terça-feira, 12 de maio de 2026
Relembrar a obra "À Espera dos Bárbaros" de John Maxwell Coetzee
domingo, 28 de janeiro de 2024
Senão neutralizarmos a decadência, o imperialismo líquido e sem sentido, vencerá sobre as nossas vidas
terça-feira, 2 de março de 2021
As minhas mãos
Já abraçaram imensas árvores
Texturas e cascas
Teixos, castanheiros, figueiras, bétulas, faias, as sete palmeiras magníficas do Palácio de Cristal
Abraço ainda ao liquidâmbares e os castanheiros-da-Índia da Fundação de Serralves
Já abraçou imensos Alunos, amigos, familiares e doentes
Já acenderam velas por Tibete, Etiópia, Sudão, Síria, Sara Ocidental, Líbano
Sarajevo, Guerra do Golfo Pérsico e vítimas do 11 de Setembro, Chile e EUA
E velas em memória das vítimas dos atentados bombistas em Paris, Bruxelas e Londres
pedindo Paz
Já fizeram bolos, muitos, pão e cerveja
Já plantei árvores, carvalhos por Valongo, Serra da Freita e Marão
Na minha infância pegava na enxada e plantei morangos, batatas
Semeei favas e ervilhas
Lia e leio atentamente o Seringador
Trepei a árvores, era mais magro e subia a laranjeiras e figueiras
Colhi muitas vezes frutos
laranjas, tangerinas, morangos, uvas, dióspiros, castanhas
Faço as refeições com as mãos
Na minha infância, a minha mãe foi vítima de violência doméstica
O meu pai usava bengala e vergastava a minha mãe
Quantas vezes lhe tirei a bengala e o meu pai caía no chão
Terminando com o pesadelo e o horror
Parti pinhões, avelãs e nozes para fazer o bolo rei
Parti pinhões e nozes e pão de cacete para fazer os formigos
A minha mãe viu o jeito que tinha para desenhar e pedia-me para copiar
Os desenhos naturalistas de revistas de bordados
Quantas vezes enovelei resmas de cordões de lãs e
A minha mãe fazia camisolas
Aplauso vivamente em concertos de rock, indie e música do mundo ao vivo, em espaços abertos e nos Coliseus e na Casa da Música e Meo Arena
Aos vinte anos tocava teclados numa banda de garagem
Os Lilás Postes Mórbidos
Influenciados por The Cure, Joy Division, Bauhaus e Birthday Party
Tocamos em alguns espaços conhecidos no Porto
E bares em Gaia
Dancei e danço coreografias góticas imitando as aves da noite
O mocho-real, a coruja-das-torres
E sei dançar valsa e tango
Já fiz rádio
Na faculdade e no curso de Biologia colhi plantas silvestres para fazer um herbário
Fiz anilhagem de dois grifos e de um abutre-negro
Fiz castelos de areia e cidades medievais na praia com o meu filho
Com ele pegamos e tocamos e sentimos a pele das lagartixas, da cobra-de-água, das rãs
Das verrugas do sapo comum
Pegamos em tartarugas, aranhas, tarântulas e tocamos em golfinhos e focas
Pegamos em búzios e caranguejos-eremitas e devolvíamos ao mar
Ensinei-o a abraçar árvores
Fizemos pizzas caseiras, ensinamos a fazer folares da Páscoa e saladas diversas
Hoje uso ainda muito as minhas mãos
Para comunicar, gesticulo, para acentuar assuntos e ideias e conceitos
Quantas vezes escrevi no quadro escolar
Mapas de conceitos, diagramas, tabelas
Para os meus Alunos
Desenhei imensos acetatos quando só havia retroprojectores
Ensinei os meus alunos a fazer dobras, falhas e interior das células bacterianas,
Células animais e vegetais em plasticina
Depois vieram os computadores
E faço belos powerpoints com animações
E escrevo no computador e projecto no ecrã
As tabelas resumo da matéria leccionada e mais uma vez mapas de conceitos por preencher
Abracei prisioneiras quando dei aulas na prisão da secção feminina de Custóias
Conduzir também me dá prazer, seja de carro, seja de bicicleta
Nadei em vários rios e conheço o Atlântico de lés a lés do meu País e do Norte de Espanha
Nadei em Veneza
A poesia está em mim, mas vai-se embora durante alguns tempos
Escrevi imensos poemas para aniversários ou aniversários de casamentos dos meus amigos e familiares
Poemas e mensagens de Natal
Agora tenho vontade de escrever poemas
As minhas mãos cuidaram dos meus sobrinhos quando eram bebés
As minhas mãos afagaram e alimentaram cães e gatos ao longo destes anos
Recordo os meus cães e a sua alegria em passeá-los e correr no areal da praia
Sempre adoptei cães e gatos. Dois gatos recolhi-os da rua
Uma estava na roda de um pneu de carro
Outra perdida da sua mãe
Participei em manifestações contra os OGM
Empunhei cartazes pela valorização profissional dos Professores
Redigi algumas petições pela preservação do ambiente Assinei imensas quer a nível local, regional, nacional e internacionais
- Raul Brandão (Os Pescadores, Húmus): a atenção ao Portugal profundo, às mãos calejadas, aos frutos, à terra e à dor dos simples. A empatia humana misturada com a observação da paisagem.
- Aquilino Ribeiro: a linguagem telúrica, o conhecimento íntimo da flora e da fauna (Seringador), a ligação visceral às serras do Norte (Marão, Freita, Valongo).
- Mário de Sá-Carneiro e Ângelo de Lima (com o toque gótico): na faceta dos Lilás Postes Mórbidos e na dança gótica das aves da noite, há uma ponte direta com a melancolia, o simbolismo e a decadência poética do início do século XX, desaguando na sensibilidade dos anos 80.
- Sophia de Mello Breyner Andresen: o rigor na nomeação das coisas da natureza (as árvores, a praia, a pele dos animais, o Atlântico de lés a lés) e a exigência de uma justiça poética e ética frente à tirania e à dor.
- Henry David Thoreau (Walden): a ideia da ação direta no mundo - plantar, colher, subir às árvores, conhecer os rios - aliada a uma consciência ecológica, civil e pacifista (acender velas pela Palestina, Tibete, protestar contra OGM).
- Spinoza (Imanência e Pantenaísmo): a perceção de que o sagrado não está num plano distante, mas na própria matéria: na casca do teixo, no sapo-comum, na plasticina das células, na vida animal resgatada.
- Albert Schweitzer (A Ética do Respeito pela Vida): a ideia central de que toda a vida que quer viver deve ser respeitada e cuidada - quer seja a criança, a prisioneira em Custóias, o doente, ou o gato resgatado da roda do carro.
- Albert Camus (O Homem Revoltado / A Peste): a recusa da violência injusta (a coragem física da infância ao retirar a bengala ao pai) e a solidariedade como resposta ao absurdo da dor. Não há passividade: há protesto, apoio a refugiados, abaixo-assinados e ensino em prisões.
- Emmanuel Levinas (A Ética do Rosto e do Toque): Levinas defende que a responsabilidade ética nasce no encontro "frente a frente" com a vulnerabilidade do outro. As suas mãos encarnam isso: o abraço, o afagar, o cuidar de bebés, doentes e idosos.
sexta-feira, 15 de maio de 2020
À Espera dos Bárbaros (2019)
Adiaforização na modernidade líquida
A clássica obra de Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polaco radicado em Inglaterra, aponta e analisa as mudanças vivenciadas pela sociedade atual que atravessa desde o individualismo nas relações de trabalho, de família e comunidade e, indica que o tempo e o espaço deixam de ser absolutos e concretos para serem sempre líquidos e relativos.
Zygmunt Bauman tinha formação marxista e era detentor de uma extensa produção académica dotada de intensas reflexões sobre a sociedade e o mundo contemporâneo. Nasceu numa família judia e, ainda criança, teve de fugir com a família devido ao nazismo, exilando-se na URSS. O filósofo polaco chegou mesmo a combater no Exército Soviético durante a Segunda Guerra Mundial, o que viria mais tarde a ser um dos seus principais campos de estudo.
A posteriori veio a ser expulso do Partido Comunista, num episódio notabilizado pelo antissemitismo. Inicialmente mudou-se para Tel Aviv e, mais tarde, para Inglaterra, onde em 1971 adquiriu a nacionalidade britânica e veio a lecionar na Universidade de Leeds, onde permaneceria durante a maior parte da sua carreira.
Reconhece-se que Bauman foi a voz dos pobres, num mundo revoltado e aviltado pela globalização. No seu último livro intitulado "Viver com o tempo emprestado", publicado em 2009, analisou a situação e os desafios que o mundo globalizado enfrenta, em que tudo, da natureza ao ser humano, se converte em mercadoria.
Analisou a crise dos refugiados, a perda de direitos e a construção de muros nas fronteiras, em vez de pontes, tema que dominou o último ensaio de Bauman publicado no final de 2016, intitulado "Estranhos batendo à porta", no qual aborda o impacto das atuais ondas migratórias.
Ganhou o prémio Amalfi de Sociologia e Ciências Sociais em 1992, o prémio Theodor W. Adorno em 1998 e venceu ainda o prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação em 2010.
Zygmunt Bauman é um sociólogo polaco nascido em 1925 e falecido a 09.01.2017 aos noventa e um anos, tendo-se mantido lúcido e atuante. Publicou mais de quarenta livros, entre os quais a "Modernidade Líquida".
Modernidade Líquida foi publicada no ano 2000, na famosa viragem do século, sendo efetivamente lançada em 2001. Nesta ocasião, o mundo estava em pânico, pois havia diversas previsões de falhas tecnológicas em programas de computador espalhados pelo mundo; esperava-se o tão propalado bug do milénio, ou seja, as máquinas e aplicações informáticas estavam apenas preparadas para executar até 1999, o que exigiria muitas adaptações para que não se instaurasse o caos tecnológico nos diversos setores da vida humana.
O bug do milénio foi um medo coletivo de que os computadores da época não compreendessem a mudança de milénio e passassem a apresentar uma paralisia geral dos sistemas e serviços em todo o mundo.
Desde 1960, os computadores usavam calendários internos com apenas dois dígitos. Depois do ano 99, viria o 00 que as máquinas entenderiam como 1900 ou como 19100, e não como 2000.
Porém, o medo tinha pouco fundamento, visto que muitos computadores já registavam datas em quatro dígitos. Mesmo assim, não se impediu que o pânico se espalhasse pelo mundo fora e que fossem gastos muitos milhares de milhões de dólares em todo o mundo em medidas preventivas.
Na contextualização, constata-se que, durante a década de 1990, existiram crises económicas creditadas à globalização crescente, além de guerras como a do Golfo e nos Balcãs. A internet disseminava um conceito de universo social, criando tribos virtuais que iam desde o consumismo desenfreado até à militância por causas ambientalistas.
O próprio título da obra já classificou a modernidade da sociedade que avança em diversos sentidos, embora seja questionável nas suas atitudes e no seu contexto enquanto sociedade. A liquidez proposta por Bauman advém do facto de os líquidos não terem uma forma, ou seja, são fluidos que se moldam conforme o recipiente no qual estão contidos, diferentemente dos sólidos que são rígidos e sofrem uma tensão de forças para se moldarem às novas formas.
Os fluidos movem-se e adaptam-se facilmente, escorrem entre os dedos, transbordam, vertem e preenchem vazios com leveza e fluidez. Muitas vezes, não são facilmente contidos, como ocorre, por exemplo, numa hídrica e num túnel de metro, lugar onde se podem observar goteiras, fissuras ou uma pequena gota numa fenda mínima. Os líquidos atingem e penetram os lugares, as pessoas, contornam o todo, vão e vêm ao sabor das ondas da conveniência do momento.
A obra traz a análise da liquidez existente em cinco tópicos básicos, a saber: a emancipação, a individualidade, o tempo e o espaço, o trabalho e a comunidade.
O filósofo apontou a questão sobre o conceito de liberdade, questionando se seria uma bênção ou uma maldição. Seria bênção, no sentido de que o indivíduo pode agir conforme os seus pensamentos e desejos, mas, em sentido contrário, cogita-se ser uma maldição, já que recai sobre o indivíduo toda a responsabilidade dos seus atos, ações e opções.
Na modernidade líquida, a hospitalidade dá lugar à crítica, onde se passa do estado de agente passivo para o de agente ativo que questiona e reflete sobre as ações e as razões das coisas e a ação do indivíduo sobre a sociedade e vice-versa.
A sociedade sólida, ou seja, a da modernidade clássica, sendo concreta, estava impregnada de um certo totalitarismo, visto ser rígida, sem resiliência, e não se adaptar às novas formas.
Bauman abordou que o principal objetivo da teoria crítica era a defesa da autonomia, da liberdade de escolha e da autoafirmação humana, do direito de ser e permanecer diferente. Noutros termos, essa hospitalidade à crítica é onde o indivíduo transita em liberdade e está aberto aos questionamentos e reflexões; o indivíduo flui então pela sociedade, pelo tempo e espaço, pode reclamar ao sentir-se prejudicado, reivindicar os direitos e exercer deveres, mas é também responsabilizado pelas ações e reações decorrentes dos seus atos.
A respeito da reflexão sobre a emancipação, Bauman traz a lume o pensamento de Max Weber, que discursava sobre a impossibilidade de se atingir a satisfação plena, porque o momento da autocongratulação e realização completa movia-se demasiado rápido, para mais e mais além, fazendo com que o indivíduo fosse impulsionado para a frente, perseguindo outros objetivos e anseios.
Para Bauman, há duas características que tornam a forma de modernidade nova e diferente: uma que relata o declínio da crença no fim do caminho em que andamos, ou seja, para ele a modernidade é um caminho infindável de oportunidades, desejos e realizações a serem perseguidos continuamente.
A segunda crença cogita sobre a mudança da desregulamentação e a privatização de tarefas e deveres modernizantes, ou seja, a tarefa apropriada ao coletivo, simbolizado na figura da sociedade, que sofreu uma fragmentação para o indivíduo.
Continuar a leitura em: Modernidade líquida, incertezas sólidas
domingo, 19 de janeiro de 2020
Zygmunt Bauman: somos aquilo que podemos comprar
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domingo, 10 de novembro de 2019
Somos inundados de informação e famintos de sabedoria
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