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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

“Grândola, Vila Moreira”: Paulo Núncio e a longa tradição de iliteratura na Direita Portuguesa



Há qualquer coisa de profundamente reconfortante na relação da classe política portuguesa com a cultura. É uma relação de amor à distância, daquelas em que se trocam juras sem nunca se ler a partitura. O político acorda com vontade de demonstrar erudição, vai à gaveta do espírito e retira de lá uma citação ou um verso. O resultado, contudo, costuma assemelhar-se a tentar montar um móvel sem ler o manual: faltam parafusos e a estrutura abana a cada estrofe.

O caso de poesia improvisada mais marcante pertence ao deputado e líder parlamentar Paulo Núncio. Numa tentativa de rebater com ironia as cantorias de protesto do Movimento pela Habitação, o deputado brindou o hemisfério parlamentar com um hino inédito do património imaterial nacional: “Grândola, Vila Moreira”. Ficou a dúvida na bancada: estaria o deputado a tentar homenagear um proprietário rural da província ou terá a sua mente voado para a MPB brasileira? É que a sua tentativa de citar o hino da Revolução parecia a introdução de uma canção perdida de Chico Buarque: “Morena de Angola, que leva o chocalho amarrado na canela…”, ou quem sabe a nostálgica “Morena dos olhos d’água, tira os seus olhos do mar…”. Se Zeca Afonso soubesse que a sua Grândola, Vila Morena terminaria rebatizada com apelido de família abastada e embalada com ritmo de samba, talvez tivesse escrito uma bossa nova sobre o Código do IRS. Fica a faltar ao deputado Núncio concluir o seu concerto, misturando Zeca e Chico numa só estrofe: "Vila Moreira, terra da fraternidade / Tira os teus olhos do mar e vem chocalhar na cidade!".

Antes de ser moda trocar letras de canções no hemiciclo, já em 1982 Leonor Beleza inaugurava esta tradição de hermenêutica criativa ao ler mal uma estrofe do Canto V de Os Lusíadas. A jovem jurista provou, logo aí, que o direito e a literatura partilham de uma enorme elasticidade. Em vez de citar Camões com a devida precisão empírica do homem renascentista (“Vi, claramente visto, o lume vivo”), Leonor Beleza declarou em público: “Vi, raramente visto, o lume vivo”. Ao trocar a clareza pela raridade, a futura ministra não só destruiu o pleonasmo com que o poeta afirmava a certeza científica do Fogo de Santelmo, como transformou o feito dos navegadores num evento de probabilidade estatística. A gafe deu origem ao inesquecível trocadilho dos corredores de São Bento, que celebravam o facto de a governante ter lido a epopeia nacional com uma “raramente beleza”.

Incapaz de falhar uma oportunidade para dar uma lição de rigor, o antigo Presidente Aníbal Cavaco Silva viveu a sua própria tragédia camoniana quando demonstrou hesitação na contagem dos cantos da obra-prima de Camões. A razão para a falha é hoje evidente e puramente púdica. Cavaco, homem de contenção familiar e rigor orçamental, ao chegar ao Canto IX - onde o poeta descreve detalhadamente a Ilha dos Amores e as ninfas desnudadas ao sol -, corou e decidiu simplesmente saltar a página. Para o antigo Primeiro-Ministro, a Ilha dos Amores soava a uma perigosa offshore de afetos desregulados e indisciplina financeira. Na dúvida, fez o que qualquer tecnocrata prudente faria: aplicou uma cativação moral ao Canto IX, reduzindo a epopeia apenas aos cantos que cumprissem o défice e os bons costumes.

E o que dizer do panteão musical de Pedro Santana Lopes? Conhecido como o político mais festivo e boémio da sua geração, Santana elevou a falta de cultura erudita ao estatuto de arte concetual através de dois andamentos memoráveis. No primeiro andamento, em 1990, ao tomar posse como Secretário de Estado da Cultura, revelou aos jornalistas que o seu compositor de eleição era Chopin, destacando com entusiasmo os seus fantásticos “concertos para violino”. O facto de Chopin ter dedicado praticamente toda a sua obra ao piano foi um mero detalhe técnico que o governante fez questão de superar. No segundo andamento, em 2018, para provar que andava a ter aulas de piano, garantiu que não tocava Chopin porque preferia “música romântica” (ignorando que Chopin é o expoente máximo do Romantismo), mas orgulhava-se de tocar Bach: o inimitável “Wohltemperierte Preludium”. O título misturava alemão com latino para definir o singelo Prelúdio em Dó Maior - a primeira peça que qualquer criança aprende na aula de iniciação.

Com este elenco, o parlamento português está finalmente em condições de apresentar uma temporada cultural completa para o próximo debate do Estado da Nação. A abertura ficará a cargo de Paulo Núncio com a sua Morena de Vila Moreira em ritmo de bossa nova; segue-se a leitura dramatizada de Os Lusíadas por Leonor Beleza (com a visão raramente clara do Canto V) e com as tesouradas de censura de Cavaco Silva no Canto IX por excesso de despesa sensual; e o encerramento será entregue a Pedro Santana Lopes, num solo ao piano de um concerto de violino inexistente de Chopin, enquanto murmura em alemão inventado um prelúdio de Bach. A política em Portugal pode não resolver os problemas do país, mas garante-nos sempre uma excelente temporada de comédia.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O género da Lua nas línguas e culturas

Para além da sua presença no céu, um fenómeno cultural fascinante reside na forma como diferentes línguas atribuem género gramatical à Lua, moldando o folclore, a literatura e a vida quotidiana em vários continentes.

1. Nas línguas românicas (português, espanhol, francês, italiano, romeno) e em várias línguas eslavas (russo, búlgaro), a palavra para Lua (Luna) é gramaticalmente feminina. Nestas culturas, a Lua foi historicamente personificada como uma figura misteriosa, nutridora e nocturna, associada à intuição, aos ciclos de fertilidade e à saudade romântica. Na poesia - de Federico García Lorca ao simbolismo romântico -, a Lua surge frequentemente como uma musa trágica ou sedutora, muitas vezes colocada em oposição ao Sol, masculino e ardente.

2. Pelo contrário, nas línguas germânicas (como o alemão, em que é Der Mond) e nas tradições indo-arianas (como o hindi/sânscrito, Chandra), a Lua é masculina (enquanto o Sol é feminino, Die Sonne). Nestas mitologias, a Lua representa um guardião solitário, um cavaleiro protector ou um observador silencioso que guia os viajantes pela noite.

3. Nas línguas sem género gramatical - como o inglês ou as línguas do Leste Asiático -, a Lua permanece neutra na gramática do dia a dia, embora a poesia inglesa adopte frequentemente o pronome feminino (She/Her), sob a influência duradoura da mitologia greco-romana clássica.

Ler mais:

A Lua, Gloriosamente Indiferente

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

PISA. Alunos portugueses pioram desempenho académico e recuam ao início do século

Nem precisávamos deste estudo. E cada vez estou mais convicto que vivemos mesmo uma época de citizenhashing, merdificação e slacktivism. Mas aí estão os dados.  

Portugal registou o pior resultado de sempre em Leitura no último relatório PISA, recuando a níveis inferiores aos do ano 2000. Segundo os dados oficiais que pode consultar diretamente no PISA 2025 Results Volume I da OCDE, os alunos portugueses obtiveram uma média de 462 pontos, o que representa uma quebra drástica de 30 pontos face ao pico alcançado em 2015 - o equivalente a perder quase ano e meio de aprendizagem.

Esta derrapagem na literacia e na interpretação de texto é um problema global, mas que em Portugal ganhou contornos mais graves devido a fatores internos específicos. 

Além do impacto prolongado dos confinamentos da pandemia e da distração digital constante dos telemóveis, a comunidade educativa aponta o dedo às constantes alterações nas políticas curriculares e ao recente desmantelamento da estrutura independente do Plano Nacional de Leitura e da Rede de Bibliotecas Escolares. 

Ao diluir estes projetos essenciais em megaestruturas burocráticas, o país perdeu foco e autonomia no combate ao desinteresse dos jovens pelos livros.

O cenário atual é um alerta vermelho que exige muito mais do que lamentações; exige devolver às escolas os meios e a estabilidade necessários para pôr os miúdos a ler outra vez.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Inquérito põe leitura por lazer atrás do uso das redes sociais em Portugal


Um inquérito apresentado hoje pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) revela que menos de dois terços dos participantes dizem ler por lazer como ocupação dos tempos livres, muito atrás do uso das redes sociais.
Em comunicado divulgado hoje pela APEL, dia em que abre a quarta edição do evento Book 2.0 em Lisboa, é indicado que a lista das atividades para ocupação de tempos livres é encabeçada pelo convívio com amigos (91%), seguindo-se as redes sociais (85%), com o cinema e audiovisual por ‘streaming’ em terceiro lugar (75%) e o desporto a seguir (66%). A leitura por lazer é a atividade seguinte, com 62% de respostas dos inquiridos.
De acordo com o mesmo texto, entre os que não leem “a falta de interesse é o principal obstáculo (43%), seguida pela falta de tempo (38%) e pela preferência por outras atividades (33%)”.
No comunicado, a APEL realça que “os resultados reforçam a necessidade de Portugal assumir a leitura e a literacia como prioridades nacionais”, lembrando que “o livro é uma ferramenta essencial de cidadania, pensamento crítico, desenvolvimento humano, acesso ao conhecimento e participação democrática”.
De acordo com os resultados do inquérito – feito pela GfK através de entrevistas a 1.000 pessoas com mais de 15 anos -, 78% dos inquiridos dizem ter lido pelo menos um livro em 2025, no que é o valor mais alto dos últimos três anos, mas 62% responderam ter comprado pelo menos um livro no ano passado, abaixo do número de 2023 (65%).
Segundo o inquérito, também a média de livros por comprador continua a cair, de 7,5 em 2023, para 7 em 2024, e agora 6,9 em 2025, algo que também acontece nos livros para oferta.
“Os resultados sugerem que o crescimento do setor observado a partir da evolução do painel de retalho não se traduziu numa intensificação generalizada do consumo de livros pelas famílias portuguesas”, pode ler-se no comunicado.
Em 2025, a venda de livros em Portugal cresceu 6,9% em relação ao ano anterior, o que se traduziu num total de quase 15 milhões de livros vendidos, um aumento muito impulsionado pelos livros de colorir e infantis, segundo dados divulgados pela APEL em janeiro.
No entanto, no segundo trimestre deste ano, a venda de livros caiu quase 2%, comparativamente ao mesmo período de 2025, registando a primeira quebra desde a pandemia, apesar de ter coincidido com a realização da Feira do Livro de Lisboa.
Os dados do inquérito hoje divulgado pela associação do setor indicam ainda que perto de um em cada cinco portugueses leem sem compra, “o que aponta para a crescente importância de vias de acesso como o empréstimo, as bibliotecas, a oferta, o digital e outras formas de circulação de livros que exigem que o setor compreenda melhor de que modo a expansão da leitura pode também contribuir para a sustentabilidade da cadeia de valor do livro”.
Ainda assim, a APEL assinala que, entre os que se dizem leitores digitais, mais de dois terços recorre a conteúdos gratuitos, que podem ir desde as plataformas de armazenamento em ‘cloud’ a redes como Whatsapp e Telegram.
“Estes canais podem incluir utilizações legítimas – como empréstimos autorizados, obras em acesso aberto ou partilha pessoal de ficheiros –, mas são também compatíveis com a partilha ilegal e não autorizada de conteúdos. A compreensão deste fenómeno é essencial para proteger autores, editores, livreiros e todos os profissionais que integram a cadeia do livro, bem como para perceber até que ponto a expansão da leitura digital ocorre por via de oferta legal ou da circulação de conteúdos fora dos canais comerciais”, acrescentou a associação.
O encontro Book 2.0 – O Futuro da Leitura começa hoje, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e até quarta-feira vai juntar figuras nacionais e internacionais para debater o papel do livro e da leitura.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Karina Rykman - Shoegaze Summer

Melhor som aqui

O tema "Shoegaze Summer", lançado como single antes de integrar o seu álbum de estreia Joyride (2023), é uma amostra vibrante da sua identidade sonora. Embora o título remeta explicitamente ao shoegaze - género noventista marcado por paredes de som distorcidas e vocais etéreos -, a sonoridade da canção transcende essa etiqueta. Karina funde as texturas densas e hipnóticas das guitarras com uma pulsão rítmica de baixo vibrante, influências de jam band, indie rock, post-punk e uma energia pop luminosa e contagiante que rompe com a típica melancolia introvertida do shoegaze tradicional.

Liricamente, o significado da canção gira em torno do contraste entre a introspeção nostálgica e a libertação sensorial da estação quente. É uma celebração do Verão não como um mero período do calendário, mas como um estado de espírito efémero, onde a brisa leve e a distorção sonora se cruzam para criar uma sensação de fuga e vivacidade no presente.

O videoclipe de "Shoegaze Summer", realizado por Danny Clark, capta com precisão essa dualidade. Com uma estética visual de inspiração vintage, cores quentes e uma linguagem quase documental ou de home video, a realização acompanha a própria Karina num ambiente descontraído, a passear pela cidade e pela praia. O significado do vídeo reside na captura da simplicidade e da autenticidade da juventude urbana: contrapõe a imensidão contemplativa do oceano com a energia contagiante da performance, traduzindo visualmente o próprio conceito da música - encontrar um refúgio de liberdade e alegria no meio do caos diário.

Sob o ponto de vista concetual, a obra de Karina Rykman carrega uma densa rede de influências filosóficas e literárias que enriquecem a sua proposta artística. Na dimensão da Fenomenologia da Percepção de Maurice Merleau-Ponty, a filosofia da corporeidade manifesta-se, na totalidade da música, através da linha de baixo vibrante que transforma o som numa matéria tátil e física, sentida e absorvida pelo corpo antes mesmo de ser racionalizada. Paralelamente, no videoclipe, o conceito do "corpo no mundo" (être-au-monde) ganha forma na interação constante da artista com o espaço envolvente, onde o vento, o calor e o próprio peso do instrumento mediam a relação viva entre a sua interioridade e o ambiente. [Fonte: Internet Encyclopedia of Philosophy] 

A esta perspetiva junta-se o dionisismo e a afirmação da vida de Friedrich Nietzsche: ao contrário da introspeção e da melancolia contemplativa do shoegaze tradicional, a artista adota uma postura abertamente dionisíaca de celebração vital, transformando a distorção e o ruído numa afirmação de alegria, dança e energia coletiva.

Esta vitalidade cruza-se com o Existencialismo e a Geração Beat, na medida em que o tema recupera a busca do carpe diem, a celebração da viagem, da evasão e da experiência pura do momento presente perante a transitoriedade do tempo.

Por fim, o Pós-Modernismo e o Realismo Mágico evidenciam-se tanto na apropriação irónica e consciente de rótulos musicais no próprio título da canção, como na capacidade de injetar psicadelia e cores surreais na rotina urbana do quotidiano nova-iorquino, transfigurando o banal numa experiência quase mística.

The International Merleau-Ponty Circle

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Alguns gigantes da Inteligência Artificial estão a comprar lotes de milhares de livros antigos simplesmente para os copiar - e eliminar de seguida


A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros reporta um aumento de 3,2 milhões de livros nas vendas do primeiro trimestre de 2026. No segundo trimestre, as vendas voltaram a cair, mas ainda assim venderam-se mais de três milhões de livros.

Sim, as pessoas ainda leem. Mesmo retirando as leituras obrigatórias, como manuais escolares e afins, as pessoas ainda dão valor ao ato físico de ler e folhear um livro, mas há quem esteja a comprar milhares de livros simplesmente para os eliminar. Alguns gigantes da IA que estão a comprar lotes de milhares de livros antigos simplesmente para os copiarem e eliminar de seguida [Fonte 1] [Fonte 2] [Fonte 3]. O caso é tão grave que Elon Musk já se apressou a dizer no X que deu ordens para a sua empresa não destruir livros raros nos processos de digitalização.
Se por um lado o mercado de livros usados encontrou compradores massivos que "atiram a tudo o que mexe", transformando um negócio moribundo num negócio extremamente lucrativo, também é verdade que estas empresas não estão meramente a comprar livros para guardar em estantes bonitinhas de uma livraria qualquer. Estas empresas estão a comprar livros para lhes passarem uma guilhotina nas lombadas, colocar em digitalizadores rápidos, copiar página a página e no final tratar o papel como nos recomendam que tratemos: enviar para reciclagem.

Morte ou perpetuidade?
Se é um fato que os livros digitalizados podem garantir mais perpetuidade do que livros numa arrecadação a apodrecer com humidade ou a serem devorados por ratos, também é verdade que podemos nunca mais ter acesso às histórias completas desses livros se a velocidade com que são destruídos for muito maior do que a velocidade com que os ratos os roem.

Estes processos de digitalização não são propriamente projetos de preservação e restauro. Quando estas empresas copiam os livros, não estão a criar um novo livro digital, nem nada parecido. O que estão a fazer é a aumentar o conhecimento dos seus modelos de IA que mais tarde nos apresentarão interpretações ou respostas com base no que aprenderam nesses livros, o que não quer dizer que nos entreguem alguma vez esse livro na sua forma integral.

E mesmo que existam cópias integrais, nada garante que esse arquivo digital sobreviva. Guardar milhões de páginas digitalizadas em alta resolução custa dinheiro. Armazenamento, manutenção, curadoria, gente a organizar e a catalogar. é dispendioso. Se não houver curadoria suficiente que preserve esse arquivo ainda que digital, é bem provável que estas empresas, por puras razões económicas optem por não o fazer. Um ficheiro que já cumpriu a sua função de treino não gera retorno nenhum só por ali estar guardado. O que sobra, nesse cenário, não é o livro nem a sua cópia mas aquilo que o "robot" reteve do treino e da sua própria interpretação do texto. Isso, sim, é uma perda irreversível. Passamos de ter o original para ter, na melhor das hipóteses, um eco eventualmente distorcido dele.

Podemos estar a cometer uma atrocidade cultural ao nível do que aconteceu na Dinastia Qin, na Inquisição Espanhola ou na Alemanha Nazi, eliminando livros em troca de um pret-a-porter que a Inteligência Artificial nos poderá vir, ou não, a dar.

Antecipando as críticas, claro que os propósitos são, de facto, diferentes. Nesses tempos antigos os livros eram destruídos para impedir que o conhecimento chegasse a alguém, destruindo a narrativa desejada. Já uma empresa de IA digitaliza-os para absorver o máximo de conhecimento possível mas as o resultado prático, pode, no final, pode ser semelhante. Em ambos os casos o original desaparece e fica apenas a narrativa que quem ficou com o livro decidiu ou conseguiu reter e transmitir. Um ditador entrega-nos a história reescrita à medida da sua ideologia, uma IA entrega-nos a história reescrita à medida do que o seu treino conseguiu interpretar. Muda a intenção, não muda o efeito: o leitor perde o acesso à obra completa e fica dependente da versão de quem a destruiu.

O livro físico é uma prova física. Um papel é sempre um papel que só se apaga, destruindo. Quando perdermos a referência do papel perderemos a referência do que é incorruptível e do que não é. Quando não tivermos esses livros antigos, não teremos como saber se o que nos estão a dar é o livro, ou se é uma interpretação do livro, ou, ainda pior, se do livro só tem a referência sendo o conteúdo outra coisa qualquer.

Quem será, afinal, o guardião das obras originais quando os livros forem partidos às peças e não soubermos onde está e o que é o todo?

Lembra-se do reCAPTCHA?
Muito provavelmente não sabe mas andámos anos a treinar os algoritmos de IA a interpretar texto sem que sequer nos déssemos conta.

Provavelmente já lhe apareceu, nos testes de segurança de algumas páginas de internet, um texto para "provar que é humano". É o CAPTCHA.

O texto mostra-lhe umas letras quase sempre distorcidas e desalinhadas que pede-lhe que re-escreva o texto. Sempre pensou que fosse o computador a pregar-lhe uma partida, mas não é nada disso. O que o computador está a fazer á a solicitar ajuda humana estatística para identificar textos de documentos antigos ou esbatidos que foram digitalizados. A ratoeira é fácil. Uma palavra ou parte da palavra, é um texto real que o computador conhece. A outra metade é uma foto de um texto antigo digitalizado que o algoritmo não entende e quer perceber o que será. Ao fim de vários milhares de interações, o algoritmo percebe o que os humanos assumem do que leram e fica a digitalização completa.
Imagem do cartaz do filme "Fahrenheit 451", realizado por François Truffaut em 1966. O filme é inspirado no romance homónimo de Ray Bradbury, publicado em 1953. Num futuro distópico, um regime proíbe todos os livros, sendo cada exemplar encontrado queimado. Fahrenheit 451 (equivalente a 233 graus Celsius) é a temperatura a que o papel arde.

Ou seja, de um lado da palavra, o algoritmo valida, com o outro lado, aprende. Sente-se fintado?

Ajudámos o algoritmo, neste caso da Google, a converter milhões de livros e de manuscritos em versões digitais precisas através da nossa interpretação e conhecimento. Mais uma vez ninguém nos explicou antes e mais uma vez a nossa sede de informação foi maior do que o nosso sentido de proteção.

Os grandes fazem-se valer disso.

A IA está a secar
Destruir livros deveria ser um atentado ao património. Destruir livros antigos deveria ser um atentado à humanidade.

Todos sabemos que por questões de eficiência os modelos de aprendizagem da IA não guardam na íntegra toda a informação que vão apreendendo. Ou seja: um modelo de IA não guarda um livro inteiro palavra a palavra. Os modelos guardam a ideia, o conceito e, inevitavelmente, a interpretação deles. Se estas empresas não guardarem os livros na íntegra, o modelo treina-se e vai passando o treino - e não a versão original - de geração em geração do seu algoritmo, fazendo com que se perca a história na íntegra.

As grandes empresas de IA não estão a brincar com os treinos de modelos. Passaram anos a obter informação gratuita na internet. Apanharam jornais, livrarias, bibliotecas, empresas, influencers, redes sociais, enfim, todos nós distraídos, e deixaram os seus modelos a "varrer" literalmente a internet e a caçarem toda a informação que lhes era possível e que ainda por cima era gratuita. Essa foi a base dos modelos que conhecemos mas, e agora?

Depois da implementação da IA dos últimos anos, muitas dessas fontes começaram a ser bloqueadas a robots de IA. Muitos sites instalaram medidas de segurança e já não permitem que sejam abertos por algoritmos. Com isto, os modelos de IA cujo treino assentou em capturar a informação que os humanos já tinham criado e publicado, começam a não ter acesso à última parte da criação atualizada assim como não têm acesso à parte mais antiga da criação humana. Muito provavelmente alguns "robots" não conseguirão ler este mesmo artigo no site da CNN Portugal.

A parte antiga do conhecimento - os livros - estão a querer colmatar com a compra e digitalização de dos mesmos, a moderna ainda se vai ter de resolver mas, quando estivermos bem dependentes da IA, iremos sem pestanejar aceitar qualquer carta de "termos e condições" que lhes permita entrar no nosso computador e ver e até levar tudo o que lá tivermos. É o preço que nos impõem pela inclusão.

Singularidade tecnológica
É precisamente neste apagar da prova física que aceleramos o caminho para a singularidade. No final do dia pode haver uma luta real pelo conhecimento. Ou seja, se a IA absorver todo o conhecimento humano poderá vir a ser a guardiã da sabedoria, o que significa que não precisará dos humanos para aprender porque aprenderá sozinha com base no que já sabe e que é, no limite, tudo o que os humanos já sabem até hoje. Se por outro lado a IA não tiver acesso ao que de novo os humanos criam, tenderá a desligar-se dos humanos ou, em alternativa, a encontrar formas de "roubar" o que não consegue obter deles.

O fundador da OpenAI (Chat GPT) disse esta semana que chegámos perto do ponto da singularidade tecnológica. Ou seja, as máquinas ganham uma "mente" muito mais capaz do que a de qualquer ser humano ou, diga-se, que as máquinas ultrapassam a nossa inteligência.

A nossa sorte ou o nosso azar é mesmo o facto de mesmo estes gurus poderem estar errados. A inteligência não é algo que se possa medir sem contexto nem se garante com todo o conhecimento "scaneado". A inteligência mede-se com base no propósito, na medida em que inteligência é, no fundo, a capacidade de alcançar um propósito. Uma aranha pode ser mais inteligente do que um ser humano se for mais eficaz na forma como concilia os seus dados para alcançar o seu propósito. Quando dizemos que somos o ser mais inteligente à face da terra, não deixa de ser um erro ou mesmo uma audácia.

Se a aranha não tem o propósito de criar um sistema monetário, ou um sistema de saúde ou o que for, a sua inteligência pode extravasar de forma brutal o seu propósito, mas ser infinitamente diminuta para conseguir alcançar o nosso.

O mesmo se aplica à Inteligência Artificial: se o propósito da mesma não é igual ao nosso propósito, como poderemos sequer comparar ambas as inteligências e ainda por cima dizer qual é a maior? E fará sentido criarmos algo mais inteligente do que nós próprios e ainda por cima perdermos a referência integral das obras que fizeram de nós o que somos.

Mais ainda, se na cadeia de predadores a inteligência é sinónimo de topo- não pela dieta e pela biologia, mas pelas ferramentas e pela tecnologia - então acabámos, com todos os nossos livros e escritas, por construir o nosso único predador?

terça-feira, 21 de julho de 2026

Dave Eggers - "O ChatGPT está a silenciar uma geração inteira"


O CEO da OpenAI, Sam Altman, convidou o escritor e jornalista norte-americano, Dave Eggers, a falar perante os funcionários da empresa e, fiel ao que tem sido o seu percurso, o autor não perdeu a oportunidade para tecer duras críticas à Intenligência Artificial enquanto tecnologia.

Eggers, conhecido sobretudo pelo romance “The Circle” de 2013 onde faz críticas à indústria tecnologia, declarou que os textos gerados pelo ChatGPT, o resultado é uma “colagem sem sentido” - argumentando que ninguém terá interesse em ler livros criados com Inteligência Artificial.

Contou Eggers ao Financial Times que estas críticas levaram Altman a convidá-lo para uma pequena palestra na OpenAI, uma oportunidade que aproveitou para afirmar que a Inteligência Artificial seria devastadora para toda uma geração de jovens.

“O efeito que o ChatGPT está a ter na vida dos educadores é catastrófico”, declarou Eggers. “Intencional ou não, tornaram a vida de todos os professores infinitamente mais difícil do que era há dois anos. Pensem nisso.Se os estudantes estão a usar [o ChatGPT] para escreverem, que é uma grande tragédia, nunca aprenderão a escrever. E a voz ser-lhes-á roubada. Nunca terão a capacidade para comunicarem as suas verdades e contarem as suas próprias histórias. E isso é silenciar uma ou duas gerações inteiras”.

A afirmação de Eggers deve ser classificada como um aviso preventivo contra a dependência cognitiva.

Ele não está necessariamente a prever o fim da civilização, mas sim a questionar se estamos dispostos a trocar a dificuldade (e a beleza) do pensamento humano pela conveniência (e esterilidade) da resposta algorítmica. É uma crítica que serve de "freio" necessário num momento de euforia tecnológica desmedida, lembrando-nos de que a tecnologia, se mal utilizada, pode tornar-nos espectadores, em vez de criadores.

Para além de Dave Eggers, o debate contemporâneo sobre os impactos profundos da Inteligência Artificial conta com vozes influentes que abordam o tema sob prismas filosóficos, sociais e científicos. O historiador Yuval Noah Harari, por exemplo, foca-se no perigo existencial da perda de agência cultural, argumentando que a IA é a primeira tecnologia da história capaz de criar conceitos, narrativas e arte de forma totalmente autónoma. Para Harari, ao dominar a linguagem, a tecnologia adquire a capacidade de "hackear" o sistema operativo da própria civilização, o que pode resultar na manipulação em massa e no colapso da confiança nas instituições democráticas. Numa linha de pensamento focada na natureza da mente e do conhecimento, o linguista Noam Chomsky adota uma postura cética quanto à suposta inteligência destes sistemas, classificando a IA generativa como uma forma de plágio de alta tecnologia. Chomsky defende que os modelos de linguagem funcionam apenas com base em correlações estatísticas e probabilidades, carecendo de uma compreensão real sobre a moralidade, a verdade ou as relações de causa e efeito, o que os afasta irremediavelmente da verdadeira capacidade de pensamento crítico e criatividade do ser humano.

Noutro espectro da crítica encontram-se os cientistas que ajudaram a construir as bases desta revolução tecnológica e que hoje manifestam profundos arrependimentos. Geoffrey Hinton, frequentemente apelidado de um dos padrinhos da IA devido ao seu trabalho pioneiro em redes neuronais, demitiu-se do seu cargo na Google para poder alertar o mundo livremente sobre os riscos iminentes da tecnologia. Hinton manifesta um temor genuíno de que a inteligência digital ultrapasse a biológica muito mais cedo do que a comunidade científica previa, criando cenários propícios para a disseminação descontrolada de desinformação e para o desenvolvimento de armas autónomas letais. Alinhado no ceticismo tecnológico, o pioneiro da realidade virtual Jaron Lanier critica a própria designação de Inteligência Artificial, considerando-a um mito comercial perigoso que mascara a realidade. Para Lanier, estes sistemas são, na verdade, ferramentas de colaboração social massiva que extraem e reconfiguram o trabalho de milhões de criadores humanos reais, alertando que a humanização das máquinas resulta inevitavelmente na desvalorização do esforço e da singularidade das pessoas.

Por fim, as correntes focadas na justiça social e na ética prática expõem os danos imediatos e palpáveis que a IA já está a causar no quotidiano. A investigadora Timnit Gebru, antiga líder da equipa de ética da Google, cunhou o termo papagaios estocásticos para descrever os grandes modelos de linguagem, demonstrando que estes sistemas se limitam a repetir padrões linguísticos de forma mecânica e sem consciência. Gebru e os seus pares alertam para o facto de estes modelos refletirem, amplificarem e perpetuarem os preconceitos raciais, de género e de classe já presentes nos dados históricos da internet, servindo os interesses financeiros de grandes monopólios tecnológicos enquanto prejudicam as populações marginalizadas. Assim, quer seja através do medo da obsolescência cognitiva partilhado por Eggers e Chomsky, do alarmismo existencial de Hinton e Harari, ou da denúncia política de Gebru e Lanier, o pensamento crítico atual converge na ideia de que a IA exige uma regulação urgente e uma reflexão profunda sobre os limites que a humanidade deve impor às suas próprias criações.

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sábado, 18 de julho de 2026

Transportna : Testamento (Zapovit)


Letra
Quando eu morrer, enterrem-me numa sepultura,
no meio da vasta estepe,
na querida Ucrânia.

Para que os vastos prados,
e o Dniepre, e os penhascos,
possam ser vistos, possam ser ouvidos,
como o rugido ressoa.

Depois levante-se, quebre as correntes,
espalhe a sua vontade.

O sangue do inimigo no vale
O mar levará para sempre.

Quando o sangue do inimigo da Ucrânia
para o mar azul... então eu
Voarei para Deus.

Mas antes disso, não sei
O que é a oração.

Só a vontade, só a luta é
O tesouro sagrado.

Depois levante-se, quebre as correntes,
espalhe a sua vontade.

O sangue do inimigo no vale
O mar levará para sempre.

Numa grande e nova família,
onde a liberdade flui,
não se esqueça de se lembrar
Com uma palavra gentil e silenciosa.

Depois levante-se, quebre as correntes,
Espalhe a sua vontade.
Que a Ucrânia se erga de novo,
Como uma canção que ressoa em nós!

O projeto musical Transportna é originário da Ucrânia, embora tenha ramificações de distribuição ligadas à Lituânia. A sua sonoridade enquadra-se claramente no género Post-Punk eslavo, com fortes influências de Darkwave e Cold Wave, caracterizando-se por linhas de baixo marcantes, guitarras melancólicas e sintetizadores minimalistas. Um dos pontos mais debatidos sobre este projeto é o uso assumido de Inteligência Artificial. A Transportna tornou-se viral na comunidade de nicho precisamente por utilizar geradores de áudio (como o Suno AI ou softwares semelhantes) para conceber os seus instrumentais e vozes, um facto que gerou bastante discussão após alguns dos seus temas iniciais terem incluído, por lapso da IA, instruções textuais de prompts cantadas diretamente na música.

O videoclipe e a mensagem da canção funcionam como uma clara música de intervenção, profundamente enraizada no contexto de resistência e afirmação da soberania ucraniana. O significado visual e lírico gira em torno da luta contra a opressão, da libertação e do sacrifício pela pátria. A grande inspiração literária e filosófica desta obra é o poeta, pintor e herói nacional ucraniano do século XIX, Taras Shevchenko. A letra da canção é uma adaptação direta de "Zapovit" (O Testamento), o seu poema mais célebre escrito em 1845, no qual Shevchenko apela ao seu povo para que se levante, quebre as correntes da tirania e regue a liberdade. Ao fundir este clássico do romantismo literário com a estética fria do pós-punk gerado por algoritmos, o projeto cria um contraste entre o legado histórico e a modernidade tecnológica.

O videoclipe desta versão de "Zapovit" pela Transportna destaca-se como uma obra visualmente hipnotizante, cuja beleza reside no forte contraste entre a crueza da guerra e a imortalidade da cultura. Construído com uma paleta de cores fria, dessaturada e cinzenta que casa na perfeição com a sonoridade Cold Wave, o vídeo justapõe a dureza das paisagens urbanas modernas e da destruição industrial com a solenidade de monumentos históricos e a beleza intemporal das estepes ucranianas. Esta escolha estética cria uma ponte temporal imediata, demonstrando que a dor e a luta cantadas por Taras Shevchenko em 1845 continuam dolorosamente presentes nas ruas da Ucrânia de hoje.

O simbolismo da natureza é explorado de forma poética através da terra e da água, focando-se no rio Dnipro que o próprio poeta mencionou no seu testamento literário. O rio surge no teledisco como um elemento de purificação e memória viva, onde as imagens fluidas e melancólicas traduzem a passagem do tempo e a limpeza espiritual da nação face ao opressor. Longe de glorificar a violência, o vídeo foca-se na dignidade humana ao incluir rostos de soldados e cidadãos comuns em momentos de profundo silêncio e introspeção. Estes olhares fixos e emotivos humanizam a própria Inteligência Artificial que gera a música, criando um equilíbrio perfeito entre a frieza mecânica dos sintetizadores e a carga emocional crua das pessoas reais.

Embora o ambiente visual seja predominantemente escuro, marcado pelo betão e pela arquitetura brutalista típica do pós-punk de Leste, há uma clara progressão em direção à luz conforme a música caminha para o fim. Quando a letra evoca o renascimento e a liberdade, o plano visual acompanha essa transição espiritual, terminando com uma sensação de transcendência e esperança. A verdadeira beleza deste trabalho reside, portanto, na sua capacidade de transformar um testamento fúnebre e uma tragédia contemporânea num hino estético de resiliência e imortalidade cultural.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Haaland versus Ronaldo


Haaland compra o livro mais caro da história da Noruega para doar a biblioteca pública

O avançado do Manchester City adquiriu uma obra rara de 1594 sobre as sagas dos reis nórdicos por cerca de 116 mil euros (1,3 milhões de coroas norueguesas). O jogador impôs apenas uma condição: que o livro fique exposto ao público.

Muita gente imaginou que Erling Haaland compraria um artigo histórico tão raro para o manter na sua coleção privada. Mas o jogador fez exatamente o oposto. Ao lado do pai, Alf-Inge Haaland, o avançado adquiriu a única cópia conhecida da edição de 1594 de "Heimskringla", uma das obras mais importantes da história da Noruega.

O livro reúne as famosas sagas dos reis noruegueses, escritas originalmente pelo historiador islandês Snorri Sturluson no século XIII. A obra foi arrematada num leilão por cerca de 1,3 milhões de coroas norueguesas — aproximadamente 116 mil euros —, tornando-se o livro mais caro alguma vez vendido na história do país.

Em vez de o guardar, Haaland decidiu doá-lo à biblioteca pública de Bryne, a cidade onde cresceu. A exigência foi apenas uma: que o livro permaneça exposto ao público para que qualquer pessoa possa conhecer essa parte da história da nação.

"Nunca fui um grande leitor, mas quero que o livro esteja sempre disponível para que as pessoas possam ler sobre aqueles que vieram da minha terra, de Bryne e Jæren. É mais fácil sentirmos atração pela leitura quando nos conseguimos rever nas pessoas e nos lugares sobre os quais se escreve", afirmou Haaland em comunicado.

Além da doação, a fundação do jogador criou um projeto de incentivo à leitura direcionado para as escolas do município. A partir do ano letivo de 2026/2027, os estudantes da região participarão numa competição de leitura, e as turmas vencedoras ganharão uma viagem a Oslo para assistir a um jogo da seleção da Noruega no estádio Ullevaal, com a oportunidade de conhecer o próprio Haaland.

O avançado explicou ainda a sua motivação por trás da iniciativa: "Tive a sorte de realizar o meu sonho através do futebol, e sei que nem todos têm essa oportunidade. Os livros dão a muito mais pessoas a oportunidade de sonhar em grande, ver novas possibilidades e encontrar o seu próprio caminho."

A iniciativa foi amplamente elogiada na Noruega por unir desporto, educação e preservação da história nacional, transformando um objeto de valor milionário num património acessível a toda a comunidade.

Notícia original

Um pouco sobre a  história do livro

sábado, 27 de junho de 2026

Slowdive - Sugar for the Pill

Melhor som aqui
Letra
There's a buzzard of gulls
Travelling in the wind
Only lovers alive
Running in the dark

[Refrão]
And I rolled away, said we never wanted much
Just a rollercoast', our love has never known the way
Sugar for the pill, you know it's just the way things are
Cannot buy the Sun, this jealousy will break the whole

Cut across the sky
And move a little closer now
Lying in a bed of greed
You know I had the strangest dream

[Refrão] 2X

"Sugar for the Pill", da banda britânica de shoegaze Slowdive, é uma canção melancólica e atmosférica que explora a complexidade, o desgaste e a inevitabilidade do fim de uma relação amorosa. O título da música baseia-se numa conhecida metáfora inglesa ("sugarcoating the pill"), que significa adocicar ou suavizar uma pílula amarga para que seja mais fácil de engolir. No contexto da letra, esta imagem serve como o pilar central para descrever a tentativa infrutífera de mascarar uma realidade dolorosa: o amor entre duas pessoas esfriou e a rutura é inevitável.

Ao longo do tema, a narrativa evoca uma forte sensação de desapego, solidão partilhada e cansaço emocional. O vocalista Neil Halstead canta sobre um casal que parece estar fisicamente próximo, mas emocionalmente distante, comunicando através de silêncios ou de palavras que já não conseguem curar as feridas existentes. As referências ao vento, à perda de controlo e ao ato de "dar voltas" sugerem um ciclo vicioso de discussões ou de tentativas falhadas de salvar o que resta, onde ambos sabem que o desfecho será o afastamento.

A expressão "açúcar para a pílula" funciona, assim, como uma crítica a esse esforço de manter as aparências ou de adiar o sofrimento. Por mais que os envolvidos tentem encontrar desculpas, usar palavras meigas ou recorrer a falsos confortos para suavizar o impacto da separação, a verdade subjacente permanece amarga e imutável. A música capta precisamente o momento em que se ganha a consciência de que a ilusão já não funciona e de que é necessário encarar a dor de frente, sem anestesias.

Sonoramente, a faixa espelha esta mensagem com maestria. A linha de baixo constante e a guitarra minimalista e cheia de eco criam um ambiente flutuante, quase hipnótico, que traduz o sentimento de se estar à deriva. Em suma, "Sugar for the Pill" é uma reflexão íntima sobre a desilusão amorosa e a aceitação da perda, ilustrando a transição dolorosa entre o esforço de romantizar um problema e a inevitável rendição à realidade dos factos.

Neil Halstead explicou detalhadamente a origem da canção no podcast Song Exploder. A inspiração visual para o início da letra - a famosa imagem das gaivotas na bruma ("There's a blizzard of gulls...") - surgiu durante caminhadas que Neil fazia na costa de Cornualha (Cornwall), no sudoeste de Inglaterra, onde vive. O barulho e o caos das aves marinhas daquela região costeira ditaram o tom inicial. Também disse que se inspirou na música depois de ler o clássico Os Montes Uivantes (Wuthering Heights), de Emily Brontë. Neil Halstead revelou que leu o livro pela primeira vez em 2014, enquanto escrevia o álbum. Ele ficou fascinado pela envolvência da natureza na história e pela relação intensamente destrutiva e condenada entre Heathcliff e Cathy. Esse ambiente ventoso, selvagem e melancólico dos pântanos ingleses serviu de metáfora perfeita para o romance em ruínas que a música retrata.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Valter Hugo Mãe - O Século dos Imbecis


No ano em que assinala três décadas de vida literária, Valter Hugo Mãe debruça-se sobre o paradoxo de "vivermos claramente no século da informação, mas isso não corresponder ao século do conhecimento". Povoado pelos sete pecados mortais, "O século dos imbecis" poderia, inclusive, ter-se chamado "o século dos pecadores". No entanto, e na ótica do escritor, "o pecado parece uma coisa que define menos a perplexidade perante a contemporaneidade".

Isto porque, ainda que "morrer de burro [seja] algo que se faz desde que há gente", o espanto reside "em atravessarmos uma época em que uma certa ignorância ou uma certa oposição ao conhecimento perdeu o pudor e se glorifica como algo válido". Aliás, conforme admitiu Valter Hugo Mãe ao Notícias ao Minuto, basta observar a forma como muitas lideranças políticas "se desinteressam por qualquer tipo de verdade e, em última análise, se desinteressam agressivamente ou se opõem agressivamente àquilo que é comprovado cientificamente".

Ao encetar um ciclo de obras chamado Crimes e Vindouros, "O século dos imbecis" joga com as virtudes, a moralidade, a fé e a justiça, evidenciando que, "enquanto totalidade, estamos, de facto, numa espécie de movimento em direção a um certo fim do mundo, a um certo fim de todas as coisas", no advento da Inteligência Artificial (IA) e da "substituição de quem somos", o que culminará com a descida "à condição de animal, ao invés de ascendermos mais e mais à condição humana".

O que é que o motivou a escrever esta obra, tendo em conta que a sociedade atual, de facto, tem tanto de informação como de desinformação?
O que me motiva neste trabalho é criar uma certa reflexão em torno deste paradoxo, que é vivermos claramente no século da informação, mas isso não corresponder ao século do conhecimento; não garantir que a informação produzida e que o acesso à informação se expresse através do conhecimento. Então, parece-me trágico que, num tempo de tanta preparação, de tanta oportunidade, estejamos a claudicar em tantos sentidos com uma certa folia pela facilidade e por aquilo que é mais destituído. É como se o mesmo gesto que abre a porta para um esplendor humano pudesse perigar por propor também um retrocesso. Eventualmente, seria de esperar que, podendo ser melhores, estejamos meio interessados em facilitar de tal maneira a nossa vida ao ponto de nos destituirmos de capacidades e nos tornarmos piores.

Até com o advento da Inteligência Artificial (IA)...
Sim, a tecnologia está a oferecer algo que é propenso a ser maravilhoso, mas que, perversamente, também sugere ou também seduz para uma abundante, uma larga desistência. E dá-me a sensação de que tudo quanto seja desistir de uma sofisticação do fazer e uma sofisticação do pensar é um passo dado no retrocesso da humanidade. É como se a tecnologia tivesse tudo para nos sofisticar enquanto gente, mas a tentação é usá-la para que nos simplifique e nos retire, em última análise, até a condição humana.

Sim, a IA devia ser usada para coisas como limpar a casa, curar doenças, mas está a ser usada para produzir arte, música… Como é que se explica isto?
Para criar uma espécie de substituição de quem somos. Que possa haver ali uma substituição de muito do que fazemos é uma coisa. Agora, que nos possa interessar uma substituição de quem somos é trágico, porque significa que não nos consideramos à altura e que não estamos predispostos a um esforço para estar à altura correspondendo àquilo que consideramos o que devíamos ser. É muito terrível, inclusive, porque mesmo para que as tecnologias substituam muito do que fazemos, isso acarreta perigos, porque fazer significa também melhorarmos quem somos. É a partir do fazer que as nossas capacidades se comprovam e se podem testar e, inclusive, podemos arriscar melhorar e potenciá-las. Se nos destituirmos do fazer, da condição de fazedores, eventualmente podemos destituir-nos das capacidades do fazer.

Linearmente encontrarmos um gadget qualquer que nos aspire a casa está muito bem, mas chegar ao limite de encontrar um gadget que substitua as nossas necessidades de cálculo, de avaliação… Eventualmente, até a nossa humanidade será reduzida, até a potência humana será reduzida, o que significa que descemos mais à condição de animal ao invés de ascendermos mais e mais à condição humana.

Agilulfo morre de burro, como consequência do divertimento dos outros. Estamos a condenar vários ao mesmo destino, devido às redes sociais e à propaganda de que somos alvo? Estamos em risco de morrer de burros?
De algum modo, sempre se morreu de burro, porque a sofisticação do pensamento, a educação, digamos assim, é esplendorosa ou pode ser esplendorosa porque nos protege em relação a todos os males e a todos os perigos. Por isso, em última análise, numa vida minimamente normal, convencional, o conhecimento já é uma cura para muitas doenças, porque a pessoa escapa de muitas doenças por aprender a comer. Até a simples aprendizagem da travessia de um lado da rua para o outro já é uma salvação da vida ou, eventualmente, da saúde. Tudo o quanto nos instrui propende para nos salvar a vida, propende para cuidar da nossa saúde, por isso, cuida do lado material da vida, cuida do corpo. E tudo o quanto não nos instrui, por deferência, obviamente, propende para perigar o nosso corpo e para perigar a nossa vida. Por isso, morrer de burro é algo que se faz desde que há gente. Agora, o espanto está nisto, está em atravessarmos uma época em que uma certa ignorância ou uma certa oposição ao conhecimento perdeu o pudor e se glorifica como algo válido. E é só ver muitas lideranças políticas… A maneira como se desinteressam por qualquer tipo de verdade e, em última análise, se desinteressam agressivamente ou se opõem agressivamente àquilo que é comprovado cientificamente. Para mim, isso traz um espanto grotesco, diria.

Depois, os seus apoiantes vão atrás e, mesmo confrontados com os factos, negam-nos completamente.
A única maneira destas ignorâncias imperarem é através do fanatismo, através de uma posição obstinada que não quer provas, que não precisa de provas e vive assente em emoções muitas das vezes justificadas por preconceitos. Significa que são posições na vida ou são visões na vida que não pretendem qualquer relação com noções de justiça, por exemplo. O que querem é uma imposição de uma vontade imperativa, despótica e, normalmente, excludente, o que é tudo ao avesso do projeto ou do ideal humano. É tudo ao avesso do que devia ser, do que, eticamente, devia ser. É mais do que uma bizarria, é um perigo. É um perigo porque, pela primeira vez, parece que se propõe uma mudança no paradigma humano que vai meio no sentido de acabar com o humano propriamente dito.

Lá está, quando Agilulfo sobe à torre e adquire todo o conhecimento, profere uma palavra que ninguém compreende, mas à qual é dado um significado aleatório e que todos fingem ter entendido logo. É este o estado da sociedade? Alguém diz alguma coisa e, para não sermos as ovelhas negras, concordamos sem questionar ou compreender o que está em causa?
Sim, é uma padronização de um conhecimento que não é conhecimento nenhum, que é algo que se propaga e que já não se consegue questionar por inteiro, que se instala com um sentido algo dogmático, e é a partir dos dogmas que o fanatismo pode ser levantado. Por isso, para um lado ou para o outro da barricada, as posições vão-se estremando a partir das suas convicções, que são quase convicções de fé.

Estamos num tempo em que, definitivamente, precisamos de ganhar uma consciência em relação às coisas, ao invés de assumirmos que as coisas não nos atingem ou não deverão ser preocupações nossas, porque simplesmente não incorremos nesses erros. O facto de não incorrer nesse erro não implica que não deva ativamente lutar contra esse erro

Devo confessar que achei esta parte deliciosa porque, durante o julgamento, a defesa de Omobon e Omobestia disse, e passo a citar, que "queria apresentar as condolências à família daquele que não evitou a trágica consequência de perder a vida". O primeiro-ministro, Luís Montenegro, disse isto em fevereiro, no rescaldo das intempéries.

Ai disse? Não sabia.
Não sabia?

Não.
Disse precisamente que queria apresentar as condolências "às famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida". A minha pergunta era se foi de propósito, se não foi de propósito.

Oh, meu Deus! Foi uma coincidência, talvez no meu subconsciente tenha ficado a expressão… Não sei, não saberia dizer a expressão de cor, mas é eventualmente um lamento que acontece, que as pessoas fazem em relação a quem não evita perder a vida.

E é idêntica, portanto é muito engraçado ter sido uma coincidência.
Uma coincidência terrível.

Acha que vão interpretar mal?
Acho que vão entender que é algo que não se deve dizer. Que é algo muito estranho, atribuir a culpa à vítima. É elementarmente estranho.

Mas foi esse o seu objetivo, ou não?
Claro. É uma denúncia, é uma discordância. Discordo profundamente com culpar-se as vítimas. É uma boca, é uma provocação, é uma resposta. É uma resposta que a literatura cria em relação à contemporaneidade concreta, à mais concreta contemporaneidade. Sou licenciado em Direito. Não é possível que se estabeleça como justo um princípio que culpa a vítima. Não é possível. É mais do que um paradoxo, é uma imbecilidade.

Um bocadinho nessa linha, Omobon acaba com uma pena mais severa, mesmo mostrando-se arrependido, porque "à bondade exige-se responsabilidade". Considera que isso também acontece na nossa sociedade? Os bons e honestos são mais penalizados?
É, porque dos bons esperamos uma lisura, esperamos resultados condizentes. Dos maus, já de alguma forma os demitimos de servirem de exemplo para alguma coisa. E por isso há uma ironia, ou há um sarcasmo associado. Aliás, todo o livro é sarcástico, mas há um sarcasmo tremendo associado a essa condenação porque, de facto, tendemos a sofrer um desgosto muito maior quando vemos os bons falharem. E isso vai ao encontro do que Martin Luther King dizia, que mais do que temer o ruído dos maus, temia o silêncio dos bons. É um pouco isso. A passividade dos bons, perante uma hipótese de derrocada da humanidade, torna-se profundamente obscena, como se os bons fossem os culpados. Não bastará ser bom, é essencial agir no sentido de fazer com que a bondade seja um princípio ativo. Eu entendo muito assim. Até no foro dos ativismos, digamos assim, acho que estamos num tempo em que não podemos achar que somos só indiferentes a determinadas torpezas. Temos de ser ativamente contra essas torpezas. Por exemplo, não basta eu dizer que não sou racista; é preciso ser ativamente antirracista.

Estamos num tempo em que, definitivamente, precisamos de ganhar uma consciência em relação às coisas, ao invés de assumirmos que as coisas não nos atingem ou não deverão ser preocupações nossas, porque simplesmente não incorremos nesses erros. O facto de não incorrer nesse erro não implica que não deva ativamente lutar contra esse erro. É um pouco o que está em causa entre os bons e os maus. Os bons, não basta que sejam bons, é preciso que sejam ativamente agentes do bem, que produzam o exercício do bem como uma obrigação coletiva.

É curioso, porque a união devia fazer a força, enquanto coletivo devíamos ser muito mais robustos e devíamos funcionar como um exército bastante defendido, mas vemos que não, que os coletivos avançam impavidamente em direção ao abismo, ainda que cada um de nós saiba perfeitamente que, se chegar ao limite, não interessa saltar. Porque é que, enquanto coletivo, caminhamos em direção ao abismo?
Até porque, depois da pandemia, ou durante a pandemia, dizia-se que as pessoas iam ficar mais próximas, mais solidárias, e estamos a ver um pouco o contrário, não é? Estamos cada vez mais individualistas.

Era uma coisa que a história também já explicava, que depois das pandemias voltam as guerras e voltam as atomizações e todos os oportunismos e avançam todos os sentidos de imperialismo e de domínio de uns perante os outros. A história explica que, com cada pandemia, há um ciclo que se inicia e que tem uma tramitação, digamos assim, que é repetida. Quem leu alguma coisa já sabia que era inevitável passarmos por esta fase. A candura que se criou no período da pandemia, que fez com que as pessoas achassem que, quando pudéssemos estar juntos, quando pudéssemos voltar às ruas e normalizar um pouco as nossas vidas, haveríamos de ser muito mais fraternos, estaríamos todos saudosos de nos vermos e de nos abraçarmos… Essa candura é exatamente um dos instrumentos mais valiosos para o oportunismo, porque as pessoas entorpecem, digamos assim, os sentidos, ficam iludidas com uma fantasia e acabam por estar meio predispostas para serem enganadas em todas as situações. Por isso é que a história também comprova que é nesse instante de candura universal que os malfeitores avançam.

Não deixa de ser estranho... Como é que a história já mostrou isso tantas vezes e, mesmo assim, continuamos repeti-lo?
É como se individualmente fôssemos todos muito capazes, mas coletivamente somos sempre um pouco mais falhos. É curioso, porque a união devia fazer a força, enquanto coletivo devíamos ser muito mais robustos e devíamos funcionar como um exército bastante defendido, mas vemos que não, que os coletivos avançam impavidamente em direção ao abismo, ainda que cada um de nós saiba perfeitamente que, se chegar ao limite, não interessa saltar. Porque é que, enquanto coletivo, caminhamos em direção ao abismo? É estranho, porque cada um de nós sozinho não tem interesse nenhum em seguir essa direção, mas no coletivo fazemo-lo. Enquanto totalidade, estamos, de facto, numa espécie de movimento em direção a um certo fim do mundo, a um certo fim de todas as coisas.

A Marquesa, mulher bicuda e propensa a diarreias que acha que "o povo é estúpido", tem um final aberto, associado ao cofre de Agilulfo. O cofre representa o quê exatamente? O desconhecido, o ideal da informação? A soberba?
O cofre, para mim, é um mistério que não é aceite, que algumas personagens não conseguem aceitar. É um mistério que acontece às vezes nos meus livros. É uma equação irresoluta, que não tem solução à vista. E, depois, as pessoas distinguem-se entre aquelas que tomam a rédea das suas vidas independentemente de tudo ou as outras que não conseguem avançar em sentido algum enquanto uma resposta não lhes for dada. Por isso, a Marquesa não consegue existir para lá daquela resposta e a Criada existe para lá daquela resposta.

Torna-se a patroa, não é?
É e, por isso, de alguma maneira, as pessoas ficam distintas, são distintas por esta atitude em relação a uma equação irresolúvel. Ou achamos que a vida é justa independentemente de nos responder ou não, ou, então, não aceitamos o facto de não nos responder e estabelecemos a vida como impossível.

Tendo em conta as referências à religião, às tantas dei por mim a tentar identificar os sete pecados mortais. Foi propositado ou eu é que levei a minha análise demasiado a fundo?
Não, tem, porque há um jogo com as virtudes no livro e, por isso, todos os pecados estão presentes, de alguma forma. Podia ser o século dos pecadores, mas o pecado parece uma coisa que define menos a perplexidade perante a contemporaneidade. Mas existe o uso das iniquidades todas.

Se estabelecermos como verdade alguma coisa que nos é dita sem ser comprovada, sem ser passível sequer de prova, estamos a aceitar uma certa realidade paralela. Estamos a aceitar que as evidências não esgotam aquilo que há para saber e, diante das evidências, podemos estar crentes de uma coisa completamente distinta. Podemos confiar mais no que sentimos do que aquilo que está diante dos nossos olhos de uma forma concreta

Falou há pouco sobre a justiça. No livro escreveu que, "quanto mais se propagava a justiça, mais se notavam as falhas de carácter e o quanto a informação, afinal, não podia nada contra o prejuízo dos gestos" e que "a população aumentava de emoção, […] decidia por sentir e não por pensar". É um pouco isto que estamos a viver, não é?
É seguir as perceções. O sentimento é um bocadinho criado por uma perceção que pode ser completamente fantasiosa e que não se fundamenta por completo. Por isso, é uma espécie de ciência do achismo, que faz com que as pessoas se movam e tomem decisões a partir de um ponto de vista pessoalíssimo e normalmente errado – muitas vezes errado. De facto, uma das tragédias da contemporaneidade é fazermos ascender o sentimento à ciência, é confundirmos sentimento com ciência.

Até que os personagens criam uma nova santa.
Há uma Nossa Senhora que vai exatamente ser criada ao arrepio daquilo que as pessoas sentem. Em última análise, a religião é um sentimento, não consegue ser uma ciência, não fornece respostas concretas. Estabelece apenas dogmas, que é um bocadinho o que os sentimentos também vão fazendo. Vão criando em nós uns certos dogmas, umas certas inclinações para achar que as coisas são assim ou assado. E a religião é feita de dogmas e está cheia de decisões que temos de tomar e que têm que ver com acreditar em alguma coisa que não é minimamente comprovável e, às vezes, nem plausível. Então, achei interessante que o sentimento destas pessoas desse origem à criação de uma nova santa.

Às vezes, a religião é necessária para sobreviver, para suportar a vida, mas também cria bastante resistência ao conhecimento.
Sim. Tudo o quanto pode, a partir do ponto de vista do estabelecimento de um dogma, que não deixa de ser um preconceito, porque é um pré-conceito, um conceito prévio, acaba por ser modo de eventualmente perigar o conhecimento ou perigar a ciência. Se estabelecermos como verdade alguma coisa que nos é dita sem ser comprovada, sem ser passível sequer de prova, estamos a aceitar uma certa realidade paralela. Estamos a aceitar que as evidências não esgotam aquilo que há para saber e, diante das evidências, podemos estar crentes de uma coisa completamente distinta. Podemos confiar mais no que sentimos do que aquilo que está diante dos nossos olhos de uma forma concreta.

Ao longo destes 30 anos enquanto escritor, que momentos colocaria no seu top três?
A edição do meu primeiro livro, que é um livro do qual eu hoje não gosto, mas que foi um livro que surge na minha vida um pouco de surpresa, sem que eu o tivesse procurado, mas que encontrei, digamos assim. Em 1996, foi absolutamente mudador, foi uma concretização tão gratificante que nunca esperaria que pudesse acontecer. Não tinha a convicção de que isso me pudesse acontecer. Depois, eventualmente, o instante de ganhar o Prémio Saramago, que me retira de uma lonjura e que me oferece a oportunidade de participar um pouco do teatro literário nacional. Diria, depois, a publicação no Brasil. A passagem por um grande festival no Brasil e a recetividade dos leitores brasileiros em relação à minha obra acabam por retificar ou legitimar, diria, uma relação forte que tinha com a cultura brasileira e que faz com que hoje me sinta balançando entre os dois países de um modo muito gratificante.

E faria tudo igual?
Talvez, se fazer tudo igual me trouxesse a este dia, a esta hora, desta maneira, sim, faria, sim. Não saberia fazer de outra maneira, porque o que decidi foi o que soube decidir. Estou muito feliz, sobretudo estou muito feliz com os livros que escrevi, com os livros que escrevo, com o novo livro, de maneira que este foi o percurso que me garantiu a possibilidade de escrever este livro, então foi o percurso certo.

Que outros projetos é que tem em mãos?
Este livro começa um ciclo chamado Crimes e Vindouros, por isso já estou com a cabeça no próximo romance. À partida será uma tetralogia também; gosto de funcionar por ciclos de quatro livros. Estou com a cabeça nestes assuntos, do que podem ser os grandes crimes de hoje, herdados pelas pessoas do futuro; que crimes estamos nós a deixar para que as pessoas do futuro herdem. É nisso que estou metido.

Gosto muito da imagem do Albuquerque Mendes, que é um mestre pintor português, um grande amigo, e que, ao longo da escrita do livro, me foi ouvindo falar sobre ele. Enquanto escrevia, falámos quase todos os dias, e fui contando ao Albuquerque o que estava a acontecer. Ainda antes de ler o livro, ele conseguiu criar essa imagem, que me parece perfeita para o clima do livro, para a desconfiança entre a Marquesa e a Criada, entre as mulheres, a presença da máquina de costura, e o fantasma do Agilulfo deitado como sombra delas mesmas. Então, foi muito especial ter uma imagem do Albuquerque Mendes neste livro, porque surge da nossa amizade e dessa partilha de uma coisa que ainda não acontece, ou que está a acontecer, mas que ainda não existe por inteiro. Ele ajudou-me a ver o livro antes que o livro estivesse completo. É muito especial ter esses bonecos, digamos, esses desenhos na capa do livro.

Sim, é muito bonita. É a cena em que estão a vender os vestidos.
Vendem os vestidos e estão, de alguma forma, transformadas em colegas de trabalho, e assim, meio que aldrabando a clientela, meio que impingindo à clientela a tralha que têm para vender.

Mais tarde ainda é pior, porque usam trapos e cortinados.
Exatamente, depois perdem a cabeça. É o desespero, é a fome.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Apagar Portugal da Língua Portuguesa: a nova utopia ideológica


A Língua Portuguesa não necessita de pedir licença para existir, nem de ser rebaptizada ao sabor das modas ideológicas contemporâneas. É uma das grandes línguas de cultura da Humanidade, formada ao longo de séculos de História, literatura, diplomacia, ciência e expansão civilizacional. Muito antes de certas tertúlias “descoloniais” descobrirem o prazer semântico da autoflagelação civilizacional, já o Português era veículo de pensamento, administração, poesia, comércio e universalidade.
Recentemente, José Eduardo Agualusa, no lançamento do livro “Tudo sobre Deus”, durante o festival Remexe Rio, resolveu brindar o público com uma reflexão sobre “As aventuras das Línguas Portuguesas”, no plural. Estava dado o mote para mais um exercício contemporâneo de revisionismo linguístico, esse desporto intelectual tão apreciado por sectores que parecem sentir vergonha da própria matriz civilizacional que lhes permite, precisamente, publicar livros, viajar pelo mundo e discursar em festivais internacionais.
Com uma prosa sentimental e algo piegas, o escritor propôs que a Língua Portuguesa deixasse de ser Portuguesa para passar a chamar-se “Língua Geral”, por considerar que o idioma teria deixado de ser “colonial, de opressão, de exploração e de domínio”, tornando-se antes um “território de encontros e afectos”. Curiosa formulação. Sobretudo porque a esmagadora maioria das línguas globais nasceu, expandiu-se ou consolidou-se através de impérios, migrações, guerras, alianças comerciais e influências culturais. O Inglês não se disseminou pelo mundo graças a festivais de poesia pacifista, o Castelhano não chegou à América por intercâmbio académico, e o Francês não adquiriu estatuto diplomático universal por mera simpatia gastronómica.
Percebe-se perfeitamente que o gigantesco mercado editorial Brasileiro constitua, na imaginação do escritor, um palco particularmente apetecível para este tipo de discurso ideologicamente alinhado com as tendências culturais da actualidade, podendo daí colher apreciáveis dividendos mediáticos e editoriais. Todavia, uma coisa parece garantida: tal estratégia dificilmente assegurará o respeito intelectual das pessoas verdadeiramente sérias, sobretudo das que conhecem minimamente a História, a formação e a projecção universal da Língua Portuguesa.
Mais curioso ainda é verificar que o próprio Agualusa beneficiou amplamente do espaço cultural Português e europeu. Estudou no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, recebeu bolsas literárias em Portugal, além de apoios de instituições Holandesas e Alemãs. Nada de escandaloso nisso — pelo contrário. O problema surge quando se tenta transformar a língua que proporcionou essa projecção internacional numa espécie de entidade abstracta, órfã da sua origem histórica e civilizacional. Como se o Português tivesse nascido espontaneamente numa assembleia multicultural sob os auspícios da ONU de Guterres.
Aliás, se a lógica defendida por Agualusa fosse levada às últimas consequências, talvez o próprio escritor devesse dar o exemplo pessoal da ruptura identitária que propõe para a Língua Portuguesa. Poderia começar por abandonar o nome “José Eduardo”, de matriz claramente Ibérica e Cristã, substituindo-o por algo considerado culturalmente mais “descolonizado”. Talvez “Malungo”, em referência Angolana; “Omar”, de influência Árabe; ou “Caíque”, de origem Guarani. Quanto ao apelido “Agualusa”, igualmente integrado na tradição onomástica de expressão Portuguesa, poderia igualmente ser adaptado a uma fórmula mais consentânea com essa nova utopia linguística sem raízes nem origem definida. O problema destas teorias não reside no reconhecimento legítimo das influências culturais múltiplas — isso sempre existiu e constitui riqueza civilizacional —, mas na tentativa algo caricatural de apagar deliberadamente a matriz histórica fundadora da Língua Portuguesa, como se reconhecer a origem de uma língua fosse automaticamente um acto de opressão. Curiosamente, ninguém exige ao Inglês que deixe de se chamar Inglês por possuir vocábulos Normandos, Latinos, Germânicos ou Hindustânicos. Só ao Português parece exigir-se o estranho ritual contemporâneo da autoflagelação identitária permanente.
Importa, pois, recordar alguns factos elementares que parecem causar incómodo a certos pregadores da nova ortodoxia linguística. O Português deriva do Latim vulgar há cerca de dois mil anos e possui um substrato Céltico-Lusitano ligado aos Galaicos, Lusitanos, Célticos e Cónios. Com o colapso do Império Romano e a presença de povos Germânicos e Iranianos ou Eslavos — Suevos, Vândalos, Búrios, Alanos e Visigodos — consolidou-se o Proto-Galego-Português. Ou seja, o Português não nasceu em Luanda, no Rio de Janeiro ou numa conferência pós-colonial; nasceu na faixa ocidental da Península Ibérica, desenvolveu-se historicamente em Portugal e daí irradiou para o mundo.
E irradiou de forma extraordinária. Nos séculos XV e XVI, Portugal construiu um império marítimo e comercial que levou o Português a África, à Ásia e à América. O idioma tornou-se língua diplomática, comercial e administrativa em vastíssimas regiões do globo. Foi língua franca no Oriente, serviu de meio de comunicação entre povos asiáticos, africanos e europeus, e chegou a ser idioma dominante no Sri Lanka durante séculos. Dessa expansão nasceram crioulos, variantes regionais e influências recíprocas. Exactamente como aconteceu com todas as grandes línguas universais da História.
Mas há um detalhe frequentemente omitido pelos entusiastas da desconstrução identitária: a Língua Portuguesa continua, ainda hoje, a desempenhar uma função civilizacional indispensável, sobretudo em África. Em numerosos países africanos coexistem centenas de dialectos e línguas locais sem intercompreensão mútua. Sem o Português, a comunicação administrativa, jurídica, educativa e até nacional tornar-se-ia caótica. O Português funciona como elemento agregador, instrumento de unidade nacional e ponte internacional. Ironia das ironias: a língua tantas vezes denunciada como “opressora” é precisamente a que permite a comunicação entre comunidades que, de outro modo, permaneceriam linguisticamente fragmentadas.
Também em Timor-Leste o Português teve um papel político fundamental. Durante a ocupação da Indonésia, a preservação da Língua Portuguesa tornou-se símbolo de resistência nacional e afirmação identitária. O idioma funcionou como elo diplomático com o exterior e como marca distintiva face ao ocupante. Estranho instrumento de “opressão colonial”, este, que serviu de bandeira cultural na luta pela independência.
A relevância literária da Língua Portuguesa é igualmente incontestável. Obras como “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, elevaram o idioma ao patamar das grandes línguas clássicas europeias. Mais tarde, autores como Fernando Pessoa, José Saramago, Machado de Assis ou Mia Couto demonstraram a extraordinária capacidade do Português para exprimir pensamento filosófico, ironia, lirismo, crítica social e universalidade humana.
No plano diplomático e político, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa constitui hoje um espaço estratégico de cooperação internacional. O Português é uma das línguas mais faladas do mundo e possui crescente relevância geopolítica. Não obstante isso, há sempre quem considere mais urgente problematizar o nome da língua do que promover efectivamente o seu ensino, a sua difusão científica ou a sua valorização cultural.
No domínio científico, o Português continua a ser instrumento de produção e transmissão de conhecimento em universidades, centros de investigação e instituições académicas espalhadas por vários continentes. Apesar do predomínio internacional do inglês, o Português mantém uma função essencial na democratização do acesso ao saber e na formação de milhões de pessoas.
A verdade é simples, embora aparentemente incómoda para certos círculos intelectuais: o Português não precisa de ser desculpado pela História para justificar a sua existência. Nenhuma grande língua do mundo possui um passado asséptico, neutro ou angelical. As línguas são produtos da História da Humanidade — e a História da Humanidade raramente se escreveu com pétalas de rosa e declarações de boas intenções.
Assim, a Língua Portuguesa permanece aquilo que sempre foi: uma língua de cultura, de civilização, de universalidade e de futuro. Uma língua viva, plural e global, suficientemente forte para acolher influências externas sem perder identidade própria. E talvez seja precisamente essa solidez histórica que incomoda aqueles que gostariam de transformar tudo quanto herdámos numa vaga amálgama sem memória, sem origem e, de preferência, sem maiúsculas.
Sem Portugal não existiria Língua Portuguesa — apenas silêncio histórico!

João Micael
Presidente
Matriz Portuguesa – Associação para o Desenvolvimento da Cultura e do Conhecimento