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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Patrick Watson - Dream For Dreaming

Melhor som aqui

Letra
This dream I'm dreaming
Won't you wake me up tonight
'Cause this life I'm living
Doesn't really feel like mine
This strange dream I'm dreaming
If it ain't wrong it don't feel right
Never thought you were leaving
I never thought I'd have to start again

Somebody wake me up
Don't you wish we were dreaming
Don't you wish that we were just dreaming

I never thought the stars would look new again
Thought we'd get old, get dressed, and walk the dogs
Never really thought I'd have to be alone
I never thought you'd ever really be gone
But I still sing along
To yesterday's song

I got lost in the tall green grass
Oh I'm so lost in the tall green grass
Got on the phone and called a friend
Asked him where the hell I am?

Somebody wake me up
Don't you wish we were dreaming
Don't you wish that we were just dreaming
Don't you wish that we were just dreaming

"Dream For Dreaming" foi escrita durante um período de intensas perdas pessoais na vida de Patrick Watson: a sua mãe havia falecido, o seu casamento de anos tinha chegado ao fim e o baterista original da banda havia saído.

O significado central da música é a sensação de estranhamento e desconexão com a própria realidade após um grande trauma ou mudança drástica. O próprio Patrick Watson descreveu o sentimento da canção da seguinte forma:

"É sobre quando voltas a casa e a tua casa já não se parece com aquela que deixaste. É a sensação estranha de estares tão longe do que tinhas planeado para a tua vida que a tua própria pele já não te serve. Ficas num estado de descrença, com um sorriso estranho, a perguntar-te: 'o que é que eu faço agora?'"

Na letra, o eu lírico pede para ser acordado ("Won't you wake me up tonight?"), porque a vida real que ele está a viver parece tão bizarra e dolorosa que mais se assemelha a um pesadelo ou a um "sonho estranho" ("this life I'm living doesn't really feel like mine"). É uma reflexão dolorosa, mas profundamente honesta, sobre perder o chão e ter de reaprender a viver numa nova realidade.

domingo, 31 de maio de 2026

Slowdive - Alife

Letra
Two lives are hard lives with you
Two lives are hard lives with you
Two lives are hard lives with you

Hey, just look at us now
Time made fools of us all
We look but we don't understand
We try but we don't look around
Looking down
Looking around

Two lives are hard lives with you
Two lives are hard lives with you

Down where the river runs through
The town, there's a memory of you
Don't look, don't look at me now
Time has got me somehow
It's you and only you
You and only you

Two lives are hard lives with you (3X)

Down where the river runs through
The town, there's a memory of you
Don't look, don't look at me now
Time has got me somehow
There's you and only you
You and only you

Two hard lives are hard lives with you
Two lives are hard lives with you

Significado da canção
Em “Alife”, do Slowdive, a repetição do verso “Two lives are hard lives with you” (“Duas vidas são vidas difíceis contigo”) destaca tanto os desafios de um relacionamento quanto a intensidade dos sentimentos envolvidos. O álbum "Everything is Alive" ao qual a música pertence foi dedicado a pessoas queridas que já faleceram, o que acrescenta uma dimensão de luto e saudade à canção. Assim, a letra pode ser interpretada como uma reflexão sobre o amor romântico, mas também sobre a dor da ausência e a complexidade dos laços afetivos que continuam mesmo após a perda.

A atmosfera nostálgica da música é reforçada por imagens como “Down where the river runs through the town, there’s a memory of you” (“Lá embaixo, onde o rio atravessa a cidade, há uma lembrança tua”), que associa memórias a lugares específicos, tornando o passado quase tangível. O verso “Time made fools of us all” (“O tempo fez tolos de todos nós”) sugere como o tempo pode distorcer sentimentos e percepções, trazendo uma sensação de impotência diante das mudanças inevitáveis. A sonoridade da faixa, ao mesmo tempo animada e etérea, cria um contraste entre a urgência emocional e a busca por conforto, mostrando como os Slowdive transforma experiências dolorosas em algo reconfortante e belo. "Alife" se destaca, assim, como uma reflexão sensível sobre a dificuldade e a beleza de manter conexões profundas, mesmo quando marcadas por perda e transformação.

sábado, 30 de maio de 2026

O adeus a Edgar Morin. 104 a resistir, pensador global, herdeiro do iluminismo

Quando em 2001 lhe perguntaram, à beira da celebração dos 100 anos de vida, onde é que ele ia buscar a transbordante vitalidade, Edgar Morin respondeu: ”É porque consigo ser ao mesmo tempo infantil, juvenil e velho. Admito que mais ou menos adulto, mas não muito.” 

Edgar Morin, um dos últimos mestres do pensamento da cultura contemporânea, sociólogo, filósofo, antropólogo e epistemólogo, morreu a pouco mais de um mês de em 8 de julho chegar aos 105 anos de vida (n.1921, em Paris).

Morin, sempre luminoso e generoso (veio muitas vezes a Portugal, arranjava sempre tempo para quem queria conversar com ele), é um dos últimos herdeiros do Iluminismo. Com mais de 100 livros publicados, continuou até ao fim da longa vida a intervir e a a posicionar-se em muitos dos debates dos nosso tempo (sobre ecologia, sempre sobre a educação, também  questões sensíveis como as caricaturas de Maomé ou a política de colonização israelita, de que era muito crítico). Edgar Morin também ousou imaginar o futuro e interrogar as incertezas do tempo pela frente. Ele gostava de repetir que, do ponto de vista da evolução do pensamento, “ainda estamos na pré-história.”

Ao pensarmos em Edgar Morin pensamos sempre em humanismo. Admirado pelo espírito corajoso e livre, fez da dúvida e da autocrítica ferramentas indispensáveis ​​para a reflexão orientada para enfrentar e entender as metamorfoses e a complexidade do mundo contemporâneo.

Em toda a vida foi um e resistente aos esquematismos ideológicos e aos guetos disciplinares, combateu as arrogâncias, aliou o gosto pela reflexão à relevância da observação, com abordagem interdisciplinar orientada para a concretização da ecologia de ideias que, a par da centralidade da ética, considerava indispensável para chegarmos a uma sociedade mais justa. Para Morin, o trabalho intelectual só faz sentido se resultar em propostas políticas realistas e exequíveis. E, nesta perspetiva, embora consciente dos muitos riscos que o planeta enfrenta, acreditava que os períodos de crise como o tempo de agora são, ainda assim, ricos em potencial, desde que “a civilização ocidental renuncie à obstinada busca de uma ideia de progresso baseada exclusivamente na fé cega no poder da tecnologia e da economia".

Nascido em Paris numa família judaica sefardita, Edgar Nahoum participou ativamente na resistência anti-nazi no início da década de 1940, adotando então pela primeira vez o pseudónimo Morin, que manteria durante toda a sua vida. Após a guerra, frequentou regularmente os meios intelectuais, foi próximo de Marguerite Duras.

Logo a seguir ao final da II Grande Guerra, Morin, oficial da Resistência francesa, foi mobilizado para a Alemanha ocupada. Tinha 24 anos, publicou L’an zéro de l’Allemagne (1946), em que corajosamente propõs a superação do rancor, com aposta na reconciliação franco-alemã. Foi o primeiro título de uma notável bibliografia que, no final da sua vida, contaria com mais de 100 livros. La Méthode, monumental e fundamental obra sociológica e filosófica, foi publicada em seis tomos, ao longo de 17 anos, de 1977 a 2004.

Em Autocritique (1959),Morin relata como foi expulso do Partido Comunista Francês (PCF), de que fora figura de relevo, e reconhece a “cegueira inicial em relação ao estalinismo” que viria a criticar veementemente. Tornou-se também um dos fundadores do comité de intelectuais contra a Guerra da Argélia.

No tempo final de vida, Morin lastimou recorrentemente o estado sombrio do mundo. Quis intervir ativamente em censura à invasão russa da Ucrânia. Publicou um último ensaio,  De guerre en guerre: de 1940 à l’Ukraine (De guerra em guerra: de 1940 à Ucrania). Assentou então: “Estamos a assistir à escalada da desumanidade e ao colapso da humanidade, à escalada do pensamento simplista e ao colapso da complexidade. E, acima de tudo, à escalada para uma guerra mundial que representa o mergulho da humanidade no abismo.” 

No livro de memórias, Les souvenirs viennent à ma rencontre (As Lembranças vêm ao meu encontro), publicado em 2019, quando tinha 97 anos, prenunciou o fim que chegou neste final de 2026 “Eu também partirei para a terra onde cresce a flor de laranjeira.”

Morin resistiu sempre. Contra o populismo, contra o totalitarismo, contra o nacionalismo, contra a violência, contra as ofensas ao ambiente,  contra a desigualdade, contra o ódio, contra a estupidez, contra tudo o que divide e separa. Nunca desistiu, nunca se rendeu.

Morin argumentou ferozmente contra o «reducionismo» — o hábito de dividir os problemas em caixas isoladas e unidisciplinares. Em vez disso, acreditava que os maiores desafios do mundo estão fundamentalmente interligados.

Conceitos-chave que deixa como legado
O trabalho de Morin deu-nos lentes totalmente novas para olhar para as crises modernas:
  1. A Policrise: um termo que co-pioneou para descrever como as crises ambientais, económicas, sociais e políticas não acontecem de forma isolada. Pelo contrário, alimentam-se e amplificam-se mutuamente de forma dinâmica.
  2. O Princípio hologramático: a ideia de que, tal como num holograma, a parte está no todo, mas o todo também está embutido na parte (por exemplo, um indivíduo carrega em si toda a cultura da sua sociedade).
  3. Religação (Reliance): a capacidade humana de construir e sustentar laços significativos, que ele defendeu como a nossa ferramenta máxima de solidariedade num mundo profundamente fragmentado.
«Enquanto for possuído pelas forças da vida, o espetro da morte recua.» — Edgar Morin

Era, como em França gostam de classificar, um maître à penser. O presidente Macron foi certeiro no primeiro comentário ao fim da vida de Edgar Morin: “era o Humanismo feito pessoa.”

Saber mais:

quarta-feira, 6 de maio de 2026

O legado ambiental de Ted Turner


Ted Turner é frequentemente recordado como o magnata da comunicação que fundou a CNN, mas o seu impacto mais duradouro reside na escala colossal da sua filantropia e conservação ambiental. Ele não se limitou a doar dinheiro; transformou a forma como os grandes detentores de capital (bilionários) encaram a responsabilidade ecológica, integrando a preservação da natureza na gestão de grandes ativos.
Um dos pilares centrais do seu legado foi a histórica promessa, em 1997, de doar mil milhões de dólares para criar a Fundação das Nações Unidas. Esta iniciativa foi pioneira ao direcionar recursos privados para causas globais, com um foco acentuado na mitigação das alterações climáticas, na promoção de energias limpas e na proteção da biodiversidade, forçando a filantropia internacional a pensar de forma sistémica e transfronteiriça.
No terreno, Turner utilizou a sua vasta propriedade de terras — chegou a ser o maior latifundiário privado dos Estados Unidos — para implementar o que designou como "capitalismo sustentável". O exemplo mais emblemático deste esforço é a recuperação do bisão americano. Através das suas herdades, Turner geriu o maior rebanho privado do mundo, retirando a espécie do limiar da extinção e restaurando o equilíbrio ecológico das Grandes Planícies. Através do Turner Endangered Species Fund, financiou também a reintrodução de predadores e espécies nativas, provando que a exploração económica da terra pode coexistir com a conservação rigorosa.
Além da ação direta, Turner compreendeu o poder da narrativa. Ao co-criar a série de animação Capitão Planeta, educou uma geração sobre a importância da ecologia. Utilizou ainda o seu império mediático para dar palco a documentários e debates ambientais numa época em que o tema era ignorado pelo grande público. Para Ted Turner, a proteção do meio ambiente sempre esteve ligada à segurança global, levando-o a investir também no desarmamento nuclear como forma de prevenir o desastre ecológico definitivo. O seu legado é o de um visionário que transformou a figura do empresário na de um guardião do ecossistema.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Morreu Desmond Morris, o zoólogo que confiou o seu conhecimento à Universidade do Porto

The Trap, 2020

Ficou conhecido pelos seus estudos inovadores sobre o comportamento humano e animal, mas foi também um destacado comunicador, autor de dezenas de livros e ainda pintor surrealista. Era, sobretudo, um “fascinado pelo mundo”, movido pela “alegria de observar o que nos rodeia”. A mesma “missão” que, em 2014, confiou à Universidade do Porto quando doou ao Museu de História Natural e da Ciência (MHNC-UP) o seu vasto arquivo científico. Desmond Morris morreu, no passado dia 19 de abril, aos 98 anos.

Natural do Wiltshire, onde nasceu em 1928, Desmond Morris desde cedo adotou os animais e a arte como as suas grandes paixões. O estudo dos animais levou-o a formar-se na Universidade de Birmingham, em 1951, e a prosseguir um doutoramento (e pós-doutoramento) em Oxford. Em 1956, aceitou o cargo de diretor da unidade televisiva e de filmagens do Jardim Zoológico de Londres e, em 1959, assumiu o lugar de curador de mamíferos.


Em 1967, deixou o Zoo para se tornar diretor do Institute of Contemporary Arts. Nesse mesmo ano, publica The Naked Ape (O Macaco Nu), obra precursora da etologia humana (na qual propôs uma leitura inovadora do ser humano à luz da biologia evolutiva) e com o qual viria a ganhar notoriedade internacional.

Em 1968, mudou-se para Malta, onde nasceu o filho Jason. Regressou a Oxford em 1974 e aí permaneceu até 2019, altura em que, na sequência da morte da mulher, Ramona, se mudou para a Irlanda, para ficar junto da família e dedicar-se ativamente à escrita e à pintura.

Autor de dezenas de artigos científicos, Morris escreveu 80 livros e foi traduzido para 43 línguas ao longo de seis décadas de uma carreira multifacetada, que cruzou ciência, comunicação e artes visuais. Entre 1956 e 1998, apresentou mais de 700 programas televisivos. Pintou também mais de 3.400 quadros e apresentou mais de 60 exposições individuais.

“Compete-nos continuar a cuidar deste tesouro”
Em 2014, Desmond Morris surpreendeu o mundo quando decidiu doar ao Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto (MHNC-UP) o seu arquivo científico, composto por todos os seus livros publicados, respetivas traduções, registos e notas de investigação, correspondência, coleções de revistas científicas, artigos científicos, coleções de fotografias e negativos, gravações vídeo e áudio e artefactos vários. Em troca, uma promessa feita meses antes pelo então Diretor do MHNC-UP, Nuno Ferrand de Almeida: “Se nos deixarem ficar com o seu arquivo, não vamos apenas guardá-lo, vamos utilizá-lo, analisá-lo. Teremos investigadores a trabalhar nele”.

Aquando da doação, ficou também estabelecida a preferência para que a sua editora em Portugal fosse a Arte e Ciência, título do primeiro projeto editorial do MHNC-UP, lançado em 2018. Desde essa data, foram publicados os livros A Tribo do Futebol (com prefácio de José Mourinho) e a reedição de O Macaco Nu , com uma nova tradução de Carla Morais Pires e prefácio de Jorge Rocha, e, com a mesma tradutora, O Macaco Criativo e Observar.

quinta-feira, 5 de março de 2026

The Cure - Push


This melody means a lot to me. Released on August 30, 1985, I was 19 years old. The moment I heard it, it clung to my soul and never let go. It’s been woven into the fabric of my life for forty years.

The song begins not with words, but with an instrumental preamble that feels like a sunrise over a desolate moor - a long, glittering hallway of sound where Gallup’s bass acts as a steady, subterranean pulse. The guitars, layered in chorus and reverb, spin like silver webs catching the light, suspending the listener for two minutes in the musical equivalent of holding one’s breath until the lungs burn. We wait for the push, or perhaps the fall, until Robert Smith’s voice finally breaks through. It isn’t a whisper; it’s a desperate, melodic cry painting a portrait of fractured intimacy.

"Push" lingers as a quintessential anthem because it finds beauty in the breaking—it is the electric, terrifying thrill of the moment just before the end, the sound of a heart beating too fast in a room that’s far too quiet.

It's not just about romantic relationships. Everyone interprets it in their own way. 

For me, it healed the loss of my first love. Also, when someone (a friend) is no longer with me, or the death of a friendship, or the physical separation from an animal, or when I did everything in my power to prevent the senseless slaughter of our native woods or our urban trees, I return to this hymn because it eases my pain.


Go go go!
Push him away
No no no!
Don't let him stay...

He gets inside to stare at her
The seeping mouth
The mouth that knows
The secret you
Always you
A smile to hide the fear away
Oh! smear this man across the walls
Like strawberries and cream
It's the only way to be

Exactly the same clean room
Exactly the same clean bed
But I've stayed away too long this time
And I've got too big to fit this time.

Conflito emocional e afastamento em "Push" de The Cure
Em "Push", do The Cure, a letra explora o conflito entre o desejo de proximidade e a necessidade de afastamento. A imagem marcante de "smear this man across the walls / Like strawberries and cream" (espalhar esse homem pelas paredes / como morangos com creme) revela um impulso quase obsessivo de apagar a presença de alguém, misturando sentimentos de repulsa e fascínio. Essa metáfora sugere não só o afastamento físico, mas também a tentativa de eliminar qualquer lembrança ou influência emocional da pessoa, reforçando o tema do distanciamento.

O desconforto do narrador se intensifica quando ele admite: "But I've stayed away too long this time / And I've got too big to fit this time" (mas fiquei longe por tempo demais desta vez / e fiquei grande demais para caber desta vez). Esses versos deixam claro o sentimento de não pertencimento e a percepção de que mudanças internas o afastaram de um espaço ou relação que antes era familiar. O contexto da música, frequentemente discutido por fãs e críticos, aponta para a luta em controlar a influência do outro e a necessidade de criar barreiras emocionais. Assim, "Push" se destaca como um retrato direto e honesto do embate entre o desejo de conexão e a autopreservação, traduzindo em palavras e sons a experiência do distanciamento emocional.

Faleceu António Lobo Antunes

Morreu António Lobo Antunes (1942-2026): "Já estou coberto de glória, mas isso não interessa nada, queria era fazer livros bons"

António Lobo Antunes - o Escritor maior e grande contador de histórias
“Eu não quero nem que me compreendam, nem que me discutam, quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre.”
Figura maior da literatura portuguesa tinha 83 anos. Entre crónicas e romances, deixa-nos uma vasta obra, com mais de 40 livros escritos entre 1979 e 2024. Venceu o Prémio Camões em 2007.
Especializou-sem em Psiquiatria na Faculdade de Medicina em Lisboa. Em 1970, foi mobilizado para o serviço militar, período que foi central na sua obra, começando pelos primeiros livros, “Memória de Elefante”, “Os Cus de Judas” e “Conhecimento do Inferno”.
A sua obra foi traduzida em várias línguas, e o escritor foi, durante décadas, apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.

António Lobo Antunes e actividade Política
António Lobo Antunes manteve, ao longo da sua vida, uma relação complexa e frequentemente crítica com a política, caracterizando-se por uma postura de independência e um ceticismo profundo em relação às instituições partidárias. Embora tenha tido momentos de aproximação, como quando integrou as listas da Aliança Povo Unido (APU) nas legislativas de 1980, o escritor rapidamente se afastou, justificando que a sua natureza individualista e rebelde era incompatível com a disciplina de qualquer partido. Mais tarde, em 1985, manifestou um apoio público à candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo, movido por uma convicção íntima nos seus valores. Em anos posteriores, chegou a admitir que, na falta de alternativas, o seu voto tenderia para o Partido Socialista, embora notasse com nostalgia que a força política já não era a mesma dos tempos de Mário Soares.

Para Lobo Antunes, a política era vista através de uma lente quase irracional; ele defendia que as opções políticas eram tão afetivas como as escolhas de clubes de futebol, argumentando que as ideologias tradicionais se estavam a dissolver em fórmulas caducas. Esta visão era acompanhada por uma indisfarçável antipatia pela classe política, moldada em grande parte pelo trauma da Guerra Colonial. O autor nunca perdoou os líderes que enviavam homens para o combate sem nunca terem vivido o horror da guerra. No plano social, as suas posições foram igualmente marcantes: causou polémica ao defender o Iberismo — a ideia de que Portugal e Espanha deveriam ser um só país — e utilizou frequentemente a sua voz para denunciar a pobreza, a desigualdade social e o abandono da classe média, que considerava serem as verdadeiras raízes da violência na sociedade. 

Recordo-me bem destas entrevistas: Por Outro Lado: 2001 e 2006

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Reiniciar

Ekaterina Ermilkina - "The Beginning" (O Início) foi pintada em 2023

Nem de propósito. Reiniciar. O início deste mês colocou à prova toda a minha resistência. Perder um amigo, uma tia e uma irmã num espaço de apenas sete dias é uma dor que não se explica. Decidi que a melhor forma de os honrar não é ficar estagnado no luto, mas sim viver com a intensidade que eles gostariam de ver em mim. Um obrigado sincero a todos pelo carinho que recebi.

Ekaterina Ermilkina é uma artista contemporânea cuja trajetória reflete uma fusão entre o rigor técnico europeu e a energia urbana americana. Nascida em 1975 em Saratov, na Rússia, iniciou o seu percurso sob a influência cultural da sua terra natal. A sua base académica é sólida, tendo-se licenciado na Academia Estatal de Arte e Indústria de São Petersburgo, uma instituição de prestígio onde dominou a forma e a perspetiva clássica. Esta formação foi fundamental para a sua evolução posterior rumo a uma linguagem mais expressiva.

Em 2005, a artista mudou-se para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Nova Jersey, onde vive e mantém o seu atelier atualmente. Esta mudança foi decisiva, pois a proximidade com a arquitetura de Manhattan serviu como o principal catalisador para a maturidade do seu trabalho. O seu estilo é frequentemente descrito como uma intersecção entre o Impressionismo Moderno e o Expressionismo Abstrato.

A temática central da sua obra foca-se na metrópole, capturando o ritmo e a densidade das grandes cidades, especialmente os arranha-céus de Nova Iorque, através de interpretações emocionais da luz e do movimento. Visualmente, as suas composições possuem uma "pulsação" característica, onde as janelas e luzes urbanas se transformam em mosaicos vibrantes.

Tecnicamente, Ermilkina distingue-se pelo uso exclusivo da espátula em detrimento dos pincéis, aplicando a técnica de impasto com camadas generosas de tinta a óleo para criar superfícies tridimensionais. Ela utiliza a ponta da espátula para criar um efeito de pontilhismo, decompondo a luz em blocos de cor que formam um mosaico visual. Esta técnica, aliada a uma paleta vibrante e audaz, permite-lhe simular com mestria os reflexos solares e o brilho artificial das luzes citadinas.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Morreu Serafim Riem (1954-2026), um dos primeiros ambientalistas em Portugal


Veterano do movimento ambientalista, Serafim Riem morreu no Porto, aos 72 anos. Co-fundador da Quercus e do FAPAS e actual dirigente da Íris, “manteve um compromisso firme e generoso” com a natureza.

O ambientalista Serafim Riem, descrito como um veterano da luta em defesa da natureza, morreu quarta‑feira no Porto, aos 72 anos, confirmou ao Azul a direcção nacional da Íris — Associação Nacional de Ambiente, da qual fazia parte. Figura marcante do movimento associativo português, foi fundador e dirigente do Grupo Ecológico Terra Viva, esteve no Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem e co-fundou as associações Quercus e FAPAS.

“O seu amor pela causa ambiental levou-o muito cedo a uma intervenção activa e consequente. Foi um dos primeiros ambientalistas em Portugal, esteve na origem de vários movimentos e nunca deixou de estar disponível para as causas que deram sentido à sua vida”, recorda a bióloga Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra, de quem Serafim Riem era amigo.

A bióloga recorda com emoção a viagem que fez, há dois anos, com Serafim Riem e a mulher, Mila, ao Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. “A Mila era tudo para o Serafim, e o Serafim era tudo para a Mila — um amor profundo, cúmplice, indissociável.”

Combate aos eucaliptais
Economista de formação, Riem consolidou, ao longo de mais de várias décadas, um percurso singular na defesa das florestas e da biodiversidade. Viveu sempre no Porto, cidade onde estudou e se afirmou como uma das vozes mais combativas do ambientalismo.

“O seu trabalho em prol da conservação da natureza confunde-se com a própria vida. Economista por imposição familiar, o Serafim gostava mesmo era de árvores, pássaros, animais. A natureza, a que ele dedicou toda uma existência, corria-lhe no sangue”, recorda Marta Leandro, membro do Conselho do Gabinete Europeu de Ambiente (EEB, na sigla em inglês)​.

Foi um dos fundadores da Quercus — Associação Nacional de Conservação da Natureza em 1985. Os anos 1980 ficariam marcados pela contestação pública à expansão das monoculturas de eucalipto. “Não são florestas, são monoculturas”, afirmou ao Azul em 2023. Numa entrevista ao Jornal de Notícias, há 20 anos, era descrito como “o ecologista que afrontou o lóbi das celuloses, fundou associações e denunciou as autarquias que faziam podas destrutivas às árvores dos seus jardins”.

“Sem exagero, o Serafim estava sempre no terreno, a plantar, a denunciar, a exigir a defesa dos valores naturais, a apoiar comunidades locais — o arranque de eucaliptos em Veiga do Lila, Valpaços, uma revolta popular que ele ajudou a organizar contra forças da GNR montadas a cavalo, em Março de 1989, ficará nos anais da história do ambiente em Portugal. Tal como ele”, acrescenta Marta Leandro, numa declaração ao Azul por escrito.

Amor por aves selvagens
A década de noventa trouxe a cisão com a Quercus que daria origem ao FAPAS – Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens, associação onde intensificou o trabalho ligado à conservação de aves selvagens, à instalação de ninhos artificiais e à criação de pequenos bosques educativos, iniciativas que marcaram a intervenção ambiental no Norte do país.

Licenciou‑se em Economia pela Universidade do Porto e completou um mestrado em Gestão e Conservação da Fauna Selvagem Euro-mediterrânica na Universidade de León, em Espanha. A Agência Ecclesia refere que, mais tarde, frequentou ainda uma pós‑graduação em Arboricultura Urbana no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa.

O seu trabalho foi distinguido com o título de membro honorário da Ordem do Infante D. Henrique (1992) e o prémio Global 500 das Nações Unidas (1992).

Em 2014, recebeu o Prémio Internacional Terras Sem Sombra, atribuído pela Diocese de Beja, distinção que sublinhava o contributo continuado para a salvaguarda da natureza e da biodiversidade.

“Generoso” e ​“incontornável”
Integrava actualmente a direcção nacional da Íris – Associação Nacional de Ambiente, entidade da qual também foi fundador. A sua trajectória, atravessada por confrontos políticos, divergências internas no associativismo e décadas de voluntariado, deixou a imagem de um activista que fez da intervenção ambiental uma forma de cidadania.

“A palavra incontornável deve ser usada parcimoniosamente, mas aplica-se a Serafim Riem no caso do ambientalismo em Portugal”, afirma Raul Cerveira Lima, astrofísico e professor na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico do Porto.

O investigador na área da poluição luminosa foi um dos amantes da natureza que bateu à porta de Serafim Riem, ainda nos tempos de estudante universitário, “animado pelas intervenções que vira nos jornais em defesa do Parque Nacional da Peneda-Gerês por parte do FAPAS”.

“Recebeu-me sempre com amizade, que perdurou. Por sua iniciativa, recentemente apalavráramos uma reunião, “em breve”, para incluir a poluição luminosa na agenda da protecção ambiental em Portugal. Além da muito triste perda para a família, os amigos, a natureza, dia e noite, todos ficamos agora mais pobres. Tentar dar seguimento ao seu incessante trabalho de protecção da Natureza não será tarefa fácil, mas devemos-lhe isso”, afirma Raul Cerveira Lima.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Les Funérailles d'Hélios - La Demoiselle de la Seine




Elle marche seule sur les boulevards,
le brouillard la suit,
les lampadaires la regardent mourir.
Dans ses yeux,
un chœur de voix,
des fantômes qui parlent doucement.

[Refrão]
Pousse-moi,
dans les eaux noires,
la Seine m'appelle,
la Seine m'emporte.

Les mains froides la touchent,
les chaînes invisibles se resserrent,
son sourire est du verre brisé,
son cœur un tambour vide.

[Refrão]
Un seul pas,
un souffle suspendu,
l'eau s'ouvre,
l'eau l'engloutit.

[Refrão]

A canção "La Demoiselle de la Seine" faz parte do álbum intitulado Les Funérailles d'Hélios.
O álbum leva o mesmo nome do projeto musical. Ele foi lançado em 2021 e funciona como uma obra conceitual, onde cada faixa narra uma história melancólica, histórica ou mitológica, envolta em uma sonoridade cinematográfica e sombria.

A letra de "La Demoiselle de la Seine" é profundamente poética e macabra, baseando-se em uma lenda urbana real de Paris do final do século XIX: L'Inconnue de la Seine (A Desconhecida do Sena).

A Inspiração: Diz a lenda que o corpo de uma jovem foi retirado do rio Sena em Paris. O patologista do necrotério ficou tão encantado com a expressão de paz e o "sorriso enigmático" da moça que ordenou a criação de uma máscara mortuária em gesso.

O Tema: A canção explora a beleza na morte e a imortalidade através da arte. Ela descreve a "dama" como alguém que encontrou no rio um refúgio para suas dores, transformando sua tragédia numa lenda eterna.

Simbolismo: O Sena é tratado quase como um amante ou um túmulo de cristal. A música questiona quem ela era e por que sorria, celebrando essa figura que se tornou um ícone da estética melancólica francesa.

Curiosidade: Sabia que o rosto da "Desconhecida do Sena" é o mesmo utilizado até hoje nos bonecos de treino de primeiros socorros (RCP)? Ela se tornou "o rosto mais beijado da história".

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Lunatic Soul - The New End



How to end what once felt true
Yet faded more as dreams went away
How to end something that's burned out
When in your eyes
It still burns bright

Even if there could have been a chance for us
I wouldn't want to harm you anymore
Whether you want it or not
You'll always be
A part of my soul

How to stop living with guilt
No matter what you do
It will hurt
How to stop fearing that scars
Will remain on your broken heart

Even if there could have been a chance for us
I wouldn't want to harm you anymore
Whether you want it or not
You'll always be
A part of my soul

Even if there could have been a chance for us
I wouldn't want to harm you anymore
Whether you want it or not
You'll always be
A part of my soul


A canção "The New End" funciona como o epílogo emocional do álbum  The World Under Unsun (2025) e, por extensão, representa o fim da escuridão e o início da aceitação.

"The New End", do Lunatic Soul, explora o paradoxo emocional de um término: enquanto para uma pessoa o sentimento já se apagou, para a outra ele ainda permanece intenso, como nos versos “How to end something that's burned out / When in your eyes / It still burns bright” (Como terminar algo que já se apagou / Quando nos seus olhos / Ainda brilha intensamente). Essa dualidade reflete o conceito do álbum, que Mariusz Duda descreve como um contraste entre escuridão e luz, e funciona também como metáfora para o fim de ciclos importantes da vida, não apenas de relacionamentos amorosos, mas de fases inteiras, incluindo o próprio ciclo do Lunatic Soul.

A letra tem um tom introspectivo e melancólico, marcado pela confissão de culpa e pelo medo de causar feridas emocionais: “How to stop living with guilt / No matter what you do / It will hurt” (Como parar de viver com culpa / Não importa o que você faça / Vai doer). Duda destaca que tudo o que chega ao fim permanece como parte de nós, reforçado pelo verso repetido “You'll always be / A part of my soul” (Você sempre será / Uma parte da minha alma). O sentimento de responsabilidade pelo sofrimento do outro aparece em “I wouldn't want to harm you anymore” (Eu não gostaria de te magoar mais), mostrando maturidade e empatia. Assim, "The New End" vai além do fim de um relacionamento, simbolizando o encerramento de ciclos e a importância de aceitar o passado para seguir em frente.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Faleceu Pedro Sarmento - coordenador do programa de reintrodução do lince-ibérico em Portugal


O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas manifesta o seu mais profundo pesar pelo desaparecimento prematuro do nosso colega Pedro Sarmento, esta sexta-feira.

Biólogo de formação, Pedro Sarmento coordenava no ICNF o programa de reintrodução in-situ do lince-ibérico em Portugal e foi uma figura essencial no sucesso do trabalho desenvolvido. Integrou os quadros do ICNF em 1994 e desde então a sua paixão, vontade e dedicação inabaláveis foram fundamentais para o sucesso deste programa.

O Pedro amava os linces, que eram a sua razão de viver.

Quando em 16 de dezembro de 2014 se libertou o primeiro casal de linces-ibéricos - a Jacarandá e o Katmandú - no cercado de solta branda, na Herdade das Romeiras, em Mértola – o Pedro permaneceu durante várias noites no exterior do cercado, velando para que nada de anormal acontecesse aos linces recém-chegados, ela proveniente do CNRLI, em Silves, e ele originário de Zarza de Granadilla, na Extremadura espanhola.

Desde então, foram muitas as noites mal dormidas e incontáveis os dias em que o Pedro percorreu quilómetros atrás de quilómetros, a pé e em viatura, dando tudo o que tinha, muitas vezes excedendo-se, para que o regresso do lince-ibérico a Portugal não falhasse e viesse a revelar-se, aos dias de hoje, o projeto de conservação da natureza de maior sucesso em Portugal e na Península Ibérica.

O Pedro viveu num outro Universo, mais acelerado e mais brilhante do que aquele em que a maioria de nós vivemos e, aos 59 anos, deixa-nos uma marca incomensurável e um vazio difícil de preencher.

Nunca esqueceremos o ser humano extraordinário, a mente brilhante e o amigo insubstituível. Uma perda irreparável.

A toda a família, amigos e colegas, o ICNF endereça as mais sentidas condolências.

O Pedro dormia com os linces, e agora descansa em paz.

Até sempre, Pedro, e Obrigado



sábado, 27 de dezembro de 2025

Morreu Eurico Figueiredo, um resistente antifascista e histórico político de enorme relevo na nossa História e ambientalista.


Militante socialista desde 1974, académico e defensor das causas ambientais, deixa um legado marcado pela combatividade cívica e pela defesa de Trás‑os‑Montes. Tinha 86 anos.

Nascido em Vila Real, em 1939, Eurico Figueiredo entrou cedo na vida política. Aos 16 anos aderiu ao MUD Juvenil e, dois anos depois, participou na campanha presidencial de Humberto Delgado, assumindo riscos reais perante a vigilância da PIDE. Em Lisboa, destacou-se no movimento estudantil, presidindo à Comissão Pró-Associação dos Estudantes de Medicina e desempenhando um papel central na Crise Académica de 1962. Foi o primeiro secretário-geral do Secretariado Nacional dos Estudantes Portugueses, estrutura que articulava a contestação académica ao regime. A repressão não tardou: foi expulso da Universidade de Lisboa por trinta meses e detido três vezes pela polícia política.

Transferido para Coimbra, ajudou a reorganizar a resistência estudantil e participou na criação do clandestino Movimento Sindical Estudantil. Em 1965, perante o agravamento da repressão, partiu para o exílio na Suíça, onde manteve ligações estreitas aos movimentos oposicionistas. Militante do PCP desde os 18 anos, rompeu com o partido em 1967, em protesto contra a invasão da Checoslováquia pela União Soviética.

Com o 25 de Abril, regressou a Portugal e integrou o Partido Socialista, onde militou desde 1974. Desempenhou vários cargos dirigentes e foi deputado à Assembleia da República nos anos 80 e ao longo da década de 90. Em 1999, afastou-se do PS, divergindo da linha política de António Guterres. Participou mais tarde na fundação do PDR e aproximou-se do MPT, pelo qual foi candidato a eleições legislativas e europeias.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recebeu “com muita consternação” a notícia do falecimento, evocando Eurico Figueiredo como “um grande lutador pela Liberdade e pela Democracia, de uma verticalidade e de uma independência sem limite”. Numa nota divulgada este sábado, o chefe de Estado apresentou à família, aos amigos, correligionários e admiradores, bem como ao Partido Socialista, “o profundo pesar por uma perda de alcance nacional”.

Em reação à sua morte, o Partido Socialista lamentou a perda de um antigo deputado e ex-dirigente, recordando Eurico Figueiredo como “uma referência política incontornável para todos os socialistas”. Numa nota enviada às redações, o PS sublinhou a sua “tenacidade, combatividade e convicções”, mas também “uma imensa generosidade”, destacando ainda o seu papel como resistente antifascista, a participação ativa na campanha de Humberto Delgado e a intervenção nos movimentos estudantis de Lisboa e Coimbra.

O PS salientou igualmente o seu contributo pioneiro em áreas como a defesa do ambiente e a valorização de Trás-os-Montes e da identidade duriense, sublinhando que “a melhor homenagem” será a continuação do combate por “um país mais justo, mais coeso e solidário”.

Psiquiatra de formação, licenciado e doutorado em Medicina, Eurico Figueiredo foi professor catedrático e uma voz respeitada na área da saúde mental. A sua morte encerra o percurso de um resistente antifascista, académico e político que atravessou, com convicção e sentido cívico, algumas das páginas mais intensas da história contemporânea portuguesa.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Death in Rome - Christmas song



Christmas Song

in this darkest hour
a light shining still
in this quiet night
there’s still time to kill

the storm moves on
from darkened skies
but bide your time
soon we will rise

and the angels on the gallery
sing about the king
born behind
a discount store
by broken rubbish bins

oh divine amnesia
oh divine forgiveness
oh divine indifference
let them seize you

when the clouds have lifted
a stream from the past
will soothe your mind
and you’ll find peace at last

surrounded by fools
was no place to be
but now we’ve moved on
to a sublime destiny

we’re fighting demons
a struggle everyday
the poison has a grip
it steals our days away

But Saint Joseph, Saint Robert
Saint Nicolas, Saint Rita
Saint Benoit
Are by our side

and glory
to the highest
in the highest
heights

Even if I don’t feel him

and peace
to all
decent people

and truth
only to those
who deserve it

A “Christmas Song” dos Death in Rome pega numa canção de Natal clássica, associada a conforto, família e calor emocional, e transforma-a através da sua interpretação musical. A letra permanece praticamente intacta, mas o arranjo minimalista, frio e melancólico cria um contraste forte com o imaginário tradicional do Natal. É uma crítica subtil ao Natal comercial e automático Em vez de transmitir aconchego e alegria, a música soa distante e desencantada, fazendo com que aquelas imagens de lareira, crianças e votos de felicidade pareçam memórias gastas ou rituais repetidos sem convicção. O resultado é uma leitura irónica e nostálgica, onde o Natal surge menos como um momento de união genuína e mais como uma tradição automática, envolta em solidão e vazio emocional. Assim, a canção não rejeita o Natal em si, mas expõe a fragilidade do seu simbolismo quando separado da experiência humana real, mostrando como a música pode alterar profundamente o significado de uma letra aparentemente inocente.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Morreu Nuno Rodrigues

Morreu Nuno Rodrigues (1949 – 2025), um dos nomes centrais da modernidade da música portuguesa, fundador da Banda do Casaco, um dos grupos mais inspiradores dos anos 70 e 80, misturando tradição popular portuguesa com folk, rock, jazz, letras irónicas de critica sociopolítica, uma grande teatralidade e sentido de experimentação. 
A construção musical era em grande medida obra sua. Foi também um importante produtor, editor e distribuidor, com a Transmédia, a excelente MVM e depois a Companhia Nacional de Música, e inspirou gerações posteriores de músicos. 
A Banda do Casaco foi fundada por Rodrigues e António Avelar de Pinho, tendo passada pela mesma, ao longo dos anos, inúmeros músicos e cantores. A cada novo álbum, era comum haver uma formação renovada, uma das muitas singularidades de um projeto que tocou ao vivo apenas uma dezena de vezes, e que nas duas últimas duas décadas tem vindo ser recuperado por novas gerações, tendo o seu legado inspirado indiretamente algumas propostas contemporâneas, de B Fachada aos mais recentes Bandua, Criatura ou Ana Lua Caiano. 
Apesar do sucesso de canções mais próximas dos cânones pop como “Salvé maravilha” ou “Natação obrigatória”, nunca foram uma ideia de grande público, nem se fixavam na cultura da canção de intervenção, nem nos ideais do rock cantado em português. Eram desalinhados. Para continuar a ouvir ficam sete álbuns, entre eles “Coisas do Arco da Velha” (76), “Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos” (78) ou “No Jardim da Celeste” (80) que contaram com o talento, iconoclastia e humor de Rodrigues. Tinha 76 anos.


terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Morreu a escritora e bióloga Clara Pinto-Correia


A escritora e bióloga Clara Pinto Correia foi encontrada sem vida. O presidente da República lamentou a morte da autora e recordou a sua "inteligência" e "brilho".

Clara Pinto Correia morreu aos 65 anos, confirmou esta terça-feira a Editora Exclamação que publicou o seu último livro, Antares, em junho do ano passado.

Segundo o Correio da Manhã, a bióloga, escritora e professora universitária foi encontrada morta em casa em Estremoz esta manhã.

O Presidente da República já apresentou “os seus afetuosos sentimentos” à família, amigos e admiradores de Clara Pinto Correia e disse ter ficado “consternado pela sua partida prematura”.

“Clara Pinto Correia juntava à alegria de viver, uma inteligência e um brilho que se expressaram na intervenção oral e escrita, no magistério científico e na comunicação com os outros”, lê-se numa nota no site da Presidência. Clara Pinto Correia era licenciada em Biologia e doutorou-se em Biologia Celular.

“Não deixou nunca ninguém indiferente. Daí o sentido de ausência por todos partilhado neste momento”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa.

Clara Pinto-Correia é a autora do romance Adeus Princesa, publicado aos 25 anos e com o qual ganhou notoriedade.

Destacou-se tanto ao nível das ciências, como da literatura, tendo ainda sido cronista, jornalista, apresentadora e até atriz, no filme "Kiss me" (2004), de António Cunha Telles. E algumas polémicas.

A autora Clara Pinto Correia esteve presente no podcast «Mesa para Dois» da Antena 1 - RTP. O foco da conversa com João Gobern foi a obra «Antares», mas também a vida da autora enquanto escritora e jornalista.

A autora foi também entrevistada na Prova Oral, de Fernando Alvim.


Tertúlias célebres
Que morte tão prematura. Os meus sentidos pêsames à família e amigos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Morreu Constança Cunha e Sá, figura singular do jornalismo português


Bem que andávamos desassossegados com o silêncio de Constança e Sá, sobretudo na rede X. Jornalista corajosa e frontal.
 
Ouvir os seus argumentos nos tempos da Troika era um bálsamo numa época bem negra que o País atravessou. Tinha a acutilância e a inteligência como algumas das características mais marcantes.

Outra característica marcante: no debate público em geral, representou sempre um compromisso com a verdade e com a independência editorial.

A primeira visibilidade foi na redação do Independente, do qual foi diretora-adjunta e diretora, tendo ainda sido redatora principal no Diário Económico. Porém ficou ainda mais famosa e conhecemos a sua personalidade na Televisão.

Durante muitos anos, integrou então a redação da TVI, em que foi editora de Política, mas abandonou esta estação de televisão em 2020 quando a Cofina estava em vias de entrar na Media Capital. "Saí da TVI, que durante muitos anos foi a minha casa, por uma questão de dignidade, saúde mental e higiene. Nunca acabaria a minha vida profissional a trabalhar para a Cofina. Lamento", justificou então.

Era assim, uma mulher de valores.

Um ano depois, acabaria por voltar à TVI para fazer comentário político.

Amante de livros e música erudita, fumadora assumida, na vida pessoal foi uma mulher de paixões e prazeres. Constança Cunha e Sá nunca se deixou encantar por carros. Até hoje, não tirou a carta de condução. "Nunca me inscrevi para tirar a carta e já não o vou fazer. Odeio burocracias e papelada", assumiu, sem medo das palavras.

Sentidos pêsames à família e amigos. Sentida vénia, Constança, que nunca se vergou ao sistema plutocrático.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Minha homenagem a Pam Hogg


Designer de moda, artista, DJ e música, mas mais do que isso, ícone da cultura visual britânica desde os anos 80, morreu esta quarta-feira a escocesa Pam Hogg, com um percurso marcado pela independência e por uma estética inspirada no punk e pós-punk, que atravessou a moda, a música, a boémia ou as artes visuais. No campo da música, para além de ter sido líder da banda Doll, vestiu imensa gente (de Lady GaGa a Rihanna, de Grace Jones a Beyoncé), tendo uma relação – profissional e pessoal – privilegiada com nomes tão diversos como Siouxsie Sioux, Debbie Harry, Björk, Duran Duran, Peaches, Chicks on Speed, Nick Cave ou Bobby Gillespie, inspirando várias movimentações, do pós-punk aos neo-românticos, passando pelo electroclash. Era também uma ativista. A sua última colecção, de 2024, focava-se nas questões ambientais e na Palestina. “É um mundo injusto e desigual este, por favor, usem a vossa voz, no presente, para o corrigir”, foi uma das suas derradeiras proclamações.

Saber mais

Site oficial

domingo, 19 de outubro de 2025

Morreu aos 91 anos Sofia Corradi, fundadora do programa Erasmus


A professora conhecida como 'mãe do Erasmus' faleceu na sexta-feira, em Roma. Em 1969, após uma desilusão universitária, criou o que hoje é um programa que envolve milhões de estudantes em toda a Europa.

Faleceu aos 91 anos em Roma Sofia Corradi, professora catedrática de Ciências da Educação na Universidade Roma 3, conhecida como 'mãe do Erasmus'.

Sofia Corradi foi a criadora do programa que levou e continua a levar milhares de jovens estudantes a viajar pela Europa todos os anos.

A notícia foi divulgada pela família da professora, que recordou uma mulher “de grande energia e generosidade intelectual e afetiva”.

Como nasceu o projeto Erasmus
Após estudar Direito na La Sapienza de Roma, com uma bolsa de estudo Fulbright em 1957, obteve o “Master in Comparative Law” na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Ao regressar a Itália, a universidade não reconheceu o mestrado obtido no estrangeiro e pediu-lhe que completasse o curso de estudos regular. Corradi, numa entrevista dada à Rai, contou que foi insultada pelo pessoal administrativo, que afirmava que a professora tinha ido divertir-se aos Estados Unidos e não estudar.

Tornou-se consultora científica da Associação dos Reitores das Universidades Italianas e, graças à sua experiência no estrangeiro, em 1969 elaborou um memorando que continha o embrião do projeto Erasmus.

Corradi propôs que um estudante pudesse realizar parte do seu plano de estudos em universidades estrangeiras, após aprovação prévia do Conselho de Faculdade.

A proposta foi acolhida pelo ministro da Educação, Mario Ferrari Aggradi, que a usou como base para um projeto de reforma universitária em Itália, mas, devido ao fim prematuro da legislatura, nunca foi implementada.

Cerca de dez anos depois, em 1976, o projeto idealizado por Corradi foi elevado a nível europeu por uma resolução da CEE que incentivava o intercâmbio de estudantes entre universidades de diferentes países. Assim nasceu o Joint Study Program que, durante dez anos, permitiu experimentar o modelo idealizado pela professora.

Em 1987, sob o impulso da associação estudantil Egee, fundada pelo político francês Franck Bianchieri e apoiada pelo presidente francês François Mitterrand, foi aprovado o primeiro programa Erasmus, sob a direção de Domenico Lenarduzzi, Diretor na Direção-Geral de Cultura e Educação da Comissão Europeia em Bruxelas.

Na mesma entrevista, Corradi contou com entusiasmo e emoção as cartas que recebeu ao longo dos anos, com agradecimentos dos estudantes que participaram no programa europeu.

Discurso de Sofia Corradi na atribuição do Prémio Carlos V

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Falceu Jane Goodall - uma activista incansável


Goodall "morreu de causas naturais", enquanto estava na Califórnia, numa digressão de palestras pelos Estados Unidos, informou o Instituto Goodall, num comunicado publicado nas redes sociais.

Hoje despedimo-nos de uma lenda. Jane Goodall faleceu aos 91 anos, deixando um legado que mudou para sempre a forma como vemos os animais, a natureza e a nós próprios. Desde o seu trabalho pioneiro com chimpanzés na Tanzânia até à fundação do  Instituto Jane Goodall e da Roots & Shoots, ela inspirou o mundo com a sua coragem, compaixão e esperança inabalável. 


As descobertas da Dra. Goodall como etóloga revolucionaram a ciência e foi uma defensora incansável da proteção e restauração do nosso mundo natural. 

Obrigada, Jane, por nos lembrares que uma pessoa pode realmente mudar o mundo.

Biografia completa aqui

"Today, as a global phenomenon and thought leader, Jane Goodall is a leading actor for SDG 15 which aims to protect, restore and promote the sustainable use of terrestrial ecosystems in harmony with human communities, to build a better future for all." [fonte]