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quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Imperativo Biológico: Ecologia Pura e sobrevivência na Era da Simulação


No fecho desta década de 2020, a humanidade encontra-se numa encruzilhada moldada por uma profunda contradição. Por um lado, enfrentamos o esgotamento dos sistemas biofísicos da Terra; por outro, assistimos à ascensão meteórica da Inteligência Artificial (IA), uma infraestrutura tecnológica abstrata que consome recursos tangíveis a um ritmo sem precedentes. Tentamos curar uma ausência profunda de contacto com o mundo natural através de ecrãs brilhantes, mas a verdade subjacente permanece inalterável: a IA nunca saciará a nossa fome biológica pelo toque da terra, pelo voo de uma borboleta ou pelo aroma da floresta.

Quando escolhemos pausar, observar e registar um ser vivo real, estamos a exercer um ato de resistência cultural. A inteligência artificial é apenas uma ferramenta; ela não pode substituir o dever sagrado da preservação da natureza. A verdadeira conservação significa muito mais do que qualquer tecnologia simulada alguma vez poderá oferecer. Precisamos, urgentemente, de regressar à Ecologia Pura - o estudo científico das interações que determinam a distribuição e abundância dos organismos vivos na sua essência não domesticada - e de regular a tecnologia para salvaguardar a nossa própria sobrevivência.

A Década do rebound e a ilusão da desmaterialização
Ao olharmos para os desafios desta década que agora chega ao fim, o maior deles foi a ilusão de que o mundo digital era etéreo. A expansão dos modelos de linguagem e da computação generativa transformou os bits em fardos ecológicos massivos. Estudos recentes sobre a pegada carbónica e hídrica da IA indicam que o consumo elétrico dos centros de dados duplicou substancialmente nos últimos anos (Wheeler, 2026).

O impacto ambiental da IA segue uma dinâmica conhecida como o Paradoxo de Jevons: à medida que a tecnologia se torna mais eficiente, o seu custo diminui, o que gera um aumento explosivo na procura que anula os ganhos ecológicos iniciais. O treino e a inferência contínua de grandes modelos exigem volumes críticos de dissipação de calor, gerando uma pegada hídrica local severa em regiões que já sofrem de stress hídrico (Pinheiro Privette, 2026). Proteger a nossa sobrevivência exige reconhecer que a computação não flutua numa nuvem; está, sim, ancorada na biosfera.

A Filosofia da teia viva: Capra, Abram e a Matriz Biológica
Para compreender a urgência da regulação da IA, é crucial resgatar o pensamento sistémico de Fritjof Capra e a ecologia fenomenológica de David Abram. Capra demonstrou que a vida é uma rede de padrões interdependentes, onde nenhum elemento subsiste isoladamente. A mentalidade mecanicista que vê a IA como o apogeu da evolução humana comete o erro elementar de isolar a mente do corpo e o organismo do seu habitat.

David Abram, em The Spell of the Sensuous, lembra-nos de que a nossa própria perceção e linguagem nasceram do diálogo com um ecossistema animado. O vento, o sol e a terra não são estímulos secundários; são os coautores da consciência humana. A IA carece desta reciprocidade sensorial. Ela processa sintaxe, mas não experiencia o significado. Substituir a nossa orientação na Terra por arquiteturas algorítmicas cria uma forma profunda de solipsismo tecnológico, uma cegueira ecológica que nos permite destruir os suportes da vida planetária enquanto otimizamos métricas digitais virtuais.

O Princípio de "Metade da Terra" como meta de sobrevivência
A Ecologia Pura lembra-nos de que a natureza tem limites invioláveis de resiliência. O ecologista Edward O. Wilson, um dos maiores defensores da biodiversidade, formalizou a teoria da biogeografia de ilhas (Handel, 2022), demonstrando como a fragmentação dos habitats acelera a extinção de espécies. Diante disso, Wilson e a nova geração de cientistas que lhe seguiu as pisadas consolidaram o princípio do "Half-Earth" (Metade da Terra): a necessidade imperativa de destinar cerca de metade da superfície terrestre e marítima do planeta à conservação estrita, livre da intervenção industrial humana 

A premissa científica é exata e matemática:

Espécies PreservadasÁrea Conservadaz

De acordo com este modelo de área-espécies, se protegermos 50% dos habitats globais de forma estrategicamente otimizada, garantiremos a sobrevivência de aproximadamente 85% a 90% da biodiversidade planetária (Pimm et al., 2018). Sem esta meta, os ecossistemas colapsarão num efeito dominó, comprometendo os ciclos de carbono, azoto e oxigénio de que dependemos. A inteligência artificial pode mapear estes dados, mas apenas a governação humana e a contenção económica podem implementar esta reserva de vida (Ellis & Mehrabi, 2019).

Conclusão: a urgência da regulação e o regresso à Terra
Regular a IA nesta viragem de década não é apenas uma questão de mitigar a desinformação, salvaguardar a propriedade intelectual ou proteger postos de trabalho; é um imperativo de segurança ecológica. A regulamentação deve impor limites estritos ao consumo energético e hídrico das infraestruturas digitais (Vandenbergh, 2026), obrigando as corporações tecnológicas a subordinarem-se aos limites biofísicos da Terra.

A biosfera é a única tecnologia verdadeiramente insubstituível. Ela carrega ADN, luta pela sobrevivência e reage de forma dinâmica ao vento e ao sol. Salvaguardar a nossa própria existência exige que libertemos o olhar dos ecrãs e olhemos para o solo que pisamos. O futuro não pertence às máquinas que simulam o pensamento, mas às comunidades vivas que protegem a integridade do planeta que respira.

domingo, 5 de julho de 2026

Europe to redefine oil as “sustainable”


The Council's Sustainable Finance Disclosure Regulation (SFDR) revision drops the exclusion that kept fossil fuel expansion out of Europe's transition funds. The decision landed in the middle of the continent's most severe heatwave on record.

In the same week that France logged its hottest day since national records began in 1947, the European Union moved to loosen what the word “sustainable” is allowed to mean on a fund label.

The two events were not connected by design. They were connected by date. On June 24, as a heatwave that the World Weather Attribution group of scientists described as the most severe ever recorded in the region gripped Western Europe, the Council of the European Union adopted its negotiating position on a revision of the SFDR, the EU's rulebook for sustainable financial products. The same group of scientists concluded that June heat of this intensity would have been virtually impossible fifty years ago without human-caused warming. By the end of that week, the World Health Organization's director-general said more than 1,300 excess deaths had been recorded across Europe since June 21.

That was the backdrop against which Europe decided to make room for oil in its sustainable investment rules.
The Council removed the one line that kept oil expansion out of sustainable funds


SFDR was built in 2021 to do two things: steer capital toward the low-carbon transition, and make greenwashing harder. The current revision, often called SFDR 2.0, sorts products into three new categories: sustainable, transition, and ESG basics.

The European Commission's own proposal would have excluded companies expanding their fossil fuel activities from the transition category altogether. The Council deleted that exclusion. In its place, a company opening new oil and gas fields can still qualify for a transition label, provided that around 20% of its capital expenditure is aligned with the EU taxonomy of green activities, and that it adopts a time-bound plan to reduce its operational emissions.

Consider a company that pours the bulk of its capital into expanding oil production and a fifth into wind and solar. Under the Council's proposal, it could still carry a transition label. That label is not cosmetic. Transition and sustainable funds shape how pension funds, insurers, and asset managers allocate trillions of euros, so what the word certifies is not a technicality.

A 20% test on the wrong emissions cannot capture an oil company's real footprint
Here is the detail the headline number hides. The requirement to cut emissions covers a company's Scope 1 and Scope 2, the pollution from running its own operations. It does not touch Scope 3, the emissions released when customers burn the oil and gas the company sells. For a fossil fuel producer, Scope 3 is the overwhelming majority of the harm, by many estimates 80% to 95% of the total. The rule scores the small share and ignores the rest.

The scale of the mismatch is easy to miss. Global clean energy investment is on track to reach around $2.2 trillion in 2026, close to double the money flowing into fossil fuels, according to the International Energy Agency. Yet oil and gas companies account for less than 5% of that clean energy spending. A rule that rewards a 20% capex slice, while ignoring the product itself, measures the smallest part of the story.

A few billion invested in renewables does not cancel out billions spent locking in new fossil production for decades. One reduces future emissions; the other commits them. They are not equivalent, financially or scientifically.

The new definition mirrors the position of a company a court has already faulted
The Council did not invent these criteria in a vacuum. They closely resemble arguments long advanced by parts of the oil industry, which has pressed for a transition category broad enough to take in continued fossil production. TotalEnergies is the most visible example. Between January and June 2026, according to European Parliament transparency records, the company held around 35 meetings with members of the Parliament, several referencing SFDR directly, and its own strategy targets putting 20% of its portfolio into power and low-carbon energy by 2030, the same one-fifth threshold the Council settled on. That is not proof that one produced the other. It is a striking convergence between what an oil major asked for and what member states agreed.

There is a sharper irony in the timing. In October 2025, the Paris Judicial Tribunal found that TotalEnergies had misled consumers with claims about its ambition to reach carbon neutrality by 2050, made while it continued to expand oil and gas production, and ordered the offending statements removed. The company said it would not appeal, and the judgment became final. Less than a year later, the Council is proposing a definition of transition that would let a company doing what the court described, expanding fossil fuels while investing a minority share in cleaner energy, carry a transition label across Europe.

The court's reasoning lands on the same point the fund rule misses. What made the claim misleading was the gap between a transition image and continued fossil expansion. The Council's 20% test widens that gap and stamps it as compliant.

I put these questions to TotalEnergies before publication of this article. In response, a company spokesperson said:
“TotalEnergies' position on the SFDR is well known and has been publicly expressed by the Company in its response to the European Commission's consultation dated 6 April 2026. It is available on the European Commission's website.”
On the court ruling, the spokesperson referred me to a company clarification.

In that clarification, TotalEnergies stresses that the tribunal dismissed most of the claims against it, that the decision concerned three paragraphs about its carbon-neutrality ambition on a French affiliate's customer website rather than its advertising, and that no advertising by its French affiliates was condemned. The company rejects the charge of greenwashing and sets out its record at length: more than €20 billion invested in low-carbon energy worldwide since 2020, €4 billion of it in France; 32 gigawatts of installed renewable capacity producing 50 terawatt-hours of electricity in 2025, up from close to zero in 2020; selection to build France's largest ever renewables project, a €4.5 billion offshore wind farm; and cuts of 36% in emissions from its operated oil and gas facilities between 2015 and 2024, and 55% in methane between 2020 and 2024.

Those last figures, though, are reductions on the company's own operations, the Scope 1 and 2 the fund rule already counts, not on the far larger emissions released when the oil and gas it sells are burned.
The Council says fossil fuel companies still have a role to play

Asked about the greenwashing criticism, a Council spokesperson said companies active in the fossil fuel sector can still contribute to the transition, for example by developing low-carbon fuels or building electric vehicle charging infrastructure.

Campaigners see it differently. Reclaim Finance argued that governments had given in to lobbying from oil majors and opened the door to greenwashing of fossil fuel investment, framing the coming parliamentary vote as a choice between a fossil future and the wellbeing of European citizens.
A weaker label still has to point in the right direction

The Council's defenders make a real argument, and it deserves a fair hearing. The transition category was never meant to be the strictest tier. It exists to finance messy, real-world decarbonization rather than a handful of already-clean companies, and drawing the line too hard, they warn, would only push capital out of Europe into markets with weaker disclosure, or starve the hard-to-abate sectors that most need it.

The argument holds until you look at what the test actually rewards. A transition label, however lenient, has to certify one thing, that a company is moving away from fossil fuels. The Council's version does not require even that. A company can raise its oil output year after year and still qualify, as long as a fifth of its spending points elsewhere. That is not a permissive standard for transition. It is the absence of one, on the single variable that decides whether a transition is happening at all.

There is also a cleaner way to do the thing the rule claims to enable. An oil company that wants to raise money for a wind farm can already issue a green bond, where the proceeds are ring-fenced to that named project and reported on. The capital reaches the clean asset without the parent company's oil expansion borrowing the "sustainable" label. That is the honest instrument, and it exists. What the Council's change adds is not access to green finance but permission to badge the whole enterprise, oil growth included, as transition.

And the fear of capital fleeing Europe cuts the other way. A label that certifies expansion in order to keep money onshore has not kept the money honest. It has moved the greenwashing inside the rulebook.
The decision is not final, and that is where the leverage sits

The Council has agreed only its negotiating position. The European Parliament's economic affairs committee is due to vote on its amendments on July 15, with the full Parliament expected to adopt its position after the summer, before trilogue negotiations with the Council and the Commission later in the year. The direction can still change.

The exclusion the Council stripped out was the Commission’s own. Under the Commission’s proposal, companies expanding their fossil fuel activities are barred from the transition category outright. But the Commission is not a bystander here. It opened the SFDR up in the name of simplification, a drive to cut reporting burdens on the financial industry, and the Council followed that logic a step further. A revision the Commission sold as a remedy for greenwashing is turning into a license for it.

I asked the European Commission directly whether it stands by that exclusion and will defend it in the negotiations. Its full, on-the-record reply was this:

“The Commission remains fully committed to engaging constructively with the co-legislators to achieve a balanced and timely agreement on the proposal.”
A spokesperson also referred me to the Commission's published reasoning, which sets out the exclusion in its own text.

The response leaves the Commission's position open to interpretation. While it does not say the Commission has abandoned its original proposal, it also does not explicitly reaffirm that it will defend this particular safeguard during the negotiations. The stronger rule still exists on paper. Whether it survives the legislative process will depend on the negotiations ahead, and particularly on the outcome in the European Parliament.

The problem was never the oil. It is the label.
Here the argument is easily misread, so it is worth stating plainly. The world will keep burning oil for years while it builds the alternatives. Reasonable people can debate whether Europe is better off pumping some of its own rather than importing every barrel, and amid a run of Middle East supply shocks, that energy-security case is not frivolous. But it is a different question from the one the Council has answered.

Nobody has to call a new oil field clean in order to keep the lights on. Oil can be produced, taxed, regulated, and wound down on a schedule, without being sold to a saver as a contribution to the energy transition. The decision in front of Europe is not whether the oil comes out of the ground. It is whether pulling it out counts as sustainable investment. That is the smaller question, and the far more dangerous one.

If oil is green, nothing is
A sustainable label is not a badge of virtue. It is a piece of information. Markets run on information. A pension fund, an insurer, or a saver moving money into a green product cannot audit a company's drilling plans. They trust the label to tell them what their capital is doing. Europe's sustainably labeled fund market, worth around €10 trillion, exists because that one word is assumed to mean something specific.

Stretch the word to cover a company opening new oil fields, and it stops carrying information. If the same label sits on a wind developer and on an oil major with a 20% side project, it no longer tells them apart. The investor who wanted the real thing can no longer find it. And the company doing the genuine, expensive work of transition loses the one advantage the label was meant to confer, cheaper capital and patient shareholders who believe the plan. Economists have a plain description for markets where buyers cannot separate quality from imitation. The honest product gets crowded out, and in time nobody pays a premium for the label at all.

The damage does not stop at oil. Once extraction qualifies as transition on a one-fifth capex test, every hard-to-abate sector arrives with the same claim, coal with a capture pilot, an airline with a fuel pledge, until the category describes almost everyone, which is another way of saying it describes no one. If oil extraction is green, the honest answer to what is not green becomes very little.

The timing sharpens the risk. Sustainable investing is already on the back foot, worn down by years of greenwashing scandals, funds quietly stripped of their green labels, and a political backlash that treats ESG as an insult. The SFDR move is not an isolated event. In the same days, under pressure from the Trump administration, the World Bank retired its headline target to steer 45% of lending toward projects with climate benefits, and the International Monetary Fund’s own watchdog reported a fading focus on climate, even as the underlying programs survived. That survival was not a gift: at the World Bank, a coalition of nearly 100 countries held the line and forced the plan to continue over Washington's objection, a reminder that the pressure runs both ways. Trust in the category is the scarce resource, and the SFDR revision was written to rebuild it with clearer and stricter definitions. On this one provision, it would do the reverse. It would take the reform meant to restore the meaning of sustainable finance and spend it dissolving the meaning of the word at its center.

Europe does not have to choose between energy security and climate credibility. It can pursue both. What it cannot do is tell investors that new oil production is sustainable without changing the meaning of the word itself. The July vote decides more than the fate of one regulation. It decides whether a green label still carries information an investor can trust, and with it the integrity of the market built on that single word.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Paul Krugman - Porque é que toda a gente odeia a IA


Muitos leitores estarão provavelmente parados na cena do vídeo acima: Eric Schmidt, o antigo CEO da Google, fez recentemente um discurso de formatura no qual anunciou a chegada da IA - e foi fortemente vaiado pelos estudantes. Isto não foi um caso isolado. Têm ocorrido vários incidentes semelhantes ultimamente, prova de que muita gente odeia agora genuinamente a IA.

Estaremos a falar de uma minoria barulhenta mas não representativa? Não. Uma sondagem recente do Pew Research Center revelou que os adultos americanos acreditam, por uma margem larga, que a IA será negativa para a sociedade e, por uma margem menor, que será má para eles a nível pessoal.


Mas não se sentirá o público sempre assim perante a inovação? A análise do Pew sobre as suas próprias conclusões deu a entender isso mesmo, declarando que:
"A nova tecnologia é frequentemente recebida com um certo grau de curiosidade, bem como de ceticismo. À medida que mais americanos incorporam a IA nas suas vidas, surgem preocupações generalizadas sobre o seu impacto, a sua velocidade e sobre se o governo a consegue regular adequadamente."
Contudo, as próprias sondagens passadas do Pew sugerem que, historicamente, a maioria dos americanos acolheu bem os avanços nas tecnologias de informação. Uma sondagem de 1999 sobre as atitudes face à internet (que ainda era uma novidade) revelou visões extremamente positivas sobre os computadores e a tecnologia, especialmente entre os utilizadores da internet.

E em 2015, quando as redes sociais eram ainda relativamente recentes, o Pew descobriu que 71% do público afirmava que as empresas tecnológicas "têm um impacto positivo na forma como as coisas estão a correr neste país", com apenas 17% a expressar uma opinião negativa.

O facto é que, no passado, os americanos geralmente recebiam as tecnologias emergentes com otimismo. O que explica, então, a atual hostilidade contra a IA? Permitam-me oferecer várias explicações que não se excluem mutuamente.

Primeiro, tememos que a IA faça coisas terríveis porque as empresas que a vendem nos disseram que ela faria coisas terríveis. No ano passado, por exemplo, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, declarou numa entrevista à Axios que a IA poderia eliminar metade dos empregos administrativos de nível de entrada e elevar o desemprego geral para uns impressionantes 20% no espaço de 1 a 5 anos.

Mais recentemente, Amodei e Sam Altman, da OpenAI, tentaram recuar nas suas previsões de um "apocalipse do emprego". Mas por que razão estiveram eles tão dispostos a promover visões apocalípticas em primeiro lugar? A resposta é dinheiro. Eles promoveram a ideia de que tinham uma tecnologia que iria transformar rápida e radicalmente a economia, em parte para deslumbrar Wall Street e garantir financiamento, e em parte para assustar as empresas, levando-as a correr para a adoção da IA por medo de ficarem para trás.

Só tardiamente se deram conta de que declarar que a sua tecnologia iria causar devastação geraria uma reação pública adversa, e que essa reação seria um problema sério. Na verdade, não é apenas o público em geral que está a atacar as empresas que usam ameaças de um apocalipse como estratégia de marketing. Até as grandes corporações dizem que já basta. Satya Nadella, CEO da Microsoft, que se tem mostrado visivelmente relutante em alinhar no fanatismo da IA, disse recentemente ao Wall Street Journal:
"Não se pode dizer, 'olhem, todos os empregos administrativos desapareceram, isto pode até ser uma arma e vamos usar toda a energia disponível para construir centros de dados'."
Segundo, muitas pessoas comuns veem a IA de forma negativa porque sentem que esta lhes está a ser imposta.
É verdade que muitas pessoas utilizam voluntariamente grandes modelos de linguagem (LLMs) por conveniência pessoal ou como ferramenta de produtividade profissional. Mas uma parte significativa do uso da IA não é voluntária. Esta manchete do Wall Street Journal de fevereiro diz tudo: "Empresas obrigam trabalhadores a usar ferramentas de IA".

Porque estão as empresas a fazer isto? Presumivelmente, acreditam que a IA irá aumentar a produtividade. Mas, de igual modo, estão a responder à pressão dos mercados financeiros, que estão a recompensar as empresas que adotam rapidamente a IA, aparentemente sem olhar a resultados demonstrados.

E enquanto os trabalhadores americanos são coagidos a usar a IA, os consumidores americanos estão a ser alimentados à força com IA, queiram ou não. O caso mais dramático é o da Google, que substituiu o seu motor de busca pela IA, sem oferecer a opção de desativar essa função. É preciso recorrer a truques obscuros ou a sites de terceiros para obter os resultados de pesquisa tradicionais.

Portanto, muitas pessoas sentem, com razão, que não estão a ter a liberdade de escolher se querem ou não usar a IA — não usar IA tornou-se difícil, tanto como trabalhador quanto como consumidor.

Terceiro, os centros de dados (datacenters) são uma lembrança altamente visível dos custos da IA. Os centros de dados ocupam extensões enormes de terra — um local proposto no Utah terá o dobro do tamanho de Manhattan. Eles devoram eletricidade e água. Quando geram parte da sua própria energia, criam uma enorme poluição local. Como seria de esperar, há uma oposição intensa à construção de centros de dados. De acordo com uma sondagem da Reuters/Ipsos, 57% os americanos — dois terços dos democratas e metade dos republicanos — opor-se-iam a um centro de dados no seu bairro. Apenas 14% apoiariam.

Quarto, mesmo antes do advento da IA, as empresas tecnológicas já tinham perdido a confiança do público. Ao longo dos anos, o Pew tem questionado regularmente o público sobre as suas opiniões acerca das empresas de tecnologia, perguntando se estas têm um efeito positivo ou negativo "na forma como as coisas estão a correr". Em 2015, a opinião pública sobre as tecnológicas era esmagadoramente positiva. Em 2022, o ano em que o ChatGPT foi lançado, essa boa vontade tinha-se evaporado.


Porque é que os americanos se viraram contra as empresas tecnológicas? Embora isso reflita certamente uma crescente consciencialização dos danos psicológicos e sociais causados pelas redes sociais, muito deve-se também à "merdificação" (enshittification) dos produtos tecnológicos.

Finalmente, a IA está fortemente ligada, na mente do público, aos oligarcas tecnológicos que a estão a impulsionar. Há uma perceção generalizada da crescente concentração de riqueza e poder no topo, e de como isso está a distorcer a nossa política e a prejudicar a nossa sociedade. À exceção dos fiéis do movimento MAGA, os americanos apoiam esmagadoramente políticas governamentais para reduzir a desigualdade de riqueza.



E a IA é amplamente vista, com boas razões, como uma tecnologia que irá aumentar a concentração de riqueza no topo. De facto, como referi, as próprias empresas de IA já nos disseram que a tecnologia terá efeitos extremamente negativos nos trabalhadores.

Existem, portanto, múltiplas razões que se reforçam mutuamente para o público ver a IA de forma negativa. E não, isto não é o ceticismo normal diante da mudança. Esta reação adversa intensa é especial.

E esta reação já está a ter grandes consequências políticas. É verdade que a indústria da IA, fiel ao seu estilo, tem injetado dinheiro nas eleições num esforço para impulsionar políticos amigáveis e derrotar os críticos. Mas a maioria destes esforços falhou. Na verdade, aceitar dinheiro da IA ou estar associado à tecnologia em geral está a começar a parecer politicamente tóxico.

Há um forte elemento de justiça poética nesta reviravolta. A indústria da IA tornou-se deliberadamente ameaçadora como estratégia financeira, acreditando que os mercados recompensariam a aparência de estar na "vanguarda radical". Ao fazê-lo, no entanto, a tecnologia tornou-se altamente impopular. E mesmo numa era em que o dinheiro compra o poder demasiadas vezes, a opinião pública importa.

terça-feira, 23 de junho de 2026

António Guterres exige "toda a verdade" sobre o custo climático da IA

O secretário-geral da ONU avisou que o mundo precisa de agir com "muito mais urgência" para limitar o aquecimento global. O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou os líderes do setor da Inteligência Artificial a “dizerem toda a verdade” sobre o impacto ambiental dos centros de dados, apontando o dedo aos combustíveis fósseis.

“Chega de custos escondidos. Chega de impor este fardo aos mais vulneráveis. É tempo de dizer toda a verdade. Se a IA quer contribuir para a construção de um futuro melhor, precisa de ser honesta sobre o seu custo atual”, disse António Guterres esta terça-feira, durante o seu discurso na Semana de Ação Climática de Londres, um evento anual realizado na capital britânica.

O secretário-geral da ONU anunciou o lançamento da Iniciativa de Transparência Ambiental da IA, que exigirá que os gigantes globais da inteligência artificial calculem e divulguem a pegada ambiental das suas atividades — em termos de carbono, água e uso da terra, por exemplo. As empresas ficam comprometidas, então, a abastecer essas atividades com energia renovável até ao final da década.

“As comunidades desconhecem muitas vezes o impacto ambiental da infraestrutura que está a ser desenvolvida à sua volta”, sublinhou Guterres, reconhecendo que a IA é “exigente em termos de terra, água e energia”, embora possa contribuir para “acelerar as soluções climáticas”.

Os centros de dados - os repositórios de servidores que alimentam a IA e outros serviços digitais - consomem energia de forma extremamente intensiva e atingiram a marca dos 448 terawatts/hora (TWh) de eletricidade em 2025. A consultoria Gartner estima um aumento de 26%, elevando o consumo para 565 TWh e a potência para 132 GW em 2026. As projeções da Agência Internacional da Energia (AIE) apontam para um consumo que pode variar entre 945 TWh e 1.050 TWh até 20230.

Guterres pede “mais urgência”
Numa altura em que a Europa enfrenta uma vaga de calor e vários países, como o Reino Unido, França e Itália, batem recordes de calor, o secretário-geral da ONU alerta que é preciso agir “com muito mais urgência”.

“Devemos agir com muito mais urgência para limitar rigorosamente a extensão e a duração de qualquer ultrapassagem de 1,5°C”, disse Guterres, referindo-se ao limite de aquecimento estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015, em comparação com os níveis pré-industriais.

Para além da proposta relativa ao setor tecnológico, o secretário-geral da ONU lançou também um “apelo global à ação sobre o metano”, o segundo maior contribuinte para as alterações climáticas a seguir ao dióxido de carbono (CO2), com o objetivo de alcançar “emissões próximas de zero em toda a cadeia de valor”.

Para isso, Guterres propõe uma série de metas relacionadas com as fugas de metano na indústria do petróleo e gás e com a queima, que consiste na queima do gás natural emitido durante a extração de petróleo sem o seu aproveitamento.

Guterres defende também a redução das emissões do setor agrícola e dos aterros sanitários.
"Exorto a indústria dos combustíveis fósseis a assumir a responsabilidade e a fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo", disse António Guterres, sublinhando que "só em 2025, foram queimados cerca de 167 mil milhões de metros cúbicos de gás, o equivalente ao consumo anual de África".

"Não podemos continuar a depender de um sistema baseado em combustíveis fósseis que alimenta tanto a crise climática como a crise energética", declarou o secretário no discurso durante a conferência em Londres.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Microsoft unveils seven homegrown AI models in new bid for ‘long term self-sufficiency’


Microsoft has based much of its AI business on models from OpenAI, before expanding more recently to Anthropic. On Tuesday, the company showed how it plans to rely less on both.

At the Build developer conference, the Microsoft AI Superintelligence Team unveiled a family of seven models built from scratch. It’s part of an ongoing effort by the company to build credible in-house alternatives to models from partners and rivals with competing allegiances.

“This is all about long term self-sufficiency for Microsoft and our partners. It’s about models you can trust,” wrote Mustafa Suleyman, CEO of Microsoft AI, in a post announcing the models.

Microsoft is OpenAI’s largest backer, having invested a cumulative total of $13 billion in the ChatGPT maker over multiple funding rounds. The company last year announced an investment of up to $5 billion in Anthropic, and later integrated its technology into a Copilot Cowork AI assistant.

However, Anthropic is also backed by Microsoft rivals Google and Amazon, and OpenAI is increasingly cozy with Amazon — showing the need for Microsoft to control its own AI destiny.

The flagship of the seven newly announced MAI models is MAI-Thinking-1, a reasoning model that Microsoft says draws even with Anthropic’s Claude Sonnet 4.6 in blind human testing, and matches the more capable Claude Opus 4.6 on a widely used coding benchmark.

Suleyman stressed that MAI-Thinking-1 was trained from the ground up with no distillation from other companies’ models, looking to appeal to enterprises that care about clean data lineage.

It’s available in private preview on Microsoft Foundry, where the company also hosts the latest models from OpenAI and Anthropic, including the recently released Claude Opus 4.8.

Microsoft AI also released MAI-Code-1-Flash, a 5-billion-parameter coding model now rolling out in Visual Studio Code and GitHub Copilot, and MAI-Image-2.5, which Microsoft says ranks second on a leading image-editing leaderboard, ahead of Google’s Nano Banana Pro.

The full set of models spans image, voice, transcription, coding and reasoning.

Saber mais:

Inside Microsoft’s Project Solara: A new platform for devices that run AI agents instead of apps

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O sistema Volta - puro Enshittification


Já tinha falado sobre isso aqui

A SDR Portugal, uma associação sem fins lucrativos, é apresentada como uma das grandes conquistas da nova economia circular. Uma solução moderna, sustentável e inevitável para aumentar as taxas de reciclagem e aproximar Portugal dos objectivos ambientais europeus. A narrativa pública é simples, eficaz e cuidadosamente construída: devolver embalagens para salvar o planeta.

Consumir continua perfeitamente aceitável. Desde que a culpa venha com código de barras e seja colocada na máquina correcta.

O presidente da SDR Portugal é Leonardo Bandeira de Melo Mathias, antigo Secretário de Estado Adjunto e da Economia no governo de Pedro Passos Coelho. Um dos vice-presidentes é António Augusto dos Santos Casanova Pinto, vice-presidente do Conselho de Administração da Sumol Compal Marcas e administrador executivo do grupo.

Segundo o Relatório e Contas de 2024 da própria SDR, os órgãos sociais não são remunerados. No entanto, os gastos com remunerações em 2024 ascenderam a €136.333,25 antes de impostos (Seg. Social + IRS). O número de pessoas ao serviço em 31 de Dezembro de 2024 era de apenas 3, sendo referido no relatório que existia um Director-Geral contratado desde Junho de 2022 e que apenas em Dezembro de 2024 foram contratados um Director de Operações e um Director de Tecnologias de Informação.

Ou seja, durante praticamente todo o exercício de 2024, o grosso dos encargos salariais esteve concentrado numa única pessoa e com um valor (€9.738 líquidos /mês) bastante interessante para uma estrutura ainda em fase inicial de operação. Afinal, até a reciclagem moderna exige a sua pequena aristocracia técnica.

O próprio Relatório e Contas revela ainda outro detalhe particularmente curioso: existe um conjunto de grandes empresas que realizaram empréstimos à SDR, os quais, segundo o Relatório de Gestão, serão pagos “quando a associação tiver meios financeiros para o fazer”.

Traduzindo do dialecto institucional para português corrente: o dinheiro há-de voltar. Ou seja, não se trata propriamente de capital a fundo perdido nem de um gesto puramente filantrópico. Trata-se de dinheiro que deverá regressar futuramente a quem o colocou no sistema.

Entre os credores encontram-se:
Auchan Retail Portugal, S.A.: €247.000
ITMP Alimentar, S.A.: €247.000
Super Bock Bebidas, S.A.: €247.000
Pingo Doce - Distribuição Alimentar, S.A.: €247.000
Lidl & Companhia: €247.000
Modelo Continente Hipermercados, S.A.: €247.000
Sumol Compal Marcas, S.A.: €247.000
Coca-Cola Europacific Partners Unipessoal, Lda: €247.000
SCC - Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, S.A.: €247.000
Unilever Fima, Lda: €247.000
Total: €2.470.000

A pergunta verdadeiramente interessante não é se o sistema é ecológico. É perceber como, quando e através de que mecanismos financeiros estes valores serão recuperados. Porque num sistema financiado por depósitos, taxas, fluxos operacionais e receitas futuras associadas à reciclagem, alguém acabará inevitavelmente por pagar a factura final da virtude ambiental.

No entanto, quando se observa o modelo para além da superfície publicitária e das campanhas institucionais, percebe-se que talvez estejamos perante algo bastante mais complexo do que uma simples iniciativa ecológica.

O que está a ser criado não é apenas um sistema de reciclagem. É uma infraestrutura económica, logística e tecnológica de enorme dimensão, construída em torno da circulação permanente de embalagens, depósitos, dados e contratos.

A lógica do mecanismo parece inocente. O consumidor compra uma bebida, paga um valor adicional associado à embalagem e recupera esse montante caso a devolva num ponto autorizado. À primeira vista, trata-se apenas de um incentivo comportamental. Uma pequena penalização temporária destinada a ensinar adultos a colocar recipientes vazios no sítio correcto. Mas é precisamente aqui que o modelo se torna interessante. O sistema não vive apenas da reciclagem. Vive sobretudo da arquitectura financeira criada à volta da reciclagem.

Cada embalagem deixa de ser apenas um recipiente descartável e transforma-se numa unidade económica rastreável:
- alguém paga
- alguém recolhe
- alguém valida
- alguém transporta
- alguém processa
- alguém monitoriza
- alguém factura

A garrafa já não termina no lixo. Passa a circular dentro de uma cadeia económica cuidadosamente organizada, onde praticamente cada etapa gera actividade financeira.

O primeiro aspecto raramente explicado de forma transparente é a importância dos depósitos não reclamados. Nem todas as pessoas irão devolver embalagens. Nem todas terão tempo. Nem todas terão máquinas próximas. Nem todas guardarão garrafas em casa. Nem todas considerarão justificável deslocar-se por alguns cêntimos. Nem todas transformarão a cozinha numa extensão informal do centro de triagem nacional.

E é precisamente aí que surge uma das peças mais relevantes do sistema. Os depósitos pagos e nunca recuperados permanecem dentro do circuito financeiro da estrutura. Ou seja, uma parte significativa da sustentabilidade económica do modelo assenta não apenas na reciclagem, mas também na inevitável imperfeição humana.

E aqui vale a pena pegar nas próprias palavras do presidente da SDR Portugal:
“Só para lhe dar um enquadramento, são consumidas em Portugal 2,1 mil milhões de garrafas de plástico (PET) até três litros. E as latas de aço e de alumínio, portanto, são 2,1 mil milhões de unidades por ano. Agora imagine…”
Sim, vamos então imaginar.
Com optimismo ambiental, admitamos que 70% das embalagens são devolvidas. Isso significa que 30% ficam fora do circuito de retorno.
2,1 mil milhões × 30% = 630 milhões de embalagens não devolvidas.
Multiplicando por um depósito de 10 cêntimos:
630 milhões × €0,10 = €63 milhões.

Ou seja, mesmo num cenário bastante optimista, estariam potencialmente 63 milhões de euros anuais a permanecer dentro do sistema apenas através de depósitos não reclamados.

Agora abandonemos por momentos o optimismo institucional e ambiental. Se a taxa de retorno fosse de 50%, então metade das embalagens não regressaria:
2,1 mil milhões × 50% = 1.050 milhões de embalagens.
Multiplicando novamente pelos 10 cêntimos:
1.050 milhões × €0,10 = €105 milhões.
Cento e cinco milhões de euros.

Naturalmente, estes valores não representam lucro directo líquido nem podem ser analisados isoladamente dos custos operacionais do sistema. Mas ajudam a perceber a dimensão financeira potencial criada por um mecanismo que depende precisamente de uma percentagem significativa de embalagens nunca ser devolvida.

Há aqui uma ironia difícil de ignorar. O sistema apresenta-se como solução para mudar comportamentos, mas beneficia financeiramente do facto de esses comportamentos nunca mudarem completamente. Se os consumidores devolvessem rigorosamente todas as embalagens, uma das maiores almofadas financeiras do mecanismo desapareceria. Isso obrigaria inevitavelmente a:
- aumentar taxas
- reforçar contribuições da indústria
- procurar mais financiamento público
- ou criar novas formas de receita

Por outras palavras, o sucesso ambiental absoluto poderia transformar-se num problema económico bastante menos sustentável do que os folhetos institucionais sugerem. Naturalmente, esta parte raramente aparece nos vídeos promocionais acompanhados por folhas verdes ao vento, crianças sorridentes e música suficientemente inspiradora para absolver moralmente uma garrafa de plástico. Mas os depósitos não reclamados são apenas uma componente do ecossistema.

Outra dimensão do modelo surge quando se observa a infraestrutura criada à sua volta.
Para operacionalizar a devolução de milhões de embalagens, torna-se necessário construir uma rede nacional composta por:
- máquinas automáticas de recolha
- software de reconhecimento e validação
- sistemas antifraude
- logística reversa
- transporte especializado
- centros de triagem
- compactação industrial
- plataformas digitais
- manutenção técnica
- monitorização estatística
- auditorias
- certificações ambientais
- contratos operacionais

Ou seja, cria-se um novo sector económico completo em torno de algo que, até aqui, cabia essencialmente num ecoponto. E como acontece frequentemente na economia contemporânea, o discurso público concentra-se na moralidade ambiental, enquanto os fluxos financeiros reais se distribuem silenciosamente pelos bastidores tecnológicos e logísticos.

Porque alguém fabrica as máquinas. Alguém fornece o software. Alguém gere os dados. Alguém assegura manutenção. Alguém opera a logística. Alguém ganha contratos. Alguém presta consultoria. Alguém vende a solução para o problema que o próprio sistema ajudou a transformar numa nova necessidade estrutural. O operador central pode apresentar-se como entidade sem fins lucrativos, o que é tecnicamente verdadeiro. Mas isso pouco diz sobre o volume de actividade económica gerada à volta da estrutura.

Aliás, um dos traços mais sofisticados dos modelos contemporâneos é precisamente este: o núcleo institucional mantém uma aparência neutra e moralmente virtuosa, enquanto a rentabilidade se espalha discretamente pelas camadas periféricas do sistema.

Existe ainda uma dimensão menos visível, mas potencialmente mais valiosa a longo prazo: os dados.
Cada devolução gera informação. Cada máquina recolhe padrões de utilização. Cada localização produz métricas comportamentais. Cada embalagem contribui para mapear hábitos de consumo. Num contexto onde indicadores ambientais, métricas ESG* e monitorização de comportamento possuem valor económico crescente, o controlo de uma infraestrutura nacional deste tipo representa muito mais do que reciclagem. Representa capacidade de observação, recolha, análise e venda de dados. (*Indicadores quantitativos e qualitativos que medem o desempenho de uma empresa nas áreas Ambiental, Social e de Gestão)

Quem gere um sistema desta escala passa a ter acesso a:
- padrões de consumo
- volumes regionais
- sazonalidade de vendas
- participação dos consumidores
- fluxos logísticos
-métricas ambientais
- indicadores de conformidade regulatória
O lixo deixa de ser apenas lixo.Torna-se informação.

Outro aspecto particularmente curioso é a transferência parcial de trabalho da indústria para o cidadão. Antes, o consumidor colocava a embalagem no ecoponto e encerrava aí a sua participação. Agora, espera-se que:
- guarde embalagens em casa sem as danificar 
- organize resíduos
- transporte recipientes
- procure máquinas disponíveis
- aguarde validação
- execute parte da logística operacional

Tudo isto naturalmente apresentado como exercício de cidadania ambiental. Na prática, parte do trabalho anteriormente absorvido pelo sistema tradicional de resíduos é silenciosamente transferido para o próprio consumidor, que continua simultaneamente a financiar o processo através dos depósitos pagos.

Entretanto, os grandes produtores de embalagens conseguem algo ainda mais relevante: legitimidade. As empresas responsáveis pela colocação de milhões de embalagens descartáveis no mercado passam a operar dentro de uma arquitectura verde certificada, compatível com exigências regulatórias europeias e extremamente útil para relatórios ESG, reputação corporativa e marketing institucional.

A questão deixa então de ser: “como reduzir embalagens descartáveis?” E passa subtilmente a ser:“como integrar embalagens descartáveis num circuito economicamente rentável e ambientalmente legitimado?”

É uma diferença conceptual importante.
O sistema não elimina o consumo massivo de recipientes descartáveis. Pelo contrário: reorganiza-o, profissionaliza-o e transforma-o numa cadeia económica ainda mais sofisticada.

No fundo, o que está a emergir não é apenas um mecanismo de reciclagem. É a monetização integral da embalagem desde o momento da compra até ao momento da devolução.

A embalagem gera receita quando é vendida. Gera receita quando circula. Gera receita quando não é devolvida. Gera receita quando é devolvida. Gera receita quando é processada. Gera receita enquanto dado estatístico. E gera legitimidade política e ambiental durante todo o percurso. Chama-se a isso enshittification (merdificação)

Nada disto significa que reciclar seja inútil ou que a reutilização de materiais não tenha benefícios reais. O problema não está na reciclagem. Está na forma quase religiosa como certos modelos económicos são apresentados como altruísmo ambiental puro, quando na realidade envolvem estruturas financeiras altamente sofisticadas e interesses económicos evidentes.

Porque quando uma solução ecológica cria uma indústria multimilionária sustentada por depósitos, contratos, dados, logística, tecnologia e falhas previsíveis do comportamento humano, talvez seja legítimo perguntar se o principal objectivo é proteger o ambiente ou descobrir como transformar até o lixo numa fonte permanente de rentabilidade.
E nesse aspecto, convenhamos, o modelo é brilhante.

O ecoponto de rua - esse herói anónimo da reciclagem portuguesa — continua a ser mais eficiente, mais inclusivo e com menor pegada carbónica. Pode não dar vales de desconto, mas pelo menos não exige carregar lixo no porta-bagagens. Faz apenas aquilo que deve: recolher para reciclar. Por isso, continuo fiel a ele. Pode não ser bonito nem moderno, mas funciona - e não precisa de marketing para provar isso.
E mais: 
Aqui em casa uso água da torneira. É o mais ecológico e simples. Quando vou a restaurantes, se bebo água devolvo o talão à menina(o). 

Saber mais:
3. Sistema Volta, as contas da DECO e o peso da tua “preguiça” forçada

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Combinação de fenómenos climáticos extremos pode obrigar a rever metas de emissões de carbono



Eventos climáticos extremos que ocorrem em simultâneo – como chuvas intensas acompanhadas por ondas de calor ou secas associadas a temperaturas extremas – poderão tornar-se muito mais frequentes nas próximas décadas se as emissões de carbono continuarem a aumentar. O alerta surge num novo estudo internacional publicado na revista científica Nature.

A investigação conclui que os atuais limites globais de emissões de dióxido de carbono (CO2) definidos para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C e 2 °C poderão ser insuficientes para evitar os impactos mais graves das chamadas “combinações de extremos climáticos”.

Os cientistas utilizaram modelos climáticos e simulações para calcular a frequência futura de fenómenos compostos, como eventos simultaneamente quentes e húmidos ou períodos de seca acompanhados por calor extremo, em função das emissões acumuladas de CO2.

Segundo o estudo, os eventos compostos mais comuns tendem a aumentar de forma linear à medida que as emissões sobem. Já os fenómenos mais raros e severos deverão intensificar-se de forma muito mais rápida.

Os investigadores Yao Zhang e Zhaoli Wang concluíram que estes eventos extremos poderão ocorrer entre 37% e 75% mais frequentemente do que o previsto pelos modelos climáticos atualmente utilizados.

De acordo com os autores, isto significa que os chamados “orçamentos de carbono” – a quantidade máxima de CO2 que a humanidade ainda pode emitir sem ultrapassar determinados limites de aquecimento global – poderão ter de ser reduzidos significativamente.

Os cientistas defendem que os modelos atuais avaliam sobretudo a relação entre emissões e aumento médio da temperatura global, mas não captam totalmente os impactos sociais e ecológicos provocados pela combinação simultânea de fenómenos extremos.

“Eventos compostos, como calor extremo e inundações ao mesmo tempo, representam riscos particularmente elevados para sociedades e ecossistemas”, sublinham os autores.

O estudo propõe ainda uma nova métrica para integrar estes fenómenos nas futuras negociações climáticas e na definição de políticas ambientais mais abrangentes.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A petromasculinidade está a destruir o planeta. Será que a ecomasculinidade pode ajudar a salvá-lo?


A influenciadora feminista Liz Plank abre o seu livro inovador, "For the Love of Men", com uma afirmação ousada: "Não existe maior ameaça para a humanidade do que as nossas definições atuais de masculinidade". Ela refere-o a vários níveis, desde o mais íntimo: como os parceiros masculinos são a principal causa de morte das mulheres grávidas nos EUA; até ao mais macro: como associar "comportamentos ecologicamente conscientes à feminilidade e à rejeição da masculinidade" está literalmente a matar o planeta. Neste Dia da Terra, vale a pena refletir sobre o porquê de isto acontecer e o que pode ser feito a esse respeito.

Embora não seja novidade para a maioria que, em comparação com as mulheres, os homens deitam mais lixo para o chão , reciclam menos e deixam uma maior pegada de carbono , há algo mais extremo do que a simples falta de consideração que leva os jovens, numa forma de protesto anti-ambiental conhecida como " rolling coal " (soltar fumo negro), a modificar os motores a diesel das suas carrinhas de caixa aberta para expelir deliberadamente grandes quantidades de fumo cinzento-escuro e, em seguida, atropelar carros Prius e ciclistas .

Da mesma forma, a satisfação emocional de "humilhar os liberais" ou as dezenas de milhões em contribuições de campanha que Trump recebeu da indústria dos combustíveis fósseis não explicam totalmente o puro rancor que leva o seu governo a forçar centrais a carvão deficitárias no Michigan a continuarem a operar ou a cancelar projetos de energia eólica offshore perfeitamente viáveis ​​e já 80% concluídos em Connecticut. Sem falar do lançamento de mais uma guerra pelo petróleo no Médio Oriente, em estilo cowboy, sem qualquer planeamento estratégico.

O que liga os pontos aqui é algo mais desarticulado e intrincado: uma versão hiperagressiva e impregnada de petróleo da masculinidade tóxica, conhecida como "petromasculinidade". E é crucial para compreendermos porque é que nós, enquanto sociedade, estamos a falhar na união em torno de uma visão ecológica partilhada.

Cunhado pela politóloga Cara Daggett num artigo de 2018 , o termo “petromasculinidade” descreve uma fusão perniciosa entre o uso de combustíveis fósseis, a negação das alterações climáticas e a defesa da masculinidade patriarcal branca autoritária. Observando como a extracção e o consumo de combustíveis fósseis são codificados como “masculinos”, enquanto o ambientalismo e a tecnologia verde são codificados como suaves, fracos e “femininos”, o termo demonstra como os homens inseguros estão cada vez mais a apoiar-se numa identidade petromasculina para afirmar a autoridade masculina tradicional face às alterações climáticas, às ameaças às indústrias extractivas tradicionais e à transformação das normas sociais.

Para a maioria das pessoas, a petro-masculinidade veio ao de cima de forma dramática durante o confronto de 2022 no Twitter/X entre o rufia da manosfera Andrew Tate e Greta Thunberg.

"Por favor, forneça o seu endereço de e-mail para que eu possa enviar uma lista completa da minha coleção de carros e as suas respetivas emissões enormes", tweetou Tate para a Greta, juntamente com uma fotografia dele a abastecer um deles.

Percebendo as conotações sexualmente jactanciosas daquelas "emissões enormes", Greta respondeu com um tom malicioso: "Sim, por favor, esclareça-me. Envie um e-mail para smalldickenergy@getalife.com."

Com 3,3 milhões de gostos e mais de 500 mil retweets, tornou-se “o tweet que teve impacto em todo o mundo” e, nas palavras de Rebecca Solnit, “um lembrete da interseção entre machismo, misoginia e hostilidade à ação climática”, impulsionada por “versões de masculinidade em que o egoísmo e a indiferença – o individualismo levado ao extremo – são características definidoras e, por isso, importar-se e agir para o bem coletivo é a sua antítese”.

Como activista climático de longa data, tenho assistido de perto a esta divisão de género na luta climática. Sejam comentadores da Fox News a proferir negações climáticas sem qualquer fundamento ou trolls machistas a chamarem-lhe "corno" nos comentários só por se preocuparem com o planeta, era impossível não reparar num certo tipo de homem com um certo tipo de atitude: geralmente branco e zangado, defendendo agressivamente – e visivelmente imbecil – o status quo dos combustíveis fósseis. Isto era geralmente acompanhado de uma ostentação arrogante de prerrogativa e privilégio masculino, incluindo o privilégio de destruir o planeta, se fosse o que lhes desse na telha.

Embora Andrew Tate provocar uma adolescente com fotos sensuais dos seus 27 carros desportivos seja inquestionavelmente repugnante e patético, parte da agressividade defensiva associada à masculinidade ligada ao consumo de petróleo é compreensível.

Imagine que extrair carvão é algo que você e os seus antepassados ​​fizeram durante gerações, e que pagou a renda e deu uma sensação de masculinidade e heroísmo (apesar dos malefícios e perigos). E então, aparece um ambientalista bem-intencionado num Prius a dizer que não se devia fazer mais aquilo. Mas ele não está a oferecer uma alternativa de sustento viável, certamente não uma com dignidade e aquela aura misteriosa de "virilidade" que a extracção de carvão tinha. Quem não ficaria na defensiva?

Se aceitar a realidade das alterações climáticas conduz logicamente a certas soluções que perceciona como ameaças à sua identidade e estilo de vida, faz sentido que se agarre firmemente à negação climática. E depois, mostre o dedo do meio àqueles arrogantes condutores de Prius com uma bela "soltada de fumo negro".

Então, o que fazer? Em primeiro lugar, como o movimento de transição justa sabe desde o início, precisamos de oferecer uma alternativa económica concreta. A postura de repreensão liberal não vai funcionar aqui e, na verdade, faz parte de um problema maior: os democratas estão a perder eleitores e eleições (recorde-se a piada/perceção de Marc Maron de que a esquerda "irritou as pessoas ao ponto de as levar ao fascismo" em 2024). Em vez disso, precisamos de oferecer uma alternativa real, como um Novo Acordo Verde, que de facto cumpra a promessa de "milhões de empregos bons e bem remunerados", como Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez e o Movimento Sunrise (e, em menor medida, Biden através do seu IRA) têm tentado fazer.

Para aqueles de nós que tentam desesperadamente construir um consenso público para a transição dos combustíveis fósseis para as energias renováveis, a petromasculinidade sugere que combater as alterações climáticas não é apenas um desafio tecnológico, económico ou político, mas também uma luta cultural e psíquica contra uma "petrocultura" enraizada e fortemente marcada pelo género.

O chamamento vem de dentro da casa. O patriarcado está profundamente enraizado. Ultrapassá-lo é um esforço multifacetado, que se estende por gerações. Envolve tanto uma reestruturação do poder (com benefícios indirectos para o planeta, como demonstram inúmeros relatórios que mostram que quanto maior a igualdade de género numa sociedade, mais robustas são as suas políticas climáticas), como uma profunda viagem de cura interior por parte dos homens, para desfazer condicionamentos nocivos e encontrar o caminho para um novo tipo de masculinidade ecológica.

“Não é que os homens não se preocupem com o ambiente”, defende Liz Plank. “Simplesmente são ensinados a preocuparem-se mais com as ameaças à sua masculinidade.” Para ajudar os homens a inverter a importância destas prioridades, os defensores do ambiente têm adoptado três abordagens básicas: descodificar, recodificar e “codificar para a masculinidade”.

Através da literacia mediática, da crítica social, das batalhas ideológicas diretas na internet e de uma inteligente subversão e sátira cultural , os ativistas climáticos e de outras causas estão a trabalhar para descodificar a petromasculinidade. Estão a salientar o quão ridícula, "construída" e autodestrutiva a petromasculinidade é para os homens, as suas comunidades e o próprio planeta, e a esperar que, com o tempo, isso ajude a desvendar a forte associação entre os combustíveis fósseis e uma identidade masculina fragilizada. A crítica de Greta Thunberg a Andrew Tate é um exemplo; este artigo, suponho, é outro.

Uma segunda abordagem é recodificar – ou, como gosta de dizer a botânica indígena Robin Wall Kimmerer, “recontar a história” – a escolha entre combustíveis fósseis e energias renováveis. Um bom exemplo actual desta abordagem é a iniciativa Energia do Céu – Não do Inferno, que a rede inter-religiosa de cuidado da criação GreenFaith (com – para ser totalmente transparente – alguma ajuda da minha parte) está a promover.

Utilizando uma variedade de abordagens, desde sermões do Dia da Terra a banda desenhada ao estilo de panfletos religiosos, a iniciativa sugere que “Deus deixou claro de onde quer que obtenhamos a nossa energia”: não do fogo venenoso do inferno, mas do sol e do vento nos céus. Uma vez compreendida, esta alegoria é difícil de ser desvista. E se a consonância moral e cosmológica com Deus tiver agora mais força do que alguma ameaça percebida à sua masculinidade por parte das energias renováveis ​​“femininas”, então alguns homens podem mudar de ideias.

Por fim, ao retratar a tecnologia verde de uma forma mais tradicionalmente masculina e "viril", os defensores estão a tentar associar as soluções climáticas a um código masculino. O lançamento da pick-up totalmente elétrica F-150 Lightning da Ford em 2023 é um exemplo disso. Entretanto, várias equipas de relações públicas de energias renováveis ​​têm utilizado cenas de homens a colocar cintos de ferramentas e a subir degrau a degrau a 90 metros de altura para reparar uma turbina eólica, a fim de convencer os homens de que têm um lugar no futuro verde e promissor da América.

A mensagem principal aqui é: pode ser másculo sem combustíveis fósseis.

Olhem para mim, sou provavelmente a pessoa menos "petro-masculina" que conheço. O que não me torna menos masculino, muito obrigado, apenas menos "petro" . Não tenho carro; em vez disso, liberto a minha testosterona ao andar de bicicleta um pouco agressivamente demais pelas ruas de Nova Iorque. Não tenho um desportivo para acelerar, mas ir dos 0 aos 100 km/h em 3,7 segundos no Tesla Model 3 turbinado do meu amigo (comprado em segunda mão antes de Elon Musk se tornar fascista) foi uma experiência emocionante que repetiria a qualquer momento.

Não desafio os pacatos ambientalistas "carregando" o meu camião turbinado com carvão, mas já desafiei a corporação mais poderosa do mundo ao coproduzir um anúncio chamado " A Exxon Odeia os Seus Filhos ", destacando as dezenas de milhares de mortes por problemas respiratórios causadas pelo principal produto da empresa, e transmitindo-o mesmo no quintal da Exxon, em Irving, no Texas. Dediquei a última década da minha vida a fazer com que a nossa civilização abandonasse os combustíveis fósseis e migrasse para fontes de energia mais limpas, ecológicas e pacíficas, e isso nunca me fez sentir menos homem – muito pelo contrário.

Um homem bom deve assumir responsabilidades, não se esquivar a elas. Entristece-me que a resposta de tantos homens ao perigo ecológico em que nos encontramos seja renunciar à responsabilidade, ficar na defensiva e agir de forma impulsiva. Quando o perigo chega, um homem bom deve proteger o seu lar e os seus entes queridos.

Ora, neste Dia da Terra, como em todos os outros, é evidente que, seja pelo aquecimento global, pela perda de biodiversidade ou pelo racismo ambiental, a nossa única casa está em sérios apuros. Por isso, homens, neste Dia da Terra, comprometamo-nos a libertarmo-nos da petromasculinidade e a abraçar a nossa ecomasculinidade. Vamos mobilizar o nosso engenho e reunir a nossa coragem – e sentir a nossa tristeza, se necessário – para que nos possamos lembrar do quanto realmente nos preocupamos com este planeta lindo e milagroso em que todos vivemos juntos. E depois, vamos mobilizar-nos para protegê-lo. Afinal, o que é mais "masculinidade protectora" do que proteger a Terra?

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