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domingo, 19 de julho de 2026

Plano verde em Madrid

Madrid transformou milhares de árvores numa das suas principais estratégias para enfrentar o calor urbano. Em vez de depender apenas de obras de concreto, a cidade expandiu sua cobertura vegetal e criou uma verdadeira floresta em meio às ruas.

Hoje, a capital espanhola reúne mais de 300 mil árvores espalhadas pelas vias públicas. Somando parques e áreas verdes administradas pelo município, esse número passa de 1,5 milhão.

O efeito aparece no dia a dia
Mais sombra, melhora da qualidade do ar e temperaturas mais amenas numa cidade que, assim como outras regiões da Europa, enfrenta verões cada vez mais intensos.

Esse planeamento de longo prazo também rendeu reconhecimento internacional. Madrid recebeu por sete anos consecutivos o título de "Cidade das Árvores do Mundo", concedido às cidades que se destacam pela gestão e preservação da arborização urbana.

Cada árvore plantada faz parte de um projeto maior: tornar a cidade mais agradável para viver, fortalecer a biodiversidade e preparar os espaços urbanos para um clima cada vez mais desafiador. No fim das contas, algumas das obras mais valiosas de uma grande cidade continuam crescendo silenciosamente, folha por folha.

Pois cá está. Portugal sempre em retrocesso. E a dendrofobia é estrutral. Encontra muita resistência. Só mesmo uam visão acodemocrática de um autarca visionário, como o que aconteceu em Guimarães. 

Guimarães foi distinguida recentemente com o prestigiado título de Capital Verde Europeia 2026, um galardão atribuído pela Comissão Europeia que reconhece o compromisso e o esforço da cidade na vanguarda da sustentabilidade ambiental. Para conquistar este prémio, a cidade minhota apresentou-se sob o lema "One Planet City" e superou na final as cidades de Heilbronn, na Alemanha, e Klagenfurt, na Áustria.

Além do prestígio internacional, a distinção garantiu a Guimarães um apoio financeiro de 600 mil euros destinado a impulsionar novos projetos ambientais e a acelerar a meta local de neutralidade climática. Este prémio junta-se a outros reconhecimentos recentes obtidos pelo município, como o prestigiado prémio internacional Green Flag Award, que distingue a excelência na gestão de espaços verdes como o Parque da Cidade e o Jardim do Monte Latito, e a presença entre os finalistas europeus na Semana Europeia da Prevenção de Resíduos, consolidando a cidade como uma referência em políticas de sustentabilidade e ecologia urbana.

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Plataformas e base de dados

sábado, 30 de maio de 2026

Classificação: os países que alimentam o mundo


Um grupo relativamente pequeno de países fornece hoje uma enorme fatia dos alimentos comercializados no mundo. Os 10 maiores exportadores, por si só, representam quase metade das exportações agrícolas globais, conferindo a um punhado de economias uma enorme influência sobre os preços e as cadeias de abastecimento globais de alimentos.

As Américas constituem o núcleo do sistema global de comércio de alimentos. Os EUA, o Brasil, o Canadá e o México, em conjunto, representam quase 30% das exportações agrícolas globais, abrangendo desde cereais e carne a alimentos processados ​​e oleaginosas.

Enquanto isso, várias economias populosas apresentam classificações inferiores às esperadas. Apesar de ser o maior produtor agrícola do mundo, a China está muito atrás dos EUA e do Brasil em termos de valor de exportação, o que reflete a parcela da sua produção que é consumida internamente.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Quem detém mais satélites? Fica claro quem manda na órbita da Terra


O mundo mudou muito nesta última década. E as disputas pelo controlo da informação passaram para o fundo do mar, mas, sobretudo, para a órbita da Terra. Hoje, os satélites tornaram-se a espinha dorsal da moderna economia espacial. Desde a internet de banda larga à observação da Terra, a infraestrutura orbital suporta agora indústrias muito para além do setor aeroespacial. Então, quem tem mais satélites no espaço?

Não há dúvidas que os EUA lideram não só a corrida espacial, mas também o espaço em volta da Terra. Como tal, e na preparação do próximo grande comércio global, são empresas americanas que estão na liderança deste segmento.

Para percebermos, de forma mais concreta, quem domina a órbita do planeta, um gráfico, de autoria da Global X Canada, permite perceber quem detém mais satélites. A informação tira partido de dados da AEI Space Data Navigator.


Que operadores detêm mais satélites?
A SpaceX domina claramente a contagem global de satélites, com 10.262 satélites operacionais. Isso representa mais de 16 vezes os 632 satélites da OneWeb, o segundo maior operador identificado.

Posição Operador de satélites Número de satélitesSpaceX - 10.262 satélites
OneWeb - 632 satélites
National Reconnaissance Office - 285 satélites
Forças Armadas dos EUA - 244 satélites
Forças Armadas da China - 168 satélites
Planet Lab - 144 satélites
Forças Armadas da Rússia - 107 satélites
NASA - 90 satélites
Iridium - 80 satélites
Globalstar - 26 satélites
Outros - 3.409 satélites


O ranking mostra a rapidez com que as redes privadas cresceram desde o início da corrida espacial.

Organizações públicas como a NASA e forças militares nacionais operam agora apenas uma pequena parcela, com apenas 894 satélites entre os proprietários identificados na base de dados.

A vantagem de escala da Starlink

A SpaceX opera a Starlink, a maior frota de satélites alguma vez colocada em órbita. Só a sua dimensão representa cerca de dois terços dos 15.447 satélites apresentados na base de dados.

Em vez de lançar apenas alguns satélites de elevado valor, a Starlink aposta na escala. Como resultado, a rede tornou-se num exemplo marcante da infraestrutura orbital comercial.

Redes comerciais entram em órbita
A diferença entre a SpaceX e os operadores tradicionais assinala um importante ponto de viragem. As empresas passaram a deter e operar redes de satélites numa escala que anteriormente estava reservada aos governos.

Isto é relevante porque os satélites deixaram de ser apenas ativos de investigação governamental de nicho. Estão agora a tornar-se infraestrutura crítica para conectividade, dados e resiliência nacional.

A China já tem mais de 1.300 satélites ativos em órbita e continua a expandir rapidamente a sua presença espacial. Entre eles estão satélites militares, sistemas de navegação BeiDou, observação da Terra, comunicações e futuras redes de internet via satélite para competir com a Starlink. O objetivo de Pequim é claro: transformar o espaço numa infraestrutura estratégica para defesa, tecnologia e influência global.

Investir no espaço
À medida que as redes comerciais crescem, a infraestrutura orbital poderá tornar-se um tema de investimento cada vez mais relevante. Satélites, sistemas de lançamento e serviços espaciais fazem todos parte deste ecossistema em expansão.

A economia espacial já está a avançar para áreas como logística, agricultura, defesa e comunicações. Como resultado, os investidores poderão procurar cada vez mais exposição a empresas que impulsionam estas tendências.

sábado, 25 de abril de 2026

Cidade portuguesa entra no top das mais felizes do mundo


A Maia é a cidade portuguesa mais bem posicionada no Happy City Index 2026. Ocupa o 69.º lugar a nível mundial, com 6.273 pontos, destacando-se entre os municípios nacionais.

A capital dinamarquesa, Copenhaga, lidera o ranking, que resulta de uma avaliação feita a centenas de cidades em todo o mundo.

Como é avaliada a qualidade de vida no ranking
O índice, desenvolvido pelo Institute for Quality of Life, avalia onde se vive melhor ao analisar fatores como:
  1. a governação
  2. o ambiente
  3. a economia
  4. a saúde
  5. a sustentabilidade
  6. o envolvimento dos cidadãos
A edição de 2026 começou com a análise de 3.400 cidades em todo o mundo, sendo depois reduzida a uma seleção mais detalhada de mil, até chegar à lista final de 251 cidades.

O estudo envolveu centenas de investigadores e teve em conta milhares de registos validados.

As dez cidades mais felizes do mundo
Os investigadores destacam as cidades mais bem classificadas a nível mundial por pontuação:
1. Copenhaga, Dinamarca
2. Helsínquia, Finlândia
3. Genebra, Suiça
4. Uppsala, Suécia
5. Tóquio, Japão
6. Trondheim, Noruega
7. Berna, Suíça
8. Malmö, Suécia
9. Munique, Alemanha
10. Aarhus, Dinamarca

Cidades portuguesas em destaque
A posição da cidade da Maia ganha ainda mais relevância por surgir entre as 70 cidades mais bem classificadas do mundo, à frente de destinos internacionais como Bordéus e Adelaide. Este reconhecimento surge no mesmo ano em que a cidade foi eleita Capital Europeia do Voluntariado.

Portugal conta com várias cidades neste ranking. Depois da Maia, surgem Matosinhos (111.º lugar), Odivelas (114.º), Almada (124.º), Lisboa (159.º), Braga (166.º), Gondomar (199.º) e Funchal (225.º).

O estudo confirma a presença de cidades portuguesas na lista, mas destaca a Maia como o principal exemplo nacional em termos de qualidade de vida.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Jovens portugueses apresentam pior saúde mental que adultos acima dos 55 anos


A saúde mental dos portugueses é pior entre os jovens adultos face à população acima dos 55 anos, apesar dos laços familiares fortes e hábitos alimentares saudáveis, fatores socioculturais habitualmente associados a essa diferença geracional.

É assim em todos os 84 países analisados no relatório Global Mind Health (Saúde Mental Global) 2025 e Portugal não é exceção: os níveis de saúde mental dos jovens são tendencialmente mais baixos em comparação com as faixas etárias mais velhas.

O relatório, da organização Sapien Labs, mede a saúde mental das populações com acesso à Internet e na edição mais recente, divulgada esta quinta-feira, apresenta dados de perto de um milhão de pessoas em 84 países, incluindo Portugal.

À semelhança da tendência global, também os jovens portugueses, entre os 18 e 34 anos, experienciam mais desafios de saúde mental clinicamente significativos, quando comparados com a faixa etária acima dos 55 anos.

Ligeiramente acima da média global de 36 (numa escala de -100 a 200), o quociente de saúde mental médio dos jovens portugueses aproxima-se de 40.

Portugal surge em 46.º lugar
No 'ranking' dos 84 países participantes, Portugal surge assim em 46.º lugar, melhor posicionado do que a população portuguesa acima dos 55 anos de idade que, ainda assim, apresenta melhores níveis de saúde mental do que os jovens.

Com perto de 90 pontos no quociente de saúde mental, os portugueses nesta faixa etária conseguem, de acordo com a escala, ser plenamente produtivos, 70% do tempo, em todos os aspetos da vida.

No contexto global, as diferenças geracionais são tendencialmente maiores nos países mais ricos e, pelo contrário, menos acentuadas nos países da África subsaariana.

A influência dos alimentos ultraprocessados
Os autores apontam quatro aspetos socioculturais que explicam os níveis de saúde mental mais baixos entre os jovens, mas nem todos explicam os dados referentes a Portugal, desde logo no que respeita aos hábitos alimentares.

De acordo com estudos citados no relatório, o consumo de alimentos ultraprocessados -- "cujo consumo está a aumentar entre as gerações mais jovens" - contribui entre 15 a 30% para o agravamento da saúde mental e está associado ao aumento da depressão e diminuição do controlo emocional e cognitivo.

Os jovens portugueses, no entanto, destacam-se por serem dos que menos consomem este tipo de alimentos, ainda que o façam mais do que os adultos acima dos 55 anos.

Portugal é um dos 25 países em que os jovens da "geração Z", entre os 18 e 24 anos, começaram a utilizar 'smartphone' mais cedo, entre os 12 e os 13 anos, sendo que o acesso precoce a 'smartphones' está associado ao aumento de ideação suicida, agressão e outros problemas na vida adulta.

Outro dos aspetos em que Portugal surge destacado diz respeito aos laços familiares fortes, associados a sintomas depressivos "significativamente mais baixos".

Em 18.º lugar no 'ranking', Portugal é dos países em que a percentagem de jovens adultos com laços familiares fortes é mais próxima da registada entre os adultos acima dos 55 anos, a par de Itália, França, Bélgica.

Quanto à espiritualidade, outro dos aspetos socioculturais analisados e associado a "vários benefícios de saúde mental", a percentagem é ligeiramente mais elevada entre os mais jovens, uma tendência que se verifica, ainda que em maior proporção, sobretudo em países da África subsariana e Israel.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Corrupção aumenta globalmente com EUA a atingir pior nível de sempre


O Índice de Perceção da Corrupção de 2025 da Transparência Internacional revela que a corrupção está a aumentar globalmente, mesmo em democracias consolidadas. 

A corrupção está a aumentar mesmo em democracias consolidadas, tendo os Estados Unidos atingido, no ano passado, o pior nível de sempre, segundo o Índice de Perceção da Corrupção (IPC) de 2025, hoje publicado pela organização Transparência Internacional.

Segundo o documento, apesar de os desenvolvimentos de 2025 ainda não estarem totalmente refletidos na análise hoje divulgada, os Estados Unidos registaram uma forte queda no índice de perceção.

O país obteve uma pontuação de 64 pontos numa escala de 0 (altamente corrupto) a 100 (muito íntegro).

Os Estados que se destacam pela elevada transparência e integridade do setor público têm classificações de 80 ou mais pontos, sendo a lista liderada pela Dinamarca (89), Finlândia (88) e Singapura (84).

No entanto, alertou a organização não-governamental (ONG), os Estados com índices elevados não estão livres de corrupção, já que apoiam, em alguns casos, a corrupção noutros países ao facilitar o branqueamento e a transferência de dinheiro proveniente de atos de corrupção, o que a análise do IPC não abrange.

Por exemplo, a Suíça (80) e Singapura (84) estão entre os países com melhores pontuações, mas têm sido alvo de críticas por facilitarem a movimentação de dinheiro ilícito, destacaram os analistas da organização.

42 pontos a nível global, o nível mais baixo em mais de uma década
Em termos globais, a pontuação média ficou-se pelos 42 pontos, o que representa o nível mais baixo em mais de uma década.

"A grande maioria dos países não consegue controlar a corrupção: mais de dois terços -- 122 em 180 -- têm uma pontuação inferior a 50" pontos, observou a Transparência Internacional.

De acordo com o IPC deste ano, o número de países com pontuação acima de 80 diminuiu dos 12 registados há uma década para apenas cinco.

Influência dos EUA no mundo
A queda registada nos Estados Unidos teve repercussões no mundo, avaliou a ONG, lembrando, por exemplo, que a Lei sobre Práticas de Corrupção no Estrangeiro (que proíbe pessoas e empresas norte-americanas ou cotadas em bolsas dos Estados Unidos) tem um forte impacto em empresas internacionais, exigindo rigorosas práticas de contabilidade.

"O congelamento temporário [decidido em fevereiro de 2025, no início do segundo mandato de Donald Trump] sinalizou uma tolerância para com práticas comerciais corruptas", apontou a Transparência Internacional no relatório.

Além disso, os cortes nas ajudas dos Estados Unidos à sociedade civil no estrangeiro "enfraqueceram os esforços globais anticorrupção", acrescentou.

Segundo os analistas, estas decisões foram interpretadas pelos líderes políticos de outros países "como um sinal para restringir ainda mais as organizações não-governamentais, os jornalistas e outras vozes independentes".

Por isso, a perceção da corrupção piorou também em países como o Canadá (75 pontos), a Nova Zelândia (81) e em várias partes da Europa, como o Reino Unido (70), França (66) e a Suécia (80).

"Desde 2012, 13 países da Europa Ocidental e da União Europeia [UE] apresentaram um declínio significativo [no IPC], e apenas sete melhoraram significativamente", alertou a Transparência Internacional no mesmo documento.

Apesar do cenário, "a corrupção não é inevitável", sublinhou o presidente da Transparência Internacional, François Valérian, citado na análise, apelando aos governos e aos líderes para que "atuem com integridade e cumpram as suas responsabilidades".

É fundamental proteger o espaço cívico, pondo fim aos ataques a jornalistas, ONG e denunciantes, e interrompendo os esforços para restringir o trabalho independente da sociedade civil, segundo o representante.

Interferência dos Estados em ONG
Na última década, a interferência politizada nas operações das ONG aumentou em países como a Geórgia (50), Indonésia (34) e Peru (30), onde os governos introduziram novas leis para limitar o acesso ao financiamento das organizações e lançou campanhas de difamação e intimidação.

Nestes contextos, tornou-se cada vez mais difícil aos jornalistas independentes, organizações da sociedade civil e ativistas manifestarem-se contra a corrupção, facilitando, por sua vez, a manutenção dos abusos de poder.

Foi o que aconteceu em países como a Rússia (22) e a Venezuela (10), onde a repressão da sociedade civil aumentou o número de críticos do regime obrigados ao exílio, assinalou a Transparência Internacional.

Estes ambientes restritivos não só silenciam os críticos e os órgãos de fiscalização, como também criam perigos reais para aqueles que ousam expor irregularidades, frisou a organização, referindo que "desde 2012, 150 jornalistas que cobriam temas relacionados com corrupção em zonas sem conflito foram assassinados -quase todos em países com elevados níveis de corrupção".

Segundo o IPC, os países com as pontuações mais baixas apresentam, na sua grande maioria, sociedades civis severamente reprimidas e elevados níveis de instabilidade, como acontece no Sudão do Sul (9), na Somália (9) e na Venezuela (10).

Cenários que ameaçam os 50 países que viram as suas pontuações descerem significativamente nos últimos 13 anos, como aconteceu com a Turquia (31), a Hungria (40) e a Nicarágua (14).

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Portugal tem o segundo IVA mais alto da Europa, como diz André Ventura?



André Ventura falava daquilo que viu na Suíça a propósito das portagens. Por lá, paga-se uma taxa anual para poder circular; por cá, pagamos “por cada centímetro de estrada”, vociferou, indignado, o candidato a sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa.

Daí, saltou rapidamente para o Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA): “Temos o IVA a 23%. Sabem qual é o IVA nos outros países? Portugal tem o segundo IVA mais alto da Europa!”

Será que tem razão?

O IVA é um imposto sobre o consumo que se aplica a quase todos os bens e serviços comprados e vendidos na União Europeia, tendo regras que podem ser aplicadas de forma diferente em cada país.

A Comissão Europeia disponibiliza os dados das taxas de IVA em vigor em cada um dos Estados-membros da União Europeia. Em Portugal, a taxa normal aplicada é de 23% e a taxa reduzida é de 6%.

Estando André Ventura a falar dos 23%, estaria, portanto, a falar da taxa normal de IVA aplicada em Portugal e, assim sendo, os dados não batem certo.

Portugal surge em oitavo lugar, ao mesmo nível de Irlanda, Polónia e Eslováquia, todos com 23% de IVA. Acima do nosso país, há outros Estados-membros com taxas normais – ou padrão - superiores.

A Hungria destaca-se com a taxa mais elevada (27%), seguida pela Finlândia (25,5%), pela Dinamarca (25%), Croácia (25%), Suécia (25%), Estónia (24%) e Grécia (24%).

A SIC pediu esclarecimentos sobre qual a fonte em que o candidato presidencial sustentou a afirmação - visto não bater certo com os dados da Comissão Europeia - mas não obteve resposta.

Portugal não é o segundo país com a taxa de IVA mais elevada da Europa. Apesar de a taxa de 23% de IVA colocar Portugal num grupo de países com as taxas mais elevadas, não é verdade que o país esteja no segundo lugar, nem sequer no pódio deste ranking.

Por ser ter sido eleito deputado e por ser o povo que paga om seu salário, cada mentira que dissesse deveria levar uma multa.
Ele não defende o povo nem as pessoas de bem, como apregoa.

O histórico de relações promíscuas do líder do partido Chega, André Ventura tendenciosamente procura distanciar-se dos seus principais aliados políticos (criminosos) que sempre financiaram os seus projectos eleitorais, dolosamente omitindo a fonte destes financiamentos que depois da detenção do político e empresário Tito Gomes Fernandes, figura próxima do Presidente deposto da Guiné Bissau, Umaro Sissoco Embaló, por alegado transporte ilegal de 5 milhões de euro em várias malas.  O seu silêncio sobre este caso que o compromete é muito estranho que em condições normais e conhecendo a natureza controversa de André Ventura, surpreende-nos a todos o facto de não ter aproveitado e explorado politicamente este episódio como mais uma oportunidade para destilar o seu discurso inflamatório de condenação. Pois, preferiu o silêncio, porque tem consciência que o princípio da moralidade que sempre defende, carrega no oculto da sua trajectória, relações comprometidas e sustentadas em revelações que descortinam a ambiguidade do seu caráter e posicionamento político.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Economia verde alcança a marca de US$ 5 triliões


A COP30, realizada em novembro em Belém do Pará, no Brasil, terminou sem um resultado preciso. Houve avanços reais em alguns aspectos, sobretudo em relação à adaptação às mudanças climáticas, mas não foi possível chegar a um acordo em torno de aspectos básicos, como a eliminação do uso de combustíveis fósseis. O debate segue vivo até a próxima COP, que será sediada na Turquia, em 2026. Ainda assim, os temas ambientais continuam em alta no mundo e a agenda ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança), usada para avaliar práticas sustentáveis e responsáveis das empresas, ganha cada vez mais relevância.

Fórum Económico Mundial afirma que o dinamismo da economia verde só fica atrás do setor de tecnologia. Em relatório recém-divulgado, a instituição estima que a chamada green economy já chega a US$ 5 triliões por ano e deve alcançar US$ 7 triliões até 2030. Segundo o documento, em média, as receitas verdes crescem ao dobro da velocidade das receitas convencionais; as empresas que actuam no segmento têm acesso a recursos mais baratos e costumam ser mais bem avaliadas no mercado de capitais.

Investimento em títulos verdes
Nas finanças, o movimento é nítido. Antes vistos como um nicho, os fundos ESG se tornaram uma força importante no mundo financeiro global, atraindo triliões de dólares. Segundo a Fortune Business Insights, empresa de inteligência de mercado e consultoria, o mercado global de investimentos ESG foi avaliado em US$ 39 triliões em 2025 e deve atingir US$ 125,17 triliões até 2032, crescendo a uma taxa anual média composta de 18,1%.

O avanço é impulsionado pelo aumento da preocupação da sociedade com esses temas, o que leva empresas a adotar práticas sustentáveis e também a fazer emissões de títulos verdes, sociais e de sustentabilidade, que superaram US$ 160 biliões em 2023. Segundo a pesquisa global de investidores da PwC, 79% dos investidores consideram riscos e oportunidades ESG ao tomar decisões de investimento.

Investidores institucionais, como fundos de pensão, seguradoras e governos, dominam o mercado actualmente, mas a expectativa é que o segmento de pessoas físicas ganhe tração nos próximos anos.

A agenda ambiental abre um gigantesco horizonte econômico, que aparece nas finanças, mas também na economia real, com a necessidade, por exemplo, de contratação de profissionais com habilidades verdes. E a procura  por esses trabalhadores vem crescendo mais do que a oferta. De acordo com o relatório Global Green Skills Report 2023, do LinkedIn, entre 2023 e 2024, a procura por profissionais com habilidades sustentáveis aumentou 11,6%, enquanto o número de trabalhadores sem essas qualificações subiu apenas 5,6%.

Redução de Gases de Efeito Estufa
São empregos em áreas diversas, como agricultura regenerativa e sustentável, energia renovável, saneamento, reciclagem, entre outros. "O importante é que o trabalho desempenhado contribui para a redução de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), para a preservação dos recursos naturais e para o avanço da transição ecológica. Fonte: Global Energy Review 2025

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Mendes em primeiro, Ventura em último. As notas de todos (mesmo todos) os comentadores: quem ganhou e quem perdeu ao fim de 28 debates


Vinte e oito debates depois (que pode rever, um a um, aqui) é quase consensual para os comentadores que os avaliaram que Luis Marques Mendes foi quem teve uma melhor prestação. Em média. É esta a principal conclusão de uma análise feita pela CNN Portugal a todas as notas quantitativas dadas pelos diferentes analistas da CNN Portugal, da SIC Notícias, do Jornal de Notícias, do Observador e do ECO: o antigo líder do PSD conseguiu uma classificação média de 13 valores e foi o primeiro classificado em quatro destes cinco meios de comunicação social - só na CNN Portugal ficou em segundo e por causa do último debate, até ao qual também liderava.

A tabela seguinte sintetiza as médias de todas as avaliações, por meio de comunicação social, bem como a média de todos eles. Nota: Eco e JN só avaliaram os principais debates. Pode "clicar" em cada meio de comunicação para ver os rankings individuais.

A avaliação a Marques Mendes por parte dos comentadores dos cinco órgãos de comunicação social manteve-se sempre acima dos 12 valores. Nos extremos, o Observador deu, em média, ao candidato a melhor nota (13,6 pontos) e o Eco a mais fraca (12,1 pontos).

Na análise feita pelos comentadores, Marques Mendes venceu praticamente todos os debates que fez, sendo que aqueles em que teve melhor avaliação foram contra António Filipe (média de 14,4 pontos) e João Cotrim de Figueiredo (média de 14,3). O candidato do PSD acabou por perder só um debate, o último, frente a Gouveia e Melo em que teve um resultado de 11,9. Por outro lado, foi contra Catarina Martins que Marques Mendes teve a sua vitória menos expressiva (12,7 vs 12,2 valores).

Na avaliação à prestação dos debates, é António José Seguro quem consegue a segunda melhor nota no cômputo geral. Feitas as contas, o candidato apoiado pelo PS termina com uma média geral de 12,3 valores, tendo alcançado em média um valor superior aos 13 pontos em três canais ou jornais: CNN (13,3), Observador (13,1) e SIC Notícias (13,2). Já os piores resultados para Seguro vieram, em média, do JN (12,8) e do Eco, para quem o candidato termina com uma média negativa: 9,4 pontos.

À semelhança de Luís Marques Mendes, António José Seguro apareceu como vitorioso em seis dos debates em que esteve presente, sendo a sua vitória mais expressiva contra Henrique Gouveia e Melo, por 3,8 valores (14,4 vs. 10,6). Por outro lado, foi com Catarina Martins que Seguro obteve a sua vitória mais curta, por 0,3 valores (12,8 vs. 12,5). A única derrota registada ao longo dos debates eleitorais ocorreu frente a Marques Mendes, tendo perdido por 0,6 valores (12,2 vs. 12,8).

No final do pódio está João Cotrim de Figueiredo. O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal obteve uma média de 11,4 pontos, tendo recebido melhores notas do Observador (média de 12,6 pontos) e da CNN Portugal (12,2 valores) e piores vindas dos comentadores do JN (10,9 pontos) e da SIC Notícias.

Foi contra Catarina Martins que João Cotrim de Figueiredo teve a sua melhor média de notas, tendo vencido esse debate por 1,1 valores (13,2 vs. 12,1). Foi uma das cinco vitórias que obteve ao fim de sete debates. Em contrassentido, o antigo líder da Iniciativa Liberal perdeu em dois desses confrontos, sendo a sua pior derrota com Luís Marques Mendes, por 3,5 valores (10,8 vs. 14,3).

Já o Almirante Henrique Gouveia e Melo surge em quarto lugar no ranking de melhores notas dadas pelos comentadores dos cinco órgãos de comunicação social. Termina esta temporada pré-eleitoral com uma média de 11,2 pontos - menos 0,2 valores do que Cotrim Figueiredo. Entre os comentadores das cinco casas, foi na CNN Portugal que o antigo líder da task-force de vacinação obteve a melhor média: 12,6. Manteve-se acima dos 11 valores na SIC Notícias (11,9) e no Observador (11,1) e as notas mais fracas vieram de comentadores do ECO (10,7) e do JN (9,6).

A maior vitória que Henrique Gouveia e Melo registou foi contra Jorge Pinto, tendo obtido uma média de 12,9 contra 10,6. Destaque ainda para os bons resultados contra António Filipe, onde conseguiu vencer por 1,9 valores (12,7 vs. 10,8). O Almirante, de resto, perdeu em três confrontos, tendo o pior resultado contra António José Seguro, por 4,6 valores (9,8 vs. 14,4).

A completar o top 5 está Jorge Pinto, o candidato apoiado pelo Livre que ficou a 0,1 pontos da média final de Henrique Gouveia e Melo. O deputado obtém assim um resultado final de 11,1 valores, tendo recebido a melhor pontuação média junto dos comentadores da CNN Portugal (11,8 valores). Já os piores resultados vieram, em média, dos comentadores do Observador que lhe deram uma pontuação final de 10,4 valores.

Jorge Pinto conseguiu três vitórias, a mais expressiva frente a António Filipe, em que, segundo a avaliação dos comentadores, derrotou o candidato do PCP por 0,9 valores. Saiu derrotado, contudo, em quatro confrontos: contra André Ventura (11,1 vs. 12,0), contra António José Seguro (10,2 vs. 11,8), contra João Cotrim de Figueiredo e contra Luís Marques Mendes, num debate que ficou marcado por ser aquele em que teve a melhor avaliação geral de todos (12,7 vs 14,2).

Após o derradeiro debate desta segunda-feira, Catarina Martins e André Ventura compõem penúltimo e último lugar, respetivamente, no que diz respeito às notas dos comentadores. A antiga líder do Bloco de Esquerda termina com uma média de 10,9 valores, tendo perdido em cinco dos sete debates. A derrota mais pesada foi mesmo frente a João Cotrim de Figueiredo, por mais de um valor (12,1 vs. 13,2). Já o melhor debate foi frente a André Ventura, naquele que foi o debate avaliado como o pior de todos (8,8 vs. 8,0).

O líder do Chega é, de resto, o pior classificado feitas as contas aos 28 debates. Para os comentadores analisados, a média de Ventura não vai além dos 10,8 valores, tendo recebido as melhores notas da CNN Portugal (12,6 em média) e as piores do JN (média de 8,6 pontos).

Em seis debates, André Ventura venceu dois dos sete debates em que participou, ambos por margens reduzidas, frente a Jorge Pinto (12,0 vs. 11,1) e a António Filipe (12,0 vs. 10,9). Perdeu cinco confrontos, incluindo uma derrota mínima frente a Henrique Gouveia e Melo (11,3 vs. 11,4,) e a mais expressiva contra António José Seguro (10,6 vs. 12,8).

O melhor e o pior debate
As notas permitem ainda destacar o melhor e o pior debate dos 28, considerando as médias de todos os comentadores.

O melhor debate, no sentido em que recebeu notas médias mais elevadas, realizou-se entre Luís Marques Mendes e Jorge Pinto:

Já o pior debate, seguindo o mesmo critério, realizou-se entre André Ventura e Catarina Martins:

Esta análise contemplou mais de setecentas notas individuais, dadas por mais de cinquenta "avaliadores". Em média, cada debate recebeu cerca de 14 avaliações de comentadores.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Projecto solar SOPHIA: as sete empresas promotoras têm sede no escritório do ‘cardeal do PSD’


A gigante petrolífera British Petroleum (BP), através da sua subsidiária Lightsource Renewable Energy, montou em Portugal uma arquitectura societária assente na criação de uma série de seis sociedades unipessoais por quotas, cinco das quais designadas Special Purpose Vehicles (SPV) — todas sediadas no mesmo endereço em Lisboa: o número 50 da Rua Castilho.

O caso poderia configurar uma banalidade não fosse este endereço coincidir com a sede de um dos mais influentes escritórios de advogados do país, a CSM Portugal, cujo fundador e sócio-gerente é José Luís Arnaut, ex-ministro dos Governos de Durão Barroso e Santana Lopes, e uma das “eminências pardas” do PSD, além de acumular vários cargos empresariais, o mais relevante dos quais a presidência do conselho de administração da ANA – Aeroportos de Portugal. [ocupa o 24º lugar na lista dos europeus mais poderosos de 2025]

É a partir desta base jurídica, sem sede própria, que a BP está a avançar em Portugal, depois de ter comprado, em 2020, a Compatible Opportunity — uma empresa que tinha como sócio um dos filhos de Luís Marques Mendes, candidato à Presidência da República —, com o polémico projecto fotovoltaico Sophia, que pretende ocupar cerca de 400 hectares em diversas freguesias dos municípios de Idanha-a-Nova, Penamacor e Fundão, alvo de forte contestação local e ambiental. No entanto, formalmente, quem promove o projecto é a Coloursflow, uma empresa-filha da Lightsource, com apenas 1 euro de capital social, criada em 2021.

De acordo com a investigação do Página Um entre Agosto de 2024 e Novembro deste ano foram constituídas, para já, cinco sociedades com designações sequenciais — LSBP Portugal SPV 1, LSBP Portugal SPV 2, LSBP Portugal SPV 3, LSBP Portugal SPV 4 e LSBP Portugal SPV 5, todas com um capital social de apenas 1 euro, todas com sede no escritório de Arnaut e todas detidas a 100% pela Lightsource Renewable Energy Portugal, que tem sede desde Novembro de 2023 no número 50 da Rua Castilho, em Lisboa.

Todas estas empresas-filhas da gigante BP partilham igualmente objectos sociais extensíssimos, redigidos de forma quase idêntica, abrangendo desde o planeamento, licenciamento e construção de centrais electroprodutoras até à exploração, manutenção, armazenamento de energia e prestação de serviços de consultoria técnica.

Esta multiplicação de sociedades não é um acaso nem um capricho administrativo: visa proteger a BP do ponto de vista financeiro e dificultar a contestação ao projecto. Com efeito, a opção da subsidiária pelas SPV, com capitais próprios iniciais simbólicos (1 euro, o mínimo permitido pela lei portuguesa), é um modelo clássico de fragmentação jurídica do risco, amplamente utilizado em grandes projectos de energia renovável, sobretudo quando envolvem investimento estrangeiro, financiamento bancário estruturado e elevada probabilidade de litigância.

Cada SPV corresponde, na prática, a um activo ou subprojecto específico, permitindo que eventuais impugnações administrativas, providências cautelares ou pedidos indemnizatórios fiquem confinados a uma entidade sem património relevante, sem trabalhadores e sem autonomia económica real.

Do ponto de vista formal, o esquema é legal. Do ponto de vista material, levanta questões sérias de interesse público. Todas estas sociedades têm capital social meramente simbólico, inexistente capacidade financeira própria e uma gerência que se repete: o gestor português Miguel Lopes Lobo surge como gerente em todas as SPV, acompanhado, nalguns casos, por administradores estrangeiros residentes no Reino Unido. A titularidade última permanece sempre fora de Portugal, numa holding britânica, o que dificulta a responsabilização efectiva em caso de danos ambientais, patrimoniais ou sociais.

A escolha de um escritório de advogados politicamente influente como sede comum das SPV não é um detalhe irrelevante: é ali que se centraliza o controlo jurídico, o relacionamento com a Administração Pública e a gestão estratégica do risco regulatório. Em projectos contestados, esta proximidade aos centros de decisão política e administrativa funciona como uma almofada institucional, reduzindo a exposição directa do investidor e transferindo para as comunidades locais e para o Estado o ónus do conflito.

Importa sublinhar que nenhuma destas sociedades existe para produzir energia por si mesma no curto prazo. Para já, e enquanto decorre a avaliação de impacte ambiental, as SPV existem para deter licenças, direitos de superfície, autorizações administrativas e projectos, que são activos susceptíveis de ser posteriormente vendidos, fundidos ou transferidos sem que a empresa-mãe seja directamente afectada por litígios pendentes. Este constitui um modelo de “lucro global, risco local”, recorrente na indústria das renováveis, mas particularmente sensível quando aplicado a projectos de grande escala implantados em territórios com elevado valor ambiental ou cultural.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Portugal engana-se. Diverge, empobrece e finge crescer



Nenhum país se renova enquanto continuar a expulsar os competentes, os íntegros e a promover quem vive das conveniências e das redes de interesse, escreve o economista Óscar Afonso.

⚡ECO Fast
Portugal tem registado uma frágil convergência em relação à média da União Europeia, mas enfrenta uma divergência estrutural que se agrava.
Os dados da Comissão Europeia revelam que, entre 1999 e 2024, Portugal perdeu 5,2 pontos percentuais no nível de vida relativo, contrastando com o progresso de várias economias de leste.
Sem reformas estruturais profundas, o país continuará a descer no ranking europeu, com previsões de empobrecimento relativo e emigração de talentos qualificados.

Portugal tem registado, nos últimos anos, alguma convergência de nível de vida em relação à média da União Europeia (UE) nos dados oficiais da Comissão Europeia (CE). Contudo, esse progresso revela-se muito frágil — porque assenta em fatores conjunturais que mascaram fragilidades estruturais: Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), turismo e a vaga de imigração descontrolada, além da imagem de destino seguro para turismo e investimento face à guerra na Ucrânia — e insuficiente para compensar a trajetória de divergência desde o início do milénio (entre 1999 e 2024), o foco da análise desta crónica. A divergência é ainda maior quando se corrigem os dados para refletir números mais atualizados da população residente, refletindo a vaga de imigração recente.

O contraste torna-se particularmente evidente quando comparado com o percurso das economias de leste, que protagonizaram um notável processo de aproximação ao nível de vida europeu, ultrapassando vários países que, em 1999, se situavam claramente à sua frente, incluindo Portugal. Acresce que estes países entraram bastante mais tarde na UE, tendo por isso recebido muito menos fundos — que, ao contrário de Portugal, souberam transformar em produtividade, rendimento e progresso para a generalidade da população.

Enquanto no leste europeu os apoios comunitários foram canalizados para modernizar economias inteiras, por cá serviram demasiadas vezes — para usar uma expressão suave — para alimentar interesses instalados, reproduzir privilégios e fortalecer uma elite facilitadora. E o mais triste é que nada disto é novo: Está, infelizmente, nos nossos “genes institucionais”. É um padrão antigo e persistentemente português, amplamente documentado por Antero de Quental, Eça, Garrett, Ramalho Ortigão, Fernando Pessoa, Saramago, Sophia ou Vergílio Ferreira — todos eles descrevendo, ao longo de séculos, a mesma teia de favoritismos, patrimonialismo e captura do Estado por minorias privilegiadas.

Uns investiram para criar futuro, nós desperdiçámos para preservar um sistema. Em suma, enquanto as economias de leste aproveitaram os fundos para convergir, Portugal continua a avançar aos solavancos, preso a um modelo que favorece a esperteza oportunista em detrimento do mérito, do trabalho sério e da inteligência criadora.

Somos um país onde demasiadas portas se abrem não pelo que se sabe ou pelo que se faz, mas por quem se conhece — um padrão que os nossos maiores escritores denunciaram, com uma precisão quase profética, muito antes de existir UE. E assim, geração após geração, mantemo-nos reféns dos mesmos bloqueios estruturais, enquanto outros que começaram muito atrás já vão muito à frente.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

OCDE - Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina


"A indisciplina reina nas salas de aula e coloca Portugal no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula. Os seus professores são, na Europa, os mais desgastados e os que mais preenchem burocracia inútil. São vítimas de uma organização de trabalho que os adoece, mas são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos." Estas conclusões têm cerca de uma década.

Ora, a mesma OCDE conclui em 2025 ("reportado por 62,1% dos professores, sendo muito mais alto, 73,6%, entre quem tem 5 ou menos anos de experiência"): "barulho e interrupções: Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina. A sua maior fonte de stress é o trabalho administrativo. Em nenhum país a taxa é tão alta."

E o que mais impressiona nestes 10 anos de intervalo, é o silêncio do MECI e o desprezo do mundo político. Quando muito, a direita, que inclui a extremada, finge que acompanha os protestos dos professores quando a esquerda governa e vice-versa. Logo que se passa para governo ou para suporte parlamentar, assume-se a condição de amnésico. Além disso, um manto de mutismo caracteriza as campanhas eleitorais.

Aliás, ser professor tornou-se, há muito, uma gestão do desgaste, da mágoa, da revolta contida e da possibilidade da baixa médica. Acima de tudo, uma sociedade adoeceu quando mais de metade dos professores relata "agressões físicas ou verbais por parte dos alunos”. Apesar de, e como já escrevi, ser injusto generalizar até pela dificuldade dos estudos empíricos: "cada aluno não é um potencial agressor, nem cada professor um provável agredido."

E o pior é o vigente cruzar de braços. Mas há soluções e sumarie-se duas ou três.
Mude-se radicalmente (e este radical é no mais sensato registo) o trágico, e populista, "estatuto" que fez do encarregado de educação um "cliente que tem sempre razão" na escola, com a habitual alegação indisciplinadora que os miúdos, as crianças-rei, percebem desde cedo: - Se a professora não se portou bem, diz que eu vou à escola.

Este clima é uma das consequências da burocracia, da autocracia desastrosa nos mega-agrupamentos, da avaliação dos professores e do que converteu em "castigo" as horas de redução por idade e tempo de serviço dos seus horários - é até degradante quando a "pena" cai nas mãos de pequenos tiranetes.

Na verdade, recorde-se que a maioria dos professores viu a idade da reforma passar dos 52 (pré-escolar e primeiro ciclo) ou 57 anos de idade (restantes ciclos), para os recentes 66 anos e 11 meses. E como nunca se criaram equipas educativas para leccionar o primeiro ciclo - o professor da turma finge que lecciona todo o currículo e não tem redução de horário com a idade -, infernizou-se os horários dos restantes ciclos - nivelando por baixo e estimulando a divisão da classe - com inutilidades destinadas aos excessos e aos dogmas na avaliação dos alunos, na interdisciplinaridade e nas articulações horizontal e vertical. Como tudo isto se tornou monstruoso sem sistemas de informação modernos e com avaliações externas inspiradas em meados do século XX, a redução transformou-se num "castigo" e num dos principais contributos para o desgaste que dificulta a liderança em ambientes de indisciplina e para a "fuga" ao exercício.

E, claro: se temos anos a fio de ciberbullying e dos algoritmos do ódio (as crianças crescem, desinformam-se e indisciplinam-se num país deslaçado, agressivo e violento), também temos uma maioria política desinteressada em limitar o acesso a redes sociais com o argumento surreal da censura às crianças e jovens.

Aliás, veja-se a indiferença da sociedade com a crescente doença silenciosa dos quadros de mérito académico ou de valor até em crianças do primeiro ciclo e pré-adolescentes (no desporto, já se fazem Campeonatos do Mundo para miúdos de 10 a 12 anos de idade). Para além da tensão relacional entre os miúdos após as primeiras publicações e da violação dos direitos fundamentais, a OMS já inclui o bournout precoce na prevenção da saúde pública (e, no mínimo, reflicta-se com Roy Baumeister ou Michael Sandel. ou pelo recente "Range" de David Epstein, (com um estudo comparado que tem, para além de outros dados, uma contraposição do percurso saudável, por especialização "tardia e generalista", do tenista Roger Federer ao dramático esgotamento emocional, por especialização precoce, do golfista Tiger Woods ou das irmãs Polgar - xadrezistas vítimas de uma "MãeTigre"; aliás, fenómeno que exigiu mudanças recentes e drásticas nas políticas de Singapura relacionadas com os resultados escolares -). E apesar desta pandemia ainda se sustentar na ditadura portuguesa, a obra fundamental "Nenhuma medalha vale a saúde de uma criança", de Jacques Personne, descreve a tragédia na União Soviética e na RDA. Os quadros e medalhas, equiparados à exploração do trabalho infantil, destinavam-se à arrepiante promoção de dirigentes, médicos, treinadores, professores e políticos, e, tantas vezes, à "sobrevivência" dos progenitores (e também ao ego).

De facto, e em síntese, a prevalecente imaturidade pedagógica, que estimula a indisciplina nas salas de aula, espelha-se em gritantes irresponsabilidades da seguinte família: publicitar informação crítica, e detalhada, sobre as formas de ciberbullying no mesmo espaço escolar onde se divulga quadros de mérito.

Nota: por falar em silêncio e mutismo, registe-se o apagão mediático quase generalizado da seguinte notícia do Público de 27 de Novembro de 2025: "Tolentino de Mendonça partilha Prémio Eduardo Lourenço com a “classe dos professores em crise". O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores. Diz-se hoje que são uma classe em crise e que perdeu o prestígio social que lhe estava associada. São preocupantes, em muitas partes do mundo, os indicadores do desgaste, desmotivação e burnout entre os professores.(...)"Numa época de acelerada transformação, como a que vivemos, onde se inauguram tantas possibilidades, mas também tantas incógnitas, como o impacto da inteligência artificial, a omnipresença da tecnologia, a crescente incerteza e vulnerabilidade entre os jovens, precisamos de potenciar o papel dos professores como indispensáveis mediadores culturais e humanos.(...)O professor "não é uma profissão do passado, é uma missão indispensável ao futuro", porque é necessária a existência de "mestres e educadores, não só para encontrar respostas, mas para formular perguntas"."

Freedom of the Press Worldwide 2025


The ongoing wave of media shutdowns
  1. According to data collected by RSF for the 2025 World Press Freedom Index, in 160 out of the 180 countries assessed, media outlets achieve financial stability “with difficulty” — or “not at all.”
  2. Worse, news outlets are shutting down due to economic hardship in nearly a third of countries globally. This is the case in the United States (57th, down 2 places) Tunisia (129th, down 11 places) and Argentina (87th, down 21 places).
  3. The situation in Palestine (163rd) is disastrous. In Gaza, the Israeli army has destroyed newsrooms, killed nearly 200 journalists and imposed a total blockade on the strip for over 18 months. In Haiti (112th, down 18 places), the lack of political stability has also plunged the media economy into chaos.
  4. Even relatively well-ranked countries such as South Africa (27th) and New Zealand (16th) are not immune to such challenges.
  5. Thirty-four countries stand out for the mass closures of their media outlets, which has led to the exile of journalists in recent years. This is especially true in Nicaragua (172nd, down 9 places), Belarus (166th), Iran (176th), Myanmar (169th), Sudan (156th), Azerbaijan (167th) and Afghanistan (175th), where economic difficulties compound the effects of political pressure.

The United States: leader of the economic depression
In the United States (57th, down 2 places), where the economic indicator has dropped by more than 14 points in two years, vast regions are turning into news deserts. Local journalism is bearing the brunt of the economic downturn: over 60 per cent of journalists and media experts surveyed by RSF in Arizona, Florida, Nevada and Pennsylvania agree that it is “difficult to earn a living wage as a journalist,” and 75 per cent believe that “the average media outlet struggles for economic viability.” The country’s 28-place drop in the social indicator reveals that the press operates in an increasingly hostile environment.

President Donald Trump’s second term has already intensified this trend as false economic pretexts are used to bring the press into line. This led to the abrupt end to funding for the US Agency for Global Media (USAGM), which affected several newsrooms — including Voice of America and Radio Free Europe/Radio Liberty — and, as a result, over 400 million citizens worldwide were suddenly deprived of access to reliable information. Similarly, the freeze on funding for the US Agency for International Development (USAID) halted US international aid, throwing hundreds of news outlets into a critical state of economic instability and forcing some to shut down — particularly in Ukraine (62nd).

Media concentration and the dominance of online platforms
These serious funding cuts are an additional blow to a media economy already weakened by the dominance that tech giants such as Google, Apple, Facebook, Amazon and Microsoft have over the dissemination of information. These largely unregulated platforms are absorbing an ever-growing share of advertising revenues that would usually support journalism. Total spending on advertising through social media reached 247.3 billion USD in 2024, a 14 per cent increase compared to 2023. These online platforms further hamper the information space by contributing to the spread of manipulated and misleading content, amplifying disinformation.

In addition to the loss of advertising revenue, which has severely disrupted and constrained the media economy, media ownership concentration is another key factor in the deterioration of the Index’s economic indicator and poses a serious threat to media plurality. Data from the Index shows that media ownership is highly concentrated in 46 countries and, in some cases, entirely controlled by the state.

This is evident in Russia (171st, down 9 places), where the press is dominated by the state or Kremlin-linked oligarchs, and in Hungary (68th), where the government stifles outlets critical of its policies through the unequal distribution of state advertising. It is also apparent in countries where “foreign influence” laws are used to repress independent journalism, such as Georgia (114th, down 11 places). In Tunisia (129th, down 11 places), Peru (130th) and Hong Kong (140th), where public subsidies are now directed toward pro-government media.

Even in highly ranked countries like Australia (29th), Canada (21st) and Czechia (10th), media concentration is cause for concern. In France (25th, down 4 places), a significant share of the national press is controlled by a few wealthy owners. This growing concentration restricts editorial diversity, increases the risk of self-censorship and raises serious concerns about newsrooms’ independence from the economic and political interests of their shareholders.

The Index’s survey shows that editorial interference is indeed compounding the problem. In over half of the countries and territories evaluated by the Index (92 out of 180), a majority of respondents reported that media owners “always” or “often” limited their outlet’s editorial independence. In Lebanon (132nd), India (151st), Armenia (34th) and Bulgaria (70th, down 11 places), many outlets owe their survival to conditional financing from individuals close to the political or business worlds. The majority of respondents in 21 countries, including Rwanda (146th), the United Arab Emirates (164th) and Vietnam (173rd), said media owners “always” interfered editorially.

Global state of press freedom is "difficult," a historical first
For over ten years, the Index’s results have warned of a worldwide decline in press freedom. In 2025, a new low point emerged: the average score of all assessed countries fell below 55 points, falling into the category of a “difficult situation.” More than six out of ten countries (112 in total) saw their overall scores decline in the Index.

For the first time in the history of the Index, the conditions for practising journalism are “difficult” or “very serious” in over half of the world’s countries and satisfactory in fewer than one in four.

An increasingly red map
In 42 countries — harbouring over half of the world’s population — the situation is classified as “very serious.” In these zones, press freedom is entirely absent and practising journalism is particularly dangerous. This is the case in Palestine (163rd), where the Israeli army has been annihilating journalism for over 18 months, killing nearly 200 media professionals — including at least 43 murdered while working — and imposing a blackout on the besieged strip. Israel (112th) continued its decline in the Index, dropping 11 places.

Three East African countries — Uganda (143rd), Ethiopia (145th), and Rwanda (146th) — entered the “very serious” category this year. Hong Kong (140th) also moved into the red zone for the first time, and is now the same colour as China (178th, down 6 places), which has joined the bottom three countries, alongside North Korea (179th) and Eritrea (180th). In Central Asia, Kyrgyzstan (144th) and Kazakhstan (141st) have darkened the region. In the Middle East, Jordan (147th) plummeted 15 places, largely due to repressive legislation used against the press.

The Index by region: the gap widens between the European Union and other zones
The Middle East-North Africa region remains the most dangerous in the world for journalists, harbouring the mass destruction of journalism in Gaza by the Israeli army. Every country in the region is in a “difficult” or “very serious” press freedom situation, except Qatar (79th). The press is caught between crackdowns from authoritarian regimes and persistent economic precariousness. Tunisia (129th, down 11 places), the only North African country to fall this year, recorded the sharpest drop in the region’s economic indicator (down 7.97 points, down 30 places), due to a political crisis where independent outlets are under direct threat. Iran (176th), where journalists are gagged and all critical viewpoints are suppressed, remains near the bottom of the Index, alongside Syria (177th), which is still awaiting a profound transformation of its media landscape post-Bachar al-Assad.

Out of the 32 countries and territories in the Asia-Pacific region, 20 have seen their economic score decline in the 2025 World Press Freedom Index. The systemic media control in authoritarian regimes is often inspired by China’s propaganda model. China (178th) remains the world’s largest jail for journalists and reentered the bottom trio of the Index, coming just ahead of North Korea (179th). Meanwhile, the concentration of media ownership in the hands of influential groups linked to those in power — as seen in India (151st) — combined with growing economic pressures even in established democracies, means that press freedom in the region faces mounting repression and increasing uncertainty.

In Sub-Saharan Africa, press freedom is experiencing a worrying decline. Eritrea (180th) retained its position as the worst-ranking country in the Index. The economic score deteriorated in 80 per cent of the region’s countries. In the Democratic Republic of the Congo (133rd, down 10 places), where the economic indicator plummeted, the media landscape is hampered by persistent polarisation and repression in the east of the country. Similar patterns appeared in other conflict zones, such as Burkina Faso (105th, down 19 places), Sudan (156th, down 7 places), and Mali (199th, down 5 places). In these situations, newsrooms are forced to self-censor, close or go into exile. The hyper-concentration of media ownership in the hands of political figures or business elites without safeguards for editorial independence remains a recurring problem, as seen in Cameroon (131st), Nigeria (122nd, down 10) and Rwanda (146th). By contrast, Senegal (74th) moved up 20 places as its authorities launched economic reform initiatives, which still need to be implemented and carried out in a consultative manner.

In the Americas, the vast majority of countries (22 out of 28) have seen their economic indicators decline. In the United States (57th), Donald Trump’s second term as president has brought a troubling deterioration in press freedom. In Argentina (87th), President Javier Milei has stigmatised journalists and dismantled public media. Press freedom has been weakened in Peru (130th) and El Salvador (135th), undermined by propaganda and attacks on outlets critical of those in power. Mexico (124th), the most dangerous country for journalists in the region, has also seen a sharp decline in its economic score. Nicaragua (172nd) comes in last in the region and sits at the bottom of the Index, as the Ortega-Murillo regime has dismantled the independent media. In contrast, Brazil (63rd) has continued its recovery after the Bolsonaro era.

Europe still leads the regional rankings but is increasingly divided. 
The Eastern Europe- Central Asia (EEAC) region has experienced the steepest overall decline worldwide, while the European Union (EU)-Balkans zone has the highest overall score globally, and its gap with the rest of the world continues to grow. However, even the EU-Balkans zone is hurt by the media’s economic crisis, as seven in 10 countries (28 out of 40) have seen their economic score decline. What’s more, the implementation of the European Media Freedom Act (EMFA) — which could benefit the media economy — is still pending. The situation is worsening in Portugal (8th), Croatia (60th), and Kosovo (99th). Norway (1st) remains the only country in the world to enjoy a “good” rating across all five indicators of the Index. It held on to its top spot for the ninth consecutive year, increasing its lead over other countries. Estonia (2nd) moved up to second place, closely followed by the Netherlands (3rd), which overtook Sweden (4th) in the world’s top three.

Relatório completo aqui

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Europa: de que forma os professores utilizam a IA na sala de aula e que país a usa mais?

A inteligência artificial (IA) está a tornar-se parte da vida quotidiana. As ferramentas e oportunidades oferecidas pelas principais empresas de IA cresceram rapidamente nos últimos anos. A educação não é exceção. Autoridades, professores ou académicos revelam como os alunos utilizam ferramentas como o ChatGPT para fazer os trabalhos de casa, incluindo ensaios. Ao mesmo tempo, a IA também oferece um apoio valioso aos professores.

Até que ponto os professores estão a utilizar a IA na Europa? Quais são os países mais avançados? E em que áreas os professores mais recorrem à IA?

Segundo o Teaching and Learning International Survey (TALIS) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o uso de IA por professores variou significativamente na Europa em 2024.

Entre 32 países, a percentagem de professores do ensino básico que utilizam a IA varia entre 14% em França e 52% na Albânia em 2024. A média na União Europeia (UE-22) é de 32%, enquanto na OCDE (27 países) é de 36%.

No inquérito, o uso de IA inclui fazer previsões, sugerir decisões ou criar texto. Abrange a utilização da IA no ensino ou para facilitar a aprendizagem dos alunos nos 12 meses anteriores ao inquérito.

Não se verificam padrões regionais fortes, embora, em geral, os países da Europa Ocidental tendam a ter uma menor utilização da IA pelos professores em comparação com os Balcãs Ocidentais e a Europa Oriental.

Além da Albânia, a percentagem de professores que utilizaram IA pelo menos uma vez atingiu dois em cada cinco ou mais em oito países/economias. As suas percentagens foram Malta (46), Chéquia (46), Roménia (46), Polónia (45), Kosovo (43), Macedónia do Norte (42), Noruega (40) e a região flamenga da Bélgica (40).

Os países com menor utilização da IA nas escolas foram a Bulgária (22%), Hungria (23%), a região francófona da Bélgica (23%), Turquia (24%), Itália (25%), Finlândia (27%), Montenegro (28%) e Eslováquia (29%).

Por que razão varia tanto a utilização de IA?
Um porta-voz da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) referiu que os governos adotaram posições políticas diferentes em relação à IA na educação, o que pode influenciar a consciencialização dos professores e o uso da IA na Europa.

"Alguns países foram mais proativos na implementação de estratégias nacionais de IA, que incluem o setor da educação, enquanto outros adotaram uma postura de cautela quanto à IA e ao uso de IA generativa nas salas de aula, estabelecendo regras mais rígidas dependendo da idade dos alunos", disse o porta-voz à Euronews Next.

Ruochen Li, gestor sénior de projetos na OCDE, observou que "as infraestruturas, as restrições tecnológicas, como as firewalls, as atitudes sociais em relação à utilização da tecnologia nas escolas e as políticas que podem incentivar ou desencorajar os professores a utilizar a IA" podem explicar as disparidades entre os países.

"Observamos uma relação forte, ao nível dos países, entre a quantidade de formação oferecida sobre o uso de IA e a sua utilização", disse à Euronews Next.

Ben Hertz e Antoine Bilgin, responsáveis pedagógicos e de investigação na European Schoolnet, salientaram que as grandes diferenças no uso de IA refletem o enquadramento político e a cultura educativa de cada país, com alguns a adotarem uma postura nacional de maior cautela.

"O acesso a apoio prático, como formação e infraestrutura, é também um acelerador crítico. Os dados do TALIS confirmam que, em sistemas com maior utilização de IA, os professores têm maior probabilidade de ter recebido formação profissional sobre o tema", explicaram Hertz e Bilgin à Euronews Next.

Por exemplo, França começou este ano a disponibilizar formação nacional em IA nas escolas públicas, o que ocorreu após a recolha dos dados do TALIS.

"Cautela, regras pouco claras e infraestrutura limitada são fatores que provavelmente explicam uma adoção mais lenta, sobretudo numa área nova e controversa como a IA", acrescentaram.

Motivos possíveis para estas diferenças incluem a existência e qualidade da formação, a carga de trabalho, a escassez de professores, a motivação pessoal e a curiosidade, segundo Martina Di Ridolfo, coordenadora de políticas no Comité Sindical Europeu de Educação (ETUCE).

Para que usam os professores a IA?
Entre os professores que usaram a IA, em média na União Europeia (UE-22), quase dois terços (65%) afirmam que a utilizam para aprender e resumir um tópico de forma eficiente, e 64% recorrem à IA para dar forma a planos de aula ou atividades. Estas duas percentagens mais altas indicam que a IA é usada sobretudo na preparação dos próprios professores.

Outros fins e respetivas percentagens:
  1. Ajudar alunos a praticar novas competências em cenários reais (49%)
  2. Apoiar alunos com necessidades educativas especiais (40%)
  3. Ajustar automaticamente a dificuldade dos materiais segundo as necessidades de aprendizagem dos alunos (39%)
  4. Gerar texto para feedback aos alunos ou comunicações com pais/encarregados de educação (31%)
  5. Analisar dados sobre participação ou desempenho dos alunos (29%)
  6. Avaliar ou classificar trabalhos dos alunos (26%)
Os resultados sugerem que os usos diretos em sala de aula ou voltados para os alunos são menos comuns. Os professores recorrem sobretudo à IA para a sua própria preparação, enquanto para as tarefas de avaliação são menos usadas. Hertz e Bilgin sugerem que muitos professores provavelmente utilizarão a IA sobretudo "nos bastidores", agora e num futuro próximo.

Ruochen, da OCDE, referiu que a IA pode apoiar os professores no trabalho administrativo, libertando tempo e energia para outras tarefas mais relacionadas com o ensino direto.

Que futuro para a IA nas escolas?
Os especialistas concordam que o uso de IA na educação está a crescer de forma constante e continuará a expandir-se. Alertam também que a utilização responsável, diretrizes claras e a consciência das possíveis desvantagens devem fazer parte desse progresso.

Hertz e Bilgin, da European Schoolnet, notaram que, com o tempo, os sistemas de IA poderão interagir mais diretamente com os alunos, por exemplo, propondo atividades personalizadas ou fornecendo feedback em tempo real.

"Mas os professores devem manter-se como o principal interlocutor entre o aluno e a tecnologia, para preservar a sua autonomia, supervisão ética e função de cuidado", disseram.

A UNESCO sublinha o papel central dos professores à medida que o uso de IA na educação se expande.

"As ferramentas de IA devem complementar, não substituir, os professores, e o seu uso deve alinhar-se com padrões éticos e objetivos educativos, preservando a autonomia e privacidade de professores e alunos", afirmou a porta-voz da UNESCO.

Antecipando um crescimento do uso da IA entre professores e alunos, sobretudo com ferramentas generativas, Di Ridolfo salientou outra preocupação: "Face à grave escassez de professores que enfrentamos na Europa, vemos riscos concretos de desqualificação e perda de competências na profissão", disse à Euronews Next.

Chamou ainda a atenção para uma limitação do inquérito da OCDE: os dados nada dizem sobre a frequência desse uso. Não indicam se os professores recorreram à IA regularmente ou se apenas a testaram algumas vezes.