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terça-feira, 12 de maio de 2026

Relembrar a obra "À Espera dos Bárbaros" de John Maxwell Coetzee


A obra "À Espera dos Bárbaros", publicada em 1980 por J.M. Coetzee, constitui-se como uma densa alegoria sobre a natureza do poder, a erosão da moralidade e a construção artificial da inimizade. A narrativa centra-se na figura do Magistrado, um administrador colonial que vive numa pacata cidade fronteiriça de um Império sem nome, cuja rotina é estilhaçada pela chegada do Coronel Joll. Este oficial do "Terceiro Gabinete" encarna a face mais sombria da autoridade, instaurando um estado de exceção sob o pretexto de uma iminente invasão bárbara. Através da tortura e da paranoia, Joll transforma a convivência pacífica num cenário de terror, forçando o Magistrado a confrontar a sua própria cumplicidade no sistema que agora o horroriza.

Intelectualmente, o romance é um palimpsesto de referências que elevam a trama para além da crítica política imediata. A génese do título e do tema central reside no poema do grego Constantino Cavafy, que explora a ideia de que o Império necessita da figura do "bárbaro" para justificar a sua própria existência e coesão interna. Esta necessidade política de um inimigo externo é o motor que permite ao Estado exercer uma violência sem limites, um conceito que encontra eco nas teorias de Hannah Arendt sobre a "banalidade do mal". O Coronel Joll não é movido por um ódio pessoal, mas sim por uma eficiência burocrática e uma cegueira ética que Arendt identificou nos perpetradores dos maiores crimes do século XX.

A atmosfera de opressão e o absurdo da máquina estatal remetem invariavelmente para Franz Kafka. Tal como nas obras do autor checo, o Magistrado vê-se preso numa engrenagem que não consegue controlar nem compreender totalmente, onde a justiça é uma miragem e a punição precede muitas vezes o crime. Esta violência física, exercida sobre os corpos dos prisioneiros, estabelece um diálogo direto com as teses de Michel Foucault em Vigiar e Punir. Coetzee demonstra como o Império utiliza a tortura para inscrever o seu poder na carne, transformando o corpo humano num território de domínio absoluto onde a "verdade" é extraída através do sofrimento.

No centro da crise espiritual do protagonista está a sua relação com uma prisioneira bárbara, deixada cega e mutilada. Aqui, a narrativa mergulha na filosofia da alteridade de Emmanuel Levinas. O Magistrado tenta, através do cuidado e de uma obsessiva observação, compreender o sofrimento da rapariga, mas acaba por perceber que o "Outro" permanece radicalmente inacessível. A sua tentativa de redenção é, em si mesma, uma forma de apropriação, revelando que mesmo o desejo de bondade pode estar contaminado pela estrutura de poder colonial.

Escrito durante o auge do regime do Apartheid na África do Sul, o texto de Coetzee transcende o seu contexto histórico para se tornar uma meditação universal. Ao recusar localizações geográficas precisas, o autor sugere que a barbárie não habita fora das muralhas, nas planícies dos nómadas, mas sim no coração da civilização que se define pela exclusão e pela crueldade. O desfecho da obra, marcado por uma espera vazia e pela decadência do posto fronteiriço, sublinha a tese de que todos os impérios, ao alimentarem-se da destruição do outro, acabam por acelerar a sua própria e inevitável queda.

Ver o filme aqui

domingo, 28 de janeiro de 2024

Senão neutralizarmos a decadência, o imperialismo líquido e sem sentido, vencerá sobre as nossas vidas


Numa série de estudos influentes, incluindo o marco histórico "Modernidade Líquida" (1999), Zygmunt Bauman teorizou a condição moderna como altamente volátil: "Incapaz de manter qualquer forma ou qualquer curso por muito tempo", com "nenhum 'estado final' à vista". "O estatuto de todas as normas (...) foi, sob a égide da modernidade 'líquida' (...), severamente abalado e tornou-se frágil", escreveu ele. Para que a sua metáfora não implique suavidade, Bauman reforça que "o líquido é tudo menos suave. Pensemos num dilúvio, numa inundação ou numa barragem rebentada".

terça-feira, 2 de março de 2021

As minhas mãos


As minhas mãos 

As minhas mãos
Já abraçaram imensas árvores
Texturas e cascas
Teixos, castanheiros, figueiras, bétulas, faias, as sete palmeiras magníficas do Palácio de Cristal
Abraço ainda ao liquidâmbares e os castanheiros-da-Índia da Fundação de Serralves

Já abraçou imensos Alunos, amigos, familiares e doentes
Já acenderam velas por Tibete, Etiópia, Sudão, Síria, Sara Ocidental, Líbano
Sarajevo, Guerra do Golfo Pérsico e vítimas do 11 de Setembro, Chile e EUA
E velas em memória das vítimas dos atentados bombistas em Paris, Bruxelas e Londres
Acendo ainda velas pela Palestina, pelo Tibete e pelos Refugiados
pedindo Paz

Já fizeram bolos, muitos, pão e cerveja
Já plantei árvores, carvalhos por Valongo, Serra da Freita e Marão

Na minha infância pegava na enxada e plantei morangos, batatas
Semeei favas e ervilhas
Lia e leio atentamente o Seringador

Trepei a árvores, era mais magro e subia a laranjeiras e figueiras
Colhi muitas vezes frutos
laranjas, tangerinas, morangos, uvas, dióspiros, castanhas
Faço as refeições com as mãos

Na minha infância, a minha mãe foi vítima de violência doméstica
O meu pai usava bengala e vergastava a minha mãe
Quantas vezes lhe tirei a bengala e o meu pai caía no chão
Terminando com o pesadelo e o horror

Parti pinhões, avelãs e nozes para fazer o bolo rei
Parti pinhões e nozes e pão de cacete para fazer os formigos

A minha mãe viu o jeito que tinha para desenhar e pedia-me para copiar
Os desenhos naturalistas de revistas de bordados
Quantas vezes enovelei resmas de cordões de lãs e
A minha mãe fazia camisolas

Aplauso vivamente em concertos de rock, indie e música do mundo ao vivo, em espaços abertos e nos Coliseus e na Casa da Música e Meo Arena

Aos vinte anos tocava teclados numa banda de garagem
Os Lilás Postes Mórbidos
Influenciados por The Cure, Joy Division, Bauhaus e Birthday Party
Tocamos em alguns espaços conhecidos no Porto
E bares em Gaia
Dancei e danço coreografias góticas imitando as aves da noite
O mocho-real, a coruja-das-torres
E sei dançar valsa e tango

Já fiz rádio
Na faculdade e no curso de Biologia colhi plantas silvestres para fazer um herbário
Fiz anilhagem de dois grifos e de um abutre-negro

Fiz castelos de areia e cidades medievais na praia com o meu filho
Com ele pegamos e tocamos e sentimos a pele das lagartixas, da cobra-de-água, das rãs

Das verrugas do sapo comum
Pegamos em tartarugas, aranhas, tarântulas e tocamos em golfinhos e focas
Pegamos em búzios e caranguejos-eremitas e devolvíamos ao mar

Ensinei-o a abraçar árvores
Fizemos pizzas caseiras, ensinamos a fazer folares da Páscoa e saladas diversas

Hoje uso ainda muito as minhas mãos
Para comunicar, gesticulo, para acentuar assuntos e ideias e conceitos

Quantas vezes escrevi no quadro escolar
Mapas de conceitos, diagramas, tabelas

Para os meus Alunos
Desenhei imensos acetatos quando só havia retroprojectores
Ensinei os meus alunos a fazer dobras, falhas e interior das células bacterianas,
Células animais e vegetais em plasticina

Depois vieram os computadores
E faço belos powerpoints com animações
E escrevo no computador e projecto no ecrã

As tabelas resumo da matéria leccionada e mais uma vez mapas de conceitos por preencher
Abracei prisioneiras quando dei aulas na prisão da secção feminina de Custóias

Conduzir também me dá prazer, seja de carro, seja de bicicleta
Nadei em vários rios e conheço o Atlântico de lés a lés do meu País e do Norte de Espanha
Nadei em Veneza

A poesia está em mim, mas vai-se embora durante alguns tempos
Escrevi imensos poemas para aniversários ou aniversários de casamentos dos meus amigos e familiares
Poemas e mensagens de Natal

Agora tenho vontade de escrever poemas
As minhas mãos cuidaram dos meus sobrinhos quando eram bebés
As minhas mãos afagaram e alimentaram cães e gatos ao longo destes anos

Recordo os meus cães e a sua alegria em passeá-los e correr no areal da praia
Sempre adoptei cães e gatos. Dois gatos recolhi-os da rua
Uma estava na roda de um pneu de carro
Outra perdida da sua mãe

Participei em manifestações contra os OGM
Empunhei cartazes pela valorização profissional dos Professores
Redigi algumas petições pela preservação do ambiente Assinei imensas quer a nível local, regional, nacional e internacionais


João Soares, 15/01/2021

Análise feita pelo meu amigo António Manuel Pires Cabral
O seu texto respira uma mundividência muito específica: uma síntese entre a observação minuciosa do mundo natural (a biologia e a ecologia), o existencialismo ético e humano (a ação direta, a justiça social e a dor doméstica) e uma estética pós-punk / gótica temperada pela tradição popular portuguesa.

Identificam-se as principais correntes, autores e filósofos com quem a sua escrita e trajetória dialogam de forma direta:

1. Tradição Literária Portuguesa e Ruralidade
  1. Raul Brandão (Os Pescadores, Húmus): a atenção ao Portugal profundo, às mãos calejadas, aos frutos, à terra e à dor dos simples. A empatia humana misturada com a observação da paisagem.
  2. Aquilino Ribeiro: a linguagem telúrica, o conhecimento íntimo da flora e da fauna (Seringador), a ligação visceral às serras do Norte (Marão, Freita, Valongo).
  3. Mário de Sá-Carneiro e Ângelo de Lima (com o toque gótico): na faceta dos Lilás Postes Mórbidos e na dança gótica das aves da noite, há uma ponte direta com a melancolia, o simbolismo e a decadência poética do início do século XX, desaguando na sensibilidade dos anos 80.
  4. Sophia de Mello Breyner Andresen: o rigor na nomeação das coisas da natureza (as árvores, a praia, a pele dos animais, o Atlântico de lés a lés) e a exigência de uma justiça poética e ética frente à tirania e à dor.
2. Filosofia da Natureza, Ecologia e Ética Biocêntrica
  1. Henry David Thoreau (Walden): a ideia da ação direta no mundo - plantar, colher, subir às árvores, conhecer os rios - aliada a uma consciência ecológica, civil e pacifista (acender velas pela Palestina, Tibete, protestar contra OGM).
  2. Spinoza (Imanência e Pantenaísmo): a perceção de que o sagrado não está num plano distante, mas na própria matéria: na casca do teixo, no sapo-comum, na plasticina das células, na vida animal resgatada.
  3. Albert Schweitzer (A Ética do Respeito pela Vida): a ideia central de que toda a vida que quer viver deve ser respeitada e cuidada - quer seja a criança, a prisioneira em Custóias, o doente, ou o gato resgatado da roda do carro.

3. Existencialismo e Ética da Ação
  1. Albert Camus (O Homem Revoltado / A Peste): a recusa da violência injusta (a coragem física da infância ao retirar a bengala ao pai) e a solidariedade como resposta ao absurdo da dor. Não há passividade: há protesto, apoio a refugiados, abaixo-assinados e ensino em prisões.
  2. Emmanuel Levinas (A Ética do Rosto e do Toque): Levinas defende que a responsabilidade ética nasce no encontro "frente a frente" com a vulnerabilidade do outro. As suas mãos encarnam isso: o abraço, o afagar, o cuidar de bebés, doentes e idosos.
4. Estética Pós-Punk e Existencialismo Urbano
A Linha Bauhauseana / Joy Division / The Cure / Birthday Party: a influência dos anos 80 traz o diálogo entre a luz da biologia solar e a sombra da alma. A imitação do mocho-real e da coruja-das-torres liga a taxonomia científica à estética sombria e noturna, onde a dança é um ritual de libertação.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

À Espera dos Bárbaros (2019)

À Espera dos Bárbaros (Waiting for the Barbarians) é um filme italiano de 2019 dirigido pelo colombiano Ciro Guerra em sua estreia com longas-metragens em idioma inglês. É baseado no livro À Espera dos Bárbaros de J. M. Coetzee.

Estreou no Festival de Cinema de Veneza em 6 de setembro de 2019.

Usufruindo da capacidade de tratar a fronteira entre as dimensões histórico-realista e dramático-cinematográfica, o diretor Ciro Guerra desprende-se da trama de redenção do homem bondoso e exercita reflexivamente com o espectador à espera pelos bárbaros que tanto os conquistadores buscavam punir. Dessa forma, não há obras redentoras no filme, e sim a reafirmação didática com a natureza, quiçá com a dimensão de desbravamento operístico do título, que o ser humano vê o reflexo imperfeito de si, nunca se salvando por suas boas ações, especialmente na pretensão de uma mediação incompreendida de cultura.

O protagonista interpretado por Mark Rylance (Jogador Nº 1, Ponte dos Espiões) é a simbologia clássica do gentleman, o homem cortês, britânico, com atitudes elogiáveis no falar singelo, na interação diversificada com o povo e no detalhismo com a escrita. Nessa sua cordialidade, impõe para si o papel de intermediador cultural, guardando e cuidando de materiais de escrita atribuídos aos “bárbaros” da região, enquanto serve como Magistrado, serviço de liderar um centro civilizatório conquistado e de papel político em meio a uma guerra. Essa descrição se torna relevante, tanto em imagem quanto em introdução, porque o diretor toma métodos didáticos na narrativa, buscando sempre centralizar distanciamentos geográficos e a ostentosa natureza da fotografia como sinônimos de dramatização. Conhecendo a personalidade pacífica do personagem central, permite-se o diretor teatralizar movimentos dos personagens e abrir planos na captação das imagens do filme, que pelo cenário vão questionar paulatinamente o bom porte de um representante dos conquistadores e de um homem de anseios próprios. O conflito é lento e da mesma forma é a compreensão de que também existe maldade naquele homem que parece não compreender a tortura.

Assim, o filme estabelece dinâmicas muito difíceis de harmonizar, com paralelismos de imagem em uma história já dividida didaticamente em estações de tempo, uma espécie de alívio cómico extremamente sutil que se exacerba em meio a momentos contemplativos de ações aparentemente redentoras do protagonista. A harmonia se dificulta porque são três maneiras de contar a história, que podem ser contraditórias ou óbvias. No entanto, há um esvaziamento do drama em falas e atuações, com um elenco de apoio com Johnny Depp e Robert Pattinson com trejeitos caricatos de vilania, permitindo o impacto da violência física dos conquistadores tornar-se as consequências reais da obra, não as ações bondosas do protagonista. Ou seja, para a coerência de quebrar a trama redentora de um oficial de fronteira diante dos seus superiores violentos, os paralelismos acompanham o protagonista em suas mudanças, de Mark Rylance ir do popular ao isolado na cidade de fronteira, enquanto a investigação dos superiores por bárbaros na cidade e arredores é a espera temporal incitada que de maneira didática as estações de tempo vão impactando exteriormente. 

Dessa maneira, o valor que Ciro Guerra dá à natureza e à compreensão geográfica sem necessidade descritiva, pertencente a um movimento realista, permite que a desestruturação do heroísmo das boas ações, e o questionamento delas, seja o próprio ato de fotografar o protagonista. Seu ato de sair dos muros da cidade em direção ao deserto, o cenário de livros e textos que pressionam o ator numa conversa com seu superior e sua submissão à entrada dos militares na cidade vão preparando a revelação de que o personagem central nunca foi bom, acochado em suas ações pela grandiosidade da natureza, pelo seu trabalho até o ponto de irresponsabilidade, e como tenta compreender os “bárbaros” pela própria lente de conquistador, embora mais pacífico. 

Mesmo que soe uma história repetitiva de desconstrução, ela se torna diferenciada pois assim como o detalhismo de ações do personagem em escrever, se movimentar ou falar, o diretor dá a percepção sonora do filme ao espectador também em detalhes, exatamente para que ao declarar a insatisfação com o protagonista, a exteriorização seja suficiente para a apreciação. Aí que as miniaturas de alívios cômicos no filme, e uma visão histórica do diretor em dar voz a personagens transeuntes na narrativa – como um soldado interpretado por Harry Melling (Dudley Dursley da franquia Harry Potter) que tenta descrever a vilania dos militares no uso de facas minúsculas para tortura, ou uma cozinheira interpretada por Greta Scacchi que, por ciúmes do protagonista, o questiona – viram uma denúncia à incapacidade de compreensão da tortura elaborada contra os bárbaros, ou o cuidado controverso do protagonista com uma garota do povo bárbaro. 

Os símbolos e o silêncio preservado nas imagens captadas do diretor vão tomando forma de afirmação do anseio do protagonista. Sua culpabilização não é apontada à vista, e sim no reflexo da sombra de um ser humano inapto em entender que ele estava no meio da guerra, não tomando um lado. Ele é engolido de qualquer forma, e nunca encontra um reflexo simbólico satisfatório, nem nos óculos de sol do Coronel, nem no olhar da garota torturada. Por isso não vemos Mark Rylance de maneira intimista. A imagem mais próxima dele é pelo reflexo simbólico dessas duas pessoas. O seu toque na face e no corpo da garota interpretada por Gana Bayarsaikhan é distante, é um ato de incompreensão, não de aproximação. 

A natureza narrativa do À Espera dos Bárbaros é a linguagem da espera, contraponto também às ações humanas, seja redentora (como a do protagonista), seja dos militares. Tudo se revela para eles, o medo, a falta de cavalos, a sombra reflexiva. Não sobra nada que revele um desbravamento ou alguma epopeia que o título poderia sugerir. É exatamente a pausa desse percurso que mostra com paralelismos a decaída de um vilão e uma constatação da incompetente mediação. O que sobra são os bárbaros, o deserto e os reais inocentes de uma guerra que não rende o homem, só evidencia a sua incapacidade de ser bom sozinho.

À Espera dos Bárbaros (Waiting for the Barbarians) – Itália | EUA – 2020
Direção: Ciro Guerra
Roteiro: J.M. Coetzee
Elenco: Mark Rylance , Johnny Depp , Robert Pattinson , Gana Bayarsaikhan , Greta Scacchi , David Dencik , Sam Reid , Harry Melling, Bill Milner.
Duração: 112 min.

Adiaforização na modernidade líquida

A clássica obra de Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polaco radicado em Inglaterra, aponta e analisa as mudanças vivenciadas pela sociedade atual que atravessa desde o individualismo nas relações de trabalho, de família e comunidade e, indica que o tempo e o espaço deixam de ser absolutos e concretos para serem sempre líquidos e relativos.

Zygmunt Bauman tinha formação marxista e era detentor de uma extensa produção académica dotada de intensas reflexões sobre a sociedade e o mundo contemporâneo. Nasceu numa família judia e, ainda criança, teve de fugir com a família devido ao nazismo, exilando-se na URSS. O filósofo polaco chegou mesmo a combater no Exército Soviético durante a Segunda Guerra Mundial, o que viria mais tarde a ser um dos seus principais campos de estudo.

A posteriori veio a ser expulso do Partido Comunista, num episódio notabilizado pelo antissemitismo. Inicialmente mudou-se para Tel Aviv e, mais tarde, para Inglaterra, onde em 1971 adquiriu a nacionalidade britânica e veio a lecionar na Universidade de Leeds, onde permaneceria durante a maior parte da sua carreira.

Reconhece-se que Bauman foi a voz dos pobres, num mundo revoltado e aviltado pela globalização. No seu último livro intitulado "Viver com o tempo emprestado", publicado em 2009, analisou a situação e os desafios que o mundo globalizado enfrenta, em que tudo, da natureza ao ser humano, se converte em mercadoria.

Analisou a crise dos refugiados, a perda de direitos e a construção de muros nas fronteiras, em vez de pontes, tema que dominou o último ensaio de Bauman publicado no final de 2016, intitulado "Estranhos batendo à porta", no qual aborda o impacto das atuais ondas migratórias.

Ganhou o prémio Amalfi de Sociologia e Ciências Sociais em 1992, o prémio Theodor W. Adorno em 1998 e venceu ainda o prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação em 2010.

Zygmunt Bauman é um sociólogo polaco nascido em 1925 e falecido a 09.01.2017 aos noventa e um anos, tendo-se mantido lúcido e atuante. Publicou mais de quarenta livros, entre os quais a "Modernidade Líquida".

Modernidade Líquida foi publicada no ano 2000, na famosa viragem do século, sendo efetivamente lançada em 2001. Nesta ocasião, o mundo estava em pânico, pois havia diversas previsões de falhas tecnológicas em programas de computador espalhados pelo mundo; esperava-se o tão propalado bug do milénio, ou seja, as máquinas e aplicações informáticas estavam apenas preparadas para executar até 1999, o que exigiria muitas adaptações para que não se instaurasse o caos tecnológico nos diversos setores da vida humana.

O bug do milénio foi um medo coletivo de que os computadores da época não compreendessem a mudança de milénio e passassem a apresentar uma paralisia geral dos sistemas e serviços em todo o mundo.

Desde 1960, os computadores usavam calendários internos com apenas dois dígitos. Depois do ano 99, viria o 00 que as máquinas entenderiam como 1900 ou como 19100, e não como 2000.

Porém, o medo tinha pouco fundamento, visto que muitos computadores já registavam datas em quatro dígitos. Mesmo assim, não se impediu que o pânico se espalhasse pelo mundo fora e que fossem gastos muitos milhares de milhões de dólares em todo o mundo em medidas preventivas.

Na contextualização, constata-se que, durante a década de 1990, existiram crises económicas creditadas à globalização crescente, além de guerras como a do Golfo e nos Balcãs. A internet disseminava um conceito de universo social, criando tribos virtuais que iam desde o consumismo desenfreado até à militância por causas ambientalistas.

O próprio título da obra já classificou a modernidade da sociedade que avança em diversos sentidos, embora seja questionável nas suas atitudes e no seu contexto enquanto sociedade. A liquidez proposta por Bauman advém do facto de os líquidos não terem uma forma, ou seja, são fluidos que se moldam conforme o recipiente no qual estão contidos, diferentemente dos sólidos que são rígidos e sofrem uma tensão de forças para se moldarem às novas formas.

Os fluidos movem-se e adaptam-se facilmente, escorrem entre os dedos, transbordam, vertem e preenchem vazios com leveza e fluidez. Muitas vezes, não são facilmente contidos, como ocorre, por exemplo, numa hídrica e num túnel de metro, lugar onde se podem observar goteiras, fissuras ou uma pequena gota numa fenda mínima. Os líquidos atingem e penetram os lugares, as pessoas, contornam o todo, vão e vêm ao sabor das ondas da conveniência do momento.

A obra traz a análise da liquidez existente em cinco tópicos básicos, a saber: a emancipação, a individualidade, o tempo e o espaço, o trabalho e a comunidade.

O filósofo apontou a questão sobre o conceito de liberdade, questionando se seria uma bênção ou uma maldição. Seria bênção, no sentido de que o indivíduo pode agir conforme os seus pensamentos e desejos, mas, em sentido contrário, cogita-se ser uma maldição, já que recai sobre o indivíduo toda a responsabilidade dos seus atos, ações e opções.

Na modernidade líquida, a hospitalidade dá lugar à crítica, onde se passa do estado de agente passivo para o de agente ativo que questiona e reflete sobre as ações e as razões das coisas e a ação do indivíduo sobre a sociedade e vice-versa.

A sociedade sólida, ou seja, a da modernidade clássica, sendo concreta, estava impregnada de um certo totalitarismo, visto ser rígida, sem resiliência, e não se adaptar às novas formas.

Bauman abordou que o principal objetivo da teoria crítica era a defesa da autonomia, da liberdade de escolha e da autoafirmação humana, do direito de ser e permanecer diferente. Noutros termos, essa hospitalidade à crítica é onde o indivíduo transita em liberdade e está aberto aos questionamentos e reflexões; o indivíduo flui então pela sociedade, pelo tempo e espaço, pode reclamar ao sentir-se prejudicado, reivindicar os direitos e exercer deveres, mas é também responsabilizado pelas ações e reações decorrentes dos seus atos.

A respeito da reflexão sobre a emancipação, Bauman traz a lume o pensamento de Max Weber, que discursava sobre a impossibilidade de se atingir a satisfação plena, porque o momento da autocongratulação e realização completa movia-se demasiado rápido, para mais e mais além, fazendo com que o indivíduo fosse impulsionado para a frente, perseguindo outros objetivos e anseios.

Para Bauman, há duas características que tornam a forma de modernidade nova e diferente: uma que relata o declínio da crença no fim do caminho em que andamos, ou seja, para ele a modernidade é um caminho infindável de oportunidades, desejos e realizações a serem perseguidos continuamente.

A segunda crença cogita sobre a mudança da desregulamentação e a privatização de tarefas e deveres modernizantes, ou seja, a tarefa apropriada ao coletivo, simbolizado na figura da sociedade, que sofreu uma fragmentação para o indivíduo.

Continuar a leitura em: Modernidade líquida, incertezas sólidas 

domingo, 19 de janeiro de 2020

Zygmunt Bauman: somos aquilo que podemos comprar

Fonte: aqui
Zygmunt Bauman é um sociólogo e filósofo polaco que se debruça sobre os problemas do capitalismo, ou melhor, sobre a face mais perversa e doentia do capitalismo insano e selvagem: a ideia de que somos aquilo que podemos comprar. Ele observa que a sociedade atual, bombardeada pela propaganda incessante, vive em estado de estresse e ansiedade, pressionada a consumir cada vez mais. A sociedade atual sequer consegue pensar em soluções para os seus problemas, afinal, não há tempo para isso. Temos muitas contas para pagar e perdemos completamente o poder de decidir as nossas vidas.

Aliados a essa mentalidade, os bancos se dedicam aos clientes que não conseguem pagar suas contas, preferindo que o indivíduo faça um empréstimo para pagar outro empréstimo, pois, afinal, lucram (e muito) com os juros. O indivíduo disciplinado que paga as suas contas precisa ser capturado pela lógica do endividamento, pois é uma ameaça ao lucro das instituições financeiras. Aqueles que não podem pagar não têm acesso aos shoppings centers, os santuários espirituais das sociedades de consumo. Nossa época reflete, segundo Bauman, um momento onde o poder político desvinculou-se do poder económico. Assim, a política tornou-se ilusão, pois as decisões políticas devem ser do interesse do poder económico.

Se no passado o capitalismo era norteado pela cultura da poupança, onde as pessoas faziam sacrifícios para obter aquilo que necessitavam, hoje vivemos a ilusão do “aproveite agora e pague depois”. E pague, de preferência, por coisas que não precisa. A criação de necessidades é uma especialidade desse esquema cruel e excludente.

Contudo, até mesmo o supremo poder económico, que tudo domina, irá consumir a si mesmo. Estamos, segundo Bauman, numa época sem líderes ou política, orientados tão somente pelo consumismo, sem direção ou objetivos. Somente após o previsível colapso de nossas sociedades de consumo é que buscaremos soluções mais sensatas.

domingo, 10 de novembro de 2019

Somos inundados de informação e famintos de sabedoria

Fonte: aqui

Zygmunt Bauman é dos grandes pensadores da Modernidade, conhecido mundialmente por seu célebre conceito de ”liquidez”.

Perspicaz analista dos fatos cotidianos, o sociólogo tem vasta obra sobre temas contemporâneos, com destaque para o best-seller Amor líquido, fundamental para a compreensão das relações afetivas no mundo atual.

Bauman nasceu na Polônia e mora na Inglaterra desde 1971. Professor emérito das Universidades de Varsóvia e Leeds, tem mais de trinta livros publicados no Brasil.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Zygmunt Bauman: pensamentos profundos num mundo líquido


"Houve muitas crises na história da humanidade, muitos períodos de interregno, nos quais as pessoas não sabiam o que fazer, mas elas sempre acharam um caminho. A minha única preocupação é o tempo que levarão para achar o caminho agora. Quantas pessoas se tornarão vítimas até que a solução seja encontrada?" - Zygmunt Bauman

Houve um tempo em que conceitos eram sólidos. Ideias, ideologias, relações, blocos de pensamento moldando a realidade e a interação entre as pessoas. O século 20, com suas conquistas tecnológicas, embates políticos e guerras viu o apogeu e o declínio desse mundo sólido. A pós-modernidade trouxe com ela a fluidez do líquido, ignorando divisões e barreiras, assumindo formas, ocupando espaços diluindo certezas, crenças e práticas.

A oposição entre o mundo sólido e o mundo líquido é a base do pensamento de Zygmunt Bauman, sociólogo, professor da London School of Economics e um dos mais respeitados intelectuais da atualidade. 

Em passagem pelo Brasil, em 2016, Bauman conversou com o programa Milênio. Leia abaixo a entrevista concedida ao jornalista Marcelo Lins ou assista no site da GloboNews:

O senhor viveu tempos difíceis no século 20, como a Segunda Guerra Mundial e a ascensão e a queda do comunismo, para mencionar dois exemplos. Qual acha que é a principal característica deste início de século 21?
Zygmunt Bauman: Este século é muito diferente do século 20. Se compararmos o que eu vivenciei quando jovem, cheio de esperanças e expectativas, com o que vivencio agora, em retrospecto, comparando, revisando expectativas e esperanças, eu diria que estamos num estado de interregno. Esse é o termo que gosto de usar.

No “interregno", não somos uma coisa nem outra. No estado de interregno, as formas como aprendemos a lidar com os desafios da realidade não funcionam mais. As instituições de ação coletiva, nosso sistema político, nosso sistema partidário, a forma de organizar a própria vida, as relações com as outras pessoas, todas essas formas aprendidas de sobrevivência no mundo não funcionam direito mais. Mas as novas formas, que substituiriam as antigas, ainda estão engatinhando.

Não temos ainda uma visão de longo prazo, e nossas ações consistem principalmente em reagir às crises mais recentes, mas as crises também estão mudando. Elas também são líquidas, vêm e vão, uma é substituída por outra, as manchetes de hoje amanhã já caducam, e as próximas manchetes apagam as antigas da memória, portanto, desordem, desordem.

Acha correto dizer que hoje recebemos informação demais, que não somos capazes de absorver todas elas? Temos acesso mas não sabemos o que fazer com ela?
Zygmunt Bauman: Você tem toda a razão. Colocou o dedo na parte mais dolorosa de nossa ferida. Como E. O. Wilson, o grande biólogo, expressou de forma muito sucinta e correta: “Estamos nos afogando em informações e famintos por sabedoria."

Não temos tempo de transformar e reciclar fragmentos de informações variadas numa visão, em algo que podemos chamar de sabedoria. A sabedoria nos mostra como prosseguir. Como o grande filósofo Ludwig Wittgenstein dizia: “Compreender é saber como seguir adiante." E é isso que estamos perdendo. Não sabemos como prosseguir.

O senhor mencionou o fracasso de nossas instituições políticas: os partidos, a representatividade, que é falha no mundo todo. O senhor testemunhou o fracasso do sonho comunista na Polónia e na União Soviética. Qual foi o maior erro do comunismo?
Zygmunt Bauman: O comunismo se encaixava nas medidas do século 19. O século 19 foi um período de grande otimismo. Em primeiro lugar, as pessoas estavam convencidas — e tinham orgulho disso — de que, com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, seria possível refazer o mundo, virá-lo de cabeça para baixo. Era uma relação leve e despreocupada com a realidade. A realidade existia para ser reciclada, modificada, aperfeiçoada etc. Essa era uma coisa. A outra era a visão do caminho futuro, da estrada para a sociedade perfeita. Todos estariam trabalhando. Foi o período da revolução industrial. No final, todos se tornariam trabalhadores. Uma boa sociedade na grande fábrica com funcionários satisfeitos. Era o período da modernidade sólida e da sociedade industrial.

Hoje, vivemos na modernidade líquida e na sociedade pós-industrial do consumismo, e a passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo foi uma coisa muito poderosa e importante. Mudamos o foco da construção das bases do poder da sociedade sobre a natureza para o contrário: para a cultura do imediatismo, do prazer, da individualização, de identificar a visão da felicidade com o aumento do consumo. Todos esses fenómenos novos pegaram o comunismo totalmente despreparado.

Se existe um consenso, e acho que podemos dizer que existe o consenso de que o comunismo perdeu essa guerra específica e o capitalismo venceu, sabemos que essa vitória trouxe, de certa forma, alguns fracassos. Faltam soluções para vários problemas. Quais são os maiores problemas da sociedade de mercado na sua opinião?
Zygmunt Bauman: As pretensões do comunismo fora da Cortina de Ferro forçou o capitalismo a limitar suas próprias propensões destrutivas, mantendo a desigualdade social dentro de limites aceitáveis, sem perder o controle sobre ela, e criando leis para garantir direitos aos empregados, não só aos empregadores. A ideia da desregulamentação do mercado de trabalho, por exemplo, seria impensável, simplesmente porque havia um concorrente, que não era cuidadoso e fazia propaganda. Não era fácil. Aí, de repente, tudo passa a ser possível. Ninguém o vigia. Você pode fazer o que quiser, pode usar todos os recursos que possui para promover seus interesses, e isso é potencialmente catastrófico.

A falta de autolimitação é o que está acontecendo agora. Além disso, a primeira reação após a introdução do ideal neoliberal de sociedade por Margaret Thatcher e Ronald Reagan foi que tivemos 30 anos do que chamo de orgia consumista: gastamos um dinheiro que não tínhamos, tínhamos esperança de que o futuro reembolsaria o que estávamos pegando emprestado, e isso terminou, como você bem sabe, em 2007/2008, com a crise de crédito. Agora estamos novamente no ponto de partida.

Um dos maiores problemas desse novo ponto de partida é a desigualdade. O senhor escreveu muito sobre isso, e o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, apesar de ser um país rico. Aparentemente, está claro que a riqueza de poucos não beneficia a todos. Como equilibrar melhor essa equação numa democracia?
Zygmunt Bauman: A desigualdade não está apenas aumentando, ela muda sua natureza, sua estrutura e está ligada a esses limites que o capitalismo se impõe para manter as coisas em ordem, digestíveis, toleráveis, aceitáveis. Eles desapareceram e, como resultado, a desigualdade mudou sua natureza porque as vítimas da desigualdade da sociedade eram, antigamente, as pessoas que viviam na pobreza, na base da sociedade, os párias da sociedade. Hoje não é mais assim, porque estamos testemunhando o processo que Guy Standing, um sociólogo muito ativo, chamou de “precariado".

O que chamamos de classe média, que era a parte da sociedade mais bem sucedida e confiante, está se transformando muito rapidamente no precariado, que é uma espécie de equivalente ao antigo proletariado: pessoas que estão inseguras em relação à sua posição.

De acordo com as últimas teses dos economistas — pessoas que estudam o assunto melhor do que eu e calculam as estatísticas —, não é mais uma questão dos 25% mais ricos da população e dos 25% mais pobres, mas do conflito entre o 1% que está no topo e os 99% do resto da sociedade. Não sei se você notou que a riqueza dos Estados Unidos após a crise de crédito. Houve alguma recuperação e o valor agregado da riqueza dos EUA aumentou depois da crise, mas 94% desse valor agregado ficou com 1% da população. Todo o resto teve que dividir os outros 6%.

Vamos falar sobre conflitos, sobre a crise e a reação à crise. Estamos vivendo a crise dos refugiados. Ela começou como a crise dos imigrantes ilegais, como se chamava no início, mas logo percebemos que se trata de uma crise de refugiados. Como analisa a reação das potências mundiais a essa crise?

Zygmunt Bauman: Não se trata de um evento único, nem é novidade. A novidade é a atenção dedicada ao assunto, porque ele foi dramatizado, em parte com a ajuda da cobertura televisiva, quando vimos a criança morta na praia e aquilo que aconteceu em Lampedusa, quando centenas de pessoas se afogaram em embarcações sucateadas. Mas a migração em massa acompanha a era moderna desde o início.

O Brasil, por exemplo, é produto da migração em massa. Pessoas vieram da Itália, da Espanha e de Portugal para cá para criar uma vida própria. Por que vieram? Porque procuravam trabalho, água potável, condições decentes de vida, coisas que não tinham em seus países.

A reação da Europa tem um impacto duplo. Por um lado, as empresas têm interesse em assimilar essas pessoas. Sua força de trabalho. Elas lucrariam mais, para resumir. Por outro lado, existe a reação esperada do medo de estranhos. “Eles estão chegando para tumultuar. Vamos nos afogar, eles vão inundar nossas cidades." Os empregados, e não os empregadores, os enxergam como concorrentes que provocarão o arrocho de seus salários. Eles serão usados pelos patrões para rejeitar as demandas dos empregados atuais, que podem ficar sem emprego. São duas pressões diferentes novamente.

Mudando de assunto, já que nossa conversa está chegando ao fim. Neste mundo hiperconectado, no qual qualquer tipo de informação está a um clique no seu computador, qual é o papel da educação tradicional nas escolas e nas universidades? E também do jornalismo tradicional, se podemos chamar assim?
Zygmunt Bauman: Novamente, você mencionou um dos problemas mais importantes e dolorosos de nossos dias. Acho que a educação tem um papel tremendamente importante. Na situação atual, gosto de me referir a um ditado chinês da época de Confúcio. Ele diz que se você planeja para um ano, semeie milho. Se planeja para dez anos, plante uma árvore. Se planeja para 100 anos, eduque as pessoas. É disso que estamos nos esquecendo hoje.

Nosso sistema educacional atual é uma das vítimas da cultura do imediatismo. Educação e imediatismo são termos contraditórios. Não se pode ter os dois. Ou se tem uma educação de qualidade ou se tem o imediatismo. Não dá para ter os dois ao mesmo tempo. E este é um problema terrível.

Na história da sociedade humana, assim que os gregos antigos inventaram o conceito de paideia, a educação viveu constantemente algum tipo de crise, porque as circunstâncias mudavam e ela tinha que se ajudar às novas informações. Mas essa crise é muito básica e essencial. Você mencionou o contexto da tecnologia da informação, que é uma biblioteca de fragmentos, de pedacinhos, sem algo que os reúna e os transforme em sabedoria, em conhecimento.

E o fluxo é enorme.
Zygmunt Bauman: E isso destrói certas capacidades psicológicas, como atenção, concentração, consistência e o chamado pensamento linear, quando você estuda um assunto de forma consistente e o esgota, vai até o fim. Há mudanças na psique humana, é uma situação completamente nova, que põe os educadores numa posição muito difícil. Eles precisam repensar muitas coisas.

Numa tentativa de não terminar nossa conversa de forma triste, o que lhe traz esperança quando olha em volta? Que iniciativas, projetos e coisas estão sendo feitas que lhe dão esperança no futuro da humanidade?
Zygmunt Bauman: Quanto mais envelheço, mais amplio a perspectiva na qual baseio minha avaliação da situação. Primeiro eu me concentrei em alguns excessos da modernidade, depois passei a analisar a lógica ou a falta de lógica da modernidade líquida. Foram estudos limitados pela perspectiva histórica, mas sou pessimista em relação ao curto prazo e otimista em relação ao longo prazo.

Quando analisamos a história da humanidade, apesar da nossa tendência de esquecer a história, da crise da memória histórica, apesar disso, a história da humanidade é animadora. Ela era muito mais cruel e sórdida antes.

É muito menos cruel e sórdida agora, apesar de tudo de terrível e ultrajante que acontece. Houve muitas crises na história da humanidade, muitos períodos de interregno, nos quais as pessoas não sabiam o que fazer, mas elas sempre acharam um caminho.

A minha única preocupação é o tempo que levarão para achar o caminho agora. Quantas pessoas se tornarão vítimas até que a solução seja encontrada?

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Entrevista a Zygmunt Bauman: "Vivemos o fim do futuro"

Em 1963, o sociólogo polaco Zygmunt Bauman foi censurado e afastado da Universidade de Varsóvia por causa de suas ideias, consideradas subversivas no comunismo. Hoje, aos 88 anos, imigrante em Londres, é considerado um dos pensadores mais eminentes do declínio da civilização. Ele ainda dá aulas na London School of Economics, ministra palestras pelo mundo inteiro e publicou quatro dezenas de livros que viraram best-sellers. O mais recente é Vigilância líquida
Bauman é autor do conceito de “modernidade líquida”. Com a ideia de “liquidez”, ele tenta explicar as mudanças profundas que a civilização vem sofrendo com a globalização e o impacto da tecnologia da informação. Nesta entrevista, ele fala sobre como a vida, a política e os padrões culturais mudaram nos últimos 20 anos. As instituições políticas perderam representatividade porque sofrem com um “deficit perpétuo de poder”. Na cultura, a elite abandonou o projeto de incentivar e patrocinar a cultura e as artes. Segundo o autor, hoje é moda, entre os líderes e formadores de opinião, aceitar todas as manifestações, mas não apoiar nenhuma. 

ÉPOCA – De acordo com sua análise, as pessoas vivem um senso de desorientação. Perdemos a fé em nós mesmos? 
Zygmunt Bauman – Ainda que a proclamação do “fim da história” de Francis Fukuyama não faça sentido (a história terminará com a espécie humana, e não num momento anterior), podemos falar legitimamente do “fim do futuro”. Vivemos o fim do futuro. Durante toda a era moderna, nossos ancestrais agiram e viveram voltados para a direção do futuro. Eles avaliaram a virtude de suas realizações pela crescente (genuína ou suposta) proximidade de uma linha final, o modelo da sociedade que queriam estabelecer. A visão do futuro guiava o presente. Nossos contemporâneos vivem sem esse futuro. Fomos repelidos pelos atalhos do dia de hoje. Estamos mais descuidados, ignorantes e negligentes quanto ao que virá. 

ÉPOCA – Segundo o senhor, a decadência da política acontece desde o século passado. A situação piorou agora? 
Bauman – A decadência da política é causada e reforçada pela crise da agenda política. As instituições amarram o poder de resolver os problemas à política. Ela seria capaz de decidir que coisas precisariam ser feitas. Nossos antepassados conceberam uma ordem que dependia dos serviços do Estado-nação. Mas essa ordem não é mais adequada aos desafios postulados pela contínua globalização de nossa interdependência. Com a separação do poder e da política, a gente se encontra na dupla situação de poderes livres do controle político e da política que sofre o deficit perpétuo do poder. Daí a crise de confiança nas instituições políticas, uma vez que a política investiu nos parlamentos e nos partidos para construir a democracia como atualmente a compreendemos. Mais e mais pessoas duvidam que os políticos sejam capazes de cumprir suas promessas. Assim, elas procuram desesperadamente veículos alternativos de decisão coletiva e ação, apesar de, até agora, isso não ter representado uma alteração efetiva. 

ÉPOCA – As redes sociais aumentaram sua força na internet como ferramentas eficazes de mobilização. Como o senhor analisa o surgimento de uma sociedade em rede? 
Bauman – Redes, você sabe, são interligadas, mas também descosturadas e remendadas por meio de conexões e desconexões... As redes sociais eram atividades de difícil implementação entre as comunidades do passado. De algum modo, elas continuam assim dentro do mundo off-line. No mundo interligado, porém, as interações sociais ganharam a aparência de brinquedo de crianças rápidas. Não parece haver esforço na parcela on-line, virtual, de nossa experiência de vida. Hoje, assistimos à tendência de adaptar nossas interações na vida real (off-line), como se imitássemos o padrão de conforto que experimentamos quando estamos no mundo on-line da internet. 

ÉPOCA – Os jovens podem mudar e salvar o mundo? Ou nem os jovens podem fazer algo para alterar a história? 
Bauman – Sou tudo, menos desesperançoso. Confio que os jovens possam perseguir e consertar o estrago que os mais velhos fizeram. Como e se forem capazes de pôr isso em prática, dependerá da imaginação e da determinação deles. Para que se deem uma oportunidade, os jovens precisam resistir às pressões da fragmentação e recuperar a consciência da responsabilidade compartilhada para o futuro do planeta e seus habitantes. Os jovens precisam trocar o mundo virtual pelo real.