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segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Ao que nós chegamos

"Respondam, respondam a tudo, em todo o lado", escreve José Pacheco Pereira no Público. "Denunciem os grandes mentirosos, os violentos, os manipuladores, os falsificadores, a invasão das redes sociais por repetidores da extrema-direita que, como não têm emprego, e estão todo o dia disponíveis para fabricar vídeos, têm de ser pagos por alguém. Eles vivem de mostrar como qualquer berro à direita “arrasa”, “destrói”, “esmaga” os que a confrontam. O exemplo de Isaltino mostra como é possível confrontar com sucesso esse mundo de mentira, violência, e aquilo a que se chama na ópera braggadocio.
Nestas eleições, como em geral em toda a actividade política, não há qualquer movimento ascendente em política que não seja o populismo dominado pela questão central do combate à imigração. A sua expressão política é o Chega, que domina toda a vida política, o discurso político, a agenda mediática, os debates, e as campanhas eleitorais em grande parte do país. Apesar de ser um partido bastante minoritário — teve menos de um quarto dos votos nas eleições legislativas de 2025, o que nem sempre é lembrado —, tudo o que “mexe” em Portugal acontece à volta do Chega.
Esta situação é uma enorme vitória política, que contrasta com a estagnação e a cedência aos temas do Chega por parte do PSD, com o bloqueio do crescimento da Iniciativa Liberal, com a crise profunda de identidade do PS que gera a paralisia do partido, e com a decadência acentuada do PCP e do Bloco — com a única excepção à esquerda de algum crescimento do Livre. É um panorama que, no seu conjunto, aponta para uma grave crise do sistema partidário pós-25 de Abril, crise que é estrutural e não conjuntural. Sendo assim, tudo está a mudar, sem ser no sentido de reforçar a democracia, nem a governação, nem o centro “moderado”, com um desequilíbrio no par direita-esquerda, claramente a favor da direita, criando um caos e uma errância cujos únicos efeitos previsíveis são a crise institucional e política da democracia. Este processo não é apenas português, é europeu e mundial.
Se não se partir daqui, desta análise fria e cruel, com elementos de catástrofe, não se parte da realidade, e essa é a primeira resposta aos que dizem que não basta análise, são precisas respostas. A primeira resposta é mesmo reconhecer que se está muito mal e que, tendo em conta a Lei de Murphy, vai ser tudo muito pior.
A segunda, é perceber como se chegou aqui, com um modelo de economia que favoreceu os de cima, cada vez mais ricos, deixou ficar a meio do elevador social todos os que estavam a sair da pobreza, fez descer uma parte da pequena e média burguesia e colocou numa redoma os mais pobres, deixando que dentro dessa redoma a inveja e o ressentimento social crescessem, com pobres a combaterem pobres. O combate por uma economia que incorpore um forte elemento de justiça social não é comunismo, é a doutrina social da Igreja.
Terceira, a evolução da economia capitalista associou-se a uma ecologia comunicacional que premeia a ignorância agressiva, a solidão, a desagregação de todas as relações que não passem pelas redes sociais, sem contacto humano, a não ser a competição por likes, e por frases assassinas, e insultos, e memes imbecis. Ao mesmo tempo, o deslumbramento tecnológico destruiu muito da função da escola, e diminuiu drasticamente o papel das mediações sociais, culturais, associativas, políticas e, no limite, familiares e religiosas.
A quarta resposta é o combate, sem transigência, pela democracia, combate esse que existe muito menos do que se possa pensar. Há mais moleza do que combate, e esse combate assume duas dimensões. Uma é contra as manifestações políticas do populismo, que conta nesse plano com um sistema de mentiras canalizado pelas redes sociais, nas quais se manipula o modo emotivo, que hoje é o mecanismo dominante do discurso nesses locais. Respondam, respondam a tudo, em todo o lado. Denunciem os grandes mentirosos, os violentos, os manipuladores, os falsificadores, a invasão das redes sociais por repetidores da extrema-direita que, como não têm emprego, e estão todo o dia disponíveis para fabricar vídeos, têm de ser pagos por alguém. Eles vivem de mostrar como qualquer berro à direita “arrasa”, “destrói”, “esmaga” os que a confrontam.
O exemplo de Isaltino mostra como é possível confrontar com sucesso esse mundo de mentira, violência, e aquilo a que se chama na ópera braggadocio. Outro é o exemplo do vitelo que combateu a fanfarronice toureira e nem sequer deu a Núncio, do CDS, o privilégio de lhe tocar o dorso. Isaltino e o vitelo viraram o feitiço contra o feiticeiro.
Outra resposta é mostrar a enorme contradição entre a brutalidade populista e os ensinamentos e a actuação das igrejas cristãs, que ainda são uma referência para milhões de portugueses. Denunciar a hipocrisia diante do altar, ou do padre, ou do pastor, e a falta de sentimentos cristãos face aos mais desprotegidos é eficaz, porque torna ridículo o bater no peito e o ajoelhar em pose.
Outra resposta é o combate intransigente pelos direitos humanos, cívicos, laborais dos imigrantes. Valorizando uma das coisas que este populismo de extrema-direita quer combater, o alvo de gente como Elon Musk: a empatia. E de novo a hipocrisia. Os militantes do Chega mandam vir comida pelos estafetas ou não? Não deviam, pois não? Porque isso é ajudar a imigração ilegal. Eles usam-nos nas estufas em condições de calor extremo? Não deviam, pois não? Deviam apenas contratar portugueses. E isso implica uma dura pressão sobre os governantes, cujas “autoridades” deviam multar a sério quem despreza as “condições de trabalho”, e quem viola a lei para ganhar dinheiro com os párias da imigração.
Há mais para os próximos artigos, o papel da nossa história, o patriotismo, e no fim e no princípio de tudo, a coragem. Estou mesmo a ver quem vai dizer, “mas isso é pouco, isso não é nada, isso não vai travar o Chega”. Não sei. O que sei é que não fazer nada não trava coisa nenhuma.

terça-feira, 22 de julho de 2025

Não existe um Partido Islâmico Português


Circula no TikTok um print screen de uma página de Facebook de um suposto partido chamado “Partido Islâmico Português”. “Estes já têm partido e aposto que não vão tentar ilegalizá-lo, como tentaram com o Chega”, diz um utilizador que partilhou a imagem na rede social.

No print screen da página de Facebook lê-se: “O Partido Islâmico Português tem como objetivo mostrar aos portugueses que a religião muçulmana é uma religião de paz.” Mas será que este partido existe mesmo?

Como o Polígrafo verificou em agosto de 2024, não. A página de Facebook mantém-se ativa, mas nem nos registos do Tribunal Constitucional nem dos da Comissão Nacional de Eleições (CNE) se encontra um Partido Islâmico Português. Nem na lista de partidos inscritos, nem na dos já extintos.

Desde a última verificação do Polígrafo sobre esta questão apenas um novo partido foi registado: o Partido Liberal Social, a 11 de março de 2025.

Tal como era em agosto de 2024, continua a ser falso que exista o Partido Islâmico Português. Não passa de uma página criada na rede social Facebook.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Desinformação aumentou 160% entre as eleições europeias de 2024 e legislativas de 2025



A desinformação aumentou 160% entre as eleições europeias de 2024 e legislativas de 2025, com o Chega a manter-se como um dos principais partidos desinformadores (81,3%), segundo um estudo.

O estudo “Desinformação nas Legislativas 2025: atividade dos partidos nas redes sociais”, da Entidade Reguladora para a Comunicação (ERC) e a Universidade da Beira Interior, concluiu que nas últimas eleições houve “um aumento percentual significativo das ocorrências em contexto eleitoral no país”.

Este aumento resultou num crescimento de 160% no número de casos de desinformação, em relação ao registado nas eleições europeias de 2024.

Das 4.514 publicações identificadas nas redes sociais entre 07 de abril e 19 de maio, o Instagram (30,0%) e o Facebook (28,9%) agregaram a maior parte do conteúdo gerado durante este período, seguidos pelo X (22,8%), TikTok (9,8%) e YouTube (8,5%).

Entre estas publicações verificaram-se 16 casos de desinformação nas páginas dos partidos, tendo sido abertos nove processos de averiguação junto da ERC.

Segundo o estudo, o Chega é o partido que mais divulgou conteúdos desinformativos nas redes sociais, sendo responsável por 81,3% dos casos, enquanto o PS, PSD e CDS tiveram uma ocorrência cada um, representando 18,7% das publicações.

“Os vídeos lideram no formato da desinformação (56,3%) seja com montagens, cortes ou edições de peças, à frente de um conjunto vasto de imagens estáticas (43,8%), especialmente utilizadas para divulgar resultados de inquéritos ou sondagens de intenção de voto”, lê-se no documento.

As sondagens falsas ou desenvolvidas por empresas não registadas na ERC foram o tipo de desinformação mais frequente, com 31,1% dos casos detetados, em segundo lugar surge a divulgação de textos produzidos por órgãos de comunicação social não registados na entidade reguladora (25,0%).

Dois tipos de desinformação surgem com a mesma percentagem no terceiro lugar, os vídeos informativos manipulados a diversos níveis e as publicações que descredibilizam a comunicação social ou o trabalho jornalístico (18,8%), enquanto as notícias alteradas para promover uma perceção enganosa dos factos surgem em último lugar (6,3%).

Além disso, a maioria dos casos detetados apresenta “um baixo nível potencial desinformativo (43,8%)”, tratando-se de conteúdos elaborados de forma amadora, facilmente verificáveis através de uma pesquisa na internet.

Já as publicações com potencial médio representam 37,5% da amostra em causa, estando associadas à descontextualização de factos ou à manipulação de dados, por isso mais difícil de verificar.

Apenas uma pequena parcela dos casos identificados pode ser classificada como de alto potencial desinformativo (18,8%), tratando-se de conteúdos sem qualquer relação com a realidade, podendo ter sido criados muitas vezes com recurso a Inteligência Artificial (IA).

As 16 publicações geraram um total de 197.471 interações da audiência, recebendo 20.633 comentários e 12.368 partilhas. “Estima-se que nove vídeos tenham sido vistos mais de 3,5 milhões de vezes, com especial destaque para o Instagram e o TikTok”, segundo o estudo.

“Os níveis de enviesamento tornam-se mais preocupantes quando se considera a dimensão do público alcançado. Estima-se que mais de seis milhões de utilizadores das redes sociais tenham sido expostos a conteúdos desinformativos difundidos pelos partidos portugueses (…) com especial destaque para o Chega”, lê-se no documento.

João Canavilhas, autor do estudo, concluiu refletindo sobre o problema das redes sociais fechadas, como os grupos no WhatsApp, onde "é impossível de controlar a desinformação [porque] são injetadas pílulas informativas falsas que surtem efeitos".

Este estudo foi realizado no seguimento do protocolo de cooperação celebrado entre a Entidade Reguladora para a Comunicação Social e o LabCom – Unidade de Investigação em Ciências da Comunicação da Universidade da Beira Interior, que procurou analisar a presença e os processos de desinformação no contexto das últimas eleições legislativas.

terça-feira, 20 de maio de 2025

No auge da crise


Julgo ser evidente que Portugal atravessa uma deplorável crise, não do foro económico, financeiro ou social, mas dos partidos políticos e dos seus protagonismos na condução da vida nacional. Uma crise de valores sem precedentes, deveras preocupante que, salvo meia dúzia de excepções, bateu fundo e isso ficou bem claro na pobreza desta corrida ao poder que ontem teve fim.Sou um geólogo e a minha cultura social e política resume-se ao que tenho aprendido na vivencia atenta do dia-a-dia. Bom ou não, é este o meu sentir que, como sempre, divulgo como dever de cidadania, honesta e humildemente.
Sempre procurei pensar pela minha cabeça, na convicção de que a política partidária é uma habilidade para manusear conhecimentos do foro das ciências políticas e sociais, tendo em vista a conquista do poder. Dito isto e para que não restem dúvidas, reafirmo que sempre estive ao lado dos explorados e ofendidos, contra os exploradores e ofensores.
Todos os que os que não andam distraídos, e são muitos, têm vindo a dizer e eu também digo que, no tempo que estamos a viver, paira grande insegurança a nível internacional, não só no que respeita a economia, com inevitável reflexo na vida nacional, como também no que envolve o espectro da guerra e a corrida aos armamentos, com todas as consequências e sofrimentos daí decorrentes.
À semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há meio século, generosa, honradamente e de “mão beijada” entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos cultura civilizacional necessária na sociedade que se quer democrática. Esqueceu-se ou não quis. Há uma máxima que diz que “o poder do feiticeiro reside na ignorância dos seus irmãos tribais”, máxima que é fácil entender como uma metáfora do que tem sido a nossa democracia.
Já escrevi o essencial destas minhas palavras não sei quantas vezes, mas sei que não foram as suficientes. Também já disse e volto a dizer que, entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à liberdade e à democracia está a educação. E, aqui, a escola falhou completamente. Uma escola que tem vindo e continua a dar diplomas, mas que não deu e continua a não dar cultura no sentido mais amplo da palavra.
Nesta “apagada e vil tristeza”, uma muito significativa parcela do nosso povo, destituído dessa cultura, foi presa fácil do populismo da extrema-direita. Uma extrema-direita que, beneficiando da liberdade e democracia que tanto custaram a ganhar, já mostrou, sobejamente, procurar destruí-las e voltar ao “antigamente”.
Tudo isto são gravíssimas preocupações nacionais, que se adicionam as das áreas da saúde, da habitação, da justiça e outras. Preocupações que, tendo em conta as condicionantes nacionais e internacionais, socialistas e sociais-democratas, cujos fundamentos que os inspiraram não estão, assim, tão afastados, tinham obrigação de se ter entendido, a bem deste, deste sempre, maltratado povo. Os seus actuais protagonistas mostraram não terem sabedoria ou vontade para o fazer, pelo que há que encontrar, entre os seus correligionários, quem o possa fazer. Chame-se Bloco Central ou outra coisa qualquer, mas é, no tempo que estamos a viver, em que as esquerdas se têm vindo a autodestruir, o único caminho a seguir.
Quem me conhece e tem acompanhado as minhas intervenções e tomadas de posição públicas, sabe, volto a dizer, da minha independência face aos aparelhos partidários e não espera de mim outro pensamento que não seja este.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Picar a manada… Mas com que aguilhão?


Que esforço inútil foi todo o meu apelo de ontem! Falava, e sentia-me a arder ingloriamente, como um papel incendiado que quisesse comunicar o seu lume a um monte de lenha molhada. E não eram façanhas que pedia! Limitava-me a exigir que não deixássemos substituir dentro de nós o pensante pelo ruminante…
Mas um rebanho é um rebanho. E tanto faz falar-lhe de lobos, como de estrelas. Sonolento, só entende o mundo limitado pelas malhas do redil.

Miguel Torga, in «Diário V» pág. 175

sábado, 17 de maio de 2025

Marie Chénier - Um coração que sabe odiar é sempre criminoso

Biografia

Octave Mirbeau sobre o ódio


"Não odeies pessoa alguma, nem mesmo os maus. Compadece-te deles, porque jamais conhecerão o único gozo que consola na vida: fazer o bem."

Entusiasta do anarquismo e ardente deyfusista, encarna o protótipo de intelectual comprometido com os assuntos públicos de sua época, assumindo como dever primordial desmistificar as instituições que alienam e oprimem. Nesta tarefa buscou constituir uma estética da revelação que levasse a lucidez, capaz de obrigar os voluntariamente cegos a encararem a realidade das injustiças do mundo. Combateu a sociedade burguesa e a economia capitalista, fazendo frente a formas literárias e estéticas tradicionais que contribuíam para anestesiar consciências, rejeitou o naturalismo, o academicismo e o simbolismo, buscando seu caminho entre o impressionismo e expressionismo.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Prioridades ambientais para as Legislativas 2025

Os efeitos das alterações climáticas já são sentidos em todo o mundo e constituem ameaças reais à segurança e bem-estar das pessoas. A perda de biodiversidade e a degradação ambiental, que seguem a um ritmo acelerado, agravam ainda mais esta realidade. Para garantir que os líderes que estarão à frente das decisões em Portugal estejam comprometidos em reverter este cenário, a Coligação C7 destaca as seguintes medidas prioritárias que devem ser incluídas nos programas das Eleições Legislativas que se aproximam:

Conservação e Restauro da Natureza, dentro e fora de Áreas Classificadas:
  1. Retorno da Secretaria de Estado de Conservação da Natureza, e da pasta das Florestas ao Ministério do Ambiente.
  2. Reverter a alteração à lei dos solos que veio permitir construção em solos rústicos.
  3. Garantir o cumprimento da meta de proteção de 30% do território terrestre e marinho até 2030, incluindo os 10% de proteção estrita, através de uma rede eficaz de Áreas Protegidas ecologicamente representativas, conectadas e bem geridas - necessidade de cumprir as metas definidas na Lei do Restauro;
  4. Garantir a implementação da Rede Natura 2000 (nomeadamente, a conclusão da elaboração dos planos de gestão e a ampliação desta rede ecológica em Portugal) e a efetiva aplicação da legislação, da regulamentação e de iniciativas de conservação, monitorização e fiscalização em todo o Sistema Nacional de Áreas Classificadas;
  5. Garantir financiamento para a elaboração e implementação do Plano Nacional de Restauro, para promover o restauro ecológico à escala da paisagem e dos ecossistemas degradados, reabilitar o equilíbrio ecossistémico e reverter a perda de biodiversidade;
  6. Promover o restauro dos rios através da remoção de barreiras fluviais obsoletas, em linha com o Regulamento do Restauro da Natureza e o objetivo do Pacto Ecológico Europeu de libertar 25 mil km de rios;
  7. Repensar a estratégia nacional para a gestão da água apostando em soluções baseadas na natureza, enquanto alternativas mais sustentáveis e de baixo custo, como o restauro de zonas húmidas, proteção de aquíferos e o uso de tecnologias de armazenamento alternativas, como reservatórios naturais ou infiltração de água no solo, em detrimento da construção de novas grandes barragens e transvases;
  8. Aumentar em pelo menos 50% o financiamento disponível (quer em Orçamento de Estado, quer no Fundo Ambiental quer no Fundo Azul) para ações de conservação da natureza, que deverá ser plurianual, de forma a garantir o cumprimento dos compromissos internacionais assumidos, nomeadamente o Global Biodiversity Framework da Convenção da Diversidade Biológica;
  9. Reforçar a proteção do lobo ibérico ao nível nacional e estimular ativamente a adoção de medidas que promovam a coexistência harmónica, tendo em consideração que a proteção desta espécie será severamente reduzida ao nível europeu;
  10. Criar legislação para a conservação das árvores junto das estradas nacionais e municipais, obrigando as entidades gestoras a fundamentarem publicamente as decisões sobre abates.
Clima e energia:
  1. Garantir a implementação imediata do disposto na Lei de Bases do Clima, atendendo a que o seu calendário de implementação se encontra manifestamente atrasado;
  2. Concretizar a revisão do Roteiro Nacional de Baixo Carbono e a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas, previstos para 2025, garantindo a participação efetiva das ONGAs e tendo como ponto de partida uma avaliação completa dos resultados das estratégias anteriormente em vigor;
  3. Garantir a efetiva implementação do Plano Nacional de Energia e Clima 2030, tendo em consideração a necessidade de compatibilizar as suas ambições com outros objetivos ambientais, como a proteção da biodiversidade, e com a racionalidade económica;
  4. Promover a transição para uma economia de baixo carbono, incluindo a eliminação de todos os subsídios e apoios públicos aos combustíveis fósseis;
  5. Promover a eficiência energética, nomeadamente garantindo recursos para a implementação da Estratégia de Longo-Prazo para a Renovação dos Edifícios e da Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2023-2050, e apostar prioritariamente na descentralização e democratização da produção renovável, nomeadamente através do autoconsumo e das comunidades de energia;
  6. Concretizar o processo de seleção de áreas de aceleração de energias renováveis, através de uma Avaliação Ambiental Estratégica, e definir mecanismos para encorajar a localização de projetos de energias renováveis em áreas de menor sensibilidade ambiental (por exemplo, limitar a aplicação do princípio do “interesse público prevalecente” dos projetos de energias renováveis, previsto na REDIII, a estas áreas de aceleração);
  7. Incorporar critérios ecológicos e sociais (critérios não-preço) nos futuros leilões de renováveis (incluindo os leilões para a energia eólica offshore), bem como realizar um planeamento cuidadoso da instalação das infraestruturas de produção e de rede e uma monitorização rigorosa e contínua dos impactos ambientais e sociais dos mesmos;
  8. Maior integração dos aspetos da transição justa, nomeadamente com a elaboração participada do Plano Social Climático de Portugal;
  9. Garantir recursos para apoiar o desenvolvimento e implementação dos planos municipais e regionais de ação climática.
Agricultura e alimentação:
  1. Criar o Plano Nacional de Alimentação Sustentável, que defina de forma participada e transparente os princípios para a alimentação sustentável e os integre de forma sistémica nas políticas de produção, consumo e combate ao desperdício e perdas de alimentos, bem como nas políticas de saúde;
  2. Elaborar a Estratégia Nacional de Promoção do Consumo de Proteínas Vegetais, conforme disposto no PNEC 2030;
  3. Investir na agricultura de baixo impacto, que realiza práticas sustentáveis de uso do solo e da água, com reduzida emissão de gases de efeito de estufa e que beneficia a biodiversidade e que reduz o desperdício agro-alimentar, através de práticas agro-ecológicas;
  4. Promover o uso eficiente e contido da água na agricultura, diversificação e complementaridade entre origens de água nos diversos sistemas de abastecimento, e a regulação do uso de água em todos os sistemas, respeitando sempre os ecossistemas; Promover instrumentos que permitam acabar com a subsidiação pública da água na agricultura de forma a que os agricultores paguem o real custo da água.
  5. Inserir critérios ambientais obrigatórios para as compras públicas de alimentação escolar, garantindo uma alimentação saudável e sustentável nas cantinas, privilegiando cadeias de abastecimento mais sustentáveis e dando escala à implementação da Estratégia Nacional para as Compras Públicas Ecológicas;
Oceanos e Pescas:
  1. Garantir financiamento estrutural que permita o adequado funcionamento dos comités de cogestão das pescarias e a realização de todas as suas funções, de maneira contínua e que dê resposta às singularidades deste modelo de gestão;
  2. Desenvolver de maneira colaborativa e implementar o Plano de Ação Nacional para a Gestão e Conservação de Tubarões e Raias, bem como o Plano de Ação para a Mitigação dos Impactos da Pesca sobre Cetáceos, Aves e Tartarugas;
  3. Criar o Fórum de Carbono Azul em Portugal;
  4. Apoiar a transição para práticas pesqueiras de baixo impacto, direcionando fundos públicos para avaliações que comprovem os impactos das pescarias e eliminando gradualmente os subsídios prejudiciais aos recursos pesqueiros;
  5. Assegurar a implementação eficaz da Diretiva-Quadro da Estratégia Marinha por meio de planos de monitorização assentes na ciência, com financiamento adequado;
  6. Garantir a implementação correta da Política Comum de Pescas, com destaque para o novo Regulamento de Controlo e o Plano de Ação Marinha.
  7. Assegurar a ratificação do Tratado de Alto Mar, para proteção da biodiversidade em áreas para além da jurisdição nacional.
Para além das prioridades temáticas mencionadas, é fundamental assegurar mais espaços formais de participação da sociedade civil no desenvolvimento das políticas públicas, abrangendo todas as suas fases, desde a concepção inicial até a implementação e monitorização. As consultas públicas podem ser agilizadas através da criação de uma plataforma única (semelhante à utilizada pela Comissão Europeia), seguindo enquanto padrão mínimo o disposto na legislação de Avaliação de Impacte Ambiental e garantindo o cumprimento da Convenção de Aarhus sobre o direito à participação. É essencial também salvaguardar e apoiar a ação das organizações da sociedade civil, pela sua importância democrática e papel na defesa da natureza e do bem-estar das pessoas, incluindo através da garantia da continuidade de instrumentos de financiamento centrais, como o programa LIFE.

A C7 considera que estas medidas representam o mínimo necessário para que Portugal possa enfrentar os desafios ambientais globais, cumprir os compromissos internacionais assumidos, e garantir a manutenção dos ecossistemas e a construção de uma sociedade resiliente.

A Coligação C7 é composta pelas seguintes organizações:
FAPAS – Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade
GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente
LPN – Liga para a Protecção da Natureza
Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza
SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves
WWF Portugal
ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável

No dia 18 de maio, o teu voto dita a forma e o conteúdo da nossa atuação no mundo


Mas porque é que a atuação de Portugal no estrangeiro é pessoal e está relacionada com o voto individual nas legislativas?
Há três razões fundamentais pelas quais a política externa deve importar no momento de votar, e cada uma delas ajuda a perceber como esta área governativa, tantas vezes invisível no debate público, tem impacto direto na nossa vida coletiva.

1. Porque define o que Portugal defende ou tolera em teu nome
Quando um país apresenta uma resolução ou decide como votar; quando silencia ou denuncia violações dos direitos humanos; e quando investe ou reduz as suas relações com países antidemocráticos, está essencialmente a falar em teu nome no palco mundial.

A diplomacia tem ao seu dispor várias ferramentas para comunicar os valores e as prioridades que o país define, e esse enquadramento diz mais sobre nós, como indivíduos e como país, do que imaginamos. Se nem tudo na política externa se altera consoante um governo mais à esquerda ou mais à direita, existem exemplos concretos do tipo de atuação externa que pode variar consoante os ciclos eleitorais: Há dois anos, Portugal associou-se à Comissão Europeia numa ação contra a Hungria por alegada violação dos valores fundamentais da União Europeia. Outras questões que podem oscilar incluem o Estado de Direito, as fronteiras e as migrações, o comércio e o investimento em defesa.

2. Porque molda o mundo em que vais viver — e deixar às próximas gerações
São exemplos disto as alterações climáticas, as sanções, a resposta às guerras, os fluxos migratórios, as novas pandemias — todos estes desafios resultam e são afetados pelas decisões externas do país, em estrita colaboração ou retaliação face a outros movimentos internacionais.

Ora, os partidos políticos não atribuem o mesmo valor e prioridade nem aos pilares da política externa em si, nem às soluções que se propõem apresentar. A falta de ambição ou de coerência na ação externa hoje pode significar instabilidade e insegurança amanhã.

3. Porque tens o direito e o dever de influenciar a nossa posição internacional
A política externa é política, e a política é feita de escolhas. Isto não acontece num vácuo — o comportamento dos Estados além fronteiras é, regra geral, uma extensão dos interesses, dos valores e, muitas vezes, das dinâmicas e prioridades eleitorais domésticas. A política externa é moldada por quem está no poder e por como esse poder interpreta o mundo e o papel que o país deve ter nele.

A política externa não é só para diplomatas. É feita por quem elegemos. Logo, é tua também.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Investigação: são falsas 58% das contas no X que promovem o Chega



A CNN Portugal divulga esta sexta-feira uma investigação à manipulação da extrema-direita nas redes sociais, em concreto na rede social X, o antigo Twitter, onde o Chega conta com um exército de perfis falsos para amplificar a sua narrativa xenófoba e fazer elogios às suas propostas.

O autor do estudo é a empresa israelita Cyabra, que elaborou trabalhos semelhantes na recente campanha nas Filipinas e na análise ao cancelamento das presidenciais romenas após se descobrir uma rede de manipulação a favorecer o candidato da extrema-direita no algoritmo do TikTok.

Segundo o estudo, um total de 58% dos perfis que comentaram na conta oficial do Chega no X foram identificados como perfis falsos. Mas a utilização de contas falsas não se restringe ao apoio ao Chega, sendo igualmente usadas para atacar os adversários políticos.

O estudo analisou os comentários feitos nos perfis do PS e PSD e dos respectivos líderes, concluindo que quase metade (49%) dos perfis eram falsos e comentavam para desacreditar os candidatos, “usando linguagem emocional para questionar a sua liderança e credibilidade”. Muitos destes perfis falsos que atacavam Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos surgiam a promover Ventura e o Chega, às vezes nas mesmas discussões.

“Embora a desinformação esteja presente em todo o espectro político, o ecossistema do Chega mostrou a maior concentração de perfis falsos, particularmente em torno de André Ventura. No entanto, um volume substancial de atividade inautêntica também foi observado nas contas oficiais dos partidos Socialista e Social-Democrata, sugerindo que nenhum partido está isento de ser alvo ou beneficiário da desinformação”, conclui o estudo que analisou as contas dos três partidos.

sábado, 10 de maio de 2025

A vergonha absoluta


"Acho que nunca escrevi um artigo em estado de maior indignação. O que se passa em Gaza e no território da Autoridade Palestiniana convoca não só a política, a geopolítica, as relações de forças entre Estados, o mundo do “Ocidente” e do Oriente, todos os conflitos em curso, o “Sul global”, o papel das Nações Unidas, mesmo o direito internacional, convoca tudo o que quiserem, mas tudo está abaixo de um repto moral, de uma obrigação de falar, de um dever de protestar e actuar perante um massacre cruel, diante dos nossos olhos, de um povo, o palestiniano. Só conheço uma comparação para esta indiferença, vergonhosa e também, ao mesmo tempo, a mais certeira e, num certo sentido, a mais diabólica: o encolher de ombros de todos os que sabiam que o Holocausto estava em curso – e havia muitos altos responsáveis entre os inimigos dos alemães que sabiam – e nada fizeram.

E não me venham com a história do anti-semitismo, que é um argumento insultuoso para justificar os crimes de Israel, da mesma natureza que o canto “desde o rio até ao mar” serve para justificar o massacre do Hamas. Estão bem uns para os outros.

Já sabemos que tudo começou com um massacre perpetrado pelo Hamas e que devia ter uma resposta israelita dura, como teve. Mas o que se passa nos dias de hoje é outra coisa, é outro patamar político, racial, nacional, que nada tem a ver com uma resposta com qualquer racionalidade militar para combater o Hamas. É uma política de destruição em massa de um povo e do seu “lugar”, e conheceu mais um agravamento na semana passada, com o anúncio da anexação de mais uma parte do território de Gaza ao Estado de Israel. Trata-se, certamente, de preparar a “Riviera” que um Presidente demente diz querer fazer. Bastava esta declaração de Trump, com a aquiescência cínica e interesseira de Bibi, para nós percebermos o grau de loucura que está à frente da maior potência mundial.

Ah! Sim, muita gente diz-se preocupada todas as vezes que Trump abre a boca, ou move as mãos para fazer aquela assinatura infantil em mais uma ordem executiva à margem da Constituição e dos poderes do Congresso, mas isso não chega. Em particular, não chega para a hipocrisia moral de muitos países da União Europeia, como Portugal, que nem sequer o passo de reconhecer o Estado palestiniano são capazes de dar. É uma atitude quixotesca? Se for levada a sério, com a instalação de embaixadas no novo Estado, a assinatura de acordos económicos, políticos e militares, com um Estado soberano, então a coisa fia mais fino. Acresce que Israel, violando todas as regras do direito internacional, conduzindo um massacre quotidiano, não tem sanções.

No entretanto, todos os dias se mata gente inocente, crianças, mulheres, velhos, sem sequer qualquer racionalidade militar que não seja destruir, matar ou atirar para fora da sua terra milhões de pessoas, para depois terraplanar as ruínas e lá instalar colonos israelitas, os mesmos que andam também a matar palestinianos nas terras da Autoridade Palestiniana, a base eleitoral dos partidos da extrema-direita que estão no governo de Bibi. Quem acredita que o que Bibi quer é dar a Trump os hotéis de luxo e as praias da costa de Gaza para fazer vários Mar-a-Lago, e que alguma vez alguém vai lá por o seu rico dinheiro para fazer uma estância turística, rodeada, por terra, por três muros e um pequeno exército de segurança e, por mar, por patrulhas em lanchas, está tão demente como Trump. Não é o caso de Bibi que quer outras coisas, todas locais, todas no Médio Oriente, todas culminando num ataque ao Irão. Para isso, ele até é capaz de construir a tal Riviera vazia de gente, como as aldeias Potemkin em cartão, deslocadas de quarteirão em quarteirão, para a glória de Trump e depois, conseguindo o que quer, trazer o seu eleitorado de extrema-direita para tomar banho na sua Riviera.

E, já agora, não convinha perguntar, em plenas eleições, algo de verdadeiramente importante ao PS, ao PSD, ao CDS, ao Chega, por aí adiante, se, chegando ao Governo, estão dispostos a reconhecer o Estado palestiniano, estão dispostos a impor sanções a Israel e a usar todos os meios ao dispor de um Estado da União Europeia para punir os criminosos? E, para além disso, o que é que eles acham do que se está a passar com as crueldades de Israel em Gaza?

As respostas seriam até uma razão bem mais sólida e moral para decidir o voto."

P.S. Historiador que é, tem obrigação, todos temos, de saber que um 6 de outubro de 2023 existia, e que já nesse 6 de outubro a ocupação criminosa da Palestina conhecia novos picos de brutalidade. Que nunca deixou de conhecer desde 1948. Sem essa percepção, sem esse reconhecimento dos muitos crimes hediondos dos últimos 77 anos, nunca o povo palestiniano conhecerá justiça.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Listas de deputados do Chega violam paridade

Aqui está uma das razões por que o Chega não divulgou publicamente os nomes dos seus candidatos. Mas algo me diz que não é a principal.


Nas listas para a Europa e Fora da Europa, só 25% dos candidatos do Chega são mulheres, um número que fica muito aquém dos 40% estipulados por lei.

As listas do Chega para os círculos da emigração violam a lei da paridade, tendo em conta que apenas 25% dos candidatos são mulheres, um número que fica muito aquém dos 40% estipulados por lei, avança o Público. O Tribunal da Comarca de Lisboa deixou passar a irregularidade.

André Wemans, porta-voz da Comissão Nacional de Eleições (CNE), explicou que as listas que foram entretanto publicadas “já são definitivas” e “portanto não há nada a fazer”, destacando que a CNE não tem competência para intervir neste processo.

O partido liderado por André Ventura é o único que tem apenas uma mulher por círculo, ao contrário de todas as outras forças políticas com representação parlamentar (que têm dois homens e duas mulheres nos círculos da emigração).


Deportações na campanha e o ar de um tempo trágico


As deportações também rendem votos por cá. São inevitáveis. Não há novidade nas ordens de saída voluntária. Existem desde 2007 e até são inferiores, em número, a vários anos dos governos do PS. Mais uma vez, o governo faz passar por ação política procedimentos quotidianos da administração pública. O que mudou é serem anunciadas, num arranque de campanha, como bandeira política e em celebração, contribuindo para a demonização dos imigrantes. Estamos próximos do pleno emprego, temos falta de mão de obra nos setores que estes imigrantes procuram, precisamos deles para garantir a sustentabilidade da segurança social, são responsáveis pelo repovoamento de várias zonas do interior e travaram a nossa gravíssima crise demográfica. No centrão, só o PR juntou à consciência dos evidentes erros administrativos do passado, em que se deixaram pendurados processos de milhares de imigrantes, a importância económica da imigração e de valores básicos de humanidade, não celebrando a expulsão de pessoas que, como fizemos no passado, procuram uma vida melhor. Não cumprir os requisitos não é sinónimo de ser criminoso. Em Portugal, se vier uma crise económica e com este ambiente político, os imigrantes serão o bode expiatório. Nesse campeonato, só ganhará quem se especializou no filão. Como os conservadores britânicos estão a aprender.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Não votem em mentirosos - criminosos



Das maiores mentiras que ouvi ontem no debate, mas daquelas cabeludas, foi que dos cerca de 1, 6 milhões de emigrantes que temos só cerca de 300.000 trabalham.
"Há 1,6 milhões de imigrantes" em Portugal "e só 302 mil é que estão a trabalhar e a descontar", sublinhou o líder do Chega no debate de ontem, perguntando: "O que é que estão a fazer os outros 1,3 milhões?".
Já boa parte dos portugueses sabem que este senhor tem por hábito mentir com quantos dentes tem na boca, no entanto isto quanto a mim preconiza incitamento ao ódio, é algo não só ignóbil e asqueroso de se ouvir da boca de alguém que deveria ter outra responsabilidade, como é também algo criminoso.
Em 2024, Portugal registou aproximadamente 1,6 milhões de imigrantes a residir no país, representando cerca de 15% da população total. Este número inclui cidadãos estrangeiros com estatuto legal e resulta de uma revisão estatística conduzida pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) .
Quanto à contribuição para a Segurança Social, os imigrantes desempenham um papel significativo. Em 2024, cerca de 982.821 trabalhadores imigrantes contribuíram com mais de 3.600 milhões de euros para a Segurança Social portuguesa, representando 12,4% do total das contribuições . Este valor é cinco vezes (!), sim leram bem, 5 cinco vezes (!) superior ao montante recebido por estes trabalhadores em prestações sociais, que totalizou 687 milhões de euros no mesmo ano.
Segundo dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), no início de 2024 existiam também mais de 400 mil processos pendentes de regularização. Muitos destes imigrantes já estão a trabalhar — mas sem contrato formal, porque ainda aguardam autorização legal. Nestes casos, a informalidade torna-os vulneráveis à exploração laboral, ou seja, só os números oficiais já dizem o que a quase totalidade dos emigrantes cá andam a fazer: a trabalhar, muitos deles em circunstâncias de exploração desumana.
Estes dados evidenciam que os imigrantes não só têm um peso demográfico crescente em Portugal, como também desempenham um papel crucial na sustentabilidade financeira do sistema de Segurança Social, contribuindo significativamente mais do que recebem em prestações sociais.
Voltando ao criminoso. As suas afirmações estão assim dentro do âmbito da:
1. Falsidade factual: os números citados por Ventura contradizem os dados oficiais (como já mostrei), o que revela uma distorção da realidade.
2. Generalização e suspeição coletiva: ao insinuar que mais de um milhão de pessoas "não está a fazer nada", Ventura pode estar a sugerir que os imigrantes são um peso social — sem qualquer base —, o que contribui para a estigmatização de um grupo populacional.
3. Intenção e contexto: o discurso é feito num debate político, o que pode ser interpretado como liberdade de expressão ampliada. Contudo, a liberdade de expressão não protege discursos que incitem ao ódio ou à violência.

domingo, 4 de maio de 2025

A grunhificação do discurso político


"Entre cravos e concertos: como Luís Montenegro banalizou a Liberdade com música de tasca e propaganda de feira
Este ano, o 25 de Abril e o 1.º de Maio não foram celebrados pelo Governo.
Foram transformados num arraial de conveniência política, montado às portas de São Bento, onde a história foi abafada pelo som das colunas e pelas palmas coreografadas.
Com a subtileza de um apresentador de programa das manhãs, trocou o cravo pela concertina e a responsabilidade política pelo entretenimento.
O palco foi entregue a Tony Carreira, Montenegro cantou Sonhos de Menino, e a democracia assistiu, incrédula, ao primeiro-ministro a converter duas datas fundadoras da nossa identidade colectiva numa espécie de “festival popular de propaganda patrocinado pelo contribuinte”.
Isto é uma afronta a todos os que, da direita à esquerda, ainda acreditam na honestidade, no mérito, na justiça e no valor da memória.
Porque o 25 de Abril não é uma selfie pirosa com a esposa para parecer do povinho.
O 1.º de Maio não é uma feira de comes e bebes para disfarçar a ausência de política laboral e a falta de responsabilidade.
A Liberdade não se comemora com copos na mão e discursos de propaganda eleitoral na residência oficial do primeiro-ministro.
E, enquanto nos entretém com música e circo, vai enchendo os bolsos dos mais poderosos e dos seus amigos do partido.
Este desrespeito pela separação entre Estado e negócio, entre memória e espectáculo, entre Governo e comício, é perigoso.
Desenganem-se os que acham que isto foi apenas mau gosto ou parolice.
Isto é um projecto de apagamento.
De esvaziamento do valor político da Liberdade, da ética e da justiça social.
É substituir a memória por marketing.
A política por animação.
A ética por fuga e ilusões.
A verdade por spins e whataboutism.
Este tipo de instrumentalização, de despolitização calculada, não é um acidente — é um sintoma grave de uma democracia que começa a tropeçar no seu próprio desleixo e grunhificação do discurso político.
E cabe a todos, da esquerda à direita, dizer com firmeza:
Não em nosso nome."
Eduardo Maltez da Silva

Usar os imigrantes como carne para canhão para uma campanha eleitoral, isso é que não.

"Imigração.
Cumprir as leis do país, claro que sim.
Usar os imigrantes como carne para canhão para uma campanha eleitoral, isso é que não.
Sou filho de emigrantes, eu próprio fui um emigrante, sei bem as dificuldades que levam as pessoas a emigrar, sei bem os sacrifícios que os emigrantes passam para singrar nos países de acolhimento.
É por isso que me é insuportável que o governo esteja a explorar os anúncios sobre a imigração como mero expediente de campanha eleitoral. É indigno de um país de emigração. É indigno de um país que precisa dos imigrantes. É indigno de um Estado de direito, onde a aplicação da lei não pode estar sujeita aos interesses particulares e conjunturais de uma força política no governo.
Viver na legalidade, defender a legalidade, claro que sim.
Manipular a aplicação da lei para obter votos, envergonha qualquer pessoa decente. O que o governo está a fazer envergonha." - Porfírio Silva

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Relembrar alguns dos apoios do Chega - a 18 de Maio vamos retirá-lo do Parlamento


Num relatório publicado pela ONG norte-americana GPAHE contra ódio e extremismo, o Ergue-te foi classificado, juntamente com o ADN e o Chega, como um grupo de ódio e extrema-direita.

Aliás, o líder racista Mário Machado que votou sempre no PSD até 2000, passou depois a votar PNR e , quando apareceram os cheganos fez um vídeo na net a apelar ao voto nos cheganos. Não esquecer nem ignorar ainda a enorme quantidade trolls e bots cheganos que campeiam na rede X.

Partilha. Dia 18 vota para erradicar esta escumalha destruidora do bem estar social e democrático e violadora da Constituição da nossa República. Fascistas nunca mais.

Fonte 7 Março 2024
Quem apoia e financia o Chega merece ser nomeado. Não que o mesmo não deva ser feito com todos os demais partidos, mas a capa de virtude saneadora com que se cobre o dr. Ventura é, na situação presente, um logro que tem de ser revelado. Sabe-se, por exemplo, das formas enviesadas como o CDS chegou a ser financiado, sabe-se que os grandes grupos empresariais repetem abundantes e regulares donativos ao PSD e ao PS. A marca dos interesses de classe que se perfilam por trás destes apoios é clara, mesmo se pouco divulgados.

No caso do Chega, que se apresenta como cavaleiro da luta contra a corrupção, querendo parecer que joga por fora e contra “o sistema”, importa mostrar como, também neste aspecto, faz parte plena do sistema e dele beneficia. O seu propósito é apenas o de ganhar um lugar ao sol. Empresários variados, juristas, salazaristas, neonazis, ex-militares e ex-diplomatas – o leque fala por si.

Ver também o artigo do jornalista Miguel Carvalho no Público de 25 de fevereiro de 2024 «A grande ‘família’ do Chega».

Chega, Ventura e amigos

Quem são os ditos “portugueses de bem” que estão no Chega:

João Maria Bravo – Dono da Helibravo. Omitiu informação ao Estado e às Forças Armadas para ganhar o concurso público dos meios aéreos de combate aos fogos (Fonte: https://bit.ly/3sJiF5Y)

Subcontratou as empresas Pegasus e Elittelina. Ambas são investigadas por [terem organizado] cartéis do fogo [negócio do combate aos fogos], a primeira em Portugal, no âmbito da operação “Crossfire”, em que é suspeita de concertação de preços. (Fonte: https://bit.ly/3sJiF5Y)

Dono do Grupo Sodarca. Lidera o fornecimento de armas, munições, tecnologia e equipamento militar ao Estado, Forças Armadas e Segurança. (Fonte: https://bit.ly/39LdObv)

Paulo Corte-Real Mirpuri – Empresário que liderou a Air Luxor que acabou sufocada em dívidas, tendo os bens desaparecido misteriosamente. O processo de insolvência envolveu 51 credores e dívidas no valor de 86 milhões de euros. (Fonte: https://bit.ly/3p07Av1)

Francisco Sá Nogueira – Gerente da área turística da Helibravo. Ex-presidente da antiga holding do Grupo Espírito Santo para as atividades de agências de viagens e operador turístico, a Espírito Santo Viagens. (Fonte: https://bit.ly/2LFvMo5)

Jorge Ortigão Costa – Empresário e produtor agrícola, amante de touradas (coudelaria com o mesmo nome), cujo nome consta no Panama Papers. (Fonte: https://bit.ly/35Vrv6M)

Francisco Cruz Martins – Advogado, padrinho de casamento de Ventura, também citado no Panama Papers. Aparece também associado aos escândalos do BANIF, BES, Vale do Lobo e à elite angolana. Foi acusado pelo Estado angolano de desviar dinheiro adiantado para comprar ações do Banif. (Fonte: https://bit.ly/38ZwxkB)

Salvador Posser de Andrade – Co-administrador da antiga empresa imobiliária do Grupo Espirito Santo, e administrador da Coporgest. Usou os seus contactos para ajudar Ventura, nomeadamente a angariar dinheiro para o partido. (Fonte: https://bit.ly/2KtKRIv)

Jaime Nogueira Pinto – histórico militante fascista, “o grande pai da extrema-direita portuguesa desde o fim da ditadura salazarista” (Steven Forti). (Fonte: https://bit.ly/3qznbBZ)

Eduardo Amaral Neto – Empresário com ligações à Chamusca. Dono da sociedade de consultoria Gavião Real. (Fonte: https://bit.ly/2NcI3k0)

César do Paço – Multimilionário radicado nos EUA. Suposto apartidário doou dinheiro ao CDS e agora ao CHEGA. Viaja num jato de 55 milhões de dólares mas só declara um volume de negócios de 900 mil dólares. Na sua fundação fantasma reúne figuras do PSD, CDS-PP, Chega (José Lourenço e Diogo Pacheco de Amorim). Sócio maioritário do Clube Futebol Canelas e amigo de Fernando Madureira, líder dos Super Dragões. Financiador da equipa de Boxe do FCP que já serviu de guarda costas de A[ndré] V[entura] em acções no Porto. (Fonte: https://bit.ly/3bZ1EhZ)

Helder Fragueiro Antunes – Empresário, Engenheiro, ex-piloto de corridas. CEO da Global Data Sentinel. Parceiro de César do Paço em alguns negócios, primo de Miguel Frasquilho (chairman da TAP). (Fonte: https://bit.ly/2NcI3k0)

José Lourenço – Consultor de César do Paço e administrador da sua fundação fantasma. Presidente da distrital do Porto do Chega. Mandato e eleição no Porto envoltos em escândalos, ameaças e jogos de poder dentro do Chega. Acusado pelo ex-dirigente nacional do Chega (Miguel Tristão) de fazer entrar dinheiro de formas “estranhas” no partido. O seu nome consta da lista pública de devedores fiscais em Portugal.

Pedro Pessanha – Militar na Reserva, gestor imobiliário. Assessorou vários negócios do BES Angola (BESA), hoje Banco Económico.

Fernando Jorge Serra Rodrigues – Empresário Têxtil (sofás). Salazarista devoto, defensor da ditadura fascista do Estado Novo e divulgador de propaganda nas redes sociais. É o famoso autor da saudação nazi no jantar de apoio a André Ventura no Porto. (Fonte: https://bit.ly/3bUcO7z)

Igreja Maná (de Jorge Tadeu) – Detentora dos canais de televisão Kuriakos TV, TV Maná e ManáSat 1, tem dado especial destaque a André Ventura nos seus canais promovendo-o como “defensor da moral e dos bons costumes cristãos contra gays e outras modernices antinatureza e antifamílias”. (Fonte: https://bit.ly/3itfRoE)

Luis Filipe Graça – Sócio na mediadora Elegantalfabeto. Foi angariador imobiliário no segmento premium. Presidente da Mesa da Convenção Nacional do Chega. Foi dirigente e fundador da organização neonazi ‘NOS’, cujo dirigente máximo foi Mário Machado, o mais conhecido skinhead português. Fundador da organização neofascista ‘Portugueses Primeiro’, em que figura o conhecido assassino de Alcindo Monteiro, João Martins, e colaborou com o ‘Escudo Identitário’. Na última Convenção Nacional do Chega encabeçou a lista da Mesa da Convenção Nacional. Apareceu em vídeos com skinheads em protestos. (Fonte: https://bit.ly/2KB26rC e https://bit.ly/3o01Jo2)

Nelson Dias da Silva – Secretário da Mesa da Convenção Nacional do Chega. Porta-voz da organização “Portugueses Primeiro”, fortemente influenciada por João Martins, condenado pelo assassinato do jovem negro Alcindo Monteiro e fundador da secção portuguesa do grupo nazi ‘Misanthropic Division’, liderado internacionalmente pelos nazis ucranianos do batalhão Azov. Na última Convenção Nacional do Chega integrou a lista da Mesa da Convenção Nacional. (Fonte: https://bit.ly/3o01Jo2)

Tiago Monteiro – Dirigente nacional e líder do Chega em Mafra. Foi dirigente da organização ‘NOS’, liderada pelo skinhead Mário Machado, onde era responsável pelo concelho de Sintra. Atualmente, é responsável pela atividade do Chega em Mafra e membro do Conselho Nacional. (Fonte: https://bit.ly/3o01Jo2)

Cristina Vieira – Cartomante na TVI, antiga diretora de Operações da LibertaGia, sociedade que a partir das Bahamas terá lesado cerca de 2 milhões de clientes através de um esquema fraudulento de pirâmide. (Fonte: https://bit.ly/3p2hmMW)

António Tânger Correia – Ex-diplomata, adjunto de Freitas do Amaral durante o governo de Sá Carneiro. Suspenso de várias funções devido a várias irregularidades na gestão da embaixada em Vilnius: lesou o Estado em 348.270€ em IVA mais 411.181€/ano em despesas pessoais. (Fonte: https://bit.ly/39POZer)

Paulo Lalanda de Castro – Empresário. Referenciado nos Panama Papers, Operação Marquês e nos Vistos Gold. Acusado de corrupção no processo Máfia do Sangue. Dono da Intelligent Life Solutions, empresa que André Ventura ajudou a ilibar no pagamento de mais de 1 milhão de Euros em IVA, enquanto Inspetor Tributário.(https://bit.ly/38ZkHH1, https://bit.ly/3p0hDQL, https://bit.ly/39QYxG2 e https://bit.ly/391F7PT )

Arlindo Fernandes – Empresário, admirador de Salazar, ex-dirigente e breve deputado do CDS. Acusado em 2019 pelo MP de burla qualificada, falsificação de documentos e branqueamento de capitais em negócios imobiliários. Ameaçou de morte João Ferreira, outro dirigente do Chega. (Fonte: https://bit.ly/3p4rEMD)

Manuel de Carvalho – O “Miterrand” de Armamar. Empresário, cônsul honorário da Costa do Marfim, antigo deputado e ex-vereador do CDS (Viseu). Em 2012 foi declarado insolvente por dívidas à banca, tendo cumprido o prazo da exoneração do passivo. (Fonte: https://bit.ly/39M2ax7)

Lucinda Ribeiro Alves – Fanática Religiosa. Adepta do Sionismo Cristão que impõe, para o regresso de Jesus à Terra, a expulsão de todos os muçulmanos de Jerusalém. Jair Bolsonaro e Mike Pompeo, por exemplo, são outros destacados sionistas cristãos.(Fonte: https://cutt.ly/1jFTVXM)

Diogo Pacheco de Amorim – Membro do gabinete político da rede armada de extrema-direita (MDLP), responsável por atentados bombistas e outros ataques terroristas que levaram à morte de várias pessoas. Confesso admirador de Jean-Marie Le Pen, patriarca da extrema-direita francesa, e do primeiro-ministro húngaro de viés totalitário Viktor Orbán. Autor da última versão do programa do Chega, onde se apontam grandes semelhanças com o programa do partido de extrema-direita PNR. (Fonte: https://cutt.ly/cjFRgtj)