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terça-feira, 30 de junho de 2026

Julia Lezhneva, de 19 Anos, fascina em "Son qual nave ch'agitata" de Farinelli (a Ária impossível do Barroco)

Melhor som aqui
A interpretação de Julia Lezhneva de "Son qual nave ch'agitata", gravada quando tinha apenas 19 anos, continua a ser uma das demonstrações de pirotecnia vocal mais avassaladoras de que há registo. Ouvir uma jovem de 19 anos dominar uma peça que foi especificamente desenhada para o maior castrato do século XVIII é algo absolutamente arrebatador.

Esta ária não foi escrita por um compositor qualquer; foi composta por Riccardo Broschi em 1734 especificamente para o seu irmão, Carlo Broschi - mais conhecido na história da música como Farinelli.

Como foi talhada à medida da capacidade pulmonar quase sobre-humana e da agilidade invulgar de Farinelli, a partitura lê-se como uma autêntica corrida de obstáculos:
  • Coloratura vertiginosa: sequências longas e ininterruptas de notas rápidas, destinadas a imitar uma tempestade violenta no mar.
  • Grandes saltos vocais: transições súbitas entre oitavas que exigem um controlo de afinação e uma memória muscular absolutos.
  • Controlo de respiração impressionante: frases musicais que parecem eternas, sem dar margem para recuperar o fôlego.
O texto traduz-se como "Sou como um navio agitado", comparando a alma em sofrimento a uma embarcação fustigada por uma tempestade brutal.

Letra Original (Italiano)
Aria:
Son qual nave ch'agitata
Da più scogli e da più venti,
In un mar senza sponde
Co 'l darsi in preda all'onde
Va solcando il fondo al mar.

Parte B (Secundária):
Ma lo scorgo il mio nocchiero,
Che mi dice: "Non temere",
E mi mostra il porto altero
Onde il cor si può salvar.

Tradução (Português de Portugal)
Ária:
Sou como um navio agitado
Por múltiplos rochedos e ventos,
Num mar sem margens,
Que, entregando-se como presa às ondas,
Vai sulcando as profundezas do mar.

Parte B (Secundária):
Mas avisto o meu timoneiro (piloto),
Que me diz: "Não temas",
E mostra-me o porto seguro
Onde o meu coração se pode salvar.

A Estrutura Da Capo
Na atuação da Julia Lezhneva (e na partitura original), a estrutura segue o modelo Ária Da Capo (ABA). Isto significa que:
  • Ela canta a primeira parte (A - a tempestade).
  • Canta a segunda parte (B - a esperança do porto seguro), que tem um ritmo e ambiente ligeiramente diferentes.
  • Regressa ao início (Da Capo): repete toda a primeira parte (A), mas desta vez com a obrigação de improvisar e adicionar os ornamentos, agudos e variações acrobáticas que tanto nos impressionam.
Por que razão a versão de Lezhneva assombra o Mundo
Quando Lezhneva interpretou esta obra-prima, deixou o mundo da música erudita boquiaberto, não apenas pela sua juventude, mas pela sua precisão instrumental cirúrgica.

Enquanto muitas sopranos abordam a coloratura barroca com um vibrato pesado ou notas "aspiradas" (adicionando pequenos sons de "h" para separar as notas rápidas), Lezhneva faz exatamente o oposto.

A sua técnica baseia-se num tom cristalino, focado e puro, onde cada nota numa sequência rápida é individualizada, perfeitamente afinada e executada sem aparente esforço. Os seus trinados velozes e o fôlego interminável fazem com que a sua voz se comporte menos como cordas vocais humanas e mais como uma flauta barroca tocada na perfeição.


Detalhes do Concerto e o efeito "The 19-Year-Old Julia Lezhneva..." ("A jovem de 19 anos...")
Data exata: 8 de dezembro de 2011, ao vivo em Cracóvia
O Contexto: o concerto fez parte da gravação e digressão da ópera L'Oracolo in Messenia, de Antonio Vivaldi (onde a ária de Riccardo Broschi foi inserida como um acrescento de virtuosismo para a sua personagem, Trasimede), acompanhada pelo agrupamento barroco I Barocchisti sob a direção do maestro Diego Fasolis.

O pormenor dos "19 anos":
Se fizer as contas ao ano de nascimento da cantora (novembro de 1989), verá que ela tinha, na verdade, 22 anos na data exata desta gravação em Cracóvia.

No entanto, os vídeos desta atuação partilhados no YouTube e nas redes sociais ganharam enorme tração com o título "The 19-Year-Old Julia Lezhneva..." (A jovem de 19 anos...). Isto acontece por dois motivos muito comuns no mundo digital:
  • Confusão com a sua estreia: Julia Lezhneva saltou para a ribalta internacional precisamente aos 18/19 anos (em 2008-2009), quando venceu o prestigiado Concurso Mirjam Helin em Helsínquia e começou a fazer as suas primeiras grandes digressões europeias com esta ária no repertório. Para ver um vislumbre e recordar a aclamada prestação da cantora russa no concurso aqui
  • Efeito de "Marketing" Digital: O título "aos 19 anos" tornou-se uma marca viral tão forte na internet para descrever o início da sua carreira que os blogues e canais de música continuam a usá-lo para sublinhar a sua impressionante juventude e precocidade.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Encontros Improváveis: John Melhuish Strudwick e Fortunato Chelleri (1690-1757)


La navicella
Che scorge il lido,
La rondinella
Che trova il nido
Non han più l’odio
Di quel destino
Che le turbò.

Ma questo core
Costante e fido
Al dio d’amore,
Tiranno infido,
Al suo dolore
Chiedendo pace,
Non la trovò.

TRANSLATION (by John Thornley):
The little ship
Sighting the shore,
The swallow
Finding its nest,
Both forget their hatred
Of the malign fate
That threatened them.

But my heart
Constant and faithful
To the god of love,
That faithless tyrant,
Pleads for its pain
To give way to peace,
Yet none do I find.


É profundamente entusiasmante testemunhar a nova vaga de talentos que está a surgir no panorama musical contemporâneo. Ao ouvirmos interpretações desta qualidade, torna-se evidente que o futuro da música antiga está em mãos absolutamente excecionais. Esta nova geração de artistas alia uma técnica irrepreensível, que desarma qualquer complexidade das partituras barrocas, a uma sensibilidade e expressividade vibrantes. Longe de uma abordagem puramente académica ou rígida, estes jovens músicos tecnicamente estelares conseguem injetar uma frescura e uma energia contagiantes em obras com séculos de história, elevando a música barroca a níveis verdadeiramente estratosféricos. É um privilégio ver o passado ser redefinido com tanta vitalidade, transcendência e mestria.

Significado da ária
A ária "La navicella" (que se traduz como "A pequena embarcação") funciona como uma clássica ária de metáfora, ou aria di paragone, um dos recursos poéticos e dramáticos mais apreciados na ópera barroca. Através deste dispositivo, o libreto utiliza a imagem de um pequeno barco à deriva num mar revolto, fustigado por ventos violentos e ondas ameaçadoras, para espelhar visual e emocionalmente o estado de espírito da personagem. A tempestade e as águas tumultuosas representam as grandes adversidades da vida, os dilemas morais ou os conflitos amorosos e políticos que a sufocam, enquanto o barquinho frágil simboliza a própria personagem, indefesa e à mercê de forças que a transcendem na sua busca desesperada por um porto seguro. Na partitura de Fortunato Chelleri, esta agonia ganha vida através de ritmos agitados e cordas velozes que imitam o turbulento balanço do mar, exigindo da interpretação vocal um virtuosismo técnico brilhante para traduzir o pânico e a paixão humana, transformando uma simples imagem marítima num momento de pura transcendência dramática.

domingo, 15 de março de 2026

Georges Bizet - "Je crois entendre encore" por Philippe Talbot


Je Crois Entendre Encore
Georges Bizet

Je crois entendre encore
Caché sous les palmiers
Sa voix tendre et sonore
Comme un chant de ramiers

Oh, nuit enchanteresse
Divin ravissement
Oh, souvenir charmant
Folle ivresse, doux rêve!

Aux clartés des étoiles
Je crois encore la voir
Entr'ouvrir ses longs voiles
Aux vents tièdes du soir

Oh, nuit enchanteresse
Divin ravissement
Oh, souvenir charmant
Folle ivresse, doux rêve!

Charmant souvenir!
Charmant souvenir!

“Je Crois Entendre Encore”, de Georges Bizet, é uma ária marcada pela saudade e pelo desejo de um amor proibido. Nadir, o personagem que canta, relembra a voz de Leïla, “caché sous les palmiers” (escondida sob as palmeiras), mostrando como a lembrança dela permanece viva, mesmo diante da distância e das barreiras religiosas e sociais impostas pela trama da ópera. As imagens do “chant de ramiers” (canto de rolas) e da “clartés des étoiles” (claridade das estrelas) criam um clima nostálgico e sonhador, transportando o ouvinte para um cenário onde memória e desejo se misturam.

A repetição de frases como “Oh, nuit enchanteresse” (Oh, noite encantadora) e “souvenir charmant” (lembrança encantadora) reforça o tom hipnótico das recordações de Nadir, que alternam entre a alegria de um reencontro imaginado e a dor da ausência. A melodia suave e a orquestração delicada da ária traduzem esse estado de “folle ivresse, doux rêve” (loucura embriagante, doce sonho), em que o passado parece mais real do que o presente. O contexto da ópera, ambientada na antiga Ceilão, e o fato de Leïla ser uma sacerdotisa, intensificam o sentimento de amor impossível, tornando cada lembrança tanto um consolo quanto uma fonte de sofrimento. Assim, Bizet expressa de forma sensível o desejo nostálgico e a idealização do amor perdido, temas que continuam a emocionar o público.

Ópera Les Pêcheurs de perles

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Roberta Mameli, Verso già l'alma col sangue


Verso già l'alma col sangue faz parte de Aci, Galatea e Polifemo uma serenata dramática (uma espécie de ópera curta ou cantata encenada) composta por Handel em 1708, durante sua estadia em Itália.

Letra
Aci:
Verso già l’alma col sangue, 
lento palpita il mio cor.
Già la vita manca e langue 
per trofeo d’empio rigor.

A ária "Verso già l'alma col sangue" é o momento clímax e trágico da obra. Ela é cantada por Aci (Ácis), um jovem pastor que está a morrer.

O triângulo amoroso: Aci e a ninfa marinha Galatea estão profundamente apaixonados. No entanto, o ciclope Polifemo também deseja Galatea e nutre um ciúme doentio pelo pastor.

A tragédia: em um acesso de fúria, Polifemo esmaga Aci com um enorme rochedo.

A despedida: enquanto a vida se esvai ("a alma se verte com o sangue"), Aci canta esta ária expressando o seu sofrimento e a injustiça da crueldade ("empio rigor") de Polifemo.

O desfecho: após a morte de Aci, Galatea usa os seus poderes divinos para transformar o sangue do seu amado numa fonte de água cristalina (o rio Ácis, na Sicília), para que ele possa correr eternamente até o mar e unir-se a ela.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Vivaldi - "Apri le luci, e mira" por Roberta Mameli


"Apri le luci, e mira" é uma ária da ópera Catone in Utica (RV 705), composta por António Vivaldi com libreto de Pietro Metastasio. A ária aparece no Ato I, Cena 9 ou 10, dependendo da edição, e é frequentemente interpretada por sopranos, como Roberta Mameli, ou contra-tenores.

Mais informações aqui

Apri le luci

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira, sospira
E non l'inten...
Intendi ancor

Apri le luci e mira
E mira il mio costante affetto
E mira il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira
Costa...ante
Costa...ante

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
E non l'intendi ancor
E non l'intendi ancor

E in tacita favella
Co' soli miei sospiri
Ti scopro, oh Dio, la bella
Fia...amma che m'arde il cor

Ti scopro, oh Dio
La bella bella fia...amma
Oh Dio, co' miei sospiri
La bella bella fiamma
Che m'arde, m'arde il cor
Che m'arde, che m'arde il cor

Apri le luci
Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira, sospira
E non l'inten... intendi ancor

Apri le luci e mira
E mira il mio costante affetto
E mira il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira
Costa...ante
Costa...ante

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
E non l'intendi ancor
E non l'intendi ancor

O Enredo e a Personagem
A ária é cantada por Arbace, o Príncipe da Numídia. Ele está profundamente apaixonado por Marzia, a filha de Catão (Cato), o Jovem. O conflito central da cena reside na lealdade dividida e no amor não correspondido:

A Situação: Arbace é um aliado fiel de Catão contra Júlio César. No entanto, Marzia, por quem ele é devoto, está secretamente apaixonada pelo inimigo de seu pai, César.

O Momento: A ária ocorre após um confronto onde Arbace tenta expressar os seus sentimentos ou a sua fidelidade, enfrentando a frieza ou a agitação de Marzia.

O Significado do Texto
O título traduz-se como "Abre os olhos e olha".

Apelo Emocional: Arbace pede a Marzia que olhe para ele e reconheça o sofrimento e a sinceridade do seu amor.

Contraste Dramático: A letra evoca a imagem de alguém que está a "morrer" de amor ou lealdade, implorando por um único gesto de compaixão ou reconhecimento antes do destino trágico que a guerra civil romana impõe a todos.

Características Musicais
Como é típico de Vivaldi, a música reflete o estado psicológico da personagem:

Estilo: é uma ária que mistura o virtuosismo técnico do barroco com uma linha melódica expressiva, destinada a mostrar a nobreza e a agonia de Arbace.

Instrumentação: o acompanhamento de cordas é vibrante, sublinhando a urgência do pedido "Apri le luci" (abre os olhos).

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Dia do Amor - Handel: Dove sei, amato bene (Rodelinda)



Sobre a Ópera Rodelinda

Dove sei, amato bene!
Vieni, l’alma a consolar

Sono oppresso da’ tormenti
ed i crudeli miei lamenti
sol con te posso bear.

Dove sei... 

Tradução
Onde estás, amado!
Vem, consola a minha alma.

Estou oprimido por tormentos,
e os meus cruéis lamentos
só contigo posso suportar.

Onde estás...

Esta é uma das árias mais belas e emocionantes de George Frideric Handel. Ela faz parte da ópera Rodelinda, estreada em 1725, em Londres.

Aqui está o contexto dramático e a tradução para ajudar você a sentir a profundidade da obra:

O Contexto na Ópera Rodelinda
A ária é cantada por Bertarido, o rei deposto de Milão. Todos acreditam que ele morreu no exílio, inclusive a sua esposa, a rainha Rodelinda.

Neste momento (Ato I, Cena VI), Bertarido retorna disfarçado e vê seu próprio monumento fúnebre erguido pela rainha. Ele está escondido, observando de longe o sofrimento da sua amada, sentindo a dor da separação e a solidão de ser um "fantasma" em seu próprio reino. É um momento de extrema vulnerabilidade e melancolia.

1. Mais sobre Georg Friedrich Händel
2. Cantada por Jakub Józef Orliński
3. Dia de S.Valentim. Dias dos Namorados. Dia do Amor

Feliz Dia do Amor - Jakub Józef Orliński sings "L'amante consolato"


Son tanto ito cercando
che pur alfin trovai
colei che desiai
duramente penando,
Oh questa volta sì ch'io non m'inganno,
s'io non godo mio danno!

Son tali quei contenti
che pur alfin io provo
che tutto mi rinovo
doppo lunghi tormenti.
Ma tutti com'io fo far non sapranno
chi non gode suo danno.


English
I searched for so long
that I finally found
the one that I desired,
after rigorous suffering.
Oh, this time let me not fool myself,
let me not be rejoicing in my own downfall.

The delights that I feel
at last are such
that everything renews me,
after prolonged agony.
But not everyone would be able to do as I do,
not being able to rejoice in their own downfall.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Três Contratenores no Palácio de Versailles


Baroque recital: Concours de virtuosité des castrati

00:00:00 - Ouverture - Vespasiano | Ariosti 
00:04:51 - Sagace è la mano | Hasse 
00:10:47 - Lascia la spina | Handel 
00:17:25 - Tra le procelle assorto | Graun 
00:24:25 - Se il mio amor fu il tuo delitto | Handel 
00:30:15 - La gioia immortal | Porpora 
00:35:14 - Arrival of the Queen of Sheba | Handel 
00:38:28 - Crude furie degli orridi abissi | Handel 
00:42:19 - Alto Giove | Porpora 
00:53:24 - Vo solcando un mar crudele | Vinci 
01:01:12 - Temi lo sdegno mio | Porpora 
01:06:17 - Sound the trumpet | Purcell 
01:09:17 - Pur ti miro | Monteverdi

Filippo Mineccia | Alto
Samuel Mariño | Soprano
Valer Sabadus | Mezzo-soprano

Orchestre de l'Opéra Royal
Conducted by Stefan Plewniak

Os castrati foram as primeiras "estrelas" da história da música. Cantavam frequentemente o papel principal (e, em Roma, todos os papéis femininos nas óperas), criando uma verdadeira competição de virtuosismo e emoção em palco entre os cantores, com o público a fazer de árbitro através dos seus pedidos de encore. E se três dos melhores intérpretes do nosso tempo participassem nesta Competição de Virtuosismo? Apresentamos Valer Sabadus (Arad, 1986), Filippo Mineccia (Florença, 1981) e Samuel Mariño (Caracas, 1993). Árias virtuosas, duetos de amor e trios combativos trouxeram o triunfo aos castrati: cabe a cada ouvinte encontrar o seu próprio campeão!

Saber mais:

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Antonio Vivaldi: "Fara la mia Spada" - Jakub Józef Orliński and Cappella di Ospedale della Pietà


Na ópera Tito Manlio (1719), de Antonio Vivaldi, a ária “Farà la mia spada” tem um papel dramático e estrutural muito claro.

1. Momento dramático
A ária surge num ponto de tensão extrema da ação.
Tito Manlio, cônsul romano, encontra-se dilacerado entre:
  1. o dever absoluto para com Roma e a lei,
  2. e o amor paterno pelo filho Manlio, que violou ordens militares.
Em “Farà la mia spada”, Tito afasta qualquer hesitação emocional e reafirma que será a lei e a honra — simbolizadas pela espada — a decidir o destino.
Dramaticamente, é o momento em que o personagem se endurece.

2. Função psicológica da ária
Esta não é uma ária de reflexão, mas de autoafirmação:
  1. Tito convence a si próprio de que conseguirá agir como juiz implacável
  2. A música traduz resolução violenta, quase sobre-humana
  3. O conflito interior não desaparece — é reprimido
Vivaldi usa a ária para mostrar que a força moral de Tito é construída à custa do sofrimento emocional, o que torna o personagem mais trágico do que heróico.

3. Função musical e teatral
a) Aria di furore
  • Ritmo rápido e incisivo
  • Escrita vocal agressiva
  • Orquestra com caráter marcial
Isto cria um contraste direto com árias mais líricas da ópera, evitando monotonia emocional.

b) Definição do personagem
Tito é apresentado como símbolo da autoridade romana. A ária fixa o arquétipo do pai-magistrado, típico do drama setecentista

4. Papel estrutural na ópera
Dentro da lógica da ópera séria barroca:
  1. A ária interrompe a ação para cristalizar um estado emocional
  2. Serve como ponto de viragem: após este momento, a narrativa avança para as consequências dessa decisão inflexível
  3. Prepara o público para a tragédia iminente, mesmo que a ópera termine com resolução moral

Libretto

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Música do BioTerra: Pierre Guédron - Belle, qui m'avez blessé


Belle, qui m'avez blessé (Lady, who has injured me)
d'un trait si doux (in a gentle way)
Hélas! pourquoy me laissez vous?  (Alas, why do you leave me?)
Moy, qui languis d'un cruel déespoir (I, who languish in cruel despair)
Quand je suis sans vous voir (when I am unable to see you...)

Las! vous emportés en ce triste départ (Alas, you take away with this sad departure)
De mon coeur meilleure part (from my heart, its best part)
Et vous laissez l'autre en proye (and you leave the rest as prey)
aux douleurs, aux soupirs et pleurs (to pains, signs and tears)

Ou me rendés l'une, ou belle par pitié (Either return me one, or lady in pity)
Ne laissés pas l'autre moyttie, (don't leave behind the other) 
Ou bien donnés d'un pitoyable effort (Or in a pitying way)
A toutes deux la mort (bring death to both)

quinta-feira, 1 de abril de 2021

J. S. Bach "Coffee Cantata" BWV 211: Schweigt stille, plaudert nicht


The Philharmonia Baroque Orchestra led by Richard Egarr
Nola Richardson - Soprano
James Reese - Tenor
Cody Quattlebaum - Bass-Baritone
Stephen Schultz, Flute

A Cantata do Café (Schweigt stille, plaudert nicht, BWV 211) é uma das obras mais invulgares e fascinantes de Johann Sebastian Bach, revelando um lado humorístico e mundano do compositor que muitos desconhecem. Escrita por volta de 1734, em Leipzig, esta peça não é uma obra religiosa para ser tocada numa igreja, mas sim uma cantata secular composta para ser apresentada no Café Zimmermann, um ponto de encontro popular da época onde Bach dirigia o Collegium Musicum.

O enredo gira em torno de uma sátira social sobre a "obsessão" pelo café, que no século XVIII era a grande novidade na Europa e vista por muitos conservadores como um vício perigoso. A história apresenta-nos Schlendrian, um pai austero e resmungão, que tenta desesperadamente convencer a sua filha, Lieschen, a abandonar o hábito de beber café. Schlendrian utiliza todas as táticas de pressão possíveis, ameaçando proibir a filha de sair de casa, de comprar vestidos novos ou de usar fitas de luxo no cabelo.

Lieschen, no entanto, permanece firme e canta uma das árias mais célebres da obra, onde descreve o café como sendo "mais doce que mil beijos e mais suave que o vinho moscatel". O conflito só parece resolver-se quando o pai lhe faz uma última ameaça: ela nunca poderá casar-se se não parar de beber a bebida. Perante a perspetiva de ficar solteira, Lieschen finge ceder, mas a história termina com uma reviravolta astuta. Enquanto o pai sai à procura de um noivo, ela faz saber secretamente que só aceitará um marido que inclua uma cláusula no contrato de casamento permitindo-lhe preparar o seu café sempre que desejar.

O significado da obra vai além da simples comédia; é uma celebração da liberdade individual e uma crítica bem-humorada ao choque de gerações. Bach utiliza a música para humanizar as personagens e mostrar que, tal como diz o coro final, "o hábito de beber café é impossível de abandonar", comparando-o a instintos naturais. Esta cantata prova que Bach, apesar da sua profunda religiosidade, estava perfeitamente sintonizado com os prazeres e as polémicas do quotidiano da sua cidade.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

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