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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Sobre este Inverno chuvoso - não aprendemos nada com as ideias de Gonçalo Ribeiro Telles


Este comboio de tempestades não é único. Muitas destas tempestades em sucessão são alimentadas por rios atmosféricos. São faixas estreitas de humidade tropical concentrada que atravessam o Atlântico. Quando o "corredor" se abre em direção à Península Ibérica, as tempestades seguem esse rasto como se estivessem em carris. Tudo depende de um "braço de ferro" de pressão entre os Açores e a Islândia. Quando esta oscilação está numa determinada fase, o jet stream (uma corrente de ar a grande altitude) empurra todas as tempestades diretamente para nós, em vez de as desviar para o Reino Unido ou Escandinávia. Antigamente não dávamos nomes às tempestades (como Joseph, Leonardo e Kristin), o que dava a ideia de que era apenas "um inverno chuvoso". Hoje, ao darmos nomes individuais a cada depressão, temos muito mais consciência de quantas estão a passar por nós seguidas. A perceção de excecionalidade resulta, em grande parte, da forma como os fenómenos recentes são lembrados. A nossa memória meteorológica é curta e estamos mais marcados pelos episódios de secas severas que têm sido a marca dos últimos ano. 𝐃𝐞𝐯𝐢́𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐬𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐯𝐞𝐧𝐭𝐢𝐯𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐨 𝐡𝐢𝐬𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐜𝐨 𝐝𝐞 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬. Aprender a não voltar a repetir a tragédia de 1967 (25 para 26 de novembro) em que choveu num só dia o equivalente a um quinto de todo o ano. A região da Grande Lisboa e do Vale do Tejo foi devastada. O regime de Salazar tentou "abafar" a dimensão da tragédia. Oficialmente falou-se em cerca de 460 mortos, mas estimativas reais apontam para mais de 700 vítimas.
𝐆𝐨𝐧𝐜̧𝐚𝐥𝐨 𝐑𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐓𝐞𝐥𝐥𝐞𝐬 𝐚𝐥𝐞𝐫𝐭𝐨𝐮-𝐧𝐨𝐬 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐞𝐯𝐢𝐭𝐚𝐫 𝐝𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐦𝐚𝐭𝐞𝐫𝐢𝐚𝐢𝐬 𝐞 𝐡𝐮𝐦𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐮𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐞𝐬 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐧𝐭𝐚𝐯𝐚 𝐬𝐨𝐥𝐮𝐜̧𝐨̃𝐞𝐬. 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚𝐬 𝐨𝐮𝐯𝐢𝐦𝐨𝐬. 𝐈𝐧𝐬𝐢𝐬𝐭𝐢𝐦𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐭𝐫𝐮𝐢𝐫 𝐞𝐦 𝐥𝐞𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐜𝐡𝐞𝐢𝐚, 𝐞𝐧𝐭𝐮𝐛𝐚𝐫 𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐞 𝐫𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐞 𝐚 𝐩𝐚𝐯𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐚𝐬𝐟𝐚𝐥𝐭𝐨 𝐞 𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨.
𝐎 𝐂𝐨𝐫𝐫𝐞𝐝𝐨𝐫 𝐕𝐞𝐫𝐝𝐞 𝐝𝐞 𝐌𝐨𝐧𝐬𝐚𝐧𝐭𝐨, 𝐞𝐦 𝐋𝐢𝐬𝐛𝐨𝐚 𝐞́ 𝐮𝐦 𝐞𝐱𝐞𝐦𝐩𝐥𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚𝐝𝐢𝐠𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐨: 𝐝𝐞𝐦𝐨𝐫𝐨𝐮 𝐪𝐮𝐚𝐬𝐞 𝟑𝟎 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐚 𝐬𝐞𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐥𝐮𝐢́𝐝𝐨 𝐞𝐱𝐚𝐭𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐥𝐞 𝐭𝐞𝐯𝐞 𝐝𝐞 𝐥𝐮𝐭𝐚𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐞𝐬𝐬𝐞𝐬 𝐢𝐦𝐨𝐛𝐢𝐥𝐢𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐦𝐚𝐧𝐭𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐞𝐥𝐞 "𝐞𝐬𝐜𝐨𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨" 𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐜𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Gonçalo Ribeiro Telles: “A limpeza das florestas é um mito”

O País está de novo a arder, como acontece todos os verões. O acontecimento é previsível mas não prevenido e os temas são sempre os mesmos: a floresta de eucaliptos e pinheiros, as falhas da proteção civil, a falta de condições de trabalho dos nossos bombeiros. Acrescentamos agora as alterações climáticas, que não merecem alguma atenção pot parte dos poderes políticos. Passaram 22 anos desde que fizemos esta entrevista a Gonçalo Ribeiro Telles, arquiteto paisagista e “pai” do ecologismo português. Não perdeu um pingo de atualidade. Vale a pena voltar a ler as suas palavras e perceber como nada aprendemos com a História, nenhuma lição retiramos dos nossos erros, continuando ano após ano na permissividade da celebração do eucaliptal.

Quais são as causas desta calamidade?

A grande causa é um mau ordenamento do território, ou seja, a florestação extensiva com pinheiros e eucaliptos, de madeira para as celuloses e para a construção civil. O problema foi uma má ideia para o País, a de que Portugal é um país florestal. Lançou-se a ideia de que, tirando 12% de solos férteis, tudo o resto só tem possibilidades económicas em termos de povoamentos florestais industriais.

De onde vem essa ideia?

É uma ideia antiga que começou nos anos 30 com a destruição, também por uma floresta extensiva, das comunidades de montanha do Norte de Portugal, que tinham a sua economia baseada na pecuária. As dificuldades por que passava a agricultura deram origem a que se quisesse transformar grandes áreas do País já são 36% em florestas industriais. Esta campanha transformou a silvicultura, que era a profissão básica, numa profissão de florestal, para dar resposta aos grandes interesses económicos. Houve ainda outra campanha, a do trigo, em que se organizou o País em função desta cultura, que tinha por base o mito da independência de Portugal em pão. Além das terras para o trigo, tudo o resto, num sistema de agricultura economicista, tem que ser floresta, produção de madeira. O resultado está à vista.

Passámos então a ser um País florestal.

Os romanos dividiam o território em três áreas, além da urbe: o ager, que era o campo cultivado intensamente; o saltus, a pastagem, a agricultura menos intensiva; e a silva, a mata de produção de madeira e de protecção. Todo esse ordenamento foi transformado, acabou-se com a silvicultura e começou o culto da floresta, que não temos. Se formos ao campo perguntar onde fica a floresta, eles só conhecem a do Capuchinho Vermelho, porque o que têm na sua terra são matas, matos, etc. No século XIX, o pinheiro bravo veio para responder às necessidades do caminho-de-ferro que estava em lançamento. Mais tarde é que vem a resina, a indústria da madeira e a celulose. O pior é que se transformou o País num território despovoado e que, dadas as características mediterrânicas, arde com as trovoadas secas.

Como deve ser reordenado o território?

O País está completamente desordenado. Por um lado, uma política agrícola que não considera o mosaico mediterrânico, com agricultura, pecuária, regadio e horticultura, os matos, as matas, todo um mosaico interligado e ordenado. Em Mação, por exemplo, aquela população vivia tradicionalmente da agricultura que fazia nos vales e nas naves.

E na serra existiam os matos pastados pelas cabras, pelos bovinos. Dos matos retirava-se o mel, a aguardente de medronho, a caça e as aromáticas. A França, nas zonas de mato, tem uma política de aromáticas de abastecimento da indústria de perfumes. A questão, hoje, é criar uma mata que produza madeira, mas que se integre nos agro-sistemas, uma paisagem sustentada, polivalente e nunca repetir, como já querem, a plantação de eucaliptos e de pinhal. As populações estão fartas disso e devem ser chamadas a depor. E tem que haver duas intenções ecológicas fundamentais: a circulação da água e a circulação de matéria orgânica, aproveitando-a para melhorar as capacidades de retenção da água do solo.

A excessiva divisão do território (em meio milhão de proprietários) dificulta as limpezas florestais?

A limpeza da floresta é um mito. O que se limpa na floresta, a matéria orgânica? E o que se faz à matéria orgânica, deita-se fora, queima-se? Dantes era com essa matéria que se ia mantendo a agricultura em boas condições e melhorando a qualidade dos solos. E, ao mesmo tempo, era mantida a quantidade suficiente na mata para que houvesse uma maior capacidade de retenção da água.

Com a limpeza exaustiva transformámos a mata num espelho e a água corre mais velozmente e menos se retém na mata, portanto mais seco fica o ambiente.

Se as matas estivessem bem limpas ardiam na mesma?

Ardiam na mesma e a capacidade de retenção da água não se dava, passava a haver um sistema torrencial. A limpeza tem que ser entendida como uma operação agrícola. Mas esta floresta monocultural de resinosas e eucaliptos, limpa ou não limpa, não serve para mais nada senão para arder. Aquela floresta vive para não ter gente. Se houvesse lá mais gente aquilo não ardia assim.

Defende uma mata com que tipo de madeiras?

Madeiras para celulose é difícil porque temos agora uma forte concorrência no resto do mundo. Os eucaliptais, para serem mais rentáveis, só poderiam sê-lo no Minho que é onde chove mais de 800 ml ao ano. O eucalipto precisa de muita água e Portugal não pode concorrer com o Brasil e a África em termos de custo. Só se transformarmos o Minho num eucaliptal. Pode-se optar pelas madeiras de qualidade da cultura mediterrânica como todos os carvalhos, o sobreiro, a azinheira e pinhais criteriosamente distribuídos.

Não são tão rentáveis…

O carvalho, por exemplo, acompanha toda uma panóplia de rendimento como a cortiça, a pecuária, a produção do mel, das aromáticas, a caça.

Há uma visão limitada do que pode ser rentável na floresta?

É muito bom para as celuloses e muito mau para as populações e para o País, que está devastado. O mundo rural foi considerado obsoleto, como qualquer coisa que vai desaparecer. Veja-se o disparate que foi a política de diminuição dos ativos na agricultura. Contribuiu para o aumento dos subúrbios, dos bairros de lata, da emigração. Trouxe alguma coisa melhor para a província? Não. Apenas um grande negócio para as celuloses e para os madeireiros.

As populações estão alertadas para essa multiplicidade de culturas?

Completamente alertadas; quem parece que não está são os políticos e os técnicos. Porque se perderam numa floresta de «números». Quem conhece as estatísticas diz que somos o terceiro país da Europa em número absoluto de tratores, só ultrapassados pela Alemanha e pela França. Somos um país de tracto res porque os subsídios dão para isso, porque interessa à importação dessa maquinaria toda. As pessoas foram levadas a investimentos, em nome do progresso, que não tinham qualquer racionalidade.

No caso de se aumentarem as áreas agrícolas, temos agricultores para tratar delas?

Temos. Estão desviados, foram convencidos de que eram uns labregos. Houve toda uma política de desprestígio do mundo rural tendo por base a ideia de que era inferior ao mundo urbano. Despovoámos os campos e essa gente toda veio para a cidade. Hoje, enfrenta o desemprego. Esqueceram-se que o homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas, da urbana e da rural. Hoje, 30% das pessoas que praticam a agricultura económica na Europa não são agricultores. É gente que vive na cidade, tem lá o seu escritório e tem uma herdade no campo onde vai aos fins-de-semana. A expansão urbana aumenta e não podemos viver sem a agricultura senão morremos à fome.

Que pode fazer o Estado, uma vez que 84% da nossa floresta está nas mãos dos proprietários?

Pode fazer planos integrados de ordenamento da paisagem. O Estado não domina totalmente a expansão urbana quando quer, não faz planos gerais de urbanização? Não se devia poder plantar o que se quer porque também não se pode construir o que se quer. Constrói-se mal porque, às vezes, o Estado adormece. Faltam planos gerais de ordenamento de paisagem, que a actual legislação não contempla, apesar de já ter instituído a Estrutura Ecológica Municipal através do Decreto-Lei 380/99. A Lei de Bases do Ambiente tem os conceitos e os princípios para um plano de ordenamento de paisagem, está lá tudo escrito, mas nunca foram regulamentados.

A actual legislação favorece as monoculturas?

Favorece porque a chamada «modernização» da agricultura é um escândalo de incompetência. As universidades de Agronomia em Portugal tiveram um período de grande pujança intelectual no fim do século XIX e no princípio do século XX. Agora, parece terem-se rendido ao economicismo.

Deve o Estado apoiar com subsídios e benefícios fiscais?

Com certeza. O proprietário está com a corda na garganta, faz aquilo que lhe der dinheiro já para o ano. Por isso, têm que se estabelecer limites e normas a sistemas, não a culturas, mas sem tirar às pessoas a liberdade de correr riscos.

E promover o associativismo florestal, como em Espanha, por exemplo?

Abrimos um bom caminho com as «comunidades urbanas» que estão na forja, pequenas áreas metropolitanas de freguesias e aldeias, acho muito bem. Estamos numa cultura mediterrânica e não se pode traduzir o desenvolvimento em unidades economicistas de produção em grande volume de dois ou três produtos. É da polivalência, da multiplicidade de produtos e da harmonia da paisagem que resulta a possibilidade de ter uma população instalada em condições de dignidade.

Essas comunidades é que deverão fazer a síntese de todos os interesses. Porque quando começamos a destacar os interesses por sector, a visão sistémica desaparece e os interesses da comunidade passam para empresas que ultrapassam as suas fronteiras comprometendo a sustentabilidade da região.

Não defendo que haja um sector agrícola e um sector florestal, para mim é exactamente o mesmo: a agricultura completa a floresta e a floresta completa a agricultura.

O Partido Socialista voltou a falar da regionalização como forma mais eficaz de ordenar o território. Concorda?

Defendi uma regionalização há muito tempo, que deu origem a um documento de que os grandes partidos fizeram muita troça. Dividia o País em cerca de 30 regiões naturais, áreas de paisagem ordenada, que estavam já organizadas histórica e geograficamente.
São as terras de Basto, as terras de Santa Maria, as terras de Sousa, a Bord’água do Tejo, etc. O País é isso e não é outra coisa. Esta regionalização podia contribuir para a efectivação dos planos de ordenação da paisagem, com uma participação democrática das respectivas populações.

O Governo acordou tarde para a calamidade dos incêndios?

Que podia o Governo fazer? O mal vem de longe. Mas não estou seguro de que se vá enveredar agora pelo caminho certo. Já estão a dizer que querem reflorestar tudo como estava. Fico horrorizado quando ouço isso. Significa que querem voltar aos pinheiros e aos eucaliptos. Perguntem às vítimas dos incêndios que ficaram sem as casas se querem outra vez pinheiros à porta. Destruíram as hortas… Porque ardem as casas? Porque o pinheiro está no quintal.

Olhando para o futuro, os incêndios podem constituir uma oportunidade para se reorganizar o território?

Também o terramoto permitiu que o Manuel da Maia, a mando do Marquês de Pombal, fizesse a Baixa lisboeta. Não desejo um terramoto, mas não percam esta oportunidade. O futuro do País e da sua identidade cultural e independência está em causa.

(Entrevista publicada na VISÃO 545, de 14 de Agosto de 2003)

domingo, 16 de março de 2025

Cidadania


"Liberdade, igualdade, fraternidade, mutualismo, solidariedade: tudo isso é uma coisa linda. Mas quando nos impingem a cidadania, a coisa complica-se… O que é o cidadão? Para mim, não é só ter direitos e deveres: é ter que servir".
Gonçalo Ribeiro Telles

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

A arquitectura paisagística está há 80 anos a pensar o futuro, mas ninguém a ouve

Francisco Caldeira Cabral foi o propulsor da arquitetura paisagista em Portugal

E se as cheias ou os incêndios não fossem uma tragédia anual? O cenário parece de sonho, mas é uma realidade possível aos olhos dos arquitetos paisagistas. Têm na sua génese muito mais do que a estética. Aprendem sobre anatomia, plantas, sociedade, cultura e tanto mais. A disciplina tem cerca de 80 anos de história e 50 de reconhecimento, apresentando soluções para a gestão equilibrada entre o ser humano e a natureza. O que falta para ser escutada?

Não fosse estar em causa o bem-estar (e até a vida) do ser humano e poderíamos considerar a história da arquitetura paisagista um autêntico filme. Um daqueles em que o “bom da fita” nunca é ouvido. Até ser tarde de mais. E, à imagem de muitos filmes, não falta neste um cliché: o do “eu avisei”. A expressão parece ser utilizada pelos arquitetos paisagistas para demonstrar que há algo com que todos se preocupam agora que, para estes profissionais, já é uma “cantiga antiga”. Mas do que se trata? Das alterações climáticas. Ou melhor, de como a atividade do ser humano exacerbou e acelerou alterações climáticas ao ponto de sofrermos atualmente com fenómenos climáticos extremos, diários, em torno de todo o Globo. Mas tudo poderia ser diferente. Como? Já lá vamos.

Primeiro, reforcemos o “eu avisei”. “O fenómeno parece novo. Fala-se em todo o lado. Faz capas de jornais quase todos os dias. Mas, para nós, arquitetos paisagistas, não é novidade nenhuma. Estavam à espera que acontecesse o quê?” Quem o questiona é Aurora Carapinha, arquiteta paisagista, investigadora, docente e apaixonada por jardins, que realça que não foi apenas um alerta que a profissão deixou à sociedade, tendo também apontado soluções. “Todos os nossos projetos da altura, por volta dos anos 1980, procuravam dar respostas para que situações extremas com que nos deparamos anualmente hoje não ocorressem.”

Fala-se de cheias, incêndios, perda de biodiversidade, recuo da linha de costa, entre tantos outros assuntos que, hoje, são tema recorrente e catalogados como “nova crise”. Aurora Carapinha lamenta que muitos desses projetos inovadores e solucionadores “tenham sido metidos na gaveta”. Problemas que todos os anos são recorrentes poderiam ser mitigados se tivesse havido um trabalho real com a arquitetura paisagista nos últimos anos? “Sem dúvida alguma. E não o digo por arrogância”, remata.

Arquitetura sem teto
E como é que a arquitetura paisagista tem um poder tão grande perante as alterações climáticas e os fenómenos extremos? Porque tem capacidade de prever e gerir mudanças a longo prazo, indica Carapinha. “O Professor Nuno Portas chamava-nos, com muita graça, os arquitetos sem teto. E trabalhar sem teto é o maior desafio que existe, porque é uma arquitetura que está exposta à intempérie, à mudança das estações, à mudança da luminosidade, às diferentes temperaturas. Enquanto na ‘arquitetura com teto’ posso controlar essas variáveis, aqui não.”

E, por isso, o arquiteto paisagista tem de aprender, por exemplo, onde chove, quanto chove, de que forma se comporta e acumula a chuva. Entre outros dados. E, acima de tudo, completa a docente da Universidade de Évora, “o arquiteto paisagista tem de saber como aproveitar essa chuva”. Em suma, além de prever acontecimentos, a disciplina trabalha para que esses acontecimentos sejam aproveitados em benefício do bem-estar humano e do “bem-estar” da natureza. “Eu não trabalho contra a natureza. Trabalho com as dinâmicas dos sistemas naturais. E tenho de ter duas coisas: a ciência para os saber e a arte para os reinventar, criando novos lugares e oportunidades de vida.”

É no balanço entre ciência e arte que se baseia a definição da arquitetura paisagista, que, nas palavras de Caldeira Cabral, figura histórica da profissão, “é a ciência e a arte de ordenar o espaço exterior em relação ao homem”. E os equilíbrios parecem ser o ex-líbris. “Equilíbrios que vão além do estético, mas que alcançam dimensões como o equilíbrio económico, ecológico ou social”, afirma Carapinha.

A primazia do económico
Nestes vários equilíbrios, João Ceregeiro, arquiteto paisagista e presidente da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP), acredita que se encontra a fórmula (ou fórmulas) que poderia solucionar diversos problemas da sociedade. Fórmulas essas que, tal como já frisado por Aurora Carapinha, não são novas para a profissão. “O que hoje se fala de conforto climático, de sequestro de carbono, da economia circular, da economia verde… tudo isso são temas que para os arquitetos paisagistas não são novos, porque estão implícitos na sua própria prática há muitas décadas”, esclarece o dirigente. E, agora, a pergunta de “milhões”.

Porque é que essas tais soluções não foram aplicadas e esses tais alertas escutados? “Porque a prática da arquitetura paisagista não se compagina com aquilo que é a agenda dos decisores políticos e económicos, ela está sistematicamente a ser protelada em função de outras prioridades”, em especial, prioridades economicistas, que não têm uma visão complexa e de longo prazo como a profissão assim exige, denuncia Ceregeiro. Porque construir uma praça viável ou ordenar uma mata ou uma floresta poderá ter um custo no momento presente que só será “devolvido” dali a décadas, e nem sempre se trata de um retorno financeiro – o que parece ser difícil de aceitar para uma sociedade que vive em torno do lucro.

A visão exclusivamente economicista e de prazo limitado é também criticada por Aurora Carapinha. Passemos a um exemplo. E logo dos mais complexos. “O problema dos incêndios é muito mais do que dizermos que há árvores demasiado perto das casas. É uma consequência de anos de desertificação do interior. E se quem vive lá é constantemente colocado à margem da sociedade e vive na pobreza, tem de procurar forma de subsistência, para a qual a solução foi, muitas vezes, a exploração do pinhal. É um rendimento fixo e a curto prazo que, de três em três anos, serve para subsistir a família e para pagar as contas extra. Não podemos simplesmente chegar a um local e arrancar de lá as pessoas ou tirar-lhes a forma de sobrevivência.” Por muito prejudicial que essa forma seja para o ambiente.
Aurora Carapinha considera que o arquiteto paisagista pensa “na complexidade social, económica, cultural, simbólica e ecológica da paisagem”, sendo muito mais do que plantar “a árvore certa”.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Cheias 2022 - Oeiras

Isaltino Morais, tem a maior responsabilidade no que se passa em Algés. Como mostra o Google Earth, Algés é um vale de drenagem densamente povoado. Como piorar? Prédios de 10+ andares e garagens a nascer nos poucos espaços permeáveis (1, 2); hotel/centro cultural no gargalo da Av. dos Bombeiros (3); garagem planeada para a Baixa (4); "Ocean Campus" previsto para a beira-rio. (5)


Oeiras não é um concelho qualquer. Tem uma massa crítica cívica acima da média. Isaltino foi antigo ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente da República Portuguesa ente 2002 e 2003

Era presidente da Comissão Política da secção de Algés do PSD, cargo que exerceu entre 1984 e 1986, quando foi escolhido, pela primeira vez, para encabeçar a lista do partido à Câmara Municipal de Oeiras, nas eleições autárquicas de 1985. Foi eleito presidente dessa autarquia com 44,4% dos votos em 1985, conquistando a primeira vitória do PSD num concelho governado pelo PS desde as primeiras eleições autárquicas realizadas após o 25 de abril de 1974. Renovou o mandato por quatro vezes consecutivas, em listas do PSD. Alcançou a vitória nas autárquicas de 1989, com 43,6% dos votos; em 1993, com 31,1% dos votos; em 1997, com 48,27% dos votos; em 2001, com 55% dos votos.

Isaltino foi presidente da Taguspark e da SIMAS entre 2006 e 2013, pode-se e deve-se fazer muitas alterações. Não quis. Entre 2019 e 2022, exerceu novamente as mesmas funções. 7+ 3 anos dá para mudar e muito. Só vê betão à frente dele e é um céptico climático. 

Relacionados:
  • Bessone Basto: «O Algés e Dafundo está debaixo de água e as lágrimas caem-me pela cara» [Record, hoje]
  • Câmara de Oeiras vai gastar €500 mil para corrigir aterro ilegal que o executivo de Isaltino Morais aprovou [Expresso, 15.11.2022]
  • Cheias de 1967 - entrevista com o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles [aqui]

domingo, 11 de dezembro de 2022

Centenário do nascimento de Gonçalo Ribeiro Telles - livro e balanço

Entrevistas, apontamentos de trabalho, pareceres e comunicações a congressos e artigos de opinião, são alguns dos textos muito diversos, que estão reunidos neste livro, escritos por Gonçalo Ribeiro Telles ao longo de décadas de atividade profissional e de luta empenhada por causas.

Hoje documentos de referência, estes Textos Escolhidos conduzem-nos pelas ideias e pensamento que Ribeiro Telles desenvolveu na sua intervenção cultural, cívica e profissional, nos vários domínios em que se destacou: a defesa do ambiente, o ordenamento do território, a humanização do habitat, a conservação da natureza e a preservação da paisagem, entre outros.

30 textos que se constituem como doutrina, que são instrumentos de consagração de conceitos e que representam um incontornável legado de experiência e sabedoria.

Textos que se evidenciam tanto como questões de princípio, como atitude didática, pedagógica e ação esclarecida e esclarecedora.

Nesta segunda edição há também novidades, como a entrevista que Gonçalo Ribeiro Telles deu à Liberne, publicação da Liga para a Proteção da Natureza, que, segundo Fernando Pessoa, «parece que foi feita hoje, tendo em conta os incêndios florestais, as cheias, e tudo o que tem sido desperdiçado e não se tem aplicado como deve ser».

Nesta entrevista à RTP, a 05.06.1974 posso concluir que, à excepção de progressos no saneamento básico, recuperação das aldeias históricas, habitações com melhorias a nível de eficiência energética (mas é mais a nível de vidros/caixilharia dupla) e melhorias na digitalização, no entanto, passados 48 anos, Portugal não escutou o visionário Gonçalo Ribeiro Telles. Insistimos na agricultura com pesticidas, continuamos com uma iliteracia grave em relação aos avisos do IPMA/PROCIV, o Banco Nacional de Terras não funcionou (mais eucaliptos, mais campos de golfe, mais hotéis e menos floresta biodiversa e autóctone), entubamos os rios e ribeiros das cidades. Temos um território com uma enorme fragmentação dos habitats, que eram nichos de biodiversidade. 30 anos de atraso na ferrovia. Uma má novidade que é o crescimento e o aparecimento das centrais de biomassa. Um aeroporto internacional dentro da cidade - caso raríssimo dentro da Europa. Um SIRESP que custou rios de dinheiro e não funciona nos piroverões. Temos uma falta de cultura de aplicação das coimas ambientais. Surgiu a crise global das alterações climáticas. Para fechar e em conclusão: sucessivos governos sem ecologia política (a pasta do Ambiente é sempre o parente pobre).

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Conferência de Estocolmo: os problemas que resistem

Corço no rio Almanguês, Coimbra @  Manuel Malva

Suportada pela Lei de Bases do Ambiente (1987) durante décadas, a política de Ambiente permitiu ao país escapar a um pior desordenamento e a uma maior destruição dos equilíbrios dinâmicos, ecológicos e paisagísticos, até que surgiram uns sobredotados que resolveram inventar a pólvora e criaram o caos.

A grande compreensão mundial sobre a necessidade de defender o Ambiente terá começado com James Lovelock quando lançou a sua ideia da Gaia, o sistema vivo que só é mantido se nós o soubermos manter; depois em 1972 a Conferência de Estocolmo como que obrigou todos os países a preocuparem-se com o assunto. Nessa célebre conferência ouvimos declarar que “ o homem tem direito fundamental à liberdade ( logo a liberdade à frente de tudo!!), à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequadas a um ambiente de qualidade” e também : “o homem tem a responsabilidade especial de preservar e administrar judiciosamente o património natural e os seus habitats”

Portugal, em pleno “marcelismo”, criou então em 1971 a Comissão Nacional do Ambiente, entregue a um dos poucos políticos portugueses da altura que conhecia a situação – o engenheiro Correia da Cunha, pessoa muito competente e de amplo diálogo, sempre com fortes bases de conhecimento, que muito ajudaram a ampliar a compreensão pública das questões ambientais. E criou-se também em 1971 o Parque do Gerês, classificado como nacional.

Olhemos então para Portugal:

1- o interior despovoado

2- o sector agro-florestal desmantelado

3- a política de Ambiente desarticulada

4- a passividade cívica de grande parte da população, assoberbada com problemas do dia-a-dia e indiferente às questões ambientais.

Abordemos, pois, estas questões.

1- Desde que um Governo na década de 90 do século passado decidiu dar subsídios aos pequenos e médios agricultores para deixarem de produzir, milhares de hectares de solos agricultáveis foram abandonados e a falta de actividades no mundo rural atirou milhares de pessoas jovens para as cidades. Muitos dos solos acabaram plantados com eucaliptos sem que tivesse havido um ordenamento florestal que permitisse localizar esses povoamentos estremes apenas e só onde eles tivessem lugar sem interferir com as outras culturas. E outros milhares de hectares de solos ficaram simplesmente abandonados. Mas ainda agora continua a sair legislação para ampliar a área de eucaliptais como tem sido denunciado por ONGs.

2- O sector agro-florestal foi sendo desarticulado e chegou ao extremo actual de agricultura e “floresta” estarem em Ministérios diferentes, dizendo que este é o caminho actual para o futuro.

Começou com a extinção dos Serviços Florestais, que existiam desde o século XIX, instituição fundamental para a defesa do Ambiente.

Durante décadas a quadrícula de pessoal florestal distribuído pelo território garantiu o controlo dos fogos rurais, porque os focos de incêndio eram detectados geralmente logo no início e possibilitavam uma intervenção atempada. Pessoal florestal e bombeiros eram então suficientes para controlar os fogos. Agora todos os anos se gastam milhões e milhões com os incêndios só porque seguimos este “caminho de futuro”.

A política agrícola tem privilegiado e subsidiado os pomares de regadio intensivo, sem cuidar do recurso água, esquecendo as culturas alimentares e forrageiras de que o País tem carência, nas pequenas e médias explorações.

Oras, as preocupações com o Ambiente e com os processos ecológicos não são pertença de qualquer profissão específica, podem citar-se muitos exemplos de grandes personalidades envolvidas nestas matérias provindo das mais diversas formações científicas. Mas é forçoso reconhecer que em Portugal, onde as especializações por vezes estreitaram a visão global do Meio, coube aos arquitectos paisagistas, pela sua formação generalista e de síntese das Ciências da Terra e da Arte, a oportunidade de se destacarem na reflexão e definição da política de Conservação indispensável ao Ambiente tal como ao Ordenamento do Território, que entre nós se entendeu sempre como ordenamento paisagístico.

Sem esquecer outros participantes que se revelaram fundamentais para a definição e execução da política de ambiente - e não deixarei de citar pelo menos os Professor Delgado Domingos e Manuel Gomes Guerreiro e o engenheiro Carlos Pimenta – recaiu pois sobre os arquitectos paisagistas o grande papel fundacional dessa política, quer com Francisco Caldeira Cabral e logo com Gonçalo Ribeiro Telles que soube apoiar-se, entre muitos outros colegas, em António Viana Barreto e Ilídio Alves de Araújo, dois pilares inesquecíveis da política ambiental.

As Áreas Protegidas – Parques Naturais e Reservas Naturais - deixaram de ter a sua direcção e perderam a sua ligação com as populações locais; os planos de ordenamento não são cumpridos e a tragédia recente da Serra da Estrela é o último exemplo; já arderam áreas significativas pelo menos nos Parques Naturais do Alvão e da Serra d’Aire e Candeeiros; a Serra de Montemuro (1999), nunca viu o seu plano de ordenamento ser aprovado - agora é um vasto eucaliptal. Hoje Conservação e Ordenamento, os dois pilares do Ambiente, estão em tutelas diferentes - porquê? Porque dá jeito a alguém.

Suportada pela Lei de Bases do Ambiente (1987) durante décadas, a política de Ambiente permitiu ao país escapar a um pior desordenamento e a uma maior destruição dos equilíbrios dinâmicos, ecológicos e paisagísticos, até que surgiram uns sobredotados que resolveram inventar a pólvora e criaram o caos a que, se quisermos ser sérios, todos os cidadãos assistem impávidos e onde, quem aponta o dedo, é acusado de estar ultrapassado pela modernidade.

Cinquenta anos depois da Conferencia de Estocolmo que cada um faça o seu juízo!

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Personalidades lançam manifesto para honrar vida e obra de Gonçalo Ribeiro Telles


O documento, subscrito por personalidades como Elísio Summavielle, Viriato Soromenho Marques, Luísa Schmidt, Helena Roseta, Isabel do Carmo, Fernando Nunes da Silva, José Sá Fernandes e Francisco Ferreira, entre outros, lançado por ocasião do centenário do nascimento de Ribeiro Telles, pretende honrar "a resistência à destruição dos espaços naturais e da sua cultura e a aposta na identidade humana com a Terra".

Explicando a motivação que deu origem a esta iniciativa, a comissão ad-hoc, que conta, entre outros, com nomes como António Eloy, coordenador do Observatório Ibérico de Energia, Aurora Carapinha e Margarida Cancela de Abreu, arquitetas paisagistas, e José Carlos Costa Marques, distinguido em 2009 com o Prémio Nacional de Ambiente Fernando Pereira, defende que se "continuar a pôr em prática" o espírito de Ribeiro Telles.

"Numa altura em que as políticas públicas se alinham em contradição com o que ele sempre defendeu, arrastando a desorganização do território, a destruição da biodiversidade, a destruição da paisagem enquanto valor cultural e identitário, e as lógicas de um desenvolvimento contra o ambiente e a sustentabilidade, apesar de embrulhadas num discurso «verde»", escrevem.

"Honramos, em Gonçalo Ribeiro Telles, no centenário do seu nascimento, o Professor, o Arquiteto Paisagista, o homem político, o defensor do mundo rural, e da cidade entendida como o enlace da sociedade e da natureza, e não como puro artifício", acrescentam.

No documento, defendem que honrar Gonçalo Ribeiro Telles "é defender o municipalismo como forma de organização cívica e de respeito pela história, em vez da artificialização e centralização administrativa constantes".

"É pugnar pela centralidade do solo, da sua proteção, conservação e regeneração. É agir sempre com base no respeito consequente pelas áreas protegidas, valores naturais, ecossistemas e biodiversidade", sublinham.

Os subscritores defendem ainda que honrar Ribeiro Telles "é defender o ar, a água e o solo como fontes primaciais da vida. É defender políticas agro-pastoris-florestais coerentes".

"É entender e atuar na paisagem enquanto sistema vivo, resultante da união íntima entre ecologia e cultura, respeitando a memória biofísica e antropológica que a configura", defendem, acrescentando: "É acreditar que a paisagem é uma realidade fundadora da qualidade de vida das comunidades".

sábado, 21 de maio de 2022

Petição: Criação do Dia Nacional dos Jardins

Para: Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República


PETIÇÃO

CRIAÇÃO DO DIA NACIONAL DOS JARDINS / 25 de maio

(dia de nascimento do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles)

Esta petição tem como objetivo atingir o número de subscritores indispensável para ser discutida formalmente na Assembleia da República.

O objetivo final é a institucionalização do Dia Nacional dos Jardins para o dia 25 de maio.

Escolhemos esta data por ser na primavera, mas, principalmente, por ser o dia de nascimento do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, recentemente falecido.

Encaramos esta petição e a criação do Dia Nacional dos Jardins como uma justa e merecida homenagem a uma pessoa a quem o País muito deve em termos de ideias inovadoras, obras ambientais de referência e boas práticas inspiradoras.

Gonçalo Ribeiro Telles foi um arquiteto paisagista de eleição, premiado nacional e internacionalmente, um pensador visionário, um político generoso e empenhado e um cidadão exemplar.

Devemos-lhe, entre outras coisas, o ter-nos mostrado que as cidades e as vilas são tanto mais humanas quanto mais verdes e sustentáveis forem.

Devemos-lhe, ainda, o ter-nos ensinado que as cidades e as vilas não devem excluir-se da Natureza que as circunda, mas, pelo contrário, incluir a Natureza dentro delas de forma contínua e harmoniosa.

Finalmente, devemos-lhe a ideia generosa de uma Natureza com pessoas dentro e de cidades e vilas com a Natureza dentro do seu coração e das suas artérias verdes.

Pensamos que o jardim é uma metáfora feliz de tudo o que o arquiteto nos ensinou.

Os jardins são uma síntese com a marca da contemporaneidade.

Uma síntese da cidade e do campo, do urbano e do bucólico, da ordem geométrica das árvores e sebes desenhadas e da irreverência surpreendente das flores campestres.

Os jardins são, também, lugares de encontros.

Um encontro entre a vivência adulta e urbana e as recordações de infância no campo, um lugar de encontro entre o namorado e a namorada (ou o namorado e o namorado, ou a namorada e a namorada), um encontro entre os mais velhos e as crianças, entre os avós e os netos.

Os jardins são os lugares na cidade onde os animais se sentem em casa e os lugares que muitas aves escolhem para fazer a sua casa.

Por tudo isto, gostaríamos que fosse criado o Dia Nacional dos Jardins.

Sonhamos com um dia especial, em que os idosos saiam dos lares e de suas casas para apanhar sol e conversar entre si.

Um dia especial, em que as crianças mais novas vão passar a manhã a brincar à apanhada, a andar de baloiço ou a jogar à bola.

Um dia especial, em que as aulas sejam dadas ao ar livre, nos jardins das escolas e nos jardins e parques das vilas e cidades.

Os heróis não pertencem, apenas, ao nosso passado como País e Povo.

O arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, esse generoso e paciente jardineiro do Reino da Natureza é, seguramente, um dos heróis do nosso tempo.

Assine a petição para que, no próximo dia 25 de maio de 2022, data do centenário do nascimento do arquiteto, possamos todos homenageá-lo passando grande parte desse dia, felizes e sem máscara, num dos locais que ele mais prezava: os jardins.

Assine a petição!

Turma 10.º L da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Entrevista inédita a Gonçalo Ribeiro Telles: 'Um mundo urbano utópico destruiu o mundo rural'


Por José Alex Gandum14 de Novembro de 2020

Gonçalo Ribeiro Telles desapareceu há poucos dias, aos 98 anos de idade, mas deixou uma obra muito extensa na área da arquitectura paisagista, e não só, o que podia não ter acontecido se não tivesse Ribeiro Telles um tio-avô que morava num 5º andar na Rua das Pretas, em Lisboa, de onde desde muito cedo uma visão sobre grande parte da capital despertou no futuro arquitecto paisagista um espírito arquitectónico, paisagístico e crítico. Viria a ser também político, passando por diversos Governos e estando na génese de inúmeras medidas ambientais, ainda hoje vigentes. Tido como um visionário, Ribeiro Telles lamentava-se, contudo, em muitas das conferências e das entrevistas que dava, que os poderes instituídos não o deixavam fazer tudo aquilo que ele pretendia fazer. Ainda assim, fez muito, não só na capital (onde os Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian se destacam), estando também e esteve na génese de muitas áreas protegidas, áreas que ele viria a criticar nesta entrevista inédita feita nos finais de 2010 e que nunca tinha sido publicada. 

 
José Alex Gandum - Professor, tem dito que em face do mundo actual toda uma filosofia sobre áreas protegidas - muitas das quais tiveram a sua assinatura - e sobre a conservação da natureza está ultrapassada. Porque razão tem essa ideia?

Gonçalo Ribeiro Telles - Porque o mundo rural está a acabar. Não se pode inventar todas as potencialidades e funções do mundo rural através de uma nova visão de conservação da natureza. É preciso encarar o problema de frente e não é com o desenvolvimento das áreas protegidas e com novos estudos que se chega a alguma conclusão. 

Mas as áreas protegidas não são importantes?

As áreas protegidas têm importância e continuarão a ter, mas como laboratórios, referências, modelos, pedagogia... e isso interessa a quem? Interessa principalmente aos que não são do mundo rural. As áreas protegidas foram feitas para desenvolvimento científico como laboratório e para dar a conhecer àqueles que não são do mundo rural qualquer coisa que possa justificar esse mundo. Ah, e para criar bons empregos desnecessários a pessoas que fazem parte da elite governativa. Mas o que se verifica hoje - e que é gravíssimo - é a queda drástica do mundo rural, o que vai arrastar todas as políticas relativas às áreas protegidas.

E de quem é a culpa para a queda do mundo rural?

O principal culpado é o fenómeno urbano, que afastou as populações das aldeias,condenando à morte as aldeias, e tornando este país num caos... foi também a reflorestação errada, que acabou por provocar... desflorestação. Aliás, a desflorestação foi o primeiro acto de despovoamento. A desflorestação é um fenómeno urbano, pois parte de decisões tomadas nas cidades, decisões que preferem criar um grande mercado internacional em detrimento dos mercados locais. E é assim que se mandam vir produtos de locais a milhares de quilómetros de distância, aumentando aquilo a que chama a pegada ecológica, quando esses produtos podiam ser produzidos localmente.

E aponta alguma solução para os incêndios florestais em Portugal?

Incêndios florestais? Portugal não tem incêndios florestais...

Como assim, Professor? Se todos os anos ardem milhares de hectares de floresta...

Ardem milhares de hectares de eucaliptais e aglomerados de pinheiro bravo. Isso não é floresta. A verdadeira floresta felizmente não arde ou arde pouco. Conhece grandes incêndios em florestas de castanheiros ou no montado?

Pois, na verdade não. Mas mesmo os outros incêndios são muito prejudiciais para a biodiversidade, não?

Claro. Nos tempos pré-históricos alguns incêndios tinham uma função útil, mas hoje em dia são completamente inúteis. Destroem os solos, dizimam milhões de animais e os seus habitats, e espalham muito CO2 que não faz falta nenhuma... além do mal que fazem às populações rurais, as quais só pensam em fugir para locais mais "seguros", leia-se vilas e cidades... e até para o estrangeiro.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Ribeiro Telles propõe conhecer as árvores portuguesas em época de fogos


                                                        
    
"A Árvore em Portugal" é o título de uma obra de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles que a Assírio & Alvim repõe no mercado num momento em que o país é assolado por muitos incêndios florestais.

A Árvore em Portugal" é o título de uma obra de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles que a Assírio & Alvim repõe no mercado num momento em que o país é assolado por muitos incêndios florestais.

O livro saiu originalmente em 1960, foi reeditado em 1999 e aconselhado em diversas universidades, regressando às livrarias ano e meio após se terem vendido os últimos exemplares da tiragem anterior.

"O livro esgota-se e os responsáveis nada aprendem; é um problema de formação", lamentou Gonçalo Ribeiro Telles à agência Lusa, acrescentando que "tanto território ardido não faz sentido num país que tem um Estado".

O arquitecto paisagista criticou a incidência de incêndios e afirmou que estes podem ter como único aspecto positivo "ajudar a reordenar o território, evitando que se repitam os mesmos erros do passado".

Para Ribeiro Telles, "desde uma campanha de 1930, que visava arborizar o país com pinheiros e eucaliptos para aumentar o Produto Interno Bruto, que a mata tradicional portuguesa começou a ser prejudicada".

Na opinião do fundador do Movimento Partido da Terra (MPT), "o Alentejo, devido à presença dos sobreiros e azinheiras, naturais naquela área, é menos propenso ao fogo do que regiões como Leiria, com povoamentos de pinheiro e eucalipto".

"Existem enormes extensões florestais típicas do norte da Europa que não se adequam a Portugal, onde é cada vez mais urgente alterar a política de ordenamento do território", afirmou.

Gonçalo Ribeiro Telles defende "a recuperação da agricultura tradicional, de cariz mediterrânico, polivalente e compartimentada, aspecto que é essencial para deter o fogo".

O despovoamento do interior foi igualmente criticado pelo ex-ministro de Estado e da Qualidade de Vida, para quem importa "recuperar a complexidade do mundo rural, dando às aldeias meios de subsistência local e regional para ajudar a fixar a população".

O livro "A Árvore em Portugal" refere a importância das várias espécies na paisagem urbana e rural, indica as principais formações vegetais em Portugal continental e informa acerca da distribuição típica da vegetação.

Quais são as árvores espontâneas em Portugal? Quais as espécies características dos jardins portugueses? Como se adaptam as árvores aos vários tipos de solo? - são algumas das perguntas a que o livro pretende dar resposta.

Com vista a permitir um melhor conhecimento sobre as árvores existentes em Portugal, a obra de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles, profusamente ilustrada e acompanhada de mapas e esquemas, refere ainda a utilidade das árvores nos parques e jardins, nos pomares ou nas matas.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Documentário da Semana: Em Nome da Terra - Gonçalo Ribeiro Telles



A forma como revelou o invisível, sobretudo aos mais insensíveis, foi autêntica dádiva, e acto maior de cidadania (com muito ainda por aproveitar nos anos vindouros). 
Compreende-se que o mais fiel jardineiro não poderia deixar de pensar nem a mais delicada brisa, enquanto "elemento" integrante do todo como sistema funcional (custa à vontade política entender, ou não ceder a outros interesses de vista curta e criminosa algibeira)...afinal de contas, foi o "mesmo vento", entre colinas da velha Lisboa, que potenciou o fogareiro de 1755. 
Além dos inúmeros benefícios do (cuidado) planeamento a longo prazo, com respeito à nossa herança, atentos a novas dinâmicas, o que não pensarmos hoje, poderá ser devastador no amanhã.
Nunca é demasiado elogiar seu tacto e sensibilidade invulgar, impressionante; foi criador atento à História, e às nossas raízes nas suas múltiplas dimensões.
O mesmo homem reflectiu o sublime, como espelho d'água a revelar a copa das árvores...e o patamar mais elevado.
Mais que lazer e fruição, há uma revelação como descoberta, aos que procuram. 
O que nos foi dado, é bem incalculável, cuidemos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Um mundo urbano utópico destruiu o mundo rural

Recusava-se a chamar floresta aos eucaliptais e às manchas de pinheiro-bravo, deixou um alerta dramático para o fim das aldeias e do mundo rural, nesta entrevista ainda inédita, realizada pelo jornalista José Alex Gandum.


Gonçalo Ribeiro Telles desapareceu há poucos dias, aos 98 anos de idade, mas deixou uma obra muito extensa na área da arquitectura paisagista. Em miúdo, ia muitas vezes a casa de um tio-avô que morava num 5º andar na Rua das Pretas, em Lisboa. Foi ali, à janela, a olhar para a cidade, que despertou no futuro arquitecto paisagista um espírito arquitectónico, paisagístico e crítico.

Político, passou por diversos Governos e esteve na génese de inúmeras medidas ambientais, ainda hoje vigentes. Visionário, Ribeiro Telles lamentava-se, contudo, em muitas das conferências e das entrevistas que dava, que os poderes instituídos não o deixavam fazer tudo aquilo que ele pretendia fazer. Ainda assim, fez muito, não só na capital (onde os Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian se destacam. mas também o Jardim Amália ou o Corredor Verde de Lisboa).  

Professor, tem dito que em face do mundo actual toda uma filosofia sobre áreas protegidas – muitas das quais tiveram a sua assinatura – e sobre a conservação da natureza está ultrapassada. Porque razão tem essa ideia? Porque o mundo rural está a acabar. Não se pode inventar todas as potencialidades e funções do mundo rural através de uma nova visão de conservação da natureza. É preciso encarar o problema de frente e não é com o desenvolvimento das áreas protegidas e com novos estudos que se chega a alguma conclusão.

Mas as áreas protegidas não são importantes? As áreas protegidas têm importância e continuarão a ter, mas como laboratórios, referências, modelos, pedagogia… e isso interessa a quem? Interessa principalmente aos que não são do mundo rural. As áreas protegidas foram feitas para desenvolvimento científico como laboratório e para dar a conhecer àqueles que não são do mundo rural qualquer coisa que possa justificar esse mundo. Ah, e para criar bons empregos desnecessários a pessoas que fazem parte da elite governativa. Mas o que se verifica hoje – e que é gravíssimo – é a queda drástica do mundo rural, o que vai arrastar todas as políticas relativas às áreas protegidas.

E de quem é a culpa para a queda do mundo rural? O principal culpado é o fenómeno urbano, que afastou as populações das aldeias, condenando à morte as aldeias, e tornando este país num caos… foi também a reflorestação errada, que acabou por provocar… desflorestação. Aliás, a desflorestação foi o primeiro acto de despovoamento. A desflorestação é um fenómeno urbano, pois parte de decisões tomadas nas cidades, decisões que preferem criar um grande mercado internacional em detrimento dos mercados locais. E é assim que se mandam vir produtos de locais a milhares de quilómetros de distância, aumentando aquilo a que chama a pegada ecológica, quando esses produtos podiam ser produzidos localmente.

E aponta alguma solução para os incêndios florestais em Portugal? Incêndios florestais? Portugal não tem incêndios florestais…

Como assim, Professor? Se todos os anos ardem milhares de hectares de floresta… Ardem milhares de hectares de eucaliptais e aglomerados de pinheiro bravo. Isso não é floresta. A verdadeira floresta felizmente não arde ou arde pouco. Conhece grandes incêndios em florestas de castanheiros ou no montado?

Pois, na verdade não. Mas mesmo os outros incêndios são muito prejudiciais para a biodiversidade, não? Claro. Nos tempos pré-históricos alguns incêndios tinham uma função útil, mas hoje em dia são completamente inúteis. Destroem os solos, dizimam milhões de animais e os seus habitats, e espalham muito CO2 que não faz falta nenhuma… além do mal que fazem às populações rurais, as quais só pensam em fugir para locais mais “seguros”, leia-se vilas e cidades… e até para o estrangeiro.

Mas não se pode fazer nada para conter esses tais incêndios? Desde que a pastorícia acabou e as aldeias começaram a ficar vazias ou quase só habitadas por velhos, ficou cada vez mais difícil evitar grandes incêndios nas manchas de eucalipto e pinheiro bravo. E a coisa é regular: os grandes incêndios vão repetir-se ciclicamente, é que a vegetação cresce e fica disponível para arder a cada sete, oito anos. E isto porque nesse intervalo os poderes políticos e económicos nada fizeram para o evitar ou mitigar. Sendo que os incêndios no futuro serão ainda mais catastróficos por causa do aquecimento global, coisa que muita gente, até cientistas, ainda não acredita.

Há nisto tudo um problema de ordem cultural? Exactamente, e isso ultrapassa até o problema económico. Esse problema de ordem cultural até destrói a esperança. O que vemos à volta é um caos distorcido. Há que recuperar uma dignificação do mundo rural para uma função essencial para a espécie humana, que é o contacto com a natureza, a produção de alimentos, fornecimento de água, etc.… enquanto é tempo.

Então, como vai ser a cidade do século XXI? Na relação urbano-rural temos de rever desde a base a ideia se necessitamos ou não do mundo rural. O maior problema é a destruição do mundo rural pela frustração do desaparecimento específico de espécies, pela morte das aldeias, não há caminhos locais, fecham-se escolas e outros serviços públicos. É claro que as pessoas que conseguem sair das aldeias, saem, e vão para as vilas e para as cidades. Ficam os que não conseguem sair, normalmente os mais velhos… e depois ainda há a questão da agroquímica, que vai acabar com o resto da agricultura tradicional.

Mas não se poderia transportar um pouco do mundo rural para as cidades? Hoje pensam-se as cidades em grandes edifícios, com muitos andares, com uma vacaria no 1º andar, com uma horta no telhado, com umas palmeiras nas empenas… utopia que só serve para desclassificar o mundo rural. Até porque o problema da biodiversidade está intimamente ligado com o mundo rural, não vale a pena fazermos charquinhos com rãs se não houver uma preservação e uma dignificação do mundo rural. Posso dar-lhe um exemplo aqui bem perto da falta de respeito do urbano intelectualóide pelo rural genuíno: o espaço que fica entre as dunas e a barreira das falésias da Costa da Caparica são os terrenos agrícolas mais produtivos da Europa, porque se conjugam ali uma série de factores propícios à agricultura, inclusive gente que sabe trabalhar a terra. No entanto, aprova-se um Polis que quer encher aquele espaço de construções para bairros sociais, em forma de caixotes intervalados com pequenos metros quadrados de relva que ainda por cima consome água da companhia…

Mas os bairros sociais também são necessários… Claro que são, mas não devem ser construídos em espaços agrícolas. Ainda há muito terreno com menores aptidões agrícolas que podem ser urbanizados.

Qual é a relação de um mundo que está a desaparecer, de um mundo de que dependemos historicamente, até dos seus conhecimentos, e como vamos substituir quer no tempo quer espacialmente esse mundo? Tudo se resume ao problema do desaparecimento das aldeias. É a própria história da humanidade que é mutilada. E depois também há motivos dos quais ninguém fala e que também afastaram as novas gerações do campo. Por exemplo, nos foros do Ribatejo e do Alentejo cresceram herdades ou companhias que enriqueceram muita gente, pela qualidade dos solos e a aposta certa em certas culturas. Mas isso também trouxe o reverso da medalha: os filhos e netos desses proprietários puderam ir estudar para as cidades e para o estrangeiro e quase nenhum voltou à sua terra – uma excepção ou outra no que toca aos vinhos, mas pouco mais.

Em resumo, muita coisa contribuiu para o desaparecimento do mundo rural: o não aproveitamento dos baldios, o fim da pastorícia, o alastramento da agroquímica com culturas cada vez mais intensivas em detrimento da agricultura tradicional adaptada aos solos e ao clima, os interesses da floresta industrial e da celulose, e em grande parte também por culpa dos que decidem estas coisas a partir de gabinetes nas grandes cidades sem nunca terem sujado as mãos na terra.

O problema da sustentabilidade já não se põe com o mundo rural mas com um mundo urbano utópico.