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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Poema da Semana- Amor Vivo


Amar! Mas d'um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímido a arpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D'uma douda cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! Luz fundida
Que penetre o meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos -
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! E já a luz do dia
Não virá Dissipá-lo nos meus braços
Como névoa de fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra débeis amores... se têm vida?
Amor Vivo- Antero de Quental

domingo, 3 de janeiro de 2021

Descobri Fernando Pessoa, pela voz de Luís Cília- "O Menino de Sua Mãe"




Tinha 14 anos. Fiquei encantado e curioso. A partir daí explorei com profundidade toda a obra de Fernando Pessoa. E, sem dúvida, é o poeta, pensador que melhor descreve todos os momentos de tragédia e de felicidade individual e colectiva. Encontro paralelismos em obras de Malraux, Albert Camus e Sarte. Recuando um pouco atrás Antero de Quental e Vitor Hugo.

Poema de Fernando Pessoa, "A realidade é um bocado de Sol simples". Tão actual.

"É preciso criar abismos, para a humanidade que os não sabe saltar se engolfar neles para sempre.
Criar todos os prazeres, os mais artificiais possível, os mais estúpidos possível, para que a chama atraia e queime.
O problema da sobrepovoação, o problema da sobreprodução eliminam-se criando-se focos de eliminação humana (por meio de todos os vícios), criando focos de inércia humana (por meio de todas as seduções). Fazer suicidas, eis a grande solução sociológica.
É facil ouvir de qualquer megera limpa que «não crê na Lei de Cristo», é animá-la em seguir a não-lei de Cristo. Em três anos está gasta e finda, e então descobre que o pior de não seguir a lei de Cristo é que os outros a não seguem também. E o caixote do lixo recebe-a como às teorias dos mestres a quem ela ensinou.
É nosso dever de sociólogos untar o chão, ainda que seja com lágrimas, para que escorreguem nele os que dançam.
E comunistas, batonnières dos beiços, humanitários, cultos do internacionalismo - tudo isso colabora ardentemente na eliminação deles mesmos que se precisa. Depois, dos recantos das províncias, onde tomam chá com a família, ou lavram as terras sem teorias nem desejos, os fortes surgem e a civilização continua.
Porque sempre a Realidade é um bocado de sol simples, um quintal herdado e a certeza de ser um indivíduo."

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Antero de Quental, a missão revolucionária da poesia


COIMBRA - 2 NOV 1865 - Antero de Quental, com 23 anos, dirige a António Feliciano de Castilho, com 65, uma carta sobre o Bom Senso e Bom Gosto.

POETA E PENSADOR DO SÉCULO XIX, ANTERO DE QUENTAL FOI UMA LENDA EM COIMBRA. MESTRE DO SONETO, DEFENSOR DA MODERNIDADE, O ESCRITOR FEZ PARTE DE UMA DAS MAIS RICAS GERAÇÕES DE INTELECTUAIS PORTUGUESES. CONHEÇAMOS A VOZ INSULAR DO ACADÉMICO REVOLUCIONÁRIO.

Ex.mo Sr.
Acabo de ler um escripto[1] de v. ex.ª onde, a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres[2] se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso.
Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreoccupação de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indifferente, que é como que se a nada a reduzissemos.
Estas circumstancias pareceriam sufficiente para me imporem um silencio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para fallar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentissima de homem sem pretenções litterarias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo logar algum, mesmo infimo, na brilhante phalange das reputações contemporaneas, é por isso que, estando de fóra, posso como ninguem avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso tambem fallar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniencias, de precauções, de reticencias—ou, digamos a cousa pelo seu nome, de hypocrisia e falsidade. Livre das vaidades, das ambições, das miserias d'uma posição, que não pretendo, posso fallar nas miserias, nas ambições, nas vaidades d'esse mundo tão extranho para mim, atravessando por meio d'ellas e sahindo puro, limpo e innocente.
[...]
Paro aqui, ex.mo sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a v. ex.ª, aos seus cabellos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra phrase não tão reverente e tão lisongeira como eu desejára. Mas é que realmente não sei como hei de dizer, sem parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de sessenta annos; dizel-as eu com os meus vinte e cinco! V. ex.ª aturou-me em tempo no seu collegio do Portico, tinha eu ainda dez annos, e confesso que devo á sua muita paciencia o pouco francez que ainda hoje sei. Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria agora podel-o seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus exemplos, em poesia e philosophia como outr'ora em grammatica franceza, na comprehensão das verdades eternas como em outro tempo no entendimento das fabulas de La Fontaine. Vejo, porem, com desgosto que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco annos do culto das auctoridades dos dez; e que saber explicar bem Telemaco a crianças não é precisamente quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e gosto. Concluo d'aqui que a edade não a fazem os cabellos brancos, mas a madureza das idêas, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte e cinco annos têm-me as verduras de v. ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta. Posso pois fallar sem desacato. Levanto-me quando os cabellos brancos de v. ex.ª passam deante de mim. Mas o travesso cerebro que está debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que sahem d'elle, confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cincoenta annos de edade, ou então mais cincoenta de reflexão.
É por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma não me poder confessar, como desejava, de v. ex.ª
Coimbra 2 de Novembro de 1865.
Nem admirador nem respeitador
Anthero de Quental.
[1] No livro do sr. Pinheiro Chagas—Poema da Mocidade.
[2] Os srs. Theophilo Braga e Vieira de Castro.
Acabava de «nascer» a Questão Coimbrã, também conhecida como Questão do Bom Senso e Bom Gosto, uma célebre polémica literária que marcou a visão da Literatura em Portugal na segunda metade do século XIX.
Questão Coimbrã, como ficou conhecida a polémica do Bom Senso e Bom Gosto, colocou em oposição os jovens representantes do realismo e do naturalismo aos vetustos defensores do ultra-romantismo. Foi o primeiro sinal de renovação ideológica do século XIX.
António Feliciano de Castilho, futuro 1.º visconde de Castilho, escritor romântico, polemista e pedagogo, reuniu em seu redor um grupo de novos escritores a que Antero chamou de «escola de elogio mútuo».
Em 1865, solicitado a apadrinhar com um posfácio o Poema da Mocidade de Pinheiro Chagas, Castilho aproveitou a ocasião para, sob a forma de uma Carta ao Editor António Maria Pereira, censurar um grupo de jovens de Coimbra, que acusava de exibicionismo, de obscuridade propositada e de tratarem temas que nada tinham a ver com a poesia, acusava-os de ter também falta de bom senso e de bom gosto.
Os escritores mencionados eram Teófilo Braga, autor dos poemas Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras; e Antero do Quental, que então publicara as Odes Modernas.
Antero do Quental respondeu com uma Carta com o título "Bom senso e bom gosto" a Castilho, que saiu em folheto.
Nela defendia a independência dos jovens escritores; apontava a gravidade da missão dos poetas da época de grandes transformações em curso e a necessidade de eles serem os arautos dos grandes problemas ideológicos da actualidade, e metia a ridículo a futilidade e insignificância da poesia de Castilho.
Esta polémica, que durou meses, com frequentes trocas de publicações críticas de ambos os lados, terminou com a sobrelevação dos ideais preconizados pela Geração de 1870 (e sobretudo por Antero), o que provocou uma autêntica renovação cultural, acentuando o papel de intervenção social que a literatura deve ter, abalando as concepções retrógradas do ultra-romantismo, impulsionando a afirmação do realismo.
Antero do Quental tem na sua natureza o mar das ilhas atlânticas dos Açores, o azul da bonança que, num instante, se levanta em ondas agitadas. Antero de Quental (1842-1891) é esse espírito inquieto que vive entre “o sentimento e a razão, a sensibilidade e a vontade, o temperamento e a inteligência.”
Cedo começa a escrever sonetos, influenciado, confessa, por Alexandre Herculano. As heranças literárias da família fidalga de São Miguel, onde nasceu, especialmente do avô, poeta, íntimo de Bocage, também terão nele a sua influência. Do pai, combatente liberal, que em 1832 participa nas lutas entre D. Pedro e D. Miguel, herda o espírito lutador.
A Geração de Coimbra
Quando estudante na cidade das capas negras, a popularidade do jovem assume contornos de lenda. Eça de Queiroz recorda: “Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto e pasmo. – É o Antero! (…) Nesse tempo ele era em Coimbra, e nos domínios da inteligência, o Príncipe da Mocidade.(…)”
Antero envolve-se nas lutas académicas. O espírito revolucionário do jovem estudante de Direito fortalece nas leituras do novo ideário europeu que chegam com Proudhon, Hegel, Darwin, Goethe, Balzac… É desta altura a polémica conhecida por Questão Coimbrã, desencadeada pela carta que escreve intitulada “Bom Senso e Bom Gosto” contra Antero Feliciano de Castilho e o romantismo dos velhos mestres.
O grupo de Coimbra, a base da Geração de 70, a que pertenciam Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Teófilo BragaManuel de Arriaga, entre outros, irá depois reencontrar-se em Lisboa.
O grande impulsionador do grupo do Cenáculo, como mais tarde é denominado, é uma vez mais, Antero do Quental, que entretanto tivera a sua experiência operária de tipógrafo em Paris e regressara como “apóstolo do socialismo”. Todos querem mudar Portugal e acreditam que a literatura tem esse poder.
Em 1871 nascem as “Conferências do Casino” em que Antero apresenta “As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, os ataques que faz ao estado do país são tão violentos que as conferências são proibidas. A partir daqui desenvolve uma intensa atividade política, defende um federalismo europeu e é um dos co-fundadores do Partido Socialista .
O poeta de “Raios de Extinta Luz” e “Odes Modernas” , autor profícuo também de ensaios filosóficos, vive, a partir de 1873, atormentado por uma doença que o deixa debilitado no corpo e na alma. Isola-se em Vila do Conde. Acabará por se suicidar aos 49 anos com um tiro na cabeça, sentado num banco de jardim na ilha onde nasceu.
[texto partilhado do que acompanha o programa, um outro do programa da Antena 2 e o da carta de Antero, tudo isto disponível na «net»]

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Encontros improváveis: Mahdieh Mohammadkhani e Antero de Quental



Nirvana

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!


Antero de Quental, in "Sonetos"

sábado, 7 de junho de 2014

Poema da Semana: "Evolução" por Antero de Quental

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.


Antero de Quental, in "Sonetos"

domingo, 26 de janeiro de 2014

Arte-poema- Antero de Quental

 Ivy Jacobsen
Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre ideias e espíritos pairando…

Que é do Mundo ante de mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências…
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando…

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais…
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só pressentido…

Antero de Quental

domingo, 24 de março de 2013

Encontros Improváveis: Antero de Quental e The Beauty of Gemina - Endless Ever




Junto do Mar

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...

Antero de Quental, in "Sonetos"

O poema "Junto do Mar" é uma das expressões mais profundas da angústia metafísica de Antero de Quental, situando-se no período em que o autor mergulha num pessimismo filosófico influenciado por pensadores como Schopenhauer e Hartmann. Este soneto simboliza, acima de tudo, o confronto doloroso entre a inteligência humana, que procura desesperadamente um sentido para a existência, e a natureza, que se mantém muda, caótica e indiferente.

O cenário marítimo não serve como um elemento decorativo, mas sim como um espelho da alma do poeta. O mar, com a sua "trágica voz rouca", simboliza o Inconsciente, uma força primordial e cega que rege o universo. Ao personificar os elementos naturais — atribuindo ao mar um "lamento" e ao vento a hesitação do "pensamento" — Antero sugere que toda a criação partilha de uma dor comum. A natureza é vista como um conjunto de "seres elementares" e "forças obscuras" que agitam a matéria, mas que não possuem consciência de si mesmos.

A atitude do sujeito poético é a do filósofo que interroga o mistério. Ao perguntar "Em volta de que ideia gravitais?", o poeta procura encontrar uma causa racional ou um propósito divino por trás do movimento do mundo. No entanto, o símbolo final do poema é o do silêncio metafísico. A imensidão do mar apenas devolve um "bramido" e um "queixume", sons inarticulados que representam a ausência de uma resposta lógica.

Em suma, o poema simboliza a falência da razão perante o absoluto. Representa a solidão do ser humano que, dotado de consciência, se vê cercado por um universo imenso e imortal, mas que é incapaz de lhe oferecer consolo ou explicação, restando apenas o sentimento de um sofrimento universal e sem sentido.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Antero de Quental- Causa da decadência dos povos peninsulares


Discurso completo aqui
Dessa educação, que a nós mesmos demos durante três séculos, provêm todos os nossos males presentes. As raízes do passado rebentam por todos os lados no nosso solo: rebentam sob forma de sentimentos, de hábitos, de preconceitos. Gememos sob o peso dos erros históricos. A nossa fatalidade a nossa história,
Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? Para entrarmos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos a memória dos nossos avós: memoremos piedosamente os actos deles: mas não os imitemos. Não sejamos, à luz do século XIX, espectros a que dá uma vida emprestada o espírito do século XVI. A esse espírito moral oponhamos francamente o espírito moderno. Oponhamos ao catolicismo, não a indiferença ou uma fria negação, mas a ardente afirmação da alma nova, a consciência livre, a contemplação directa do divino pelo humano (isto é, a fusão do divino e do humano), a filosofia, a ciência, e a crença no progresso, na renovação incessante da Humanidade pelos recursos inesgotáveis do seu pensamento, sempre inspirado. Oponhamos à monarquia centralizada, uniforme e impotente, a federação republicana de todos os grupos autonómicos, de todas as vontades soberanas, alargando e renovando a vida municipal, dando-lhe um carácter radicalmente democrático, porque só ela é a base e o instrumento natural de todas as reformas práticas, populares, niveladoras. Finalmente, à inércia industrial oponhamos a iniciativa do trabalho livre, a indústria do povo, pelo povo, e para o povo, não dirigida e protegida pelo Estado, mas espontânea, não entregue à anarquia cega da concorrência, mas organizada duma maneira solidária e equitativa, operando assim gradualmente a transição para o novo mundo industrial do socialismo, a quem pertence o futuro. Esta é a tendência do século: esta deve também ser a nossa. Somos uma raça decaída por ter rejeitado o espírito moderno: regenerar-nos-emos abraçando francamente esse espírito. O seu nome é Revolução: revolução não quer dizer guerra, mas sim paz: não quer dizer licença, mas sim ordem, ordem verdadeira pela verdadeira liberdade. Longe de apelar para a insurreição, pretende preveni-la, torná-la impossível: só os seus inimigos, desesperando-a, a podem obrigar a lançar mãos das armas. Em si, é um verbo de paz, porque é o verbo humano por excelência.
Meus senhores: há 1.800 anos apresentava o mundo romano um singular espectáculo. Uma sociedade gasta, que se aluía, mas que, no seu aluir-se, se debatia, lutava, perseguia, para conservar os seus privilégios, os seus preconceitos, os seus vícios, a sua podridão: ao lado dela, no meio dela, uma sociedade nova, embrionária, só rica de ideias, aspirações e justos sentimentos, sofrendo, padecendo, mas crescendo por entre os padecimentos. A ideia desse mundo novo impõe-se gradualmente ao mundo velho, converte-o, transforma-o: chega um dia em que o elimina, e a Humanidade conta mais uma grande civilização.
Chamou-se a isto o Cristianismo.
Pois bem, meus senhores: o Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno.

Ver Programa
A suspensão das conferências do Casino

E-livro aqui

terça-feira, 15 de junho de 2004

Podas camarárias e a Arte de lidar com as Árvores em Portugal - Que justificação para o exagero?



1. UM JARDIM MULTIFUNCIONAL
por Paulo Araújo, Campo Aberto- Público, 11/06/04

Todos os domingos, ao princípio da tarde, se junta muita gente à entrada do Hospital de Santo António para visitar os seus doentes. O estacionamento é caótico e não parece haver qualquer esforço em discipliná-lo: afinal, também os agentes da lei têm direito a descansar ao sétimo dia. Com as alterações viárias recentemente ocorridas, passou a ser fácil o acesso da Cordoaria ao Hospital.
Resultado: é ver aquele larguíssimo passeio que delimita o jardim, paralelo à alameda dos plátanos, preenchido com automóveis, alguns deles pisando mesmo a relva; e, para completar o quadro, os condutores mais afoitos sobem ao próprio jardim e estacionam na alameda, à sombra dos plátanos. Haverá quadro mais eloquente do nosso irrecuperável atraso civilizacional?

2. MUTILAÇÕES RITUAIS
por Paulo Araújo, Campo Aberto - Público, 11/06/04

As jovens tílias da rua D. Manuel II, frente ao edifício Cristal Park, entraram finalmente na idade adulta: sofreram, em plena Primavera, a primeira poda da sua vida. Depois de uma juventude despreocupada, em que desenvolveram copas frondosas, e quando se preparavam para florir, sabem agora que a vida não é para brincadeiras: toca a aparar a cabeleira, que ninguém lhes perdoa a beleza.
Daqui em diante irão crescer em conformidade com as regras municipais: disformes e debilitadas. A seu tempo serão diagnosticados como seriamente doentes e abatidas em nome da segurança pública; logo virão outras para cumprir o mesmo triste ciclo. As muitas ruas arborizadas do Porto podiam ser bonitas; mas o que temos, em muitas delas, são árvores grotescas e débeis, vítimas periódicas de mutilações rituais.

PODAS CAMARÁRIAS
por Raul Rodrigues,ASPA - ASSOCIAÇÃO PARA A DEFESA, ESTUDO E DIVULGAÇÃO DO PATRIMÓNIO CULTURAL E NATURAL (Braga)- Entre Aspas,26/01/04

Estas podas deveriam ser banidas porque são manifestamente prejudiciais, quer para a saúde das árvores, quer para o bolso do contribuinte. As árvores assim podadas perdem o seu porte natural e, portanto, a sua beleza. Quando se elimina uma grande quantidade das suas reservas armazenadas nos ramos e troncos, as árvores ficam debilitadas e, consequentemente, mais vulneráveis ao ataque de pragas e doenças.

O que é a mutilação das árvores? A mutilação é uma poda indiscriminada dos ramos das árvores, deixando apenas alguns troncos ou mesmo apenas o simples tronco principal da árvore. Trata-se de uma prática de poda bastante difundida e, ao mesmo tempo, a mais perniciosa para a saúde e longevidade das árvores. Apesar da generalidade dos especialistas em podas de árvores condenarem esta prática, ela continua a ser uma prática comum na nossa cidade.

Várias são as "falsas" razões para se justificar a mutilação das árvores: necessidade de se reduzir o tamanho da árvore quando esta é demasiado grande para o local onde foi implantada; receio das árvores grandes constituírem um perigo, etc., etc. A mutilação não é um método viável para reduzir a altura da árvore nem tão pouco para reduzir o risco de queda, antes pelo contrário, a mutilação fará uma árvore mais perigosa a médio e longo prazo (Ex: Av. Central, Traseiras do edifício da Câmara Municipal de Braga, Mata do Bom Jesus, Av. Imaculada Conceição).

Consequências da mutilação das árvores: esta prática elimina uma grande parte da copa das árvores chegando nos casos mais drásticos à eliminação total. Como consequência, a superfície fotossinteticamente activa (as folhas que são como que uma fábrica de alimento das árvores) é parcial ou totalmente eliminada, pelo que a árvore fica bastante debilitada (pode passar fome). Esta gravidade da poda, estimula um tipo de mecanismo de sobrevivência, no sentido da árvore se recompor do traumatismo sofrido, recorrendo para tal às suas reservas energéticas. Se a árvore não dispõe de tais reservas em abundância, ficará gravemente debilitada, podendo em muitos dos casos morrer (lódãos, na Av. Imaculada Conceição). Uma árvore debilitada, fica mais vulnerável ao ataque de pragas e doenças, sendo que alguns insectos acabam por se aproveitarem destas debilidades e instalar aí as suas colónias, acelerando nalguns casos a morte das árvores (Ex: Tílias da Av. Central).
Sem folhas, (durante cerca de meio ano nas nossas condições) uma árvore decapitada fica completamente desfigurada e debilitada, e jamais recuperará por completo a sua forma natural. A decapitação é uma prática incoerente com a fisiologia das árvores, cientificamente errada e socialmente inaceitável.

A mutilação acarreta riscos. Como resposta aos cortes violentos, as árvores recorrem a um mecanismo de sobrevivência que as levam a produzir múltiplos rebentos causando um grande desgaste. Os novos rebentos crescem muito rapidamente, podendo nalgumas espécies alcançar 6 metros no primeiro ano. Infelizmente, estes novos ramos têm tendência para esgaçar com facilidade, principalmente por acção de ventos fortes. Neste caso, vira-se o feitiço contra o feiticeiro, em que a mutilação vista como uma forma de proporcionar segurança, torna-se numa forte ameaça para os transeuntes.

A mutilação sai cara. O custo com a mutilação, não se limita apenas aos encargos com mão-de-obra e maquinaria. Se a árvore sobrevive, necessitará de outra poda dentro de poucos anos, voltando novamente a ser severamente castigada. Se a árvore morre, será pura e simplesmente abandonada no local até que a natureza ou alguém se encarregue de a retirar de lá.

Responsabilidade civil. Outro custo das árvores podadas violentamente ao longo de vários anos tem a ver com a responsabilidade civil. Estas árvores com maior propensão ao esgaçamento, podem constituir um risco não negligenciável, pelo que qualquer dano provocado pela queda de um ramo de uma árvore mutilada poderá levar a um veredicto de negligência nos tribunais.

É errado o conceito tão difundido no que respeita a vantagens ou benefícios que significa a poda para a árvore. No que respeita à poda do arvoredo urbano, há vários conceitos e práticas erróneas, que se transmitem de geração em geração, sem que haja coragem ou vontade política de pôr cobro a tais situações.
Nalgumas espécies, quando se utiliza erradamente uma técnica de poda, observa-se normalmente o aparecimento de podridões (como consequência da contaminação por fungos oportunistas). Este processo é irreversível, leva ao declínio prematuro e frequentemente à morte das árvores.

OS TOUROS EM BARRANCOS E AS ÁRVORES EM COIMBRA
Carlos Noronha,OzOlivais Diário das Beiras, 31/08/2000

Na minha opinião a tradição é um direito das populações e deve ser preservada.

As características peculiares das comunidades definem-se pelas suas atitudes e comportamentos, de carácter repetido, ao longo dos tempos.

Nos últimos anos, na cidade de Coimbra, têm-se verificado um conjunto de comportamentos que, pelo seu caráter repetido e sistemático, iniciam um processo de construção de uma "nova tradição". A forma como as gentes de Coimbra, ou aliás, os seus representantes, se têm relacionado com as árvores têm constituído não mais do que uma interessante forma de tradição: a interessante e peculiar Arte de "Lidar" as árvores e as zonas verdes da cidade - "Árvores de morte".

Atendemos a alguns ilustres exemplos desta verdadeira Arte:

A "arte da poda radical" tem possibilitado, nos últimos anos, a existência de verdadeiras esculturas dinâmicas pelas ruas e praças da cidade, como por exemplo a Av. Afonso Henriques e Praça da República. Até alguns pequenos Plátanos na Quinta das Flores também já foram sujeitos àquela arte.

Uma outra técnica mais peculiar, pois requer uma maior atenção do observador ao nível do solo, é a omissão das caldeiras (área de terra na base das árvores por onde estas captam água e nutrientes) ou a construção de uma caldeira com o perímetro de cada tronco. Estas "artes de lidar as árvores" podem-se observar nas árvores da Rua Antero de Quental e da Av. Navarro.

Em Coimbra consegue-se fazer das árvores verdadeiros bens do mobiliário urbano. Na baixa da cidade, Praça Velha, está prevista uma rearrumação de árvores com cerca 20 anos.

Temos assistido ao aparecimento de alguns pequenos movimentos de cidadãos que têm tentado, sem grandes resultados, impedir que o desenvolvimento desta "nova tradição". No que se refere ao projecto de construção de um parque de estacionamento na Praça da República, Uma comissão cívica "Salvemos a Praça" tenta evitar que assistamos a uma verdadeira e peculiar demonstração desta recente tradição Coimbrã, ou Lide das árvores de morte.

Mas os aficcionados destas lides de morte poderão estar descansados que a tradição tem-se cumprido e continuará a cumprir-se em Coimbra. Recentemente com o desbaste de um número considerável de árvores nas margens do rio numa zona que agora se denomina de "Parque Verde"! e, em breve, com construção de um hotel de 5 estrelas numa zona considerada, há apenas uns meses, como reserva ecológica nacional.

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