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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O Caso de Souto de Moura nos Açores: Sustentabilidade e Habitação Social em Destaque

Mofo

O Dia Nacional da Sustentabilidade, instituído pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 56/2023, de 9 de junho, assinala-se a 25 de setembro, coincidindo com a data de adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pelas Nações Unidas. Esta efeméride reforça que o caminho para um país mais sustentável exige uma abordagem holística sobre as dimensões ambiental, social e económica, garantindo um envolvimento inclusivo e participativo de toda a sociedade para «não deixar ninguém para trás».

É precisamente nesta interseção entre as políticas públicas de sustentabilidade e a sua aplicação prática que ganha relevância a análise de casos concretos, como o do loteamento de habitação social nas Sete Cidades, em São Miguel (Açores), projetado pelo arquiteto Eduardo Souto de Moura em coautoria com Adriano Pimenta. Concluído por volta de 2010, este conjunto habitacional oferece uma oportunidade para avaliar, no longo prazo, se os princípios teóricos da sustentabilidade se traduziram em qualidade de vida duradoura para a comunidade.

Confrontando as três dimensões basilares promovidas no âmbito das comemorações do Dia Nacional da Sustentabilidade com a realidade deste projeto público, destacam-se os seguintes pontos de reflexão:

1.Sustentabilidade ambiental e adequação climática: embora o projeto procure reinterpretar a volumetria tradicional das habitações açorianas, a opção pelo betão visto como material predominantemente exposto revelou-se problemática perante a humidade extrema e a pluviosidade do microclima das Sete Cidades. A colonização biológica da fachada exterior (líquenes e fungos) e as elevadas exigências de ventilação para controlar a humidade ambiente demonstram que a sustentabilidade exige o respeito pelos materiais e pelas técnicas construtivas locais.   

2. Sustentabilidade económica e custo de vida: a habitação de cariz social destina-se a populações com recursos limitados. Quando o desempenho térmico e a gestão da humidade de uma solução arquitetónica obrigam a consumos contínuos de eletricidade (através do uso frequente de desumidificadores e aquecedores) ou exigem manutenções exteriores constantes, o encargo financeiro sobre os residentes e a administração pública torna-se elevado, contrariando o princípio da eficiência no ciclo de vida do edifício.

3. Sustentabilidade social e aceitação comunitária: a relação dos moradores com as habitações foi marcada por críticas quanto à funcionalidade do espaço interno e ao conforto habitacional. O caso evidencia a importância do planeamento participativo e da escuta ativa das comunidades locais, garantindo que o desenho arquitetónico responde às reais necessidades quotidianas dos utilizadores.

A análise deste conjunto habitacional com mais de uma década de vivência oferece uma reflexão crítica sobre a necessidade de alinhar a arquitetura contemporânea com a arquitetura vernácula, demonstrando que a verdadeira sustentabilidade depende da durabilidade, da funcionalidade e da dignidade proporcionadas a quem habita o espaço.

Além disso, a questão da eficiência energética e do conforto térmico é, de facto, uma das fragilidades mais apontadas a este projeto de habitação social. A escolha do betão visto como material predominantemente exposto traz desafios acrescidos no microclima extremamente húmido, frio e chuvoso da cratera das Sete Cidades. Sendo um material de elevada inércia térmica e reduzida permeabilidade ao vapor de água, o betão exige um esforço acrescido de aquecimento e ventilação para que as superfícies interiores atinjam uma temperatura de conforto e evitem o ponto de orvalho, resultando na necessidade frequente de recorrer a equipamentos elétricos.   Por sua vez, este consumo elétrico continuado traduz-se num elevado encargo financeiro para as famílias, o que anula o próprio propósito de uma habitação de custos controlados. A conjugação entre a insuficiência dos sistemas de ventilação mecânica para a libertação do vapor de água quotidiano, a elevada humidade do microclima local e o comportamento higrotérmico do betão gera condensações internas, o aparecimento de fungos e um ambiente interior bastante desconfortável. Este cenário evidencia o desfasamento entre o desenho conceptual e os padrões reais de habitabilidade e sustentabilidade, mesmo num edifício cujo projeto cumpre formalmente os requisitos do certificado energético (com classificação estimada de nível B).  

No que concerne às proeminentes "torres" de betão - que constituem o prolongamento vertical dos corpos dos fornos e chaminés exteriores -, estas foram igualmente alvo de fortes críticas e estranheza por parte da comunidade e dos residentes. Do ponto de vista estético e formal, a escala monumental e austera destas chaminés em betão cru contrasta vivamente com as delicadas chaminés e fornos da arquitetura tradicional micaelense, habitualmente caiados de branco e de proporções mais modestas. Esta linguagem visual agressiva levou a que a população local percepcionasse estas estruturas não como um tributo à memória construtiva dos Açores, mas antes como uma imposição industrial e descaracterizadora.   Paralelamente, no plano funcional e do conforto quotidiano, a opção por chaminés de tal envergadura acopladas à fachada gerou sérios constrangimentos. A exposição contínua destas elevadas massas de betão ao vento rigoroso e à chuva constante das Sete Cidades favorece o arrefecimento das superfícies e potencia fragilidades na estanquidade e nas juntas de ligação às habitações, criando zonas propícias a infiltrações e condensações. Além disso, a altura e a geometria destas estruturas tornaram as tarefas habituais de limpeza, manutenção e controlo da tiragem da salamandra bastante mais complexas para os moradores. Deste modo, o elemento que no projeto representava uma reinterpretação poética do forno açoriano acabou por ser vivenciado no dia a dia como uma solução sobredimensionada e pouco prática.  

 [Fases do projecto aqui]

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Matemático diz ter usado modelo de IA para refutar problema matemático com 87 anos


Um matemático da Universidade de Harvard afirma ter utilizado um sistema de inteligência artificial da Anthropic para encontrar um contraexemplo à Conjetura Jacobiana, um dos mais antigos problemas em aberto da geometria algébrica. Se o resultado for confirmado pela comunidade científica, poderá pôr fim a um desafio matemático que resistia desde 1939.

O matemático Levent Alpöge anunciou, na noite de domingo, na rede social X, que utilizou o Fable 5, um modelo de IA da Anthropic, para refutar a Conjetura Jacobiana.

Conjetura Jacobiana, o que é?
A Conjetura Jacobiana foi proposta por Ott-Heinrich Keller, em 1939, e afirma que, se uma função polinomial tem um determinante jacobiano que é uma constante diferente de zero (ou seja, o volume e a orientação em torno de cada ponto são perfeitamente preservados), então essa função possui uma função inversa que também é polinomial.

A Conjetura Jacobiana é um dos problemas em aberto mais conhecidos da geometria algébrica e desafia matemáticos há 87 anos. O problema foi incluído nos "Problemas de Smale", uma lista de problemas matemáticos por resolver apresentada pelo matemático Stephen Smale em 1998.

Fable 5 e a alegada refutação da conjetura
Apesar de este problema ter uma história de mais de oito décadas, para o sistema de inteligência artificial avançada Fable 5 não terá sido um obstáculo. Levent Alpöge afirmou, na rede social X, que a Conjetura Jacobiana é, na verdade, falsa, apresentando como prova um pequeno contraexemplo gerado pelo sistema de IA, com apenas 216 caracteres, segundo a New Scientist. O matemático não revelou como o modelo produziu esse contraexemplo.

O Fable 5 é o modelo mais recente de IA da Anthropic. A empresa disponibilizou anteriormente uma versão de demonstração, designada Claude Mythos Preview, mas afirma que as capacidades de cibersegurança do modelo são demasiado avançadas para permitir o seu lançamento para utilização pública.

Descoberta do Fable 5 é um avanço na IA ou na Matemática?
Em declarações ao Mashable, o professor e matemático Andrew Blumberg afirmou: “Isto não alterou as minhas expectativas sobre o que a IA pode ou não fazer.”

Acrescentou: “É exatamente o tipo de coisa que eu esperaria que a IA fosse capaz de fazer. Se existisse um contraexemplo conciso e fácil de formular que as pessoas ainda não tivessem encontrado porque é complicado explorar todas as possibilidades, a IA acabaria por encontrá-lo.”

O professor de Matemática e Ciência da Computação da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, participa no projeto First Proof, uma iniciativa que procura testar as capacidades dos modelos de linguagem de grande escala na resolução de problemas matemáticos de investigação.

"Queremos aprender alguma coisa com a resposta", afirmou.

Apresentar um contraexemplo à Conjetura Jacobiana continua a ser uma conquista significativa para a inteligência artificial na matemática, observa Blumberg. No entanto, considera que existe uma grande diferença entre demonstrar um grande problema matemático e apresentar apenas um contraexemplo que o refute.

“Suponhamos que Moisés descia da montanha com as tábuas e nelas estava escrito: 'O cancro tem cura.' Ficaria satisfeito apenas com isso? Não basta ter a resposta. Queremos perceber porquê. E a razão pela qual Smale considerava este problema importante é que acreditava que, ao resolvê-lo, compreenderíamos melhor a forma como a natureza está estruturada.”

Por outras palavras, acrescenta Blumberg, “este contraexemplo não nos diz, essencialmente, nada. Mostra apenas que existem muitos polinómios e que é difícil para as pessoas verificá-los todos, mas não para as máquinas.”

A Conjetura Jacobiana não é o único problema matemático que a IA abordou nos últimos meses. A OpenAI anunciou, em maio, que um modelo interno tinha refutado a conjetura da distância unitária de Erdős, uma conjetura central da geometria discreta.

Nesse caso, porém, o resultado foi mais produtivo, considera Blumberg, porque a OpenAI não se limitou a apresentar um contraexemplo, mas uma refutação acompanhada de argumentos matemáticos que permitiram aos especialistas desenvolver novos trabalhos.

"A refutação já deu origem a coisas interessantes, porque os especialistas na área analisaram o que se passava na demonstração e depois utilizaram essas ideias para fazer outras coisas", afirmou.

O caso da Conjetura Jacobiana é diferente, embora Blumberg reconheça que não se considera especialista suficiente para avaliar "se existe algo de especial na estrutura deste contraexemplo com que possamos aprender". Ainda assim, conclui que, "por si só, não é particularmente interessante".

Levent Alpöge integra atualmente a Society of Fellows da Universidade de Harvard, um programa de pós-doutoramento destinado a investigadores promissores, que oferece três anos de liberdade académica sem avaliações formais. O seu perfil no LinkedIn indica também uma afiliação à Anthropic.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Eastgate Center: uma história de bioinspiração não muito verdadeira


No campo da biomimética, existem certas críticas sobre projetos baseados em visões superficiais da natureza e numa economia pretensamente verde, como aqui já foi referido.

Um desses projetos é um dos exemplos arquitetónicos mais famosos da biomimética: o edifício Eastgate Centre, localizado em Harare, Zimbabué, inaugurado em 1996.

O arquiteto Mick Pearce e a empresa Arup ter-se-ão inspirado parcialmente na estrutura das termiteiras locais para construir um edifício adequado a um clima tropical. Na África tropical, as térmitas da subfamília Macrotermitinae constroem ninhos enormes (até 9 metros) onde cultivam fungos em câmaras dentro do ninho.

No entanto, o projeto do edifício não se baseou totalmente no funcionamento real das termiteiras, como veremos adiante.

Modelos de regulação térmica das termiteiras
Na época em que Pearce projetou o edifício, existiam dois modelos propostos e aceitos para explicar a regulação térmica dentro das termiteiras: o modelo de fluxo termossifão e o modelo de fluxo induzido.

Fluxo termossifão: A ventilação é acionada pelo calor; o ar quente gerado pelo ninho sobe até ao topo da térmiteira onde, ao arrefecer, fica mais denso e é forçado para a região abaixo do ninho, repetindo o ciclo.

Fluxo induzido: Aplica-se às termiteiras que têm uma chaminé no topo, exposta a velocidades de vento mais elevadas do que as entradas ao nível do solo. Assim, o fluxo unidirecional atrai ar fresco junto ao solo para o ninho, passando pela chaminé e saindo para o exterior.

Projeto do edifício Eastgate Centre
Os arquitetos que projetaram o Eastgate Centre tentaram incorporar os princípios destes dois modelos. O edifício possui um extenso sistema de condutas dentro das paredes e pisos que movem o ar através da estrutura.

O calor gerado dentro do edifício, juntamente com o calor armazenado na estrutura, cria um efeito de termossifão que atrai o ar para cima. No telhado, localizam-se grandes chaminés, essenciais para criar o fluxo induzido.

No entanto, as histórias populares sobre o Eastgate Centre ignoram um detalhe importante: o edifício utiliza ventiladores de baixa capacidade durante o dia e de alta capacidade durante a noite para evitar a estagnação do ar. Assim, o ar quente acumulado durante o dia é substituído pelo ar fresco da noite. Isto funciona bem e evita o uso de ar condicionado caro, mas, escusado será dizer, nenhuma termiteira utiliza ventiladores.

Críticas ao projeto
O sistema de refrigeração permitiu uma poupança de 10% nos custos iniciais (ao não comprar sistemas de ar condicionado) e uma redução de 20% no preço dos alugueres em comparação com edifícios vizinhos.

Embora o objetivo prático tenha sido atingido, em termos de biomimética o projeto falhou, pois as térmiteiras não ventilam da forma que Mick Pearce pensava. Como escreveu a entomologista Marianne Alleyne:

“Se a biomimética e a bioinspiração desejam ser reconhecidas como áreas de estudo legítimas, é essencial que a ciência em que o campo se baseia seja sólida.”

Como as termiteiras realmente funcionam
Desde 1996, as suposições de Pearce foram refutadas pelos investigadores J. Scott Turner e Rupert C. Soar. Eles verificaram que, embora a temperatura interna varie menos que a externa, ela segue de perto a temperatura do solo circundante ao longo do ano.

O solo tem uma grande capacidade térmica, atuando como um "amortecedor" contra as variações diárias. A arquitetura e a ventilação têm pouco a ver com a temperatura interna, mas sim com a troca de gases. Ao fazerem moldes de gesso dos túneis, os investigadores descobriram que há pouca mistura entre o ar da superfície e o do ninho subterrâneo, propondo que a termiteira é, na verdade, um análogo funcional de um pulmão.

Metamateriais inspirados nas térmitas
Em 2023, David Andréen e Rupert Soar demonstraram que a geometria dos túneis pode otimizar o fluxo de ar e o controlo de humidade. Com base em digitalizações e experiências, criaram estruturas que podem ser integradas nas paredes de futuros edifícios, permitindo: circulação de ar otimizada por sensores; controlo térmico sem componentes mecânicos e consumo mínimo de energia.

Conclusão
As térmitas constroem paredes que interagem com o ambiente, trocando gases e energia em vez de criarem barreiras impenetráveis. Estas descobertas abrem caminho para edifícios com paredes porosas e sistemas de revestimento vivos, que farão parte da nossa "fisiologia estendida", tal como o ninho faz parte da colónia.

Referências:
  1. Termite-inspired metamaterials for flow-active building envelopes.
  2. Beyond biomimicry: What termites can tell us about realizing the living building.
  3. The termite mound: A not-quite-true popular bioinspiration story.
  4. How is the Eastgate Building NOT like a Termite Mound?

Além do erro biológico o Eastgate Centre levanta problemas de transição justa
O Eastgate Centre, em Harare, no  Zimbabwe, apontado como ícone arquitectónico de "inspiração na natureza" serviu apenas como um verniz ecológico para um edifício construído com materiais de elevado impacto ambiental, como o betão e o aço, e destinado a escritórios de luxo e comércio de elite. Enquanto o marketing celebrava a "sabedoria das térmitas", o projeto ignorou a justiça social: a energia que o edifício ainda consome provém de centrais a carvão poluentes e a tecnologia biomimética não é aplicada para melhorar a vida das populações mais pobres na periferia de Harare. Assim, o Eastgate torna-se um caso de estudo sobre como a biomimética pode ser cooptada para validar modelos de negócio tradicionais, focando-se na eficiência técnica para o capital em vez de numa regeneração ecológica e social profunda.

domingo, 15 de março de 2026

Biomimética - uma ciência amiga da sustentabilidade?



O pensamento base da biomimética é o Ecologically Sustainable Design (ESD)

"Does it run on sunlight? 
Does it use only the energy it needs? 
Does it fit form to function? 
Does it recycle everything? 
Does it reward cooperation? 
Does it bank on diversity? 
Does it utilize local expertise? 
Does it curb excess from within? 
Does it tap the power of limits? 
Is it beautiful?" 
(Benyus 1997:291)

Porém, com os avanços e progressos obtidos pela biomimética, ela ainda apresenta problemas em termos de economia circular e casos de lavagem verde.


O risco de Greenwashing ou Lavagem Verde
Muitas vezes, empresas utilizam a biomimética apenas para melhorar a performance (vender mais ou ser mais rápido) sem olhar para o impacto ambiental do ciclo de vida do produto. Se o objetivo for apenas lucro e extração, a biomimética torna-se apenas uma ferramenta de engenharia avançada ("genialidade da natureza") como uma estratégia de marketing para esconder um ciclo de produção poluente, extrativista ou socialmente injusto.

Exemplos:
1. A Pintura "Sharklet" da Airbus
A Airbus desenvolveu extremidades de asas (winglets) inspiradas na forma das barbatanas de tubarão para reduzir o arrasto e poupar combustível. Chamaram-lhes, apropriadamente, "Sharklets".
O marketing: a empresa promoveu estes dispositivos como uma "revolução verde" na aviação, destacando a redução de 4% nas emissões de CO2
O greenwashing: embora a melhoria técnica seja real, usar a imagem do tubarão e da natureza para vender aviões é contraditório. O setor da aviação continua a ser um dos maiores emissores globais e o crescimento do número de voos anula completamente o ganho de 4%. 

2. A Sapatilha "Biosteel" da Adidas
Em 2016, a Adidas apresentou o protótipo Futurecraft Biofabric, uma sapatilha feita de Biosteel, uma fibra que imita a seda da aranha, desenvolvida pela empresa AMSilk.
O marketing: foi vendida como "100% biodegradável" e um exemplo de como a biotecnologia biomimética iria acabar com os resíduos têxteis.
O greenwashing: a sapatilha nunca chegou a ser produzida em massa de forma acessível. Funcionou como um objeto de relações públicas para posicionar a Adidas como líder em sustentabilidade, enquanto a marca continuava a inundar o mercado com milhões de toneladas de plástico virgem e sapatilhas de difícil reciclagem produzidas em cadeias de montagem globais com pegadas de carbono gigantescas.

3. O Edifício "The Gherkin" em Londres (Foster + Partners)
Este icónico arranha-céus foi desenhado com um sistema de ventilação inspirado na estrutura das esponjas-do-mar e das anémonas, que filtram a água para se alimentar e respirar.
O marketing: foi apresentado como o "primeiro arranha-céus ecológico de Londres", prometendo poupanças de energia de até 50% através da ventilação natural inspirada na biologia.
O greenwashing: na prática, o sistema de ventilação natural raramente é usado devido a restrições de segurança e conforto dos escritórios de luxo (os inquilinos preferem o ar condicionado controlado). Além disso, a construção de um gigante de vidro e aço no centro financeiro de Londres tem uma energia incorporada (custo de fabrico dos materiais) imensa. Usar a biologia marinha como metáfora para um centro do capitalismo financeiro é visto como um uso puramente estético e ideológico da natureza.

Outros casos e reflexões 

Conclusão
A biomimética é um caminho para a sustentabilidade porque nos ensina a produzir "como a vida produz". Mas, para ser sustentável na prática, a tecnologia inspirada na natureza tem de ser acompanhada por uma mudança no modelo económico: passar da extração para a regeneração. Isto é, todo o ciclo de produção integrado nos princípios da economia circular. 

Referências bibliográficas

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Relatório aponta aumento da mortalidade pelo calor extremo na Galiza e norte de Portugal


Cidades da região espanhola da Galiza e do norte de Portugal têm registado um excesso de mortalidade, em alguns casos até 60%, como consequência do calor extremo, segundo um relatório do Eixo Atlântico divulgado na quarta-feira.

Esta investigação, apresentada pela organização em Pontevedra, revela que cidades como o Porto, Viana do Castelo, Ourense, Braga, Guimarães e Lugo registaram entre 50% e 60% de excesso de mortalidade durante períodos de altas temperaturas.

O estudo, liderado por Francesc Cárdenas, diretor da Agência de Ecologia Urbana do Eixo Atlântico, propõe que se preste “especial atenção” à conceção dos espaços públicos e à integração da saúde em todos os processos de planeamento urbano e territorial.

Cárdenas indicou que é necessário promover uma “cultura do calor”, que inclua a adaptação das cidades, a criação de refúgios climáticos e a elaboração de planos de ação para as ondas de calor, de forma a proteger os cidadãos.

Argumentou ainda que “padrões mais rigorosos” para a qualidade do ar e o controlo do ruído devem ser implementados para melhorar a saúde ambiental e humana nas cidades.

“Precisamos de uma mudança cultural”, enfatizou o diretor do relatório, que indicou que 80% dos fatores que influenciam a saúde humana dependem do planeamento urbano.

O documento salienta que o limite crítico de 1,5 graus Celsius de aquecimento global já foi ultrapassado em 2024, o que exige ações com “microcirurgia urbana”.

Neste sentido, o relatório inclui também boas práticas como os corredores ecológicos de A Coruña, as rotas escolares seguras e as zonas de baixas emissões de Pontevedra, a via verde de Vigo e as rotas termais de Ourense.

Vázquez Mao insistiu que as câmaras municipais devem decidir “como e onde construir” para garantir que as novas áreas residenciais não se tornam blocos habitacionais sem vida e insalubres.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Chegou a hora de repor a permeabilidade do solo nas nossas cidades

Porquê?
1. Redução do risco de inundações e gestão das águas pluviais.
As superfícies impermeáveis ​​impedem que a água da chuva se infiltre no solo. Em vez disso, a água escoa rapidamente para o sistema de drenagem, muitas vezes sobrecarregando os sistemas durante chuvas intensas.

Repermeabilizar o solo:
- Diminui o escoamento superficial;
- Permite que a água se infiltre e recarregue o lençol freático;
- Reduz as inundações superficiais e o transbordo de esgotos, que infelizmente muitas vezes também recebem àguas pluviais.
Isto é cada vez mais crucial à medida que os eventos de chuva intensa se tornam mais frequentes, uma tendência destacada nas avaliações climáticas urbanas globais.

2. Arrefecimento das cidades e redução das ilhas de calor urbanas.
As superfícies impermeáveis ​​​​absorvem e irradiam calor, intensificando o efeito de ilha de calor urbana. Superfícies permeáveis ​​e com coberto vegetal:
- Retêm a humidade, permitindo o arrefecimento evaporativo;
- Reduzem as temperaturas da superfície e do ar ambiente;
- Melhoram o conforto térmico nas ruas e espaços públicos.

3. Recuperação do ciclo urbano da água e recarga dos aquíferos.
Quando as cidades estão totalmente impermeabilizadas:
- Os níveis das águas subterrâneas diminuem;
- A vegetação urbana torna-se dependente da rega;
- As cidades tornam-se mais vulneráveis ​​às secas.
Os solos permeáveis ​​ajudam a reconectar a água da chuva com os ciclos hidrológicos naturais, melhorando a segurança hídrica a longo prazo, o que é especialmente importante em cidades com escassez de água.

4. Apoio à biodiversidade urbana e à saúde do solo.
Solos saudáveis ​​abrigam microrganismos, insetos e raízes de plantas.
Permeabilizar o solo e design permeável:
- Melhoram a respiração e a fertilidade do solo;
- Permitem que as árvores urbanas desenvolvam raízes mais profundas e fortes, mais resistentes às intempéries;
- Apoiam polinizadores e habitats urbanos.

5. Equidade, habitabilidade e ordenamento do território
Em muitas cidades:
- Os antigos aglomerados urbanos estão localizados em zonas sujeitas a inundações e com deficiente drenagem;
- Soluções de engenharia são hoje fundamentais para resolver os problemas do passado, mas não se pode estar atualmente criar novos problemas resultantes de um mau planeamento.

As abordagens permeáveis ​​e baseadas na natureza (valas de infiltração, drenagem com vegetação, pátios permeáveis) são:
- Mais baratas e adaptáveis;
- Mais fáceis de serem concebidas em conjunto com as comunidades.

6. De que forma a permeabilização se parece na prática:
- Pavimentos e áreas de estacionamento permeáveis;
- Permeabilização de passeios, pátios escolares e espaços subutilizados;
- Jardins de chuva, valas de infiltração e trincheiras de infiltração;
- Árvores urbanas com solos estruturais;
- Recuperação de ribeiros naturais ou cursos de água sazonais.

sábado, 22 de novembro de 2025

Esta torre de escritórios com horta vertical pode alimentar 40.000 pessoas


A empresa de design Carlo Ratti Associati lançou um projeto de uma torre de escritórios em Shenzhen, China, cuja fachada inteira será uma horta urbana vertical. Este projeto foi também inscrito no concurso de design de construção da rede de supermercados chinesa Wumart.

“A agricultura urbana em pequena escala está a acontece em cidades de todo o mundo – de Paris a Nova Iorque e Singapura”, afirmou em comunicado Carlo Ratti, sócio fundador da CRA e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

“A Torre Jian Mu, no entanto, leva a agricultura urbana para o próximo nível. Esta abordagem tem o potencial de desempenhar um papel importante no projeto das cidades do futuro, pois envolve um dos desafios arquitectónicos mais urgentes da atualidade: como integrar o mundo natural com projeto de construção. Além de produzir alimentos, a horta da Torre Jian Mu ajuda com a proteção solar – uma questão fundamental em edifícios altos.”

A torre tem 218 metros de altura e dedica 10.000 metros quadrados da sua superfície ao espaço de cultivo. Uma horta vertical em tal espaço poderia produzir cerca de 270.000 kg de alimentos por ano, o que alimentaria 40.000 pessoas. O cultivo, a colheita, a venda e o consumo dos alimentos devem ocorrer dentro do mesmo prédio para reduzir o desperdício e a poluição da cadeia de abastecimento. A torre também abrigará escritórios, uma praça de alimentação e um supermercado.

“Jian Mu”, o nome dado à torre, vem de uma árvore chinesa mítica que, segundo a lenda, chega ao céu. Para refletir a crença tradicional chinesa de que o céu é redondo enquanto a terra é quadrada, a Torre Jian Mu foi projetada para se transformar lentamente de uma base retangular num topo arredondado tubular.

A torre está repleta de espaços verdes que, além de funcionais, também pretendem ser bonitos. Terraços ajardinados ao ar livre alimentados por irrigação sustentável em vários níveis conterão lichias, nenúfares e samambaias. Os jardins interiores serão abertos a escritórios no interior do edifício. Os trabalhadores poderão usar uma app para ajustar os microclimas dentro do seus escritórios, que levam a espaços verdes de dois andares criados para minimizar a necessidade de ar condicionado.

Saber mais:

sábado, 20 de setembro de 2025

Dinamarca - ilhas flutuantes artificiais cobertas de flores silvestre


Na Dinamarca, ilhas flutuantes artificiais cobertas de flores silvestres estão a transformar portos movimentados em bolsas de natureza.
Construídas com materiais ecológicos, estas ilhas oferecem locais de nidificação para aves, néctar para abelhas e borboletas e abrigo subaquático para peixes.
Não só aumentam a biodiversidade, como também purificam o ar e a água, absorvendo carbono e filtrando os poluentes.
Ancoradas em segurança, as ilhas comprovam que, mesmo em vias navegáveis ​​industriais, as cidades podem criar santuários verdes onde a vida selvagem prospera juntamente com a atividade humana. 

domingo, 16 de março de 2025

Cidadania


"Liberdade, igualdade, fraternidade, mutualismo, solidariedade: tudo isso é uma coisa linda. Mas quando nos impingem a cidadania, a coisa complica-se… O que é o cidadão? Para mim, não é só ter direitos e deveres: é ter que servir".
Gonçalo Ribeiro Telles

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Polónia: florestas sociais vão cercar 14 cidades


O Ministério do Clima polaco anunciou planos para criar "florestas sociais" em torno de algumas das 14 maiores cidades do país. O objetivo deste esforço de reflorestação será proporcionar um acesso fácil à vegetação a mais de um terço de todos os residentes polacos, juntamente com o impacto climático e ambiental positivo esperado da criação de uma bio-infraestrutura tão grande. As florestas sociais, na sua essência, representarão anéis verdes em torno das cidades. As metrópoles em causa são Varsóvia, Cracóvia, Gdańsk, Sopot, Gdynia, Wrocław, Łodź, Poznań, Katowice, Bydgoszcz, Toruń, Szczecin, Kielce e Bielsko-Biała. No total, são habitadas por 13 milhões de pessoas, o que representa cerca de 36% da população do país.

O que é uma floresta social? O Ministério do Clima usou os termos "floresta social" ou "floresta comunitária" para descrever a iniciativa em grande escala. De acordo com a lei polaca, as florestas devem desempenhar funções "económicas, ambientais e sociais". E nestes tempos modernos, muitos residentes urbanos perderam o contacto com os dois últimos aspetos da natureza selvagem. A função económica está muito desenvolvida. A função ambiental é largamente cumprida pelos parques nacionais. No que diz respeito à função social, ainda há muito para melhorar.

Nesse sentido, são necessárias florestas comunitárias nas cidades, para que os residentes urbanos possam beneficiar delas de múltiplas formas. Por exemplo, seriam bons locais para as pessoas apanharem cogumelos ou bagas e andarem de bicicleta. Mais importante ainda, estas florestas não devem existir apenas como espaços geridos artificialmente, mas sim como ecossistemas orgânicos verdadeiramente viáveis que proporcionam uma realidade alternativa à vida urbana organizada.

A conclusão dos trabalhos sobre a nova forma de proteção das florestas está prevista para o fim de outubro de 2024. O governo está a trabalhar na implementação do compromisso do acordo de coligação, que estabelece que "20% das áreas florestais mais valiosas serão excluídas do abate de árvores".

Fonte.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Pedro Aibéo - Se sou um cidadão do mundo, que morra então como tal, no caminho


Desde pequeno que dizia querer ser engenheiro. Pedro Aibéo, 44 anos, nasceu no Porto e estudou no Liceu de Gaia, atualmente Escola Secundária Almeida Garret, antes de concorrer a Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) em 1997.

“A minha resposta standard às perguntas deste género era que queria construir coisas, mas que queria compreendê-las, antecipando-me à pergunta de porque então não arquitetura?” explica.

Mais tarde acabou mesmo por estudar Arquitetura em Darmstadt, na Alemanha, e diz que “obviamente entendi que saber como funciona em detalhe o betão armado e outros detalhes está longe de significar entender-se o que é uma casa ou uma ponte. O todo não é só maior que a soma das partes, mas algo completamente diferente e inesperado.”

Terminou o curso na FEUP em 2002. Um ano antes, quase por acaso, candidatou-se a uma mobilidade Erasmus e foi parar a Seinäjoki, na Finlândia, país que acabaria por escolher mais tarde para viver. “Mesmo no último dia de candidatura, um amigo falou-me desta possibilidade, num dia de chuva no novo Campus da Asprela (antigamente a FEUP era na Rua dos Bragas a poucos metros de onde eu tinha nascido) e eu escolhi a última opção ainda disponível, a Finlândia. Na altura, em 2001, ninguém realmente queria ir para a Finlândia”, explica o alumnus.

A vida de Pedro não se fica apenas pela Engenharia. É músico, escritor, investigador, empreendedor e ativista político com inúmeros projetos finalizados e outros tantos em progresso.

“Estou a finalizar um doutoramento em Architectural Democracy sobre política e construção com o famoso escritor John Keane da Austrália, criei três companhias à volta da “Gamified Cohousing”, criei uma organização sem fins lucrativos, a World Music School e sou Deputy Member do Departamento de Planeamento Urbano da cidade de Lohja. Além disso, faço parte de uma galeria de arte, a Myymälä, no coração de Helsínquia e tenho publicado vários livros, um deles o “Isto não é só Matemática”, já tendo em vista o próximo, que será sobre astronomia. Também escrevi peças de teatro para as Nações Unidas e para o teatro estatal alemão, toquei e toco música profissionalmente com os “Homebound” e os “Wolfenmond” e sou Vice-Chairman dos “Artists at risk”, uma associação que ajuda refugiados políticos através das artes”, resume o engenheiro civil.

Com uma vida cheia de planos, Pedro é muito mais que um engenheiro na verdadeira essência do querer construir e compreender o mundo à sua volta. E todo este trabalho tem dado os seus frutos.

“Tenho recebido vários prémios para alimentar o meu ego. O mais recente foi há uns meses atrás, o prémio estatal de artes (Taike), o maior prémio nacional deste género na Finlândia. Outros têm sido à volta da arquitetura e engenharia. Recentemente, desenhei um Hospital e um centro de estudo de reciclagem para o Nepal, patrocinado pela Koica – Korea International Cooperation Agency, a agência sul coreana para o desenvolvimento, tendo ambos os projetos sido premiados”, acrescenta.

O projeto que quer mudar as cidades
Em 2018, Pedro começou a “Gamified Cohousing”, uma spin-off da sua investigação sobre Architectural Democracy, que se traduz num projeto que quer resolver os problemas crescentes de solidão e desperdícios de recursos (naturais e humanos) nas cidades, combinando esse facto com o potencial de existirem vários edifícios vazios no mundo.

“Com a Gamified Cohousing temos agora cinco propriedades na Finlândia, quatro escolas antigas e uma estação de comboios que estamos a renovar e a implementar um misto de habitação e local de trabalho, com zonas partilhadas. Tudo gerido através de um jogo semelhante ao The Sims”, avança o antigo estudante da FEUP.

– Como surgiu a oportunidade de ir para a Finlândia?
Em 2001, através do projeto Erasmus e depois de ter vivido em muitos países, a fazer engenharia e arquitetura, como Oman, Alemanha, Índia, Austrália e China, resolvi seguir o meu caminho, parar de trabalhar por conta de outrem e criar as minhas empresas e investigação. A Finlândia parecia o sítio certo para tal, mais próximo da família e dos meus filhos e num país onde os apoios são fortes. Estatal e privado. Por exemplo, recebi a bolsa da Kone Foundation para a investigação. Mas o sistema não é perfeito, longe disso, se bem que os comboios quase o são. Estou agora a escrever isto de Kajaani para Lappeenranta, no restaurante do comboio.

– De que forma a Universidade do Porto teve impacto neste processo?
A Universidade do Porto deu-me oportunidade de ingressar no projeto Erasmus, com bolsa e um processo muito fácil de aplicação. A Faculdade de Engenharia fez-me crescer muito: de um rapaz confuso de 17 anos para alguém capaz de se organizar não só no trabalho, mas a ser independente na vida.

– Há quanto tempo estás fora de Portugal?
Desde 2002. 22 anos, exatamente metade da minha vida!

– O que te motivou a ir para fora?
Depois da experiência na Finlândia, ficar num só sítio pareceu muito redutor, havia um mundo por explorar e crescer. Não sou obcecado por viajar e por turismo, mas sou com certeza um irrequieto.

– Apesar de viveres na Finlândia, consideras-te um cidadão do mundo?
Não passo muito tempo na Finlândia, talvez metade do ano. Hoje em dia tenho passado muito tempo no Nepal e no Qatar em projetos de engenharia e arquitetura. Fui dando muitas aulas antes da pandemia que se viveu em 2020, ia anualmente à China, incluindo Wuhan, onde dei várias aulas e workshops. Passei também pelo México e Índia. Hoje em dia não tenho dado aulas porque acabo por ter pouco tempo para isso.

Cidadão do mundo? Essa definição é a de uma pessoa que pertence a todos os lados e a nenhum também. Há um sentimento de casa, quando estou em Oman e na Alemanha, tão intenso ou senão mais do que em Portugal, mas também um eterno sentimento de ser o estrangeiro em todos os lados. Mas voltar a Portugal é indesejável, porque seria frustrante fechar a minha história de vida com saudosismos constantes, do emigrante que de repente já não o é. Tornar-me naquele tio que muitos de nós certamente já experienciámos em várias ocasiões, a querer falar de que também antigamente viajava e era um cidadão do mundo com um olhar triste de não o ser mais! Se sou um cidadão do mundo, que morra então como tal, no caminho.

– Como foi a adaptação a viver fora de Portugal, noutros países, e à Finlândia em particular?
Na altura, em 2001, havia menos Internet e nada de câmaras digitais ou smartphones. Mas muita vida social que ajudou bem na transição. Tornou-se tudo rapidamente numa aventura. Hoje, continua a ser fácil e também difícil, por outro lado. As burocracias e línguas por vezes dificultam. Antigamente, era necessário aprendermos a língua do país onde estávamos, mas atualmente torna-se quase desnecessário com tanta ferramenta digital disponível.

Obviamente que sendo europeu, não estou iludido. Facilita a vida… e muito! Quando estive na Palestina a explorar Hebron e me vi rodeado de militares das Forças de Defesa de Israel, bastou-me levantar o passaporte português para que libertassem as armas apontadas a mim.

– Principais experiências que gostasses de destacar?
O nascimento dos meus dois filhos, na Alemanha e na Estônia, muitos romances e, claro, muitos projetos de trabalho!

Dos romances não se fala, fica para outra rubrica talvez, mas do trabalho, deixo uns destaques: a construção da GuTech em Oman, a graduação em Engenharia Civil e em Arquitetura, a compra da primeira escola em Hyrsylän Koulu, na Finlândia, para a “Gamified Cohousing” em 2019, expor na Bienal de Veneza, publicar um livro prefaciado pelo Nuno Markl, ter tocado música ao lado do Béla Fleck no Celtic Connections em Glasgow, ter feito uma peça de teatro nas Nações Unidas de Viena para um público recheado de astronautas, as tours de música pela Alemanha a tocar gaitas de foles em shows góticos, vender os meus desenhos de nus em galerias e pagar os meus estudos com esse valor, tocar música em casamentos na Índia, fundar uma escola de música no Benin, dar aulas de arquitetura na Austrália, representar a Finlândia numa palestra em Barranquilla, na Colômbia, e ser capa do maior jornal da Finlândia, Helsingin Sanomat, em protesto contra o Guggenheim em Helsínquia.

– O que gostas mais na Finlândia? E menos?
Gosto de um alto nível de honestidade e confiança, desgosto do constante uso da palavra “niin” nas conversas… Faz-me lembrar Monty Python e os cavaleiros que diziam “ni”.

–  Um conselho para quem visita a Finlândia?
Não esperem o país mais feliz do mundo, não é baseado em números de sorrisos por dia por pessoa, ou numa vida social intensa e muito menos, não esperem receber comida quando forem visitar alguém, é só café, quase sempre americano.

– Do que é que sentes mais falta em Portugal? Pensas em regressar?
Não tenho planos de regressar, só se fizermos algumas “Gamified Cohousings” por aí. Estamos já a expandir para a Ásia, mas Portugal ainda não. Quem sabe!

Não sinto realmente saudades, tento sempre fugir da clássica nostalgia, de viver no passado. Não sinto falta do Fado, mas sim de uma boa noite a tocar gaita de foles em Trás-os-Montes com os meus amigos, alguns dos quais com quem cresci a tocar música durante o curso de Engenharia Civil.

quinta-feira, 30 de março de 2023

O projeto português para construir (e doar) casas de bambu no Mianmar

Objetivo é doar casas a famílias deslocadas. Campanha de crowdfunding do projeto Housing Now irá decorrer até ao final de abril.


Housing Now é o nome do projeto de habitação social que pretende construir casas de baixo custo em bambu no Mianmar (Birmânia), para depois doá-las a famílias deslocadas que vivem em condições precárias. O arquiteto português António Duarte é um dos fundadores deste projeto, e acaba de lançar uma campanha de crowdfunding (recolha de donativos) para financiar a construção de dez casas de baixo custo nesta região.

“Após o golpe militar de fevereiro [do ano passado] no Mianmar, mais 400.000 pessoas fugiram das suas casas e estão atualmente deslocadas internamente no país (...) Uma grande percentagem da população não tem acesso a uma habitação digna (...)”, lê-se na descrição do crowdfunding do Housing Now, um projeto do atelier de design Blue Temple.

O objetivo, segundo explica António Duarte ao P3, é angariar 15.000 euros para construir dez casas de bambu para deslocados, na região de Pago. “Por cada 1500 euros doados, nós construímos uma casa”, disse em entrevista à publicação.


“O financiamento recebido cobrirá os custos de construção, expedição e montagem das casas doadas no local; contratação de assistentes sociais locais que ajudarão na implementação do projeto, trabalhando em estreita colaboração com cada família”, explicam ainda na página de angariação de donativos. Além disso, uma pequena parte do lucro gerado “será usado para levar o projeto à próxima etapa do seu desenvolvimento, que será a produção em larga escala”.

Casas pré-fabricadas de bambu
Porquê o bambu? O objetivo será usar um recurso “abundante e pouco explorado”. “O bambu pode ser encontrado em grandes quantidades no mercado local, mas não é usado na construção”, referem.

O processo de construção será híbrido, ou seja, partes da casa são pré-fabricadas e transportáveis, enquanto outras são montadas no local trabalhando em conjunto com as comunidades locais.

Depois, e de acordo com as necessidades de cada família, o tamanho da casa pode variar ao longo do tempo, sendo também facilmente desmontável e transportada para outro local no futuro.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

O manifesto da Sitopia: a comida como matriz civilizacional e arquitetura do poder


Introdução: a ilusão de More e a concretude de Steel
Em 1516, Thomas More cunhou em Utopia o duplo sentido de um ideal: o "lugar bom" (eu-topos) que é, simultaneamente, o "lugar nenhum" (ou-topos). Ao longo de séculos, o pensamento político ocidental tendeu a projetar as suas reformas sociais nesta dimensão abstrata, desenhando cidades perfeitas desprovidas de fricção material. Contudo, quando a arquiteta e urbanista britânica Carolyn Steel publicou Hungry City (2008) e, posteriormente, consolidou as suas teses no início da década de 2010, propôs uma inversão radical desse eixo especulativo. Ao formular o conceito de Sitopia (sitos = comida; topos = lugar), Steel retirou a reforma societal do campo do "lugar nenhum" e aterrou-a na materialidade biológica do prato.

A premissa sitópica, refinada por Steel ao longo de mais de uma década, postula que o alimento é a força geométrica e política primária que desenha o mundo visível. Não habitamos espaços neutros; habitamos uma complexa infraestrutura metabólica. A literatura, a filosofia e a história urbana demonstram que a alienação contemporânea em relação à origem do que comemos não é um acidente histórico, mas sim o resultado de uma fratura profunda na nossa narrativa civilizacional.

1. A cidade e o ventre: a perspetiva histórico-literária
A indissociabilidade entre a sobrevivência urbana e o abastecimento de comida encontra eco na grande literatura do século XIX, período em que as metrópoles começaram a perder o contacto direto com o seu hinterland rural. No seu romance monumental Le Ventre de Paris (1873), Émile Zola descreve os novos mercados centrais de Les Halles como um organismo biológico gigante, um ventre mecânico que dita o pulso, as neuroses e as divisões de classe da capital francesa. Zola já antecipava o que Steel sistematizou no século XXI: a cidade é uma máquina de devorar paisagens.

Antes da Revolução Industrial, a morfologia urbana era um reflexo direto dessa dependência. Como nota o historiador Fernand Braudel em Civilização Material, Economia e Capitalismo (1979), os limites de expansão de uma comunidade pré-industrial eram ditados pela velocidade a que o pão fresco ou o gado podiam caminhar até ao centro urbano. O mercado era o coração político (a ágora) e económico da cidade.

A rutura desse cordão umbilical biológico, operada pelos caminhos-de-ferro e pela refrigeração, criou a maior ilusão da modernidade: a da "comida barata". O filósofo e sociólogo Walter Benjamin, nas suas análises sobre as passagens de Paris, identificou como o capitalismo transformou a mercadoria num fetiche desligado da sua produção. No supermercado contemporâneo, este fenómeno atinge o seu apogeu. O alimento é purgado da sua história; a carne embalada em vácuo e os ultraprocessados operam como objetos estéticos abstratos, ocultando o trabalho camponês, a degradação dos solos e o confinamento animal.

2. O mapeamento concêntrico e a tradição filosófica
A matriz conceptual que Carolyn Steel desenhou a partir de 2011 organiza o impacto da comida em sete escalas concêntricas (Alimento, Corpo, Casa, Sociedade, Cidade, Campo e Natureza). Esta perspetiva holística resgata a filosofia clássica, nomeadamente o pensamento de Epicuro. Longe do hedonismo desenfreado que o senso comum lhe atribui, o epicurismo, como recorda o filósofo e economista Amartya Sen nas suas reflexões sobre desenvolvimento e bem-estar, foca-se na satisfação consciente das necessidades naturais e necessárias. Para Epicuro, compreender os limites do corpo e a origem dos nossos prazeres básicos é a única fundação possível para a liberdade política.

Quando a sitopia falha - transformando-se numa distopia alimentar -, o colapso propaga-se verticalmente por estas escalas. O impacto no Campo e na Natureza encontra um paralelo literário devastador em As Vinhas da Ira (1939), de John Steinbeck. Ao narrar a tragédia do Dust Bowl americano, Steinbeck descreve a mecanização impiedosa da terra e a expulsão dos agricultores por bancos e tratores:
"O trator faz duas coisas diferentes: vira a terra e expulsa-nos dela. Há pouca diferença entre o trator e um tanque de guerra; ambos expulsam os homens, intimidam-nos, destroem a sua ligação com a vida."
A crítica de Steinbeck antecipa o diagnóstico de Steel sobre o agronegócio industrial: ao tratarmos a terra (o Campo) como uma fábrica química e não como um organismo vivo (a Natureza), destruímos a própria base da comensalidade (a Sociedade) e da saúde (o Corpo).

3. Biopolítica e o futuro alimentar
A gestão do sistema alimentar contemporâneo pode ser analisada através do conceito de Biopolítica de Michel Foucault. Para Foucault, o poder moderno exerce-se controlando os corpos, a natalidade, a saúde e os fluxos vitais das populações. Quem controla a comida na sitopia globalizada não controla apenas um mercado; controla a própria biologia da humanidade.

Steel confronta dois caminhos alternativos para o futuro nesta disputa biopolítica:
  1. A distopia tecno-alimentar: Onde a comida é totalmente desmaterializada e gerida por monopólios de Silicon Valley (carne sintética de laboratório, patentes de sementes modificadas, substitutos nutricionais líquidos). É a realização da ficção científica especulativa, de que é exemplo a obra Soylent Green (Harry Harrison, 1966), onde a rutura total com a natureza transforma o ato de comer num gesto puramente funcional e controlado pelo Estado corporativo.
  2. A sitopia regenerativa / agroecológica: uma abordagem que se alinha com o conceito de Buen Vivir (Sumak Kawsay) das tradições indígenas andinas, amplamente estudado por sociólogos contemporâneos como Boaventura de Sousa Santos. Esta visão defende que a harmonia social é impossível sem a harmonia ecológica. Propõe a descentralização dos mercados, a soberania alimentar e o reconhecimento do camponês como o arquiteto essencial da paisagem.
Conclusão: o retorno à mesa como acto político
A Sitopia, tal como Carolyn Steel a defende desde os seus primeiros esboços teóricos, lembra-nos de que a economia não deveria ser a ciência da acumulação abstrata de capital, mas sim a ciência da gestão da nossa casa comum (oikos = casa; nomos = lei).

Ao introduzir a comida no centro do debate sobre o urbanismo e a filosofia política, Steel oferece uma resposta prática ao pessimismo ecológico. Se o atual colapso climático e civilizacional é o subproduto de uma sitopia negligenciada e predatória, a reconstrução do futuro está, literalmente, nas nossas mãos. Cada decisão de consumo, cada redesenho de um mercado municipal e cada refeição partilhada de forma consciente são atos de reconfiguração do espaço público. O garfo, mais do que o voto legislativo, tornou-se o instrumento político mais quotidiano, democrático e transformador da nossa era.

Referências Bibliográficas 
  • BENJAMIN, Walter. O Trabalho das Passagens. Paris: Éditions du Cerf, 1989.
  • BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo (Séculos XV-XVIII). Lisboa: Teorema, 1979.
  • FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
  • STEEL, Carolyn. Hungry City: How Food Shapes Our Lives. Londres: Chatto & Windus, 2008.
  • STEEL, Carolyn. Sitopia: How Food Can Save the World. Londres: Vintage, 2020.
  • STEINBECK, John. As Vinhas da Ira. Lisboa: Livros do Brasil, 1939.
  • ZOLA, Émile. Le Ventre de Paris. Paris: Georges Charpentier, 1873.
Página Oficial

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Professor da UMinho premiado pelo edifício “Casa Rotativa”



Pedro Bandeira, arquiteto e professor da Universidade do Minho (UMinho) acaba de ser distinguido com o Prémio Arquitetura, Inovação e Sustentabilidade 2021, na categoria Obra, pelo seu edifício “Casa Rotativa”.

A cerimónia de entrega do prémio vai decorrer está quinta-feira, no Museu da Água, em Lisboa, e contará com a presença do Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Matos Fernandes, e do presidente da Ordem dos Arquitectos (OA), Gonçalo Byrne.

A Casa Rotativa é uma habitação unifamiliar situada na região de Coimbra que, tal como o nome sugere, gira em função do sol. O edifício gira até 300 graus em seis minutos, gastando quatro cêntimos de eletricidade.

O projeto surgiu quando o dono , Filipe Bandeira, engenheiro de estruturas especiais sensível a questões energéticas, desafiou o irmão Pedro Bandeira a contribuir no projeto experimental.

Para os promotores do prémio, o Ministério do Ambiente e da Ação Climática e a OA, o edifício “evoca os faróis, os moinhos de vento e os engenhos solares de há um século; além disso, a sua invulgar motricidade abre territórios na arquitetura ao nível da legislação e da ligação ao contexto (solo, céu, pessoas), reinventando questões de sustentabilidade, ecologia, ambiente construído e quotidiano”.

Pedro Bandeira é natural da Figueira da Foz, e é atualmente presidente e professor da Escola de Arquitetura, Arte e Design da UMinho, bem como investigador do Laboratório de Paisagens, Património e Território (Lab2PT)​. Além do prémio que recebe hoje, já foi distinguido com o Prémio SIM da Samsung, o Prémio de Crítica de Arquitetura da AICA/Fundação Carmona e Costa, e foi finalista do Prémio Europeu Mies van der Rohe. Teve ainda a oportunidade de representar Portugal na Bienal de Arquitetura de Veneza (2004) e de São Paulo (2005).


domingo, 14 de fevereiro de 2021

5 Vertical Farms Run by AI and Robots


Quintas verticais administradas por IA e robôs para resolver a crise do solo

Uma das profissões mais antigas e fundamentais do mundo é a agricultura e, olhando para trás, a humanidade percorreu um longo caminho ao longo dos milénios na forma como cultivamos com a evolução de várias tecnologias. Com o tempo, à medida que a população mundial continua a crescer e a terra se torna mais escassa, as pessoas perceberam a necessidade de serem criativas e de se tornarem mais eficientes na agricultura.

Com a população mundial a ser a maior de sempre, a responsabilidade de alimentar esta população cada vez maior está a tornar-se cada vez mais difícil, razão pela qual os especialistas pensam que a agricultura vertical é o futuro.

As quintas verticais são internas e podem ser instaladas em qualquer lugar, o que as torna cruciais numa época em que as terras cultiváveis estão em declínio.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

1922-2020: Gonçalo Ribeiro Telles, o “ilustre defensor da causa pública ambiental”

Fonte: aqui


Faleceu ontem, aos 98 anos de idade, o arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles. O Governo português decretou um dia de luto nacional, a assinalar esta quinta-feira, em homenagem ao considerado por muitos “primeiro ambientalista de Portugal”.

O Ministro do Ambiente da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, já veio demonstrar o seu voto de pesar: “Arquiteto paisagista, professor universitário, ativista da causa pública, Gonçalo Ribeiro Telles é justamente recordado como uma das figuras da sociedade portuguesa que mais se empenhou na defesa do ambiente e na valorização do mundo rural, tendo sido decisiva a sua ação na consagração da Reserva Ecológica Nacional e na Reserva Agrícola Nacional.”

“Conhecido por obras marcantes de paisagismo”, como é o caso dos Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, do Amália Rodrigues, do Castelo de São Jorge, do Cabeço das Rolas, da Mata dos Medos, e ainda do Corredor Verde de Monsanto, “foi sobretudo um ilustre defensor da causa pública ambiental, para a qual contribuiu com as suas ideias, planos e projetos.”


Fernando Medina, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), também deixou o seu testemunho no Facebook: “Gonçalo Ribeiro Telles foi o primeiro rosto de um movimento ambiental e do ordenamento do território no nosso país. O seu espírito visionário e à frente do tempo fez com que se batesse pela implementação de um Plano Verde, com vários corredores ecológicos, na cidade de Lisboa. Na última década, Lisboa cumpriu o essencial do programa ecológico de Ribeiro Telles, faltando-nos acabar o corredor verde de Alcântara e o corredor Periférico. Lisboa deve-lhe imenso(…).”

No seguimento, a CML anunciou hoje que o novo Parque Urbano da Praça de Espanha se vai chamar “Parque Gonçalo Ribeiro Telles”.

Morreu Gonçalo Ribeiro Telles, pioneiro do ecologismo na política portuguesa

Antigo presidente do PPM, que tinha 98 anos, foi um dos três líderes da Aliança Democrática, ao lado de Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Enquanto arquiteto paisagista foi o responsável pelos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian.



O arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles morreu nesta quarta-feira, aos 98 anos, tendo a sua morte sido confirmada ao “Público” pelo filho, Miguel Ribeiro. Considerado um dos pioneiros do ecologismo na política portuguesa, foi ministro de Estado e da Qualidade de Vida entre 1981 e 1983, no VII Governo Constitucional liderado por Francisco Pinto Balsemão.

Enquanto presidente do Partido Popular Monárquico (PPM) foi um dos subscritores da Aliança Democrática (AD), juntamente com Francisco Sá Carneiro (PSD) e Diogo Freitas do Amaral (CDS), levando a coligação de centro-direita a conquistar o poder nas eleições intercalares de 1979, o que contribuiu de forma decisiva para a normalização da democracia portuguesa após o período revolucionário.

Licenciado em Engenharia Agrónoma e em Arquitetura Paisagista pelo Instituto Superior de Agronomia, Gonçalo Ribeiro Telles trabalhou na Câmara de Lisboa e envolveu-se nos círculos da oposição, criando o Movimento dos Monárquicos Independentes em 1957 e entrando nas listas da oposição aquando da Primavera Marcelista. Fundador do PPM, tendo sido subsecretário de Estado do Ambiente nos três primeiros governos provisórios, em 1993 ajudou a criar o Movimento Partido da Terra (MPT).

Além de ter criado a Reserva Ecológica Nacional, Ribeiro Telles é também conhecido por projetos na sua área de trabalho como o jardim da Fundação Calouste Gulbenkian e o Jardim Amália Rodrigues, ambos em Lisboa.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

"The Promise of Biomimicry" : Innovation and Design Inspired by Nature


Ao longo de 3,8 biliões de anos de evolução, a vida aprendeu a se desenvolver no ar, nas profundezas do subterrâneo, mergulhada nos oceanos e no topo das montanhas mais altas. Aprendeu a se curar, a produzir o veneno e o antídoto, a armazenar energia através do sol, a transformar os ambientes mais hostis em lares aconchegantes com temperaturas estáveis, a produzir através de processos cíclicos sem qualquer tipo de desperdício. Em suma, a natureza já tem as respostas para muitos dos problemas que tentamos solucionar há décadas através de um olhar reducionista e fragmentado. Se essa sustentação dos processos naturais através de ciclos infindáveis virassem nosso modus operandi, não seria crível que a vida na Terra seria completamente sustentada por muito mais tempo?

A biomimética surge então como um campo da ciência que ancora essa tecitura de um futuro regenerativo, baseado não no que podemos extrair da natureza, mas no que podemos aprender com ela. Segundo Janine Benyus, maior nome da biomimética hoje, quando começamos a ver a natureza como uma fonte de ideias em vez de uma fonte de bens, nosso respeito pela vida e sua capacidade de adaptação aumentam. Bem, e como podemos permanecer acordados para o mundo vivo? Como tornamos o ato de pedir conselhos à natureza uma parte normal da vida cotidiana? Janine traz em seu livro Biomimética: inovação inspirada pela natureza 10 lições vivas da natureza para que possamos sonhar com uma economia que seja mais parecida com uma floresta pujante, que enche de vida cada canto e fenda, do que com um campo coberto de ervas daninhas:

10 Lições vivas da  Natureza
1. Usar resíduos como recursos
Uma das principais lições da ecologia de sistemas é que quanto mais um sistema aumenta sua biomassa, mais necessita de reciclagem para impedir o próprio colapso. Uma comunidade madura torna-se cada vez mais autossuficiente: em vez de trocar nutrientes e minerais com o ambiente externo, ela os faz circular através de seus próprios processos de criação, morte e decomposição.

2. Diversidade e cooperação como princípio para evolução
Com o uso de estratégias de cooperação e diversidade, os organismos vivos atingem uma estabilidade dinâmica. Como resultado disso, os recursos do habitat podem ser compartilhados de modo que várias espécies possam ser sustentadas pelo mesmo pedaço de terra sem disputas desgastantes. As relações simbióticas entre os seres vivos resultam em um sistema autossustentável em que o todo é muito maior do que a soma das suas partes.

3. Assimilar e usar energia eficientemente
Em quase todas as comunidades, os consumidores de energia são os seres que fazem fotossíntese. Embora usem apenas cerca de 2% da luz solar que chega à Terra, aproveitam-na ao máximo alcançando uma eficiência de 95%. O eficiente sistema de captação de luz solar da natureza é digno de contemplação: as folhas ganham posições mutuamente relativas para que sejam expostas ao máximo de luz, e algumas chegam a girar de acordo com a posição relativa do sol.

4. Otimização ao invés de maximização
Os sistemas maduros priorizam a otimização de processos ao invés da maximização da produção, enquanto nossos ecossistemas industriais ainda estão estagnados no pensamento de altas taxas de produtividade e crescimento, o que faz com que 85% dos itens manufaturados tornem-se lixo. A lição aqui envolve a necessidade da modificação da produção com ênfase na qualidade em vez da quantidade. Ou decidimos de que forma queremos operar ou podemos esperar que o esgotamento de recursos, o colapso ambiental e as montanhas de lixo decidam por nós.

5. Usar materiais de forma parcimoniosa
A natureza usa um design multifuncional, atendendo diferentes necessidades com uma única solução. Usa processos de baixo consumo energético, funcionando com energia solar. Recicla todos os materiais e os mantém em um ciclo fechado de vida-morte-vida. Que melhor inspiração poderíamos ter?

6. Não poluir seu próprio lar
A vida faz mais do que simplesmente manter seus recantos naturais limpos, ela mesma cria as condições necessárias à geração de mais vida. Em geral, somos a única espécie que parece indiferente a esse fato e a nossa insistência em poluir os pulmões e filtros do mundo é a prova da nossa recusa em nos reconhecermos como parte dele.

7. Não continuar vendo a natureza como recurso a nosso dispor
Todos os organismos vivos aprenderam pela sabedoria da herança genética que sabotar os estoques vivos não é uma boa ideia. Inspirados pela natureza, poderíamos parar de usar a natureza como um recurso inesgotável. Não utilizarmos os estoques vivos mais rapidamente do que a sua capacidade de se recompor enquanto encontramos substitutos renováveis para eles é uma solução.

8. Manter um equilíbrio dinâmico com a biosfera
A biosfera é a camada de ar, terra e água que sustenta a vida. É um sistema fechado em que nenhuma matéria, com exceção dos meteoros, é importada ou exportada: tudo o que é retirado das reservas pelos processos da fotossíntese, respiração, crescimento, mineralização ou decomposição é substituído por uma quantidade idêntica desses elementos. Entretanto, a Terra nem sempre foi um sistema fechado: ela levou milhões de anos para desenvolver todos os seus mecanismos ciclicamente coligados. A vida já esteve à beira do colapso outras vezes. Que tal nos inspirarmos em seus processos evolutivos para salvar a vida na Terra mais uma vez?

9. Operar através de ciclos de informação
O colapso do sistema ocorre quando ignoramos as respostas negativas que nos chegam do mundo natural: as anormalidades de reprodução, mudanças climáticas, extinções em massa, e movimentamos as nossas engrenagens assim mesmo. Tiramos do mundo mais do que ele pode repor e despejamos na Terra mais do que ela pode suportar. Esse tipo de desprezo das advertências da natureza tem um único nome: extrapolação de limites.

10. Produzir, distribuir e consumir localmente
A necessidade de consumir recursos locais é uma lição que ignoramos totalmente, em um esforço de consagrar uma economia globalizada sem fronteiras na qual um único produto é montado em uma dúzia de diferentes países e os alimentos (os mesmos que poderiam ser produzidos no terreno ao lado) são embarcadas em caminhões, depois em aviões e navios para partir para terras estrangeiras. Quando separamos produtores de consumidores, os consumidores perdem a noção da origem dos seus recursos e do custo ambiental para fornecê-los. O desmatamento e a destruição nos países do sul global ficam fora do alcance da consciência das pessoas, e estão presentes somente nos livros sobre florestas tropicais e panfletos de turismo abertos em mesas de café.

A sabedoria está em toda parte, e quando aprendemos a olhar ao nosso redor através das lentes da regeneração, conseguimos perceber as soluções presentes diante dos nossos olhos. Enfrentamos os muitos dilemas atuais não porque as soluções não existam, mas porque não as estamos procurando no lugar certo. Está na hora de voltarmos a caminhar na floresta para encontrar as respostas.

Voltando à encruzilhada, em que nos encontramos decidindo que jornada seguir para construção do futuro, nós lá no fundo já sabemos qual o caminho certo. Na intimidade dos nossos genes, nós conhecemos o caminho. No primeiro toque nesse terreno, acessamos memórias ancestrais, de mapas de montanhas, desertos, selvas, mares e leitos de rios que se estendem aos olhos até sumir na curvatura da Terra. Começamos a trilhar esse caminho e entendemos que o mundo é nosso próprio corpo. Se passarmos a operar pensando no longo prazo, teremos uma oportunidade de proteger nosso mundo-corpo, criando condições para que a vida floresça em toda sua pujança.

* Juan Pablo D. Boeira é CDO do Innovation Center, Mestre e Doutorando em Design Estratégico e Inovação pela UNISINOS, Professor de Inovação e Tópicos Avançados de Marketing na UNISINOS, ESPM e PUCRS