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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Dia Internacional do Tigre - do Sandokan à realidade

Quando Emilio Salgari criou o Sandokan no final do século XIX, batizou-o de "Tigre da Malásia" por uma razão simples: na altura, o tigre era o símbolo supremo de uma natureza selvagem, perigosa e indomável, reinando sem rival nas selvas aparentemente infinitas do Sudeste Asiático.

Décadas mais tarde, em 1976, essa figura nobre e invencível ganhou nova vida com a chegada da minissérie da RAI à RTP. Eu tinha 10 anos e o impacto foi enorme. Para os adolescentes da minha geração, o fascínio por Sandokan era inevitável. Tinha tudo: o exotismo de Bornéu e da Malásia, o carisma inegável de Kabir Bedi, a beleza de Marianna - a "Pérola de Labuan" e filha do seu grande inimigo -, a presença marcante do português Yanez de Gomera (interpretado por Philippe Leroy), o sopro irreprimível de aventura e liberdade e, claro, aquela música do genérico que nos ficava a soar na cabeça durante dias.

Fiquei tão rendido que fui de propósito à biblioteca requisitar o livro. Li-o de fio a pavio.

A RTP voltou a transmitir a minissérie, já a cores, na década de 1980
O problema é que, enquanto a ficção vendia o tigre como uma fera imparável, a vida real encarregava-se de fazer o oposto.

Ao longo do século XX, o avanço humano destruiu quase tudo à sua passagem. A desflorestação para a exploração de madeira e para as plantações de palma de óleo cortou as florestas ao meio. A juntar a isto, a caça ilegal para o comércio clandestino de peles e ossos deu o golpe final. Em poucas décadas, o tigre perdeu mais de 90% do seu território original.

A ironia é trágica: no Camboja, no Laos e no Vietname, o tigre já desapareceu completamente da natureza. E na própria Malásia - a terra do herói da televisão -, restam  menos de 150 tigres selvagens a lutar para não se extinguirem de vez.

Hoje, os esforços de conservação em países como a Índia ou o Nepal mostram que nem tudo está perdido e que o número de tigres começou finalmente a subir. Mas o contraste entre a lenda e a realidade fica para a história: o animal que serviu de inspiração para um dos maiores símbolos de coragem e liberdade da televisão revelou-se, afinal, extremamente vulnerável às ações do homem.

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segunda-feira, 2 de março de 2026

Novo estudo revela que as culturas de subsistência contribuem também para a desflorestação e para as emissões de gases de efeito de estufa

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Um novo estudo, publicado na revista Nature Food em 23 de fevereiro de 2026, apresenta uma análise sem precedentes sobre a relação entre a produção global de mercadorias, a desflorestação e as respetivas emissões de carbono. 

Através da criação do modelo DeDuCE, os investigadores Chandrakant Singh e Martin Persson conseguiram mapear o impacto de 184 produtos em 179 países, cobrindo o período entre 2001 e 2022. A grande revelação do estudo é que as políticas ambientais atuais podem estar a sofrer de uma "visão em túnel", ao focarem-se excessivamente em produtos de exportação mediáticos, como a carne bovina, a soja e o óleo de palma, enquanto negligenciam o peso das culturas de subsistência e de base alimentar.

Nomeadamente as commodities como óleo de palma e soja têm um impacto concentrado (Sudeste Asiático e América do Sul, respectivamente). Por outro lado, a desflorestação causada por culturas básicas (arroz e milho) está globalmente distribuída, o que torna o seu controlo mais complexo para as cadeias de abastecimento internacionais.

Os dados revelam que a expansão de pastagens para o gado continua a ser a principal culpada, sendo responsável por 42% da desflorestação global e mais de metade das emissões de carbono associadas. No entanto, o estudo destaca que o arroz, o milho e a mandioca — frequentemente ignorados em regulamentações internacionais como as da União Europeia — representam já 11% da perda de florestas no mundo. 

Este fenómeno é particularmente desafiante porque estas culturas básicas estão dispersas globalmente e são destinadas, em grande parte, ao consumo interno dos países produtores, o que as torna menos suscetíveis a pressões comerciais externas.

Ao longo das duas décadas analisadas, a desflorestação para fins comerciais resultou na perda de quase 122 milhões de hectares de floresta e na emissão de 41,2 gigatoneladas de CO2. Os autores sublinham que, se o objetivo internacional for atingir a neutralidade carbónica e travar a perda de biodiversidade, é urgente alargar o âmbito da monitorização. 

O artigo conclui que não basta focar as atenções nas cadeias de abastecimento de luxo ou de exportação; é imperativo integrar as culturas agrícolas de base nas estratégias de conservação, equilibrando a necessidade crítica de segurança alimentar com a proteção dos ecossistemas florestais.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

UE afasta alterações ao regulamento que proíbe produtos que causem desflorestação



Os negociadores do Parlamento e do Conselho chegaram a um acordo político provisório para adiar a aplicação do Regulamento Europeu de Desflorestação (EUDR), para ser aplicado pelos Estados-membros a partir de dezembro de 2025. Porém, afastam as alterações de atenuação do mesmo propostas pelos legisladores da União Europeia (UE).

O EUDR estabelece a proibição de comercialização na UE de produtos que causem desflorestação no mundo e que impactam produtos como óleo de palma, gado, madeira, café, cacau e soja.

Os grandes operadores e comerciantes terão agora de respeitar as obrigações deste regulamento a partir de 30 de dezembro de 2025, e as micro e pequenas empresas a partir de 30 de junho de 2026. Este tempo adicional destina-se a ajudar as empresas de todo o mundo a implementar as regras de forma mais suave desde o início, explica o PE em comunicado.

"Prometemos e cumprimos. Este adiamento significa que as empresas, os silvicultores, os agricultores e as autoridades terão mais um ano para se prepararem. Garantimos que a Comissão irá concluir a plataforma online e a categorização dos riscos no prazo de seis meses, garantindo mais previsibilidade em toda a cadeia de abastecimento", refere a relatora do Parlamento, Christine Schneider, em comunicado. E acrescenta: "Uma avaliação de impacto e uma maior simplificação deverão seguir-se na fase de revisão para os países ou regiões de baixo risco, proporcionando aos países um incentivo para melhorarem as suas práticas de conservação florestal".

A votação do acordo informal entre os colegisladores será incluída na ordem de trabalhos da próxima sessão plenária do Parlamento (16-19 de dezembro). Para que o adiamento entre em vigor, o texto acordado terá de ser aprovado pelo Parlamento e pelo Conselho e publicado no Jornal Oficial da UE antes do final do ano.

Recorde-se que a Comissão apresentou a sua proposta de adiamento da data de aplicação do regulamento relativo à desflorestação em resposta às preocupações manifestadas pelos Estados-membros, países terceiros, comerciantes e operadores de que existia o risco de não poderem cumprir plenamente as regras até 31 de dezembro de 2024.

No decorrer do ano de 2024, foram várias as vozes que se levantaram contra as novas normas. A indústria de café, por exemplo, manifestou que teria dificuldades em cumprir os prazos. Também os ministros da Agricultura de 20 dos 27 países-membros da UE apoiaram um apelo da Áustria para rever o regulamento. Os países produtores de café também criticaram o regulamento, afirmando que era discriminatório e que poderia acabar por vedar o acesso dos pequenos agricultores ao lucrativo mercado da UE. Também os secretários do Comércio e da Agricultura dos Estados Unidos tinham pedido à UE um adiamento da proibição de importação de produtos ligados à desflorestação, argumentando que colocava desafios críticos aos produtores norte-americanos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Tomelo


Por Nuno Gomes
Sou um tipo à antiga e gosto de sabonetes.
Era fã indefectível dos sabonetes Ach Brito até ouvir uma entrevista do actual herdeiro e administrador, feliz a explicar que o produto saponificado à base de óleo de palma vinha pronto de não sei de donde - não explicou -, talvez da Índia ou da China, ao qual juntavam os aromas característicos destes sabonetes. Os sabonetes Ach Brito, são, portanto, feitos do óleo que destrói as florestas de Sumatra e Bornéu e nem sequer a saponificação é feita cá. Longe vão os tempos em que a Ach Brito inovava e experimentava os seus produtos nos próprios funcionários, causando algumas vezes irritações de pele, sempre bem humoradas, mas a maior parte das vezes inócuas, permitindo inovar com os sabonetes que a notabilizaram.
Por isso, pus-me à procura de sabonetes alternativos e há vários artesanais que hei-de experimentar. E fui dar aos sabonetes Tomelo, dos colegas e amigos de longa data Bárbara Fráguas e José Jambas, que têm um projecto maravilhoso de turismo rural integrado em Atenor, Miranda do Douro, actuando simultaneamente na preservação do burro mirandês, a raça autóctone e a mais bonita do mundo.
Como não podia deixar de ser, os sabonetes Tomelo são feitos à base de leite de burra e há vários aromas, todos eles maravilhosos: amêndoa, lírio-do-vale, limonete, alfazema, azeite e mel.
E não se ficam pelos sabonetes, incluindo cremes e difusores ambientais. Se quer dar um presente original, pode explorar os produtos Tomelo. Não sou sócio e não me pediram nada. Certo é que irei comprar mais, antes que acabem!

domingo, 10 de dezembro de 2023

Grandes lobistas da carne e dos laticínios aparecem em número recorde na COP28

Lobistas de empresas agrícolas industriais e grupos comerciais compareceram em número recorde na Cop28 , com três vezes mais delegados representando a indústria da carne e dos laticínios do que no ano passado.

Estão presentes representantes de algumas das maiores empresas do agronegócio do mundo – como o fornecedor de carne JBS , a gigante de fertilizantes Nutrien, a gigante de alimentos Nestlé e a empresa de pesticidas Bayer – bem como de poderosos grupos de lobby da indústria.

A carne e os laticínios estão particularmente bem representados, com 120 delegados, mas uma análise da lista de delegados feita pelo DeSmog mostra que o número de lobistas que representam os interesses do agronegócio de forma mais ampla mais que dobrou desde 2022, chegando a 340.

Além disso, a análise revela que mais de 100 delegados viajaram para Dubai como parte de delegações de países, o que concede acesso privilegiado às negociações diplomáticas. Este número aumentou de 10 em 2022.

As empresas de carne e laticínios, em particular, estão sob crescente escrutínio devido à poluição proveniente da pecuária, que emite cerca de um terço da produção global de metano, um gás de efeito estufa de curta duração, cuja redução é identificada como o caminho mais rápido para desacelerar o aquecimento global. .

Ben Lilliston, do Instituto de Política Agrícola e Comercial, afirmou: “Com um maior escrutínio sobre as emissões das empresas de carne e laticínios, não é surpreendente que estejam a intensificar o seu jogo para evitar qualquer resultado da Cop que possa prejudicar as suas operações. Mesmo assim, a triplicação do número de delegados é alarmante – demonstra a necessidade urgente de reformas que limitem a influência corporativa nas reuniões da ONU sobre o clima.”

A carne não é a única indústria sob os holofotes. Agricultores, retalhistas e transformadores também geram emissões de gases com efeito de estufa através do desmatamento de árvores, da utilização de fertilizantes sintéticos derivados de combustíveis fósseis e no transporte, embalagem e armazenamento.

Karina Gonçalves David, representante dos pequenos agricultores do Brasil, está preocupada com a presença de empresas poderosas e poluentes. “Se estiverem dentro, têm vantagem. Este lugar trata de soluções para enfrentar a crise climática, mas as empresas estão se apropriando dele para fazer lobby. Eles estão indo na direção oposta.”

Estima-se que as emissões das cinco maiores empresas de carne do mundo sejam significativamente maiores do que as das empresas petrolíferas Shell e BP, enquanto a contribuição de 3,4% da indústria leiteira para as emissões globais induzidas pelo homem é uma percentagem superior à da aviação.

Grupos de lobby da carne também estão no terreno no Dubai, incluindo o North American Meat Institute, que ainda em 2022 afirmava que a extensão do colapso climático provocado pelo homem era “desconhecida”.

Os produtores de pesticidas também compareceram em grande número este ano, um aumento de 30% em comparação com 2022. Juntas, Bayer , Syngenta , BASF e a sua associação comercial, CropLife , que rejeitou as tentativas de promulgar novas medidas climáticas, enviaram 29 delegados.

A indústria de fertilizantes sintéticos também teve um aumento acentuado no número de representantes, com 40 este ano, contra 13 em 2022.

Raj Patel, do grupo de reflexão sobre sustentabilidade IPES-Food, afirmou: “Tal como acontece com o influxo de lobistas do petróleo, as empresas agrícolas industriais estão assustadas. Eles leram a ciência e sabem o quanto os seus negócios impulsionaram a crise climática.”

Os grandes representantes da alimentação e da agricultura estão interessados ​​em desviar as conversas das mudanças alimentares, que estão em discussão na cimeira. No domingo, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura divulgará o primeiro projecto do seu plano para alcançar um sistema alimentar global sustentável, que deverá apelar às nações ricas para que reduzam o consumo de carne.

Isto segue a recomendação da Comissão Eat-Lancet, que sugere que as pessoas não consumam mais do que 15,7 kg por ano. Em 2020, o americano médio consumiu 126kg de carne.

Os pequenos agricultores estão preocupados com a possibilidade de serem marginalizados pelo poder do lobby do agronegócio. Um relatório recente mostrou que os pequenos produtores recebem apenas 0,3% do financiamento público internacional para o clima, apesar de produzirem um terço dos alimentos do mundo.

“Os agricultores familiares já estão a implementar práticas mais diversificadas e amigas da natureza, o que o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas da ONU considera necessário”, disse Esther Penunia, secretária-geral da Associação de Agricultores Asiáticos, uma aliança de organizações que representam 13 milhões de famílias. agricultores. “No entanto, as nossas preocupações e as soluções que apresentamos estão a ser abafadas. Lutamos para que as nossas vozes sejam ouvidas acima das vozes daqueles com mais dinheiro e mais poder.”

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Financiamento para travar a desflorestação está muito aquém do que é preciso


Atualmente, estima-se que o financiamento, a nível mundial, para proteger as florestas da destruição é de entre dois e três mil milhões de dólares por ano. Mas um relatório da organização Energy Transitions Commission revela que, para proteger as florestas da destruição para fins económicos, reduzindo os incentivos à desflorestação, seriam precisos mais de 130 mil milhões de dólares ao ano.

Intitulado ‘Financiando a Transição: O custo de evitar a desflorestação’ (Financing the Transition: The Cost of Avoiding Deforestation, no original), o relatório, divulgado hoje, reconhece que é uma quantia “muito grande”, pelo que, além de ter de vir de pagamentos feitos pelas empresas no âmbito dos mercados voluntários de carbono, da filantropia e de um maior esforço por parte dos países mais ricos, proteger as florestas do mundo implicaria também uma série da ações não-financeiras.

Entre elas, reduzir a procura dos principais produtos que estão fortemente associados à desflorestação, e que a tornam atrativa, como o óleo de palma e a carne, criar modelos de negócio alternativos que permitam tornar lucrativa a conservação das florestas (como o ecoturismo e práticas sustentáveis que juntem a agricultura e a silvicultura), e também reforçar as medidas governamentais que travar a destruição das áreas florestais.

Contudo, os relatores reconhecem que implementar estas ações não-financeiras exige tempo, que podem ser apenas parte da solução e que podem não ser eficazes no curto prazo. Por isso, argumentam que, pelo menos para já, o pagamento de compensações às empresas e negócios que estão dependentes e beneficiam da desflorestação “desempenhará um papel importante” na proteção das florestas mais vulneráveis à destruição humana, pelo menos enquanto as ações não-financeiras não mostraram sinais de maturidade.

E salientam que os incentivos financeiros à proteção das florestas devem andar lado a lado com medidas como a ilegalização da desflorestação e a redução da procura por produtos associados a essa destruição.

Adair Turner, presidente da Energy Transitions Commission e membro da Câmara dos Lordes do Reino Unido, considera que sem um “significativo fluxo” de incentivos financeiros “qualquer redução da desflorestação chegará demasiado tarde para ser possível manter o aquecimento global bem abaixo dos dois graus Celsius”, tal como plasmado no Acordo Climático de Paris de 2015.

O responsável alerta, porém, que os apoios financeiros “por si só não conseguirão travar a desflorestação”, e que para tal são precisas ações para reduzir a procura dos produtos dessa destruição, sendo que, nesse âmbito, os governos, as empresas e os consumidores são inevitavelmente chamados a agir e a fazerem as escolhas necessárias e que são urgentes para assegurar um planeta habitável por muitas mais gerações.

O relatório recorda que quase 15% do total das emissões de dióxido de carbono produzidas pelas ações humanas derivam da desflorestação, pelo que travar e transformar as atividades que dela dependem e beneficiam é fulcral para combater o aquecimento global e a degradação dos ecossistemas.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

PAN quer restringir comercialização de combustíveis com óleo de palma


O PAN – Pessoas Animais Natureza entregou uma iniciativa na Assembleia da República que recomenda o Governo a restringir a produção e comercialização de combustíveis ou biocombustíveis que contenham óleo de palma ou outras culturas alimentares insustentáveis.

O documento visa cumprir as normas orientadoras da Lei de Bases do Clima.

Inês de Sousa Real, porta-voz e deputada do partido, considera “inaceitável que o Governo continue a investir na utilização do óleo de palma, além de conceder um conjunto de incentivos fiscais através da isenção do Imposto Sobre Produtos Petrolíferos, da Contribuição do Serviço Rodoviário e da Taxa de Carbono, que deram um bónus fiscal de vários milhões de euros a este tipo de combustíveis”.

A própria Comissão Europeia já prevê a eliminação gradual de biocombustíveis produzidos a partir de culturas alimentares para consumo humano ou animal.

O objetivo é evitar “os impactos negativos nos solos, bem como as emissões contínuas de gases com efeito de estufa, devido à conversão de áreas naturais em plantações de óleo de palma, que resultam num elevado declínio de biodiversidade com a destruição de florestas tropicais e espécies emblemáticas”, esclarece o PAN numa nota à imprensa.

De acordo com o previsto na Lei de Bases do Clima, desde 1 de janeiro de 2022 que o Estado deveria ter promovido a restrição da produção e comercialização de combustíveis ou biocombustíveis que contenham óleo de palma ou outras culturas alimentares insustentáveis.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Brasil foi considerado o país mais perigoso para ativistas ambientais nos últimos 10 anos


O Brasil foi o país mais perigoso do mundo para os ativistas ambientais e de defesa da terra durante a última década, sublinha o relatório anual da organização não governamental Global Witness.

Pelo menos 1733 ativistas foram mortos em todo o mundo entre 2012 e 2021, o que representa, em média, um homicídio a cada dois dias, com o Brasil a registar o número mais elevado, indicou o relatório divulgado na quarta-feira. 200 deles foram mortos só no ano passado, sendo que mais de dois terços dos assassínios ocorreram na América Latina.

O México registou 54 assassínios de ativistas no ano passado, mais 24 do que em 2020, no terceiro ano consecutivo em que o número de mortos aumentou. No Brasil foram identificados 26 assassínios, mais do que no ano anterior. Colômbia (33) e Nicarágua também registaram mais de dez ativistas mortos.

Já este ano, em junho, o jornalista britânico do jornal “The Guardian”, Dom Phillips, de 57 anos, e o ativista indígena brasileiro Bruno Pereira, de 41, foram alegadamente assassinados na região remota ocidental da floresta amazónica do Brasil.

“Há uma pressão crescente sobre os recursos naturais em todo o mundo e essa batalha está a desenrolar-se particularmente na Amazónia brasileira”, disse uma investigadora da Global Witness.

Segundo a televisão britânica BBC, Shruti Suresh sublinhou que 85% dos assassínios de ativistas no Brasil ocorreram na Amazónia.

“Trata-se de desigualdade de terras, em que os defensores estão a lutar pelas suas terras e nesta crescente corrida para obter mais terras para adquirir e explorar recursos, as vítimas são as comunidades indígenas, as comunidades locais, cujas vozes estão a ser suprimidas”, alertou.

“A maioria dos crimes acontece em lugares distantes do poder e são infligidos àqueles com menos poder”, sublinhou o relatório.

A Global Witness reconheceu que os dados “provavelmente serão subestimados, uma vez que muitos assassínios não são relatados, principalmente em áreas rurais e em determinados países”.

Os conflitos relacionados com a disputas de terra e a exploração de recursos mineiros causaram 27 mortos em todo o mundo, o maior número para qualquer setor. Quinze dos assassínios ocorreram no México.

A Global Witness pediu aos governos que apliquem leis que protejam os ativistas e exijam a aprovação das comunidades indígenas, além de exigir que as empresas sejam responsáveis por todas as suas operações mundiais e tenham uma política de tolerância zero para ataques contra os defensores da terra.

“Ativistas e comunidades desempenham um papel crucial como primeira linha de defesa contra o colapso ecológico, além de serem pioneiros na campanha para o evitar”, disse o diretor executivo da Global Witness, Mike Davis, no relatório.

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Lei de Bases do Clima: dez pontos urgentes que tardam em ser cumpridos


Um ano após a publicação, ZERO alerta para a importância de executar a Lei de Bases do Clima e identifica medidas que urge executar

A Lei de Bases do Clima foi publicada em Portugal há precisamente um ano (no dia 31 de dezembro de 2021), tendo entrado em vigor no dia 1 de fevereiro de 2022. Numa altura em que a crise climática constitui um dos maiores desafios que Portugal enfrenta – e a lei reconhece a situação de emergência climática vivenciada –, esta é uma lei-quadro fundamental para alinhar a política climática do país com o objetivo do Acordo de Paris de conter o aumento da temperatura média em 1,5°C e com o Pacto Ecológico Europeu, funcionando nessa matéria como um instrumento chave orientador e estruturante dos governos, instituições e organizações. Em 2022, muito graças à aprovação e entrada em vigor da lei, Portugal subiu dois lugares no Índice de Desempenho Climático (CCPI), um instrumento que analisa e compara a proteção do clima num total de 59 países, ocupando a 14.ª posição. Mas a existência da lei tem de se consubstanciar em ações e medidas concretas, sob pena de não passar de um conjunto de intenções.

Por isso, a ZERO alerta para a urgência da rápida implementação e regulamentação das disposições na lei, as quais incluem medidas que devem ser executadas e apresentadas pelo Governo no prazo de um ano após a sua entrada em vigor, isto é, até 1 de fevereiro de 2023, nomeadamente:
  1. Está prevista a disponibilização ao público de uma ferramenta digital, o Portal de Ação Climática, que permitirá aos cidadãos participar na ação climática e aceder a informação sobre emissões e metas, progresso no seu alcance, financiamento para o clima e estudos e projetos relevantes. A participação pública ocupa um lugar central na lei, incluindo os cidadãos e as associações de ambiente no planeamento, tomada de decisões e avaliação das políticas públicas. No entanto, não está claro como será realizado o enquadramento desta participação, se através da implementação de assembleias para o clima, ou a adoção de outros mecanismos.
  2. A determinação e estabelecimento dos Orçamentos de Carbono, que estabelecem limites de emissões de gases de efeito de estufa, não havendo ainda informação sobre esses valores para o período 2023-2025 e para o quinquénio 2025-2030.
  3. A apresentação do relatório de avaliação inicial de impacte climático, onde são identificados os diplomas governativos em potencial divergência com as metas e instrumentos presentes na Lei de Bases do Clima. Neste relatório deverão constar as seguintes análises: às normas que regulam a execução de projetos que contribuem para emissão de gases de efeito de estufa; às normas que enquadrem o investimento em infraestruturas cujos impactes não estejam incluídos no Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050; ao Código dos Contratos Públicos.
  4. A regulamentação do risco e impacte climático nos ativos financeiros, fundamental para a clarificação e dinamização do financiamento sustentável e promoção da informação sobre riscos climáticos junto dos agentes económicos e financeiros.
  5. A apresentação de um relatório por parte do Ministro das Finanças sobre património, investimentos, atividades, participações e subsídios públicos, onde constem detalhes sobre em que medida cumprem os princípios da taxonomia europeia, a qual identifica as atividades ambientalmente sustentáveis.
  6. A revisão das normas sobre governo das sociedades, onde devem constar as revisões necessárias de forma a harmonizar o Código das Sociedades Comerciais e demais legislação com a Lei de Bases do Clima, nomeadamente integrando a exposição de eventuais cenários climáticos e potenciais riscos financeiros conexos.
  7. A revisão do regime jurídico dos hidrocarbonetos que deverá incidir na revisão das normas que regulamentam a concessão, prospeção e exploração de hidrocarbonetos em Portugal. Esta matéria é particularmente relevante, tendo em consideração que na própria lei é proibida a outorga de novas concessões de prospeção ou exploração de hidrocarbonetos em território nacional.
  8. O relatório de avaliação do impacte carbónico da Assembleia da República, que deverá ser apresentado no primeiro ano de cada legislatura, no caso do governo atual (XXIII Governo Constitucional) até 30 de março de 2023, onde deverá constar uma avaliação do impacte carbónico da atividade e funcionamento da Assembleia da República na legislatura anterior, bem como as medidas a adotar para mitigar esse impacte.
  9. A restrição da produção e comercialização de combustíveis ou biocombustíveis que contenham óleo de palma ou outras culturas alimentares insustentáveis. Segundo a lei, a partir de 1 de janeiro de 2022 esta restrição deveria estar assegurada, mas isso não está a acontecer. Apesar de já proibidos em vários países, a sua utilização está a crescer em Portugal, beneficiando, desde o ano passado, de incentivos fiscais através da isenção do Imposto Sobre Produtos Petrolíferos, da Contribuição do Serviço Rodoviário e da Taxa de Carbono, correspondendo a um bónus fiscal de vários milhões de euros. Esta medida tinha inclusivamente já sido considerada no Orçamento do Estado de 2021, sem nunca ter sido implementada.
  10. A constituição do Conselho para Ação Climática (CAC), órgão consultivo que terá a responsabilidade de elaborar apreciações e pareceres sobre a ação climática e toda a legislação relacionada. Este será também responsável por apresentar bienalmente recomendações sobre o desenvolvimento das infraestruturas de energia e transporte. Apesar de não ser apontada na lei uma data-limite para a sua criação, a existência deste órgão é fundamental para a prossecução dos desígnios da lei.
Neste contexto, a ZERO aguarda com expectativa a apresentação e concretização destas medidas, apelando ao Governo português que não fique para trás neste longo e exigente caminho que todos temos de trilhar, e para o qual a Lei de Bases do Clima estabelece o código, regras e destino – e esse destino, no entender da ZERO, e ao abrigo do espírito da lei, deverá ser a antecipação da neutralidade climática de 2050 para 2045 ou antes.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Uma Importante Iniciativa Europeia Contra a Desflorestação Global

 Ruth Evans  -  Rooted / Enraizada

As florestas asseguram um vasto conjunto de bens e serviços, sendo essenciais para proteger a biodiversidade e o solo, manter as reservas de água doce, regular o clima, e promover a resiliência e o bem-estar das comunidades humanas. Mas a acelerada degradação dos ecossistema florestais ameaça a sustentabilidade dos serviços que providenciam, num tempo em que sobrevém uma crescente desvinculação entre as pessoas e a floresta, em especial porque diminui a população rural que dela beneficia diretamente, e cresce a população urbana que apenas indiretamente beneficia dos bens florestais. 
As frentes de desflorestação multiplicam-se em todo o mundo. Segundo dados da organização não-governamental WWF, entre 2004 e 2017 desapareceram cerca de 43 milhões de hectares em 24 regiões do mundo, sendo que as florestas tropicais estão particularmente ameaçadas. De acordo com esta mesma organização, a União Europeia é o segundo maior importador de bens  promotores de desflorestação (a seguir à China), sendo responsável por 16% da desflorestação associada ao comércio internacional. O reconhecimento desta responsabilidade, conduziu a uma importante iniciativa europeia com vista a travar a desflorestação global, introduzindo novas regras para assegurar que quem compra os bens não contribui para degradar os ecossistemas florestais. 
No início deste mês, a tempo de inspirar a COP15, os 27 estados-membros da UE acordaram numa iniciativa legislativa com vista a combater a degradação das florestas e travar a desflorestação global; o Conselho Europeu e o Parlamento Europeu firmaram um acordo provisório visando garantir que as empresas que pretendem vender no mercado europeu sete produtos e seus derivados, não são responsáveis pela desflorestação nem pela degradação das florestas por via da sua produção. Os produtos incluídos no novo regulamento europeu são: óleo de palma, cacau, café, borracha, gado, madeira e soja, bem como os seus derivados, entre outros, carne de vaca, couro ou produtos de papel impressos, cosméticos ou chocolate. Esta lista será revista e atualizada, tendo em conta novos dados, tais como alterações nos padrões de desflorestação. Quem explora estes produtos e quer comercializá-los na UE, deve fazê-lo com recurso a um rótulo que verifique se estes bens foram produzidos em terras que não sofrem desflorestação desde 31 de dezembro de 2020, cumprindo ainda toda a legislação afim no país de produção. Além disso, devem recolher informação geográfica precisa sobre a origem e produção dos bens, permitindo verificar o cumprimento de todas as normas.
Os 27 estados-membros responsabilizam-se pela aplicação de sanções firmes e dissuasoras a quem não cumprir as regras.  Bruxelas está confiante que o impacto desta iniciativa será global, embora o grupo europeu seja um dos maiores consumidores destes bens. A lista de produtos sujeitos às novas regras deverá ser alargada. Foi incluída uma disposição que permitirá à Comissão avaliar - o mais tardar um ano após a entrada em vigor do regulamento, caso se alarguem as regras a outras zonas florestais. E dentro de dois anos será ponderada uma eventual extensão a outros ecossistemas, incluindo territórios com elevada biodiversidade ou com interesse para o sequestro de carbono. 

Helena Freitas, Diário de Coimbra, 20.12.2022

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

From the Amazon to Australia, why is your money funding Earth’s destruction?

Fossil fuels, fisheries and farming: the world’s most destructive industries are protected – and subsidised – by governments


In every conflict over the living world, something is being protected. And most of the time, it’s the wrong thing.

The world’s most destructive industries are fiercely protected by governments. The three sectors that appear to be most responsible for the collapse of ecosystems and erasure of wildlife are fossil fuels, fisheries and farming. In 2021, governments directly subsidised oil and gas production to the tune of $64bn (£53bn), and spent a further $531bn (£443bn) on keeping fossil fuel prices low. The latest figures for fisheries, from 2018, suggest that global subsidies for the sector amount to $35bn a year, over 80% of which go to large-scale industrial fishing. Most are paid to “enhance capacity”: in other words to help the industry, as marine ecosystems collapse, catch more fish.

Every year, governments spend $500bn on farm subsidies, the great majority of which pay no regard to environmental protection. Even the payments that claim to do so often inflict more harm than good. For example, many of the European Union’s pillar two “green” subsidies sustain livestock farming on land that would be better used for ecological restoration. Over half the European farm budget is spent on propping up animal farming, which is arguably the world’s most ecologically destructive industry.

Pasture-fed meat production destroys five times as much forest as palm oil does. It now threatens some of the richest habitats on Earth, among which are forests in Madagascar, the Democratic Republic of the Congo, Ecuador, Colombia, Brazil, Mexico, Australia and Myanmar. Meat production could swallow 3m square kilometres of the world’s most biodiverse places in 35 years. That’s almost the size of India. In Australia, 94% of the deforestation in the catchment area of the Great Barrier Reef – a major cause of coral loss – is associated with beef production. Yet most of these catastrophes are delivered with the help of public money.

The more destructive the business, the more likely it is to enjoy political protection. A study published this month claims that chicken factories being built in Herefordshire and Shropshire are likely to destroy far more jobs than they create, wrecking tourism through the river pollution, air pollution, smell and scenic blight they cause. But none of the planning applications for these factories has been obliged to provide an economic impact analysis. Planning officers, the paper found, are highly dismissive of the hospitality industry, treating it as “non-serious and trivial”. By comparison, the paper found, “attitudes to farming were very different; described as serious, ‘proper’ (male) work”. The “tough”, “masculine” industries driving Earth systems towards collapse are pampered and protected by governments, while less destructive sectors must fend for themselves.

While there is no shortage of public money for the destruction of life on Earth, budgets for its protection always fall short. According to the UN, $536bn a year will be needed to protect the living world – far less than the amount being paid to destroy it – yet almost all this funding is missing. Some has been promised, scarcely any has materialised. So much for public money for public goods.

The political protection of destructive industries is woven into the fabric of politics, not least because of the pollution paradox (“the more damaging the commercial enterprise, the more money it must spend on politics to ensure it’s not regulated out of existence. As a result, politics comes to be dominated by the most damaging commercial enterprises.”) Earth systems, by contrast, are treated as an afterthought, an ornament: nice to have, but dispensable when their protection conflicts with the necessity of extraction. In reality, the irreducible essential is a habitable planet.

In 2010, at a biodiversity summit in Nagoya, Japan, governments set themselves 20 goals, to be met by 2020. None has been achieved. As they prepare for the biodiversity Cop15 summit in Montreal next week, governments are investing not in the defence of the living world but in greenwash.

The headline objective is to protect 30% of the world’s land and oceans by 2030. But what governments mean by protection often bears little resemblance to what ecologists mean.

Take the UK, for example. On paper, it has one of the highest proportions of protected land in the rich world, at 28%. It could easily raise this proportion to 30% and claim to have fulfilled its obligations. But it is also one of the most nature-depleted countries on Earth. How can this be? Because most of our “protected” areas are nothing of the kind.

One analysis suggests that only 5% of our land meets the international definition of a protected area. Even these scraps are at risk, as scarcely anyone is left to enforce the law: the regulators have been stripped to the bone and beyond. At sea, most of our marine protected areas are nothing but lines on the map: trawlers still rip them apart.

All this is likely to become much worse. If the retained EU law bill goes ahead, the entire basis of legal protection in the UK could be torn down. Even by the standards of this government, the mindless vandalism involved is gobsmacking. To prove that Brexit means Brexit, 570 environmental laws must be deleted or replaced by the end of next year. There will be no public consultation, no scope for presenting evidence and, in all likelihood, no opportunity for parliamentary debate. It is logistically impossible to replace so much legislation in such a short period, so the most likely outcome is deletion. If so, it’s game over for rivers, soil, air quality, groundwater, wildlife and habitats in the UK, and game on for cheats and con artists. The whole country will, in effect, become a freeport.

Never underestimate the destructive instincts of the Conservative party, prepared to ruin everything for the sake of an idea. Never underestimate its appetite for chaos and dysfunction.

The protected industries driving us towards destruction will take everything if they are not checked. We face a brutal contest for control over land and sea: between those who seek to convert our life support systems into profit, and those who seek to defend, restore and, where possible, return them to the indigenous people dispossessed by capitalism’s fire front. These are never just technical or scientific issues. They cannot be resolved by management alone. They are deeply political. We can protect the living world or we can protect the companies destroying it. We cannot do both.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Organizações pedem ao Governo o fim dos óleos de palma e de soja nos biocombustíveis em Portugal


Mais de 30 organizações ambientalistas e cívicas que representam povos indígenas e a sociedade civil do Brasil, Indonésia e Europa instam o Governo a abandonar a importação e o uso de óleos de palma e de soja nos biocombustíveis consumidos em Portugal.

Numa carta aberta endereçada ao Primeiro-ministro António Costa, ao ministro do Ambiente e Ação Climática, Duarte Cordeiro, e ao Secretário de Estado da Energia, João Galamba, as organizações “apelam ao Governo da República Portuguesa que aceite a proposta do Parlamento Europeu no sentido de eliminar no curto prazo os biocombustíveis produzidos a partir de óleos de soja e de palma, defendendo esta posição nas próximas negociações do trílogo sobre a Diretiva das Energias Renováveis da UE (RED, sigla em Inglês)”, salientam em comunicado.

Os signatários consideram que vivemos “um momento decisivo para a Europa, para o Brasil e para a Indonésia” e que o mundo tem o seu alcance “uma oportunidade histórica para garantir que as políticas Fit for 55 contribuam realmente para mitigar a crise climática, para proteger a biodiversidade e para garantir os direitos dos povos indígenas, incentivando o uso de energias limpas, tanto na Europa como no resto do mundo”.

As 33 organizações destacam o “uso da soja e da palma para a produção de biocombustíveis” é a causa de “inúmeros” problemas, entre eles o aumento da procura por produtos derivados da soja e da palma que “levaria à conversão de ecossistemas naturais ricos em carbono, como é o caso das florestas tropicais e das turfeiras, em solos agrícolas”, e que “algumas das áreas do mundo com maior biodiversidade biológica serão substituídas por plantações monoculturais”.

Avisam também que “o aumento da procura por terra para a produção de soja e palma no Brasil e na Indonésia provoca conflitos territoriais graves com os povos indígenas e outras comunidades locais, cujas terras são invadidas pelas plantações em expansão”. E esses confrontos “impedem a gestão sustentável das florestas tropicais e outras zonas e levam à violência contra os nossos defensores do ambiente e à violação dos direitos humanos, assim como à destruição dos nossos meios de subsistência”.

Por fim, explicam que quanto maior for a procura pela soja e pela palma para integrarem os biocombustíveis, maior serão também os preços dos óleos alimentares vegetais e a sua escassez nos mercados mundiais. Por isso, “acreditamos firmemente que os solos agrícolas devem ser utilizados para a produção de alimentos e não para produzir combustíveis que são queimados nos nossos veículos”, argumentam as organizações, acrescentando que “numa situação em que a escassez de alimentos pode ser uma realidade global, é fundamental ter isto em consideração”.

As organizações que assinam a carta aberta ao Governo português defendem que a certificação dos produtos de soja e de palma não é a solução, que só poderá passar pela eliminação, “o mais rapidamente possível”, de biocombustíveis feitos a partir desses produtos vegetais.

E dizem que é fundamental “eliminar a soja e a palma dos nossos combustíveis de forma simultânea”, pois se apenas “abandonarmos o óleo de palma, o mais provável é que venha a ser substituído por soja na produção de biocombustíveis, deslocando assim os problemas de um local para o outro, sem os resolver”.

Assim, pedem aos três governantes “para estarem à altura das circunstâncias ao adotarem o abandono imediato e simultâneo da soja e da palma nos biocombustíveis da Europa, como proposto pelo Parlamento Europeu, para que as políticas sobre as energias renováveis contribuam para um futuro sustentável, ao invés de expor os nossos países e povos a um aumento da desflorestação e à violação dos nossos direitos básicos”.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Nestlé's Darkest Secret: The Disturbing Truth


Nestlé: um filme de terror da vida real - Este mini-filme de negócios "história da Nestlé" analisa a controversa história da Nestlé, incluindo escândalos nos quais a Nestlé esteve envolvida e acusações contra o grupo Nestlé. No entanto, além de olhar para o mundo sombrio da Nestlé e a perturbadora história de controvérsias e escândalos da Nestlé, também aprenderemos a história de como a Nestlé começou de origens humildes com um produto que salva vidas. Honestamente, a Nestlé é uma história de negócios fascinante, especialmente considerando a frequência com que a Nestlé é mencionada on-line como uma das empresas mais odiadas / mais malignas. Então... Qual é a verdade sobre a Nestlé?

Saber mais:

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Faça Compras Conscientes, Livres de Desflorestação


AGRICULTURA E DESFLORESTAÇÃO – QUE RELAÇÃO?

Tanto a desflorestação como a degradação florestal estão a ocorrer a um ritmo alarmante, agravando as alterações climáticas e a perda de biodiversidade. A expansão das áreas de produção agrícola de matérias-primas, mercadorias ou também chamadas commodities – como o gado bovino, a madeira, o óleo de palma, a soja, o cacau e o café – é o principal motor da desflorestação e a degradação florestal.

Em 2017, a União Europeia (UE) foi um dos maiores blocos consumidores de commodities associadas à desflorestação e à degradação das florestas, responsável por 16% da desflorestação associada ao comércio internacional, num total de 203.000 hectares.

PORTUGAL TAMBÉM É RESPONSÁVEL PELA DESFLORESTAÇÃO NA AMAZÓNIA?

Em Portugal, a pecuária intensiva é o principal motor da desflorestação causada pelas importações, sobretudo ligada à produção de matérias-primas para a alimentação animal como a soja e o milho. A maior parte da soja importada vem do Brasil, onde os grandes campos de soja estão ligados à destruição da Amazónia e de biomassa importantes como o Cerrado e o Pantanal. O agronegócio da soja está também ligado a violações de Direitos Humanos através da apropriação de terras e recursos naturais a comunidades locais.

A importação de mercadorias de países com fraca regulamentação ou controlo dos agroquímicos utilizados na sua produção também aumentam o risco para a saúde pública, sempre que entrem na cadeia alimentar, algo que já se está a verificar.

Portugal emitiu uma exceção à entrada de milho para alimentação animal com limites máximos de resíduos de pesticidas acima do permitido na UE (Despacho nº 28/2022 da DGAV), derivado das necessidades sobretudo da pecuária industrial que vêem o fornecimento a partir da Ucrânia em risco, devido ao atual contexto. A importação desta mercadoria deverá ser reforçada junto de países Sul Americanos, como a Argentina e o Brasil, onde a sua produção poderá estar ligada à desflorestação, degradação de biomas de alto valor e violações dos Direitos Humanos.

Estas matérias-primas estão nos produtos que consumimos diariamente, no entanto desconhecemos os impactes dos produtos disponíveis nos nossos locais de compra. O que compramos contribuir de forma direta ou indireta para a desflorestação? Quanto custa realmente aquilo que consumimos? (ou quais os custos escondidos daquilo que consumimos).

REGULAMENTO DA UE PARA PRODUTOS SEM DESFLORESTAÇÃO

A Comissão Europeia (CE) apresentou uma proposta de regulamento, a 17 de novembro de 2021, com o objetivo de garantir que as cadeias de abastecimento Europeias não causam desflorestação e degradação das florestas.

O regulamento para produtos livres de desflorestação proposto pela CE assume um caminho de transparência e de responsabilização de toda a cadeia de abastecimento, para que se torne cada vez mais difícil a circulação de mercadorias ligadas à desflorestação ou à degradação de ecossistemas florestais. No entanto, algumas definições vagas e aspetos pouco claros podem enfraquecer o regulamento e deixá-lo vulnerável a emendas que comprometam a sua eficácia, tais como:
  • As isenções para empresas, resultantes de uma definição excessivamente abrangente de pequenas e médias empresas (PME), podem deixar de fora cadeias importadoras.
  • A falta de responsabilização do setor financeiro permitirá que se continue a financiar a destruição de florestas tropicais.
  • Mercadorias como a borracha e o milho, a par de outros ecossistemas para além das florestas, já deveriam estar incluídos na primeira versão do regulamento, caso contrário resultarão danos evitáveis e um atraso considerável na concretização dos objetivos do diploma.
  • Não estão devidamente acautelados mecanismos de recurso à justiça em caso de violação dos Direitos Humanos e outros direitos.
O sucesso deste regulamento vai, pois, depender do empenho e ambição dos Estados-Membros, crucial durante a discussão ao longo dos próximos meses. Assegure-se que a sua opinião é representada!

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Treespiracy


The world’s forests are being destroyed against a background of corruption, illegality and apathy.

A complex web of financial instruments allowing crime, corruption and wrong-doing, hidden behind shell corporations and offshore companies was exposed with the release of the Panama Papers.

This shadow network is being used by individuals and companies behind the destruction of our planet’s forests.

Indonesia has lost vast amounts of primary rainforest, behind only Brazil in scale for these losses. Some of the largest palm oil and timber companies operating in the country have disguised the extent of their operations through “shadow companies”. This means that who truly benefits from their activities is deliberately made harder or impossible to trace.

Indigenous

The Indonesian part of the island of Papua is a “new frontier” of palm oil deforestation in the country. This is against the express wishes of local Indigenous peoples. Previous deforestation went ahead despite Indonesian government officials claiming that the permits to do so in the region were falsified.

Companies were then given permission to continue clearing the forest as long as they “fix their permits”. In other words, as long as they retrospectively got the permits they needed from the start.

However, the forests of Papua may have been handed a lifeline: the Indonesian government has just cancelled 192 deforestation permits. For the sake of people, wildlife and the climate, they need to stay cancelled.

Forests will keep being cleared with impunity without financial transparency, accountability and enforcement.

The “clear forests first, apply for permits later” approach is not limited to Indonesia. In Paraguay, a government whistleblower provided evidence that the same problem was happening there. In that case, the deforestation included the lands of the Ayoreo Totobiegosode Indigenous peoples.

Deforestation

Where voluntary pledges have led to environmental successes they have been partial. The Amazon soy moratorium was designed to stop companies clearing Amazonia for the crop, and it has had some impact.

The rate of soy-related deforestation in Amazonia fell by 84 percent between 2004 and 2012, as a result of the moratorium and connected policy efforts.

However, this is arguably because companies have simply been able to shift to another, less protected biome; the neighbouring Cerrado, a precious ecosystem in its own right, which is now the frontier of deforestation in South America.

Data on corporate deforestation from the supply chain mapping initiative Trase show that companies who have pledged not to cause deforestation for soy cause as much as those who have made no such commitment.

Felled

The New York Declaration on Forests from 2014 pledged to halve deforestation by 2020 and end it by 2030, yet rates of forest loss have been 41 percent higher in the years since the agreement was signed.

The impact of pledges made at COP26 to reverse and end deforestation in a decade is yet to be seen, but it is noteworthy that the Brazilian Amazon started 2022 with the fastest rate of deforestation in 14 years.

Certification schemes purporting to ensure wood and timber products also have weaknesses. The assessment bodies responsible for conferring prized sustainability certification like the Forest Stewardship Council ecolabel are paid for by the companies they audit, competing with one another for this income. This creates a “race to the bottom” as it incentivises weak auditing in order to win more business.

These certification schemes have also been found to accredit illegally felled wood, including trees from protected forests in Siberia, some of which ended up in childrens’ furniture from IKEA.

Time-bound

No wonder, then, that many timber firms are lobbying to be exempt from upcoming EU laws to keep the products of environmental destruction and human rights abuses out of European supply chains. They claim that certified status – demonstrated to be flawed – should be enough to allow them this exemption.

While a great deal of forestry is not connected to crime, corruption, human rights abuses and the destruction of irreplaceable nature, far too much is. All our most basic human rights depend on a sustainable environment. We cannot let it be destroyed for a handful of people to profit.

Without financial transparency, accountability, and enforcement of strong laws to protect forests, they will keep being cleared with impunity.

States must step in and pass legislation which requires robust, transparent and time-bound reductions in deforestation for companies wishing to be part of their supply chains. The future of people and the planet depends on it.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Carros europeus “comem” 15 milhões de pães por dia em biocombustível



A Europa transforma diariamente em etanol 10.000 toneladas de trigo, o equivalente a 15 milhões de pães por dia, para utilização em automóveis a gasolina, segundo um estudo hoje divulgado.

O estudo é da responsabilidade da ONG Transportes e Ambiente (T&E, na sigla original), uma organização de defesa de políticas sustentáveis para o setor dos transportes.

Em comunicado, a T&E alerta que o lóbi europeu dos combustíveis está a pressionar para que haja uma maior queima de culturas alimentares, apesar do colapso no abastecimento de cereais vindos da Ucrânia e da Rússia e de uma iminente crise alimentar mundial.

No documento a T&E apela a que se termine com a transformação do trigo e de outras culturas alimentares em etanol e considerou imoral a pressão para o aumento da produção de biocombustíveis, feita pelo setor, numa altura de escassez alimentar global.

“Todos os anos queimamos nos nossos carros milhões de toneladas de trigo e outras culturas para alimentar os nossos automóveis. Isto é inaceitável face a uma crise alimentar global. Os governos têm de parar urgentemente a queima de culturas alimentares nos automóveis para reduzir a pressão sobre os fornecimentos críticos”, disse, citado no comunicado, Maik Marahrens responsável na T&E pela área dos biocombustíveis.

O estudo indica que tirar o trigo dos biocombustíveis europeus iria compensar em mais de 20% a quebra no fornecimento de trigo ucraniano, em colapso devido à invasão do país pela Rússia, no mês passado.

Na quinta-feira um grupo de organizações não governamentais (ONG) europeias apelou aos governos dos vários Estados-membros para que suspendessem imediatamente a utilização de culturas alimentares para produção de biocombustíveis.

Mas há também apelos crescentes, especialmente entre o lóbi europeu dos biocombustíveis (ePure e European Biodiesel Board, citados pela T&E), para que o petróleo russo seja substituído por biocombustíveis produzidos a partir de culturas como trigo, milho, cevada, girassol, colza e outros óleos vegetais.

“Mesmo que a Europa duplicasse a área de terras agrícolas que dedica aos biocombustíveis – equivalente a pelo menos 10% das terras agrícolas da UE (União Europeia) para culturas – isto substituiria apenas 7% das importações de petróleo da UE da Rússia”, diz-se no comunicado.

Para substituir todas as importações russas de petróleo por biocombustíveis produzidos internamente, seriam necessários utilizar pelo menos dois terços das terras agrícolas do bloco europeu para a produção de culturas para biocombustíveis, acrescenta o comunicado.

Cerca de 27% do biodiesel produzido em Portugal em 2021 resultou da utilização de culturas alimentares

A associação Zero, uma das organizações ambientalistas portuguesas que faz parte da T&E, diz em comunicado que em Portugal, em 2021, cerca de 27% do biodiesel produzido resultou da utilização de culturas alimentares, principalmente colza, soja e óleo de palma.

Francisco Ferreira, presidente da Zero, diz no comunicado que a indústria dos biocombustíveis está a intensificar os seus esforços de lobby para pressionar a utilização de mais cereais como o trigo e o milho na produção de biocombustíveis, como forma de substituir o petróleo russo.

E acrescenta Maik Marahrens, responsável na T&E pela área dos biocombustíveis:

“Ao fazê-lo, de forma cínica está a tirar partido das preocupações das pessoas relativamente ao preço dos combustíveis, colocando o lucro acima da segurança alimentar. Isto é algo imoral, num cenário em que se assiste a milhões de pessoas em todo o mundo que não podem sequer pagar um pão”.

A Zero e as associações ambientalistas FAPAS (Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade), GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente) e Oikos – Cooperação e Desenvolvimento enviaram na quinta-feira uma carta ao ministro do Ambiente e da Ação Climática a pedir a suspensão imediata da utilização de alimentos para consumo humano e animal na produção de biocombustíveis em Portugal.