Humano, Demasiado Humano’ (Human All Too Human) inclui três programas fantásticos sobre Friedrich Nietzsche, Jean Paul Sartre e Martin Heidegger, um trio de pensadores controverso que continuam influenciando até os dias de hoje, na filosofia e na psicologia. A série aborda os personagens e suas teorias. Vale assistir cada minuto, são três programa envolventes e emocionantes sobre a filosofia e os filósofos.


Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 -1900) foi um filósofo alemão do século XIX e um dos maiores nomes dessa área. Martin Heidegger (1889 – 1976) foi um filósofo alemão do século XX que influenciou muitos outros, dentre os quais Jean-Paul Sartre. Jean-Paul Sartre (1905 -1980) foi um filósofo francês, conhecido como representante do existencialismo.
Os documentários são conduzidos por Alain de Botton, escritor e produtor famoso por popularizar a filosofia e divulgar seu uso na vida cotidiana. Botton iniciou um Ph.D em filosofia francesa em Harvard, mas acabou preferindo escrever ficção. Para além de escrever possui a sua própria produtora, a Seneca Productions, que transmite regularmente programas e documentários de televisão, baseados nos seus trabalhos.
Documentário I: Humano, Demasiado Humano – Friedrich Nietzsche: Além do Bem e do Mal
A semente do pensamento disseminado por Nietzsche no século XIX prefigurava o piloto do século XX sobre os conceitos do existencialismo e da psicanálise. Este programa conta com entrevistas de grandes estudiosos do pensamento do Nietzsche sendo eles: Ronald Hayman e Leslie Chamberlain (biógrafos de Nietzsche), Andrea Bollinger (arquivista), Reg Hollingdale (tradutor), Will Self (escritor) e Keith Ansell Pearson (filosofa) que sonda a vida e os escritos de Nietzsche. Além de mostrar também o papel da irmã de Nietzsche na edição das suas obras para o uso como propaganda nazi. Conta também com partes de prosas aforísticas extraídas de obras como a parábola de um louco e assim falou Zaratustra.



Documentário II: Humano, Demasiado Humano – Martin Heidegger: Projeto Para Viver
O projeto do tratado Ser e Tempo, foi publicado em 1927 no mesmo ano que Minha Luta (Adolf Hitler). Este programa examina a vida e a filosofia de Martin Heidegger, descreve a sua ascensão a proeminência intelectual, expondo os motivos do seu envolvimento no partido Nazi. Entrevistas com o seu filho, Hermann Heidegger, George Steiner autor de uma influente critica da sua filosofia, contado também com o seu biógrafo Hugo Ott; e ex-aluno de Hans-Georg Gadamer, fornecem novas ideias enquanto se faz uma reconstrução dos momentos chaves da vida de Heidegger. Vida e história de um homem cujos apologistas e os antagonistas ainda amargamente se dividem.



Documentário III: Humano, Demasiado Humano – Jean-Paul Sartre: O Caminho Para a Liberdade
Neste episódio é abordada a vida e a obra do mais famoso filósofo existencialista europeu, Jean-Paul Sartre (1905-1980). O homem que passou a vida a desafiar a lógica convencional amava os paradoxos. O documentário expõe estes paradoxos da sua vida e da sua obra, ao mesmo tempo em que ambos são questionados. A pergunta central que é colocada é: Se o ser humano é livre para fazer o que quiser, como justifica Sartre, então como devemos viver as nossas vidas no dia-a-dia?


Fonte: Revista Prosa Verso e Arte

sexta-feira, 3 de março de 2017

10 filmes sobre a História da Filosofia


De Confúcio a Hannah Arendt,

passando por Sócrates, Espinosa e outros tantos…


Para pensarmos um pouco sobre a história da filosofia separamos 10 biografias de algumas figuras importantes para a filosofia. Ainda que esta lista não abarque todos os grandes nomes da filosofia, ainda assim, trata-se de uma ótima oportunidade para pensar nos caminhos e descaminhos da filosofia ao longo dos séculos. Organizamos a lista a partir de uma ordem temporal, nesse caso, dos filósofxs mais atuais aos mais antigos:

1. Hannah Arendt

Alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906 – 1975) recusava-se a ser classificada como “filósofa” e também se distanciava do termo “filosofia política”; preferia que suas publicações fossem classificadas sob o tema “teoria política”. No entanto, devido aos seus trabalhos sobre filosofia existencial e sua reivindicação da discussão política livre, Arendt tem um papel central nos debates filosóficos contemporâneos.O filme é de 2012 e aborda o julgamento de Adolf Eichmann, um colaborador de Hitler e coordenador dos campos de concentração. Hannah Arendt acompanhou o julgamento e escreveu uma série de artigos sobre o caso. No entanto, os artigos e o conceito de “banalidade do mal” defendidos por Hannah provocam uma série de controvérsias e, são muito mal recebidos pela opinião pública, principalmente, pela comunidade judaica.

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2. Amantes do café Flore – Simone de Beauvoir e Sartre

O filme é de 2006 e aborda a vida e a relação dos filósofos Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Trata-se de uma boa oportunidade para conhecer essas duas importantes figuras da filosofia mas, também, para conhecer um pouco do momento histórico em questão. O filme se desenrola numa perspectiva temporal importante, em que é possível acompanhar os primeiros encontros entre Simone e Sartre e gradativamente as mudanças pelas quais essa relação passa.

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3. Quando Nietzsche chorou

O filme é baseado no romance de Irvin Yalom e conta a história de um encontro fictício entre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e o médico Josef Breuer, professor de Sigmund Freud. Nietzsche é ainda um filósofo desconhecido, pobre e com tendência suicidas. Breuer é procurado por Lou Salome (Kather Winnick), amiga de Nietzsche, com quem teve um relacionamento atribulado. Ela está empenhada em curá-lo de sua depressão e desespero, assim pede ao médico que o trate com sua controversa técnica da “terapia através da fala”. O tratamento vira uma verdadeira aula de psicanalise, onde os dois terão que mergulhar em si próprios, num difícil processo de auto-conhecimento. Trata-se de uma oportunidade para conhecer melhor o pensamento e alguns posicionamentos de Friedrich Nietzsche.

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4.  Espinosa – O Apóstolo da Razão

O filme é de 1994  e aborda a vida e as idéias do filósofo renascentista Espinosa, que desafiou a Igreja e propôs a separação entre religião e Filosofia.

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5. Blaise Pascal

Acompanhamos a trajetória de Pascal, dos 17 anos até sua morte precoce, seus célebres estudos de Matemática e Geometria, incluindo a criação da primeira calculadora mecânica; seus trabalhos revolucionários sobre o vácuo, os fluidos e a pressão atmosférica; sua relação com o Jansenismo e a concepção de suas principais obras filosófico-religiosas.

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6.  Cartesius – René Descartes

O diretor Rossellini extrai trechos inteiros de algumas das obras fundamentais do pensador, como O Discurso do Método (1637) e as Meditações Metafísicas (1641), para compor as ações “dramáticas” do personagem. São procedimentos teóricos de Descartes, cuja função seria fundar a autonomia do pensamento racional diante da fé. Vale dizer que, naquela época, toda démarche racionalista tinha de ser, também, uma negociação com a autoridade religiosa. Donde, nas Meditações, Descartes precisar, primeiro, ocupar-se das provas da existência de Deus, para apenas depois afirmar que o Cogito (a Razão) se sustenta por si só. “Eu sou, eu existo”, deduz, pelo simples fato de pensar. A conclusão entrou para a história do conhecimento como a frase famosa “Penso, logo existo”.

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7. Giordano Bruno

Giordano Bruno (1538-1600) foi um filósofo italiano condenado à morte na fogueira pela Inquisição romana por heresia ao defender erros teológicos e pela defesa do heliocentrismo. Giordano Bruno foi filósofo, astrônomo, matemático e um dos maiores pensadores do Século XVI. Admitia que acima de um deus imanente (a “alma do mundo”), haveria um deus transcendente, só apreendido pela fé, mas uma fé inteiramente naturalista, bem diversa da fé cristã. Processado pela Inquisição de Veneza, preferiu retratar-se (como Galileu), mas seus inimigos conseguiram que fosse mandado a Roma, onde respondeu a novo processo.O filme de Guiliano Montaldo, retrata o processo romano, no qual Giordano Bruno recusou qualquer retratação, sendo condenado e queimado vivo no ano de 1600.

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8. Ágora – Hypatia de Alexandria

Sob o domínio Romano, a cidade de Alexandria é palco de uma das mais violentas rebeliões religiosas de toda história antiga. Judeus e cristãos disputam a soberania política, econômica e religiosa da cidade. Entre o conflito, a bela e brilhante astrônoma Hypatia lidera um grupo de discípulos que luta para preservar a biblioteca de Alexandria. Trata-se de uma boa oportunidade para refletir sobre o período histórico em questão e também sobre as questões de gênero envolvidas, já que é impossível deixar de notar que boa parte dos desafios que Hypatia enfrenta derivam do fato dela ser uma mulher.

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9. Sócrates

“Sócrates”, mostra o final da vida de Sócrates (470 – 399 a.C.), em especial seu julgamento e sua condenação à morte, com destaque para os célebres diálogos socráticos: ‘Apologia’, ‘Críton’ e ‘Fédon’, com seus últimos ensinamentos antes de tomar a cicuta. Imperdível!

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10. A  batalha pelo Império – Confúcio

Na idade da guerra no Estado chinês, durante a qual incontáveis guerras foram travadas para unificar os reinos, o rei de Lu pede a ajuda de Confúcio, filósofo muito influente para recuperar o seu poder. Confúcio usa a sua inteligência e carisma para salvar o estado de Lu de um conflito interno e de uma guerra perpétua. No entanto, os centros políticos do Estado passam a se sentir ameaçados pelo filósofo. Conseguem exilar Confúcio, que vaga por anos de um estado para outro sem perder os seus ideais de paz e harmonia.

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domingo, 11 de abril de 2021

A vida actual não convida a pensar - Entrevista com Peter Sloterdijk


Peter Sloterdijk (Karlsruhe, Alemanha, 1947) é um dos grandes nomes do mundo do pensamento. Professor de Estética e Filosofia na Escola Superior de Design de sua cidade natal, há anos agita o mundo da filosofia – e o mundo como um todo – com suas obras, seu novos conceitos e termos, e suas opiniões. Autor de livros cruciais do pensar de nossa época como Crítica da Razão Cínica, Ira e Tempo e principalmente sua monumental trilogia Esferas (Bolhas, Globos e Espuma), em que desenvolve uma assombrosa teoria do espaço íntimo, Sloterdijk une sua profundidade intelectual a uma face midiática incomum em seu campo e uma cordialidade, um humor e uma ironia que o afastam do paradigma do filósofo alemão usual (Karl Popper, para citar um mal-humorado).

O pensador visitou Barcelona onde se reuniu com várias centenas de pessoas em uma conversa no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB). Apesar de sua afabilidade e sua aparente tranquilidade, entrevistar Sloterdijk, cujas páginas um ser humano comum frequentemente precisa ler várias vezes para conseguir entendê-las, é um desafio. Com as passagens de Esferas ainda flutuando na cabeça – “a esfera íntima, consubjetiva, não pode possuir em absoluto uma estrutura eucíclica e parmenídea: o globo psíquico não tem, com o filosófico bem arredondado, um único centro que irradia e engloba tudo, e sim dois epicentros que se interpelam mutuamente por ressonância” –, se entrevista Sloterdijk como se estivesse diante de Plotino. Um Plotino, de fato, um pouco desarrumado e sem meias.

A entrevista é de Jacinto Antón, publicada por El País, 05-05-2019.
Eis a entrevista.

Não lhe parece que o pensar, o pensar de verdade, se tornou uma excentricidade? Ao ler seus livros, tão intensos, percebemos que o pensamento sério, o que exige esforço e concentração, não é numeroso. Nós nos desacostumamos.
Sim. Certamente. Isso me lembra uma cerimônia zen em que o mestre pega uma chaleira, como eu estou fazendo agora, e despeja chá até encher a taça, e então continua despejando e o líquido derrama. Você não pode entender nada se a taça não está cheia.

Perdemos a capacidade de pensar?
Não é capacidade como tal. Mas não ocorrem as circunstâncias vitais que nos permitem afastar e ganhar distância. Para Husserl e sua fenomenologia era preciso sair do tempo impetuoso da vida, o dispositivo mais elementar era sempre dar um passo atrás. Essa ação permite que você se transforme em observador. Sem uma certa distância, sem uma certa desconexão a atitude teórica é impossível. A vida atual não convida a pensar.

Hoje a superficialidade se impõe à profundidade.
A Filosofia moderna abandonou mais ou menos a metáfora da profundidade. Preferimos dizer que tudo está na superfície, e se existe profundidade é preciso fazer com que ela suba à superfície como se fosse superficial. Caso contrário, você se transforma em um mistagogo, um iniciador em mistérios sagrados.

Também é verdade que pensar de verdade é difícil e tem algo de doloroso e angustiante quando se chega perto dos limites do eu e da autoconsciência.
Não estou convencido disso. A filosofia original na antiguidade era algo ambivalente. Temos os dois topos: Heráclito, que chorava, e Demócrito, que ria constantemente. Esse traço comentado de ambos pelas fontes aparece até mesmo em suas estátuas. Para Platão, de uma tradição diferente, pensar é o prazer mais elevado. Isso por uma razão: a essência do pensamento é lembrar e o que devemos lembrar é o fato de que estivemos muito próximos da essência divina e a única coisa que deve ser feita para eliminar os obstáculos que não te permitem alcançá-la é lembrar claramente. Basicamente, deveria se tratar de felicidade. Mas não funciona assim porque, certamente, na antiguidade os pensadores eram conhecidos por ter sempre um rosto triste. Eram mais respeitados por isso, seus compatriotas esperavam que tivessem aspecto melancólico e o cenho franzido (ri). Era um truque muito bom, porque ninguém sentia inveja de alguém triste. É melhor esconder sua boa sorte. O que me lembra uma frase de Walter Serner, o dadaísta, autor de Manual para Enganadores, que dizia que sempre que você se mudar a uma nova cidade deixe que o rumor de que você tem câncer o preceda, isso reduz a inveja. Seus competidores já não te levarão tão a sério.

domingo, 6 de abril de 2014

Toda a oligarquia envolve o desejo da tirania, por Friedrich Nietzsche


Os Fortes Aspiram a Separar-se e os Fracos a Unir-se 
"O crescimento da comunidade frutifica no indivíduo um interesse novo que o aparta da sua pena pessoal, da sua aversão à sua própria pessoa. Todos os doentes aspiram instintivamente a organizar-se em rebanhos, o sacerdote ascético adivinha este instinto e alenta-os onde quer que haja rebanhos, o instinto de fraqueza forma-os, a habilidade do sacerdote organiza-os. Não nos enganemos: os fortes aspiram a separar-se e os fracos a unir-se; se os primeiros se reúnem, é para uma acção agressiva comum, que repugna muito à consciência de cada qual; pelo contrário, os últimos unem-se pelo prazer que acham em unir-se; porque isto satisfaz o seu instinto, assim como irrita o instinto dos fortes. Toda a oligarquia envolve o desejo da tirania; treme continuamente por causa do esforço que cada um dos indivíduos tem que fazer para dominar este desejo."
Friedrich Nietzsche, in 'Genealogia da Moral'

Saber mais:

quarta-feira, 7 de maio de 2025

O fim da sociedade aberta - a LER antes das eleições


O golpe de estado corporativo e o colapso da democracia americana começaram muito antes de Trump. Ele está simplesmente a extinguir o que resta.
Chris Hedges, jornalista, Prémio Pulitzer. Por quase duas décadas foi correspondente na América Central, Oriente Médio, África e Bálcãs.

"Os fascistas cristãos e os oligarcas que entregam alegremente a Donald Trump a sua caneta afiada e as suas ordens executivas não estão a fazer guerra ao Estado profundo, à esquerda radical ou a proteger-nos dos “anti-semitas”. Estão a fazer guerra a factos verificáveis, ao Estado de direito e à transparência e responsabilidade que só é possível com uma imprensa livre, o direito à dissidência, uma cultura vibrante e uma separação de poderes, incluindo um poder judicial independente.

Todos estes pilares de uma sociedade aberta, como detalho no meu livro “Death of the Liberal Class”, foram degradados muito antes de Trump. A imprensa, incluindo a radiodifusão pública, a academia, o Partido Democrata, uma cultura corporativa e banal, um sistema judicial que serve a classe bilionária e um Congresso comprado por lobistas, foram estirpados. São facilmente eliminados. Poucos querem levantar-se para os defender. Eles venderam-nos. Deixem-nos morrer.

“A perda da classe liberal cria um vazio de poder preenchido por especuladores, especuladores de guerra, gangsters e assassinos, muitas vezes liderados por demagogos carismáticos”, escrevi em “Death of the Liberal Class”, em 2010. "Abre a porta a movimentos totalitários que se tornam proeminentes ridicularizando e ridicularizando a classe liberal e os valores que ela afirma defender. As promessas destes movimentos totalitários são fantásticas e irrealistas, mas as suas críticas à classe liberal são baseadas na verdade."

O fascismo nasce de um liberalismo falido que renunciou ao seu papel tradicional numa democracia capitalista. Já não melhora os piores excessos da classe dominante e do império, instituindo reformas graduais e fragmentadas. Repreende e moraliza os trabalhadores destituídos de direitos que traiu.

Os meios de comunicação social dão mais prioridade ao acesso aos poderosos do que à verdade. Amplificaram as mentiras e a propaganda para nos empurrarem para uma guerra contra o Iraque. Enalteceram Wall Street e garantiram-nos que era prudente confiar as nossas poupanças a um sistema financeiro gerido por especuladores e ladrões. As poupanças foram destruídas. Alimentaram-nos com as mentiras do Russiagate. Servem servilmente o lobby de Israel, distorcendo a cobertura do genocídio e dos protestos nas universidades para demonizar os palestinianos, os muçulmanos e os estudantes que protestam. Dançam ao som da música dos seus anunciantes e patrocinadores empresariais. Tornam invisíveis sectores inteiros da população, cuja miséria, pobreza e queixas deveriam ser o principal foco do jornalismo.

As universidades transformaram-se em empresas. Os administradores de topo, que muitas vezes têm um Master of Business Administration (MBA), com pouca ou nenhuma experiência no ensino superior, juntamente com os treinadores desportivos que têm potencial para ganhar dinheiro para a universidade, são altamente compensados com salários na ordem das centenas de milhares de dólares, com treinadores premiados e presidentes de faculdades a ganharem milhões.

Atualmente, pouco mais de 10% dos postos de trabalho do corpo docente são ocupados por professores titulares. Cerca de 45% são empregados contingentes a tempo parcial ou adjuntos. Um em cada cinco é a tempo inteiro e não é titular. As universidades, ao reduzirem radicalmente os postos de trabalho com direitos adquiridos e adequadamente remunerados, tornaram-se extensões da economia informal. Os professores adjuntos e os trabalhadores licenciados são muitas vezes obrigados a candidatar-se ao Medicaid, a aceitar segundos empregos a dar aulas noutras faculdades, a conduzir para a Uber ou para a Lyft, a trabalhar como caixas, a entregar comida para a Grubhub ou para a DoorDash, a passear cães, a tomar conta de casas, a servir à mesa e a viver quatro ou seis pessoas num apartamento ou a acampar no sofá de um amigo.

Um corpo docente mal pago e sem segurança no emprego não levanta questões que desafiem a narrativa dominante, seja sobre a desigualdade social, as corporações predadoras, os crimes do império, o genocídio israelita ou o nosso estado de guerra permanente. Se o fizerem, são despedidos. Entretanto, os administradores superiores das universidades recebem bónus por “reduzirem as despesas”, aumentando as propinas e as taxas, cortando pessoal e suprimindo salários. Esta instabilidade garante aos doadores ricos que a ideologia neoliberal que está a devastar o país, para além de permitir o genocídio em Gaza, não será questionada pelos académicos que temem perder os seus cargos. Os ricos e os poderosos são louvados. Os trabalhadores pobres, incluindo os empregados pela universidade, são esquecidos.

Como Irving Howe assinalou no seu ensaio de 1954 “This Age of Conformity”, a "ideia da vocação intelectual - a ideia de uma vida dedicada a valores que não podem ser realizados por uma civilização comercial - perdeu gradualmente o seu encanto. E é isso, mais do que o abandono de um programa particular, que constitui a nossa derrota". A crença de que o capitalismo é o motor inatacável do progresso humano, escreve Howe, “é apregoada através de todos os meios de comunicação: propaganda oficial, publicidade institucional e escritos académicos de pessoas que, até há poucos anos, eram os seus principais opositores”.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

terça-feira, 5 de abril de 2016

Deleuze fala do verdadeiro charme de uma pessoa: “seus traços de loucura”


Gilles Deleuze nasceu em França e viveu de 1925 a 1995. Notável filósofo e professor de Filosofia em diversas Faculdades, publicou estudos sobre pensadores como Nietzsche, Kant e Spinoza, sendo apontado como um dos responsáveis pelo crescente interesse pela obra de Nietzsche. Habituado a ler e a espreitar de perto esses grandes pensadores, Deleuze tem como certo que “todos nós somos meio dementes” e que não se pode se apaixonar por uma pessoa quando não se percebe, nela, um essa “demência”, que é o seu “charme”.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Encontros improváveis- Nietzsche e Of Monsters And Men - "Wolves Without Teeth"


"...Thus passes the day of the virtuous. And when night comes I guard well against calling sleep. For sleep, who is the master of the virtues, does not want to be called..."
- Nietzsche, Thus Spoke Zarathustra

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Emil Cioran - O filósofo da melancolia



Preparem-se para pensamentos melancólicos. Para ideias desconcertantes. Para ideias que nos incomodam. Se forem de natureza macambúzia e com pouco senso de reflexão, sugiro que não se apercebam do filósofo romeno Emil Cioran, que nasceu em Rășinari, uma área rural da Transilvânia (portanto, conterrâneo do Conde Drácula) em 1911 e que faleceu em Paris, no ano de 1995. Ainda na Roménia, aos 17 anos ingressou na Faculdade de Filosofia, e encantou-se pela política partidária aderindo a um Partido Nacionalista, inspirado no Nazismo, mas na fase adulta reconheceu este erro e acabou por se desculpar; mas foi em Paris que se radicou e tentava viver como estudante apenas.

Tanto é que foi chamado à responsabilidade pela administração da Sorbonne, pois já estava com 40 anos e havia estado há muito na instituição, aproveitando-se das refeições baratas nos bandejões da cantina da universidade. Assim, teve que se desligar da instituição (ou desligaram-lhe) e entronizou a característica com a qual gostaria de ser conhecido e reconhecido: a de um eterno estudante.

Nos primeiros ensinamentos da Filosofia, encantou-se com Immanuel Kant (1724-1804), Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Contudo, refutou a Filosofia como o grande esquema de explicação do mundo e de Nietzsche herdou a característica de se expressar por aforismos, tais como:

“Amo o pensamento que guarda um gosto de carne e sangue, e a uma abstração vazia prefiro mil vezes uma reflexão surgida de uma exaltação dos sentidos ou de uma depressão nervosa“.

Cioran é de um pessimismo impressionante. Mas, quando leio alguns dos seus pensamentos, consigo encontrar humor, mesmo que negro, das suas provocações. Na fase adulta, foi acometido por uma insónia que não o deixava aspirar a novos começos, pois, segundo ele, só aqueles que dormem e se levantam normalmente na manhã seguinte têm o direito de aspirar a coisas novas, sonhos novos, projetos novos.

Saindo do seu quarto barato de hotel, pela madrugada lá ia Cioran perambular pela Cidade Luz, em becos escuros contando com a companhia de putas tristes que formavam as cenas. Sem aspiração alguma, pessoal ou profissional, sem compromissos e sem ter que prestar contas a ninguém, Cioran tinha tempo de sobra para refletir e tirar extratos destas sinapses, tais: “O paraíso é a ausência do homem“.

O mundo de Cioran é cinza e não intenta nenhuma metafísica. Ele mesmo desejava uma vida de inseto, tipo “A Metamorfose” de Franz Kafka e fico aqui a pensar se este desapego à vida é que não fez com que, contraditoriamente, vivesse tanto, afinal, morreu aos 84 anos, precedido pelo Mal de Alzheimer.

Os seus livros mais conhecidos são “A Tentação de Existir“, “Exercícios de Admiração“, “Breviário de Decomposição” e “Silogismos da Amargura“. Citando fontes, o filósofo foi-me apresentado pelo excelente artigo de Paulo Jonas de Lima Piva, “Cioran Uma Mente Desconcertante“, publicado na Revista Discutindo Filosofia (Ano 1, n.º 2). Do mesmo modo que a partir desta apresentação procurei inteirar-me mais sobre Cioran, espero que este artigo em questão lhes possa proporcionar isso.

Deixo-lhes alguns pensamentos, e esclareço que não me aprofundei mais para dar um certo estilo às intenções de Cioran: mais vale uma vida vivida com toda a sua contrariedade a esquemas de reflexões e de salvação do mundo, pelo menos a nossa própria. Tentem não se matar ao lerem estas reflexões tortas. Ao menos para mim, significou deleite puro, pois, para além da seriedade das sentenças, percebi um certo sorrisinho de mofa.

“No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!“;

“O momento em que pensamos ter compreendido tudo dá-nos ar de assassinos“;

“O destino do homem é esgotar a ideia de Deus“;

“A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade“;

“Que vale mais: realizar-se na ordem literária ou na ordem espiritual, ter talento ou força interior? Parece a segunda fórmula a preferível, pois mais rara e enriquecedora. O talento destina-se ao olvido, em contrapartida a força interior aumenta com os anos, podendo atingir o seu apogeu no momento em que a pessoa expira“.

domingo, 17 de junho de 2007

Dossiê Filosofia

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