Mostrar mensagens com a etiqueta Escravatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Escravatura. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de abril de 2026

De James Monroe a Donald Trump


Entre a escravatura silenciada e a “regeneração nacional” trumpista, o que une as mensagens presidenciais não é a grandeza imperial, mas a tentativa de conter, em cada época, as fissuras abertas pelos de baixo.

Mais ou menos eficazes, os discursos governamentais estão carregados de ideologias e as suas análises requerem, entre outros procedimentos, o exame das estruturas e práticas sociais no interior das quais foram produzidos. Isto pode evitar a disseminação de abordagens unilineares e teleológicas que considerem os processos históricos como resultantes, fundamentalmente, da inquestionável vontade dos dominantes. Esta temporalidade de uma nota só bloqueia a perceção de contradições complexas e facilita a perceção da história como um processo imune a múltiplas formas de resistência e mesmo a revoluções advindas, em grande parte, da iniciativa dos dominados e dominadas.

A 2 de dezembro de 1823, o presidente dos EUA, James Monroe, apresentou uma mensagem ao Legislativo dos EUA acerca da política do conjunto da sua gestão governamental. Um dos eixos do discurso era o complexo processo de territorialização do jovem país. Oito décadas mais tarde, em dezembro de 1904, Theodore Roosevelt explicitou que, em relação ao novo contexto internacional, a mensagem que enviava ao Congresso atualizava as formulações de James Monroe.

Em novembro de 2025, Donald Trump, agora em cumprimento da Lei Goldwater-Nichols, enviou uma mensagem às duas Câmaras legislativas, na qual também afirmou que, no que toca à política internacional, especialmente com vista ao Hemisfério Ocidental, produziu o que ele próprio intitulou Corolário Trump.

A América para os americanos
Mesmo ausente do texto escrito, a famosa frase expressa, em termos muito gerais, a mensagem de 1823. Mas, de James Monroe ao MAGA, fica o problema: qual América?

Já no início, James Monroe justificou a sua mensagem com a referência à soberania do povo, pilar de um “sistema político” (expressão do próprio) que, fruto de “nossa revolução” (a independência dos EUA), é condição para que os seus cidadãos sejam os mais prósperos e felizes do mundo. Neste sentido, o presidente afirmou que a escolha de tal sistema pelos movimentos de independência fazia com que qualquer interferência das metrópoles fosse considerada uma agressão aos próprios EUA.

Em todo o texto, James Monroe (de onde veio o nome Monróvia, da atual Libéria) não se referiu aos escravos, cuja exploração era a base da economia do sul, inclusive da Virgínia, onde nasceram ele e mais três dos quatro primeiros presidentes dos EUA. Nem à Lei dos Três Quintos, que contabilizava 60% dos escravos em cada estado para fins de aumento da bancada dos sulistas na Câmara dos Representantes. Na única menção aos indígenas, James Monroe elogiou a repressão aos Arikaees, devidamente punidos pelo ataque para que o “espírito hostil” não se estendesse a outras tribos. Medidas “para conter o mal”, sentenciou (p. 6).

Nos idos de 1823, os EUA eram uma formação social com a forte presença de relações pré-capitalistas, uma classe dominante nacionalista, inclusive a fração esclavagista, sequiosa por ampliar a fronteira agrícola; um expansionismo que era conduzido em sentido mais estratégico pelos dirigentes da política estatal. A produção e exportação algodoeira para a indústria inglesa acelerava-se, mas com tecnologia ainda anterior à explosão dos anos 1830. Várias condições favoreciam uma agressiva política estatal de produção de uma territorialidade que articulasse a escravatura, no sul, e a dominação burguesa, a norte.

Esta relação de unidade e contradição entre o escravagismo e o capitalismo embrionário manifestava-se, inclusive, nas complexas negociações em torno dos impactos da incorporação de cada novo território, pois, ao implicar o acolhimento ou a rejeição do escravagismo, gerava efeitos sobre a correlação política interna do país. A questão da territorialidade também produzia tensões relativas às Caraíbas como rota comercial e/ou em termos militares.

A cada um, a sua revolução
James Monroe também silenciou sobre a única revolução de escravos vitoriosa da história, ocorrida no que é, desde então, o Haiti, com enorme repercussão nas três Américas e na Europa. A mensagem operou um corte entre relações de produção e sistema político, o que lhe permitiu legitimar, no plano discursivo, uma ordem escravagista. Não constituídos estruturalmente como sujeitos, os escravos não podem (?) fazer uma revolução.

Apropriações sociais de leitura: desde crianças, “sabemos” que James Monroe, uma espécie de Pai Natal, foi o primeiro governante a reconhecer a independência do Brasil, este país imperial escravagista. Pouco se ensina que, tal como os seus antecessores Jefferson e James Madison e todos os que o sucederam até à Guerra de Secessão, Monroe não reconheceu a independência do Haiti. Até propositadamente, a sua mensagem teve pequena repercussão imediata e só recebeu o nome de doutrina quando, cerca de duas décadas mais tarde, foi apropriada por patriotas preocupados em salvar a “América”, vista como nação branca ilhada pela decadência do escravagismo na Europa, em países independentes da América e mesmo em colónias francesas e britânicas.
Outras apropriações sociais vieram.

O populismo antissistema de Andrew Jackson
A ligação de Donald Trump a Andrew Jackson não é apenas uma preferência histórica passageira, mas sim uma escolha estratégica e pessoal que molda profundamente a sua identidade política. Para compreender esta admiração, é necessário olhar para Jackson como o grande divisor de águas da democracia americana no século XIX, uma vez que ele foi o primeiro presidente a não pertencer à elite aristocrática da Virgínia ou de Massachusetts. Sendo um militar de origem humilde, conhecido pelo seu temperamento explosivo e por uma lealdade feroz aos seus seguidores, Andrew Jackson serve de espelho para Trump, que se apresenta como uma figura externa ao sistema que chegou ao poder com a missão de o limpar e de devolver o governo aos cidadãos comuns.

O ponto central desta identificação reside no populismo antissistema, pois tal como Trump critica frequentemente a burocracia de Washington, também Jackson travou uma guerra aberta contra o Segundo Banco dos Estados Unidos, por o considerar uma ferramenta de corrupção das elites financeiras contra o trabalhador comum. Trump vê nesta postura de combatente o arquétipo do líder forte que não se verga às normas da etiqueta política sempre que estas interferem na sua agenda. Este simbolismo tornou-se evidente logo na tomada de posse de 2017, quando Trump escolheu o retrato de Jackson para decorar a parede da Sala Oval, enviando a mensagem clara de que não governaria como um republicano tradicional, mas como um herdeiro do Jacksonianismo, focado no nacionalismo económico e numa relação direta com a sua base eleitoral.

Além disso, Trump admira a resiliência física e política de Andrew Jackson, um homem que sobreviveu a duelos e enfrentou processos no Congresso sem nunca recuar. Para Trump, a política é vista como uma arena de força onde a vontade do povo, representada pelo líder, deve prevalecer sobre as instituições que tentam contê-la. Em suma, Jackson é o modelo ideal para Trump porque forneceu um precedente histórico para o seu estilo de liderança, sendo simultaneamente um herói para os seus apoiantes e uma figura profundamente disruptiva para os seus opositores.

Theodore Roosevelt e a aurora do imperialismo estado-unidense
Trinta anos após a Guerra de Secessão, os EUA não só se tornaram a primeira economia mundial como ingressaram no estágio imperialista do capitalismo. Ao lado de um extraordinário processo de acumulação e centralização de capital, deu-se uma intensa imigração – e, com ela, mais racismo – e o colonialismo de novo tipo. Houve um empobrecimento do campesinato e ampliação do número de trabalhadores urbanos, grande parte em situação de miséria nas grandes cidades industriais. Cresceram as mobilizações de massas e politizaram-se lutas, inclusive processos eleitorais.

Por intermédio da guerra com a Espanha, iniciou-se uma grande ofensiva sobre as Caraíbas, com o domínio de Cuba e Porto Rico, e, na bacia do Pacífico, a conquista do Havai, Ilhas de Guam e das Filipinas, onde haveria forte e heróica resistência popular. Enfim, a grande América em expansão marítima.

Tal como a mensagem de James Monroe, a de Th. Roosevelt era otimista. Ele afirmou que, numa sequência de bons governos, a prosperidade era notável e havia aprovação popular. Tudo isto dinamizado pelo industrialismo, a “nota dominante da sociedade moderna” e, com isso, a importância das relações capital-trabalho, “especialmente capital organizado e trabalho organizado” (p. 1). Ao contrário do silêncio de Monroe sobre os produtores diretos, Th. Roosevelt dedicou cerca de 11 das 33 páginas da sua mensagem a esta relação, referindo-se a políticas intervencionistas em múltiplas esferas da vida social: do direito dos trabalhadores se organizarem para se defenderem contra “abusos das grandes corporações” ao trabalho infantil e da mulher grávida, acrescentando que o maior dever da mulher é “ser mãe, dona de casa” (p. 10).

Mas, acima de tudo, defendia a responsabilidade e a tolerância entre capitalistas e assalariados. Ele próprio racista, declarou-se contra o preconceito em relação a migrantes e negou que houvesse riscos de chegarem em excesso, desde que fossem “do tipo certo”. No plano externo, expandiu a área de influência nas Caraíbas e na Bacia do Pacífico, onde forçou a política de portas abertas na China e arbitrou o conflito entre os impérios Japonês e Russo, o que lhe assegurou, em 1906, o Nobel da Paz.

James Monroe declarou opor-se à intervenção de potências europeias nos processos em curso pela independência na América porque estes adotavam um “sistema político” semelhante ao dos EUA e, portanto, superior ao delas. E, ao dirigir-se a elas, a sua posição era altiva, mas defensiva.

Já a mensagem de Th. Roosevelt era explicitamente agressiva. Alertava para os males que ocorreriam se, na ausência de “algum grau de controlo internacional sobre as nações infratoras”, as “potências mais civilizadas… de maior senso de obrigação internacional e com a mais aguda e generosa apreciação do certo e do errado, se desarmassem” (p. 29). Daí a importância de, sempre que necessário, elas, armadas, exercerem um poder de polícia internacional (id.).

A aparente mitigação do hobbesianismo primário ficava por conta da comunhão de interesses entre atacante e atacado. “Os nossos interesses e os dos nossos vizinhos do sul são… idênticos” (p. 30); ou as Filipinas não precisavam de “independência alguma…” (p. 36). E, num esforço de síntese transoceânica, afirmou que, “em relação a Cuba, Venezuela e Panamá, ao esforçarmo-nos para circunscrever o teatro de guerra no Extremo Oriente e para assegurar a abertura das portas na China, agimos no nosso próprio interesse, bem como no interesse da humanidade em geral” (p. 31).

domingo, 29 de março de 2026

Nesta semana a ONU aprovou, por larga maioria, uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade". O que isso significa?


A Assembleia Geral das Nações Unidas apoiou esta semana, por larga maioria, uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade".

A resolução histórica aprovada na quarta-feira foi apoiada pela União Africana (UA) e pela Comunidade das Caraíbas (Caricom). Tinha sido proposta pelo presidente do Gana, John Dramani Mahama, que disse: "Que fique registado que, quando a história chamou, fizemos o que era certo em memória de milhões que sofreram a indignidade da escravatura."

Ao saudar a votação, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, afirmou que a riqueza de muitas nações ocidentais foi "construída sobre vidas roubadas e trabalho forçado".

Assinalando os "castigos bárbaros que mantinham o controlo – desde grilhões e coleiras de ferro a açoites e violência sexual", disse que "não se tratava simplesmente de trabalho forçado".

"Era uma máquina de exploração em massa e de desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças. As feridas são profundas e muitas vezes passam despercebidas."

A resolução, apoiada por países africanos e caribenhos, não é juridicamente vinculativa, mas os analistas afirmam que transmite uma mensagem poderosa.

"É já um passo enorme e significativo em termos políticos ter este debate na ONU, mesmo que tenha um valor mais simbólico", disse Almaz Teffera, investigadora sénior sobre racismo da Human Rights Watch, à BBC.

Ela afirma que isto poderia aumentar as hipóteses de progresso nas discussões sobre reparações ou alguma forma de compensação.

A resolução foi aprovada por 123 votos a três, com 52 abstenções, incluindo o Reino Unido e os Estados-membros da UE.

Os Estados Unidos, a Argentina e Israel votaram contra.
A Dra. Erieka Bennett, que lidera o Fórum Africano da Diáspora, sediado no Gana, disse à BBC que a votação teve um significado pessoal para os descendentes de pessoas escravizadas, como ela.

"Significa que sou reconhecida, significa que o meu antepassado finalmente descansa em paz". Para mim, pessoalmente, como afro-americano, é algo avassalador – até que se tenha vivido o que aconteceu, é muito difícil perceber o que isso realmente significa.

Os países afetados pela escravatura têm vindo a pedir reparações há mais de um século. Mas o debate intensificou-se nos últimos anos, sobretudo depois de algumas nações e empresas que historicamente lucraram com o trabalho escravo africano terem pedido formalmente desculpa e anunciado medidas de reparação.

Qual é o argumento a favor das reparações?
Dos séculos XV ao XIX, cerca de 12 a 15 milhões de homens, mulheres e crianças africanos foram capturados e traficados para as Américas para trabalharem como escravos.

Foram enviados para colónias controladas por países europeus, como Espanha, Portugal, França e Reino Unido. Acredita-se que dois milhões de pessoas morreram a bordo dos infames navios negreiros.

Os efeitos de séculos de exploração ainda se fazem sentir nos dias de hoje.

No Brasil, o maior recetor de africanos escravizados – 4,9 milhões, a maioria durante o período em que era colónia portuguesa – as pessoas negras têm o dobro da probabilidade de viver na pobreza. como brancos, de acordo com o órgão oficial de estatísticas do país (IBGE).

As reparações têm como objetivo funcionar como uma restituição – um pedido de desculpas e um pagamento às pessoas negras cujos antepassados ​​foram forçados à escravatura. A moção, proposta pelo Gana, insta os Estados-membros da ONU a considerarem pedir desculpa pelo tráfico de escravos e a contribuírem para um fundo de reparações.

A Dra. Esther Xosei, académica, ativista e figura de destaque no movimento global pelas reparações, saudou a votação, mas duvida que faça grande diferença por si só.

"É uma boa vitória [para o movimento pelas reparações], mas vamos recordar “Isto é apenas uma declaração de intenções”, disse ela à BBC.

Xosei acrescentou que, embora fosse “encorajador ver as nações africanas a assumir o protagonismo nestas discussões”, destacou a importância da ação popular.

“Corações e mentes não serão conquistados na ONU.”

“A verdadeira batalha será travada nas ruas, onde as pessoas ainda estão mal informadas sobre a história da escravatura e os seus efeitos duradouros na vida dos africanos e dos seus descendentes.”

Existe algum precedente histórico para as reparações?
Sim – o caso de reparações mais famoso envolve a Alemanha. Desde 1952, a nação europeia pagou mais de 80 mil milhões de dólares (60 mil milhões de reais) às vítimas judias do regime nazi, incluindo pagamentos a Israel.

Mas, até agora, nunca nenhum país pagou reparações aos descendentes de africanos escravizados ou às nações africanas, caribenhas e latino-americanas afetadas.

A maior parte das reparações pagas pelos governos veio sob a forma de indemnizações aos proprietários de escravos no século XIX, e não àqueles que foram escravizados.

Isto inclui o Reino Unido - na década de 1830, após a abolição da escravatura, o país pagou aos proprietários o equivalente a mais de 21 mil milhões de dólares (16 mil milhões de libras) em valores actuais.

Mesmo nações que pediram formalmente desculpas pelo seu papel na escravatura, como a Holanda em 2022, descartaram reparações financeiras diretas aos descendentes de pessoas escravizadas. O governo holandês criou, em vez disso, um fundo de 230 milhões de dólares para "iniciativas e projetos sociais para lidar com o legado da escravatura".

"O mais importante a compreender é que ninguém está a tentar mudar o passado, mas sim a lidar com as suas consequências no presente", explicou a Dra. Celeste Martinez, investigadora especializada em colonialismo espanhol em África.

"Os legados da escravatura ainda persistem hoje sob a forma de racismo e desigualdade. Reconhecer o passado é crucial se queremos sociedades mais justas e democráticas."

sábado, 28 de março de 2026

'Crime mais grave contra a humanidade': o que significa a resolução da ONU sobre a escravatura e o que pode mudar?


Decisão tem peso simbólico, mas reforça o debate global sobre reparações, memória e responsabilidades históricas

A decisão da Assembleia Geral da ONU de classificar o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas como “o crime mais grave contra a humanidade” amplia o reconhecimento internacional sobre a gravidade do sistema escravagista e os seus efeitos duradouros. Embora não tenha caráter vinculativo — ou seja, não obriga os países a adotar medidas concretas —, a resolução é vista como um marco político que pode fortalecer as pressões por reparações e por medidas de reconhecimento histórico.

A formulação destaca o tráfico de africanos entre os séculos XV e XIX, período em que entre 12 e 15 milhões de pessoas foram levadas à força para as Américas, registando-se cerca de 2 milhões de mortes durante a travessia.

Para o secretário-geral António Guterres, o sistema foi “construído sobre vidas roubadas e trabalho roubado” e constituía “uma máquina de exploração em massa e de desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças”.

Reconhecimento político e efeitos práticos
Na prática, a resolução não obriga os países a adotar medidas concretas, mas eleva o estatuto do tema dentro das Nações Unidas.

“Já é um passo enorme e significativo em termos políticos ter este debate na ONU, mesmo que tenha um valor mais simbólico”, afirmou Almaz Teffera, investigadora sénior sobre racismo na Human Rights Watch, à BBC.

Especialistas apontam que o principal efeito pode ser o fortalecimento das exigências de reparações, que incluem:
  1. Compensações financeiras;
  2. Pedidos formais de desculpa;
  3. Criação de fundos;
  4. Investimentos em educação.
Para a líder do Fórum Africano da Diáspora, Erieka Bennett, o reconhecimento tem um impacto emocional direto:
“Isto significa que eu sou reconhecida, significa que o meu ancestral finalmente descansa. Para mim, pessoalmente, como afro-americana, estou emocionada. Até que faça parte do que aconteceu, é muito difícil entender o que isso realmente significa.”

A resistência e os valores em debate
O tema enfrenta resistência de países como os Estados Unidos e o Reino Unido, que rejeitam reparações financeiras diretas. O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, David Lammy, afirmou que “não se trata de transferência de dinheiro”. Entre os argumentos contrários estão a dificuldade de responsabilizar as gerações atuais e de identificar os descendentes diretos.

Os valores em discussão variam amplamente. As estimativas citadas incluem:
  • Pelo menos 33 biliões de dólares, em propostas associadas à Caricom;
  • Até 107 biliões de dólares, segundo Patrick Robinson.
Para o analista jurídico Luke Moffett, “legalmente, é uma montanha enorme que não pode ser escalada".
“Mas isso não significa que as partes envolvidas não devam sentar-se e negociar. As pessoas, no entanto, não devem esperar biliões de dólares. Também é provável que estas discussões levem décadas para chegar a algum tipo de acordo”, explica.

Além do dinheiro
Há uma crescente ênfase em medidas não financeiras. Segundo a representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), Sara Hamood, o aspeto financeiro é "apenas uma parte".
“Temos dito repetidamente que nenhum país enfrentou plenamente o legado da escravatura ou contabilizou de forma abrangente os seus impactos na vida das pessoas de ascendência africana. Pedidos formais de desculpa, o esclarecimento da verdade e a educação fazem parte de um amplo conjunto de medidas”, afirma.

Para os defensores, a resolução é um avanço, mas ainda insuficiente. A académica e ativista Esther Xosei duvida que a votação da ONU, por si só, tenha efeitos reais:
“É uma boa vitória [para o movimento por reparações], mas lembremo-nos de que isto é apenas uma declaração de intenções. Os corações e as mentes não serão conquistados na ONU. A verdadeira batalha será travada nas ruas, onde as pessoas ainda estão desinformadas sobre a história da escravatura e os seus efeitos duradouros na vida dos africanos e dos seus descendentes.”

A classificação também gerou críticas. Para o vice-embaixador dos EUA na ONU, Dan Negrea, há um equívoco em hierarquizar os crimes contra a humanidade:
“A afirmação de que alguns crimes contra a humanidade são menos graves do que outros diminui objetivamente o sofrimento de inúmeras vítimas e sobreviventes de outras atrocidades ao longo da história”, explica.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

A Inteligência Artificial é o maior engodo. Está à vista de todos.


Se eu tivesse sido aluna com power points, IA, tinha fugido - podiam ter tentado medicar-me com ritalina, e aí talvez eu ficasse quieta, dopada. A única coisa que vale a pena nas aulas não é aprender a usar uma tecnologia (ou aprender a mentir sobre ela). É a paixão do conhecimento, é saber que algo era óbvio e afinal é irrelevante, que comichão se dá na barriga a essa hora, ou quando estávamos plenamente convencidos de um argumento e ele se demonstra muito mais complexo, é a ousadia de pensar algo que nunca foi pensado, é pensar juntos, que invenção, senhores, uma aula é uma relação colectiva. Face a face, em diálogo, não a olhar para um quadro, ecrã, é em relação, olhar a olhar, grande parte de uma aula, recorda Dejours, está no corpo, no olhar surpreso dos alunos, entusiasmado do professor, na postura inquieta dos colegas, tudo isso são sinais de sublimação (prazer, sim prazer hoje está associado ao sexo, mas prazer deve estar associado ao trabalho, desejo, desejo de saber mais, desejo de ensinar mais, desejo de criar depois de falhar, errar). Por isso as aulas em U são maravilhosas. Parem de nos enfiar pela goela abaixo - através da imposição de governos - o lucro do Zuckerberg. 

As Plataformas foi a saída da Banca para a crise de 2008 e está a ser a saída prestes a rebentar numa bolha bancária mais apocalíptica. Entretanto, serviu para nos colocar a todos horas por dia a alimentar a IA, exaustos, como o nome de "modernização digital", impedindo-nos de ter serviços públicos. Tudo financiado com impostos nossos nos "fundos europeus" que são impostos nossos.  Nada funciona, estamos exaustos, e o grosso da IA serve para uma coisa - indústria militar. É aí a sua mais eficaz aplicação. Estamos em coma, sem ver o óbvio. Na educação atingiu-se o ponto mais baixo de sempre - a mentira, o plágio, estamos a caucionar como docentes a legitimação da mentira social. Estamos a ensinar a mentir como um acto "normal".

Serviu para nos colocar em situação patéticas online, sem conseguir ser atendido, na educação é a completa catástrofe,  na saúde os erros do algoritmo acumulam-se, recolhemos testemunhos de enfermeiras da saúde 24 que dizem "o resultado do telefonema é um algoritmo errado, nós sabemos porque estamos a falar com o doentes, mas temos x tempo e o algoritmo dá uma conclusão errada e ficamos ali, o que fazer?". Os médicos estão em sofrimento ético, cúmplices com estas práticas. Há robot maravilhosos a fazer cirurgias mas as maternidades fecham, com o financiamento a robots... Uma loucura! Há aeroportos bloqueados, serviços que colapsam. 

E milhões de pessoas todos os dias obrigadas a alimentar estas plataformas, com a cumplicidade de directores "amigos", capatazes de serviço, que obrigam a que professores, médicos, enfermeiros, dentistas, advogados, jornalistas, designs, arquitetos, passem horas a alimentar com dados gratuitos a sua própria forca. Mais - as plataformas obrigam a que façamos erros, porque elas erram e porque é exaustivo, e esses erros são usados contra quem trabalha como ameaça pelos direcções.  A IA, que tem meia dúzia de donos, trilionários, visa substituir o trabalho humano com garantias de qualidade zero ou perto disso - nada pode substituir  o trabalho real, o engenho, a relação presencial, nem pelo trabalho em si, nem pelas pessoas, que se realizam no trabalho. O que se está a fazer é escravizar milhões. 

A vida tornou- se um inferno, pós-covid. Passamos uma parte esmagadora do nosso dia a fazer tarefas inúteis que consistem em alimentar de dados as plataformas. A subir aulas online já prontas, a dar dados de alunos com avaliações, sumários detalhados, a colocar os trabalhos em detectores de plágio (como se fossemos polícias, e como se não soubéssemos quando eles copiam, mentem ou não sabem).
Já houve colapsos em aeroportos, programação, o ChatGPT acabou de contratar uma equipa de criativos para vender a IA porque a IA não consegue fazer nada critativo.  Trump, cujo apoio vem dos donos da IA e Plataformas, colocou esta semana um vídeo de IA a distribuir merda sobre os mais de 13 milhões de manifestantes. É este o estado a que chegámos. 

Chamam-nos objectores de consciência. Quando eu peço a alunos para ler e escrever um ensaio, há 20 anos que o faço, sem qualquer IA, eu não estou a pedir que ele saiba, estou a fazer com que ele aprenda. Aprenda errando, falhando, juntos. Eu não estou a dar-lhe "competências" mas conhecimento.  Ao fazer o ensaio ele vai-se deparar com a estrutura, como identificar  o tema, o problema, como estruturar argumentos, como corrigir gralhas, como escolher um título, tudo isso é conhecimento que passa de mim para ele, e dele para mim porque é uma relação de ensino-aprendizagem. 

Os donos da IA têm os filhos em escolas sem IA. 

O que se está a fazer com os filhos de quem trabalha, com o dinheiro de quem trabalha, é um gigante processo de expropriação de conhecimento dos filhos de quem trabalha. Da mesma forma que não sabem pregar um prego, andar sem GPS, não saberão pensar, escrever, dialogar, criticar. E por isso não saberão relacionar-se, a violência no namoro não se resolve com uma missa de um power Point sobre respeito, resolve-se nas relações reais de cooperação. Deixo uma nota de optimismo, nas minhas aulas, há quase 20 anos, só avalio por ensaios, escritos e debate oral em seminário, e tenho quase zero de absentismo. Os alunos estão a fugir das aulas power-point. E os professores estão fartos. Só falta organizar esta gente toda para resistir a este colapso ético, e em breve, bolha sistémica. Lê-se copos dos milhões de lucros dos donos destas plataformas, que sugam recursos públicos recorrendo à pilhagem generalizada de direitos de autor. E à nossa exaustão. São ladrões, de facto.

O texto do Dejours chama-se O Teletrabalho à Luz do Corpo está no novo livro do nosso Observatório para as Condições de Vida - OCV Trabalhar e Viver no Século XXI (Humus)

domingo, 28 de setembro de 2025

Colonialismo Verde - transição energética enriquece bilionários e devasta países do Sul, segundo a Oxfam


Os minerais para a transição energética, extraídos no Sul Global, estão a ser monopolizados pelos ultra-ricos do Ocidente, denuncia a Oxfam num relatório. Esta prática reforça padrões coloniais destrutivos.

Libertar os hidrocarbonetos do nosso quotidiano e voltar a nossa atenção para as energias renováveis. Este é o objectivo da transição energética, defendido e incentivado durante muitos anos em resposta à crise climática. No entanto, para promover esta transformação do sistema, são necessários minerais — lítio, cobalto, níquel e cobre —. E embora 70% deles se encontrem no subsolo do Sul Global, grande parte dos lucros acaba nos bolsos do 1% mais rico.

A 24 de setembro, a Oxfam divulgou um relatório que esclarece o funcionamento interno deste poderoso negócio. Segundo a ONG, os ultra-ricos — indivíduos, empresas e governos — estão a apropriar-se da transição em detrimento das comunidades de baixo rendimento. Não se trata de abandonar a lógica capitalista ou de questionar o consumo excessivo de energia. Também não se trata de imaginar uma partilha adequada dos lucros obtidos com os povos locais, que suportam o peso das repercussões nefastas da exploração mineira.

"Estes projetos envolvem frequentemente violência, trabalho forçado e danos ambientais."
Nesta corrida frenética aos minerais, os países do Sul Global estão a ver os seus recursos serem roubados e as suas terras confiscadas por multinacionais. "Estes projetos envolvem frequentemente violência, trabalho forçado e danos ambientais, e são implementados sem o consentimento das comunidades que vivem nos países em questão", escrevem os autores. Acrescentam: "Por outras palavras, a dinâmica que deu origem ao colonialismo histórico está a ressurgir em novas formas com a transição ecológica."

De acordo com o estudo da Oxfam, 60% dos territórios reconhecidos como terras indígenas estão ameaçados por projetos relacionados com a transição energética. Isto equivale à área total do Brasil, dos Estados Unidos e da Índia ou o dobro do tamanho do império colonial francês no seu auge. "Sem uma reforma urgente para proteger os direitos e os territórios, a transição apenas reforçará os padrões de mais de 500 anos de colonialismo energético, escravatura e exploração de biomassa na era do carvão e do petróleo", lamenta a Oxfam.

Tesla, a personificação do colonialismo verde
Uma alavanca fundamental na descarbonização do sector dos transportes, a conversão das frotas de veículos ocidentais para a energia eléctrica é uma clara ilustração deste desequilíbrio. Por um lado, as comunidades suportam os custos desta transição. Por outro, um bilionário vê o seu portefólio impulsionado pela crise climática.

Em 2024, a Tesla, propriedade do homem mais rico do mundo, Elon Musk, registou 5,63 mil milhões de dólares em lucros com a venda destes veículos elétricos. Ao mesmo tempo, a República Democrática do Congo recebeu apenas 17,5 milhões de dólares em royalties pelas enormes quantidades de minerais fornecidas para construir cada um destes automóveis — 3 quilogramas de cobalto por veículo.

A diferença é ainda mais abismal entre a fortuna do oligarca e o salário de uma pessoa que trabalha nas minas, estimado em 7 dólares por dia: "[Isto] significa que ele levaria quase dois anos a ganhar o que a Tesla ganha com um único carro", observam os autores.

França também envolvida
Elon Musk, que fez a saudação nazi no início deste ano, não é o único a lucrar à custa do Sul Global. A multinacional francesa TotalEnergies também utiliza esta estratégia. Em 2024, a sua subsidiária maioritária, a TE H2, lançou um projeto denominado Chbika em Marrocos. O objetivo? Desenvolver um gigawatt de capacidade solar e eólica onshore para alimentar a produção — através da eletrólise da água do mar dessalinizada — de hidrogénio verde, posteriormente transformado em amoníaco verde destinado ao mercado europeu.

Embora o conceito possa parecer obscuro, a intenção final é simples: fornecer à União Europeia recursos renováveis. Este visa atingir os objectivos definidos pelo plano REPowerUE, que visa reduzir a sua dependência dos combustíveis fósseis russos até 2027. Ou seja, Marrocos — bem como outros países do Sul Global, que detêm 70% do potencial eólico e solar do mundo — está excluído da transição devido à falta de financiamento acessível.

Mecanismos Financeiros Coloniais
"A arquitectura financeira internacional é [além disso] igualmente desequilibrada, uma vez que, moldada por séculos de poder colonial, continua a aprisionar os países de baixo rendimento numa dependência estrutural", refere o relatório. Quando um país rico investe num projecto de energia limpa, beneficia de taxas de juro de 3 a 6%. Por outro lado, quando o cliente é um país do Sul, os bancos inflacionam estas taxas para 13,5%. Por outras palavras, fornecer energia limpa a 100.000 pessoas custa 95 milhões de dólares ao Reino Unido mas 188 milhões de dólares à Nigéria. Esta diferença de tratamento justifica-se por uma percepção distorcida do risco, afirma o relatório, moldada por décadas de estereótipos negativos.

Os dados estão também viciados pela espiral da dívida em que as elites poderosas mergulharam os mais vulneráveis. "Os países ditos 'em desenvolvimento' têm uma dívida externa de 11,7 biliões de dólares, mais de 30 vezes o custo estimado para garantir o acesso universal à energia limpa até 2030", alerta a Oxfam. Esta espada de Dâmocles é um enorme obstáculo à sua transição energética.

Uma única estatística basta para demonstrar o absurdo da situação: 14% da energia consumida pelo 1% mais rico do planeta poderia satisfazer as necessidades energéticas básicas de todos aqueles sem electricidade. A grande maioria destas pessoas vive na África Subsariana. No entanto, em 2024, o continente terá captado apenas 2% do investimento global em energia limpa. Uma triste ironia que a Oxfam esteja a pedir o fim.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

As vaqueiras negras


Quando pensamos no Velho Oeste, costumamos imaginar cowboys brancos, duelos ao amanhecer e cavalos a galope.
Mas há uma história menos contada... e profundamente inspiradora.
As vaqueiras negras tiveram um papel crucial na formação do Oeste americano.
Muitas eram filhas de pessoas que haviam sido escravizadas, e num mundo que lhes oferecia pouco ou nada, eles forjaram o seu caminho com força, coragem e trabalho incansável.
Essas mulheres não estavam apenas montando a cavalo com destreza. Eles também arrebentaram gado, marcaram gado, consertaram cercas, participaram de rodeios e faziam tudo o que se esperava de um cowboy... e mais.
Uma delas foi Mary Fields, apelidado de "Mary la Diligence", que se tornou lenda por ser a primeira mulher afro-americana a trabalhar como motorista de diligências em Montana. Marinha, determinada e imparável, Mary quebrou barreiras em uma profissão dominada por homens.
As vaqueiras negras construíram comunidades, cuidaram da terra e deixaram uma marca indelével na cultura pecuária do Oeste. Seu legado hoje é reconhecido como uma parte vital tanto da história afro-americana como da história dos EUA.
Embora durante décadas tenham sido invisibilizadas, sua coragem e espírito pioneiro continuam cavalgando na memória daqueles que lutam por uma história mais completa e justa.

Saber mais:

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O discurso de Lídia Jorge na íntegra – a mensagem do 10 de Junho que será recordada


Contra a possibilidade de loucos atingirem o poder e contra "a fúria revisionista que assalta pelos extremos", a escritora e conselheira de Estado Lídia Jorge dedicou o discurso que proferiu no âmbito das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas a uma condenação do racismo, da escravatura e da cultura da mediocridade. Para ler aqui na íntegra

Lídia Jorge, conselheira de Estado falava enquanto presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho, em Lagos, num discurso que antecedeu o do chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa.

Na sua intervenção, com cerca de 30 minutos, citou Shakespeare, Camões e Cervantes, “três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência”.

O discurso na íntegra

“Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico.

Mas, em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.

Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade e, muitas vezes, é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto.

Há a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra.

A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem.

O país retribui-lhes, reconhecendo, desde há muito, que as comunidades portuguesas são o corpo essencial do nosso ser identitário.

Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar, porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado, foi cidade anfitriã em 1996.

Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera.

O que mudou e o que justifica que, de novo, tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos.

É sabido que Lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres.

A escassos 40 quilómetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação.

A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos 90 permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por Terras do Infante.

Era a altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade vencedora e de apoiar estas celebrações de importância ou de interesse cultural.

Mas há outro motivo para que, este ano, a celebração deste dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a invocar o nascimento de Camões, ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu.

Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Beethoven: Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu.

Provam-no a forma como, passados cinco séculos, tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior.

Novos autores têm surgido, atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões.

O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa moderna que hoje usamos.

Demonstrou como a língua portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do Oceano, como lhe chamou Baltasar Estaço.

Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal, não são lendas, são verdades.

O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim, não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índio redigiu na margem de um exemplar d’Os Lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade: Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa sem tener uma sábana com que cobrisse, despues de haver navegado 5.500 léguas per mar.

Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana, já depois de morto.

Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e seu mistério, isso, talvez.

Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi.

Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que, se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda.

Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões, como se fossem filos modernos, feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.

Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em “Sôbolos rios que vão”, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos, escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender que os tempos duros que atravessamos têm conformidade com os tempos em que o próprio viveu.

Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo e, sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das 1.102 oitavas que compõem Os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então.

Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império.

E nesse campo pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.

É bom lembrar que, entre os séculos XVI e XVII, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos e, no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas.

Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias: sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista.

No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral, mencionava “o vil interesse e sede imiga/Do dinheiro, que a tudo nos obriga”, e evocava, entre os vários aspetos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado um mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer cultura. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual, que resultava depois, na prática, na degradação dos atos do dia a dia.

Escreve o poeta no final do canto oitavo: “Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências./ Este interpreta mais que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis”.

Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram.

Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque.

Os três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência.

Escreveu Shakespeare no ato IV do Rei Lear: “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”.

Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de La Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido.

Por seu lado, Camões, no corpo d’Os Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas, em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto X. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura.

No entanto, o fim do ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa.

Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global. Porque nós, agora, somos outros.

Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço.

Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas.

É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos.

Sobre estes areais, aconteceram momentos decisivos para o mundo.

No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com o achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira e a lenda coloca-o a meditar em Sagres.

Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu: “Ali vimos a veemência do visível/ o aparecer total exposto inteiro/ e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ era o verdadeiro”.

Esta ideia de que, na mente do Infante, se processou uma epifania, anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou, assim, para a história e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo.

Mas existe uma outra perspetiva, como é sabido, e hoje em dia o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.

É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade.

É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade.

O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade.

E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso.

Lagos, precisamente, oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico.

Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorso pelo facto de que se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, como polos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.

Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como, num dia de agosto de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia e como foram repartidos e por quem.

Alguém que, muito prezamos, encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio Infante D.Henrique.

Lagos não se furta a expor essa verdade histórica.

Lagos também mostra o local onde depois levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de Lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia Banta.

Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui,no dia de hoje.

Aliás, a UNESCO criou a Rota do Escravo e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura, para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sob os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos.

Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene: Homens não se matem uns aos outros.

É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 1444 porque o cronista do infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da “Crónica dos Feitos de Guiné” para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse.

Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.

O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença.

É uma luta nossa, contemporânea.

Em Lagos, hoje em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Kneebone, datado de 2014, que tem corrido mundo.

A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre, está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes.

O tripulante da grande embarcação pergunta: de onde vêm vocês? Da lancha, apinhada, alguém responde: vimos da terra.

Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar.

Consta que em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana.

Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos.

O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma.

Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.

A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte.

Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte.

A pergunta é esta: quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem-máquina, entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano?

Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.

Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha a poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial.

Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto I d’Os Lusíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos: “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno”.

Nestes versos, se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estóica contra, centrada na confiança em si mesmo.

Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido, a separá-lo da terra. Igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos.

Mas entretanto, no século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e, durante algumas décadas, foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.

O conceito de representatividade respeitável da figura do Chefe de Estado, oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida.

A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende.

Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: adoro-vos, adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram.

Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?

Nós, portugueses, não somos ricos. Somos pobres e injustos. Mas, ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criámos uma comunidade de países de língua portuguesa. E fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz.

Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas, perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.

Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi génio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia, de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.

Muito obrigada.”

domingo, 25 de maio de 2025

Eu fui escravo na Europa — com contrato assinado


Cheguei à Alemanha em 1996. Não era um clandestino, mas também não era um trabalhador plenamente legal. Trabalhava para uma empresa portuguesa com instalações na Alemanha. Os descontos eram feitos em Portugal, mas a minha vida — o meu corpo, o meu esforço, o meu dia-a-dia — ficava na Alemanha. Trabalhava aqui, pagava o custo de vida daqui, mas ganhava o ordenado de lá.
Resultado: vivia numa terra rica com o salário de uma terra pobre.
Tinha residência, mas não tinha direitos. Quando ficava doente, pagava do bolso. Não contribuía para a segurança social alemã, e, no fundo, era um trabalhador descartável. Estava legal o suficiente para produzir riqueza, mas ilegal demais para exigir dignidade.
Durante meses vivi esta realidade. Até que um italiano — sim, um imigrante como eu — me estendeu a mão e me ajudou a encontrar um emprego com contrato local. Foi então que consegui uma verdadeira autorização de residência. Foi então que comecei a ter direito à saúde, aos descontos, à dignidade. Foi então que deixei de ser escravo.
Sim, escravo.
Porque é isso que muitos trabalhadores estrangeiros são — hoje, na Europa do século XXI. Escravos modernos. Com contratos assinados, mas sem direitos. Com residência, mas sem cidadania plena. Com obrigações, mas sem proteção.
E essa realidade não é exclusiva da Alemanha. Em Portugal, a escravatura moderna também existe. Muitos imigrantes são explorados em setores como a agricultura, a construção civil ou o trabalho doméstico. Trabalham horas a fio, vivem em condições miseráveis, recebem salários de miséria e, ainda por cima, são vistos como o inimigo.
Porque a desinformação ensinou-nos a desconfiar dos fracos e a perdoar os fortes.
O pobre é acusado de sugar o sistema. O rico que desvia milhões é considerado “esperto”.
O imigrante que foge da fome é visto como ameaça. O corrupto que foge ao fisco é visto como empreendedor.
Vivemos num país onde mais de 20% dos eleitores votam em quem transforma o desespero em ódio, em quem aponta o dedo aos mais frágeis e diz: “a culpa é deles”. Não é. A culpa não é de quem tem fome. A culpa é de quem lucra com a fome dos outros.
Eu fui escravo na Europa. E por isso sei o que digo:
A verdadeira ameaça não vem de fora. A verdadeira ameaça veste fato, senta-se em gabinetes luxuosos, e continua a tratar seres humanos como se fossem peças descartáveis de uma máquina de fazer dinheiro.
Está na hora de abrirmos os olhos.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Os bilionários



Dou por mim, muitas vezes  pensar que quem manda nisto tudo é o poder do dinheiro e que os governos, eles próprios, são dominados por esse poder. Já aqui escrevi que o poder do feiticeiro reside na ignorância dos seus irmãos tribais. 
O texto atribuído ao grande divulgador Cal Sagan que se transcreve acima diz, por palavras sábias, esta minha convicção.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Racismo Ambiental e Justiça Ambiental

Ainda na sequência desta postagem estive num Congresso bem há pouco tempo, em Londres onde actualizamos as informações disponíveis em relação à Justiça Ambiental. Há muito por fazer. Em muitos Países da Europa se verifica imigração com indícios de racismo, sobretudo a Hungria e agora o Reino Unido que estão a tentar resolver o problema da imigração expulsando ruandeses. A imigração não está descontrolada. Quem está desregulada e com consequências graves, é a banca, que atinge sucessivamente vários recordes de lucros.
Numa conversa amena ao almoço, falamos de um tema "Strange Fruit". Cantado inicialmente por Billie Holiday em 1939, conhecia a versão da Nina Simone e disseram-me que  há uma versão muito humana por parte de Annie Lenox.
Oiçam bem:

Considerando as imagens vívidas e a metáfora sustentada da música “Strange Fruit”, não deveria ser surpresa que ela tenha começado como um poema. Foi escrito por Abel Meeropol (1903-1986), professor, poeta e compositor, que publicou sob o nome de Lewis Allan.

A canção aborda as questões raciais nos EUA e pela primeira vez faz um relato de Racismo Ambiental.

O racismo ambiental é um termo utilizado para se referir ao processo de discriminação que populações periferizadas ou compostas de minorias étnicas sofrem através da degradação ambiental. A expressão denuncia que a distribuição dos impactos ambientais não se dá de forma igual entre a população, sendo a parcela marginalizada e historicamente invisibilizada a mais afetada pela poluição e degradação ambiental.

Atualmente, a falta de investimento em regiões sem saneamento básico, o despejo de resíduos nocivos à saúde em regiões de vulnerabilidade social, a grilagem e a exploração de terras pertencentes a povos originários são exemplos da manifestação do racismo ambiental.

domingo, 5 de maio de 2024

Acerca do Grupo racista armado que invadiu casa e agrediu imigrantes no Porto



Os pides e os filhos da pide que agora se acolitam nos partidos de extrema-direita, nunca foram "fofinhos" como alguns os querem apresentar.
Foram sempre violentos psicopatas e boçais energúmenos, torcionários e assassinos.
Os últimos acontecimentos registados no Porto, juntam-se aos assassinatos de Giovani Rodrigues em Bragança, de Ademir Araújo Moreno no Faial, de Gurpreet Singh em Setúbal, de José Carvalho, Alcindo Monteiro e Bruno Candé em Lisboa entre outros, aos raids anti imigração em várias cidades do país, às agressões a jovens estrangeiros durante a visita papal, aos incêndios de habitações com morte em Lisboa, às agressões em Olhão, à lucrativa escravatura aterrorizadora em explorações agrícolas alentejanas, às ameaças de boicote aos eventos e manifestações comemorativas do 8 de Março, do 25 de Abril e do 1º de Maio e às milhares de queixas apresentadas à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR).
A captura de um manipulador assassino nazi, as agressões bárbaras no Porto por parte de grupo de terroristas fascistas a imigrantes e o desplante com que estes últimos se dirigiram à esquadra da PSP para pedir explicações sobre um dos seus membros que entretanto tinha sido detido, mostram como estes biltres se movimentam, organizam e actuam à vontade até nas barbas das autoridades.
Não é de estranhar este à vontade quando estes criminosos xenófobos se poderão até sentir legitimados por discursos anti-imigração com ares de institucionais como os mais recentes de Ventura ou Passos Coelho.
Estas actuações demonstram ser necessário um maior combate às ideologias de ódio e mais investigação, prevenção e repressão sobre estas organizações, e imperiosa a aplicação de condenações exemplares a estes vis patifes.

Música do BioTerra
Palestra

Referências

1. «O jovem preparava tudo através da internet, na plataforma Discord, onde criou uma espécie de comunidade que instigava outros jovens a matar e ainda à "automutilação grave de jovens, mutilação e morte de animais e difusão de propaganda extremista nazi"» 



quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Filme - "Quilombo" de Cacá Diegues (1984)


O Quilombo dos Palmares foi uma sociedade democrática da vida real, criada no Brasil no século XVII. Ela foi fundada por escravos fugitivos, que resistiram à intervenção portuguesa por quase cem anos. 

Este filme traça as origens do Quilombo, que começou como uma comunidade de escravos libertos. 

A colónia se torna um porto seguro para outros párias do mundo, incluindo indígenas e judeus. Ganga Zumba (Toni Tornado) torna-se líder do Quilombo, o primeiro livremente eleito no Hemisfério Ocidental. 

Naturalmente, os governantes portugueses querem subjugar Zumba e os seus seguidores, mas os quilombolas estão prontos para seus pretensos opressores. 

O fim deste Admirável Mundo Novo não é nada agradável, mas os seguidores de Zumba e dos seus ideais vão para as serras, onde até hoje honram a sua memória. 

O roteirista/diretor Carlos Diegues aproveita todas as oportunidades disponíveis para comparar a ascensão e queda do Quilombo com a situação "atual" no Brasil. Ele trata seu tema épico com bastante surrealidade e ênfase na caracterização polifónica que fará os espectadores se lembrarem de filmes como Aguirre, Ira de Deus e Filhas do Pó. 

Ele pegou uma história incrível e não estragou, é um filme de cores sobre a resistência à escravidão no qual aprecia-se ecos do movimento Cinema Novo reverberando em algumas cenas. Embora às vezes quase enlouquecedoramente opaco, no final, uma pungência total é alcançada.

Quilombo de certa forma é um filme com um visual muito à frente do tempo para a época em que foi lançado, a forma como tratavam o candomblé e principalmente os orixás em muitas cenas nessa obra fora do convencional.

A trilha sonora matadora sem preenchimento nos faz ficar com vontade de lutar contra proprietários de fábricas opressores. A trilha sonora cumpre o papel graças ao grande Gilberto Gil.

Um espetáculo plástico com grande elenco e bons momentos. Tony Tornado e Zezé Mota roubam a cena. Além de Grande Otelo em participação pequena.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Guerreiras Negras - Aqualtune


Aqualtane, Princesa Africana da região do Congo da família Kinlaza, foi  aprisionada após um conflito entre o Reino do Congo e  Portugal onde liderava um exército de 10 mil homens, traficada como escrava para o Brasil, foge para o quilombo e se torna uma das líderes. Mãe de Ganga Zumba e avó de Zumbi dos Palmares, grandes líderes quilombolas. Graças aos seus conhecimentos organizacionais e na arte da guerra, foi altamente relevante para a consolidação da República de Palmares.
Política, líder religiosa, social e comunitária, luta pelos direitos humanos.