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domingo, 29 de março de 2026

Nesta semana a ONU aprovou, por larga maioria, uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade". O que isso significa?


A Assembleia Geral das Nações Unidas apoiou esta semana, por larga maioria, uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade".

A resolução histórica aprovada na quarta-feira foi apoiada pela União Africana (UA) e pela Comunidade das Caraíbas (Caricom). Tinha sido proposta pelo presidente do Gana, John Dramani Mahama, que disse: "Que fique registado que, quando a história chamou, fizemos o que era certo em memória de milhões que sofreram a indignidade da escravatura."

Ao saudar a votação, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, afirmou que a riqueza de muitas nações ocidentais foi "construída sobre vidas roubadas e trabalho forçado".

Assinalando os "castigos bárbaros que mantinham o controlo – desde grilhões e coleiras de ferro a açoites e violência sexual", disse que "não se tratava simplesmente de trabalho forçado".

"Era uma máquina de exploração em massa e de desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças. As feridas são profundas e muitas vezes passam despercebidas."

A resolução, apoiada por países africanos e caribenhos, não é juridicamente vinculativa, mas os analistas afirmam que transmite uma mensagem poderosa.

"É já um passo enorme e significativo em termos políticos ter este debate na ONU, mesmo que tenha um valor mais simbólico", disse Almaz Teffera, investigadora sénior sobre racismo da Human Rights Watch, à BBC.

Ela afirma que isto poderia aumentar as hipóteses de progresso nas discussões sobre reparações ou alguma forma de compensação.

A resolução foi aprovada por 123 votos a três, com 52 abstenções, incluindo o Reino Unido e os Estados-membros da UE.

Os Estados Unidos, a Argentina e Israel votaram contra.
A Dra. Erieka Bennett, que lidera o Fórum Africano da Diáspora, sediado no Gana, disse à BBC que a votação teve um significado pessoal para os descendentes de pessoas escravizadas, como ela.

"Significa que sou reconhecida, significa que o meu antepassado finalmente descansa em paz". Para mim, pessoalmente, como afro-americano, é algo avassalador – até que se tenha vivido o que aconteceu, é muito difícil perceber o que isso realmente significa.

Os países afetados pela escravatura têm vindo a pedir reparações há mais de um século. Mas o debate intensificou-se nos últimos anos, sobretudo depois de algumas nações e empresas que historicamente lucraram com o trabalho escravo africano terem pedido formalmente desculpa e anunciado medidas de reparação.

Qual é o argumento a favor das reparações?
Dos séculos XV ao XIX, cerca de 12 a 15 milhões de homens, mulheres e crianças africanos foram capturados e traficados para as Américas para trabalharem como escravos.

Foram enviados para colónias controladas por países europeus, como Espanha, Portugal, França e Reino Unido. Acredita-se que dois milhões de pessoas morreram a bordo dos infames navios negreiros.

Os efeitos de séculos de exploração ainda se fazem sentir nos dias de hoje.

No Brasil, o maior recetor de africanos escravizados – 4,9 milhões, a maioria durante o período em que era colónia portuguesa – as pessoas negras têm o dobro da probabilidade de viver na pobreza. como brancos, de acordo com o órgão oficial de estatísticas do país (IBGE).

As reparações têm como objetivo funcionar como uma restituição – um pedido de desculpas e um pagamento às pessoas negras cujos antepassados ​​foram forçados à escravatura. A moção, proposta pelo Gana, insta os Estados-membros da ONU a considerarem pedir desculpa pelo tráfico de escravos e a contribuírem para um fundo de reparações.

A Dra. Esther Xosei, académica, ativista e figura de destaque no movimento global pelas reparações, saudou a votação, mas duvida que faça grande diferença por si só.

"É uma boa vitória [para o movimento pelas reparações], mas vamos recordar “Isto é apenas uma declaração de intenções”, disse ela à BBC.

Xosei acrescentou que, embora fosse “encorajador ver as nações africanas a assumir o protagonismo nestas discussões”, destacou a importância da ação popular.

“Corações e mentes não serão conquistados na ONU.”

“A verdadeira batalha será travada nas ruas, onde as pessoas ainda estão mal informadas sobre a história da escravatura e os seus efeitos duradouros na vida dos africanos e dos seus descendentes.”

Existe algum precedente histórico para as reparações?
Sim – o caso de reparações mais famoso envolve a Alemanha. Desde 1952, a nação europeia pagou mais de 80 mil milhões de dólares (60 mil milhões de reais) às vítimas judias do regime nazi, incluindo pagamentos a Israel.

Mas, até agora, nunca nenhum país pagou reparações aos descendentes de africanos escravizados ou às nações africanas, caribenhas e latino-americanas afetadas.

A maior parte das reparações pagas pelos governos veio sob a forma de indemnizações aos proprietários de escravos no século XIX, e não àqueles que foram escravizados.

Isto inclui o Reino Unido - na década de 1830, após a abolição da escravatura, o país pagou aos proprietários o equivalente a mais de 21 mil milhões de dólares (16 mil milhões de libras) em valores actuais.

Mesmo nações que pediram formalmente desculpas pelo seu papel na escravatura, como a Holanda em 2022, descartaram reparações financeiras diretas aos descendentes de pessoas escravizadas. O governo holandês criou, em vez disso, um fundo de 230 milhões de dólares para "iniciativas e projetos sociais para lidar com o legado da escravatura".

"O mais importante a compreender é que ninguém está a tentar mudar o passado, mas sim a lidar com as suas consequências no presente", explicou a Dra. Celeste Martinez, investigadora especializada em colonialismo espanhol em África.

"Os legados da escravatura ainda persistem hoje sob a forma de racismo e desigualdade. Reconhecer o passado é crucial se queremos sociedades mais justas e democráticas."

sábado, 28 de março de 2026

'Crime mais grave contra a humanidade': o que significa a resolução da ONU sobre a escravatura e o que pode mudar?


Decisão tem peso simbólico, mas reforça o debate global sobre reparações, memória e responsabilidades históricas

A decisão da Assembleia Geral da ONU de classificar o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas como “o crime mais grave contra a humanidade” amplia o reconhecimento internacional sobre a gravidade do sistema escravagista e os seus efeitos duradouros. Embora não tenha caráter vinculativo — ou seja, não obriga os países a adotar medidas concretas —, a resolução é vista como um marco político que pode fortalecer as pressões por reparações e por medidas de reconhecimento histórico.

A formulação destaca o tráfico de africanos entre os séculos XV e XIX, período em que entre 12 e 15 milhões de pessoas foram levadas à força para as Américas, registando-se cerca de 2 milhões de mortes durante a travessia.

Para o secretário-geral António Guterres, o sistema foi “construído sobre vidas roubadas e trabalho roubado” e constituía “uma máquina de exploração em massa e de desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças”.

Reconhecimento político e efeitos práticos
Na prática, a resolução não obriga os países a adotar medidas concretas, mas eleva o estatuto do tema dentro das Nações Unidas.

“Já é um passo enorme e significativo em termos políticos ter este debate na ONU, mesmo que tenha um valor mais simbólico”, afirmou Almaz Teffera, investigadora sénior sobre racismo na Human Rights Watch, à BBC.

Especialistas apontam que o principal efeito pode ser o fortalecimento das exigências de reparações, que incluem:
  1. Compensações financeiras;
  2. Pedidos formais de desculpa;
  3. Criação de fundos;
  4. Investimentos em educação.
Para a líder do Fórum Africano da Diáspora, Erieka Bennett, o reconhecimento tem um impacto emocional direto:
“Isto significa que eu sou reconhecida, significa que o meu ancestral finalmente descansa. Para mim, pessoalmente, como afro-americana, estou emocionada. Até que faça parte do que aconteceu, é muito difícil entender o que isso realmente significa.”

A resistência e os valores em debate
O tema enfrenta resistência de países como os Estados Unidos e o Reino Unido, que rejeitam reparações financeiras diretas. O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, David Lammy, afirmou que “não se trata de transferência de dinheiro”. Entre os argumentos contrários estão a dificuldade de responsabilizar as gerações atuais e de identificar os descendentes diretos.

Os valores em discussão variam amplamente. As estimativas citadas incluem:
  • Pelo menos 33 biliões de dólares, em propostas associadas à Caricom;
  • Até 107 biliões de dólares, segundo Patrick Robinson.
Para o analista jurídico Luke Moffett, “legalmente, é uma montanha enorme que não pode ser escalada".
“Mas isso não significa que as partes envolvidas não devam sentar-se e negociar. As pessoas, no entanto, não devem esperar biliões de dólares. Também é provável que estas discussões levem décadas para chegar a algum tipo de acordo”, explica.

Além do dinheiro
Há uma crescente ênfase em medidas não financeiras. Segundo a representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), Sara Hamood, o aspeto financeiro é "apenas uma parte".
“Temos dito repetidamente que nenhum país enfrentou plenamente o legado da escravatura ou contabilizou de forma abrangente os seus impactos na vida das pessoas de ascendência africana. Pedidos formais de desculpa, o esclarecimento da verdade e a educação fazem parte de um amplo conjunto de medidas”, afirma.

Para os defensores, a resolução é um avanço, mas ainda insuficiente. A académica e ativista Esther Xosei duvida que a votação da ONU, por si só, tenha efeitos reais:
“É uma boa vitória [para o movimento por reparações], mas lembremo-nos de que isto é apenas uma declaração de intenções. Os corações e as mentes não serão conquistados na ONU. A verdadeira batalha será travada nas ruas, onde as pessoas ainda estão desinformadas sobre a história da escravatura e os seus efeitos duradouros na vida dos africanos e dos seus descendentes.”

A classificação também gerou críticas. Para o vice-embaixador dos EUA na ONU, Dan Negrea, há um equívoco em hierarquizar os crimes contra a humanidade:
“A afirmação de que alguns crimes contra a humanidade são menos graves do que outros diminui objetivamente o sofrimento de inúmeras vítimas e sobreviventes de outras atrocidades ao longo da história”, explica.

quarta-feira, 11 de março de 2026

NECRØ - Hanged Man


Lyrics:

[Verse 1]
All gifts are temporary
A gap in time into nothingness
We are left
Amongst strangers

[Refrão]
A perpetual sound
The pulse of the world
This is the heart
Of a hanged man

Our loss is lost
Our grief is gone
This is the heart
Of a hanged man

[Verse 2]
I had so much time to speak
To choose violence over fear
Feet, sticks and shields
Make sense of this fear
I had so much time to speak

[Verse 3]
Burning
Crashing
Longing
Hurting

[Refrão]

A canção "Hanged Man", presente no EP Death Beats (2023), carrega um simbolismo profundo retirado diretamente da carta XII do Tarot, O Enforcado. O significado da faixa gira em torno de temas como o sacrifício voluntário, a estagnação e a necessidade de observar o mundo sob uma nova perspetiva através da suspensão. Liricamente, a música explora estados de paralisia emocional e isolamento, enquanto a sua estrutura rítmica mecânica e os vocais ecoantes reforçam uma sensação de claustrofobia e inevitabilidade, caraterística da exploração da mortalidade que o projeto propõe.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Governo paga 20 mil euros para ter SportTV em São Bento - uma atitude sem noção e insensível, típico de narcisistas


Ser confrontado com a notícia de que o Governo de Luís Montenegro decidiu gastar cerca de 20 mil euros para instalar o canal Sport TV na residência oficial do Primeiro Ministro e no Parlamento nesta altura do país é, no mínimo, um sinal de desfasamento profundo entre o que este executivo escolhe como prioridade e aquilo que os cidadãos realmente vivem.
Este contrato de três anos, celebrado por ajuste direto com a NOS, garante acesso ‘premium’ a canais desportivos que transmitem futebol, incluindo a liga portuguesa e competições europeias, e será pago com dinheiro público até 2028 — um montante que se justifica facilmente, mas que politicamente soa a falta de empatia e sentido de realidade face ao sofrimento de quem perdeu casa, energia ou meios de subsistência na sequência das tempestades. 
Não é a questão do valor — 20 mil euros não vão desestabilizar um Orçamento do Estado — é a hierarquia de prioridades que está em causa 
Quando o Governo admite défices para cobrir os apoios às vítimas das calamidades, quando milhares aguardam apoios urgentes e quando a própria resposta estatal foi lenta e insuficiente em muitas regiões, optar por gastar dinheiro dos contribuintes em canais desportivos para o Primeiro Ministro e para o Parlamento é uma demonstração flagrante de falta de noção sobre as expectativas e necessidades do país Esta decisão transmite uma mensagem implícita de desconexão social: enquanto cidadãos lutam com as consequências de uma catástrofe natural, o executivo parece mais preocupado com entretenimento institucional do que com a eficácia da resposta à crise. 
 A incapacidade de priorizar o essencial reflete, sobretudo, uma falta de empatia que não combina com responsabilidade governativa séria. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Twenty One Pilots - Paladin Strait


Paladin Strait
Twenty One Pilots

I can't be alone
Guess I never told you so
Makin' my way towards you
Tracin' out a line
A route I've mapped a thousand times
Makin' my way towards you

I would swim the Paladin Strait
Without any floatation
Just a glimpse of visual aid
Of you on the other shoreline
Waitin', expectations that I'm gonna make it
Mm-hm, hm-hm-hm

Standing on the shore
Staring down a hurtling storm
Makin' it's way toward me
Water rips with rage
Endless row of angry waves
Makin' it's way towards me

I would swim the Paladin Strait
Without any floatation
Just a glimpse of visual aid
Of you on the other shoreline
Waitin', expectations that I'm gonna make it
Mm-hm, hm-hm-hm

Here's my chance, time to take it
Can't be sure that I'll make it
Even though I'm past the point of no return
I'm all in, I'm surrounded
Put my money where my mouth is
Even though I'm past the point of no return
Here's my chance, time to take it
Can't be sure that I'll make it
Even though I'm past the point of no return
I'm all in, I'm surrounded
Put my money where my mouth is
Even though I'm past the point of no return

I would swim the Paladin Strait
Without any floatation
Just a glimpse of visual aid
Of you on the other shoreline
Waitin', expectations that I'm gonna make it
Mm-hm, hm-hm-hm

On the ground are banditos
Fighting while I find Nico
Even though I'm past the point of no return
Climb the top of the tower
Show yourself!, I yell louder
Even though I'm past the point of no ret—

So few, so proud, so emotional
Hello, Clancy

Biografia e Discografia
Página Oficial
Twenty One Pilots


"Paladin Strait" é a décima terceira e última faixa do álbum Clancy, lançado pelos Twenty One Pilots no Spotify em 2024.

"Paladin Strait" de Twenty One Pilots explora a travessia de um estreito como metáfora para batalhas internas e desafios externos, conectando a jornada de Clancy à luta contra os Bispos de Dema. O trecho “I would swim the Paladin Strait / Without any floatation / Just a glimpse of visual aid / Of you on the other shoreline” (Eu nadaria pelo Estreito Paladin / Sem qualquer flutuação / Apenas um vislumbre de ajuda visual / De você na outra margem) mostra a disposição do protagonista em enfrentar grandes dificuldades, motivado pela esperança de reencontrar alguém importante, mesmo sem garantias de sucesso. Esse momento reforça o tema da coragem diante do desconhecido, alinhando-se à narrativa do álbum, em que Clancy precisa superar obstáculos internos e externos para se libertar.

A música faz referência direta aos “banditos” e ao antagonista “Nico”, conectando-se ao universo dos álbuns anteriores, como Trench e Blurryface. O verso “On the ground are banditos / Fighting while I find Nico” (No chão estão os banditos / Lutando enquanto procuro Nico) sugere que Clancy não está sozinho, mas conta com o apoio de uma comunidade – uma metáfora para o suporte dos fãs, reforçada nas apresentações ao vivo em que a banda mistura elementos de "Bandito". O clímax, com Clancy gritando “Show yourself!, I yell louder” (Mostre-se!, eu grito mais alto), marca o confronto direto com seus medos e adversários. O final enigmático – “So few, so proud, so emotional / Hello, Clancy” (Tão poucos, tão orgulhosos, tão emocionados / Olá, Clancy) – deixa em aberto se a jornada representa um fim ou um novo começo, refletindo o mistério intencional que Tyler Joseph destaca sobre o desfecho da saga. A música aborda temas de determinação, vulnerabilidade e a importância da coletividade para superar adversidades.


terça-feira, 20 de maio de 2025

Desbocados, autoritários, cruéis, endinheirados: os Brutalistas


Por Vitor Belanciano, 6 de Maio de 2024
As noções clássicas de neoliberalismo ou capitalismo já não nos situam. O mesmo se aplica aos conceitos tradicionais de fascismo. Há traços, fisionomias e características que se assemelham. Mas também deslocamentos, desvios, torções. Estamos noutra zona.

Ninguém sabe como lhe chamar. Há quem arrisque fascismo liberal. Outros, como Varoufakis, refletem que as novas formas de capital digital precisam da sua própria ideologia para se posicionarem distantes de qualquer tipo de coibição, estando nós a existir no tecno-feudalismo, regulados por tecno-lordes, sedentos de poder político.

Mas de todas essas noções que surgiram nos últimos anos, nenhuma parece mais ajustada do que o termo cunhado pelo pensador camaronês Achille Mbembe: brutalismo. O termo provém do universo da arquitetura, identificando um estilo de construção massivo, denso, industrial e poluente, sendo empregue por Mbembe não simplesmente como diagnóstico político, económico ou cultural, mas algo mais da ordem existencial, designando a relação dominante dos seres humanos com o que existe, sejam outros seres humanos, o mercado ou o planeta terra. O seu desejo é insaciável.

Uma relação de força e exploração. Como se o planeta fosse inesgotável, sendo o papel dos poderes contemporâneos, segundo Mbembe, tornar a extração possível. E se um dia tudo se esgotar, para quem vive a nadar em dinheiro, existe sempre a hipótese de colonizar Marte, exporá Musk. Ou de encontrar uma forma de nos tornarmos imortais, dirá Jeff Bezos, que tem investido milhões em tecnologia para deter o envelhecimento.

Claro que Mbembe pensa a partir de um lugar específico: África. Mas daí é possível identificar dinâmicas globais que se foram intensificando na última década, e que o segundo mandato de Trump tem exposto. O filósofo livre, o espanhol Amador Fernández-Savater, que tem refletido muito sobre o assunto, olha para o brutalismo como a última fase do neoliberalismo. Antes existiam formalidades, mesmo que soubéssemos que a intenção final era o lucro. Agora temos a impiedade oligárquica a dirigir países como se fossem multinacionais.

Durante décadas acreditámos que quanto mais consolidada fosse a democracia, mais hipóteses de desenvolvimento económico sustentado haveria. Agora, ironicamente, apesar de Trump, Xi Jinping, Putin ou Milei provirem de campos ideológicos diversos, e no meio das suas singularidades, une-os o desprezo pelos mecanismos democráticos. O mesmo acontecendo com as oligarquias financeiras, sejam elas americana, russa ou europeias, nas tintas para políticas de redistribuição, apenas interessados na sua rede.

É isso que vemos emergir em todo o mundo hoje. Agora assume-se às claras que apenas o dinheiro interessa. Não há regras. Passa-se por cima do Estado. Desmembram-se países, territórios e populações, sem justificações ideológicas. E muito menos se necessita das classes médias do conhecimento que só criam entraves com princípios democráticos. Daí os ataques à academia, à ciência, à cultura. A época dos consensos, do diálogo e da consolidação democrática foram à vida. O que interessa é enfraquecer os serviços públicos, descartar os que resistem, ou os fragilizados que estão a mais.

Quando a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, comunica com entusiasmo que chegou o momento da Europa se rearmar, para que os Estados possam contrair empréstimos sem limites para reabastecer os seus arsenais, é isso que está em jogo. No fim de contas, depois de todos os alarmes ambientais, para todos eles as bombas que protegem os seus muros são mais importantes que o aquecimento global. Nos últimos meses virou-se as costas ao ambientalismo. A aposta é o rearmamento.

As classes médias empobrecidas poderiam ser o toque a reunir, procurando alternativas, mas existe divisão, cinismo, medo ou impotência. Não é tanto que estejam a ser enganadas, mas estão enredadas nas teias do mercado e da tecnologia. A maioria opta por preservar o que tem, imaginando que não será afetada. Já os trabalhadores empobrecidos são levados a acreditar que a sua precariedade se deve aos imigrantes. Culpar os frágeis pelos atos da oligarquia é a forma eficaz de enganar as populações.

E é aqui que estamos. Portugal acerca-se da tendência. Existem traços de Trump ou de Milei nos discursos e práticas. O poder da brutalidade, do mais forte, do mais endinheirado, do mais desbocado, do mais cruel, como caracterizado por Fernández-Savater, está por aí. A paralisia que provocam leva-os a acreditar que inauguraram uma nova forma de governar baseada nos milhões, na digitalização, nos algoritmos, no domínio do quantitativo. É fácil ver no excessivo Musk um emblema disto. Mas existem muitos brutalistas, subtis, operando fora dos holofotes, quase invisíveis.

O mistério, as aspirações utópicas, as energias afetivas de que somos feitos dissolvem-se, emergindo os impulsos destrutivos, ou então um efeito de anestesia geral, para o qual também contribui uma comunicação social que se deixa enredar num ecossistema paralisante. Num dia vemos Gaza ser arrasada. No seguinte, uma outra circunstância ou guerra qualquer. Suspiramos, e nada fazemos, meio zombies, narcotizados.

Fica a indiferença. Quando não o prazer de ferir e ver outros sofrer. A crueldade predomina. Mbembe argumenta que a economia libidinal do brutalismo não envolve a renúncia, mas a ausência de limites. O mercado é a vida. Tudo se compra de forma acelerada, obscena, imediata. Colonizar significou sempre brutalizar. O colonialismo prefigurou o brutalismo, segundo ele. Sem restrições ou mediações, os mais robustos usufruem dos mais fracos como se fossem objetos descartáveis, ao mesmo tempo que, ao lado, nos comportamentos socioculturais, os estilhaços vão-se amontoando.

Jovens do sexo masculino sentem-se atemorizados diante do empoderamento feminino. A visibilidade das lutas anti-racismo cria um efeito reativo da parte daqueles que sentem os seus privilégios postos em causa. Gere-se o Outro, o que é diferente, de forma instrumental. Se tiver dinheiro para investir é aceite. Se for pobre é indesejado, isolado ou deportado. Torna-se supérfluo. Como já acontece também com muitos de nós. Não resistir a isto, não encontrar formas alternativas de estar no mundo, será o fim.

sábado, 11 de março de 2023

"A necropolítica é deixar morrer para manter viva uma economia predatória”. Entrevista com Eduardo Gudynas


Aos 63 anos, Eduardo Gudynas (Montevidéu, Uruguai, 1960) é o mais jovem da lista dos 75 principais pensadores dos últimos 150 anos sobre questões ligadas ao desenvolvimento elaborada pelo geógrafo David Simon, da Universidade de Londres. Há apenas oito latino-americanos na lista. Como pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (CLAES), disciplina na qual é mestre, acompanha há mais de três décadas os problemas do desenvolvimento, do meio ambiente e dos movimentos sociais na América Latina, tendo escrito vários livros sobre esses temas.

Suas publicações mais recentes são uma avaliação das violações dos direitos humanos e da natureza no extrativismo na Bolívia e uma análise dos impactos da guerra na Ucrânia na ecologia política da América Latina. Além disso, colabora com organizações cidadãs sul-americanas e com instituições universitárias.

Apesar de centrar seus estudos em seu continente natal, Gudynas foi o primeiro latino-americano a receber a Cátedra Arne Naess em Meio Ambiente e Justiça Global da Universidade de Oslo (Noruega); também é pesquisador do Centro de Estudos Avançados da Universidade de Munique (Alemanha) e recentemente passou a integrar a Comissão para a Transformação da Economia Global do Clube de Roma.

Aqui conversamos com ele sobre conflitos socioambientais, direitos da natureza e política.
Eis a entrevista.

Vamos falar sobre os conflitos socioambientais. Como eles ocorrem?
São disputas com componentes sociais onde as demandas ecológicas ou territoriais têm grande relevância. Incluem, por exemplo, protestos de comunidades locais contra projetos de mineração ou petróleo. As manifestações cidadãs que incorporam questões ambientais e territoriais têm uma longa história.

Lembro-me, por exemplo, da primeira grande marcha indígena na Bolívia, cujo slogan era território e dignidade, e isso ocorreu em 1990. Nessa mobilização, estavam presentes ingredientes sociais, ambientais e territoriais. Embora em relatos históricos de conflitos contra a mineração dos inícios do século XX esses componentes já estivessem presentes.

O que diferencia o conceito de território para os povos originários de como é entendido pelo senso comum tradicional? Como tudo isso se expressa na prática?
O território é uma construção social, é definido pelas vivências, histórias ou religiosidades, por exemplo, de comunidades camponesas ou indígenas. O que encontramos ouvindo, acompanhando ou participando de alguns conflitos é a defesa de um espaço geográfico considerado como próprio. Essa condição é chamada de território. Portanto, espaço ou geografia não são sinônimos de território, e em uma mesma região podem coexistir múltiplos territórios, inclusive sobrepostos entre si.

Há uma semelhança nos conflitos socioambientais?
A importância de acompanhar e ouvir as comunidades locais é que fica claro que existem muitos tipos de conflitos. Entre os mais visíveis estão aqueles que são uma reação às ameaças à saúde, à integridade do meio ambiente ou à usurpação de territórios considerados como próprios. Ali estão enraizados os protestos tão comuns que existem contra as mineradoras ou as petroleiras.

Mas também há conflitos onde o que está em disputa é uma indenização em dinheiro ou obras de infraestrutura, como um posto de saúde local ou um equipamento escolar. Não existe uma oposição frontal à chegada, digamos de uma mineradora, mas a luta é para conseguir parte do benefício económico.

Ao mesmo tempo, existem conflitos que operam na direção contrária. São as mobilizações que reivindicam a chegada desse tipo de empreendimento, argumentando que trarão investimentos e empregos. Chega-se, assim, a situações muito complicadas, onde há disputas entre diferentes grupos de uma comunidade, sendo uns a favor e outros contra esses empreendimentos.

Que relação existe, em geral, entre os conflitos socioambientais e a ação política nacional?
Muitos conflitos têm estreita associação com os problemas e, especialmente, com as misérias da política convencional. Boa parte deles explode em consequência de decisões, ações ou omissões em políticas públicas tomadas pelos Estados, como concessões feitas a mineradoras ou petroleiras. Em outros casos, há um Estado ausente e cúmplice, que falha em controlar e monitorar os efeitos da agricultura intensiva.

Muitas dessas disputas estão associadas à corrupção e aos crescentes níveis de violência, onde a política participa de múltiplas formas dessas mazelas. Os casos extremos estão no assassinato de defensores de direitos humanos ou ambientais em diferentes países, com as situações mais graves, por exemplo, no Brasil e na Colômbia.

O que exatamente está acontecendo?
O que acontece em muitos países é que as concessões de mineração ou de petróleo, ou as licenças para expansão agrícola são expedidas nas capitais para áreas que os técnicos acreditam estar vazias, que não são de ninguém, ou que, embora saibam que estão ocupadas, não consideram relevantes para os grupos locais. Dessa forma, o território de uma comunidade indígena de repente se encontra dentro de um polígono de petróleo e, logo depois, chegam militares, trabalhadores e técnicos para invadir suas terras. Isso torna inevitável o surgimento de um conflito.

Como reconhecemos nessas situações a herança colonial?
A herança colonial está presente de várias formas. A política convencional, especialmente com aquele repetido viés latino-americano em direção ao caudilhismo, tem uma clara herança colonial. Mas, ao mesmo tempo, as condições econômicas também estão imersas em uma subordinação que tem muito de colonial. Isso é muito evidente nos extrativismos, pois são extrações em grande quantidade de recursos naturais que são exportados para mercados globais, repetindo uma inserção internacional secular baseada em matérias-primas. Atualmente, explica boa parte dos conflitos ambientais mais graves do continente que estão associados à apropriação de recursos naturais para exportação. É como se o vínculo colonial se mantivesse, mas vestido com outra roupagem, que, em vez de ser dirigido por reis e vice-reis, passa a ser decidido nas Bolsas.

E qual é, assim vista, a relação entre globalização e conflitos socioambientais?
A globalização determina uma relação na qual a região latino-americana tem um papel subordinado. Os preços dos bens naturais são determinados nos centros financeiros, como é o caso da cotação dos minerais em Londres ou dos agroalimentos em Chicago. Se o valor do cobre ou da soja aumenta, todos os países começam a procurar cobre ou a plantar soja. As condições globais são tão poderosas que determinam as estratégias nacionais de desenvolvimento.

E qual é o nível ou a intensidade desses fluxos de exportação de recursos naturais?
O volume de extração de recursos naturais é brutal. Penso que o nível que essa depredação da natureza atingiu está passando despercebido. Na década de 1960, foram exportados pouco mais de 200 milhões de toneladas de recursos naturais, como minerais, hidrocarbonetos e produtos agrícolas e florestais, etc. Em meados da década de 2010, eram exportados cerca de 700 milhões de toneladas. Ou seja, mais que triplicou, o que significa que cada recanto do continente está enfrentando problemas com esses extrativismos.

O ritmo, a intensidade e o volume de apropriação da natureza são vertiginosos. Portanto, não é de se estranhar que os conflitos e as resistências diante desse avanço se multipliquem. Dessa forma, as condições globais que determinam o comércio e os preços acabam impactando nesses conflitos.

E como podemos identificar/reconhecer a pressão desses interesses estrangeiros no desenvolvimento dos conflitos socioambientais?
Em alguns setores, os interesses estrangeiros são decisivos, como sabemos, por exemplo, pela atuação das grandes corporações mineradoras, ou pelos fundos de investimento do capitalismo global que investem seu dinheiro em todo tipo de projeto em nosso continente.

Mas deve ficar claro que a situação mudou muito. Na década de 1960, os principais destinos das exportações de matérias-primas latino-americanas eram os Estados Unidos, o Canadá e os países da Europa Ocidental. Nos últimos anos, o destino é principalmente a China e outros países asiáticos. Além disso, esses fluxos para a América do Norte foram drasticamente reduzidos e a China absorve mais de três vezes os recursos que são exportados para a União Europeia. Em muitos casos, a pressão sobre os nossos territórios e recursos depende cada vez mais das decisões do Partido Comunista Chinês em Pequim.

Que papel desempenham ali os atores económicos nacionais?
O que a experiência latino-americana mostra, e que está ficando bastante claro no continente, mas não tanto em outras regiões, é que a propriedade dos recursos naturais ou das empresas que os extraem e comercializam não condicionam ou garantem que sejam cumpridos os mandatos de justiça social e ecológica.

Os atores nacionais operam da mesma forma que os interesses estrangeiros. Temos os casos de conhecidas mineradoras de capital nacional, das cooperativas de mineradoras bolivianas que se apresentam inclusive como revolucionárias, e dezenas de milhares de agricultores lançados na agricultura intensiva baseada nos agroquímicos. Todos eles estão por trás de muitos conflitos socioambientais. E não podemos esconder o caso das petrolíferas estatais, que também provocam impactos sociais e ambientais de toda ordem.

Podemos relacionar os recentes conflitos sociais e as mobilizações populares no Chile, Colômbia, Peru e outros países latino-americanos com os conflitos socioambientais?
Estamos enfrentando disputas que têm alguns aspectos comuns, mas são muito diferentes entre si. Cada caso permite observar que as situações nacionais são diferentes e, embora existam fatores recorrentes, também existem particularidades próprias de cada país.

No caso do Chile, observou-se uma explosão popular generalizada, que se multiplicou em várias cidades, expressando cansaço com a política e o regime institucional nesse país.

Por outro lado, no Equador ocorreram levantes liderados por organizações indígenas, alimentados por mobilizações de comunidades rurais e o apoio de alguns setores populares urbanos. As reivindicações contra a mineração, por exemplo, estiveram presentes, mas esse tema não liderou essas mobilizações.

Os conflitos socioambientais não eram perceptíveis?
Sim, claro, eles estão presentes. Continuam a multiplicar-se as reações em defesa dos territórios e na exigência de garantir a qualidade de vida e a conservação da natureza em todos os lugares. O número de conflitos continua a aumentar, e em vários casos conseguem travar alguns empreendimentos muito prejudiciais, e que, por sua vez, se tornam um exemplo para outra comunidade, em outra região ou outro país, que também decide se mobilizar.

Você se refere à forma como os Estados assumem esses conflitos com o termo necropolítica.
A meu ver, estamos entrando em tempos de necropolítica. Tomo emprestado esse termo do filósofo camaronês Achille Mbembe, para estruturar uma reflexão que mostra que há uma aceitação da morte. Tolera-se que pessoas morram, ou definhem numa condição eterna de mortos-vivos mergulhados na pobreza e na exclusão, toleram-se as quadrilhas e os pistoleiros, e tolera-se que as florestas sejam derrubadas e as águas poluídas.

Essa aceitação explica por que personagens repulsivos como Jair Bolsonaro puderam conquistar um governo. A mesma coisa está acontecendo agora no Peru, onde a presidência e o congresso se mantêm graças a uma sucessão de mortes e repressões. Esse deixar morrer consolidou-se durante a longa crise provocada pela pandemia. A necropolítica é deixar morrer, mas para manter vivo um tipo de economia predatória.

Os conflitos que eclodem na resistência aos extrativismos são uma das frentes de oposição a essa indiferença à morte e, ao mesmo tempo, são elas que alimentam as chamas de alternativas voltadas para a vida.

Num sentido mais político, como devemos propor alternativas locais, regionais e, finalmente, globais, às ameaças contra a natureza?
Surgiram inovações incríveis, especialmente na América do Sul. O reconhecimento dos direitos da natureza é um avanço substancial, especialmente sob a formulação alcançada no Equador. Essa estrutura permite acolher as tradições dos povos indígenas, bem como as posições críticas do conhecimento ocidental, e articulá-las para reconhecer os não humanos com seus valores intrínsecos.

O mesmo aconteceu com a plataforma do Bem Viver em suas acepções originais, pois é uma construção crítica ao desenvolvimento convencional, mas que lança alternativas ao mesmo tempo pós-capitalistas e pós-socialistas.

Essas e outras posições alcançaram um vigor extraordinário, e por isso foram inclusive formalizadas na Constituição equatoriana. Essa demanda é muito forte na América Latina.

Como isso se traduziu em políticas públicas?
Muitas dessas ideias foram utilizadas para propor novas políticas públicas. Quando se entende que os direitos da natureza impossibilitam a aprovação de novas explorações de petróleo na Amazónia por seus impactos sobre a biodiversidade, os solos e a água, imediatamente surgem desafios para as políticas públicas. A pergunta imediata é como projetar uma transição pós-petróleo que nos permita abandonar os hidrocarbonetos.

Com base nesse tipo de preocupação, foram desenhadas as chamadas transições pós-extrativistas. Elas podem ser descritas como planos de ação, com medidas que vão desde novas regulamentações até mudanças nos impostos, que seriam aplicadas se estivéssemos no comando de um governo que pretende caminhar para o Bem Viver. A experiência sul-americana, com todas as suas conquistas, mas também com suas derrotas, possibilita a construção de verdadeiros planos de governo e de ação muito sofisticados em várias frentes.

Que balanço faz? Qual é o horizonte dessas alternativas?
O atual ritmo e intensidade na apropriação dos recursos naturais só pode ser mantido com o aumento dos níveis de violência e sob condições de pobreza. Se houvessem avaliações socioambientais adequadas, se as comunidades locais fossem informadas e consultadas, a maioria dos projetos extrativistas atuais não seria aprovada.

Mas os conflitos locais se multiplicam e, enquanto isso, as maiorias, que estão nas cidades, parecem ter naturalizado a destruição da natureza, permitem que os povos indígenas sejam encurralados e os camponeses marginalizados. O que quero dizer é que há muitas reações e protestos, mas ainda são insuficientes, porque os governos e a política persistem nas mesmas estratégias, e o fazem porque têm importantes bases de apoio dos cidadãos.

Nesse contexto, o que entendemos por direitos da natureza?
Os seres humanos assumem-se como sujeitos, e nessa condição seus direitos são reconhecidos. Nisso consiste a condição determinante dos direitos das pessoas em seus usos contemporâneos.

Devido a determinadas sensibilidades e posturas entende-se que na vida não humana também há sujeitos. Uma vez que essa condição é compreendida, os direitos devem ser automaticamente reconhecidos.

Foi o que se discutiu no processo constituinte do Equador, que culminou com o reconhecimento dos direitos da natureza. A nova Constituição assim os reconhece, e coloca como sujeito os grupos onde a vida se baseia, como uma espécie. Isso também é importante porque serve para nos lembrar que os direitos da natureza não são iguais aos chamados direitos dos animais, nem que impõem um ambiente intocado onde nada pode ser cultivado ou extraído. Esses direitos permitem o uso da natureza desde que seja assegurada a sua sobrevivência.

Paralelamente aos direitos da natureza, mantêm-se os direitos humanos, inclusive os que envolvem a garantia da saúde e da qualidade do ambiente.

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terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Almaz Teffera - Alguns países europeus pedem desculpas pelo passado colonial


Almaz Teffera, investigadora sobre o racismo na Europa para a Human Rights Watch, descreveu-o como "um primeiro passo importante" que "também abrirá o caminho para a responsabilização dos Países Baixos" e que funciona como uma espécie de "cura para os descendentes de pessoas escravizadas".

Teffera diz que "este pedido de desculpas chega 150 anos depois da abolição da escravatura, mas é um sinal de que as coisas vão mudar e que é uma mudança que precisa agora de se traduzir em ações".

"Para que um pedido de desculpas vá tão longe realmente quanto deveria, é preciso o reconhecimento de que crimes foram cometidos durante a era colonial e um verdadeiro compromisso também de reparar esses erros", defende a investigadora.

Os Países Baixos juntam-se agora à Dinamarca, França, Reino Unido e ao Parlamento Europeu, que pediram desculpas ou reconheceram oficialmente a escravidão e o tráfico de escravos como crimes contra a humanidade.

Em 1992, no Senegal, o papa João Paulo II também pediu perdão pelo papel da igreja na escravatura.

Em 2021, a Alemanha admitiu pela primeira vez ter cometido "genocídio" contra as tribos Herero e Nama, na Namíbia, durante a era colonial.

O rei Filipe da Bélgica expressou o seu "mais profundo pesar pelas feridas" infligidas ao país pelos seus ancestrais durante uma visita à República Democrática do Congo em junho, mas não formulou um pedido formal de desculpas.

Um comité parlamentar belga sobre o passado colonial, criado em 2020 após os protestos do Black Lives Matter, concluiu o seu trabalho na segunda-feira sem os parlamentares terem chegado a um consenso sobre um pedido de "desculpa"às antigas colónias.

O plano de ação contra o racismo da União Europeia, divulgado em 2020, quando protestos contra o racismo e a brutalidade policial varreram os EUA e a Europa após a morte de George Floyd, é saudado pela investigadora Almaz Teffera.

O plano exige que os países da UE adotem planos de ação nacionais que levem em consideração o seu passado colonial, a fim de enfrentar melhor as questões de racismo estrutural.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Outcry in Brazil over photos of people scavenging through animal carcasses

Pictures of destitute Brazilians searching scraps for food lay bare scale of economic and social crisis

                                       


Heart-wrenching photographs of destitute Brazilians scavenging through a heap of animal carcasses for food have laid bare the hunger crisis blighting Latin America’s most populous nation, where millions have been plunged into deprivation by the coronavirus pandemic and soaring inflation.

The images, taken in Rio last week by the prize-winning photojournalist Domingos Peixoto, show the group rummaging for scraps in the back of a lorry that had been transporting the discarded offal and bones to a factory that makes pet food and soap.

“Some days … I want to cry,” the lorry’s driver, José Divino Santos, told the reporter Rafael Nascimento de Souza, who was covering the story with Peixoto for the Rio newspaper Extra.

“Before people would come and ask for a piece of bone for their dogs. These days they beg for bones to make food,” added Santos, who distributes the scraps to Rio’s needy after collecting them from supermarkets.

One 51-year-old scavenger, Denise da Silva, said she needed to feed her five children and 12 grandchildren having recently lost her partner. “It’s been so long since I saw a bit of meat, since before the pandemic … I’m so grateful for this,” Silva said of the fragments.

The images, one of which appeared on Extra’s front page under the headline “Brazil 2021: the pain of hunger”, sparked an immediate outcry.

An estimated 19 million Brazilians have gone hungry since the start of a Covid outbreak that has killed 600,000 people. Elsewhere in the region the suffering is even more intense. Last week, a top Venezuelan university said nearly 77% of citizens there lived in extreme poverty, with crippling fuel shortages and Covid to blame for a 10% jump over the last year.

Thousands of protesters marched through the streets of Rio on Saturday to denounce a social calamity many blame on Brazil’s rightwing president, Jair Bolsonaro, whose Covid response has been globally condemned.

“It’s inhumane,” said Alex Frechette, a 43-year-old artist, who was carrying one of his paintings showing Bolsonaro chuckling beside three black children who clutched bowls filled with bones.

A protest against Jair Bolsonaro in Rio de Janeiro on Saturday. Photograph: António Lacerda/EPA


José Manuel Ferreira Barbosa, a 63-year-old decorator from Rio’s impoverished northern outskirts, also blamed the president for Brazil’s hunger crisis. “Things are really tough right now. Some people are eating bones. Others have nothing to eat at all,” Barbosa said as he took to the streets.

“It’s a disgrace,” agreed Rosa Maria Xavier da Silva, 53, a street hawker who lives in a squat in central Rio and is struggling to feed eight grandchildren with a monthly benefit payment of 150 reais (£20).

During a congressional hearing into Brazil’s Covid catastrophe, the leftist senator Humberto Costa said Peixoto’s photos exposed the social tragedy unfolding under Bolsonaro. “Unemployment is rising. Inequality is growing. Poverty is growing. Hunger has returned. This is what this government … has done to our country,” Costa said.

Even after three decades documenting Rio’s drug conflict and social ills, Peixoto, 57, said he had been shocked to see citizens sifting through carcasses. “I haven’t slept for two days, trying to process it all,” said the photographer, who struggled to remember seeing so many homeless on the streets.

“People are having to cook with firewood – and not just the homeless … Damn, we’ve got to find ways to tell these stories to see if we can help in some way,” he added.
A woman scavenges through through animal carcasses for food in Rio de Janeiro.
A woman scavenges through animal carcasses. Photograph: Domingos Peixoto/Agencia O Globo
Peixoto said he was haunted by the memory of one scavenger he had seen smiling as the lorry arrived to share its gut-churning cargo. “He looked so happy … [because] he knew it meant another day’s food on their table,” Peixoto said, adding: “I didn’t take the picture. It was one of those images you just take with your eyes and store in your heart.”

De Souza, the reporter, remembered urging one woman not to consume the thrown-away meat. “Young man, either we eat this or we starve to death,” she replied.

“This is the reality,” said the 30-year-old journalist. “If this doesn’t make you angry, if this doesn’t move you, then I don’t know [what will].”

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Theory in Crisis Seminar - Achille Mbembe, 'Notes on Brutalism'


Qual é o papel da teoria crítica hoje e a quem se destina? Que tipo de mapas pode a teoria fornecer no contexto de uma crise capitalista enraizada? Estas são algumas das questões levantadas por esta série de seminários.

Na sequência de várias mutações da "teoria crítica" do século XX (Escola de Frankfurt, "Teoria Francesa", etc.), os proponentes da "pós-crítica" defenderam que a teoria crítica "perdeu força". Em vez disso, esta série de seminários parte da premissa de que a crise do século XXI também gerou novas formas dinâmicas de reconsiderar estas questões. Uma teoria crítica do presente é necessariamente uma teoria da crise.

Neste seminário, Achille Mbembe irá discutir o seu novo livro, Brutalisme (La Découverte, 2020). Uma análise perspicaz e abrangente da destruição capitalista global, Brutalisme oferece uma importante teorização do nosso momento político contemporâneo e defende uma nova política baseada na reparação e na consciência planetária.

Palestrante
Achille Mbembe é professor investigador de História e Política no Instituto Wits de Investigação Social e Económica (Universidade de Witwatersrand), em Joanesburgo, África do Sul. É autor de vários livros, entre os quais "On the Postcolony" (2001), "Critique of Black Reason" (2016), "Necropolitics" (2019), "Out of the Dark Night. Essays on Decolonization" (2020) e "Brutalisme" (2020). Os seus livros foram traduzidos para quinze línguas. Recebeu o Prémio Ernst Bloch (2018) e o Prémio Gerda Henkel (2018).

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Debate sobre o filme: "They're Trying to Kill Us - Diet, Poverty And Racism"


They’re Trying To Kill Us” é o documentário de longa-metragem que se segue ao premiado filme What The Health, com foco na (in)justiça alimentar contada através das lentes do Hip Hop e da cultura urbana, produzido por Keegan Kuhn ( Cowspiracy, What The Health) e John Lewis (Badass Vegan, Vegan Smart)

Pensamento crítico sobre a justiça, destacando artistas e ativistas do Hip Hop que falam sobre a injustiça em todas as suas formas. O filme aborda o acesso a alimentos e desertos alimentares, racismo nutricional e ambiental, doenças relacionadas à dieta, disparidades raciais de doenças, corrupção governamental, crueldade animal, mudanças climáticas e, finalmente, como a influência do Hip Hop salvará o mundo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Archbishop Desmond Tutu on Divestment


Arcebispo Desmond Tutu já pedia o fim da indústria petrolífera em 2013.
A principal ameaça ao nosso clima, biodiversidade, saúde humana e água: os combustíveis fósseis.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Dossiê Justiça Ambiental

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