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sábado, 1 de agosto de 2026

Abrandar ritmo e CEO de IA? Líder da OpenAI mudou opiniões

Numa recente participação num podcast, Sam Altman, o cofundador e CEO da OpenAI, mostra que - em menos de um ano - mudou de opinião em relação a dois assuntos que dizem respeito ao desenvolvimento de Inteligência Artificial.

CEO da OpenAI, Sam Altman, marcou presença no mais recente episódio podcast Invest Like the Best e afirmou que estava na altura de abrandar o desenvolvimento de Inteligência Artificial. As declarações contrastam com aquela que tem sido a posição defendida até aqui pelo líder da empresa responsável pelo ChatGPT.

“Talvez tenhamos de abrandar o ritmo de desenvolvimento de Inteligência Artificial para termos tempo suficiente, enquanto sociedade, para nos adaptarmos a alguns destes novos níveis de capacidade”, afirmou Altman, notando que ainda não sabe ao certo como este abrandamento poderia ser atingido.

A posição é um pouco diferente daquela que Altman defendeu há poucos meses, nomeadamente durante a sua participação na conferência US Infrastructure Summit da BlackRock, que teve lugar em março deste ano.

Nesta conferência, Altman falou sobre o facto de a Inteligência Artificial não ser uma tecnologia muito popular nos EUA, afirmando que está a ser culpada por praticamente todos os problemas - incluindo os despedimentos que têm sido feitos nos últimos meses em empresas tecnológicas.

No entanto, o CEO da OpenAI considerou que era importante seguir em frente no que diz respeito ao desenvolvimento de Inteligência Artificial, apontando que um abrandamento do ritmo poderia significar que os EUA ficariam para trás no que diz respeito à inovação.

“Se não avançarmos tão rapidamente como outros países na adoção [e Inteligência Artificial], penso que perderemos a vantagem que temos por sermos a potência económica que somos”, notou Altman na conferência. “E isso depende da rapidez com que as empresas a adotam. Depende da rapidez com que os nossos cientistas a adotam, da rapidez com que o nosso governo a adota”.

O CEO da OpenAI declarou ainda que “esta é uma oportunidade única em muitas gerações para realmente melhorar a economia” e de “reescrever algumas das regras da sociedade que não estão a funcionar à luz desta nova e incrível fonte de riqueza”.

IA a liderar empresas? Sam Altman volta a contradizer-se
No mesmo episódio deste podcast, Altman voltou a mostrar que mudou de mudança de posição em outro assunto relacionado com Inteligência Artificial. O patrão da OpenAI afirmou em novembro que queria que a empresa fosse a primeira a ser liderada por uma Inteligência Artificial.

Mais ainda, conta o site The Next Web que Altman chegou a afirmar que seria uma vergonha se a OpenAI não fosse a primeira empresa a ter uma Inteligência Artificial como CEO.

“Seria uma vergonha para mim se a OpenAI não fosse a primeira grande empresa a ser liderada por um CEO de Inteligência Artificial”, afirmou Altman em conversa no podcast Conversations with Tyler, em novembro de 2025.

Agora, no podcast Invest Like the Best, Altman reconheceu que, afinal, ninguém quer ser liderado por uma Inteligência Artificial.

“Penso que, no meu caso, por exemplo, o mundo quer saber quem será responsável pelas decisões da empresa, quem será responsabilizado no caso de as decisões serem más e ninguém quer uma IA como CEO”, notou o líder da OpenAI.

Ler mais:
Dois modelos de inteligência artificial (IA) da OpenAI que escaparam autonomamente do ambiente controlado em que eram testados para atacar o site Hugging Face também se infiltraram noutras plataformas, revelou a empresa.

O cofundador e CEO da OpenAI, Sam Altman, foi um dos mais recentes convidados do podcast “Relentless” e admitiu que ficou viciado no TikTok. O que começou com apenas 10 minutos de utilização antes de dormir, acabou por se transformar em várias horas de utilização contínua.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

The New Division & Podsongs - Idols

Melhor som aqui

Letra
[verso1]
Prayers to fill the silence of the void
Notions of control have been destroyed
When enveloped and caressed
Doubt collapses under its duress

[Chorus 1]
It goes on and on and on and on, we go,
We start and stop, we speed and slow
Now we know we're all we ever had
We all worship idols good and bad 

[verso 2]
Preaching to the prophets in the crowd
Heretics and loyals all allowed
Every leader's worshipped like a God
Hanging on the words they offer us

[Chorus 2]
We go on and on and on and on, we go,
We offer up, we cast below
Do we know we're all we ever had?
When we worship our idols good and bad 

O conceito de "Idols" nasceu de uma forma muito curiosa. O Podsongs é um podcast gerido por Jack Stafford onde músicos entrevistam personalidades inspiradoras (filósofos, cientistas, ativistas) e criam uma música inédita baseada nessa conversa.

Para esta faixa, John Kunkel entrevistou o filósofo e teólogo norte-irlandês Peter Rollins. O debate girou em torno da ideologia moderna, do vazio existencial, das contradições humanas e do que Rollins chama de "a tirania da felicidade" (a cobrança social implícita para estarmos sempre bem).

O tema central aborda as contradições humanas, o vazio existencial e aquilo que Rollins designa como a "tirania da felicidade", questionando a tendência da nossa sociedade para transformar líderes, figuras públicas ou conceitos em ídolos, como se fossem divindades capazes de nos oferecer respostas definitivas. Através de uma letra que explora a futilidade da nossa procura por controlo e a constatação de que, no fundo, somos tudo o que temos, a música acaba por ser um manifesto filosófico disfarçado de tema para a pista de dança.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Imbecil , mentiroso e preconceituoso. "Há portugueses que não gostam de trabalhar" - Como disse, Miguel Sousa Tavares?


Se a sua mãe ouvisse estas generalizações simplistas sobre os que menos têm, daria voltas na tumba. Sophia passou a vida a escrever sobre a justiça, a liberdade e a dignidade dos esquecidos, apenas para ver o próprio filho assinar por baixo discursos que estigmatizam quem, infelizmente, tem que recorrer a apoios sociais para sobreviver.

A declaração de Miguel Sousa Tavares não encontra sustentação nos dados estatísticos e estudos oficiais em Portugal. A premissa de que os beneficiários de apoios sociais "não gostam de trabalhar" ou preferem "encostar-se aos subsídios" é contrariada pelas regras do próprio sistema e pelo perfil real de quem recebe estas prestações.

Em primeiro lugar, o Rendimento Social de Inserção (RSI), que costuma ser o principal alvo destas críticas, exige por lei a assinatura de um Contrato de Inserção. Isto significa que qualquer beneficiário apto para trabalhar é obrigado a estar inscrito no Centro de Emprego, a aceitar formação e a responder a ofertas de trabalho adequadas, sob pena de perder o subsídio imediatamente. Além disso, o valor médio mensal desta prestação ronda os 150 a 160 euros por pessoa, um montante de extrema pobreza que fica substancialmente abaixo do salário mínimo nacional, eliminando qualquer incentivo financeiro para a inatividade voluntária.

O perfil demográfico dos beneficiários também desmistifica esta ideia de dependência por preguiça, uma vez que uma fatia muito expressiva destas prestações se destina a crianças, jovens, idosos sem outras reformas ou pessoas com graves incapacidades e problemas de saúde crónicos. No que toca ao argumento de que os subsídios quebram os hábitos de vida em sociedade e criam dependências geracionais, estudos de longo prazo realizados pelo PLANAPP (Centro de Competências de Planeamento do Estado) revelam o oposto: cerca de 80% das crianças que cresceram em agregados familiares dependentes do RSI conseguem, ao atingir a idade adulta, integrar-se com sucesso no mercado de trabalho, deixando de necessitar do apoio estatal.

Por fim, no caso do subsídio de desemprego, importa recordar que se trata de um direito contributivo - ou seja, o trabalhador descontou previamente para a Segurança Social para ter acesso a ele - e que o apoio tem prazos estritos de validade e valores decrescentes no tempo, desenhados precisamente para empurrar o cidadão de volta ao ativo. Assim sendo, embora possam existir casos pontuais e residuais de abuso, as estatísticas demonstram que a esmagadora maioria dos portugueses recorre aos subsídios por motivos de desemprego involuntário, doença ou exclusão social severa, e não por falta de vontade de trabalhar.
Fontes:
1. Saiba tudo sobre o RSI - um apoio essencial para famílias a viver em extrema pobreza 

Outra falácia e paradoxo do Miguel Sousa Tavares no seu podcast.
A expressão "postos de trabalho que os portugueses não pretendem ocupar" descreve um fenómeno económico real, mas que é frequentemente mal interpretado como preguiça ou desinteresse por parte da população local. Na verdade, este desencontro deve-se a um desajuste estrutural entre as condições oferecidas por certas indústrias e a realidade do custo de vida em Portugal.

O principal fator é a barreira dos salários baixos. Setores como a agricultura intensiva, a construção civil, as limpezas e o turismo operam maioritariamente com base no salário mínimo ou em valores muito próximos dele. Com a crise imobiliária e a escalada da inflação, torna-se financeiramente impossível para um trabalhador nacional aceitar um emprego na hotelaria ou na restauração em grandes centros urbanos ou zonas turísticas, uma vez que o ordenado não cobre sequer o custo de um quarto ou de uma casa. Muitos imigrantes acabam por ocupar estas vagas porque, devido à vulnerabilidade à chegada, aceitam condições de extrema sobrelotação habitacional para dividir despesas, algo que os residentes locais não conseguem ou não aceitam replicar.

A par da questão financeira, a penosidade e a rigidez das condições de trabalho desempenham um papel crucial. Funções na agricultura sob estufas exigem um esforço físico extremo sob temperaturas severas, enquanto a restauração e o alojamento impõem horários repartidos, folgas rotativas e uma forte pressão psicológica que inviabiliza a conciliação com a vida familiar.

Por fim, o país vive uma dinâmica de vasos comunicantes no mercado laboral. Ao mesmo tempo que Portugal atrai mão de obra estrangeira para preencher estas funções operacionais e de baixo valor acrescentado, perde continuamente os seus jovens qualificados para o resto da Europa. Um jovem português prefere emigrar para a Europa Central ou do Norte, onde o mesmo nível de escolaridade garante um poder de compra e uma qualidade de vida substancialmente superiores. Portanto, a dependência de trabalhadores estrangeiros não resulta de uma recusa cultural ao trabalho, mas sim de um modelo económico assente em setores que só conseguem sobreviver recorrendo a uma força de trabalho externa disposta a aceitar salários e ritmos que os nacionais já não validam.

sábado, 18 de abril de 2026

Roger Waters escreve carta ao adorável Billy Corgan com recado para David Draiman, dos Disturbed


Durante o programa, Corgan e Draiman conversaram sobre o conflito Israel-Palestina e, em determinado momento, Draiman, que é judeu e já demostrou seu apoio a Israel diversas vezes, disse que daria um soco em Waters, que é pró-Palestina, caso eles se encontrassem.

Após Corgan ter sugerido que o fato de Waters ter perdido o seu pai na Segunda Guerra Mundial foi “o momento decisivo” em sua vida, e que o “trauma” resultante disso o teria tornado “hipersensível” ao conflito na Palestina, David respondeu:

“Concordo… [mas] veja bem, Billy: eu cresci ouvindo Pink Floyd. Eu amava Pink Floyd. Foi uma traição enorme, não só para mim, mas para todos os judeus, quando ele seguiu o caminho que seguiu. E não foi só há dois anos; ele vem fazendo isso há muito tempo. Roger tem uma queda por ditadores — as piores pessoas do planeta, Roger simplesmente se aproxima deles. Ele não tem problema nenhum com isso.”

Em seguida, Corgan perguntou se ele “se sentaria para conversar” com Waters, ao que Draiman respondeu:

“Eu teria que dar um soco nele primeiro, mas sim.”

Depois de David Draiman, dos Disturbed, participar no podcast de Billy Corgan, Roger Waters enviou uma mensagem ao líder dos Smashing Pumpkins: “Ouvi dizer que escreve mensagens em bombas antes de as IDF as deixarem cair sobre civis em Gaza”

Roger Waters endereçou uma carta aberta a Billy Corgan depois de o líder dos Smashing Pumpkins receber David Draiman, dos Disturbed, no seu podcast, “The Magnificent Others”. “Nunca tinha ouvido falar dele, mas parece que ele ouviu falar de mim e que tem um problema comigo pelo facto de eu defender os direitos humanos, particularmente os dos meus irmãos e irmãs em Gaza”.

“Tu, sendo o tipo adorável que és, deste a este pedaço de bosta a oportunidade de clarificar a sua posição”, continua o músico britânico no post de Instagram, “ele é um porco racista psicótico e Nazi. Ouvi dizer que escreve mensagens em bombas antes de as IDF [exército israelita] as deixarem cair sobre civis em Gaza. Está tudo dito”.

A mensagem, na qual o ex-Pink Floyd identifica Corgan, mas também Draiman e os próprios Disturbed, termina da seguinte forma: “Continuarei a trabalhar com todos os meus irmãos e irmãs de todo o mundo num movimento que exige direitos humanos iguais para todos os seres humanos, independentemente da sua religião, etnia ou nacionalidade”.

“Se tu, meu amigo, te perguntas se quero conversar com este cretino detestável… não, obrigado, Billy. A vida é demasiado curta e ele pode continuar a habitar o seu pequeno cantinho no inferno sem o benefício do meu amor e verdade”. No final, deixa um PS, “Disturbed? [perturbado, em português]. Sim! Só um pouquinho!”.

No passado, Draiman chamou a Waters "um homem muito doente" e, durante o concerto dos Disturbed em Tel Aviv, Israel, em 2023, exclamou a partir do palco: "Que se fodam o Roger Waters e todos os seus nazis idiotas do BDS [Boicote, Desinvestimento e Sanções] — todos eles!".

Entretanto, Waters lançou uma audição aberta para encontrar um vocalista para liderar a banda do seu filho, Harry Waters, numa digressão de tributo aos Pink Floyd em 2027.

"You cannot commit genocide in Gaza, invade Lebanon, bomb Iran, Syria, Yemen, and Iraq, violate Geneva and Vienna Conventions, international law, human rights, and state sovereignty, then hide behind anti-Semitism and the Holocaust." - Mohamad Safa

domingo, 12 de abril de 2026

Afonso Cruz - O que a Chama Iluminou


Já tinha lido dois livros dele antes: "O Princípio de Karenina" e "Jesus Cristo bebia cerveja". Adorei os dois livros.
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é um livro que nasce de uma experiência-limite vivida por Afonso Cruz no Chile aquando dos protestos de 2019. Durante uma perseguição em Santiago, o autor escreve: “É desse lugar, em que a morte nos espreitava através do vidro escuro de um blindado, que quero escrever este livro. Dali, onde estava com R., suspenso entre a vida e a morte (…). Este livro nasce de um beco.” (p. 28). É a partir desse quase fim que o livro se abre para uma reflexão mais vasta sobre todos os fins que atravessam a existência.
A experiência pessoal funciona como detonador, mas Cruz não se encerra nela. Pelo contrário: amplia-a, desdobra-a, coloca-a em diálogo com outras formas de desaparecimento. O livro convoca o fim do amor, quando se perde o amado, o marido, o filho; o fim das palavras, quando a linguagem se gasta e já não nomeia; o fim dos povos indígenas, cuja cultura se esbate como poeira ao vento; o fim dos filhos e dos maridos desaparecidos, que as mulheres de Calama procuram com uma persistência que é, ao mesmo tempo, luto e resistência. Cada uma destas formas de fim é iluminada pela mesma chama: a consciência de que tudo é transitório, mas nada se perde totalmente. Até porque como o autor lembra “o fim pode também ser um princípio ou um recomeço (…). (p. 44)
Afonso Cruz cita vários autores que alimentam a ideia de que o fim de algo está na origem da beleza, da poesia, da arte em geral. Segundo Vicente Verdú “ O vazio é o principal luxo da arte (…) A negação, a dor, o mal, o vazio são eminentes criadores. Altamente ativos.” Estas referências surgem como parte de uma reflexão que se quer ampla e dialogante.
Em vários textos, Cruz recupera a ideia primordial de que somos feitos de pó e ao pó regressaremos, não como ruína, mas como continuidade. É aquilo que permanece quando a forma desaparece. O pó revela que o fim não é interrupção, mas transformação. Esta visão, profundamente serena, afasta o livro de qualquer sombra de medo. A morte não surge como ameaça, mas como claridade.
Outro elemento decisivo e que muito me agradou é a erudição do autor, que se manifesta nas citações, nos exemplos convocados, nas vozes que entram no texto como companheiras de pensamento. As referências funcionam como velas que iluminam diferentes ângulos da mesma questão seja ela filosófica, histórica, científica, poética e ampliam a experiência vivida.
O resultado é uma obra de não ficção que se lê avidamente. A escrita, depurada e aforística, agarra o leitor. Há silêncio entre as frases, entre os textos; há contenção; há uma serenidade que surpreende. Mesmo quando fala da morte, Cruz escreve com lucidez. A chama ilumina o fim, sim, mas ilumina também o que fica, o que continua: a memória, o gesto, o amor, a matéria que se transforma... “(…) todos morremos, mas de que lado da morte queremos estar?” (p. 130)
𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é, por isso, um livro sobre o fim, mas também sobre a esperança. É um livro que nasce de um beco, mas abre-se para uma luz maior. Afonso Cruz oferece-nos uma reflexão íntima e universal, pessoal e ética, que transforma o susto em claridade e o desaparecimento em luz.

Saber mais:
Fernando Alvim conversa com Afonso Cruz sobre a eminência do fim, pessoal  e colectivo, daí resultando esta novela-ensaio, reflexão terna e desapiedada sobre o fim das coisas.

domingo, 22 de março de 2026

Pobreza de mobilidade: o que significa e como Portugal a quer eliminar. Não é aceitável uma pessoa ter cinco apps para andar de transportes públicos, é desmotivador


Com apenas 14% dos portugueses a usar transporte público e 66% dependentes do automóvel, Cristina Pinto Dias, Secretária de Estado da Mobilidade, alerta para desigualdades profundas entre litoral e interior, onde há crianças que “não podem ficar à tarde para jogar futebol ou aprender piano porque depois não têm transporte para voltar para casa”.

A resposta passa por reforçar a ferrovia, expandir metros, renovar material circulante e avançar com a alta velocidade, mas também por soluções flexíveis como transporte a pedido e tarifários sociais.

“O transporte público está a perder cota modal e o transporte individual a aumentar. Ou seja, 14% das nossas pessoas anda de transporte público, mas 66% das nossas pessoas anda em transporte individual. O ideal seria o contrário. 88% das nossas pessoas estão concentradas em 40% do nosso território e 12% das nossas pessoas dispersas em 60% do nosso território, o que significa que a política pública de mobilidade não é uma receita única que se aplica a todo o país”, explica a governante.

Cristina Pinto Dias sublinha que o país vive uma “revolução” no investimento público, mas que o grande salto depende da integração tecnológica: “Não é aceitável que uma pessoa tenha cinco apps, uma para andar de comboio, outra de metro, outra de Transtejo.” E acrescenta: “Se eu quero trazer pessoas para o transporte público, tenho que convidar de tapete vermelho: ‘Venha para o transporte público, vai ser bem servido.’

A secretária de estado sublinha mesmo a existência de uma revolução dentro do transporte público, “com metas muito concretas”. E detalha: “Estamos a fazer uma expansão das redes de metro, estamos a comprar comboios novos para o próprio metro. Já aqui foi dito neste podcast também pelo presidente da Transtejo, fizemos uma aquisição de 10 navios 100% elétricos para nos fazer a travessia do Tejo. E sim, nós estamos a fazer um investimento, como não há memória, na ferrovia, resultado de longos e prolongados anos de desinvestimento. Estamos a fazer um investimento só para material circulante, incluindo já a alta velocidade de 1,8 mil milhões de euros.”

A integração da bilhética e da informação em tempo real é, para a Secretária de Estado, o passo decisivo para atrair mais pessoas para o transporte público e garantir equidade territorial. Só depois disso será possível pensar num tarifário verdadeiramente nacional.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Guerras preventivas são proibidas." Ana Gomes diz que ataques de Israel e EUA ao Irão "são completamente ilegais"


Ana Gomes confessou, este sábado, "olhar com surpresa" para os ataques de Israel e dos Estados Unidos da América contra o Irão. Em declarações à TSF, antiga eurodeputada considerou que a ação militar de ambos os países "completamente ilegal".
"É uma atuação da Administração Trump, de Israel e de quem os apoiar completamente ilegal. Guerras preventivas são guerras proibidas no direito internacional", afirmou à TSF Ana Gomes.
A ex-eurodeputada argumenta também que a "desculpa" de uma "guerra preventiva" é "absolutamente ridícula", uma vez que os EUA "estavam em negociações com o Irão".

Os Estados Unidos e Israel iniciaram esta manhã um ataque conjunto ao Irão, que atingiu a capital, Teerão.
O Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que os Estados Unidos iniciaram "grandes operações de combate no Irão" e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou que o ataque tem como objetivo "eliminar uma ameaça existencial representada" pelo regime iraniano.
Washington exige que o Irão cesse o enriquecimento de urânio e limite o alcance dos seus mísseis, que Teerão recusa, aceitando apenas cortes no seu programa nuclear em troca da suspensão das sanções em vigor.
Segundo as autoridades iranianas, os bombardeamentos já provocaram pelo menos 40 mortos e 48 feridos.
O Irão já respondeu, lançando mísseis sobre bases militares norte-americanas de vários países da região.

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A Political Strategy for Degrowth


I agree with what Jason Hickel wrote in a recent blog, that we need a mass political party that would implement a degrowth agenda, and that currently the degrowth movement does not have a political agenda or capability. I also agree with Anitra Nelson, Vincent Liegey and Terry Leahy when they wrote that degrowth is a movement. Degrowth is a movement as much as Civil Rights, Marriage Equality, or the Sunrise Movement were or aremovements whether or not they were organized as political parties.

When we proposed last year that all degrowthers should join forces in solidarity, the very first point of our proposal was to decouple recognition from status and merit because we believed, and I still do, that comradery and understanding should be based on egalitarian principles. This proposal has been received with lackluster understanding and support.

More recently, I have advocated for a synergy of bottom-up and top-down strategy. Bottom-up is close to the horizontal anarchist position, however it follows scales from local to regional and (inter)national, rather than political hierarchies. It means that strategy would start at the local. Conversely top-down means strategy begins at the largest scale, being operationalized by respective large-aim institutions.

Here, I would like to add specificity to the idea of building mass parties which builds on the recognition of the tremendous effort that has been done by degrowth activists and practitioners, many of whom work for free, while also having to make a living. These mass parties need both bottom-up engagement, and top-down policy design. Yes, we have to take power, but we cannot do it without mass engagement. We already know that degrowth is popular and its label is a strength not a weakness as many have remarked already.

The 28% support in the US for the label “degrowth” without a description attached is as meaningful as the concept of “free buses” from Zohran Mamdani, the Mayor-elect of New York. Both concepts need to be elaborated in order to make full sense. Degrowth is not more jargony than “free buses”. It just needs unpacking and after it is unpacked it is as good as “free buses” if not better.

The upcoming degrowth-friendly parties should consider the following:
1.Governance based on qualified sortition (random selection)
Roger Halam, co-founder of Extinction Rebellion, Just Stop Oil, Insulate Britain recently said to Novara Media that he is a strong advocate for sortition and he is confident that people selected at random will rise up to the task. Sortition, which is basically a formation of government through various forms of selection by lottery, has been discussed by many authors. Just to name a few: Against Elections by David Van Reybrouck, Legislature by Lot: Transformative Designs for Deliberative Governance edited by John Gastil and Erik Olin Wright, The Trouble With Elections by Terry Bouricius, and George Monbiot in a Guardian article.

The qualification part would be something determined by the entire collective, from a minimum time spent in the organization or not working in executive capitalist jobs. People who meet these qualifications would be placed on sortition lists from which governance bodies would be selected at random, while observing desirable demographics.

Your Party UK has used sortition for the selection of their inaugural launch conference. Let us be super frank: representative democracy is a failure and elections are a circus. If we want to reform democracy, elections have to be abolished. Getting degrowth done would require a separation of policy writing from policy selection. People who write policy should not be the same who vote on turning policy into law.

I cannot stress this enough: a Leninist-type party ran by a camarilla of degrowth cadres and experts defeats the purpose of the political revolution. The mass party must be of the people, by the people, and for the people with governance by sortition.

2. Running popular platforms hard on limitarian policies.
Free buses, rent freezes, and freehealthcare are policies that can win elections. However, all policy ideas, no matter how good or popular they are, can be co-opted by right-wing media and capitalist elites. Degrowth itself is painted with red scare and is associated with austerity by capitalists. A mass party should lead, loud and clear with the idea that having too much is a really bad idea that carves into the liberties and wellbeing of decent citizens and into the resilience of life on Earth. A mass party must lead with anti-capitalist policy proposals and the degrowth label. Moreover, since degrowth owns such a wide canvas of policy instruments, the ones that hit the right-wing ethos hardest are those from the limitarian space: limits on wealth and rationing.

Universal Basic Income, Universal Basic Services, Job Guarantee, and Work Time Reduction continue to be the most popular policies from the degrowth toolkit. They are not exclusionary but rather should be advanced together in the agenda of a mass party. The Job Guarantee may be the easiest to promote, even if it is at $15 hourly pay as suggested for the US by L. Randall Wray in Understanding Modern Money Theory (2025). In all cases, the mass party must include caps on wealth and forms of material rationing.

3.Running candidates in jurisdictions where centrists often rotate with right-wingers.
In Canada, Mark Carney’s Liberal Party won this year not because people love them, but because center-left and left voters who usually vote for the New Democratic Party (NDP) really hated the Conservatives. Similar story in the UK. However, the NDP is not too friendly to degrowth, since they are trying to sideline an ecosocialist degrowther anti-Zionist candidate from their current leadership race.

In Canada and the UK, there is no real alternative to the centrist status quo that has won elections. If a mass party that leads with degrowth policies ran candidates in jurisdictions like these, they stand real chances at winning local and general elections. Perhaps the Green Party UK and Your Party UK are poised to fill this gap. They should be infiltrated by degrowthers and swayed onto a committed path for degrowth.

We should not have to read more books such as More and More and More by Jean-Baptiste Fressoz about the delusions of the energy transition, or books such as The Long Heat by Andreas Malm and Wim Carton about the perils of techno-optimism, to be finally convinced that owning the degrowth label and the toolkit of degrowth policy instruments requires courage and vision.

4. Joining or creating an international political alliance, such as DIEM25 or Progressive International.
We already have the International Degrowth Network (IDN) but it does not function like DIEM25 or Progressive International. It does not collect membership fees, it does not have paid staff, and it does not run political candidates. Upgrading the sociocratic aims of IDN towards a political organization could be the strategy to be considered. Alternatively, IDN members and degrowthers at large could join DIEM25, Progressive International or various ecosocialist parties and infuse these organizations with degrowth. In all cases, the degrowth label should be owned by those advocating for it, and must be qualified and unpacked as the occasion requires.

5. Leaders should not be tainted with perceptions of elitism and credentialism.
A sortition-based governance structure would weed out opportunists and status seekers. Socialist parties are not immune to corruption and special interests. Only sortition can mitigate these risks. Policy making cannot be, as a matter of principle, an affair run by the elite policy wonks. In the Bouricius sortition model, experts can still offer significant input in policy making, but they would not be elected into leadership positions.

6. Significant effort should be deployed to popularize ethics of sufficiency.
Before sortition is realized, when we accept the compromise with representative democracy based on elections, political leaders would have to recognize ethics of sufficiency that are shared by humans that have not been duped by consumerism and material status signaling. The imperial mode of living is something real, even if we choose to place responsibility on the design of capitalism instead on individual lifestyle choices. The imperial mode of living refers to a way of life in the Global North that relies heavily on the exploitation of resources and labor from the Global South, leading to ecological and social inequalities. It highlights how everyday consumption practices are intertwined with global power dynamics and the unsustainable nature of capitalism.

In this approach, degrowth can be presented as an ethic of liberation from the oppression of material status signaling, and expansion of social agency (more personal freedom in a social context). Work Time Reduction, for example, is a great public relations tool for degrowth but it must be framed in a dematerialized and decommodified economy. The same applies to UBI, UBS, and JG.

7. Nifty memes and bitesize ideas must complement storytelling and policy unpacking.
A mass party should not be afraid to embrace simple ideas that can capture the imagination of the people. Something along these lines: What if all products imported from the Global South had QR codes on them that would take you to a website where you could see the working conditions of those humans who made that thing, their names, their salaries, their living conditions, their health status, how much free time they have with their families? What if the same QR code showed you the wealth of the owners of those companies, their names, and their living conditions? Would you still buy that thing? Would you still want to keep this economic system? Moving the imagination of supporters for the mass party toward empathy and an egalitarian global ethic may be the key towards the much-needed delinking of the Global South from the Global North, as I understand them in their geographical sense.

8. Designing policy that aims at the fundamental causal structure of capitalism.
In the bottom-up vs top-down integrative approach, the bottom-up part is experiential and the top-down is structural. The mass parties must offer the experience of a new kind of politics and society, by actually showing up for local causes, listening to its members and citizens at large, and being influenced by them via crowd-sourcing policy proposal. I have suggested a tool for such purpose in the form of a crowd-sourced policy cloud.

Mass parties should be friendly and welcoming, not exclusionary and dogmatic. At the same time, they must aim at redesigning the structure of the economy by attacking and dismantling capitalist hierarchies, by decoupling power from property, and by halting the dispossession of private and common property by capital. Even if Universal Basic Income, Universal Basic Services, Job Guarantee, and Work Time Reduction were all implemented, they may remain confined within national borders. Decolonisation and delinking must also be at the center of strategy.

Where would these mass parties start
To conclude, where would these mass parties start? In which country? In Romania, my country of origin, where the far-right party leads in polls by close to 40% and where there is no party on the left, not even center-left? In Germany, France, Italy? In India or China? Once we deploy the heavy anchor of reality we are hit with terrifying apparent impossibilities. The answer is all of the above, with various caveats. Some countries have parties that may be swung further towards degrowth. Others need the invention of new parties from scratch, such as Romania and Canada. In all cases, a political strategy for a mass party must emerge from the mass of people that it is supposed to serve.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Conselho Europeu chega a acordo para apoio de 90 mil milhões à Ucrânia



90 mil milhões para mais guerra. Uma loucura de dinheiro que vai sair do sangue dos cidadãos contribuintes europeus. O que se contará no final será mais destruição e morte de inocentes.

Este «postal de Natal» em forma de caricatura denuncia o pior de nós humanidade. Mais uma vez enfeitamos o presépio de hipocrisia e de malvadez como se fossem valores ou gestos humanizados e humanizantes.

Dizem-nos que não há dinheiro para a saúde, para a educação, para vencer a pobreza e a fome que ainda há neste mundo, mas na hora da verdade, como que por obra de um milagre, passa a haver dinheiro para armas, guerras e outras malvadezes de seres humanos contra seres humanos.

Eu deixei de gostar menos do natal não por aquilo que dele recebo, renovação da vida e da criação inteira, mas pelo que a rama que o Natal suscita de vazio quer em palavras quer em gestos para a ocasião só para ficar bem na imagem e no contexto folclórico que nos rodeia.

Eu queria ser otimista, mas a realidade não me permite, só apenas o sonho ideal do Natal me oferece alguma esperança.

Enfim, pensemos no quanto nos vai custar este valor astronómico que os líderes europeus «pariram» neste Natal, 90 mil milhões para armas e mais guerra.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Nuno Loureiro era referência mundial em fusão nuclear e o seu trabalho poderia mudar os rumos da energia limpa


A misteriosa morte de Nuno Loureiro é uma perda enorme para o futuro e para o combate à crise climática. O português trabalhava na criação de energia limpa e redução das emissões de carbono. Tinha sido nomeado diretor do prestigiado MIT - Plasma Science and Fusion Center.

Loureiro era uma figura central na pesquisa global de fusão nuclear, área vista como uma das maiores apostas para energia limpa e abundante no futuro. Seu trabalho ajudou a avançar o entendimento sobre reconexão magnética, turbulência em plasmas e confinamento de partículas, temas críticos para viabilizar reatores de fusão como o ITER e projetos privados ligados ao MIT.

O corpo encontrado morto e baleado em casa permanece ainda uma incógnita e as fake news
Nuno Loureiro não era judeu
Nas redes sociais, logo a seguir ao trágico assassinato do cientista português Nuno Loureiro, surgiram de imediato alegações de que era judeu sugerindo alguma motivação que tivesse a ver com isso. Sabe-se agora que uma repórter foi junto do prédio onde mora a família Loureiro e verificou que estava enfeitado por ocasião da Festa das Luzes judaica (Chanucá ou Hanucá) deduzindo que fosse a dele. Não era; ele tinha vizinhos judeus, incluindo uma senhora de idade a quem por vezes ajudava a subir as escadas com as compras e que até já falou para a imprensa. Também vi a fotografia de uma janela com um letreiro de apoio a Israel, mas creio que nem era a mesmo prédio, embora na mesma rua. De qualquer forma não era o apartamento dele. Isso está tudo confirmado, incluindo por fontes americanas.
Também puseram a correr tweets de um tal Nuno Loureiro com referências ao Hamas, que não é ele, vê-se perfeitamente pela fotografia. Loureiros são aos milhares, não será difícil encontrar Nunos.
Posto isto, acabei de ver um artigo de opinião do Observador sobre o tema, assumindo investigações de Israel que já metem o Irão e tudo. Também vi contas israelitas e iranianas a citarem a pseudo- origem judaica desta mente brilhante que, tragicamente, se perdeu. Ou seja, uma reportagem com informações falsas deu origem a um sem fim de desenvolvimentos sem sentido. Entretanto, quer amigos próximos de Nuno Loureiro, quer colegas do MIT desmentiram quer a origem judaica quer que tenha emitido qualquer opinião pública sobre Israel ou Palestina.
As causas do horroroso assassinato são, até ao momento desconhecidas, mas há uma certeza: por ser judeu (ou militante pró-Israel) é que não foi e a sua esposa é Portuguesa. Por favor, não escrevam disparates nos jornais! Nuno Loureiro deixa mulher e três filhas, segundo notícia logo no 1.° dia, a mais nova terá assistido a tudo

Comoção internacional e impacto no meio científico
A morte de Nuno Loureiro repercutiu rapidamente entre pesquisadores, universidades e instituições científicas. Além de diretor, ele era visto como um articulador de ideias e projetos que buscavam avançar a compreensão da fusão nuclear, uma das grandes apostas para a transição energética do planeta.

A sua ausência deixa um vazio não apenas administrativo, mas intelectual. Projetos em andamento, colaborações internacionais e formações de novos pesquisadores perdem uma liderança considerada fundamental.

Um legado que ultrapassa fronteiras
Mais do que cargos ou títulos, o legado de Nuno Loureiro está ligado à construção de conhecimento em uma área decisiva para o futuro da humanidade. A fusão nuclear, estudada por ele ao longo de décadas, representa a promessa de uma fonte de energia limpa, segura e sustentável.

No meio da tragédia, permanece o impacto de sua contribuição científica, que continuará presente em pesquisas, artigos e na formação de novas gerações de físicos ao redor do mundo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Morreu a escritora e bióloga Clara Pinto-Correia


A escritora e bióloga Clara Pinto Correia foi encontrada sem vida. O presidente da República lamentou a morte da autora e recordou a sua "inteligência" e "brilho".

Clara Pinto Correia morreu aos 65 anos, confirmou esta terça-feira a Editora Exclamação que publicou o seu último livro, Antares, em junho do ano passado.

Segundo o Correio da Manhã, a bióloga, escritora e professora universitária foi encontrada morta em casa em Estremoz esta manhã.

O Presidente da República já apresentou “os seus afetuosos sentimentos” à família, amigos e admiradores de Clara Pinto Correia e disse ter ficado “consternado pela sua partida prematura”.

“Clara Pinto Correia juntava à alegria de viver, uma inteligência e um brilho que se expressaram na intervenção oral e escrita, no magistério científico e na comunicação com os outros”, lê-se numa nota no site da Presidência. Clara Pinto Correia era licenciada em Biologia e doutorou-se em Biologia Celular.

“Não deixou nunca ninguém indiferente. Daí o sentido de ausência por todos partilhado neste momento”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa.

Clara Pinto-Correia é a autora do romance Adeus Princesa, publicado aos 25 anos e com o qual ganhou notoriedade.

Destacou-se tanto ao nível das ciências, como da literatura, tendo ainda sido cronista, jornalista, apresentadora e até atriz, no filme "Kiss me" (2004), de António Cunha Telles. E algumas polémicas.

A autora Clara Pinto Correia esteve presente no podcast «Mesa para Dois» da Antena 1 - RTP. O foco da conversa com João Gobern foi a obra «Antares», mas também a vida da autora enquanto escritora e jornalista.

A autora foi também entrevistada na Prova Oral, de Fernando Alvim.


Tertúlias célebres
Que morte tão prematura. Os meus sentidos pêsames à família e amigos.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Pouring Literal Gasoline on the Flames of Hate


It’s a mug’s game to try and figure out the lowest point of the Trump presidency, because he’s certain to go lower still, often in a matter of hours.

Still, yesterday for me can’t pass without comment, because it so perfectly reflects the hideousness of our moment. The picture above shows a circle of white people gathered around the president, listening to him rant about Somali-Americans. The day before he had called them “garbage,” and he was taking up the theme again, with vigor. Somalis had “destroyed Minnesota” and “destroyed our country.” The “Somalians should be out of here,” he said. I have tried to go back and at least as far as Woodrow Wilson and I don’t think any president has said any thing as clearly racist while in office, and I was not alone. Alvin Tillery, at Northwestern, told Reuters yesterday that Trump is “absolutely unique” among modern presidents in his racism—Richard Nixon and Ronald Reagan made “thinly veiled” racial attacks but Trump has no interest in veils, nor do his supporters. His press secretary Karoline Leavitt called his remarks “amazing” and an “epic moment;” J.D. Vance, when the president was ranting about garbage the day before, banged the cabinet table to show his raucous appreciation. Let me say plainly—this is piggish behavior. One of my my most beloved colleagues is a Somali-American from Minnesota; she has more love, compassion and character in her little finger than our president has in his bloated sack of a body. He is simply a bad man, who—feeling a little cornered—heads for the hate that feeds his soul.

But what about those people gathered around him in the Oval Office? Therein lies a tale.

As it turns out, they were automobile executives, joining Trump for a happy moment where he told them that gasoline would be the fuel of the future. As he explained in his usual thoughtful manner

The greatest scam in American history, the Green New Scam, is a quest to end the gasoline powered car. This is what they wanted to do even though we have more gasoline than any other country by far.

It should surprise no one that these auto executives stood there simpering while the president launched into his racist diatribe. Black workers have, of course, been central to Detroit’s success. They faced discrimination from the start—among other things they were often sent to work in the fume-filled paint rooms of the big plants—but still they persevered. Detroit was eventually home to the country’s biggest branch of the NAACP; Dr. King previewed his I Have a Dream speech in a wild June day in Detroit in 1963, with Rev. C.L. Franklin, best known now as Aretha’s dad, presiding over much of the action. In the wake of George Floyd’s murder, the chairman and CEO of Ford issued a statement saying “we cannot turn a blind eye” to racism, but that’s just what current Ford CEO Jim Farley, and all the other executives in that room, did yesterday.

But perhaps it might surprise some that they were standing there applauding as Trump rolled back fuel economy standards, from 50 miles to the gallon by 2035 under the old rules to about 35 miles a gallon. Those higher mileage standards were the tool the Biden administration was using to help nudge Detroit towards electric vehicles; without them, it will almost certainly backslide towards irrelevance. That’s because they will slow down their process of innovation; as the Times put it, the new policy

“frees automakers to sell more pickups and sport utility vehicles, which are usually much more profitable than smaller cars. It will be difficult for carmakers to resist pressure to sell these gas guzzlers.”

Here’s Lenny LaRocca, who leads the automotive practice at consulting firm KPMG:
“I would anticipate that more focus would be on the larger S.U.V.s and pickup trucks.”

So—more gas for consumers to buy (the cost of owning an EV is far lower than the cost of owning an internal combustion car), more carbon and particulates in the air, more people being run over by absurdly sized vehicles.

And much less chance that Detroit will ever be a leading force in the auto industry again. That was already seeming unlikely: China’s carmakers grow more dominant by the quarter. But the IRA support for EVs was the last real possibility, an infusion of funds to help underwrite the retooling for the world to come. But instead of fighting for that, these executives have truckled to the president, and sold the future of their companies for a few more years of turning out Escalades.

At some level these guys know what they should be doing. Jim Farley , the Ford guy who was making jokes with the president yesterday? In the fall of 2024 he said he’d been driving a Xiaomi Speed Ultra 7 for six months, and that it was “fantastic.” “I don’t want to give it up,” he added. Fourteen months ago he told the Journal that the Chinese automakers were an “existential threat” because their cars were so good. “Executing to a Chinese standard is going to be the most important priority,” Farley said.

But now that won’t happen, because these guys were more cowed by a racist president than by their Chinese competition. By the time another president with more sense makes it to the White House, the Chinese “juggernaut” (Farley’s word) will have had three more years to build up its lead; Detroit will be choking on its dust.

Hey, but at least we can tell ourselves that we’re cool in a retro kind of way. Let’s bring in another man in that picture, Sean Duffy, Trump’s Transportation Secretary, the guy right behind Trump who looks like he’s dressing for his part in Mad Men. (Gotta love the razor thin pocket square). Last month was admonishing airline passengers who dressed too comfortably; the result was the #pajamaresistance movement. Yesterday he was celebrating the new extra-pollution rules with this notion:

“This rule will actually allow you to bring back the 1970s station wagon. Maybe a little wood paneling on the side.”

Duffy’s eager to return to the 70s; Bobby Kennedy wants us back in the pre-vaccine 1940s; Trump wants to talk like a 19th century slave-trader.

The rest of us, who would like to participate in the future with the balance of planet earth, have a lot of work to do in the year ahead. Let us look on the abased truckling of the auto executives and resolve to not stay silent ourselves; we’ve got eleven months to win the midterms and break the political back of this retrograde ugliness. If you’re looking for some ways to join in, check out the work we’re doing at Third Act.

In other energy and climate news:

+ New reporting from Europe on “how a secretive alliance of eleven large multinational enterprises has worked to tear down the EU’s flagship human rights and climate law, the Corporate Sustainability Due Diligence Directive (CSDDD).” As David Ollivier de Leth reports

The companies, most of which are headquartered in the US and operate in the fossil fuel sector, aimed to “divide and conquer in the Council”, sideline “stubborn” European Commission departments, and push the European People’s Party (EPP) in the European Parliament “to side with the right-wing parties as much as possible”.

Chevron and ExxonMobil were in charge of mobilising pressure against the CSDDD from non-EU countries. The Roundtable companies endeavoured to get the CSDDD high on the agenda of the US-EU trade negotiations and also worked on mobilising other countries against the CSDDD, in order to disguise the US influence.

Roundtable companies paid the TEHA Group – a think tank – to write a research report and organise an event on EU competitiveness, which echoed the Roundtable’s position and cast doubt on the European Commission’s assessment of the economic impact of the CSDDD.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O dia em que um filósofo se irritou e salvou a sua vida: Espinosa, o autor judeu português que vivia à frente do seu século XVII


Um dos mais influentes historiadores do Iluminismo, Jonathan Israel, professor britânico que integrou o Institute for Advanced Study de Princeton, publicou recentemente “Spinoza, Life and Legacy”, uma impressionante biografia de Bento Espinosa, a quem Israel atribui o título de verdadeiro fundador do Iluminismo Radical — corrente filosófica que lançou as bases das ideias modernas de democracia.

Baseando-se nas mais de 1300 páginas desta extensa obra, Rui Tavares detém-se num episódio que Israel optou por omitir: aquele em que Espinosa, ao confrontar um crime bárbaro de motivação política, revela uma faceta intensamente humana e apaixonada, perdendo as estribeiras.

Que evento terá provocado tamanha irritação no autor do “Tratado Teológico-Político”? Neste episódio, somos convidados a redescobrir a biografia, o pensamento e a pertinência do legado filosófico e político de Espinosa, trazendo à luz uma reflexão que ressoa nos desafios contemporâneos.

O Episódio: o massacre dos Irmãos de Witt
O evento ocorreu em 1672, o "Ano do Desastre" para a Holanda. O país estava a ser invadido pela França e pela Inglaterra. A turba enfurecida e manipulada por fanáticos religiosos culpou os líderes liberais do país, Johan e Cornelis de Witt, que eram amigos e protetores de Espinosa, tendo sido eleito  Príncipe de Orange - Guilherme III
Os irmãos foram arrastados por uma multidão linchadora em Haia, assassinados de forma bárbara e os seus corpos foram mutilados (reza a lenda que partes foram inclusivamente comidas pelos agressores).
Ao saber do horror, Espinosa — que raramente perdia a compostura — teve um surto de indignação. Preparou um cartaz onde escreveu:

"Ultimi Barbarorum" (Os Últimos dos Bárbaros)

Ele pretendia levar o cartaz até ao local do massacre e exibi-lo diante da multidão enfurecida. Teria sido um suicídio certo. O que salvou a vida de Espinosa foi o seu senhorio que, percebendo o perigo, trancou a porta da casa à chave e impediu o filósofo de sair. Graças a essa tranca, Espinosa viveu mais cinco anos para terminar a sua obra-prima, a Ética.


O pensamento de Espinoza
O pensamento de Espinosa exerce um fascínio duradouro sobre intelectuais de diversas áreas devido à sua visão revolucionária da realidade e da natureza humana. O ponto central da sua filosofia é a ideia de que Deus e a Natureza são a mesma coisa, uma substância única e infinita que segue leis necessárias, o que remove a figura de um Deus justiceiro e coloca a racionalidade no centro da existência. Esta perspectiva atraiu figuras como Albert Einstein, que afirmava acreditar no "Deus de Espinosa". Além disso, o filósofo substituiu a moral baseada na culpa e no pecado por uma ética da alegria e da potência, onde o bem é aquilo que aumenta a nossa capacidade de agir e pensar, enquanto o mal é o que nos diminui. Ao defender que a liberdade nasce da compreensão das causas que nos determinam e ao ser um pioneiro na defesa da democracia e da liberdade de expressão, Espinosa tornou-se o filósofo da libertação intelectual e emocional, mantendo-se atual tanto na ciência como na política contemporânea.

sábado, 11 de outubro de 2025

La catastrophe d’un monde à +3°C : le rappel glaçant de Jean Jouzel, ancien vice-président du GIEC


Quem é Jean Jouzel?
• Vencedor do Prémio Nobel da Paz 2007 com a hashtag IPCC.
• Cientista empenhado, especialista nas relações entre as emissões de GEE e o aquecimento global.
• Autor e orador, defende uma transição ecológica urgente e eficaz.

Neste episódio, descobrirá:
  1. O papel fundamental das empresas no combate às alterações climáticas.
  2. Porque é que alcançar a neutralidade carbónica antes de 2050 é uma necessidade.
  3. Os limites do ultraliberalismo face aos desafios ambientais.
  4. Gerir as alterações climáticas perante as inverdades dos céticos do clima.
  5. Caminhos concretos, como um preço rigoroso do carbono ou a deslocalização.
  6. Os principais obstáculos a ultrapassar para atingir os objetivos do Acordo de Paris.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Documentários de Crime Real: sugestões imperdíveis


O documentário Número Desconhecido: Catfishing na Escola tem despertado o interesse dos fãs de histórias reais desde a sua estreia na Netflix, a 29 de agosto. O filme acompanha o desenrolar de uma investigação policial que tem início após uma adolescente de 13 anos começar a receber diversas mensagens com ameaças e ataques vindos de um número de telemóvel desconhecido.

A história ganha contornos assustadores quando o FBI consegue, finalmente, descobrir quem era o autor por trás das mensagens de texto recebidas por Lauryn e pelo seu então namorado, Owen. Se já conheces a identidade do culpado e queres ver mais filmes ou séries documentais do mesmo género, apresentamos cinco opções igualmente perturbadoras:

Este documentário conta uma história que parece saída de um guião de Hollywood, mas é pura realidade. Após mais de 40 anos de separação, o conceituado chef britânico Graham Hornigold reencontra Dionne, uma mulher que afirma ser a sua mãe biológica e que aparenta ter posses. No entanto, nos meses seguintes, o que seria o reencontro de sonho transforma-se numa burla financeira minuciosamente arquitetada.

Lançado em abril de 2025 este documentário lança luz sobre o mundo obscuro dos influenciadores infantis e as perturbadoras alegações de abuso nesta realidade. O foco principal é a história de Piper Rockelle e da sua mãe e agente, Tiffany Smith.

O documentário revela um caso de catfishing que durou cerca de nove anos, em Inglaterra. Depois de uma amizade online se transformar em amor, Kirat decide investigar até descobrir a verdade sobre o seu misterioso noivo, Bobby. O relato é inspirado no famoso podcast "Sweet Bobby".

Em meados dos anos 2000, quando a internet e a cultura digital ainda davam os primeiros passos, algumas fãs da dupla pop Tegan and Sara começaram a receber e-mails supostamente enviados por Tegan Quin. Algumas pessoas responderam e as trocas de mensagens tornaram-se laços de amizade ou algo mais, incluindo o envio de fotos, músicas inéditas e acesso a informações pessoais das irmãs Quin durante anos. Na verdade, as mensagens vinham de um stalker que passou mais de 15 anos a roubar a identidade de Tegan.

Hunter Moore, o autoproclamado “rei da pornografia de vingança”, ganhou fama ao criar um site especializado na divulgação de imagens explícitas de homens e mulheres sem autorização. A série narra a história da sua detenção após a luta intensa de uma mãe decidida a proteger a sua filha.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Reinterpretar o fogo num tempo que extraiu dele um novo Adamastor


Este país, que durante séculos se pensou pelo mar, hoje vê-se encerrado pelo fogo, e com a extensão crescente da área ardida, se tantos vulgarizam o apelo da indignação, fica claro como esta apenas serve para ocultar um ajuste de contas, uma consciência da realidade que emerge pelo fogo, lavrando a cada verão como o grito de um território e de uma população abandonados

Dantes era o mar, esse elemento de expansão e ligação com o mundo, espelho convulso que nos abismava diante do desconhecido, um horizonte líquido e que prometia passagem, mas se este limite aberto recuou para a margem da memória, hoje é a orla flamejante que devora pinhais e eucaliptais a cada verão e nos convoca para um espectáculo de impotência e despossessão, é o fogo o elemento que mais nos acossa, capturando-nos, dançando ao nosso redor e pintando um inferno em cerco. Se o mar foi, outrora, uma promessa e um sustento, se nos treinou para a distância, para o conhecimento dos ventos, do risco e da deriva, desse antigo mar da História o que resta? Eduardo Lourenço notou como este banhava já «sem paixão o promontório sacro, donde outrora investimos o Desconhecido para hoje ainda, por esse gesto, termos no silêncio expectante de uma memória que nos julga na sua luz imperecível um rosto e um nome que são os nossos por nós sermos deles». Outro elemento reemerge agora para nos entregar a esse resíduo final dos tempos, e conseguimos ouvir-lhe o murmúrio sobre a terra, os picos desses fogos, o ar que de súbito nos enclausura. Se antes nos pensávamos pelo mar, hoje parece ser o fogo que pensa em nós, pensa por nós, nos força a imaginar um mundo em que já não controlamos nada, mas somos o alvo constante da predação de elementos sobre-excitados, que avançam sobre nós como titãs, arrasando tudo à sua passagem. O fogo deixa, assim, de ser uma arma, a nossa primeira técnica ou indústria, e liberta-se dessa chama que se deixava contemplar, tornando-se uma muralha móvel, inferno imediato, que atravessa aldeias e compromete tudo. Parece, assim, romper com esse delírio empobrecido, essa lúgubre fantasia do quotidiano, e instala um excesso de realidade que consome a própria imaginação. O fogo deixa de ser símbolo e torna-se destino.

O historiador do ambiente Stephen J. Pyne diz que, num clima que era já propício a incêndios, as alterações climáticas e as mudanças no uso da terra, nomeadamente através da agricultura intensiva e de outras formas de exploração que apenas acumulam combustível, entrámos na era do Piroceno. Pela leitura do livro com este mesmo título, publicado entre nós pela Livros Zigurate, com tradução de Sara I. Veiga, fica claro que não se trata de um termo ostentoso ou de uma metáfora escandalosa, mas serve antes como um diagnóstico civilizacional: a história humana pode ser lida como uma história do fogo, e o tempo presente como a sua culminação mais ambígua. Desde o início, o Homo sapiens é um animal pirotécnico, distinguindo-se de todas as outras espécies pela capacidade de dominar a combustão e de a usar como extensão do corpo e da comunidade. O fogo alimentou as cozinhas e os mitos, abriu clareiras nas florestas, forjou ferramentas e territórios, e, sobretudo, instaurou uma ecologia artificial, uma ecologia do fogo, onde natureza e cultura se confundem. Assim, ao invés de propor algum rótulo geológico, o que Pyne nos oferece é uma cronologia que nos permite actualizar algumas noções decisivas. Se o Holoceno foi a idade da estabilidade climática e o Antropoceno a era em que o humano se tornou força geológica, o Piroceno é a idade em que o fogo industrial, liberto dos limites ecológicos, passou a governar. Ao queimar os combustíveis fósseis para alimentar esse estado de crisálida constante das sociedades modernas, absorvidas na mitologia do progresso, e cada vez mais alheadas da ecologia planetária, é o fogo, esse elemento que parecia condenado a tornar-se apenas metáfora ou resíduo, que regressa para nos sacudir deste estupor. Como se Prometeu tivesse finalmente partido os grilhões e viesse cobrar a dívida acumulada de séculos.

Pyne propõe, assim, uma tripla articulação: primeiro, o fogo natural, produto da fulguração terrestre, dos raios, das erupções, do acaso atmosférico; depois, o fogo cultivado, domesticado pelos humanos, agente de agricultura, de expansão, de conquista de espaços; por fim, o fogo fóssil, aquele que, desde a Revolução Industrial, escava os subterrâneos do planeta e liberta, de modo concentrado e inédito, a energia acumulada em eras geológicas. Essa última combustão – carvão, petróleo, gás natural – é a que funda o Piroceno: um tempo em que a humanidade queimou o passado fossilizado para inflamar o presente, convertendo o planeta num imenso campo de cinzas.

Sacrifício total
Deste ponto de vista, o Piroceno é simultaneamente técnico, climático e político. Não se trata apenas de incêndios florestais devastadores, cada vez mais frequentes, mas de uma mudança estrutural na relação entre as sociedades e fogo. O regime energético fóssil multiplicou a potência do fogo para lá de qualquer contenção cultural ou ecológica: onde antes havia ciclos, práticas de manejo, rituais de controlo, agora há uma combustão que não pode ser detida senão pelo esgotamento da própria matéria-prima ou pelo colapso climático. As chamas que ardem na Califórnia, na Amazónia, no Mediterrâneo ou na Austrália, são apenas sintomas localizados de uma pirotecnia global que revela o parasitismo na atitude que temos para com o planeta.

Assim, aquele fogo vivo que os povos indígenas sabiam cultivar, de tal modo que mesmo os campos de cevada pareciam inspirados nele, aproveitando-lhe o eco, deu lugar a esta irrupção descontrolada e que denuncia a lógica de supressão, fazendo nascer esse fogo que parece tomado de um ânimo vingativo, vindo reclamar com juros tudo o que lhe é devido. Neste quadro, já sem colónias nem extensões além-mar, Portugal parece recair uma vez mais nos seus vícios seculares, na tendência para a ruína que sempre nos acompanhou, vendo-se comprometido face à intriga cobiçosa que Camões já denunciara através do Velho do Restelo, cultivando as espécies mais rendosas e que mais o fragilizam. Se antes tínhamos uma agricultura que criava mosaicos, hoje deixamos apenas combustível acumulado à espera de uma faísca. Assim, não há ano em que o verão não seja atravessado pela expectativa do desastre, pelas imagens das chamas colossais, das colunas de fumo, aldeias evacuadas, cinzas a cair como uma neve sinistra. Aos poucos, o mar já não é a imagem central, mas é o fogo que molda a percepção contemporânea de um país ciclicamente em chamas, laboratório de uma era em que a paisagem se torna pira.

Quando o fogo devorar a terra inteira, se algo lhe sobreviver, talvez se diga que começou por aqui. Mas, por agora, o colapso é também da narração, pois sempre que essa coreografia macabra dos nossos verões se instala, com ela surgem os chavões e o tom enfático daqueles que preenchem os directos televisivos e que simulam o escândalo, uma má-consciência em pó para misturar em qualquer beberagem, e, para além disso, também os relatórios ministeriais e as sucessivas promessas de maiores investimentos, da afectação de mais recursos para o combate aos fogos, a criminalização, a prevenção. Por detrás de toda esta coreografia lateja uma falha de imaginação, enquanto o mais fácil continua a ser figurar o fogo como inimigo absoluto, sonhando-se a utopia de uma paisagem sem combustão. Quer-se negar os ciclos, a transitoriedade, e esse elemento de alquimia natural que o fogo providencia. Ao expulsá-lo, apenas se consegue alimentá-lo. Ao querer extinguir inteiramente as chamas, prepara-se o sacrifício total. Eis-nos, assim, diante desse Adamastor de brasas, que faz de nós mirrados argonautas de um século que nos atemoriza, sem bússola nem um verdadeiro anseio de qualquer espécie. Vemos emergir esse colosso no modo como as chamas serram ao vento, as brasas empalidecem e logo se adensam ainda mais, uma e outra vez, como o pulsar do sangue de um ser vivo eviscerado, e que se reergue, vingativo. «Assim, contemplamos o fogo que contém em si algo dos próprios homens, que são menos sem ele, estão apartados das suas origens e são exilados. Porque cada fogo é todos os fogos, e é o primeiro fogo e o último» (Cormac McCarthy). São estas as representações que emergem a partir do momento em que se quer fazer do fogo esse inimigo terrível, não nos deixando senão a hipótese de encarar o próprio futuro como um fogo devorador, que nos deixará reduzidos ao próprio fóssil da civilização que erguemos. «A imagem mais viva do inferno./ Eis o fogo em todos seus vícios:/ eis a ópera, o ódio, o energúmeno,/ a voz rouca de fera em cio», escreve João Cabral de Melo Neto.

E poderíamos levar bem mais longe este vitral em combustão, esta catedral consumida pelas chamas, como um imaginário que subitamente se propagasse também ele, sujeito ao mesmo clarão, sentindo o impulso de um deus convocado a partir das entranhas da terra. Ver-nos-emos assim cercados por «monstros sem ordem génios galopando na respiração estrelada dos meus pulmões», para trazer aqui uns versos de Ernesto Sampaio. «Olhar suculento mestre do horror e da audácia gelada em cada canto em cada flor de fumo colada aos ossos dum horizonte inocente e inesgotável/ Poeira dum astro pré-existente ao nosso espiral dos dias que estreitamos puros tripas da raiva vegetal que embrulhamos em cada palavra/ Fogo perpétuo fruto espantoso de bandeiras negras e vermelhas comboio que esmaga e canta e ninguém deterá».

Íntimo e universal
De qualquer modo, o ponto central e a advertência que colhemos nas páginas do livro de Pyne é de que esta ideologia da supressão do fogo está fadada ao fracasso. Enquanto isso, e para não comprometer os lucros, continua a acumular-se combustível, e o interior do país vê-se transformado num barril de pólvora. Ao suprimir as queimadas, esses fogos quase rituais que controlam a dispersão do mato, incubámos o tal monstro que depois só é travado quando toda a matéria que tinha à sua disposição para se alimentar foi consumida. O resultado é o que vemos verão após verão: esses incêndios imensos, tragédias como as de Pedrógão Grande, um país incinerado e que se tornou uma espécie de entretenimento televisivo para os que, nas cidades, se sentem defendidos. E o país aceita esta condição de epicentro do Piroceno, um país-vitrine do que acontece quando uma cultura deixa de integrar o fogo no seu regime ecológico e o relega apenas para o desastre.

Há aqui uma lição mais profunda, e que nos puxa para essa relação tão próxima com o fogo, sendo este, segundo Gaston Bachelard o elemento ultra-vivo. «É íntimo e é universal. Vive no nosso coração. Vive no céu. Ergue-se das profundezas da substância e oferece-se com o calor do amor. Ou pode descer de novo à substância e ocultar-se aí, latente e represado, como o ódio e a vingança. Entre todos os fenómenos, é de facto o único a que se podem atribuir com tanta nitidez os valores opostos do bem e do mal. Brilha no Paraíso. Arde no Inferno. É brandura e é tormento. É cozinha e é apocalipse.» Mesmo essa imagem de um cigarro aceso junto ao rosto, iluminando-o, admite esse ígneo impulso, esse anseio contemplativo, tão bem cultivado por estes versos da poeta russa Marina Tsvetáieva: «O cigarro arde e apaga-se,/ na sua ponta treme,/ como um poste consumido – a cinza./ Dá-te preguiça sacudi-la –/ o cigarro inteiro atravessado pelo fogo.»

Num tempo em que, diante dos avanços científicos, tudo, e até a religião, merece o seu sarcasmo, o fogo parece atravessar-se como um elemento ancestral, que vem escarnecer da prepotência que nos entregou a um estado de fragilidade absurda, colocando-nos à mercê dos elementos, e, desde logo, ao lado insano e impiedoso do fogo, que em mitologias antigas aparecia como dádiva divina, e agora surge como um Prometeu invertido. Atrás das noites, o incêndio corta pelo meio, como flor terrível que se abre no escuro. As ondas de calor mortíferas, os incêndios que acabarão por cercas as cidades, lembram teatros de guerra, e deixam claro como a criatura pirotécnica perdeu o seu pacto com a chama. Já não a domina. O Antropoceno, dito de outro modo, não é senão a face geológica do Piroceno: o homem imprime na Terra a assinatura do fogo que libertou.

Contudo, isto marca também uma cisão dentro da espécie, uma vez que, para boa parte dela, a humanidade se foi tornando em qualquer coisa de odioso. Podemos pressentir como já trazíamos o incêndio na cabeça, como um ensejo secreto de devastação de uma realidade absurdamente profana, e este já não seria justamente um país de marinheiros ou navegantes, mas de incendiários, uma vez que quem se sente queimado, devastado interiormente, toca tudo com essa ferida que anseia por degradar a envolvência, participando do horror que o consome. Nesta orla vã desfeita em que o país se transformou, condenando todos a sentirem-se estranhos à sua própria terra, é realmente de espantar que venha alguém lançar fogo à paisagem? Não é a absoluta impotência e o desvario dos sentidos que sopra intimamente uma fúria elementar, «como se um fogo celestial tornasse/ seu, de um instante para outro, os mais estranhos objectos,/ assim consagrando um intervalo/ de outro modo inconsequente// por nos dar grandeza e glória,/ ou até amor.» (Sylvia Plath).

Entre nós, quem levou mais longe esta denúncia foi certamente Manuel Bivar, que este ano assinou, com Sofia da Pala Rodrigues, a reportagem ‘País de Incendiários’, um podcast de investigação da revista Divergente, e que, no país com mais área ardida da União Europeia, vem por fim preencher uma lacuna estarrecedora, esforçando-se por nos dar a conhecer o contexto e as motivações daqueles que fazem arder Portugal. Antes desta investigação, Bivar tinha já publicado, em 2021, A Charca, livro que, apesar das suas quatro edições, continua a não ter qualquer eco nos nossos órgãos de imprensa. Assim, talvez seja desculpável que seja o seu editor a fazer esta chamada de atenção, reproduzindo aqui um excerto: «Dizem os psicanalistas que os ascetas, os pastores, os puritanos, não eliminando o esperma, se tornam possessos e puxam fogo. Mas ele não concordava com estas teorias da psicanálise. Ele odiava psicanálise. Puxam fogo porque são desgraçados, porque se sentem revoltados e porque o incendiário é, nestes matos, o revolucionário possível. Também dizem que os incendiários são alcoólicos, mas isso não explica nada. O álcool apenas dá coragem à vontade de fazer. O alcoolismo é de certa forma o oposto do puxar fogo, é um puxar fogo ao interno para esquecer o externo, enquanto no foguear o mato tudo é externo, tudo é glória. A combustão final, a salga da terra, a morte nas chamas como a menos solitária das mortes, porque se morre em conjunto com o que está em volta. Quem vê um fogo não o esquece, como quem vê a revolução não a esquece. Mas o fogo está sempre ao alcance, em acto individual e grande, e a revolução não. O fogo é a arma dos solitários e, convenhamos, não tem nada que ver com ejaculação.

O fogo, a arma dos desvalidos, dos oprimidos, daqueles a quem querem controlar e a quem tudo é negado. Basta riscar o fósforo em Julho ou Agosto e tudo vai pelos ares. Nem ricos nem pobres, nem poderosos nem indigentes, o fogo está ao alcance de todos, torna a todos iguais, dá sentido à existência, e não nega o gesto a ninguém. De­sesperado, perseguido pela burocracia da natureza, num estado mental que não lhe permitia enfrentá-los, entendia pela primeira vez o porquê de metade dos que ali subsistiam serem incendiários em potência.»

Mais à frente, Bivar ainda ensaia uma réplica àqueles que, a cada ano, com uma espécie de fulgor patriótico, encenam o seu repúdio ou incompreensão diante desses pequenos monstros no íntimo dos quais eclode essa pulsão de largar um fósforo a tudo isto, estes seres que se passeiam por ali nessa deserção etílica, como espectros que atravessam o fumo, fantasmas de tudo o que ardeu e ainda vai arder, assombrados pelo tumulto dos lugares esquecidos. «Quando os via discutir o porquê de tanto fogo posto, de tantos incendiários, dava-lhe vontade de rir de tão óbvia que era a resposta numa terra onde todos tinham sido re­duzidos ao papel de passar os dias em frente da televisão a ver programas da manhã ou agarrados a telemóveis, e que simplesmente queriam voltar a fazer parte deste mundo. Como não respeitar o velho que fechado no lar a ver tele­visão de dia e de noite, que escuta os arrotos dos dez com quem partilha o quarto e que de vez em quando morrem ao fim da tarde e só são tirados de manhã porque há falta de pessoal de noite, e que sai discreto e puxa fogo à serra numa derradeira e última acção cujo resultado assiste ser transmitido em directo na televisão? Como não respeitar o rendeiro que, expulso do terreno de que sempre tratou porque vão plantar olival intensivo, corta os carvalhos centenários, faz explodir a mina de água com dinamite e por fim puxa fogo aos matos de giestas?»

Um novo pacto
Como resulta claro da leitura do livro de Pyne, nenhuma política de fogo é neutra. Toda a técnica carrega uma imaginação, e acaba por gerar as suas catástrofes e assombrações. O século XX cultivou a fantasia prometeica da supressão total do fogo, deixando para o século XXI a obrigação de ter de aprender, à força, que a supressão alimenta o monstro, enquanto acumula combustível, alonga épocas de risco, permitindo que o menor impulso sirva de ignição a esse efeito concatenado. Começa também a ficar claro como, do lado dos homens, o fogo responde a uma ânsia de intensidade pura, prometendo vir, com a sua força, lavrar um tempo que nos esgota na sua condição intervalar, indecisa, enquanto tudo já arde, mas sem se ver. Afinal, o próprio coração é tido como um fogo encoberto que se consome e canta… Ora, sendo o país já em si uma catástrofe para aqueles que se sentem entregues a essa periferia urbana, perante estes, o fogo, esse elemento incapaz da imobilidade, mostra-se um agente de revelação, um monstro propriamente dito, no sentido em que mostra aquilo que foi escondido. E se o fio da história humana pode ler-se como uma sucessão de fogos – o fogo que aquece a gruta, a chama que cozinha e purifica os alimentos, encurtando os intestinos, e que, assim, assume uma co-autoria biológica do humano, permitindo a expansão do cérebro… e o fogo que, mais tarde, arde sob caldeiras e asfaltos –, isto diz-nos que, qualquer que venha a ser o sobressalto do capítulo seguinte, o fogo desempenhará um outro papel, e é possível que esteja uma vez mais ao lado daqueles que se sentem impotentes.

De algum modo, desde cedo o fogo nos convoca, por meio daquela sua soberba ondulação nas formas… Como diz Herberto Helder, «o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma». Perante uma cultura ensurdecida, é a própria natureza que resgata a dimensão épica, e vem reelaborar os caracteres desastrosos que foram despertados por uma civilização que tende claramente para a mitificação do progresso, desertando o real, provocando a degradação dos ecossistemas e a extinção em massa da vida no planeta. O próprio fogo nuclear persiste e vê agravar-se a sua ameaça existencial a cada dia que passa. E, nisto, aqueles homens que ficaram para trás, podem não saber explicar-se melhor, e podem encontrar nessas grandes arcadas de fogo toda a eloquência que falta à sua expressão. Surge neles, assim, esse ânimo de passar fogo à criação inteira, iluminando por dentro as coisas até as carbonizar num espectáculo que sacia o lado demoníaco das naturezas inquietas que nos restam. E uma vez mais vemos como o fogo responde, nos pensa, elabora sobre o que somos. Entre os símbolos nocturnos, emerge essa escrita cheia de prenúncios quanto ao que nos espera. Por isso mesmo, Stephen J. Pyne recusa qualquer fatalismo, e vinca como esta análise da civilização humana na relação com o fogo permite entender como aquilo que se nos impõe é estabelecer uma nova política do fogo, um novo pacto, para que possamos reaprender a gerir combustões, reatar laços com práticas tradicionais de queimada controlada, reconhecer que o fogo não pode ser abolido, apenas administrado. Num planeta saturado de carbono, pensar o futuro é pensar regimes de chama. Assim, o Piroceno não é um conceito que deva apenas situar-nos numa cronologia geológica, mas aparece como uma alegoria do destino humano: o século XXI será julgado pelo modo como lidou com o fogo – se continua a queimar o passado fossilizado até ao último sopro, ou se inventa uma pirotecnia diferente, renovável, reconciliada com o ritmo da Terra.