Mostrar mensagens com a etiqueta Guerra Fria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guerra Fria. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 23 de junho de 2026

Relembrar a canção "Turn! Turn! Turn" de Pete Seeger com Judy Collins- "Um tempo para a paz, eu juro que não é tarde demais"


Letra

[refrão]
To everything, turn, turn, turn
There is a season, turn, turn, turn
And a time to every purpose under heaven

A time to be born, a time to die
A time to plant, a time to reap
A time to kill, a time to heal
A time to laugh, a time to weep

[refrão]

A time to build up, a time to break down
A time to dance, a time to mourn
A time to cast away stones
A time to gather stones together

[refrão]

A time of love, a time of hate
A time of war, a time of peace
A time you may embrace
A time to refrain from embracing

[refrão]

A time to gain, a time to lose
A time to rend, a time to sew
A time for love, a time for hate
A time for peace, I swear it's not too late

Versão dos Byrd

A letra é quase inteiramente baseada numa tradução da Bíblia (a famosa versão King James em inglês). Pete Seeger pegou no texto do Livro de Eclesiastes (Capítulo 3, versículos 1 a 8), tradicionalmente atribuído ao Rei Salomão, reorganizou algumas linhas e adicionou o refrão "Um tempo para a paz, eu juro que não é tarde demais."

O significado original do texto bíblico "Turn! Turn! Turn" é uma reflexão filosófica sobre a natureza cíclica e inevitável da vida humana. Lembra-nos que tudo o que enfrentamos — seja a alegria ou a dor, o ganho ou a perda - faz parte de um ritmo natural e equilibrado do universo. Nada dura para sempre, e há um momento apropriado para cada experiência.

No entanto, quando Pete Seeger adaptou o texto em 1959, ele transformou uma reflexão antiga num hino pacifista e de protesto. O verdadeiro "ponto de viragem" da música está na única linha totalmente nova que Seeger acrescentou no final:

“A time for peace, I swear it's not too late” (Um tempo para a paz, eu juro que não é tarde demais).

Ao adicionar esta frase no contexto do final dos anos 50 e década de 1960 (marcada pela Guerra Fria, pela iminência de um conflito nuclear e, mais tarde, pela Guerra do Vietname), a música passou de uma constatação fatalista sobre os ciclos da vida para uma súplica urgente pela paz mundial. Ela avisa a humanidade de que, embora a guerra tenha tido o seu tempo na história, o tempo presente exige obrigatoriamente a paz, antes que seja tarde de mais.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Sisters of Mercy - Dominion

Melhor som aqui

Lançado em 1987 no aclamado álbum Floodland, o tema "Dominion" (frequentemente editado na sua versão longa como "Dominion / Mother Russia") destaca-se pela sua sonoridade grandiosa e hipnótica, impulsionada por uma linha de baixo marcante, pelas batidas industriais da famosa caixa de ritmos da banda, apelidada de "Doktor Avalanche", e pela densidade dos coros operáticos providenciados pela New York Choral Society.

O impacto visual da canção foi imortalizado num videoclipe memorável filmado em fevereiro de 1988 nas ruínas históricas de Petra, na Jordânia. Esta produção tornou-se um marco histórico por ter sido o primeiro videoclipe de música pop/rock a receber autorização governamental para ser gravado naquele sítio arqueológico. Para alcançar os impressionantes planos aéreos que caracterizam o vídeo, Andrew Eldritch conseguiu inclusive o apoio da própria família real jordana, que cedeu um helicóptero militar para as filmagens.

No plano lírico, a letra assume um tom profundamente cínico e literário. Em passagens como "In the land of the blind king / The one-eyed man is king / Don't look back to the neon and the cold grey morning / Say the prayers for the sand to come", que em português de Portugal se traduz como "Na terra do rei cego / O homem que tem um olho é rei / Não olhes para trás para o néon e para a manhã cinzenta e fria / Reza as orações para que venha a areia", a banda constrói uma atmosfera de decadência urbana e alienação. Na segunda secção do tema, intitulada "Mother Russia", a letra expande-se numa crítica geográfica direta: "Mother Russia rain down / There's a lighthouse in the middle of Prussia / A white house in a red square / And a mobile home in Memphis", cuja tradução corresponde a "Mãe Rússia, chove cá em baixo / Há um farol no meio da Prússia / Uma casa branca numa praça vermelha / E uma caravana em Memphis".

O significado por trás desta poesia sombria reflete a genialidade política de Eldritch, que transformou a faixa numa das mais contundentes críticas à Guerra Fria e ao imperialismo dos anos 80. Ao utilizar o provérbio clássico de que em terra de cegos quem tem um olho é rei, o músico ironiza a facilidade com que as massas se deixavam manipular por líderes políticos medíocres num período de paranoia global, enquanto a "areia" simboliza o colapso inevitável das civilizações. O segmento "Mother Russia" foi inspirado de forma muito direta pelo desastre nuclear de Chernobyl, ocorrido em 1986, apenas um ano antes do lançamento do disco; o apelo para que a Rússia "chova cá em baixo" funciona como uma metáfora literal para a nuvem radioativa que se espalhou pelos céus europeus através da precipitação. Por fim, ao fundir os maiores símbolos das superpotências da época numa única imagem - uma casa branca americana plantada no meio da Praça Vermelha soviética -, o tema expõe o absurdo do jogo geopolítico que esmagava a Europa Central (a Prússia) e reduzia a cultura ocidental ao vazio consumista simbolizado pelas caravanas de Memphis, deixando o mundo à mercê de um iminente apocalipse nuclear.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

The Sisters of Mercy - Heartland (American Remix) 2020


Heartland

[Verso 1]
Lay me down the long white line
Leave the sirens far behind me
Paint my name in black and gold
My heart my flame my heart my road
My heartland fade across the line
Heartland sing the faces shining
In the failing failing failing
Heartland make the places mine  

[Verso 2]
Clearly now the past mistakes
The giant steps we had to take
The path that ever promise made to
Die in dream dissolve and fade

[Refrão]
My heartland, heartland, heartland...

[Verso 3]
Behind the lines a face that glimmers
Still looking for a face that shines
In the promise in the places
I'm going to make them mine

[Refrão]
My heartland, heartland, heartland...

Embora Andrew Eldritch, o enigmático líder e compositor da banda que frequentemente rejeita rótulos, mantenha o mistério, as letras de Heartland carregam fortes metáforas geopolíticas e existenciais que se dividem em duas grandes linhas de interpretação.

Por um lado, a vertente geopolítica remete para a Guerra Fria e para a Teoria do Coração do Mundo, já que o próprio termo Heartland evoca diretamente o conceito proposto pelo geógrafo Halford Mackinder, que afirmava que quem controlasse a Europa de Leste — o "Coração do Mundo" — dominaria o planeta. Lançada em 1983, no auge desse conflito ideológico, a canção reflete o medo do colapso, a divisão das fronteiras expressa em versos como "across the line" ou "behind the lines", e a decadência dos impérios ocidental e soviético, sendo que frases como "the giant steps we had to take" podem muito bem referir-se à corrida ao armamento ou aos erros históricos cometidos pelas superpotências.

Por outro lado, a nível mais literal e poético, emerge a metáfora da estrada e da fuga existencial, em que a música evoca a imagem de uma fuga noturna por uma autoestrada para escapar da autoridade, dos problemas ou do caos urbano, como sugere o pedido para o deitarem na longa linha branca e deixarem as sirenes para trás. Neste contexto, o Heartland transforma-se num refúgio mental ou num lar espiritual em vias de desaparecimento, onde impera um forte sentimento de desilusão. O eu lírico fala de promessas que morreram, se dissolveram e desapareceram num sonho, revelando uma busca por identidade e controlo num mundo que parece estar a falhar.

Em resumo, Heartland utiliza a estética fria e industrial da sua sonoridade para pintar o retrato desolador de um indivíduo isolado, perdido entre a desilusão pessoal e as tensões políticas de um mundo à beira do abismo.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Diplomata do Mundo: O Papel de Ted Turner no Degelo da Guerra Fria

A influência de Ted Turner no fim da Guerra Fria é um exemplo notável de como o "soft power" e a convicção pessoal podem contornar os canais governamentais tradicionais para alterar o curso da história. Enquanto os diplomatas se mantinham bloqueados em batalhas ideológicas rígidas, Turner atuou como um "diplomata cidadão", alavancando o seu império mediático e a sua fortuna pessoal para perfurar a Cortina de Ferro e humanizar o "inimigo".
Uma das suas contribuições mais significativas foi a criação dos Goodwill Games (Jogos da Boa Vontade) em 1986. Após os boicotes sucessivos aos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, e de Los Angeles, em 1984, o intercâmbio atlético e cultural entre as superpotências tinha estagnado completamente. Turner financiou pessoalmente os jogos em Moscovo para reunir atletas americanos e soviéticos, perdendo milhões de dólares no processo, mas alcançando o seu objetivo de provar que a interação pacífica era possível.
Simultaneamente, Turner transformou a comunicação global através da CNN. Ao criar o primeiro ciclo de notícias globais de 24 horas, estabeleceu, de forma não intencional, uma ponte para a diplomacia em tempo real. Os líderes na Casa Branca e no Kremlin podiam subitamente ver os acontecimentos desenrolarem-se no país do outro sem o atraso dos relatórios de inteligência, e Turner utilizou a sua plataforma para transmitir entrevistas com oficiais soviéticos que desafiavam a narrativa simplista do "Império do Mal" frequentemente vista nos meios de comunicação ocidentais.
Esta era testemunhou também o desenvolvimento de uma amizade genuína entre Turner e Mikhail Gorbachev. Turner tornou-se um apoiante assumido das reformas de Gorbachev, a Glasnost e a Perestroika, ajudando a enquadrar estas mudanças como uma oportunidade para a paz e não como um engano tático. A relação entre ambos foi tão profunda que, mais tarde, associaram-se para formar a Green Cross International, unindo as causas da paz e do ambientalismo.
Em última análise, o ativismo de Turner foi movido por um medo visceral da aniquilação nuclear.
Turner defendeu incansavelmente a redução dos arsenais nucleares, argumentando que a verdadeira segurança não vinha da "Destruição Mútua Assegurada", mas da cooperação. Este ativismo culminou mais tarde na criação da Ele defendeu incansavelmente a redução dos arsenais nucleares, argumentando que a verdadeira segurança não vinha da "Destruição Mútua Assegurada", mas da cooperação. Este ativismo culminou mais tarde na criação da Nuclear Threat Initiative (NTI), que trabalha para reduzir os riscos de armas de destruição maciça.
Ele encarava a Guerra Fria não apenas como uma luta política, mas como uma ameaça existencial para o planeta. Ao defender o desarmamento nuclear e ao fomentar a compreensão mútua através do desporto e dos media, ajudou a criar a atmosfera psicológica necessária para que o conflito terminasse sem que um único tiro fosse disparado entre as duas superpotências. O seu legado permanece como um testemunho da ideia de que a segurança global é melhor alcançada através do diálogo e da humanidade partilhada.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A advertência subtil, mas marcante, do rei Carlos III à América


Monarca britânico discursou perante o Congresso norte-americano, numa abordagem direta e contundente, suavizada pelo profundo respeito pelos anfitriões e pelas relações históricas entre os dois países

Numa nova era de revolta, foi preciso um rei para lembrar à América os seus valores republicanos: o Estado de direito, a democracia e o poder do seu exemplo internacional.

O rei Carlos III escolhe as suas palavras com precisão - tal como fazia a sua falecida mãe, a rainha Isabel II. O significado real tem frequentemente de ser inferido.

Mas, para os padrões reais, o seu discurso numa sessão conjunta do Congresso na terça-feira foi surpreendentemente direto.

Carlos não repreendeu nem criticou a administração Trump. Mas o monarca desaprovou implicitamente a atual direção política dos Estados Unidos e defendeu os pilares da democracia ocidental: freios e contrapesos internos, alianças e tolerância inter-religiosa.

Carlos apelou ainda à defesa firme da Ucrânia. E a “natureza”, disse ele, deve ser protegida, num apelo velado para combater as alterações climáticas, que o presidente Donald Trump chamou de “burla”.

E o rei salientou que os amigos podem discordar sem romper laços eternos, uma referência velada à “relação especial”, que tem sido abalada pela recusa do Reino Unido em aderir à guerra contra o Irão.

“As palavras da América têm peso e significado, tal como têm desde a independência”, disse Carlos, no hemiciclo da Câmara dos Representantes. “As ações desta grande nação importam ainda mais”.

A versão do rei sobre os valores dos Estados Unidos provavelmente agradou mais aos democratas “No Kings” do que ao vice-presidente JD Vance, que tem opiniões sobre o declínio civilizacional do Reino Unido e da Europa e que se sentou atrás dele na Câmara dos Representantes.

Mas Carlos amenizou a sua crítica demonstrando profundo respeito pelos anfitriões. Citou Trump, afirmando que o “laço de parentesco” entre os EUA e o Reino Unido é “inestimável e eterno”. E o seu discurso esteve repleto de elogios às conquistas históricas americanas.

E os pontos mais contundentes foram suavizados pela pompa coreografada de uma visita de Estado que retribui uma viagem de Trump no ano passado. Parafraseando o presidente Theodore Roosevelt, o rei falava suavemente enquanto empunhava um grande cetro.

O presidente não mostrou sinais de se sentir ofendido pelas observações de Carlos III. Donald Trump orgulha-se das suas relações pessoais com os líderes mais famosos do mundo. O rei também condenou por duas vezes a alegada tentativa frustrada de assassinato contra o presidente numa gala para a imprensa no sábado.

“The Firm”, como a família real é frequentemente conhecida, já passou por tudo isto antes. O rei Carlos III mencionou, num raro jantar de Estado de gala na Casa Branca na terça-feira à noite, que a sua mãe tinha vindo a Washington em 1957 para reparar as divisões entre os EUA e o Reino Unido provocadas pela crise de Suez.

“É difícil imaginar algo assim a acontecer hoje, mas não é difícil ver como a relação continua a ser importante, em assuntos visíveis e invisíveis”, disse o rei.

E Carlos III ofereceu ao presidente um presente único - o sino original da torre de comando do HMS Trump, um submarino da Marinha Real que esteve em serviço no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

“Se alguma vez precisar de nos contactar, basta dar-nos um toque!”, afirmou Carlos.

Esta forma cerimonial de abordar as divisões ideológicas de uma forma não ideológica destacou um paradoxo: os monarcas britânicos estão vinculados por convenção constitucional a serem apolíticos, mas a sua contenção confere-lhes um enorme poder simbólico quando optam, com moderação, pelo contrário.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Nestes tempos de belicismo relembro esta canção "Masters of War", magnificamente cantada por Eddie Vedder, durante o Concerto de Aniversário dos 30 anos de carreira de Bob Dylan (1992)


Letra
Come you masters of war
You that build all the guns
You that build the death planes
You that build the big bombs
You that hide behind walls
You that hide behind desks
I just want you to know
I can see through your masks

You that never done nothin’
But build to destroy
You play with my world
Like it’s your little toy
You put a gun in my hand
And you hide from my eyes
And you turn and run farther
When the fast bullets fly

Like Judas of old
You lie and deceive
A world war can be won
You want me to believe
But I see through your eyes
And I see through your brain
Like I see through the water
That runs down my drain

You fasten the triggers
For the others to fire
Then you set back and watch
When the death count gets higher
You hide in your mansion
As young people’s blood
Flows out of their bodies
And is buried in the mud

You’ve thrown the worst fear
That can ever be hurled
Fear to bring children
Into the world
For threatening my baby
Unborn and unnamed
You ain’t worth the blood
That runs in your veins

How much do I know
To talk out of turn
You might say that I’m young
You might say I’m unlearned
But there’s one thing I know
Though I’m younger than you
Even Jesus would never
Forgive what you do

Let me ask you one question
Is your money that good
Will it buy you forgiveness
Do you think that it could
I think you will find
When your death takes its toll
All the money you made
Will never buy back your soul

And I hope that you die
And your death’ll come soon
I will follow your casket
In the pale afternoon
And I’ll watch while you’re lowered
Down to your deathbed
And I’ll stand o’er your grave
’Til I’m sure that you’re dead 
Bod Dylan, 1963

"Masters of War" é, sem dúvida, uma das composições mais viscerais de Bob Dylan, funcionando como um manifesto implacável contra aqueles que lucram com a destruição alheia. Escrita num contexto de profunda ansiedade devido à Guerra Fria e à crescente intervenção militar, a canção distingue-se por não recorrer às habituais metáforas abstratas de Dylan; em vez disso, utiliza uma linguagem direta e gélida para confrontar o complexo industrial-militar. O foco da crítica não são os soldados que combatem no terreno, mas sim os estrategas e fabricantes de armas que, protegidos pelo conforto das suas secretárias e pelas paredes de vidro dos seus escritórios, enviam os jovens para a morte como se fossem meras peças num tabuleiro de xadrez.

Ao longo da letra, Dylan expõe a cobardia inerente a este sistema, acusando os "mestres" de se esconderem enquanto o mundo arde. A utilização de referências bíblicas, como a comparação a Judas, eleva a crítica de um plano meramente político para um plano moral e espiritual. Para Dylan, estas figuras não cometem apenas erros estratégicos; elas cometem um pecado imperdoável contra a própria humanidade ao colocarem o lucro acima da vida e ao brincarem com a ameaça do aniquilamento nuclear como se o mundo fosse um brinquedo descartável.

O que verdadeiramente distingue esta obra de outras canções de protesto da década de 60 é a sua conclusão sombria e desprovida de qualquer otimismo pacificador. Dylan não pede paz ou diálogo; ele expressa um desejo de justiça absoluta e final. Ao declarar que espera seguir estes homens até ao seu túmulo e que se manterá de pé sobre a sua cova até confirmar que partiram definitivamente, o músico canaliza uma fúria profética que reflete o desespero de uma geração que se sentia traída pelos seus líderes. É uma peça de uma agressividade rara, onde o autor despe a diplomacia para revelar a podridão de um sistema que vicia o baralho da existência humana.

Página Oficial do Concerto aqui e aqui

Concerto completo aqui

sábado, 7 de março de 2026

Buffy Sainte-Marie: Universal Soldier


Canção e letra Buffy Sainte-Marie, no início dos anos 60. Buffy é uma excelente activista, com um passado atribulado. Porém foi declarada "Falsa Indígena"  

He's five feet two and he's six feet four
He fights with missiles and with spears
He's all of 31 and he's only 17
He's been a soldier for a thousand years

He's a Catholic, a Hindu, an atheist, a Jain,
a Buddhist and a Baptist and a Jew
and he knows he shouldn't kill 
and he knows he always will
kill you for me my friend and me for you

And he's fighting for Canada, 
he's fighting for France,
he's fighting for the USA,
and he's fighting for the Russians 
and he's fighting for Japan, 
and he thinks we'll put an end to war this way

And he's fighting for Democracy
and fighting for the Reds
He says it's for the peace of all
He's the one who must decide 
who's to live and who's to die
and he never sees the writing on the walls

But without him how would Hitler have 
condemned him at Dachau
Without him Caesar would have stood alone
He's the one who gives his body 
as a weapon to a war
and without him all this killing can't go on

He's the universal soldier and he 
really is to blame
His orders come from far away no more
They come from him, and you, and me
and brothers can't you see
this is not the way we put an end to war

"Universal Soldier" é uma canção escrita e gravada pela cantora e compositora canadiana Buffy Sainte-Marie. A canção foi originalmente lançada no álbum de estreia de Sainte-Marie, It's My Way!, em 1964. "Universal Soldier" não foi um sucesso popular imediato na altura do seu lançamento, mas chamou a atenção da comunidade da música folk contemporânea. Tornou-se um sucesso um ano depois, quando Donovan a regravou, assim como Glen Campbell. Sainte-Marie disse sobre a canção: "Escrevi 'Universal Soldier' ​​na cave do café The Purple Onion em Toronto, no início dos anos sessenta. É sobre a responsabilidade individual pela guerra e como o velho pensamento feudal nos mata a todos."
Em 1965, a canção chamou a atenção do aspirante a cantor folk Donovan, que a gravou usando um arranjo semelhante ao da gravação original de Buffy Sainte-Marie. Na versão de Donovan, Dachau tornou-se Liebau (Lubawka, Polónia), um centro de treino para a Juventude Hitleriana. A gravação de Donovan foi lançada num EP intitulado The Universal Soldier no Reino Unido (15 de agosto de 1965). O EP deu continuidade à sequência de lançamentos de Donovan com posições elevadas nas tabelas do Reino Unido, alcançando o 5º lugar. As faixas do EP são "Universal Soldier"; "The Ballad of a Crystal Man" com "Do You Hear Me Now?" (Bert Jansch); "The War Drags On" (Mick Softley).
A falta de interesse pelo formato EP nos Estados Unidos levou a Hickory Records a lançar a canção como single em setembro de 1965. A versão de Donovan de "Universal Soldier" teve como lado B outra faixa do EP britânico: "Do You Hear Me Now?" de Bert Jansch. O lançamento de "Universal Soldier" por Donovan nos EUA também se tornou um sucesso, alcançando uma posição superior nas tabelas do que o seu single anterior, "Colours", e chegando finalmente ao 53º lugar da tabela da Billboard. Este sucesso levou a Hickory Records a incluir a canção no lançamento nos Estados Unidos do segundo álbum de Donovan, Fairytale, substituindo uma versão de "Oh Deed I Do", de Bert Jansch. A Cash Box descreveu-a como "uma canção plangente, com um toque country, de ritmo moderado e que assume uma forte posição contra a guerra".
Saint-Marie ficou feliz por o sucesso de Donovan com esta música ter feito com que mais pessoas a ouvissem.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A verdadeira história da canção "Heroes" de Bowie e a interpretação de KinGeorg and Apoptygma Berzerk - Helter (David Bowie cover)


Helter significa Heróis em Norueguês 

Para escutar os 3 temas do álbum aqui

A canção Heroes foi escrita a dois, David Bowie e Brian Eno e originalmente cantada por David Bowie.

"Heroes": O Triunfo do efémero e a resistência do instante
A canção  foi escrita em 1977, durante o período em que Bowie vivia em Berlim Ocidental, imerso no que viria a ser conhecido como a sua “trilogia de Berlim” — Low, Heroes e Lodger — ao lado de Brian Eno e do produtor Tony Visconti. A cidade não era apenas o cenário: era o conceito. Dividida por um muro, carregada de tensão política, ideológica e emocional, Berlim oferecia a Bowie algo que ele procurava naquele momento da vida: distância do caos de Los Angeles, onde o vício em cocaína e o isolamento criativo quase o destruíram, e uma paisagem urbana que refletia a sua própria fragmentação interna.

O beijo sob o olhar da Stasi
A história por trás da canção é conhecida, mas nunca banal. Bowie escreveu “Heroes” inspirado num episódio real: ao observar pela janela do estúdio Hansa, localizado a poucos metros do Muro de Berlim, viu Tony Visconti a beijar uma mulher junto à barreira que separava o Leste do Oeste. A mulher era Antonia Maass, corista do álbum e, à época, envolvida com Visconti, apesar de ambos terem outros relacionamentos. O gesto, simples e arriscado, transformou-se no núcleo emocional da música. Não se tratava de amantes a desafiar apenas uma circunstância pessoal, mas de um ato de intimidade num dos espaços mais vigiados e simbólicos do planeta.

Engenharia de som como dramaturgia
Musicalmente, “Heroes” também nasce de uma experiência. Brian Eno construiu a paisagem sonora com sintetizadores e tratamentos electrónicos que expandiam a ambição do rock para além da sua forma tradicional. Visconti criou um sistema de microfones posicionados a diferentes distâncias da voz de Bowie, que se abriam progressivamente à medida que ele cantava mais alto, captando não apenas a performance, mas a própria arquitetura do estúdio.

O resultado é uma interpretação que cresce em intensidade, como se a canção literalmente ganhasse espaço físico à medida que Bowie se aproxima do clímax. É a técnica ao serviço da emoção.

A recusa do heroísmo grandioso
A letra, por sua vez, é deliberadamente simples. “We can be heroes, just for one day.” Não há promessa de eternidade, glória ou redenção total. Há apenas um instante. Um dia. Um gesto. Bowie nunca romantiza a vitória definitiva; ele oferece resistência temporária. E é exatamente essa recusa do heroísmo grandioso que torna a música tão poderosa. Num mundo de muros — físicos, políticos, afetivos —, ser herói por um dia já é um ato de coragem.

Do insucesso ao estatuto de Hino
Quando lançada, “Heroes” não foi um sucesso imediato nas tabelas de vendas. Alcançou posições modestas no Reino Unido e passou quase despercebida nos Estados Unidos. A crítica, entretanto, reconheceu desde cedo a sua singularidade, e a música começou a construir a sua reputação não pelo consumo rápido, mas pela sedimentação cultural. Com o tempo, tornou-se uma das faixas mais emblemáticas da carreira de Bowie, ao lado de “Space Oddity”, “Life on Mars?”, “Let’s Dance” e “Changes” — o quinteto que hoje define o coração do seu legado. 

Em 6 de junho de 1987, Bowie tocou "Heroes" no Reichstag, em Berlim Ocidental, o que foi considerado um catalisador para a queda do Muro.
 
Porquê agora?
Nada disto, porém, explica sozinho por que motivo “Heroes” ressoa tanto agora. Talvez porque vivamos novamente num mundo de muros, não apenas geopolíticos, mas simbólicos: polarização, guerras culturais, ansiedade coletiva, isolamento tecnológico. . Talvez porque, em tempos de exaustão moral, a ideia de um heroísmo possível, ainda que breve, soe mais honesta do que qualquer promessa de redenção total. “Heroes” não diz que o amor vence tudo. Diz que ele pode, por um instante, desafiar o impossível. E isso, para quem vive em 2026, não é pouco.

Um legado em datas
Após a morte de Bowie, em janeiro de 2016, o governo alemão agradeceu o músico por "ajudar a derrubar o Muro", acrescentando que "você está entre os Heróis"

Em 8 de janeiro de 2026, “Heroes” completou 49 anos desde o seu lançamento. Dois dias depois, a 10 de janeiro, assinalaram-se dez anos da morte de David Bowie. A coincidência de datas não é apenas cronológica; é simbólica. Bowie construiu uma carreira inteira baseada na transformação e na coragem de se reinventar.

Hoje, a canção é mais do que um clássico; é a prova de que, num tempo em que ser herói parece exigir façanhas impossíveis, às vezes tudo o que temos é um dia. Um gesto. Um beijo à beira de um muro. E, ainda assim, isso basta para mudar tudo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Documentário: The Tube (1984)


Em março de 1984, a jornalista musical britânica Muriel Gray visitou Berlim Ocidental para filmar um segmento para o programa musical pioneiro do Reino Unido, The Tube (ITV), guiada pelo músico britânico expatriado e representante da Factory Records, Mark Reeder.

O conteúdo: as filmagens documentaram a vibrante, isolada e caótica subcultura da Berlim Ocidental da Guerra Fria, apresentando entrevistas e cenas da cena musical alternativa, incluindo artistas como Blixa Bargeld.
O contexto: Esta viagem fez parte de um esforço mais amplo e de longo prazo de Reeder para documentar a "cidade-ilha" no início da década de 1980. Imagens dessa época, incluindo a visita de 1984, foram posteriormente incorporadas no documentário de 2015, B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989.
Atividade de 1984: por volta desta altura, Reeder estava a transformar a sua banda pós-punk Die Unbekannten (com Alistair Gray) no projeto Shark Vegas, de sonoridade mais eletrónica, pouco antes da digressão com os New Order.

Saber mais:
Iconic Underground
New Statesment
Post Punk

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Mudar regimes tem sido uma aposta arriscada para os EUA


A posição dos EUA que levou à Guerra do Iraque ameaça agora criar problemas sérios na Venezuela.

Os Estados Unidos são o país que mais intervenções externas liderou para impor mudanças de regime. Calcula-se que tenham derrubado 35 governos estrangeiros nos últimos 120 anos. Este recorde assenta numa combinação perigosa de forte poder militar e um grande número de actores considerados inimigos — além de uma excessiva autoconfiança que se tem revelado sistematicamente errada.

Ninguém se tem mostrado mais tentado a recorrer às forças armadas e à economia mais fortes do mundo para vencer discussões, conquistar territórios, derrotar adversários e intimidar aliados do que Donald Trump. Neste momento, Washington tem em curso uma campanha militar e dos serviços secretos cada vez mais intensa contra o presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, depois de já ter atacado o Irão e o Iémen e de ter ameaçado, de forma mais vaga, a Nigéria, o México, o Panamá e mesmo a Dinamarca e o Canadá.

O derrube de líderes de outros países é uma tática suficientemente frequente para ter direito a uma sigla específica entre os académicos: FIRC, ou foreign-imposed regime change (mudança de regime imposta pelo estrangeiro).

De acordo com um levantamento realizado por Alexander Downes, professor associado e cientista político da Universidade George Washington e autor do livro Catastrophic Success: Why Foreign-Imposed Regime Change Goes Wrong (Sucesso Catastrófico: Porque Falham as Mudanças de Regime Impostas pelo Estrangeiro), entre 1816 e 2011, os Estados Unidos foram responsáveis por cerca de um terço das 120 destituições forçadas de líderes por uma intervenção externa em todo o mundo.

As mudanças de regime e outras intervenções violentas raramente correm de acordo com os planos. Pela sua parte, algumas das ameaças agora lançadas por Trump — como entrar «aos tiros» na Nigéria, onde há grupos extremistas armados e fortes conflitos étnicos e sectários — têm tudo para correr muito mal. Os fracassos do passado deveriam servir para recordar os americanos de que a arrogância pode ter consequências catastróficas, seja para os indivíduos, seja para os Estados.

Veja-se o caso da mudança de regime estrangeiro n.º 34, imposta pelos EUA ao Iraque, cujo resultado eu pude testemunhar numa série de patrulhas militares que acompanhei como repórter em Bagdad, em maio de 2006.

Três anos depois de os Estados Unidos terem derrubado Saddam Hussein com base em alegações falsas sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, não havia sinais da vaga de democratização que a equipa do presidente George W. Bush vaticinara para o Médio Oriente. Pelo contrário, quando as acompanhei, as patrulhas da 10.ª Divisão de Montanha tinham-se convertido num serviço de remoção de cadáveres. Todas as noites, recolhiam e transportavam os cadáveres de iraquianos que outros iraquianos deixavam abandonados nas ruas e nas calçadas de Bagdad.

Os mortos, na sua maioria jovens, alguns com as mãos estendidas no ar em choque ou amarradas atrás das costas pelos seus assassinos, foram vítimas de uma guerra civil sectária que a administração Bush não antecipou. Derrubar o governo sunita de Saddam e as suas forças de segurança foi uma tarefa fácil para as Forças Armadas dos EUA. Não se pode dizer o mesmo relativamente à luta pelo poder entre as milícias xiitas iraquianas, apoiadas pelo Irão, e os grupos revoltosos sunitas, nascidos do vazio de segurança que se seguiu à intervenção norte-americana. O desenrolar dos acontecimentos acabou por deixar o Irão mais forte, além de ter criado as condições para o surgimento do Estado Islâmico enquanto ameaça global. Há tropas americanas na região até hoje.

Muito tempo depois de as forças americanas terem expulsado Saddam, os cidadãos iraquianos ainda sentiam na pele as consequências dessa intervenção. Todos os dias, enfrentavam sequestros, torturas e assassínios, carros armadilhados, bombas suicidas, entre outros ataques.

Certa noite, em Bagdad, as tropas americanas foram atingidas por uma bomba de fabrico artesanal. A explosão deixou alguns dos jovens soldados a coxear ou atordoados. Já um motorista iraquiano que circulava ali perto foi atingido na cabeça e morreu.

Naquela noite, Will Shields, o segundo-tenente de 23 anos que liderava a patrulha, dirigira-se a um posto da polícia de Bagdad — uma das forças de segurança controladas pelos xiitas que os Estados Unidos tinham criado para impor a ordem no Iraque. Entre exortações e negociações, Shields incitou os polícias xiitas assustados a saírem dos seus gabinetes para, sob a proteção americana, ajudarem a patrulha dos EUA a recolher os corpos daquela noite durante o tempo que fosse necessário.

«Vocês têm noção de que é o vosso trabalho?», perguntou o frustrado tenente norte-americano à polícia iraquiana naquela noite. «Como é que podem esperar que os americanos façam alguma coisa, se vocês não fazem nada?»

A dimensão dos assassínios com motivações sectárias impediu que fossem atribuídos nomes e histórias de vida aos mortos iraquianos, reduzindo-os a uma sucessão de ferimentos, registados pelos soldados enquanto atiravam os corpos para dentro dos veículos de caixa aberta.

O caso da Venezuela representa o regresso a uma longa tradição de interferência dos EUA na América Latina. Segundo a investigação de Downes, cerca de 20 das 35 mudanças de regime apoiadas pelos EUA ocorreram na América Central, na América do Sul ou nas Caraíbas.

Em alguns desses países, os governantes foram sucessivamente afastados e substituídos pelos Estados Unidos, numa cadência digna de quem sacode uma máquina de venda automática para que caia o chocolate certo. Só em 1954, por exemplo, Washington D.C. destituiu três líderes guatemaltecos.

A nível mundial, um terço de todas as quedas forçadas de regime resultaram, nos dez anos seguintes, em guerras civis no país intervencionado, concluiu Downes.

Um caminho frequente rumo ao desastre é o que se verifica quando os regimes entram em colapso total, deixando as forças de segurança armadas, insatisfeitas e desnorteadas. Outro rumo desastroso frequente é quando as potências estrangeiras colocam no poder um novo líder, o qual é obrigado a uma tremenda ginástica para ir ao encontro de prioridades diversas do seu povo e da potência estrangeira que o colocou no poder.

«O grande problema das mudanças forçadas de regime é a tendência para não se pensar no que vem depois, não se saber qual é o plano para o futuro», afirmou Downes. «E é incrível a frequência com que isso acontece», acrescentou. «Os países continuam a interferir e, das duas, uma, ou não pensam no que vai acontecer a seguir ou acreditam... que as coisas vão ser diferentes naquele caso.»

Trump optou por recorrer a meios militares e à CIA, seja para assustar Maduro levando-o a abandonar o poder, seja para forçar a sua saída de cena.

De acordo com as estatísticas, as mudanças forçadas de regime têm mais hipóteses de conseguir levar a uma democracia consolidada se ocorrerem em países com prévia experiência democrática, que sejam economicamente prósperos e tenham uma população relativamente homogénea, como o Japão ou a Alemanha no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, concluíram Downes e os seus colegas de investigação.

Quando esses critérios não se verificam, surgem situações como o regresso ao poder dos talibãs no Afeganistão ou a ascensão da República Islâmica depois de os Estados Unidos e o Reino Unido terem ajudado o xá do Irão, afastando o seu adversário político. Após duas décadas de assassínios e rebeliões, o Iraque alcançou um certo grau de estabilidade, mas o custo de todo o processo assustou os restantes países da região, tornando-os ainda mais relutantes em relação a eventuais experiências democráticas. Alguns especialistas veem com alarme qualquer tentativa de impor uma mudança de regime na Venezuela, um país produtor de petróleo onde a má governação do autocrata socialista Maduro e do seu antecessor Hugo Chávez, agravada pelas sanções internacionais, destruíram a economia e criaram milhões de refugiados.

A administração Trump acusou Maduro de ligação ao tráfico de droga, mas os Estados Unidos exageram o papel da Venezuela no contrabando de droga para os Estados Unidos. Para reforçar a presença militar, Washington enviou o seu maior porta-aviões para a região. Dezenas de pessoas foram mortas em ataques norte-americanos contra lanchas que, segundo os Estados Unidos, mas sem que tenham sido apresentadas provas, transportavam droga.

A administração Trump tem sido vaga quanto às intenções dos EUA, nomeadamente se pretendem usar a força para expulsar Maduro (que manipulou as eleições para se manter no poder), ou se, com as suas ações militares — como os ataques aéreos —, visam encorajar os venezuelanos a tratarem eles mesmos do assunto.

A estratégia mais pacífica que caracterizou o primeiro mandato de Trump — com imposição de sanções financeiras para aumentar a pressão sobre Maduro e a proposta de um acordo de partilha de poder para facilitar a sua saída — não serviu, ao contrário do que se esperava, para capacitar a oposição venezuelana. Neste novo mandato, Trump optou por recorrer a meios militares e à CIA, seja para assustar Maduro, levando-o a abandonar o poder, seja mesmo para o forçar a sair de cena.

Os opositores de Maduro consideram que a Venezuela tem um governo eleito, liderado pelo candidato da oposição, que para os EUA e outros países, é o vencedor das presidenciais de 2024

«Já vimos este filme antes», declarou Jacqueline Hazelton, especialista no tema do impacto político do poder militar e anteriormente professora do Naval War College, hoje editora da revista International Security, segundo a qual este tipo de intervenções costuma desencadear o choque violento entre fações.

A Venezuela tem uma oposição democrática forte e motivada, liderada por Maria Corina Machado, galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 2025. Porém, Maduro dispôs de vários anos para reforçar e diversificar o seu domínio sobre as instituições do país. Corina Machado não tem capacidade para quebrar esse domínio e reprimir adversários, disse ainda Hazelton.

Como argumento em prol de uma intervenção dos EUA na Venezuela, os seus defensores invocaram a 31.ª mudança forçada de regime liderada pelos EUA, ocorrida no Panamá em 1990, em que o governo militar foi substituído por um governo democrático.

O Panamá, no entanto, é um país muito mais pequeno do que a Venezuela, quer em território, quer em população, e estava aí baseado um contingente militar dos EUA, o que não acontece na Venezuela, observou Downes.

Os defensores da intervenção dos EUA na Venezuela têm-se esforçado por responder a quaisquer dúvidas sobre esta opção. Ao ponto de um escritor da oposição venezuelana, defensor da intervenção dos EUA, ter rejeitado que seja apropriado usar a expressão «mudança de regime», no caso do seu país.

Maduro chefia uma rede criminosa de tráfico de drogas, por isso não se trata de derrubar um governo legítimo, disse-me Walter Molina, que fugiu da Venezuela de Maduro e vive agora em Buenos Aires. Molina e outros opositores ao regime consideram que a Venezuela tem um governo eleito, liderado pelo candidato da oposição, o qual, segundo os Estados Unidos e outros países, venceu as eleições presidenciais de 2024, mas que foi posto de lado por Maduro, e que aguarda as condições para regressar.

Qualquer intervenção dos EUA servirá «para respeitar a vontade do povo venezuelano», declarou Molina.

Até pode ser verdade — talvez a conjugação entre o desagrado interno face à má governação de Maduro e uma intervenção forte do exterior sejam suficientes para derrubar um autocrata e instaurar a democracia. A incerteza, contudo, é suficiente para justificar cautela. O mundo, aliás, já assistiu mais vezes a este tipo de abordagem, como quando Dick Cheney, então vice-presidente dos EUA, declarou que as forças armadas norte-americanas seriam «recebidas como forças de libertação» no Iraque.

Sobre a imposição de mudanças de regime em países terceiros, Downes comentou: «É tentador simplesmente avançar, dizendo: “Bem, aconteça o que acontecer, não pode ser pior do que está”. Só que isso por vezes não é verdade.»

sábado, 8 de novembro de 2025

Filme Kiss Them For Me (1957) e a sua influência no rock gótico


Durante a Segunda Guerra Mundial, três marinheiros param em São Francisco durante uma folga de quatro dias. Com uma festa programada, a tripulação encanta-se pelas garotas locais, enquanto o comandante tenta manter todos na linha. [mais info aqui]

A canção “Kiss Them for Me”, da banda Siouxsie and the Banshees, lançada em 1991 no álbum Superstition, tem um significado interessante e multifacetado — misturando homenagem, crítica e atmosfera sensual.

1. Homenagem a Jayne Mansfield
A música é, sobretudo, uma homenagem à atriz Jayne Mansfield, símbolo sexual de Hollywood nos anos 1950 e 1960.

O título “Kiss Them for Me” é tirado de um filme de 1957 com Cary Grant e a própria Mansfield.

A letra faz várias alusões à sua vida glamorosa, trágica e exagerada — com referências a festas, luxo e sensualidade (“glitter’s on the floor”, “it’s a glamourous life”).

Também evoca a tragédia do seu acidente fatal em 1967, que marcou o fim do mito de Mansfield.

2. Crítica ao glamour e à superficialidade
Por baixo da homenagem há uma ironia subtil: Siouxsie Sioux mistura o fascínio e o perigo do culto à celebridade.

As imagens brilhantes da letra contrastam com a melancolia da voz e o ritmo hipnótico.

A canção questiona o preço do glamour — um mundo onde “beleza” e “tragédia” se confundem.

3. Sensualidade e exotismo
Musicalmente, é uma das faixas mais sensuais dos Banshees.

Tem influências indianas, com instrumentos e batidas eletrónicas suaves.

O som reflete a ideia de “encantamento” e “máscara”, reforçando o tema de aparência versus essência.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Encontros improváveis: João Soares e John Harrigan

“Happiness held is the seed; Happiness shared is the flower.”– John Harrigan

Biografia 
1. Carreira militar e diplomática
Serviu como soldado na Alemanha durante a Guerra Fria e, posteriormente, como oficial do Serviço Externo dos EUA, com atuação na América Latina 

2. Académico e professor
Foi professor de Ciência Política na Hamline University (St. Paul, Minnesota), onde também lecionou cursos sobre política e ficção. Fez parte do corpo docente por muitos anos antes de se aposentar 

3. Formação académica
Graduou-se em Ciência Política pela Loyola University Chicago, com pós-graduação pela University of Chicago e Ph.D. pela Georgetown University 

4. Vida atual
Mora perto do rio St. Croix, no estado de Minnesota, onde escreve romances de ficção histórica. É casado com Sandy

Fontes
  1. Perfil no Facebook 
  2. Author Magazine
  3. O livro mais conhecido e citado: The Patron Saint of Desperate Situations

domingo, 29 de junho de 2025

Europe’s Security Gamble: NATO’s New Budget Push


Across Europe, budgets are tightening, classrooms are overcrowded, hospitals are understaffed, and climate targets are slipping out of reach. Yet, in the midst of this so-called austerity, NATO countries are preparing to commit to something extraordinary: raising military spending to 5% of GDP. At a time when governments claim there’s “no money” for essential services, this massive shift demands scrutiny. Who benefits from this build-up? What are we sacrificing to fund it? And most importantly, is this really what security looks like in the 21st century?

Can NATO’s military build-up coexist with Europe’s climate and peace goals?
The world seems to be becoming a less safe place. According to the 2024 Global Peace Index, the world is now witnessing the highest number of armed conflicts since World War II. Regardless of the origins of the conflicts or the actors involved, the outcomes are often very similar: significant civilian casualties, large-scale displacement, and systematic violations of human rights and international humanitarian law. Just in the past year, 160,000 people died in conflict, with Ukraine accounting for 83,000 deaths and Palestine for at least 33,000 as of April 2024.

Faced with this grim reality, governments are ramping up military budgets. In 2024, global military spending surged to a record-breaking $2.7 trillion, the sharpest increase since the end of the Cold War and the tenth consecutive year of rising expenditures. European countries, particularly NATO members, are following this trend. Over the past decade, defence spending by EU NATO member states rose by 45%, from €145 billion in 2014 to an estimated €326 billion in 2024. That is about 1.9% of EU GDP, edging closer to NATO’s current 2% target, and equivalent to the entire annual GDP of several EU member states such as Finland, Portugal, or the Czech Republic.

But here’s the rub: this rapid increase is happening even as public finances are under increasing pressure. Overall, government spending in NATO EU countries grew by just 20% in real terms over the past decade, while defence budgets jumped by more than double that. Spending on health grew 34%, education just 12%, and environmental protection 10%. This highlights a growing imbalance of EU priorities.

A big chunk of this money is going straight into arms and military equipment. In 2024, EU NATO spent €90bn on military hardware, a staggering 50% increase over 2023, accounting for nearly 90% of all defence investments. But does buying more arms make us safer? That depends on what we’re buying, why, who benefits, and what kind of “security” we want. At the same time, the freshly reformed EU fiscal rules have been suspended to allow an increase in military spending, without any changes to the need to generally reduce budgets, meaning austerity still applies.

At NATO’s upcoming summit in The Hague on 24 June, there is momentum to raise the alliance’s defence spending target from 2% to an alarming 5% of GDP. This article does not aim to argue whether military defence is needed. But it encourages us to ask, how much is too much? Who’s profiting? And what does this mean for Europe’s democratic and social fabric? Because a jump to 5% won’t just tweak budgets – it will transform priorities for decades to come. This is not a technical or isolated defence issue. As budgets are redirected toward weapons and away from healthcare, education, housing, nature protection, and green transitions, we must ask: What kind of Europe are we building? If civil society does not pose the right questions, this decision risks being made behind closed doors, without a clear democratic mandate or transparent debate.

What kind of security are we talking about?
Europe needs to be able to defend itself, but one key piece is missing: a serious, independent assessment of what Europe needs to do so. Peace researchers Herbert Wulf and Christopher Steinmetz, in a report commissioned by Greenpeace, found that even without the U.S., NATO Europe far surpasses Russia in nearly all key military parameters. The idea that we are dramatically underprepared is not supported by the data. So, why the rush to build up? What threats are driving this? Are we confronting non-military threats like cyber-attacks, disinformation, or economic coercion with the same urgency as discussions around “air and missile defence” or “long-range weapons, logistics, and large land manoeuvre formations” as suggested by NATO Secretary General Mark Rutte?

Framing defence needs as a percentage of GDP doesn’t help; it’s arbitrary. The proposed 5% defence target is not based on a transparent, evidence-based assessment of actual security needs. Using a percentage of GDP doesn’t reflect either the actual capabilities or military efficiency, nor differences in country size or economic performance, and non-military security needs (e.g., climate, energy, cyber resilience). It’s also proposed without public debate on the consequences for health, education, climate, or social spending.

In short, basing policy on a percentage of GDP distracts from the real work of defining what “security” means and how to achieve it holistically.

Who is benefiting from the increase in military spending?
Follow the money, and another pattern emerges: Europe isn’t just spending more – it’s spending outward. Nearly 80% of European defence procurement is imported, mostly from the United States. So, are our investments really strengthening European security and resilience, or simply boosting American military firms? And what happens when those suppliers are tied to fossil fuel lobbies, political instability, or unpredictable presidents? Let’s not forget: the U.S. military industry played a key role in Trump’s last campaign and could again. By feeding this system, are we fuelling the very instability we claim to resist?

Meanwhile, public money flows steadily into the hands of military shareholders. Where do we draw the line? What becomes of budgets meant for healthcare, education, childcare, housing, nature protection and the climate? If we see direct transfers from public pockets to company shareholders as part of the industrial-military complex, would the wealthiest rentiers not again reap profits at the expense of taxpayers? When arms companies and investment funds profit from conflict, how do we safeguard democratic oversight? Should we revisit, if not reverse, the privatisation of military industries to preempt a situation where profits depend on global unrest?

This is more than just a budget issue. It’s a structural shift that could weaken democracy, deepen inequality, and make conflict more profitable than peace.

How beneficial is militarisation for economic performance and jobs?
Not in the way some claim. Military spending may look like an economic stimulus, but evidence shows otherwise. Military expenditure often has a smaller multiplier effect compared to green and social investments. It creates fewer jobs per euro spent than health, education, or green investment. That’s because defence projects are capital-intensive, dominated by a handful of companies, and often happen outside the EU.

Compare that to investments in energy efficiency, renewables, public transport, care work, or nature restoration, which generate more employment, faster returns, and healthier communities. At a time of fiscal constraint, prioritising defence risks crowding out essential public services, deepening social inequalities, and weakening economic resilience.

And what about the climate and the environment?
Militarisation comes with a hefty environmental price tag, long before war ever breaks out. Military forces are among the world’s biggest energy users. Building and maintaining military forces consume large amounts of fossil fuels, critical minerals, and water, which places a strain on ecosystems and contributes to global emissions. Control over such materials has become a strategic priority, influencing geopolitical decisions in regions like Ukraine and the DRC. Day-to-day military readiness requires constant training, and training means consuming resources and energy, notably oil, with low levels of energy efficiency.

The global military carbon footprint is estimated at 5.5% of all greenhouse gas emissions, yet it’s mostly invisible in climate accounting frameworks. That means countries can meet climate targets on paper while quietly ramping up emissions through their armies.

There’s also the question of land. Militaries also occupy vast land and sea areas, up to 6% of the planet’s surface, including ecologically sensitive zones. Some areas may be shielded by restricted access, but many suffer heavy degradation from training, testing, and infrastructure. Pollution, habitat loss, and contamination are all common issues, with little to no public accountability.

This raises a fundamental issue: what if military “readiness” is undermining planetary stability, the very foundation of long-term peace?
A turning point

We are living through uncertain, volatile times. The threats are real, but so are the choices.

We can choose to define security broadly, not just as the absence of war but as the presence of care, fairness, resilience, and sustainability. We can build safety from the ground up — with strong communities, thriving nature, and just economies.

Or we can double down on outdated models of defence, lock in spending that benefits the few, and lose sight of the Europe we claim to defend. Civil society must not shy away from this debate.

Because in the end, security isn’t just about protecting borders; it’s about protecting what matters most.

domingo, 2 de março de 2025

Mikhail Gorbatchev



A marca avermelhada na testa acompanhou-o desde o nascimento até à morte e tornou-se um dos rostos mais reconhecíveis do século XX. Para alguns, um acaso biológico; para outros, um sinal quase mítico. Mikhail Gorbatchev (1931 – 2022) nasceu numa aldeia perdida do Cáucaso do Norte, Privolnoye, e morreria como o homem que presidiu ao fim da União Soviética. Entre o nascimento e a morte, viveu uma existência improvável, moldada pela miséria, pela violência do Estado estalinista e por uma rara combinação de tenacidade e prudência.
Filho de camponeses pobres, Gorbatchev cresceu num país assolado pela fome, pelas purgas e pela guerra. Dois dos seus avós seriam presos durante o terror dos anos 30; um deles chegou a ser condenado à morte, escapando por uma reclassificação administrativa que lhe salvou a vida. A infância foi feita de carências extremas, trabalho precoce e imagens que nunca o abandonariam: animais abatidos para sobreviver, sementes comidas antes de serem lançadas à terra, aldeias dizimadas pela fome.
A Segunda Guerra Mundial acelerou-lhe a maturidade. Com os homens mobilizados para a frente, as crianças tornaram-se mão-de-obra e guardiãs das famílias. A ocupação alemã da região deixou-lhe memórias de cadáveres abandonados e da fragilidade absoluta da vida humana. Quando chegou a notícia da suposta morte do pai, seguida dias depois pela confirmação de que afinal sobrevivera, gravemente ferido, o jovem Mikhail aprendeu cedo a desconfiar tanto da tragédia definitiva como do alívio absoluto.
O regresso à escola foi um ponto de viragem. Sem livros nem cadernos, estudando nas margens de manuais técnicos, destacou-se pelo esforço e pela disciplina. O trabalho extenuante nas ceifeiras-debulhadoras ao lado do pai valeu-lhe, aos 17 anos, uma condecoração estatal rara para alguém da sua idade: a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho. Esse reconhecimento abriu-lhe as portas da Universidade Estatal de Moscovo, onde se formou em Direito e iniciou a ascensão política.
Em Moscovo encontrou também Raisa Titarenko, estudante de Filosofia, companheira inseparável e figura decisiva na sua formação cultural e intelectual. O casamento, pouco comum na elite soviética pela sua cumplicidade e visibilidade pública, tornou-se uma das marcas do futuro líder. Gorbatchev nunca escondeu a influência de Raisa, nem recuperou verdadeiramente da sua morte, em 1999.
A carreira no Partido Comunista foi constante e cautelosa. Proveniente da província, conhecedor da vida rural e das disfunções do sistema, Gorbatchov chegou ao topo em 1985, quando assumiu o cargo de secretário-geral do PCUS. O país que herdou estava exausto: economia estagnada, sociedade asfixiada, império sustentado mais pela inércia do que pela convicção. A resposta foi dupla e histórica: Perestroika (reestruturação) e Glasnost (transparência), conceitos que rapidamente ultrapassaram as fronteiras soviéticas.
Ao permitir maior liberdade de expressão e ao recusar o uso da força para manter o controlo sobre a Europa de Leste, Gorbatchov desencadeou um processo irreversível. O Muro de Berlim caiu, os regimes satélites ruíram e, em 1991, a própria União Soviética dissolveu-se. Para o Ocidente, tornou-se o estadista que evitou uma guerra nuclear e abriu caminho ao fim da Guerra Fria. Para muitos russos, ficou associado ao colapso de um império e à humilhação económica dos anos seguintes.
A sua vida posterior foi paradoxal: venerado internacionalmente, marginalizado no seu próprio país. Participou em campanhas publicitárias, criou fundações, foi homenageado em palcos internacionais como o Royal Albert Hall, mas nunca recuperou verdadeira influência política. Permaneceu, até ao fim, uma figura solitária, fiel à convicção de que a mudança pacífica era preferível à violência redentora.
Mais do que o líder que acelerou o fim da Guerra Fria, Gorbatchov foi o produto extremo do século soviético: um homem forjado na fome, educado na disciplina e disposto a aceitar que a história não se deixa comandar por decretos. O seu legado continua a dividir opiniões. Mas a trajetória que o levou de uma aldeia sem livros aos salões do poder mundial permanece como uma das mais improváveis e humanas do nosso tempo.


domingo, 8 de dezembro de 2024

Livro: Autocracy Inc


Bestseller do New York Times • O Melhor Livro do Economista de 2024 • O Melhor Livro do Financial Times de 2024 • Do autor vencedor do prémio Pulitzer, um relato alarmante de como as autocracias trabalham em conjunto para minar o mundo democrático e como nos devemos organizar para derrotá-las
“Um guia magistral para a nova era de autoritarismo... perspicaz e destemido.” —John Simpson, The Guardian • “Especialmente oportuno.“—The Washington Post
Pensamos que sabemos o que é um Estado autocrático: há um líder todo-poderoso no topo. Ele controla a polícia. A polícia ameaça as pessoas com violência. Existem colaboradores malignos e talvez alguns dissidentes corajosos.
Mas no século XXI, isto tem poucas semelhanças com a realidade. Hoje em dia, as autocracias são sustentadas não por um ditador, mas por redes sofisticadas compostas por estruturas financeiras cleptocráticas, tecnologias de vigilância e propagandistas profissionais, que operam em múltiplos regimes, desde a China à Rússia e ao Irão. As empresas corruptas de um país fazem negócios com empresas corruptas de outro. A polícia de um país pode armar e treinar a polícia de outro, e os propagandistas partilham recursos e temas, transmitindo as mesmas mensagens sobre a fraqueza da democracia e o mal da América.
A condenação internacional e as sanções económicas não podem mover os autocratas. Mesmo os movimentos populares de oposição, da Venezuela a Hong Kong e Moscovo, não têm qualquer hipótese. Os membros da Autocracy, Inc, não estão ligados por uma ideologia unificadora, como o comunismo, mas sim por um desejo comum de poder, riqueza e impunidade. Neste tratado urgente, que evoca o ensaio de George Kennan apelando à “contenção” da União Soviética, Anne Applebaum apela às democracias para que reorientem fundamentalmente as suas políticas para combater um novo tipo de ameaça.

Saber mais: