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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Churra da Terra Quente - A Aliança Antiga

Fonte

As ovelhas da raça Churra da Terra Quente atuam como bombeiras naturais ao consumirem a erva seca e os arbustos que, habitualmente, servem de combustível aos incêndios de verão nas montanhas da Terra Quente Transmontana e do Douro Superior. Este processo, conhecido como pastoreio dirigido, cria aceiros naturais em zonas declivosas ou rochosas onde a limpeza mecânica é impossível. Além de reduzirem a carga de combustível, estes rebanhos promovem a biodiversidade ao impedirem que o mato agressivo sufoque espécies vegetais de menor porte. Também regeneram o solo através da fertilização natural e da dispersão de sementes à medida que se deslocam pela paisagem. Ao manterem estes espaços abertos, as ovelhas representam uma alternativa sustentável e neutra em carbono face à utilização de maquinaria pesada. Esta prática tradicional não só protege a floresta, como também sustenta a economia rural, prestando um serviço ecológico vital para a região.

Foto de Carlos Aguiar

A Aliança Antiga
"Guardiãs das profundezas de esmeralda,
os seus passos suaves são uma canção silenciosa
sobre a terra.

Através do sol e da chuva, elas tecem
a tapeçaria do prado vivo,
uma dança harmoniosa de casco e erva.

Nesta aliança antiga, que possamos honrar
o seu fôlego, a sua lã, a sua natureza selvagem,
deixando-as pastar sob o céu vasto,
arquitetas eternas de um amanhã sustentável."
— João Soares, 08-05-2026

Fonte

A raça Churra da Terra Quente tem as suas origens genéticas no final do século XIX, mas apenas foi oficialmente reconhecida e caraterizada como raça independente em 1987

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Ensaio - O mundo com IA e As Mãos


"Ouvi umas quantas conferências do Y. Harari e, pese embora o brilho, comecei a vê-lo como um comerciante de ideias, como alguns dos seus antepassados terão sido de peles, de dinheiro ou de prata. A obsessão com a Inteligência Artificial parecia-me mais uma oportunidade de negócio no grande mercado da fitness do intelecto do que uma preocupação genuína de um académico.
Mudei de opinião.
A penetração da IA é cada vez mais profunda e omnipresente; vejo-a por todo o lado. Não me sinto competente para analisar e antecipar, ao detalhe, o impacto deste tandem “IA + dependência de dopamina via redes sociais” no funcionamento das sociedades atuais. Porém, uma conversa noturna, ontem, deixou-me a pensar. Dizia-me a minha interlocutora que, na empresa X, os informáticos já não escrevem código; esse trabalho ficou para o Claude.
Posso estar errado, mas suspeito que estes senhores que agora observo pela janela da pastelaria, de aparafusadora em punho, têm mais futuro nas sociedades pós-IA do que os jovens que penam nos gabinetes de contabilidade, no largo mais adiante.
Identifico uma gigantesca dissonância entre aquilo que o sistema de ensino ensina e aquilo de que esta sociedade estruturalmente complexa e em radical mudança necessita: manutenção permanente (porque a 2.ª lei não perdoa). As famílias, com o beneplácito dos governos e da classe dos professores, apostam em formações liberais e de colarinho branco, no papel e no lápis, hoje evoluídos para Word, Excel e Photoshop, áreas que serão em breve devastadas pela IA.
Assim como um pianista com futuro tem de exercitar, desde tenra idade, a conexão mão-cérebro — esse poderoso instrumento de ação sobre a matéria herdado dos ancestrais caçadores-recolectores —, o mesmo exigem os trabalhos com futuro. As sociedades vão remanualizar-se e ninguém, nem pessoas nem instituições, está preparado para isso.
Em resumo: prometeram-nos que as máquinas fariam o trabalho sujo para para nos dedicarmos ao lazer. Ironicamente, o Claude e o ChatGPT escrevem música, poesia e o código informático, desenham a publicidade e as artes gráficas, e, no final, fazem a contabilidade e responsabilizam-se pelas interações com a máquina do estado —, mas continuamos a precisar desesperadamente de quem nos desentupa os canos, conserte a máquina de lavar e cuide dos mais velhos.
Talvez as escolas do futuro devessem trocar metade das aulas de literacia digital e mais teorias por oficinas de carpintaria, mecânica, eletricidade e agricultura. Ensinar as nossas crianças a reaprender o peso e a textura da matéria, o desconforto e a cor do sangue, antes que se tornem obsoletas num mundo de ecrãs e memórias virtuais.
P.S. Fosse eu novo e com jeito para o negócio e investiria numa empresa de tempos livres que se poderia chamar, sei lá, “Academia do Eletricista e do Canalizador”, ou algo do género. Mais proveitoso do que o futebol, a natação, o ballet, o teatro …, parece-me." - Carlos Aguiar

Nota Pessoal
Paul Krugman no início dos anos 90 escreveu por diversão uma especulação sobre o que seria a economia daí a 100 anos. A IA ainda não era a palavra de ordem, mas a automação em geral já constava das suas projeções. Ele afirmava que tal como a era industrial tinha tornado menos valiosos os produtos da indústria, a era da informação que se desenhava iria tornar menos valioso tudo o que tivesse que ver com informação, desde jornalismo a ciência, ou a informática. Assim, no futuro deste modo projetado as fontes de riqueza seriam a posse de recursos naturais, para as nações, e a capacidade de trabalhar com as mãos, para as pessoas.
Embora não seja líquido que tudo isto esteja a salvo da IA, coisas como cuidar de idosos, fabricar móveis em madeira, ou instalar/reparar canalizações seriam o tipo de atividades ainda valorizadas depois de automatizarmos tudo o que pode ser automatizado.
O problema é que hoje em dia há pessoas em posição de ditar o que deve ser automatizado, mesmo que com prejuízo para a humanidade em geral. A IA está a transformar-se rapidamente num sistema endogâmico, em que se alimenta de si mesma, já que uma cada vez maior proporção da informação disponível é gerada por IA.

Por outro lado nunca antes o biorregionalismo está ser posto em causa como agora, bem como aceleramos cegamente no Business to Business em que há muitas reticências, como bem referes Back to Basics. O impacto ambiental da IA é, atualmente, muito superior e mais preocupante do que o das práticas artesanais e biológicas. O Back to Basics não é apenas uma escolha estética; é, talvez, a única estratégia de sobrevivência ecológica a longo prazo.

A questão agora é: a sociedade estará disposta a "pagar o preço" (em tempo e esforço) para manter essas práticas manuais vivas, ou a conveniência da IA acabará por atropelar até mesmo esses redutos artesanais?

terça-feira, 15 de outubro de 2024

O porquê de tanta giesta


Numa perspetiva histórica, o sucesso das giestas (Cytisus sp. pl. e Genista florida) nas paisagens atuais é, no mínimo, surpreendente. Há não mais de 50 anos as giestas eram de tal modo escassas que se semeavam nas terras pobres de Trás-os-Montes e da Beira Alta, no último ano de centeio, antes de um pousio alargado que alcançava, por vezes, uma década. A sementeira tinha o duplo objetivo de melhorar a fertilidade do solo (in loco e através da adição às camas animais e montureiras) e produzir lenho para queimar.
A explicação da expansão atual destes arbustos é multifatorial. Identificamos cinco causas prováveis. Duas delas são i) as plantações florestais a vala e cômoro, e ii) as fertilizações fosfatadas em solos marginais. A mobilização de solos para fazer floresta aumentou a espessura útil do solo, necessária às plantas de grande dimensão sob um clima mediterrânico ou temperado submediterrânico. Este fenómeno é evidente em Maio no Pinhal Interior. As giestas são evolutivamente próximas dos tremoceiros (Lupinus) e como eles, certamente, adaptadas a capturar o fósforo imobilizado pelo alumínio em solos ácidos. O stock de fósforo disponível nos solos de montanha para as giestas (mas não para outras plantas menos competentes) cresceu com adubações fosfatadas minerais quando, à custa de uma subida artificial dos preços, o cultivo do centeio e do trigo subiu as serras acima na primeira metade do séc. XX, ocupando solos marginais de pastagem. Sabe-se que as giestas respondem de forma exuberante ao fósforo.
A terceira e quarta hipóteses residem no desenho da copa (fisionomia) das giestas e no recente alargamento do período de retorno do fogo (por comparação com o fogo pastoril). Quem já viu fogo em giestas sabe que ardem de forma explosiva, num bruaá, com curtas interrupções cíclicas, i.e., o fogo em giestal avança aos solavancos. A causa está na estrutura da copa. As giestas possuem uma parte aérea de ramos delgados (de enorme combustibilidade na estação seca) que cedo se distancia do solo suportada, na base, por um curto tronco e pernadas grossos (pouco inflamáveis). Esta fisionomia afasta os combustíveis finos do solo, facilita a ascensão do comburente (oxigénio) durante o fogo e projeta a energia gerada pelas chamas em direção à atmosfera. Consequentemente, as giestas geram fogos de elevada intensidade e curto período de residência, em que a energia libertada não é suficiente para gerar elevadas temperaturas no solo ou à sua superfície. O avanço intermitente está certamente relacionado com o processo de secagem da copa com o avanço das chamas e a distribuição descontínua do combustível no espaço.
Que vantagens têm as giestas sob este padrão de fogo?
A temperatura à superfície do solo e, implicitamente, a severidade do fogo não dependem da intensidade da frente de fogo, normalmente medida em quantidade de energia libertada por metro linear de frente. Estão, sim, relacionadas com i) a distância dos combustíveis (finos) ao solo e ii) o tempo de residência do fogo. O fogo nas giestas tem muito em comum com o fogo das gramíneas nos pastos secos: é quente, rápido (entre as interrupções), intenso na copa, menos intenso à superfície do solo. Embora as giestas geralmente morram nos fogos de verão, as sementes tombadas no solo são, em larga medida, poupadas. Por outro lado, o fogo estimula a germinação das sementes das giestas, mais precisamente, quebra a dormência das sementes duras características deste grupo de arbustos. As plântulas vão usufruir de um nicho de regeneração melhorado, com poucos competidores, luz e a terra fertilizada pela cinza e pelas raízes em decomposição dos indivíduos parentais (recorde-se que as giestas são leguminosas fixadoras de azoto). No caso das gramíneas perenes, são poupados sementes e órgãos subterrâneos (ex. rizomas). Como se diz na bibliografia ecológica, as giestas e as gramíneas são engenheiras de habitats.
E como pode o alargamento do período de retorno do fogo beneficiar as giestas?
Várias hipóteses explicativas, outra vez. O fogo em ciclos curtos de recorrência é-lhes desfavorável. Se não vejamos. i) As giestas produzem semente tardiamente, a partir dos 3-4 anos; ii) as plantas jovens têm uma casca fina que as expõe ao efeito do fogo; iii) os giestais jovens ensombram pouco o solo e, ainda que pastoreados (com excepções), acumulam grandes massas combustíveis de gramíneas nas clareiras que põem em causa a sua sobrevivência perante o fogo (sobretudo se realizado durante a floração, no final de Abril, início de Maio).
Por outras palavras, o fogo pastoril com um curto ciclo de recorrência – em particular, os fogos de limpeza de pastagens tradicionalmente realizados em Setembro, depois da colheita de fenos e cereais, com as orvalhadas a caírem durante a noite – impedia que as giestas se reproduzissem e acumulassem sementes no solo. O fogo de verão em giestais maduros e altos, pelo contrário, dá tempo à reprodução sexuada e protege as sementes no solo e, por esta via, facilita a progressiva dominância das giestas nas nossas paisagens.
Quinta hipótese: efeito de massa. Entende-se por efeito de massa a dispersão de espécies e indivíduos de sítios com maior densidade populacional para sítios de menor densidade populacional. As giestas produzem anualmente massas significativas de sementes viáveis de dispersão balística (abertura explosiva da vagem), projetadas muitas vezes a mais de 5 m, arrastáveis pelas chuvas e deslizamentos de terra. Quanto mais sementes, maior a probabilidade de um evento raro de migração a longa distância e de colonização de um sítio vazio de giestas. Não cabe aqui explorar a argumentação ecológica, mas o efeito de massa permite a persistência em habitats a priori pouco favoráveis para as giestas e suplantar espécies em princípio mais competitivas.
As paisagens de Portugal continental encontram-se num momento perigoso. As giestas estão em franca expansão, há largos trechos de território adequados a estas espécies por colonizar, o regime de fogo atual é-lhes favorável e as giestas agravam os riscos de fogo de elevada intensidade no pino do verão (têm uma baixa ignibilidade e sustentabilidade do fogo na primavera) pondo em risco populações e haveres, com impactes ambientais detrimentais (aqui omitidos).
A montante das causas proximais da expansão das giestas antes elencadas estão o abandono rural (agricultura e pastorícia), a perseguição do fogo pastoril, a decadência de saberes rurais tradicionais, a dificuldade das agências públicas se adaptarem a novas realidades e a aversão ao fogo prescrito que perpassa a sociedade portuguesa.
Mas é como o fogo, façamos o que fizermos, não temos outro remédio senão aprender a coabitar Portugal com elas.
Autores: Carlos Aguiar, Avelino Rego, Duarte Marques, Marco Fernandes e Henrique Mira Godinho

sábado, 14 de setembro de 2024

Malditas Conyza


Os agricultores detestam as Conyza ... e os botânicos também. São tão variáveis, as correlações de caracteres tão frágeis que a Flora Ibérica arrumou tudo em duas espécies, quando outros autores reconhecem 5 e mais.
A C. canadensis não levanta dúvidas (capítulos glabros, pequeninos). Bem, a C. bonariensis sensu FI é um saco de gatos. A planta em anexo cumpre os critérios de C. bonariensis s.str. (plantas ramificadas desde a base, de crescimento simpodial, folhas estreitas, capítulos granditos, brácteas involucrais tintas de vermelho na extremidade distal estreitando para a base, e papilho branco). Sim, a entidade C. sumatrensis existe – são plantas bem grandes, frequentemente unicaules, de folhas mais largas (na base e no caule), monopodiais (com uma panícula de flores na extremidade), capítulos mais pequenos que os de C. bonariensis, brácteas involucrais verdes, papilho cor de palha, e brácteas mais largas no terço basal. O problema é quando as sumatrenses são cortadas e se ramificam ... ou os papilhos das bonarienses se enchem de pó e ficam amarelados. Enquanto a C. canadensis e a C. bonariensis abundam em ambiente urbano (entulhos, passeios mal-tratados, terrenos de construção, muito cão e muito gato), a C. sumatrensis entra em ambientes menos ruderalizados, em força nos campos de cultura.
E são resistentes ao glifosato. Virtude ou defeito?

terça-feira, 11 de junho de 2024

Os lameiros - uma grande invenção tecnológica agrícola


Começou a época dos fenos cá na terra. Começa em junho nas cotas mais baixas e termina, no início de agosto, na Serra de Montesinho, se ainda se fenassem os lameiros da Lama Grande. Em Montalegre, Vila Pouca de Aguiar, nas Serras Beira Durienses, e na Cova da Beira–Serra da Estrela as datas (vale-montanha) são similares.
Os lameiros são um tema particularmente interessante de ciência da vegetação e da história da agricultura. As questões em aberto são muitas. Quando foram inventados os lameiros? De onde vem a flora dos lameiros? Como compatibilizar a produção de erva e feno com elevados níveis diversidade biológica? 
Começo pela primeira pergunta.
1. Os relatórios de escavações realizadas na Beira interior pela arqueóloga Catarina Tente (IEM – NOVA FCSH) mostram que nos séc. X-XI as habitações rurais eram ainda construídas em materiais perecíveis (sem corte e palheiro no rés-do-chão) e que os gados eram  guardados ao ar livre. Generalizando a Trás-os-Montes as descobertas beirãs, as aldeias atuais “parecem ter sido formadas a partir da segunda metade do século XI e sobretudo no século XII”.
2. Para produzir feno é preciso proibir o acesso dos herbívoros aos lameiros durante cerca de 90 dias.
Não sou especialista no assunto mas a reserva dos lameiros implica a imposição de direitos privados de propriedade nas pastagens e, suponho, alterações ideológicas profundas apenas possíveis em períodos de grande estress social (veja-se o que escreve Ester Boserup).
Tendo em consideração estas premissas, não é um salto lógico improvável admitir que a propriedade privada perfeita (?) dos lameiros e, implicitamente, a produção de feno dos lameiros seja uma invenção tardimedieval.


Para compreender a origem da flora dos lameiros é primeiro preciso perceber que existem dois tipos funcionais fundamentais de gramíneas perenes pratenses – gramíneas altas e gramíneas baixas–, que por sua vez dão origem a outros tantos grandes tipos de pastagens – pastagens altas e pastagens baixas –, sejam elas húmidas, mésicas ou secas. É curioso que as “tall grasslands” e as “short grasslands” são praticamente universais nos territórios pastados por grandes herbívoros, desde África às Américas.
As gramíneas altas têm uma estratégia de tolerância à herbivoria sendo, por isso, mais palatáveis e produtivas, com respostas rápidas à desfoliação, em contrapartida muito sensíveis a eventos reiterados de pastoreio intenso, em particular durante o período reprodutivo. São exemplos Dactylis glomerata, Festuca arundinacea, Festuca rothmaleri, as várias Avenula (agora no género Helictochloa), Celtica  gigantea, Holcus lanatus, Poa trivialis e P. pratensis, os Anthoxanthum perenes, Melica ciliata e, muito importante, o Arrhenatherum bulbosum. As gramíneas baixas optam pela resistência aos herbívoros: são menos palatáveis e produtivas, muitas delas rizomatosas ou bulbosas (as altas são sobretudo cespitosas), como é o caso do Agrostis castellana e do A. capillaris, do Nardus stricta, da Poa bulbosa, da Festuca indigesta e da  F. nigrescens. Nesta altura do ano, as gramíneas altas protegidas nos arbustos são a melhor prova de que um monte está pastado.
Então de onde vêm as plantas dos lameiros?
As gramíneas perenes altas são a chave da estrutura e da produtividade dos lameiros. A persistência destas plantas depende de três fatores: 1) serem poupadas ao pastoreio a partir de Março-Abril, durante pelo menos 90 dias; 2) a fenação tem que as apanhar, se não todos anos, quase todos, maduras, de modo que as sementes caiam no solo durante a fenação e renovem o pasto; 3) as extrações de nutrientes pelo feno têm que ser adequadamente repostas. O resto da flora de lameiro tem várias proveniências, a maioria, obviamente, é característica das comunidades de gramíneas altas; outras plantas, por exemplo, vêm das orlas de bosque.
Portanto, quem inventou os lameiros, além de dispor de muito mais erva (e de feno para o inverno) criou, inadvertidamente, um habitat secundário – tão dependente do maneio humano como a seara de trigo –, perfeito para as plantas das comunidades de gramíneas altas, curiosamente, muito mais diverso e estável do que o original.

terça-feira, 23 de abril de 2024

De forquilha em riste



Chega a Primavera e com ela motas e veículos todo terreno. Entram num canto da aldeia e atravessam-na a toda a brida, quitados com os símbolos do grupo e forrados de lama. Querem lá saber das crianças, dos velhos, das máquinas agrícolas a cinco à hora, dos gados guiados por pastores e cães ou do direito ao sossego de quem aqui vive. Vale a adrenalina porque os indígenas são empecilhos. Espero um acidente grave um destes dias.
Já vi grupos com dezenas deles, organizados em grupos à margem da lei, no interior do PNM. Muitos deles até são estrangeiros que vêm para aqui fazer o que não podem na terra deles. Em contrapartida, os agentes de animação turística legais têm, e bem, de se inscrever no Turismo de Portugal e possuir autorização do ICNF para orientar pessoas em percursos pedestres.
Enquanto ninguém lhes carrega hei de os receber de forquilha em riste para andarem de mansinho, como fiz na semana passada. A ver se não tomaram juízo.

Meu comentário
E ainda com probabilidade de retirada de subsídio às pessoas da aldeia. Há de uma faísca provocada pelo sobre aquecimento de pneus ou aqueles escapes potentes provocarem um incêndio, para não falar do provocado por lixo depositado. Afirmam que gostam da paisagem e da Natureza mas depois querem conduzir por cima dela na maior velocidade que puderem.
Somente por respeito à lei e ao estado de direito se resiste à vontade de espalhar estrepes nos caminhos…

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Pitões das Júnias antes do presente


Carlos, gosto muito desta região, extensiva ao planalto Mirandês. Conheço inclusive Tourém. Gentes com algum sentido de comunidade e longe dos tempos modernos de wokismo e cancel culture, do crescimento preocupante da extrema-direita e dos apoiantes de menos Estado, piores que Salazar. Porém eram gentes doutrinadas à volta do Abade e da Professora Primária que coitada ia parar a esses locais. O médico também. Sim, algum bucolismo e soluções baseadas nos recursos locais, mas muita crendice em bruxarias, muita pobreza, colchões de palha (que rapidamente se enchiam de pulgas), muito trabalho braçal e também havia uma sociologia tão desigual como nas nossas cidades e nos dias de hoje. Havia e ainda existe a mesquinhez, a inveja, o quebra-canelas, a manha, o respeitinho pela linhagem genealógica. Ou seja, tirando os dialectos barronês e mirandês que estão a morrer com eles, Portugal não mudou muito. Reler Miguel Torga, Aquilino Ribeiro...

Texto de Carlos Aguiar
Os relatórios finais de curso do Instituto Superior de Agronomia são um extraordinário manancial de informação sobre os sistemas tradicionais de agricultura.
Li vários, mas há um que me emociona particularmente: "Uma Freguesia de Barroso", datado de 1964, da autoria do engº agr. Fernando Gusmão.
Tinha uma admiração imensa pela figura e pelo saber agronómico deste meu primo em segundo grau (por afinidade).
O texto, porém, vale por si mesmo. É um soberbo instantâneo de uma sociedade camponesa semi-fechada de montanha, imediatamente antes da mecanização agrícola, do uso de adubos de síntese, da emigração massiva e da aculturação pela escola formal e pela guerra colonial, quando o analfabetismo ultrapassava os 50% da população (acima dos 7 anos de idade) e mais de 70% das famílias do concelho de Montalegre ganhavam o seu sustento na agricultura.
Conheço bem Pitões das Júnias, a aldeia estudada por F. Gusmão. Recordo, com uma lagrimita a despontar no canto do olho, as minhas aventuras naquele imenso território nos primeiros anos da década de 1980 – as travessias a salto desde as Caldas do Gerês com o Ramiro, o João, o meu irmão e primos, os Carris e os cornos da Fonte Fria, os acampamentos no mosteiro, a água fresca da ribeira, o vento a roçar nas folhas do grande carvalho, as sacas de caveiras escondidas na pequena capela no cimo do monte, a venda da D. Maria e o cajado do sr. Preto Velho ...
Tinham passado 25 anos desde que o engº Gusmão tinha andado por alí, mas as ruas recentemente empedradas permaneciam empapadas de palha e estrume porque manter a fertilidade da terra era a tarefa maior do agricultor, e muita gente ainda preferia dormir na casa de colmo do que na recém-construída "maison" de emigrante. Vi a agricultura, a casa de pedra solta ou de perpianho, as famílias e a sociedade rurais descritas por Fernando Gusmão.
O relatório do engº Gusmão está escrito num português puro, com um vocabulário rico e invulgar (como o verbo morigerar). As interpretações da realidade social são as próprias da época, mas talvez com menos mordaças ideológicas do que as atuais.
Transcrevo três passagens:
“O número de mães solteiras é bastante grande recrutando-se estas, quase sempre, entre as famílias mais pobres. Este facto apresenta, na região, uma faceta característica: as mães solteiras não sofrem repúdio de qualquer espécie e são naturalmente aceites pela comunidade que se rege por uma moral social eivada do seu quê de naturalismo.”
“Com efeito, é no baldio [que ocupava 5/6 do termo] que se encontra grande parte do sustento dos efetivos pecuários existentes, como também é aí que se obtêm a totalidade dos matos e quase todas as lenhas. É este um aspecto que é de justiça ter em consideração ao pensar na desamortização em massa dos baldios. Se essa desamortização não se fizer preceder das necessárias alterações estruturais e alterações técnicas das explorações agrícolas dos povos a que os baldios estavam vinculados encaminhar-se-ão esses povos para a ruína.”
“Interessante é notar que, mesmo em completa liberdade [a pastar na montanha durante o verão], o gado [bovino] de cada proprietário raramente se separa e se durante o dia se dispersa um pouco mais, longo que cai a noite trata de reagrupar-se, levado por atávico instinto de defesa contra possível inimigo – neste caso o lobo.”
O relatório termina com uma análise da dieta das famílias camponesas. Diz o autor: “A alimentação, feita à base de reduzido número de produtos, é de uma monotonia extrema. O pão de centeio, as batatas, as couves e a carne de porco constituem o substracto do regime alimentar do pitonês.” Parece que estou a ver a minha avó montalegrense a cozinhar ...
Para que não se perca a memória, fica aqui um link do relatório de fim de curso do engº agr. Fernando Gusmão, amavelmente cedido pelo filho e meu primo, Nuno Gusmão.

Leituras recomendadas:

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Árvores de má sorte


Os tubos de proteção estão vazios; as árvores morreram; sobrou lixo plástico a salpicar a paisagem. As plantações de árvores autóctones falham sistematicamente. Porquê?
Há sempre a hipótese das proveniências, mas a principal causa talvez não ande por aqui ...
A vala e cômoro foi a técnica mais usada nos grandes projetos de arborização pública do séc. XX: espreite-se o GoogleEarth: até parece que as montanhas do norte e centro foram cardadas pelo pente de um gigante. Estas arborizações tiveram como ponto de partida (condição inicial) montes cobertos por um mosaico de arbustos e pastagens graminoides perenes e anuais, estabilizado pela combinação de pastoreio e fogo pastoril – herbivoria pírica assim se diz agora. No tempo zero, o stock de carbono orgânico do solo atingira um máximo em equilíbrio com o macroclima. As arborizações de pinheiro-bravo a vala e cômoro prosperaram graças à "formação de solo" (sobretudo nos xistos), à concentração da água na vala, ao controlo da vegetação natural (os diásporos e propágulos foram arrojados para o fundo da cova), e à disponibilização de nutrientes através da mineralização da matéria orgânica do solo. Não fosse o fogo ...
Nas atuais plantações ao covacho com baixas densidades em solos martirizados por fogos severos (que consomem a matéria orgânica do solo), as árvores sofrem, ainda num estado precoce do desenvolvimento, as investidas da vegetação natural e passam sede e fome – falta-lhes, sobretudo, o azoto reduzido e o boro. Nestas condições, inevitável, o sucesso das plantações depende da fertilização química da terra e da contenção da progressão sucessional, através do controlo mecânico da vegetação ou do herbicida. O fogo controlado entra em seguida. A não perturbação do solo e esta insistência de que a floresta não precisa de ser fertilizada podem, afinal, ser contraproducentes.
Para serem eficazes e eficientes nos seus propósitos, a agricultura e a silvicultura enfrentam restrições biofísicas cuja mitigação/solução não está nas micorrizas, nos extratos de algas, nas misturas de aminoácidos, no imprinting epigenético, ou nas laudas desconexas aos benefícios da flora infestante ou de um microbioma que ninguém sabe como é, por exemplo. Os princípios fundamentais há que os procurar nas velhas agronomia e silvicultura. E, acrescento, convém que os ecólogos agrícolas e florestais entendam os mecanismos básicos da produção agrícola e florestal para que os ganhos sociais e ambientais dos atuais projetos de investigação no tema sejam reais. Por outras palavras, aproveita aprender umas coisas das engenharias agronómica e silvícola.

sábado, 6 de maio de 2023

Porque são maus os solos em Portugal e onde estão os bons


Numa curta recapitulação fui à procura de uma cartografia dos depósitos de loess (depósitos eólicos formados após o recuo dos gelos do Würm), reconhecidos pela sua fertilidade na bibliografia agronómico-pedológica. Reparem na mancha amarela do mapa acima, que se estende da Bacia de Paris até à Rússia. Confirmem a importância da Ucrânia no sistema alimentar mundial, francamente mais relevante do que a Rússia porque usufrui de um clima menos frio e mais chuvoso do que os loess siberianos. Portugal nem aparece na gravura.
Como se não bastasse, faltam-nos grandes planícies aluviais (a verde no mapa, vd. vale do Pó), os grandes depósitos neogénicos de origem aluvial que enchem, por exemplo, a peneplanície de Castela-a-Velha, grandes extensões de rochas básicas de origem vulcânica como na planície do Lázio, onde nasceu Roma, e os depósitos marinhos que explicam a prosperidade dos Países Baixos e da Dinamarca.

É fundamental perceber que a Península Ibérica, se juntou geologicamente muito tarde à Europa e que se levantou em média 600 metros durante o Cenozoico. A partir deste levantamento ocorrido há volta de 50 milhões de anos, passamos a contar com um imenso transporte de sedimentos, pelas nossas linhas de água, em direção ao mar, deixando-nos apenas a rocha descarnada mais dura, enquanto, contrariamente, as linhas de água centro-europeias transportam sedimentos que continuam a depositar na grande planície centro-europeia. Não podemos amputar todas as responsabilidades á geografia localista, a Suíça é a exceção à regra, mas que ela tem a sua grande cota de importância no desenvolvimentos dos povos, lá isso tem. Em Miranda temos um provérbio que diz: "adonde nun lo hai, naide lo puode dar".

O maciço ibérico, com as suas formações de xisto e granito, coincide com as regiões mais pobres da península: Galiza, Trás-os-Montes, Beira Interior, Alentejo e Extremadura.



quinta-feira, 10 de março de 2022

Documentário completo: O Sabor da Despedida (2009)


A construção da Barragem do Baixo Sabor e as consequências ambientais para o equilíbrio natural da região

Portugal prepara-se para perder o seu último troço de vida selvagem. Em Trás-os-Montes, o Rio Sabor, vai deixar de correr naturalmente até ao Douro. A construção da Barragem do Baixo Sabor muda para sempre o equilíbrio natural da região.
Conheça as espécies e as memórias condenadas no altar do progresso energético e prove connosco o sabor da despedida.

sábado, 30 de outubro de 2021

Projeto Life Maronesa Quer Combater as Alterações Climáticas e Prevenir Fogos



Um projeto-piloto implementado numa exploração de vacas maronesas, em Vila Pouca de Aguiar, quer ajudar a combater as alterações climáticas, reduzir o risco de incêndio, quantificar a produção de biomassa nas pastagens e os efeitos do pastoreio.

O projeto Life Maronesa tem um financiamento de cerca de dois milhões de euros, comparticipado em 55% pela União Europeia, e estende-se até 2025.

“Aqui, na área do Casal da Bouça, nós adquirimos experiência com estas práticas mais sustentáveis e que estão, de forma natural, mais adaptadas ao impacto das alterações climáticas”, afirmou à agência Lusa Juliana Salvação, da associação florestal Aguiarfloresta, coordenadora do projeto.

A gestora do projeto destacou ainda o contributo do pastoreio para a redução do risco de incêndio florestal e a importância de replicar as “boas práticas” em outros baldios que fazem parte do Life, em Mondim de Basto, Ribeira de Pena e Vila Real, concelhos que são “solar” da raça autóctone maronesa.

No Casal da Bouça, na aldeia de Souto, em Vila Pouca de Aguiar, o produtor António Moutinho tem 130 vacas e novilhas em regime extensivo, ou seja, os animais andam a maior parte do tempo ao ar livre entre a serra do Alvão e os lameiros.

Esta exploração transformou-se numa “área de demonstração”. Ali foi construída, há já uma década, uma manga de maneio dos animais que é considerada única na região e “anti-stress” para as vacas e, nos lameiros e na montanha, foram colocados cercados e gaiolas de exclusão (de monitorização da herbivoria).

Também ali está a ser quantificada, pela primeira vez, a biomassa consumida pelas vacas, por dia, o que permitirá, também, apurar o rendimento do animal, por dia, em serviços de ecossistema, ou seja, os benefícios desta raça para o ambiente.

Trata-se, segundo o investigador Carlos Aguiar, do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), de “um ensaio fatorial” onde foram introduzidas variáveis: num cercado não há pastoreio, em outro corta-se o feno e num outro corta-se o feno e há pastoreio.

“E nós vamos ver o que acontece à flora e à produtividade”, referiu.

Com este estudo pretende-se recolher dados científicos e números que, segundo o responsável, “nunca foram quantificados”.

“No final vamos ficar a saber quantos quilos de biomassa produz um lameiro, mas também quantos quilos consome uma vaca”, salientou.

Carlos Aguiar explicou que o Life Maronesa “tem várias frentes”, desde a recuperação da fertilidade das terras nos lameiros, através da aplicação de calcário magnesiano, medida que classificou como importante porque a “produção de feno e de pasto condiciona o número e animais” que os criadores podem ter.

Outra frente é a recuperação dos solos nas montanhas, devastadas pelos incêndios de grande severidade, apostando nos fogos controlados, de baixa densidade, associados à herbivoria, ou seja, à ingestão das plantas por parte dos animais.

Carlos Aguiar referiu que “as vacas podem trazer atrás de si mais animais e mais plantas”.

“O discurso que liga a criação de gado à libertação de metano e a carbono na atmosfera, ao aquecimento global, aqui não, é ao contrário”, salientou.

Por sua vez, o produtor António Moutinho explicou a manga de maneio, construída pelo próprio, que foi inspirada num modelo americano e que visa o bem-estar dos animais.

Ao longo de um cercado com três círculos os animais são conduzidos para uma espécie de tronco, onde entram individualmente e são manuseados “sem entrarem em stress”, o que facilita as intervenções veterinárias, de sanidade e o seu transporte.

“O projeto tenta replicar o que estamos a fazer nesta exploração para outros criadores no sentido de introduzir alguma inovação para tornar as explorações mais sustentáveis ambiental, económica e socialmente”, salientou António Moutinho.

Para levar visitantes ou técnicos ao terreno foi criado o percurso do Pastoreio Sustentável e da Gestão da Paisagem Clima +, onde ao longo de 13 quilómetros foram espalhados 32 painéis, entre o Casal da Bouça até à Serra do Alvão, que descrevem as várias etapas e iniciativas do projeto.

Os mentores do projeto acreditam que o incremento do consumo e do preço da carne de raças autóctones de montanha, criadas em extensivo, traduz-se em fogos de menor intensidade, mais carbono sequestrado no solo, maior diversidade de espécies e ecossistemas, ganhos de bem-estar animal e em rendimentos acrescidos dos criadores de gado.

“O número de animais e de produtores tem vindo a diminuir e é importante valorizar estas atividade enquanto motor de desenvolvimento rural e social e cativar novos pastores e produtores e gado para a região”, afirmou Juliana Salvação.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Pela regulamentação da gestão do arvoredo urbano

Actualização: em 18 de Agosto de 2021 foi publicado o Regime jurídico de gestão do arvoredo urbano

                                     

Ao Legislador:

A importância do Sistema da vegetação no espaço urbano
As vantagens da vegetação arbórea em contexto urbano são amplamente reconhecidas.
Além de contribuir para qualificar as cidades, vilas e aldeias, a vegetação é um valioso dispositivo para modular o microclima urbano, suavizando extremos climáticos, promovendo o bem-estar e reduzindo os riscos para saúde pública decorrentes das ondas de calor.
Um coberto arbóreo superior a 40% pode reduzir a temperatura do ar até pelo menos 3.5 graus. O ensombramento sobre edifícios e pavimentos já demonstrou que permite reduções de temperatura locais que vão de 11 a 25 graus. A suavização de temperaturas extremas por via do arvoredo urbano é, pois, particularmente importante num quadro de alterações climáticas em se prevêem aumentos na frequência, duração e severidade de ondas de calor a nível Europeu. Acresce que as populações mais desfavorecidas (por exemplo, idosos, crianças, indivíduos acamados ou fragilizados) possuem maior vulnerabilidade a este tipo de eventos sendo que quem tem mais poder económico tem mais condições para se adaptar de forma individual. Portanto, as ondas de calor, sem investimentos que minimizem a sua incidência no espaço público, são um fator de iniquidade social ao reforçar a fragilidade dos grupos sociais mais vulneráveis.
O sistema da vegetação arbórea é parte do que se convencionou chamar de “infraestrutura verde urbana”: uma infraestrutura que presta serviços de ecossistemas ao cidadão, de forma integrada, com efeitos reguladores sobre o clima, a composição química da atmosfera, a hidrologia, promovendo a biodiversidade urbana e a captação de CO2, desta forma contribuindo para a transição energética. Esta infraestrutura é fundamental para garantir vias de continuidade no espaço urbano, proporcionando locais de abrigo, de nidificação e alimentação (pólen, frutos, sementes e invertebrados) para inúmeras espécies animais, incluindo aves e insectos polinizadores. Além disso, a folhada restitui matéria orgânica e nutrientes ao solo, contribuindo para um solo vivo, e os troncos e ramos albergam comunidades de briófitas (musgos) e líquenes.

Ameaças ao arvoredo urbano
Os serviços prestados pelo sistema da vegetação arbóreo, nomeadamente a redução de temperaturas no período estival, só são eficientemente atingidos quando o copado se encontra bem desenvolvido, pressupondo-se, entre outros factores, que os exemplares sejam conduzidos de forma a aproximar-se da sua forma e dimensão potencial no estado adulto.
O papel filtrador de partículas poluentes, ou de habitat para a biodiversidade, sofre igualmente uma redução quando são infligidos danos ao nível da copa.
Em certos casos, pela proximidade com as habitações e/ou viaturas que debaixo das árvores estacionam, surgem conflitos sociais. É o caso do ensombramento indesejado de algumas árvores sobre habitações, ou da queda de fragmentos de arvoredo sobre viaturas. Estes conflitos são geradores de pressão sobre os gestores do espaço público resultando, frequentemente, em abates de exemplares adultos e/ou podas excessivas que poderiam ser evitadas se tivesse havido um correto projecto dos espaços verdes. Este, compreende não só um bom desenho do espaço verde assim como uma escolha correcta das espécies arbóreas a plantar e o conhecimento profundo da estrutura de uma árvore.
Tal como acontece com a generalidade das infraestruturas públicas - eletricidade, gás, telecomunicações e outras - a intervenção na estrutura verde das cidades e no arvoredo em particular tem de ser regulada sob pena dos danos infligidos resultaram num aumento de risco para pessoas e bens para além de reduzir a capacidade de prestação de serviços de ecossistema que o arvoredo proporciona devido ao enfraquecimento quando não a morte antecipada do exemplar (que significa entre duas a três décadas perdidas para instalação de um novo exemplar).
Apesar de haver amplo consenso técnico-científico sobre as boas práticas de gestão do arvoredo urbano, resultantes de décadas de publicações internacionais e nacionais, pela mão de ilustres silvicultores, arquitetos paisagistas, botânicos, esse conhecimento é frequentemente ignorado por quem tem o poder de decisão sobre este assunto. Da mesma forma, a opinião pública tem frequentemente uma concepção enviesada do que são as boas práticas, defendendo e replicando actuações que foram passadas de geração em geração mas que são discrepantes face à realidade comprovada por especialistas na matéria.
Atualmente, desde que o exemplar não seja, por motivos patrimoniais ou de relevância botânica, protegido através do regime de proteção aos fitomonumentos (árvores classificadas de interesse público ou espécies protegidas), assiste-se um pouco por todo o país a ações danosas sobre a generalidade do património arbóreo com prejuízos públicos que advêm da redução da sua funcionalidade, conforme acima se descreve. A realidade é que, em Portugal, é permitido que qualquer indivíduo com uma ferramenta destrua em poucas horas o que demorou décadas a construir.
Não é defensável que uma atividade com efeitos tão importantes na saúde pública e no ambiente, como a gestão do arvoredo em meio urbano, se mantenha à margem de qualquer sistema normativo.
Não é aceitável que só as árvores com características botânicas relevantes - porte notável e singularidade - sejam sujeitas a normas que condicionem a sua gestão, deixando a esmagadora maioria dos exemplares desprotegidos e sem regulamentação.
À semelhança do que acontece para a generalidade das infraestruturas urbanas, é necessário que o legislador intervenha e defina regras claras sobre quem pode gerir o sistema da vegetação, quem fiscaliza esta atividade, quem credencia, quais as regras a adoptar e quais as penalizações para os incumpridores.
A inexistência de regras nesta matéria é, aliás, uma anomalia. A nível internacional, o “European Arboricultural Council” e a “International Society of Arboriculture” são entidades que gerem a certificação do trabalho dos operadores técnicos e gestores de arboricultura urbana.
A nível nacional, há um conjunto de países que que desenvolveram normativas detalhadas que regulam a atividade de arboricultura urbana. Por exemplo, o Reino Unido aprovou um conjunto de boas práticas para gestão de arvoredo urbano (British Standards BS 3998:2010 - Tree Works. Recommendations) e identificaram várias entidades que promovem e reconhecem qualificações no âmbito da arboricultura urbana.

O que propomos:
De acordo com o exposto, solicitamos ao(s) legislador(es) que, com caráter de urgência, promova(m):
1 - Criação de um quadro normativo para a gestão do arvoredo urbano, abrangendo as operações de poda, transplantes e critérios para abate, auscultando normativos em vigor na Europa;
2 - Reconhecimento da profissão de Arborista devidamente credenciado para execução de operações de manutenção de arvoredo e criar as bases para o desenvolvimento dessa profissão;
3 - Adoção de um documento de referência de “Boas Práticas de Gestão do Sistema Arbóreo Urbano” a nível nacional que sirva de referência ao território nacional abrangendo todas as entidades com responsabilidade na gestão do arvoredo;
4 - A assunção do princípio de que a gestão do arvoredo em espaço público deverá ser executada por técnicos devidamente preparados e credenciados para o efeito;
5 - A assunção do princípio geral de que a fiscalização das ações de gestão do arvoredo deverá caber a uma entidade independente da entidade que a executa.
6 - A assunção do princípio da democraticidade e transparência no acesso e consulta de informação relacionada com os planos de gestão do arvoredo;
7 - Que o processo legislativo em causa considere a consulta a instituições técnico-científicas, associações sócio-profissionais do sector, entidades representantes de municípios, ONGAs e outros representantes relevantes da sociedade civil.

Os proponentes
Ana Cristina Figueiredo, Jurista,
Ana Júlia Francisco, Engenheira Agrícola, especialista em Arboricultura Urbana
Ana Luísa Soares, Arquitecta Paisagista, Professora Universitária
Ana Patriarca, Arquitecta Paisagista, Gestora certificada de arvoredo no Reino Unido
Ana Paula Ramos, Engenheira Agrónoma, Professora Universitária,
Alexandre Guerra, Engenheiro Florestal, Consultor
Aurora Carapinha, Arquitecta Paisagista, Professora Universitária
Carla Castelo, ex-Jornalista, Consultora de Comunicação e Ambiente
Carlos Aguiar, Agrónomo, Professor Universitário
Cristina Branquinho, Bióloga, Professora Universitária
Cristina Nobre Soares, Engenheira Florestal, Consultora em Comunicação de Ciência
David Travassos, Sociólogo, Investigador social na área do Ambiente
Duarte d´Araújo Mata, Arquitecto Paisagista, Técnico Municipal
Francisco Castro Rego, Silvicultor, Professor Universitário
Francisco Ferreira, Engenheiro do Ambiente, Professor Universitário e Ambientalista
Helena Freitas, Bióloga, Professora Universitária
Henrique Pereira dos Santos, Arquitecto Paisagista, Técnico do ICNF
Hugo Pires, Engenheiro Agrónomo, Analista de dados
João Melo, Engenheiro Florestal, Funcionário Público
Joana Bértholo, Escritora e Dramaturga
Jorge Cancela, Arquiteto Paisagista, Presidente da Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas
Jorge Capelo, Botânico, Investigador
Jorge Quina Ribeiro de Araújo, Biólogo, Professor Universitário
José Carlos Mota, Urbanista, Professor Universitário
Manuela Raposo Magalhães, Arquitecta Paisagísta, Professora Universitária
Marcolino Fritz Vilaça, Arborista, Técnico de Gestão e recuperação de Espaços Verdes
Maria Filomena Caetano, Engenheira Silvicola, Aposentada
Margarida Cancela d´Areu, Arquiteta Paisagista
Miguel Bastos Araújo, Geógrafo, Investigador e Professor Universitário
Natália Sofia Cunha, Arquitecta Paisagista, Investigadora
Nuno Gomes Oliveira, Biólogo
Luis Carloto Marques, Engenheiro Florestal, Funcionário Público
Luis Jordão, Engenheiro Ambiente, Consultor de Ambiente
Luísa Schmidt, Socióloga, Professora Universitária
Olga Marina dos Reis Brito, Engenheira Florestal, Consultora Florestal
Paulo Moura, Técnico de Gestão do Ambiente, Consultor em arboricultura urbana
Paulo Pimenta de Castro, Engenheiro Silvicultor, Gestor Silvícola
Paulo Trancoso, Produtor de Cinema e TV
Pedro Bingre do Amaral, Silvicultor, Professor Universitário
Rosa Casimiro, Designer, Activista Defesa Arvoredo
Rosário Oliveira, Arquitecta Paisagista, Investigadora
Rui Vitorino Machado Queirós, Engenheiro Silvicultor, Funcionário Público
Selma Pena, Arquitecta Paisagista, Professora Universitária
Susana Brígido, Engenheira Florestal, Empresária
Teresa Belmonte Travassos, Arquitecta Paisagista, Técnica Municipal
Teresa Pinto Correia, Geógrafa, Professora Universitária
Tiago Domingos, Engenheiro do Ambiente, Professor Universitário
Vânia Proença, Bióloga, Investigadora

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Carta aberta ao senhor primeiro-ministro: a visão de Ribeiro Telles e o Plano de Recuperação Económica

Fonte: Público
Senhor primeiro-ministro, os signatários reafirmam que é imprescindível um acto em sintonia com o arrojo que a Europa está a demonstrar. Temos agora a oportunidade de retomar a política de Ribeiro Telles, em linha com a actual visão da UE.


Gonçalo Ribeiro Telles, da primeira geração de arquitectos paisagistas formados em Portugal, aproveitou a oportunidade de ser secretário de Estado do Ambiente e mais tarde ministro da Qualidade de Vida e do Ambiente para dotar Portugal de um conjunto de legislação fundamental, conducente à sustentabilidade ecológica do território, à conservação dos recursos naturais e à minimização dos riscos naturais.

Ora, os políticos europeus acabam de assumir, para nossa grande satisfação, no âmbito da recuperação económica e social e de um Green New Deal, a urgência de investimentos na “pele” viva do planeta, da qual todas as sociedades dependem, através da recuperação do seu capital natural, numa estrutura considerada a infraestrutura da Vida e de tudo aquilo em que ela se baseia.

Assim, a Comissão Europeia apresentou a Nova Estratégia para a Biodiversidade, para a qual perspectivou até 2030 níveis de financiamento muito significativos. Nomeadamente, considera que devem ser feitos investimentos prioritários na Rede Natura 2000 e nas Infraestruturas Verdes de, pelo menos, 20 mil milhões de euros por ano e propõe que parte dos 25% do orçamento da UE consagrado à acção para o clima seja investido na biodiversidade e nas soluções baseadas na natureza (Nature Based Solutions). Além do financiamento, estabeleceu metas claras para reduzir a tendência de perda da biodiversidade e degradação da qualidade dos recursos naturais, deixando de considerar suficiente a sua protecção, para propor o seu restauro

Com esta posição, passou a ser assumido politicamente o que já vinha a ser proposto cientifica e tecnicamente, há muito tempo: a ideia fundamental e estrutural duma concepção espacial que se projecta e alicerça numa estrutura “verde” (Europeia/Nacional) que nos garanta a Vida, a nós e às gerações futuras.

O grande avanço dado pela UE foi passar a ter uma visão de que não basta proteger áreas isoladas, como as que constituem o Sistema Nacional de Áreas Protegidas, para obter uma paisagem ecologicamente equilibrada. É necessário “construir” uma estrutura contínua onde aquele Sistema Nacional de Áreas Protegidas se inclua com as áreas anteriormente classificadas, mas interligadas. Esta estrutura deve ser gerida com o propósito da sua requalificação, não sendo suficientes as habituais acções de protecção, mas também o seu restauro, para melhorar a qualidade e resiliência dos ecossistemas.

A visão integrada do Prof. Ribeiro Telles visou a construção e gestão desta essencial e vital estrutura. No entanto, o conjunto de legislação que fez sair e ainda hoje vigora, com alterações, tem sido aplicado com muitos enviesamentos. Ou seja, fragmentos desta estrutura têm surgido na legislação em diferentes períodos, com diferentes critérios e atribuição da gestão a diversas entidades, sem que haja uma unificação e uma coordenação entre eles. Entre estes fragmentos conta-se o Sistema Nacional de Áreas Classificadas (SNAC), a Rede Fundamental de Conservação da Natureza (RFCN, integrando a Rede Nacional de Áreas Protegidas, a Europeia e a internacional, a Reserva Agrícola Nacional, a Reserva Ecológica Nacional e o Domínio Hídrico) e ainda a Estrutura Ecológica.

Ora, todas estas designações, com os correspondentes regimes jurídicos, fazem parte de um mesmo conceito: a estrutura da paisagem capaz de assegurar a sua sustentabilidade ecológica, a resiliência aos incêndios rurais e todas as outras funções representadas pelos serviços prestados pelos ecossistemas que a constituem, designadamente, a conservação e a qualidade do ar, do solo, da água e da biodiversidade.

É, portanto, indispensável proceder à harmonização de todas as componentes acima referidas, numa só figura, com uma só designação (a nossa proposta é de que se designe por Infraestrutura Ecológica, mas pode ser outra a designação desde que transmita o conceito), a ser incluída nos vários planos de ordenamento do território, às várias escalas. Esta seria a Infraestrutura na qual deveriam convergir as orientações e os financiamentos Europeus e Nacionais, bem como o esforço de todos os agentes envolvidos, públicos e privados, na sensibilização, formação, projectos, implementação e gestão.

Temos agora a oportunidade de retomar a política de Ribeiro Telles, em linha com a actual visão da UE que designa esta infraestrutura por “Infraestrutura Verde e Azul”.

Para isso, aquilo que se pretende agora afirmar é que a lógica de base de qualquer Programa de Recuperação Económica e Social deverá ter consciência da necessidade desta infraestrutura, do seu bom funcionamento, e dos benefícios que ela trará ao País em termos, para além dos de natureza ecológica, dos empregos a criar, da qualidade e da soberania alimentar, da diversidade dos produtos, da atracção de pessoas ao interior, do turismo de natureza, etc., e que a UE propõe que atinja, em 2050, 30% do território Europeu, no mar e em terra. Ou seja, não se trata só de ecologia mas também de economia.

Senhor primeiro-ministro, os signatários reafirmam que é imprescindível um acto em sintonia com o arrojo que a Europa está a demonstrar e que o Plano de Recuperação Económica e Social contenha, na sua base, os Objectivos da Nova Estratégia para a Biodiversidade 2030, da UE, de modo a aplicar os recursos que virão a estar disponíveis em algo que, sabemos, muito virá a beneficiar o País.

Para isso, deve-se, entre outras medidas:
  • Acabar de delimitar, consolidar, qualificar e harmonizar a Infraestrutura Ecológica (IE);
  • Integrar a IE em todos os Programas, Planos e instrumentos de Gestão Territorial, planos de gestão económica ou financeira;
  • Requalificar 25% da área da IE até 2030, com Planos de Restauro (a UE propõe a requalificação total até 2050); fazer convergir e conjugar investimentos da PAC, investimentos da pesca, investimentos dos recursos hídricos, fundos de apoio à reflorestação, etc., nesta selecção de 25% da área da IE;
  • Dotar as estruturas de governação da IE de funções claras (não sobrepostas) e de mecanismos de avaliação e acompanhamento;
  • Estabelecer um sistema de pagamentos dos serviços de ecossistemas prestados pelos proprietários em áreas da IE;
  • Propor nova legislação e orientações sobre contratos públicos ecológicos.
Signatários da Carta Aberta ao primeiro-ministro

Ana Amado, Assessora aposentada do ICNF
Tiago Domingos, Professor do IST; presidente do MARETEC
Manuela Raposo Magalhães, Professora aposentada do ISA e do IST; investigadora do LEAF/ISA/UL
Selma Pena, Professora convidada do ISA e coordenadora de uma linha de investigação do LEAF/ISA/UL
Jorge Capelo, Investigador Auxiliar do INIAV, IP e investigador do LEAF/ISA/UL
Nuno de Almeida Ribeiro, Professor Auxiliar da Universidade de Évora e investigador do MED/UÉvora
Isabel Maria Nunes de Sousa, Professora Associada do ISA, Presidente do Centro de Investigação LEAF/ISA/ULisboa
João Reis Gomes, Arquitecto Paisagista, Presidente do Instituto Gonçalo Ribeiro Telles da Sociedade Histórica da Independência de Portugal
Nuno Cortez, Professor Auxiliar do ISA
Sandra Mesquita, Arquitecta Paisagista, Estudante de Doutoramento em Arquitectura Paisagista e Ecologia Urbana
Andreia Saavedra Cardoso, Investigadora Auxiliar do GOVCOPP/UA e do LEAF/ISA/UL
Oscar Knoblich, Arq. Paisagista, Assessor aposentado do ICNF
Susana Saraiva Dias, Professora Adjunta do Instituto Politécnico de Portalegre
José Carlos Costa Marques, Professor, tradutor e assistente editorial reformado; Editor independente
Helena Roseta, Arquitecta, Investigadora no CICS.NOVA da Univ. Nova de Lisboa
Tânia Sousa, Professora Auxiliar do IST
Dalila Espírito Santo, Engenheira Agrónoma, Investigadora Coordenadora do ISA; investigadora do LEAF
Amarilis de Varennes, Engenheira Agrónoma, Professora Catedrática do ISA
Aurora Carapinha, Arquitecta Paisagista, Professora Auxiliar da Universidade de Évora
José Cangueiro, Arq. Paisagista, Chefe de Divisão CCDR-N (Ordenamento do Território)
Carlos Aguiar, Professor Coordenador da Escola Agrária de Bragança; investigador do CIMO
Rute Sousa Matos, Arquitecta Paisagista, Prof. Auxiliar na Universidade de Évora
João P. F. Carvalho, Professor de Silvicultura da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD); Delegado da Associação Europeia de Silvicultura (Pro Silva Europe).
José Sá Fernandes, Vereador do Ambiente, Estrutura Verde, Clima e Energia, Câmara Municipal de Lisboa
Lúcio do Rosário, Ex-Ponto Focal Nacional da Convenção de Combate à Desertificação e Seca
Bárbara Lopes, Socióloga
Filipe Lopes, Arquitecto e Urbanista, ex-Director da CML
Ana Müller Lopes Silva Carvalho, Arquitecta Paisagista
Paulo Pimenta de Castro, Engenheiro Silvicultor, Consultor
Natália Sofia Cunha, Investigadora do LEAF/ISA/UL
João Ferreira Silva, Arquitecto Paisagista
Alexandre Cancela d’Abreu, Arquitecto Paisagista, Professor Associado aposentado da Universidade de Évora
Margarida Cancela d’Abreu, Arquitecta Paisagista, Técnica Superior da CCDR Alentejo, docente convidada da Universidade de Évora, aposentada
Paula Maria da Luz Figueiredo de Alvarenga, Professora Auxiliar do ISA; investigadora do LEAF/ISA/UL
Paulo Godinho Ferreira, Investigador Auxiliar do INIAV; Professor convidado de Ecologia da Paisagem no ISA-Univ. Lisboa.
Bruno André Gomes Marques, Arquitecto Paisagista, Director do Departamento de Arquitectura Paisagista, Victoria University of Wellington, New Zealand
José Gomes Laranjo, Professor de Fisiologia Vegetal na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)
Luis Paulo Faria Ribeiro, Professor Auxiliar do Instituto Superior de Agronomia
Paula Maria Simões, Arquitecta Paisagista, Prof. Auxiliar na Universidade de Évora
Maria da Conceição Freire, Arquitecta Paisagista, Professora Auxiliar na Universidade de Évora
Maria Manuela Abreu, Professora catedrática jubilada do Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa; Investigadora do LEAF/ISA/UL
Ana Paula Gomes da Silva, Arquitecta paisagista, Professora Auxiliar na Universidade do Algarve
Nuno de Santos Loureiro, Professor Auxiliar na Universidade do Algarve
Miguel Reimão Costa, Arquitecto, Professor Auxiliar na Universidade do Algarve, Investigador CEAACP e Campo Arqueológico de Mértola
Maria Aragão Rodrigues, Arquitecta Paisagista, Apoio Técnico da Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas
Maria Manuela David, Professora Associada da Universidade do Algarve
Vânia Proença, Investigadora Auxiliar no MARETEC/IST/UL
Ricardo Melo, Professor Auxiliar em Ciências, Universidade de Lisboa, coordenador do pólo ULisboa do MARE – Centro de Ciências do Mar e Ambiente
Jacinta Fernandes, Professora Auxiliar da Universidade do Algarve
Adelino Canário, Professor Catedrático da Universidade do Algarve
Ana Amorim Ferreira, Professora Auxiliar da Faculdade Ciências, Universidade de Lisboa
Rúben Prata, Arquitecto Paisagista, Técnico Superior CM das Caldas da Rainha
Marisa Vedor, Investigadora de Biologia
Rui Prieto Silva, Investigador em biologia e ecologia de cetáceos
Pedro Aboim de Brito, Biólogo Marinho, Estudante de Doutoramento em Ciências do Mar, FCUL – Universidade de Lisboa, Técnico Superior no IPMA, IP
Luís Cancela da Fonseca, Professor Aposentado da Universidade do Algarve; Investigador MARE – FCUL
Isabel Azevedo e Silva, Arquitecta Paisagista, Gestora de Projectos de Ambiente e Sustentabilidade Zutari (África do Sul)
Desidério Batista, Arquitecto Paisagista, Professor Auxiliar na Universidade do Algarve e Investigador do CHAIA/UÉ
Eva Silveirinha de Oliveira, Consultora
Cristina Mendes, Dirigente da Associação Defesa do Património Ambiental e Cultural de Santa Iria da Azóia
Maria Luísa Monteiro Franco, Investigadora do LEAF/ISA/UL (linha de investigação GBI)
Rui Malhó, Professor Catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Andreia Lourenço, Arquitecta Paisagista na empresa JJFLINVEST, Lda.
Maria Inês Martins Adagoi, Arquitecta Paisagista, Estudante de Doutoramento em Arquitectura Paisagista no Instituto Superior de Agronomia
João Paulo Medeiros, Eng. do Ambiente, Mestre em Pescas e Aquacultura, Doutorando em Ciências do Mar, FCUL, Universidade de Lisboa; Investigador no MARE – FCUL
Álvaro José Moita de Oliveira, Eng. Mecânico e Arquitecto Naval, Consultor Naval
Ana Figueiredo Santos, Arquitecta Paisagista
Cláudia Ávila Gomes, Arquitecta Paisagista
Helena Lorina Figueiredo Vieira, Arquitecta Paisagista, Técnica responsável de Verd Urbà del Ajuntament de Parets del Vallès (Barcelona)
Ana D. Caperta, Professora Auxiliar no Instituto Superior de Agronomia
Margarida Cristo, Professora Auxiliar da Universidade do Algarve e Investigadora do CCMAR
Marta Bento, Doutoranda em Ciência do Mar, FCUL
Jorge Palmeirim, Prof. Associado na FCUL, Presidente da Liga para a Protecção da Natureza
Maria da Conceição Castro, Arquitecta Paisagista, Professora Auxiliar da Universidade de Évora
Sólveig Thorsteinsdóttir, Professora Associada, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Ricardo Faustino de Lima, Investigador Júnior, CE3C, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Luiz de Sá Pereira, Arquitecto, Assessor Principal aposentado da CML
Paulo Canaveira, Eng.º Florestal, Consultor em Alterações Climáticas
Sofia Tainha, Arquitecta Paisagista
Maria José Rosado Costa, Professora Catedrática (aposentada), Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Presidente da Associação de Mulheres Cientistas
Margarida Villas-Boas, Estudante de MSc Climate Change and Development, SOAS, University of London

quarta-feira, 4 de março de 2015

Ode a uma Cladoxylopsida pseudosporochnaleano


Por Robert Titus, Kaatskill Life, Inverno de 2007-2008

I think that I shall never see
A poem lovely as a pseudosporochnalean cladoxylopsid . . . tree

A tree whose “whorled dichotomous ultimate units” . . . earn
An ancestry to the modern fern

A tree whose “photosynthetic/reproductive modules” . . . on high
Provide lowly detritivores with a food supply

A tree whose “digitally branched modules” . . . rain
Spores upon a Devonian plain.

A pseudosporochnalean cladoxylopsid that in times, post Ice Age
Is resurrected by a geology hammer’s rage

Poems are made by fools like me
But only Darwin can theorize a pseudosporochnalean cladoxylopsid . . . tree

(obrigado, Carlos Aguiar)

Detalhes evolutivos aqui

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Revolução Verde e Paradoxo Demográfico

Por José Carlos Marques, 19/09/09

A fome no mundo de milhões de pessoas é demasiado real para podermos encará-la sem perplexidade e tentar resolvê-la com estereótipos. Nessa medida, nem se pode subalternizar o facto de uma tecnologia poderosa, agronómica e química, ter "revolucionado" as quantidades de alimentos produzidos, nem se pode ignorar que essa multiplicação deixou milhões de pessoas na fome e legou problemas de sustentabilidade (fome futura!) que são um quebra-cabeças, desde a erosão à contaminação de solos e muitos outros. E não é apenas a "revolução verde" em termos agronómicos e químicos que está em causa, mas um complexo sistema tecnológico e civilizacional, que inclui a mecanização intensiva e consequente empobrecimento dos ecossistemas agrícolas, arrasando sebes para melhor circulação das grandes máquinas, apostando tudo nas grandes monoculturas, a opção económica e política ela expulsão dos camponeses da terra, por orientar os sistemas produtivos no "terceiro mundo" para a exportação de bens alimentares de interesse secundário deixando as populações locais mais pobres em alimentos essenciais e tornando-as até dependentes para esses bens básicos da importação da agricultura dos países ricos, por reduzir drasticamente o número de explorações agrícolas porque o "mercado" não consente que elas sejam viáveis e façam viver as famílias que ficam na terra, pela "necessidade" (leia-se: opção) de baixar drasticamente os preços alimentares para manter salários relativamente baixos e libertar rendimentos para o consumo dos bens industriais, e vários outros fatores.

Um dos aspetos mais curiosos da questão na sua real amplitude é aquilo a que chamo o paradoxo demográfico, que se pode ver em ação nos trabalhos dos historiadores do passado e dos sociólogos do presente. Isto é: o aumento populacional, ao contrário do que muitas vezes se supõe, não é algo que se resolva com maior produção alimentar PORQUE RESULTA DELA: é a maior disponibilidade de bens alimentares que permite o aumento populacional e não o contrário. Isso está comprovado em vários casos históricos e é inegável. Mas, por outro lado, como os "sociólogos da fome" também demonstraram, em especial no "terceiro mundo" (onde a colonização e a exploração ocidental imprimiu às sociedades locais inflexões de rumo específicas que não permitem que isolemos os fenómenos nelas presentes do surgimento da colonização), a fome está associada a populações excessivas, crescentes, com altas taxas de natalidade... Reduzir estes dois fenómenos contraditórios a explicações simplistas não nos ajudará muito.

Esse paradoxo está bem presente na nota do Carlos Aguiar. O primeiro fenómeno reveste esta forma que refere o Carlos: "As sacas de sulfato de amónio, de nitrato de cálcio, e outros adubos químicos, multiplicaram a população humana por quatro em 100 anos." Ou seja, o aumento de produção alimentar não se teria limitado a responder a necessidades alimentares de uma dada população, antes foi o fator do aumento populacional (sem esquecer que outros fatores existiram noutros domínios que não os da produção de alimentos).

O segundo fenómeno está de certa forma referido nesta outra frase por ele escrita: "No final do séc. XIX, William Crooks, um químico e físico inglês, alertou para o facto da população mundial estar a crescer aceleradamente e que se não fossem encontradas alternativas ao nitrato do Chile era inevitável uma fome global." Aqui as bocas seriam mais que as que poderiam ser alimentadas.

Como é próprio do paradoxo (diferentemente da simples e linear contradição, que é do domínio do pensamento), ele é um resultado da realidade e da sua complexidade e da coexistência de tensões opostas mas ambas reais.

Isso põe também o problema seguinte: será que, como afirmam tão frequentemente economistas e políticos, o aumento demográfico é não só uma boa coisa como uma coisa indispensável? Sem ele estaríamos perdidos - diz-se. A China e a Índia, as mais populosas nações do mundo, há muito que, embora com métodos diferentes, praticam o contrário disso, ou seja políticas (melhores ou piores) de limitação da natalidade. E aqui, do ponto de vista do movimento ecológico, surge a relevância do mútuo reforço de dois fatores convergentes na raiz da contínua degradação ambiental, inclusive dos solos e recursos agrícolas neles aplicados, degradação essa que é o sintoma claro da INSUSTENTABILIDADE do atual modelo agronómico: por um lado o aumento populacional, por outro lado a desmesura com que a civilização atual aplica a sua enorme potência tecnológica, a que acresce o facto de o sistema económico geral que domina se apoiar na necessidade de continuamente aumentar esses dois fatores e o respectivo consumo exponencial de toda a espécie de matérias primas, recursos vivos, etc.

Por isso, nem o atual modelo agronómico ("borlauguiano"...) poderá responder aos desafios do presente e do futuro; nem a alternativa poderá ser um outro modelo agronómico, seja ele "biológico", que apenas altere os métodos de cultivo isolando-os de todos os restantes fatores (sociais, económicos, tecnológicos, demográficos, civilizacionais).

Arne Naess, o mais notável filósofo que o movimento ecológico produziu (talvez porque antes de ser ecologista era já um filósofo notável), aponta claramente no sentido da redução gradual, voluntária e coletiva da população mundial, no que aliás converge com diversos movimentos de raiz ecológica que defendem desde os anos 1970 (por vezes de uma maneira que levanta outros problemas e algumas discordâncias importantes que eu subscreveria) a estabilização primeiro e redução depois da população mundial como indispensável para enfrentar a crise ecológica. Essas perspetivas, bastante visíveis no movimento ecoambiental mundial até 1980, sofreram depois um apagamento (como aliás o movimento na sua generalidade, até 1992 pelo menos, quando a Cimeira da Terra de certa forma começou a inverter o refluxo), e hoje são muito tímidas ou inaudíveis as vozes que põem a questão dentro do próprio movimento. Mas isso em nada afeta a importância teórica e prática dela.

Sobre a questão da população vista por Naess pode ver-se em português o texto que lhe é dedicado no livro Ganhar a Vida - Objectivo 7 Garantir a Sustentabilidade Ambiental, editado, sob coordenação de João Paulo Cotrim, pelo IPAD - Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento, na sua página 68 ("Arne Naess: cinco ideias para uma mudança"), que redigi.