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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Sobre este Inverno chuvoso - não aprendemos nada com as ideias de Gonçalo Ribeiro Telles


Este comboio de tempestades não é único. Muitas destas tempestades em sucessão são alimentadas por rios atmosféricos. São faixas estreitas de humidade tropical concentrada que atravessam o Atlântico. Quando o "corredor" se abre em direção à Península Ibérica, as tempestades seguem esse rasto como se estivessem em carris. Tudo depende de um "braço de ferro" de pressão entre os Açores e a Islândia. Quando esta oscilação está numa determinada fase, o jet stream (uma corrente de ar a grande altitude) empurra todas as tempestades diretamente para nós, em vez de as desviar para o Reino Unido ou Escandinávia. Antigamente não dávamos nomes às tempestades (como Joseph, Leonardo e Kristin), o que dava a ideia de que era apenas "um inverno chuvoso". Hoje, ao darmos nomes individuais a cada depressão, temos muito mais consciência de quantas estão a passar por nós seguidas. A perceção de excecionalidade resulta, em grande parte, da forma como os fenómenos recentes são lembrados. A nossa memória meteorológica é curta e estamos mais marcados pelos episódios de secas severas que têm sido a marca dos últimos ano. 𝐃𝐞𝐯𝐢́𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐬𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐯𝐞𝐧𝐭𝐢𝐯𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐨 𝐡𝐢𝐬𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐜𝐨 𝐝𝐞 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬. Aprender a não voltar a repetir a tragédia de 1967 (25 para 26 de novembro) em que choveu num só dia o equivalente a um quinto de todo o ano. A região da Grande Lisboa e do Vale do Tejo foi devastada. O regime de Salazar tentou "abafar" a dimensão da tragédia. Oficialmente falou-se em cerca de 460 mortos, mas estimativas reais apontam para mais de 700 vítimas.
𝐆𝐨𝐧𝐜̧𝐚𝐥𝐨 𝐑𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐓𝐞𝐥𝐥𝐞𝐬 𝐚𝐥𝐞𝐫𝐭𝐨𝐮-𝐧𝐨𝐬 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐞𝐯𝐢𝐭𝐚𝐫 𝐝𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐦𝐚𝐭𝐞𝐫𝐢𝐚𝐢𝐬 𝐞 𝐡𝐮𝐦𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐮𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐞𝐬 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐧𝐭𝐚𝐯𝐚 𝐬𝐨𝐥𝐮𝐜̧𝐨̃𝐞𝐬. 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚𝐬 𝐨𝐮𝐯𝐢𝐦𝐨𝐬. 𝐈𝐧𝐬𝐢𝐬𝐭𝐢𝐦𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐭𝐫𝐮𝐢𝐫 𝐞𝐦 𝐥𝐞𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐜𝐡𝐞𝐢𝐚, 𝐞𝐧𝐭𝐮𝐛𝐚𝐫 𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐞 𝐫𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐞 𝐚 𝐩𝐚𝐯𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐚𝐬𝐟𝐚𝐥𝐭𝐨 𝐞 𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨.
𝐎 𝐂𝐨𝐫𝐫𝐞𝐝𝐨𝐫 𝐕𝐞𝐫𝐝𝐞 𝐝𝐞 𝐌𝐨𝐧𝐬𝐚𝐧𝐭𝐨, 𝐞𝐦 𝐋𝐢𝐬𝐛𝐨𝐚 𝐞́ 𝐮𝐦 𝐞𝐱𝐞𝐦𝐩𝐥𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚𝐝𝐢𝐠𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐨: 𝐝𝐞𝐦𝐨𝐫𝐨𝐮 𝐪𝐮𝐚𝐬𝐞 𝟑𝟎 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐚 𝐬𝐞𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐥𝐮𝐢́𝐝𝐨 𝐞𝐱𝐚𝐭𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐥𝐞 𝐭𝐞𝐯𝐞 𝐝𝐞 𝐥𝐮𝐭𝐚𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐞𝐬𝐬𝐞𝐬 𝐢𝐦𝐨𝐛𝐢𝐥𝐢𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐦𝐚𝐧𝐭𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐞𝐥𝐞 "𝐞𝐬𝐜𝐨𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨" 𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐜𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞.

domingo, 16 de março de 2025

Cidadania


"Liberdade, igualdade, fraternidade, mutualismo, solidariedade: tudo isso é uma coisa linda. Mas quando nos impingem a cidadania, a coisa complica-se… O que é o cidadão? Para mim, não é só ter direitos e deveres: é ter que servir".
Gonçalo Ribeiro Telles

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

A arquitectura paisagística está há 80 anos a pensar o futuro, mas ninguém a ouve

Francisco Caldeira Cabral foi o propulsor da arquitetura paisagista em Portugal

E se as cheias ou os incêndios não fossem uma tragédia anual? O cenário parece de sonho, mas é uma realidade possível aos olhos dos arquitetos paisagistas. Têm na sua génese muito mais do que a estética. Aprendem sobre anatomia, plantas, sociedade, cultura e tanto mais. A disciplina tem cerca de 80 anos de história e 50 de reconhecimento, apresentando soluções para a gestão equilibrada entre o ser humano e a natureza. O que falta para ser escutada?

Não fosse estar em causa o bem-estar (e até a vida) do ser humano e poderíamos considerar a história da arquitetura paisagista um autêntico filme. Um daqueles em que o “bom da fita” nunca é ouvido. Até ser tarde de mais. E, à imagem de muitos filmes, não falta neste um cliché: o do “eu avisei”. A expressão parece ser utilizada pelos arquitetos paisagistas para demonstrar que há algo com que todos se preocupam agora que, para estes profissionais, já é uma “cantiga antiga”. Mas do que se trata? Das alterações climáticas. Ou melhor, de como a atividade do ser humano exacerbou e acelerou alterações climáticas ao ponto de sofrermos atualmente com fenómenos climáticos extremos, diários, em torno de todo o Globo. Mas tudo poderia ser diferente. Como? Já lá vamos.

Primeiro, reforcemos o “eu avisei”. “O fenómeno parece novo. Fala-se em todo o lado. Faz capas de jornais quase todos os dias. Mas, para nós, arquitetos paisagistas, não é novidade nenhuma. Estavam à espera que acontecesse o quê?” Quem o questiona é Aurora Carapinha, arquiteta paisagista, investigadora, docente e apaixonada por jardins, que realça que não foi apenas um alerta que a profissão deixou à sociedade, tendo também apontado soluções. “Todos os nossos projetos da altura, por volta dos anos 1980, procuravam dar respostas para que situações extremas com que nos deparamos anualmente hoje não ocorressem.”

Fala-se de cheias, incêndios, perda de biodiversidade, recuo da linha de costa, entre tantos outros assuntos que, hoje, são tema recorrente e catalogados como “nova crise”. Aurora Carapinha lamenta que muitos desses projetos inovadores e solucionadores “tenham sido metidos na gaveta”. Problemas que todos os anos são recorrentes poderiam ser mitigados se tivesse havido um trabalho real com a arquitetura paisagista nos últimos anos? “Sem dúvida alguma. E não o digo por arrogância”, remata.

Arquitetura sem teto
E como é que a arquitetura paisagista tem um poder tão grande perante as alterações climáticas e os fenómenos extremos? Porque tem capacidade de prever e gerir mudanças a longo prazo, indica Carapinha. “O Professor Nuno Portas chamava-nos, com muita graça, os arquitetos sem teto. E trabalhar sem teto é o maior desafio que existe, porque é uma arquitetura que está exposta à intempérie, à mudança das estações, à mudança da luminosidade, às diferentes temperaturas. Enquanto na ‘arquitetura com teto’ posso controlar essas variáveis, aqui não.”

E, por isso, o arquiteto paisagista tem de aprender, por exemplo, onde chove, quanto chove, de que forma se comporta e acumula a chuva. Entre outros dados. E, acima de tudo, completa a docente da Universidade de Évora, “o arquiteto paisagista tem de saber como aproveitar essa chuva”. Em suma, além de prever acontecimentos, a disciplina trabalha para que esses acontecimentos sejam aproveitados em benefício do bem-estar humano e do “bem-estar” da natureza. “Eu não trabalho contra a natureza. Trabalho com as dinâmicas dos sistemas naturais. E tenho de ter duas coisas: a ciência para os saber e a arte para os reinventar, criando novos lugares e oportunidades de vida.”

É no balanço entre ciência e arte que se baseia a definição da arquitetura paisagista, que, nas palavras de Caldeira Cabral, figura histórica da profissão, “é a ciência e a arte de ordenar o espaço exterior em relação ao homem”. E os equilíbrios parecem ser o ex-líbris. “Equilíbrios que vão além do estético, mas que alcançam dimensões como o equilíbrio económico, ecológico ou social”, afirma Carapinha.

A primazia do económico
Nestes vários equilíbrios, João Ceregeiro, arquiteto paisagista e presidente da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP), acredita que se encontra a fórmula (ou fórmulas) que poderia solucionar diversos problemas da sociedade. Fórmulas essas que, tal como já frisado por Aurora Carapinha, não são novas para a profissão. “O que hoje se fala de conforto climático, de sequestro de carbono, da economia circular, da economia verde… tudo isso são temas que para os arquitetos paisagistas não são novos, porque estão implícitos na sua própria prática há muitas décadas”, esclarece o dirigente. E, agora, a pergunta de “milhões”.

Porque é que essas tais soluções não foram aplicadas e esses tais alertas escutados? “Porque a prática da arquitetura paisagista não se compagina com aquilo que é a agenda dos decisores políticos e económicos, ela está sistematicamente a ser protelada em função de outras prioridades”, em especial, prioridades economicistas, que não têm uma visão complexa e de longo prazo como a profissão assim exige, denuncia Ceregeiro. Porque construir uma praça viável ou ordenar uma mata ou uma floresta poderá ter um custo no momento presente que só será “devolvido” dali a décadas, e nem sempre se trata de um retorno financeiro – o que parece ser difícil de aceitar para uma sociedade que vive em torno do lucro.

A visão exclusivamente economicista e de prazo limitado é também criticada por Aurora Carapinha. Passemos a um exemplo. E logo dos mais complexos. “O problema dos incêndios é muito mais do que dizermos que há árvores demasiado perto das casas. É uma consequência de anos de desertificação do interior. E se quem vive lá é constantemente colocado à margem da sociedade e vive na pobreza, tem de procurar forma de subsistência, para a qual a solução foi, muitas vezes, a exploração do pinhal. É um rendimento fixo e a curto prazo que, de três em três anos, serve para subsistir a família e para pagar as contas extra. Não podemos simplesmente chegar a um local e arrancar de lá as pessoas ou tirar-lhes a forma de sobrevivência.” Por muito prejudicial que essa forma seja para o ambiente.
Aurora Carapinha considera que o arquiteto paisagista pensa “na complexidade social, económica, cultural, simbólica e ecológica da paisagem”, sendo muito mais do que plantar “a árvore certa”.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Cheias 2022 - Oeiras

Isaltino Morais, tem a maior responsabilidade no que se passa em Algés. Como mostra o Google Earth, Algés é um vale de drenagem densamente povoado. Como piorar? Prédios de 10+ andares e garagens a nascer nos poucos espaços permeáveis (1, 2); hotel/centro cultural no gargalo da Av. dos Bombeiros (3); garagem planeada para a Baixa (4); "Ocean Campus" previsto para a beira-rio. (5)


Oeiras não é um concelho qualquer. Tem uma massa crítica cívica acima da média. Isaltino foi antigo ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente da República Portuguesa ente 2002 e 2003

Era presidente da Comissão Política da secção de Algés do PSD, cargo que exerceu entre 1984 e 1986, quando foi escolhido, pela primeira vez, para encabeçar a lista do partido à Câmara Municipal de Oeiras, nas eleições autárquicas de 1985. Foi eleito presidente dessa autarquia com 44,4% dos votos em 1985, conquistando a primeira vitória do PSD num concelho governado pelo PS desde as primeiras eleições autárquicas realizadas após o 25 de abril de 1974. Renovou o mandato por quatro vezes consecutivas, em listas do PSD. Alcançou a vitória nas autárquicas de 1989, com 43,6% dos votos; em 1993, com 31,1% dos votos; em 1997, com 48,27% dos votos; em 2001, com 55% dos votos.

Isaltino foi presidente da Taguspark e da SIMAS entre 2006 e 2013, pode-se e deve-se fazer muitas alterações. Não quis. Entre 2019 e 2022, exerceu novamente as mesmas funções. 7+ 3 anos dá para mudar e muito. Só vê betão à frente dele e é um céptico climático. 

Relacionados:
  • Bessone Basto: «O Algés e Dafundo está debaixo de água e as lágrimas caem-me pela cara» [Record, hoje]
  • Câmara de Oeiras vai gastar €500 mil para corrigir aterro ilegal que o executivo de Isaltino Morais aprovou [Expresso, 15.11.2022]
  • Cheias de 1967 - entrevista com o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles [aqui]

domingo, 11 de dezembro de 2022

Centenário do nascimento de Gonçalo Ribeiro Telles - livro e balanço

Entrevistas, apontamentos de trabalho, pareceres e comunicações a congressos e artigos de opinião, são alguns dos textos muito diversos, que estão reunidos neste livro, escritos por Gonçalo Ribeiro Telles ao longo de décadas de atividade profissional e de luta empenhada por causas.

Hoje documentos de referência, estes Textos Escolhidos conduzem-nos pelas ideias e pensamento que Ribeiro Telles desenvolveu na sua intervenção cultural, cívica e profissional, nos vários domínios em que se destacou: a defesa do ambiente, o ordenamento do território, a humanização do habitat, a conservação da natureza e a preservação da paisagem, entre outros.

30 textos que se constituem como doutrina, que são instrumentos de consagração de conceitos e que representam um incontornável legado de experiência e sabedoria.

Textos que se evidenciam tanto como questões de princípio, como atitude didática, pedagógica e ação esclarecida e esclarecedora.

Nesta segunda edição há também novidades, como a entrevista que Gonçalo Ribeiro Telles deu à Liberne, publicação da Liga para a Proteção da Natureza, que, segundo Fernando Pessoa, «parece que foi feita hoje, tendo em conta os incêndios florestais, as cheias, e tudo o que tem sido desperdiçado e não se tem aplicado como deve ser».

Nesta entrevista à RTP, a 05.06.1974 posso concluir que, à excepção de progressos no saneamento básico, recuperação das aldeias históricas, habitações com melhorias a nível de eficiência energética (mas é mais a nível de vidros/caixilharia dupla) e melhorias na digitalização, no entanto, passados 48 anos, Portugal não escutou o visionário Gonçalo Ribeiro Telles. Insistimos na agricultura com pesticidas, continuamos com uma iliteracia grave em relação aos avisos do IPMA/PROCIV, o Banco Nacional de Terras não funcionou (mais eucaliptos, mais campos de golfe, mais hotéis e menos floresta biodiversa e autóctone), entubamos os rios e ribeiros das cidades. Temos um território com uma enorme fragmentação dos habitats, que eram nichos de biodiversidade. 30 anos de atraso na ferrovia. Uma má novidade que é o crescimento e o aparecimento das centrais de biomassa. Um aeroporto internacional dentro da cidade - caso raríssimo dentro da Europa. Um SIRESP que custou rios de dinheiro e não funciona nos piroverões. Temos uma falta de cultura de aplicação das coimas ambientais. Surgiu a crise global das alterações climáticas. Para fechar e em conclusão: sucessivos governos sem ecologia política (a pasta do Ambiente é sempre o parente pobre).

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Conferência de Estocolmo: os problemas que resistem

Corço no rio Almanguês, Coimbra @  Manuel Malva

Suportada pela Lei de Bases do Ambiente (1987) durante décadas, a política de Ambiente permitiu ao país escapar a um pior desordenamento e a uma maior destruição dos equilíbrios dinâmicos, ecológicos e paisagísticos, até que surgiram uns sobredotados que resolveram inventar a pólvora e criaram o caos.

A grande compreensão mundial sobre a necessidade de defender o Ambiente terá começado com James Lovelock quando lançou a sua ideia da Gaia, o sistema vivo que só é mantido se nós o soubermos manter; depois em 1972 a Conferência de Estocolmo como que obrigou todos os países a preocuparem-se com o assunto. Nessa célebre conferência ouvimos declarar que “ o homem tem direito fundamental à liberdade ( logo a liberdade à frente de tudo!!), à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequadas a um ambiente de qualidade” e também : “o homem tem a responsabilidade especial de preservar e administrar judiciosamente o património natural e os seus habitats”

Portugal, em pleno “marcelismo”, criou então em 1971 a Comissão Nacional do Ambiente, entregue a um dos poucos políticos portugueses da altura que conhecia a situação – o engenheiro Correia da Cunha, pessoa muito competente e de amplo diálogo, sempre com fortes bases de conhecimento, que muito ajudaram a ampliar a compreensão pública das questões ambientais. E criou-se também em 1971 o Parque do Gerês, classificado como nacional.

Olhemos então para Portugal:

1- o interior despovoado

2- o sector agro-florestal desmantelado

3- a política de Ambiente desarticulada

4- a passividade cívica de grande parte da população, assoberbada com problemas do dia-a-dia e indiferente às questões ambientais.

Abordemos, pois, estas questões.

1- Desde que um Governo na década de 90 do século passado decidiu dar subsídios aos pequenos e médios agricultores para deixarem de produzir, milhares de hectares de solos agricultáveis foram abandonados e a falta de actividades no mundo rural atirou milhares de pessoas jovens para as cidades. Muitos dos solos acabaram plantados com eucaliptos sem que tivesse havido um ordenamento florestal que permitisse localizar esses povoamentos estremes apenas e só onde eles tivessem lugar sem interferir com as outras culturas. E outros milhares de hectares de solos ficaram simplesmente abandonados. Mas ainda agora continua a sair legislação para ampliar a área de eucaliptais como tem sido denunciado por ONGs.

2- O sector agro-florestal foi sendo desarticulado e chegou ao extremo actual de agricultura e “floresta” estarem em Ministérios diferentes, dizendo que este é o caminho actual para o futuro.

Começou com a extinção dos Serviços Florestais, que existiam desde o século XIX, instituição fundamental para a defesa do Ambiente.

Durante décadas a quadrícula de pessoal florestal distribuído pelo território garantiu o controlo dos fogos rurais, porque os focos de incêndio eram detectados geralmente logo no início e possibilitavam uma intervenção atempada. Pessoal florestal e bombeiros eram então suficientes para controlar os fogos. Agora todos os anos se gastam milhões e milhões com os incêndios só porque seguimos este “caminho de futuro”.

A política agrícola tem privilegiado e subsidiado os pomares de regadio intensivo, sem cuidar do recurso água, esquecendo as culturas alimentares e forrageiras de que o País tem carência, nas pequenas e médias explorações.

Oras, as preocupações com o Ambiente e com os processos ecológicos não são pertença de qualquer profissão específica, podem citar-se muitos exemplos de grandes personalidades envolvidas nestas matérias provindo das mais diversas formações científicas. Mas é forçoso reconhecer que em Portugal, onde as especializações por vezes estreitaram a visão global do Meio, coube aos arquitectos paisagistas, pela sua formação generalista e de síntese das Ciências da Terra e da Arte, a oportunidade de se destacarem na reflexão e definição da política de Conservação indispensável ao Ambiente tal como ao Ordenamento do Território, que entre nós se entendeu sempre como ordenamento paisagístico.

Sem esquecer outros participantes que se revelaram fundamentais para a definição e execução da política de ambiente - e não deixarei de citar pelo menos os Professor Delgado Domingos e Manuel Gomes Guerreiro e o engenheiro Carlos Pimenta – recaiu pois sobre os arquitectos paisagistas o grande papel fundacional dessa política, quer com Francisco Caldeira Cabral e logo com Gonçalo Ribeiro Telles que soube apoiar-se, entre muitos outros colegas, em António Viana Barreto e Ilídio Alves de Araújo, dois pilares inesquecíveis da política ambiental.

As Áreas Protegidas – Parques Naturais e Reservas Naturais - deixaram de ter a sua direcção e perderam a sua ligação com as populações locais; os planos de ordenamento não são cumpridos e a tragédia recente da Serra da Estrela é o último exemplo; já arderam áreas significativas pelo menos nos Parques Naturais do Alvão e da Serra d’Aire e Candeeiros; a Serra de Montemuro (1999), nunca viu o seu plano de ordenamento ser aprovado - agora é um vasto eucaliptal. Hoje Conservação e Ordenamento, os dois pilares do Ambiente, estão em tutelas diferentes - porquê? Porque dá jeito a alguém.

Suportada pela Lei de Bases do Ambiente (1987) durante décadas, a política de Ambiente permitiu ao país escapar a um pior desordenamento e a uma maior destruição dos equilíbrios dinâmicos, ecológicos e paisagísticos, até que surgiram uns sobredotados que resolveram inventar a pólvora e criaram o caos a que, se quisermos ser sérios, todos os cidadãos assistem impávidos e onde, quem aponta o dedo, é acusado de estar ultrapassado pela modernidade.

Cinquenta anos depois da Conferencia de Estocolmo que cada um faça o seu juízo!

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Personalidades lançam manifesto para honrar vida e obra de Gonçalo Ribeiro Telles


O documento, subscrito por personalidades como Elísio Summavielle, Viriato Soromenho Marques, Luísa Schmidt, Helena Roseta, Isabel do Carmo, Fernando Nunes da Silva, José Sá Fernandes e Francisco Ferreira, entre outros, lançado por ocasião do centenário do nascimento de Ribeiro Telles, pretende honrar "a resistência à destruição dos espaços naturais e da sua cultura e a aposta na identidade humana com a Terra".

Explicando a motivação que deu origem a esta iniciativa, a comissão ad-hoc, que conta, entre outros, com nomes como António Eloy, coordenador do Observatório Ibérico de Energia, Aurora Carapinha e Margarida Cancela de Abreu, arquitetas paisagistas, e José Carlos Costa Marques, distinguido em 2009 com o Prémio Nacional de Ambiente Fernando Pereira, defende que se "continuar a pôr em prática" o espírito de Ribeiro Telles.

"Numa altura em que as políticas públicas se alinham em contradição com o que ele sempre defendeu, arrastando a desorganização do território, a destruição da biodiversidade, a destruição da paisagem enquanto valor cultural e identitário, e as lógicas de um desenvolvimento contra o ambiente e a sustentabilidade, apesar de embrulhadas num discurso «verde»", escrevem.

"Honramos, em Gonçalo Ribeiro Telles, no centenário do seu nascimento, o Professor, o Arquiteto Paisagista, o homem político, o defensor do mundo rural, e da cidade entendida como o enlace da sociedade e da natureza, e não como puro artifício", acrescentam.

No documento, defendem que honrar Gonçalo Ribeiro Telles "é defender o municipalismo como forma de organização cívica e de respeito pela história, em vez da artificialização e centralização administrativa constantes".

"É pugnar pela centralidade do solo, da sua proteção, conservação e regeneração. É agir sempre com base no respeito consequente pelas áreas protegidas, valores naturais, ecossistemas e biodiversidade", sublinham.

Os subscritores defendem ainda que honrar Ribeiro Telles "é defender o ar, a água e o solo como fontes primaciais da vida. É defender políticas agro-pastoris-florestais coerentes".

"É entender e atuar na paisagem enquanto sistema vivo, resultante da união íntima entre ecologia e cultura, respeitando a memória biofísica e antropológica que a configura", defendem, acrescentando: "É acreditar que a paisagem é uma realidade fundadora da qualidade de vida das comunidades".

sábado, 21 de maio de 2022

Petição: Criação do Dia Nacional dos Jardins

Para: Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República


PETIÇÃO

CRIAÇÃO DO DIA NACIONAL DOS JARDINS / 25 de maio

(dia de nascimento do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles)

Esta petição tem como objetivo atingir o número de subscritores indispensável para ser discutida formalmente na Assembleia da República.

O objetivo final é a institucionalização do Dia Nacional dos Jardins para o dia 25 de maio.

Escolhemos esta data por ser na primavera, mas, principalmente, por ser o dia de nascimento do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, recentemente falecido.

Encaramos esta petição e a criação do Dia Nacional dos Jardins como uma justa e merecida homenagem a uma pessoa a quem o País muito deve em termos de ideias inovadoras, obras ambientais de referência e boas práticas inspiradoras.

Gonçalo Ribeiro Telles foi um arquiteto paisagista de eleição, premiado nacional e internacionalmente, um pensador visionário, um político generoso e empenhado e um cidadão exemplar.

Devemos-lhe, entre outras coisas, o ter-nos mostrado que as cidades e as vilas são tanto mais humanas quanto mais verdes e sustentáveis forem.

Devemos-lhe, ainda, o ter-nos ensinado que as cidades e as vilas não devem excluir-se da Natureza que as circunda, mas, pelo contrário, incluir a Natureza dentro delas de forma contínua e harmoniosa.

Finalmente, devemos-lhe a ideia generosa de uma Natureza com pessoas dentro e de cidades e vilas com a Natureza dentro do seu coração e das suas artérias verdes.

Pensamos que o jardim é uma metáfora feliz de tudo o que o arquiteto nos ensinou.

Os jardins são uma síntese com a marca da contemporaneidade.

Uma síntese da cidade e do campo, do urbano e do bucólico, da ordem geométrica das árvores e sebes desenhadas e da irreverência surpreendente das flores campestres.

Os jardins são, também, lugares de encontros.

Um encontro entre a vivência adulta e urbana e as recordações de infância no campo, um lugar de encontro entre o namorado e a namorada (ou o namorado e o namorado, ou a namorada e a namorada), um encontro entre os mais velhos e as crianças, entre os avós e os netos.

Os jardins são os lugares na cidade onde os animais se sentem em casa e os lugares que muitas aves escolhem para fazer a sua casa.

Por tudo isto, gostaríamos que fosse criado o Dia Nacional dos Jardins.

Sonhamos com um dia especial, em que os idosos saiam dos lares e de suas casas para apanhar sol e conversar entre si.

Um dia especial, em que as crianças mais novas vão passar a manhã a brincar à apanhada, a andar de baloiço ou a jogar à bola.

Um dia especial, em que as aulas sejam dadas ao ar livre, nos jardins das escolas e nos jardins e parques das vilas e cidades.

Os heróis não pertencem, apenas, ao nosso passado como País e Povo.

O arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, esse generoso e paciente jardineiro do Reino da Natureza é, seguramente, um dos heróis do nosso tempo.

Assine a petição para que, no próximo dia 25 de maio de 2022, data do centenário do nascimento do arquiteto, possamos todos homenageá-lo passando grande parte desse dia, felizes e sem máscara, num dos locais que ele mais prezava: os jardins.

Assine a petição!

Turma 10.º L da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Entrevista inédita a Gonçalo Ribeiro Telles: 'Um mundo urbano utópico destruiu o mundo rural'


Por José Alex Gandum14 de Novembro de 2020

Gonçalo Ribeiro Telles desapareceu há poucos dias, aos 98 anos de idade, mas deixou uma obra muito extensa na área da arquitectura paisagista, e não só, o que podia não ter acontecido se não tivesse Ribeiro Telles um tio-avô que morava num 5º andar na Rua das Pretas, em Lisboa, de onde desde muito cedo uma visão sobre grande parte da capital despertou no futuro arquitecto paisagista um espírito arquitectónico, paisagístico e crítico. Viria a ser também político, passando por diversos Governos e estando na génese de inúmeras medidas ambientais, ainda hoje vigentes. Tido como um visionário, Ribeiro Telles lamentava-se, contudo, em muitas das conferências e das entrevistas que dava, que os poderes instituídos não o deixavam fazer tudo aquilo que ele pretendia fazer. Ainda assim, fez muito, não só na capital (onde os Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian se destacam), estando também e esteve na génese de muitas áreas protegidas, áreas que ele viria a criticar nesta entrevista inédita feita nos finais de 2010 e que nunca tinha sido publicada. 

 
José Alex Gandum - Professor, tem dito que em face do mundo actual toda uma filosofia sobre áreas protegidas - muitas das quais tiveram a sua assinatura - e sobre a conservação da natureza está ultrapassada. Porque razão tem essa ideia?

Gonçalo Ribeiro Telles - Porque o mundo rural está a acabar. Não se pode inventar todas as potencialidades e funções do mundo rural através de uma nova visão de conservação da natureza. É preciso encarar o problema de frente e não é com o desenvolvimento das áreas protegidas e com novos estudos que se chega a alguma conclusão. 

Mas as áreas protegidas não são importantes?

As áreas protegidas têm importância e continuarão a ter, mas como laboratórios, referências, modelos, pedagogia... e isso interessa a quem? Interessa principalmente aos que não são do mundo rural. As áreas protegidas foram feitas para desenvolvimento científico como laboratório e para dar a conhecer àqueles que não são do mundo rural qualquer coisa que possa justificar esse mundo. Ah, e para criar bons empregos desnecessários a pessoas que fazem parte da elite governativa. Mas o que se verifica hoje - e que é gravíssimo - é a queda drástica do mundo rural, o que vai arrastar todas as políticas relativas às áreas protegidas.

E de quem é a culpa para a queda do mundo rural?

O principal culpado é o fenómeno urbano, que afastou as populações das aldeias,condenando à morte as aldeias, e tornando este país num caos... foi também a reflorestação errada, que acabou por provocar... desflorestação. Aliás, a desflorestação foi o primeiro acto de despovoamento. A desflorestação é um fenómeno urbano, pois parte de decisões tomadas nas cidades, decisões que preferem criar um grande mercado internacional em detrimento dos mercados locais. E é assim que se mandam vir produtos de locais a milhares de quilómetros de distância, aumentando aquilo a que chama a pegada ecológica, quando esses produtos podiam ser produzidos localmente.

E aponta alguma solução para os incêndios florestais em Portugal?

Incêndios florestais? Portugal não tem incêndios florestais...

Como assim, Professor? Se todos os anos ardem milhares de hectares de floresta...

Ardem milhares de hectares de eucaliptais e aglomerados de pinheiro bravo. Isso não é floresta. A verdadeira floresta felizmente não arde ou arde pouco. Conhece grandes incêndios em florestas de castanheiros ou no montado?

Pois, na verdade não. Mas mesmo os outros incêndios são muito prejudiciais para a biodiversidade, não?

Claro. Nos tempos pré-históricos alguns incêndios tinham uma função útil, mas hoje em dia são completamente inúteis. Destroem os solos, dizimam milhões de animais e os seus habitats, e espalham muito CO2 que não faz falta nenhuma... além do mal que fazem às populações rurais, as quais só pensam em fugir para locais mais "seguros", leia-se vilas e cidades... e até para o estrangeiro.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Ribeiro Telles propõe conhecer as árvores portuguesas em época de fogos


                                                        
    
"A Árvore em Portugal" é o título de uma obra de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles que a Assírio & Alvim repõe no mercado num momento em que o país é assolado por muitos incêndios florestais.

A Árvore em Portugal" é o título de uma obra de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles que a Assírio & Alvim repõe no mercado num momento em que o país é assolado por muitos incêndios florestais.

O livro saiu originalmente em 1960, foi reeditado em 1999 e aconselhado em diversas universidades, regressando às livrarias ano e meio após se terem vendido os últimos exemplares da tiragem anterior.

"O livro esgota-se e os responsáveis nada aprendem; é um problema de formação", lamentou Gonçalo Ribeiro Telles à agência Lusa, acrescentando que "tanto território ardido não faz sentido num país que tem um Estado".

O arquitecto paisagista criticou a incidência de incêndios e afirmou que estes podem ter como único aspecto positivo "ajudar a reordenar o território, evitando que se repitam os mesmos erros do passado".

Para Ribeiro Telles, "desde uma campanha de 1930, que visava arborizar o país com pinheiros e eucaliptos para aumentar o Produto Interno Bruto, que a mata tradicional portuguesa começou a ser prejudicada".

Na opinião do fundador do Movimento Partido da Terra (MPT), "o Alentejo, devido à presença dos sobreiros e azinheiras, naturais naquela área, é menos propenso ao fogo do que regiões como Leiria, com povoamentos de pinheiro e eucalipto".

"Existem enormes extensões florestais típicas do norte da Europa que não se adequam a Portugal, onde é cada vez mais urgente alterar a política de ordenamento do território", afirmou.

Gonçalo Ribeiro Telles defende "a recuperação da agricultura tradicional, de cariz mediterrânico, polivalente e compartimentada, aspecto que é essencial para deter o fogo".

O despovoamento do interior foi igualmente criticado pelo ex-ministro de Estado e da Qualidade de Vida, para quem importa "recuperar a complexidade do mundo rural, dando às aldeias meios de subsistência local e regional para ajudar a fixar a população".

O livro "A Árvore em Portugal" refere a importância das várias espécies na paisagem urbana e rural, indica as principais formações vegetais em Portugal continental e informa acerca da distribuição típica da vegetação.

Quais são as árvores espontâneas em Portugal? Quais as espécies características dos jardins portugueses? Como se adaptam as árvores aos vários tipos de solo? - são algumas das perguntas a que o livro pretende dar resposta.

Com vista a permitir um melhor conhecimento sobre as árvores existentes em Portugal, a obra de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles, profusamente ilustrada e acompanhada de mapas e esquemas, refere ainda a utilidade das árvores nos parques e jardins, nos pomares ou nas matas.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Documentário da Semana: Em Nome da Terra - Gonçalo Ribeiro Telles



A forma como revelou o invisível, sobretudo aos mais insensíveis, foi autêntica dádiva, e acto maior de cidadania (com muito ainda por aproveitar nos anos vindouros). 
Compreende-se que o mais fiel jardineiro não poderia deixar de pensar nem a mais delicada brisa, enquanto "elemento" integrante do todo como sistema funcional (custa à vontade política entender, ou não ceder a outros interesses de vista curta e criminosa algibeira)...afinal de contas, foi o "mesmo vento", entre colinas da velha Lisboa, que potenciou o fogareiro de 1755. 
Além dos inúmeros benefícios do (cuidado) planeamento a longo prazo, com respeito à nossa herança, atentos a novas dinâmicas, o que não pensarmos hoje, poderá ser devastador no amanhã.
Nunca é demasiado elogiar seu tacto e sensibilidade invulgar, impressionante; foi criador atento à História, e às nossas raízes nas suas múltiplas dimensões.
O mesmo homem reflectiu o sublime, como espelho d'água a revelar a copa das árvores...e o patamar mais elevado.
Mais que lazer e fruição, há uma revelação como descoberta, aos que procuram. 
O que nos foi dado, é bem incalculável, cuidemos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Um mundo urbano utópico destruiu o mundo rural

Recusava-se a chamar floresta aos eucaliptais e às manchas de pinheiro-bravo, deixou um alerta dramático para o fim das aldeias e do mundo rural, nesta entrevista ainda inédita, realizada pelo jornalista José Alex Gandum.


Gonçalo Ribeiro Telles desapareceu há poucos dias, aos 98 anos de idade, mas deixou uma obra muito extensa na área da arquitectura paisagista. Em miúdo, ia muitas vezes a casa de um tio-avô que morava num 5º andar na Rua das Pretas, em Lisboa. Foi ali, à janela, a olhar para a cidade, que despertou no futuro arquitecto paisagista um espírito arquitectónico, paisagístico e crítico.

Político, passou por diversos Governos e esteve na génese de inúmeras medidas ambientais, ainda hoje vigentes. Visionário, Ribeiro Telles lamentava-se, contudo, em muitas das conferências e das entrevistas que dava, que os poderes instituídos não o deixavam fazer tudo aquilo que ele pretendia fazer. Ainda assim, fez muito, não só na capital (onde os Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian se destacam. mas também o Jardim Amália ou o Corredor Verde de Lisboa).  

Professor, tem dito que em face do mundo actual toda uma filosofia sobre áreas protegidas – muitas das quais tiveram a sua assinatura – e sobre a conservação da natureza está ultrapassada. Porque razão tem essa ideia? Porque o mundo rural está a acabar. Não se pode inventar todas as potencialidades e funções do mundo rural através de uma nova visão de conservação da natureza. É preciso encarar o problema de frente e não é com o desenvolvimento das áreas protegidas e com novos estudos que se chega a alguma conclusão.

Mas as áreas protegidas não são importantes? As áreas protegidas têm importância e continuarão a ter, mas como laboratórios, referências, modelos, pedagogia… e isso interessa a quem? Interessa principalmente aos que não são do mundo rural. As áreas protegidas foram feitas para desenvolvimento científico como laboratório e para dar a conhecer àqueles que não são do mundo rural qualquer coisa que possa justificar esse mundo. Ah, e para criar bons empregos desnecessários a pessoas que fazem parte da elite governativa. Mas o que se verifica hoje – e que é gravíssimo – é a queda drástica do mundo rural, o que vai arrastar todas as políticas relativas às áreas protegidas.

E de quem é a culpa para a queda do mundo rural? O principal culpado é o fenómeno urbano, que afastou as populações das aldeias, condenando à morte as aldeias, e tornando este país num caos… foi também a reflorestação errada, que acabou por provocar… desflorestação. Aliás, a desflorestação foi o primeiro acto de despovoamento. A desflorestação é um fenómeno urbano, pois parte de decisões tomadas nas cidades, decisões que preferem criar um grande mercado internacional em detrimento dos mercados locais. E é assim que se mandam vir produtos de locais a milhares de quilómetros de distância, aumentando aquilo a que chama a pegada ecológica, quando esses produtos podiam ser produzidos localmente.

E aponta alguma solução para os incêndios florestais em Portugal? Incêndios florestais? Portugal não tem incêndios florestais…

Como assim, Professor? Se todos os anos ardem milhares de hectares de floresta… Ardem milhares de hectares de eucaliptais e aglomerados de pinheiro bravo. Isso não é floresta. A verdadeira floresta felizmente não arde ou arde pouco. Conhece grandes incêndios em florestas de castanheiros ou no montado?

Pois, na verdade não. Mas mesmo os outros incêndios são muito prejudiciais para a biodiversidade, não? Claro. Nos tempos pré-históricos alguns incêndios tinham uma função útil, mas hoje em dia são completamente inúteis. Destroem os solos, dizimam milhões de animais e os seus habitats, e espalham muito CO2 que não faz falta nenhuma… além do mal que fazem às populações rurais, as quais só pensam em fugir para locais mais “seguros”, leia-se vilas e cidades… e até para o estrangeiro.

Mas não se pode fazer nada para conter esses tais incêndios? Desde que a pastorícia acabou e as aldeias começaram a ficar vazias ou quase só habitadas por velhos, ficou cada vez mais difícil evitar grandes incêndios nas manchas de eucalipto e pinheiro bravo. E a coisa é regular: os grandes incêndios vão repetir-se ciclicamente, é que a vegetação cresce e fica disponível para arder a cada sete, oito anos. E isto porque nesse intervalo os poderes políticos e económicos nada fizeram para o evitar ou mitigar. Sendo que os incêndios no futuro serão ainda mais catastróficos por causa do aquecimento global, coisa que muita gente, até cientistas, ainda não acredita.

Há nisto tudo um problema de ordem cultural? Exactamente, e isso ultrapassa até o problema económico. Esse problema de ordem cultural até destrói a esperança. O que vemos à volta é um caos distorcido. Há que recuperar uma dignificação do mundo rural para uma função essencial para a espécie humana, que é o contacto com a natureza, a produção de alimentos, fornecimento de água, etc.… enquanto é tempo.

Então, como vai ser a cidade do século XXI? Na relação urbano-rural temos de rever desde a base a ideia se necessitamos ou não do mundo rural. O maior problema é a destruição do mundo rural pela frustração do desaparecimento específico de espécies, pela morte das aldeias, não há caminhos locais, fecham-se escolas e outros serviços públicos. É claro que as pessoas que conseguem sair das aldeias, saem, e vão para as vilas e para as cidades. Ficam os que não conseguem sair, normalmente os mais velhos… e depois ainda há a questão da agroquímica, que vai acabar com o resto da agricultura tradicional.

Mas não se poderia transportar um pouco do mundo rural para as cidades? Hoje pensam-se as cidades em grandes edifícios, com muitos andares, com uma vacaria no 1º andar, com uma horta no telhado, com umas palmeiras nas empenas… utopia que só serve para desclassificar o mundo rural. Até porque o problema da biodiversidade está intimamente ligado com o mundo rural, não vale a pena fazermos charquinhos com rãs se não houver uma preservação e uma dignificação do mundo rural. Posso dar-lhe um exemplo aqui bem perto da falta de respeito do urbano intelectualóide pelo rural genuíno: o espaço que fica entre as dunas e a barreira das falésias da Costa da Caparica são os terrenos agrícolas mais produtivos da Europa, porque se conjugam ali uma série de factores propícios à agricultura, inclusive gente que sabe trabalhar a terra. No entanto, aprova-se um Polis que quer encher aquele espaço de construções para bairros sociais, em forma de caixotes intervalados com pequenos metros quadrados de relva que ainda por cima consome água da companhia…

Mas os bairros sociais também são necessários… Claro que são, mas não devem ser construídos em espaços agrícolas. Ainda há muito terreno com menores aptidões agrícolas que podem ser urbanizados.

Qual é a relação de um mundo que está a desaparecer, de um mundo de que dependemos historicamente, até dos seus conhecimentos, e como vamos substituir quer no tempo quer espacialmente esse mundo? Tudo se resume ao problema do desaparecimento das aldeias. É a própria história da humanidade que é mutilada. E depois também há motivos dos quais ninguém fala e que também afastaram as novas gerações do campo. Por exemplo, nos foros do Ribatejo e do Alentejo cresceram herdades ou companhias que enriqueceram muita gente, pela qualidade dos solos e a aposta certa em certas culturas. Mas isso também trouxe o reverso da medalha: os filhos e netos desses proprietários puderam ir estudar para as cidades e para o estrangeiro e quase nenhum voltou à sua terra – uma excepção ou outra no que toca aos vinhos, mas pouco mais.

Em resumo, muita coisa contribuiu para o desaparecimento do mundo rural: o não aproveitamento dos baldios, o fim da pastorícia, o alastramento da agroquímica com culturas cada vez mais intensivas em detrimento da agricultura tradicional adaptada aos solos e ao clima, os interesses da floresta industrial e da celulose, e em grande parte também por culpa dos que decidem estas coisas a partir de gabinetes nas grandes cidades sem nunca terem sujado as mãos na terra.

O problema da sustentabilidade já não se põe com o mundo rural mas com um mundo urbano utópico.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Podas de árvores ornamentais: fala quem sabe



Se qualquer árvore pode muito bem viver sem a intervenção humana, por que razão se podam as árvores?
De acordo com o engenheiro florestal Rui Tujeira, num texto publicado na revista “Jardins”, nº 203, de novembro de 2020, as razões para as podas são várias, mas estão relacionadas com a necessidade de condicionar o desenvolvimento da planta, tendo em conta o espaço onde foi plantada, para a obtenção de uma frutificação mais abundante ou por motivos sanitários.
No mesmo texto, Rui Tujeira explica que “sempre que se efetua uma poda, está-se a desequilibrar os fluxos energéticos que a planta criou e com os quais está a contar para o seguinte período vegetativo. Cumulativamente, reduz-se ainda a capacidade fotossintética da árvore por supressão da área folear disponível”.
Podar uma árvore apenas para não ter de varrer as folhas ou porque é tradição anual é um erro que sai caro aos contribuintes e que prejudica grandemente as árvores. Num texto publicado no jornal “O Público” de 12 de janeiro de 2020, o paisagista Manuel de Carvalho e Sousa, depois de lamentar a incultura que continua a ser uma ameaça para as árvores afirma que uma árvore podada vive, em média, um terço do que viveria se não o fosse.
Francisco Coimbra, Consultor em Arboricultura Ornamental e antigo vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Arboricultura, num texto publicado no “Jornal da Mealhada” a 27 de março de 2002, desmistifica um conjunto de “preconceitos que continuam arreigados na população” e que são responsáveis pelos “autênticos «massacres de motosserra» que destituem de dignidade e valor estético as árvores – ditas ornamentais – que marginam os nossos arruamentos e estradas.” De entre os preconceitos referidos o autor rebate os seguintes: as «rolagens» rejuvenescem e fortalecem as árvores” e as rolagens “são a única forma económica de controlar a sua altura e perigosidade”.
Os tão homenageados e citados, mas não ouvidos nem seguidos, arquitetos paisagistas Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles, no seu livro “A árvore em Portugal” afirmam perentoriamente que “A poda não é uma operação cultural normal das árvores de ornamento ou florestais. A poda só é uma operação normal em fruticultura. A poda de árvores de sombra ou de alinhamento, destina-se apenas a fazer face a situações de emergência…”
Mas o grande mal é, de acordo com vários especialistas, entre os quais Francisco Coimbra a “ainda quase absoluta ausência de sensibilidade para o papel da Árvore em Meio Urbano” que anda intimamente associada à falta de planeamento e esta leva a podas aberrantes que acontecem um pouco por todo o lado e de que é exemplo uma ocorrida recentemente na Avenida da Paz, no Pico da Pedra, onde foram decapitadas várias Grevíleas (Grevillea robusta), árvores, oriundas da Austrália que podem atingir 35 metros de altura e que foram plantadas em local desadequado.
Sobre o assunto referido no parágrafo anterior, Cadeira Cabral e Ribeiro Telles escreveram no já citado livro “… mas não vale a pena frisar senão que é indispensável no projeto atender às necessidades de cada coisa e saber prescindir do que se considera menos importante. Se não há espaço para a árvore é preferível plantar só o arbusto, ou mesmo só a flor e não contar depois com a tesoura para manter com proporções de criança o gigante que se escolheu impensadamente”.
Para terminar esta questão e para evitar más interpretações, afirmo que não estou contra todas as podas e muito menos defendo as árvores contra as pessoas, como alguém falho de argumentos e ignorante já tentou insinuar.
No que a podas diz respeito, partilho a opinião de quem sabe, como a do Engenheiro Vieira Natividade que escreveu que «o podador domina porque enfraquece, vence porque suprime… em boa verdade a vitória não é brilhante»! E de facto, devia dizer-se de uma poda o mesmo que de um árbitro: tanto melhor quanto menos se der por ela!” ou a dos arquitetos Gonçalo Cabral e Ribeiro Telles que escreveram que “o maior elogio que se pode fazer a um podador de árvores ornamentais é que não se perceba que a árvore foi podada”.
(Correio dos Açores, 32315, 23 de dezembro de 2020, p. 19)

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A política de Gonçalo Ribeiro Telles

Fonte: aqui

Em novembro de 1967, Gonçalo Ribeiro Telles (GRT) deu-se a conhecer publicamente durante a comoção nacional das grandes cheias do Tejo, que ceifaram a vida a mais de 500 pessoas. A abrupta emergência enfraqueceu a censura. Só isso explica que GRT tivesse tido oportunidade de falar na RTP. Em vez de um flagelo inexplicável da natureza, aquela tragédia passou a estar associada a erros e escolhas humanas que destruíram a protetora vegetação ripícola da margem dos cursos de água, e à construção desordenada em cima de solos de leito de cheias.

Mais tarde, admirei o seu trabalho como um dos pioneiros da política pública de ambiente em Portugal, seguindo, aliás, o legado de José Correia da Cunha (1927-2017), responsável por colocar o ambiente na agenda política da Primavera Marcelista. Da sua experiência executiva, tanto nos governos provisórios como no Governo de Pinto Balsemão (1981-1983), salientam-se as iniciativas para impedir a destruição dos solos, das paisagens, dos recursos hídricos.

É verdade que as nossas cidades se expandiram delapidando capital natural. O êxodo rural transformou paisagens humanizadas em solos roubados pelas monoculturas infestantes e incendiárias, como o eucalipto. Sabemos também que uma rede viária redundante impermeabilizou solos férteis de que precisaremos amanhã para a nossa mais elementar segurança alimentar. Mas só podemos estremecer quando imaginamos quanto pior poderia estar hoje Portugal sem a legislação associada ao determinante trabalho de GRT que introduziu a Reserva Agrícola Nacional, a Reserva Ecológica Nacional e os instrumentos fundamentais para o ordenamento municipal e regional.

Por convite de José Rebelo, tive o prazer de conviver em Colares, no início de 1999, com GRT, numa longa conversa que também juntou Francisco Ferreira e Francisco Nunes Correia. O resultado está publicado num livro indispensável para quem queira perceber a génese biográfica e intelectual da sua obra política (Ecologia e Ideologia, Lisboa, coordenação José Rebelo, Livros e Leituras, 1999).

Na ação de GRT combinam-se duas fontes principais. Uma vertente mais tradicional e outra mais moderna. A primeira, vinculada à sua defesa da monarquia, recupera os debates sobre o rural e o urbano, o antigo e o moderno que atravessam o final da monarquia constitucional. A segunda prende-se com a sua capacidade de trazer para a liça política os ensinamentos do seu mestre Caldeira Cabral, introdutor da arquitetura paisagista no país em 1942.

GRT ensina-nos que - depois de as ilusões seculares do que ele chamava a civilização positivista naufragarem no oceano da realidade - só sobreviverão os povos que tiverem cuidado do seu território.

Os responsáveis políticos, que agora lhe prestam homenagem, deveriam também submeter o programa económico com que se pretende recuperar Portugal pós-pandemia ao crivo da obra de GTR. O resultado provaria como é abissal a distância entre as palavras de apreço e os atos que as desmentem.

Professor universitário

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

1922-2020: Gonçalo Ribeiro Telles, o “ilustre defensor da causa pública ambiental”

Fonte: aqui


Faleceu ontem, aos 98 anos de idade, o arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles. O Governo português decretou um dia de luto nacional, a assinalar esta quinta-feira, em homenagem ao considerado por muitos “primeiro ambientalista de Portugal”.

O Ministro do Ambiente da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, já veio demonstrar o seu voto de pesar: “Arquiteto paisagista, professor universitário, ativista da causa pública, Gonçalo Ribeiro Telles é justamente recordado como uma das figuras da sociedade portuguesa que mais se empenhou na defesa do ambiente e na valorização do mundo rural, tendo sido decisiva a sua ação na consagração da Reserva Ecológica Nacional e na Reserva Agrícola Nacional.”

“Conhecido por obras marcantes de paisagismo”, como é o caso dos Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, do Amália Rodrigues, do Castelo de São Jorge, do Cabeço das Rolas, da Mata dos Medos, e ainda do Corredor Verde de Monsanto, “foi sobretudo um ilustre defensor da causa pública ambiental, para a qual contribuiu com as suas ideias, planos e projetos.”


Fernando Medina, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), também deixou o seu testemunho no Facebook: “Gonçalo Ribeiro Telles foi o primeiro rosto de um movimento ambiental e do ordenamento do território no nosso país. O seu espírito visionário e à frente do tempo fez com que se batesse pela implementação de um Plano Verde, com vários corredores ecológicos, na cidade de Lisboa. Na última década, Lisboa cumpriu o essencial do programa ecológico de Ribeiro Telles, faltando-nos acabar o corredor verde de Alcântara e o corredor Periférico. Lisboa deve-lhe imenso(…).”

No seguimento, a CML anunciou hoje que o novo Parque Urbano da Praça de Espanha se vai chamar “Parque Gonçalo Ribeiro Telles”.

“Se podemos ser um exemplo, sem andar a chatear ninguém, ótimo”: Gonçalo Ribeiro Telles 1922-2020

“Tive uma filha que morreu nova. Tinha pouco mais de 30 anos. Tudo isso ajuda a perceber onde estamos e as fragilidades que temos. Todos temos os mesmos problemas e as mesmas dificuldades. Talvez não as resolvam de igual maneira. Se podemos ser um exemplo, sem andar a chatear ninguém, ótimo”: há cerca de sete anos e meio, Gonçalo Ribeiro Telles concedeu ao Expresso uma longa entrevista que se torna tão curta quando se chega ao fim - entre revelações pessoais, uma magnífica descrição sobre o Douro e a história de como parte importante da sua aprendizagem advém de “um tio velhote que era coxo”, Gonçalo Ribeiro Telles termina a explicar o que é mistério do montado, que na verdade é o mistério da eternidade. Tinha 98 anos, morreu esta quarta-feira e esta é a republicação dessa entrevista de abril de 2013 que explica o homem e o arquiteto


Nasceu a olhar para os ulmeiros da Avenida da Liberdade. A relação com Lisboa começou entre a Rua das Pretas e de São José, na casa da família onde ainda hoje mora, num segundo andar sem elevador. Todos os dias, Gonçalo Ribeiro Telles desce a escadaria de madeira a pé e percorre a cidade. É um cidadão notável, de obra cheia, que tocou todos os aspetos do fazer da nossa paisagem. Foi professor e fez escola. Foi político e responsável por leis fundamentais de proteção do nosso património, como a Reserva Agrícola Nacional (RAN) e a Reserva Ecológica Nacional (REN). Aos lisboetas deu os jardins da Fundação Gulbenkian, o corredor verde entre o Parque Eduardo VII e a mata de Monsanto. Só para falar das obras mais emblemáticas. Recebeu-nos em sua casa poucos dias depois de ter tido a notícia do prémio Sir Geoffrey Jellicoe, atribuído na Nova Zelândia e considerado o mais alto reconhecimento na disciplina de Arquitetura Paisagista. Não falámos de política. Nem de ecologia ou planeamento. Essas matérias estão sempre implícitas nas suas palavras. Nesta conversa visitamos a memória de Ribeiro Telles. Permanentemente atravessada pela paisagem e por um sentir das coisas essenciais.

O que significa este prémio para si e para a arquitetura paisagista portuguesa?
Para a arquitetura paisagista é o reconhecimento de uma matéria que está fora dos hábitos e das visões deste tempo. Para mim significa o reconhecimento de uma obra para a qual contribuíram muitas pessoas e que reflete uma vida que me satisfez, por me ter sentido à vontade comigo próprio.

Chegar a esta idade e poder dizer isso é muito compensador.
Isso é. A vida foi-me propondo este caminho. Porquê, não sei. Nasci urbano mas com um grande pé no campo. A minha família era de Coruche e de férias ia para lá. Mas não ia para gozar o campo. Ali era o campo autêntico.

O que é o campo?
A resposta é simples, você sabe o que quer dizer. É o contrário da praia. Quando se vai para o campo não se vai para a praia mas vai-se com as mesmas vantagens de se estar em contacto com a natureza. É uma procura que o citadino faz para fugir do meio urbano e encontrar o horizonte ou qualquer outra coisa que nos faz muita falta. Nós somos um elemento muito especial da natureza, fazemos parte. Tudo isto pressupõe uma procura cultural. Hoje a ida para a praia é uma revolta contra a cidade.

Como manifestava o seu interesse pelas coisas da natureza?
Metia o nariz em tudo. Nas lavouras, ia ver como funcionava o rebanho. Também me interessavam as aves.

Ia de carro para Coruche?
De comboio. Partíamos do Rossio e apanhávamos a linha de Vendas Novas. Era uma linha linda. Atravessava os montados, os arrozais e tudo isso me cativava. Gostava de escrever e fazia uns textos sobre o anoitecer no comboio.

O que escrevia?
Descrevia a transição do dia para a noite, que é muito diferente do campo para a cidade, e de como essa diferença marca.

Não ia para a praia?
Ia um mês para Santa Cruz. Sabe onde é?

Sei.
Gosta?

Não me diz muito.
Pois é. Essas coisas são afetivas. Foi o meio que me conduziu a esta sensibilidade. A família tinha umas quintas e íamos na carreira de Torres Novas. O meu pai, quando podia, aparecia a cavalo. Nesse período era a vida da costa e dos rochedos que me entusiasmava. Naquelas praias fazia-se a pesca do pequeno barco que levava três a quatro homens. Praticava-se uma pesca familiar, hoje fora de moda, e os pescadores de rochedo andavam no polvo e às amêijoas.

Ia com eles?
Não. Apanhar polvo era muito chato. Andava por ali a pé a ver. Naquele tempo tudo estava mais perto do olhar. Os carros andavam a 30 quilómetros à hora. Era um caminhar completamente diferente. Todas estas coisas me ensinaram a ver o território.

Tinha um grupo ou explorava sozinho?
Em Coruche havia muitos primos. Era uma coisa complexa porque a família era numerosa.

E irmãos?
Tive um. Foi para cavalaria. Morreu cedo.

O seu pai o que fazia?
Também morreu cedo. Era oficial no exército e mestre veterinário. O meu pai fazia a compra dos cavalos para o exército e quando ia ao Minho comprar eu ia com ele. Achava piada ver aquilo tudo: saber de onde vinham os garranos, assistir à compra, ver como eram as pessoas que os vendiam.

E a sua mãe?
Tinha estudado canto, fazia aquilo a sério, mas desistiu porque achava que não tinha qualidade suficiente. Lembro-me dela a estudar canto. Nessa altura todas as senhoras o faziam. Não sabia que era assim? Algumas eram péssimas.

Como era a sua mãe?
A minha mãe? Achavam-na estranha.

Estranha?
Sim. Tinha a poesia das coisas pequenas.

Em que é que se traduzia isso?
Um menino pequenino passava lá na rua e ela tinha logo de o conhecer e encontrava sempre qualidades na criança; o amor por uma cadelinha que andava colada a ela. Traduzia-se em coisas desse género. Não entrava no jogo social da época. Gostava de ir à ópera por gostar e não por ser necessário. Talvez a achassem estranha por ela ser verdadeira.

Herdou dela essa parte? Tentou ser sempre verdadeiro na luta pelas suas convicções.
As heranças são muitas coisas. Uma parte importante da minha aprendizagem fui buscá-la a um tio velhote que era coxo. Estudou e publicou muito sobre as iluminuras renascentistas e medievais. As iluminuras, ou os livros de horas, eram os calendários dos ricos, que os mandavam fazer aos pintores. Representavam o trabalho do campo mês a mês, ao longo do ano, e descreviam o que se fazia em cada época. Em Itália fazia-se de uma maneira, em França de outra. Já viu um desses livros de horas? Eu mostro- lhe. [Levanta-se] Cá está. [Passa as páginas devagar] Ora veja: “Inverno, outono, lavoura, recreio, o prado, a pesca, a vindima...”. E lá ao fundo sempre a cidade em silhueta. [Aponta para a cidade] Quando isto transbordou cá para fora destruiu o campo.

Essa relação entre cidade e campo teve muita importância na sua obra. Ainda não falámos da sua cidade.
A minha cidade foi sempre aqui. Nasci na Rua das Pretas, na esquina com a Avenida da Liberdade, e depois vim morar um pouco mais abaixo, para este prédio na Rua de São José, dos meus bisavós, onde vivia toda a família. Nunca saí deste lugar. Tive essa sorte.

E como era?
A minha cidade estava muito dependente do campo e o campo entrava dentro da cidade. Não calcula o que era o movimento de carros de mulas e de bois carregados de hortaliça que vinham pela Estrada de Benfica até à Praça da Figueira. Eu vivia ali na esquina e ia ver o que faziam. Uma coisa que me impressionava muito era a chegada dos pássaros aos ulmeiros da Avenida. Ao fim da tarde chegavam bandos e bandos de pardais que passavam o dia a comer nas searas dos arredores de Lisboa e vinham pernoitar nas copas das árvores. Aquele chilrear ensurdecedor anunciava a cair do dia. À noite aparecia sorrateiro um pássaro branquinho que passava à janela do quinto andar. Era a coruja a atravessar a Rua das Pretas em direção aos ulmeiros para ir papar. Os ulmeiros ainda lá estão, os pardais é que não. Desapareceram com o fim das searas.

E a escola?
A atenção estava sempre fora. A instrução primária fiz ali ao pé do Elevador do Lavra, num pavilhão em madeira todo envidraçado e rodeado de jardins. A senhora via-se aflita. Tinha uma reguazinha e quando um menino estava a olhar para os pardais ela vinha bater no menino. Levei com a reguazinha uma data de vezes. Também no liceu comecei por me dar mal. No Pedro Nunes era uma grande preocupação com as minhas notas, recuperar de um oito para um dez era uma dificuldade. Depois mudei para o Colégio Vasco da Gama porque tínhamos uma ligação ao diretor, que era de famílias conhecidas, e descansei.

Tudo está no início?
Tudo está na relação entre as coisas. A biblioteca do meu tio das iluminuras, com as suas 18 estantes, foi uma sorte espantosa. Mas houve outra sorte igualmente importante. Decidi estudar Agronomia e logo no primeiro ano aconteceu a coincidência de ter como professor de desenho o Francisco Caldeira Cabral. Ele tinha chegado nesse ano de Berlim para lançar o curso livre de arquitetura paisagista e eu sou dos primeiros alunos desse curso. Éramos quatro.

Em que ano foi?
Não me peça para fazer contas de cabeça.

O que o motivou a escolher a componente de arquitetura em Agronomia? O desenho?
Esse lado foi importante. Em miúdo pintava muito e gostava de desenhar paisagens. Pus a hipótese de Belas-Artes mas depois achei que seria uma chatice. No curso descobri o desenho organográfico. Foi uma grande sorte o professor Caldeira Cabral ter chegado de Berlim com aquela novidade da arquitetura da paisagem. As portas abriram-se no momento certo. Podia ter levado mais tempo a encontrar-me. Quando descobri a disciplina da paisagem comecei a
procurar as obras que me podiam auxiliar. Fui muito à literatura. Aos textos de Manuel de Melo e à “Floresta de Enganos”, de Gil Vicente, ao pastor e à pastora da pastorícia medieval. Andava à procura da ruralidade.

Nessa descoberta, o que o marcou mais?
Havia o trabalho de estirador e as viagens. O Caldeira Cabral todos os anos levava um pequeno grupo de alunos a visitar a universidade na Alemanha para aprender o que os paisagistas andavam a fazer. A minha primeira viagem foi de Volkswagen até Hanôver. Atravessámos Espanha pelas estradas de Castela Velha, França e depois subimos o Reno. Imagine o que se vê! A Alemanha era uma paisagem destruída pela guerra. Estavam a reconstruir tudo e tivemos a oportunidade de assistir. A referência e o estudo comparativo são fundamentais. Estas coisas deram-me uma leitura do meu território.

Que mais descobertas fez?
À partida temos tendência para achar que a paisagem é uma coisa natural. Que está ali. Quando comecei a estudar tive o reconhecimento de que ela está ligada a uma antecedência importantíssima, que é a Humanidade. Toda a paisagem é obra do homem, não é obra da natureza. Sem a mão do homem não valia nada. Quando se começa a perceber isto, o espanto maior é ver como é que determinada paisagem tem uma origem, não pictórica, não de cenário, mas como funciona na sua diversidade. Pense no Douro. O que é aquilo?

Está a pedir-me para descrever?
Descrever uma paisagem é complicado, não é? Corresponde a uma estética, que por sua vez
responde a uma função, e também é criação.

Pode descrever a paisagem do Douro?
Então, eu quando olho para o Douro vejo fundamentalmente um presépio de socalcos lindíssimos a subir as encostas, coroadas por uma mata, que vão cair sobre um rio cheio de salgueiros. Entramos no Douro e vemos aquela majestosa linha dos socalcos, com a vinha encarniçada no outono e os castanheiros lá em cima. Aquilo foi feito e não se pensou em paisagem. Mas o resultado está certo. As vidas e as técnicas ilustram-se.

É uma paisagem sublime.
E sabe porquê? A visão de certas paisagens aproxima-nos muito da experiência da transcendência. Daí o sublime. Mas isto acontece não por ser obra da natureza mas por ser uma criação do homem. Há duas maneiras de interpretar o sublime. Uma delas é intervir no meio. Todas as paisagens da Europa têm interpretação do homem. O reconhecimento é o primeiro ato criativo. Mas o homem não se fica pelo reconhecimento. O desenvolvimento da Humanidade vai criando sistemas cada vez mais complexos. O pior é quando se perdem os princípios e o sentido da paisagem.

O que distingue a arquitetura paisagista portuguesa?
Toda a intervenção num território tem um objetivo. A nossa especificidade é que soubemos traduzir no meio o que ele foi proporcionando e interessava ao desenvolvimento de uma cultura.

Para a qual contribuiu.
Todos contribuímos. Só não contribuiu quem não entendeu.

Referiu que andava à procura da ruralidade e falou desse saber vernacular. Mas nos nossos dias a ideia de ruralidade ganhou um sentido pejorativo. Porquê?
Por isso é que vai ser tão difícil recuperar.

Tem que ver com memória de pobreza?
Não. Tem que ver com luxo. No Mediterrâneo houve uma degradação maior, porque como o meio é mais sensível e mais rico em biodiversidade foi mais fácil. Todo o saber que tínhamos do terreno alterou-se com as possibilidades técnicas na obtenção de bens em tempos cada vez mais curtos. Ao acelerarmos o processo natural perdemos o correr das estações e o sentido de relação entre as coisas. Porque é que durante gerações tivemos por incumbência subir a encosta com pedras às costas e fazer muretes para segurar aquele solo? O trabalho do homem tem determinados objetivos. Um deles é a continuidade. A questão dos eucaliptos é interessante. Houve uma febre nacional de eucaliptização, agora os técnicos estão a coçar a cabeça. Aquilo só dá nove cortes, depois ficará desértico. Milhares de hectares não servirão para nada. A vida resulta de matéria orgânica. Vamos demorar 200 anos a recuperar. Quanto mais complexa é a vida de um território maior são as possibilidades de o usar.

A sua vida foi também política. De onde lhe vem o lado cívico?
Está ligado à Juventude Agrária Católica e à relação direta com os agricultores do Oeste. Na zona de Mafra e das Caldas da Rainha tinham nas mãos uma paisagem fundamental. Para terem agricultura, com o mar ali ao lado e os ventos salgados, faziam a agricultura dos canaviais com canas secas entrelaçadas. Vi naquele miolo extraordinário a obra do homem pela defesa da terra. Estes pescadores, quando saíam do mar, eram hortelões nas areias. Com eles aprendi o que está por baixo de tudo. O meu caminho da militância cívica e da política começou aí.

Ainda dá aulas?
Vou à universidade quando me pedem para discutir um tema. Interessa-me o diálogo.

Como é a sua vida agora?
É juntar papéis velhos.

Anda a tratar do legado?
Ando a juntar papéis e a dar-lhes sentido. Coisas que quero publicar porque andam desarticuladas das preocupações políticas atuais. Falta escrever sobre demografia e regionalização.

O que não serve deita fora?
Junto em resmas. Alguém que as deite fora.

O que ensinou aos seus filhos?
Só dei o exemplo. Não intervim para lá do essencial. Sempre houve grandes discussões sobre tudo e sobre todos e um debate aceso. É preciso é não deixar cair o debate em maledicência.

Em maio faz 91 anos. Quantos anos tinha quando se casou?
Deveria andar pelos 29. Ela também já se aproxima. Já não é uma rapariga nova.

Uma vida de casal nessa idade como é?
Um casal vai envelhecendo. Tenho a liberdade política de fazer o que quiser, contando que tenha um sentido. Principalmente que seja referência para os filhos. A minha mulher já sabe como sou, não precisa de referência nenhuma. Tenho seguido bem isso e tem dado bom resultado. É preciso não criar implicações rígidas, ter filhos é importante. As preocupações, ou as satisfações com os filhos, completam muito. Tive uma filha que morreu nova. Tinha pouco mais de 30 anos. Tudo isso ajuda a perceber onde estamos e as fragilidades que temos. Todos temos os mesmos problemas e as mesmas dificuldades. Talvez não as resolvam de igual maneira. Se podemos ser um exemplo, sem andar a chatear ninguém, ótimo.

E a eternidade? Acredita na vida eterna?
Faço por acreditar. Se estivéssemos sempre à espera que esta vida desse o bafo era uma chatice.

Que árvore escolheria para o representar?
Um sobreiro. É uma árvore que conheço desde pequenino. Quando me perguntam para onde vou fugir respondo sempre: para o montado. Tenho esta ideia de existência, não sei porquê. Talvez porque haja ali uma vida de grande bicheza, que julgo ser moldada à situação, e uma presença humana permanente. E depois tem estas árvores espantosas, os sobreiros. Sabe o que é o mistério do montado? É a gente entrar, não conhecer os caminhos e só ver troncos à frente. Tudo pode surgir e tudo acontece sem parar. No montado temos sempre pela frente o mistério. Também assim é a eternidade.