A associação ambientalista Zero pediu hoje um “esforço climático real” face a um relatório da ONU que concluiu que o mundo falhou a meta de manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais.
“Perdemos a oportunidade de evitar a ultrapassagem de 1,5°C. Não podemos perder a oportunidade de impedir um mundo de 2,8°C. Cada décima de grau conta”, salienta a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável em comunicado.
O relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) divulgado hoje refere que o limite de 1,5 graus de aquecimento global já foi ultrapassado e que “com as políticas atuais, o mundo caminha para 2,8°C até 2100”.
A Zero adianta, no entanto, que tal “não significa desistir do Acordo de Paris”, assinado em 2015 na conferência da ONU sobre o clima, com o compromisso de os países do mundo de impedir que as temperaturas a nível global subissem além dos 2ºC em relação à época pré-industrial, e que de preferência esse aumento não ultrapassasse os 1,5ºC.
“Cada décima de grau evitada, e cada ano a menos acima desse limiar, reduzem riscos para a saúde, a água, a produção alimentar e os ecossistemas”, refere a Zero.
Considerando que “mitigação e adaptação são inseparáveis”, a associação defende que, no primeiro caso, “Portugal tem de acelerar a aplicação da Lei de Bases do Clima e do Plano Nacional de Energia e Clima, com metas, responsáveis, orçamentos e resultados verificáveis”.
Ao nível dos transportes, “responsáveis por cerca de 35% das emissões nacionais em 2024”, a associação exige “uma mudança estrutural: mais ferrovia e transportes públicos, menos dependência do automóvel e eletrificação prioritária das frotas de utilização intensiva e do transporte de mercadorias”.
Pede ainda que se combata a pobreza energética e se apoie uma indústria menos dependente dos combustíveis fósseis.
“Na energia, é essencial acelerar a implantação de renováveis bem localizadas e compatíveis com a biodiversidade, reforçar redes, interligações, armazenamento e gestão da procura, e avaliar o abandono do gás fóssil na produção elétrica até 2035”, acrescenta a Zero no comunicado.
Portugal precisa, ao mesmo tempo, “de se preparar para mais ondas de calor, secas, incêndios rurais, precipitação extrema e erosão costeira”, adianta a associação ambientalista, defendendo que “a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030 precisa de financiamento, prazos, metas e integração vinculativa no ordenamento do território”.
A “prioridade global e europeia deve ser a definição de um roteiro justo, calendarizado e financiado para o abandono do carvão, petróleo e gás fóssil, acompanhado pela rápida expansão da energia solar e eólica, da eficiência energética e da eletrificação”.
A Zero recomenda que a União Europeia reforce a execução das políticas climáticas e apoie os países mais vulneráveis, além de levar à 31.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações sobre Alterações Climáticas (COP31), que decorre no próximo mês na Turquia, “resultados concretos, incluindo a concretização do compromisso de triplicar a capacidade renovável e duplicar o ritmo de melhoria da eficiência energética até 2030”.
Numa mensagem sobre o relatório do PNUMA, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirma que “falhar a meta não significa desistir. Ainda podemos mantê-la o mais breve e curta possível - e trazer as temperaturas de volta para menos de 1,5 graus até ao final do século”.

