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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Ao meu amigo e irmão Serafim Riem, dedico-te esta canção - "God Moving Over the Face of the Waters", do Moby


A ti Serafim, que descanses em paz e que a Luz da Natureza te retribua agora toda a bondade que a ela tu dedicaste ao longo da tua vida.

E que saibamos honrar o teu exemplo, continuando, com coragem e responsabilidade, o trabalho que tu começaste.

A escolha de "God Moving Over the Face of the Waters" para o desfecho de Heat - Cidade Sob Pressão é, sem dúvida, um dos momentos mais brilhantes do cinema contemporâneo, precisamente porque eleva o clímax do filme a uma dimensão quase espiritual de fraternidade. Ao longo de toda a narrativa, Michael Mann constrói as personagens de Al Pacino e Robert De Niro como duas faces da mesma moeda: homens solitários, obcecados pelos seus respetivos códigos de honra e incapazes de se ajustarem ao mundo comum. Embora um seja o caçador e o outro a presa, existe entre eles um entendimento silencioso e uma cumplicidade que nenhuma das suas relações pessoais consegue alcançar. Na célebre cena do café, eles verbalizam esse respeito mútuo, reconhecendo que, apesar de estarem em lados opostos da lei, partilham a mesma essência.

Quando a composição do Moby começa a ecoar na pista do aeroporto, após o confronto final, toda a violência e a adrenalina da perseguição desaparecem instantaneamente, dando lugar a uma melancolia avassaladora. Enquanto McCauley dá o seu último suspiro no chão, Hanna aproxima-se e segura-lhe na mão, num gesto de profunda ternura e dor. A melodia cresce exatamente nesse instante de contacto físico, transformando o desfecho trágico numa verdadeira elegia fúnebre. Hanna não celebra a vitória; pelo contrário, chora a morte do único homem que verdadeiramente o compreendia. É uma imagem de pura irmandade, onde as barreiras da lei se desfazem perante a perda e o respeito mútuo, tornando esta faixa uma escolha profundamente adequada para honrar a memória de alguém que partiu e que se considerava um irmão.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Morreu Serafim Riem (1954-2026), um dos primeiros ambientalistas em Portugal


Veterano do movimento ambientalista, Serafim Riem morreu no Porto, aos 72 anos. Co-fundador da Quercus e do FAPAS e actual dirigente da Íris, “manteve um compromisso firme e generoso” com a natureza.

O ambientalista Serafim Riem, descrito como um veterano da luta em defesa da natureza, morreu quarta‑feira no Porto, aos 72 anos, confirmou ao Azul a direcção nacional da Íris — Associação Nacional de Ambiente, da qual fazia parte. Figura marcante do movimento associativo português, foi fundador e dirigente do Grupo Ecológico Terra Viva, esteve no Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem e co-fundou as associações Quercus e FAPAS.

“O seu amor pela causa ambiental levou-o muito cedo a uma intervenção activa e consequente. Foi um dos primeiros ambientalistas em Portugal, esteve na origem de vários movimentos e nunca deixou de estar disponível para as causas que deram sentido à sua vida”, recorda a bióloga Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra, de quem Serafim Riem era amigo.

A bióloga recorda com emoção a viagem que fez, há dois anos, com Serafim Riem e a mulher, Mila, ao Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. “A Mila era tudo para o Serafim, e o Serafim era tudo para a Mila - um amor profundo, cúmplice, indissociável.”

Combate aos eucaliptais
Economista de formação, Riem consolidou, ao longo de mais de várias décadas, um percurso singular na defesa das florestas e da biodiversidade. Viveu sempre no Porto, cidade onde estudou e se afirmou como uma das vozes mais combativas do ambientalismo.

“O seu trabalho em prol da conservação da natureza confunde-se com a própria vida. Economista por imposição familiar, o Serafim gostava mesmo era de árvores, pássaros, animais. A natureza, a que ele dedicou toda uma existência, corria-lhe no sangue”, recorda Marta Leandro, membro do Conselho do Gabinete Europeu de Ambiente (EEB, na sigla em inglês)​.

Foi um dos fundadores da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza em 1985. Os anos 1980 ficariam marcados pela contestação pública à expansão das monoculturas de eucalipto. “Não são florestas, são monoculturas”, afirmou ao Azul em 2023. Numa entrevista ao Jornal de Notícias, há 20 anos, era descrito como “o ecologista que afrontou o lóbi das celuloses, fundou associações e denunciou as autarquias que faziam podas destrutivas às árvores dos seus jardins”.

“Sem exagero, o Serafim estava sempre no terreno, a plantar, a denunciar, a exigir a defesa dos valores naturais, a apoiar comunidades locais — o arranque de eucaliptos em Veiga do Lila, Valpaços, uma revolta popular que ele ajudou a organizar contra forças da GNR montadas a cavalo, em Março de 1989, ficará nos anais da história do ambiente em Portugal. Tal como ele”, acrescenta Marta Leandro, numa declaração ao Azul por escrito.

Amor por aves selvagens
A década de noventa trouxe a cisão com a Quercus que daria origem ao FAPAS - Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens, associação onde intensificou o trabalho ligado à conservação de aves selvagens, à instalação de ninhos artificiais e à criação de pequenos bosques educativos, iniciativas que marcaram a intervenção ambiental no Norte do país.

Licenciou‑se em Economia pela Universidade do Porto e completou um mestrado em Gestão e Conservação da Fauna Selvagem Euro-mediterrânica na Universidade de León, em Espanha. A Agência Ecclesia refere que, mais tarde, frequentou ainda uma pós‑graduação em Arboricultura Urbana no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa.

O seu trabalho foi distinguido com o título de membro honorário da Ordem do Infante D. Henrique (1992) e o prémio Global 500 das Nações Unidas (1992).

Em 2014, recebeu o Prémio Internacional Terras Sem Sombra, atribuído pela Diocese de Beja, distinção que sublinhava o contributo continuado para a salvaguarda da natureza e da biodiversidade.

“Generoso” e ​“incontornável”
Integrava actualmente a direcção nacional da Íris – Associação Nacional de Ambiente, entidade da qual também foi fundador. A sua trajectória, atravessada por confrontos políticos, divergências internas no associativismo e décadas de voluntariado, deixou a imagem de um activista que fez da intervenção ambiental uma forma de cidadania.

“A palavra incontornável deve ser usada parcimoniosamente, mas aplica-se a Serafim Riem no caso do ambientalismo em Portugal”, afirma Raul Cerveira Lima, astrofísico e professor na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico do Porto.

O investigador na área da poluição luminosa foi um dos amantes da natureza que bateu à porta de Serafim Riem, ainda nos tempos de estudante universitário, “animado pelas intervenções que vira nos jornais em defesa do Parque Nacional da Peneda-Gerês por parte do FAPAS”.

“Recebeu-me sempre com amizade, que perdurou. Por sua iniciativa, recentemente apalavráramos uma reunião, “em breve”, para incluir a poluição luminosa na agenda da protecção ambiental em Portugal. Além da muito triste perda para a família, os amigos, a natureza, dia e noite, todos ficamos agora mais pobres. Tentar dar seguimento ao seu incessante trabalho de protecção da Natureza não será tarefa fácil, mas devemos-lhe isso”, afirma Raul Cerveira Lima.

terça-feira, 21 de março de 2023

No Dia Internacional da Floresta cinco organizações ambientalistas exigem o fim dos subsídios à queima de biomassa florestal nas fábricas de celulose em Portugal


A queima de biomassa nas fábricas de celulose contribui cada vez mais para os lucros das duas grandes empresas de pasta e papel a atuar em Portugal, a The Navigator Company e a Altri. Apesar de afirmarem que a queima de biomassa para produção de energia ajuda a combater as alterações climáticas e a reduzir o risco de incêndios florestais, um novo relatório publicado hoje por três ONGs portuguesas e duas internacionais contesta estas afirmações, e destaca os impactos significativos para o clima e no ambiente que são escondidos pela indústria.

De acordo com Alexandra Azevedo, Presidente de Quercus, “As celuloses sempre queimaram parte dos seus resíduos industriais para produzir energia, mas nos últimos anos os lucrativos subsídios públicos às energias renováveis encorajaram a construção de grandes e ineficientes centrais termoelétricas dedicadas à queima de biomassa mesmo ao lado das suas fábricas de celulose e a substituição de centrais de cogeração a gás fóssil pela queima de biomassa. Essas centrais precisam de muito mais madeira do que é produzida como sobrantes florestais e resíduos industriais pelas fábricas de celulose, exigindo que grandes quantidades de madeira adicional sejam trazidas diretamente das operações de exploração florestal. A existência de subsídios desacoplou a queima de biomassa florestal na maioria destas fábricas dos fluxos de sobrantes industriais da produção de pasta celulósica. Os subsídios servem de base a uma nova área de negócio para estas empresas”.

O relatório mostra como as celuloses estão a queimar mais madeira para produzir energia do que qualquer outro setor em Portugal. Em 2021, gerou 80% da eletricidade produzida a partir da queima de biomassa nas suas centrais de cogeração e termoelétricas, e possuía mais da metade da capacidade industrial de queima de biomassa dedicada à produção de eletricidade. Juntos, o setor queimou quase 3 milhões de toneladas de biomassa em 2021, quase 60% das quais provenientes diretamente de operações de exploração florestal, principalmente das extensas plantações de monoculturas de eucalipto em Portugal.

Sophie Bastable, da Environmental Paper Network, afirmou que: “Globalmente, os incentivos à eletricidade a partir da queima de biomassa, como os subsídios à energia renovável, abriram um novo fluxo de receita para a indústria de pasta e papel. Essa renda incentiva a intensificação da exploração florestal e a expansão das plantações de monoculturas de árvores, muitas vezes no lugar dos ecossistemas naturais. Estamos a ver esta tendência preocupante desenvolver-se, não só em Portugal, mas em todo o mundo – da América do Sul à África do Sul.”

Dois grandes empreendimentos são destacados no relatório como emblemáticos dos problemas causados pela queima em larga escala de biomassa para geração de energia. A primeira é a central eléctrica Figueira da Foz II, na fábrica de celulose CELBI da Altri (operada pela GreenVolt, uma subsidiária da Altri), que é totalmente dependente da biomassa florestal primária e que, segundo o relatório, funciona com uma eficiência alarmantemente baixa de cerca de 22%. A segunda é a nova caldeira de biomassa da The Navigator Company, também na Figueira da Foz, que substituiu uma central a gás fóssil e requer que quase metade da biomassa que queima seja proveniente diretamente das operações florestais.

Oliver Munnion, da Biofuelwatch, declarou: “Em vez da queima de biomassa nas fábricas de celulose ser um exemplo de economia circular, como a indústria afirma, é um processo destrutivo de sentido único. Mais e mais madeira está a ser queimada com eficiências muito baixas, o que emite cada vez mais carbono para a atmosfera. De acordo com o IPCC, a queima de biomassa resulta em emissões de carbono imediatas superiores às dos combustíveis fósseis, como gás, e essas emissões têm um impacto climático significativo por longos períodos de tempo, independentemente do tipo de biomassa que está a ser queimada. Isso não pode ser considerado verde ou renovável”.

As subscritoras do relatório também questionam as alegações de que a queima de biomassa florestal ajuda a reduzir o risco de incêndios florestais, um enorme problema social e ambiental a cada verão em Portugal. Paulo Castro, Presidente da Acréscimo, afirmou: “Na última década e meia houve um aumento crescente da quantidade de biomassa retirada das áreas florestais, tanto para queima em centrais termoeléctricas como para transformação em pellets de madeira. Mas, ao mesmo tempo, a quantidade de área ardida total a cada ano em Portugal mantém tendência de crescimento e as áreas ardidas em povoamentos florestais já ultrapassaram, no último quinquênio e em 2022, outros tipos de uso da terra como os matos. Esta pseudo-estratégia de redução de incêndio claramente não está a funcionar, muito pelo contrário”. Serafim Riem da Iris, realça: “A extração excessiva de biomassa está a reduzir o coberto arbóreo, a tornar os solos mais pobres, a provocar a perda de biodiversidade e a aumentar o risco de desertificação”.

As signatárias fazem três exigências principais ao governo português. Em primeiro lugar, estão a pedir a introdução de uma moratória imediata sobre a nova capacidade de produção de eletricidade a partir de biomassa, e terminar a sua elegibilidade para subsídios de energia renovável. Em segundo, estão a pedir limites para a queima de biomassa nas fábricas de celulose, de modo que nenhuma biomassa florestal primária seja usada como matéria-prima para a geração de energia. Por fim, pedem que os subsídios à geração de eletricidade a partir da biomassa sejam redirecionados para a geração de energia genuinamente renovável, medidas de eficiência energética e técnicas de redução do risco de incêndio que incentivem a conservação e regeneração dos solos e das florestas autóctones.