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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Barragem de Girabolhos: entre o negócio concessionado e a ausência de uma visão estratégica


O anúncio da construção da Barragem de Girabolhos, no sistema do Baixo Mondego, surge mais uma vez envolto na retórica da ação governativa. No entanto, por trás da propaganda da "obra", esconde-se uma fragilidade desconcertante: a ausência de uma estratégia integrada para o território e um modelo de financiamento que coloca o interesse público em segundo plano.

Estamos perante a clássica política da obra como substituto da visão de futuro. Para compreender o real impacto desta decisão, é preciso analisar o projeto sob três prismas fundamentais: a viabilidade financeira, a inversão do processo de avaliação e a falta de propósito regional.

1. O dilema financeiro e o conflito de interesses na exploração
A realidade financeira do projeto é simples: a União Europeia não financia a sua construção e o Governo não tem orçamento para ela. Resta, por isso, a via da Parceria Público-Privada (PPP), entregando a construção e exploração a uma empresa privada que procurará, legítima e prioritariamente, o lucro através da produção hidroelétrica.

Esta opção privatizada gera um conflito de interesses técnico que anula um dos principais argumentos públicos a favor da barragem: a segurança das populações a jusante (rio abaixo).

Objetivo público (minimização de cheias)Objetivo privado (produção de energia)
Exige que a albufeira esteja com a cota de água muito baixa durante o inverno para ter capacidade de reter as pontas de cheia.Exige que a albufeira esteja o mais cheia possível para maximizar a pressão da água e gerar mais eletricidade (e receita).
O impasse: Como pode uma empresa privada, cujo modelo de negócio depende de ter a barragem cheia, garantir de forma eficaz a segurança das populações que exige que a barragem esteja vazia no inverno? O fim prioritário da segurança pública acaba inevitavelmente subjugado ao lucro da concessionária.

2. Um processo invertido: o estudo pago por quem quer construir
O modelo de concurso atual prevê que o futuro concessionário tenha até 18 meses para entregar o Estudo Prévio e o Estudo de Impacte Ambiental (EIA), e mais 12 meses para o projeto de execução após a Declaração de Impacte Ambiental (DIA).

Este procedimento inverte a lógica do planeamento rigoroso e da defesa do interesse público:
  1. Falta de independência científica: um Estudo de Impacte Ambiental pago pelo próprio concessionário à empresa que o elabora fica inevitavelmente condicionado pelos interesses económicos de quem passa o cheque.
  2. Decisão sem dados: o Governo deveria ter solicitado e pago um EIA independente, adequado ao contexto atual de alterações climáticas, ou um estudo de suporte à decisão política elaborado por especialistas multidisciplinares antes de decidir abrir o concurso público.
  3. Decidir avançar para o concurso sem estes estudos é avançar às cegas, protegendo o promotor privado em detrimento da qualidade ambiental e da segurança regional.
3. Obra sem visão: para quê esta barragem?
A nível estratégico, a pergunta essencial continua sem resposta: qual é o verdadeiro propósito desta infraestrutura?
Será para abastecer um território marcado pelo despovoamento, quando o verdadeiro desafio é criar condições socioeconómicas para fixar pessoas e investimento?
Será para expandir um modelo de agricultura de regadio intensivo numa região cuja vocação natural não se adequa a esse caminho?
Será para regular caudais, sem que se tenha demonstrado, com rigor e transparência, que esta é a solução mais custo-benefício e ecologicamente sustentável?

Portugal continua preso ao velho dogma de que "construir é resolver". Mas uma barreira de betão no rio não substitui uma política de ordenamento do território, não resolve a gestão integrada da água e não é, por si só, uma estratégia de adaptação às alterações climáticas.

Conclusão: o interior precisa de futuro, não apenas de betão
O interior do país e a região do Mondego precisam de conhecimento, inovação, emprego qualificado e valorização dos seus recursos naturais. Precisam de soluções que ataquem as causas do despovoamento, e não apenas os seus sintomas através de megaprojetos de engenharia.

A questão central não é uma postura cega contra ou a favor de barragens. É exigir que as grandes decisões públicas sejam fundamentadas, transparentes e sustentadas em evidência científica independente. Defender as populações e o ambiente do Mondego exige que paremos de medir a ambição nacional pelo volume de betão e passemos a medi-la, de uma vez por todas, pela qualidade e clareza da nossa visão.

Nota: o texto é um cruzamento das críticas de Helena Freitas e de Pedro Proença Cunha

Relacionado:

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O efeito de ilha de calor de dados: quantificação do impacto dos centros de dados de IA num mundo em aquecimento.



O "Efeito de Ilha de Calor de Dados" (Data Heat Island Effect) refere-se ao aumento localizado na temperatura da superfície terrestre causado pela dissipação massiva de calor dos centros de dados voltados para Inteligência Artificial (IA). Um estudo pioneiro liderado por investigadores da Universidade de Cambridge e da Universidade Tecnológica de Nanyang quantificou globalmente este impacto, demonstrando que estas instalações alteram os microclimas à sua volta. [1, 2, 3]
Abaixo estruturam-se as principais conclusões e métricas avançadas pela investigação. [1, 2]

Métricas de impacto térmico
O estudo analisou dados de satélite da NASA recolhidos entre 2004 e 2024, cobrindo mais de 6.000 localizações fora de áreas densamente urbanizadas para isolar o efeito das infraestruturas de dados: [1, 2, 3]
  • Aumento médio: a temperatura da superfície da terra aumenta 2°C em média após o início das operações de um centro de dados de IA. [1]
  • Casos extremos: foram registados picos de aquecimento extremo de até 9,1°C na proximidade imediata de algumas infraestruturas. [1]
  • Raio de influência: o efeito térmico propaga-se através do espaço, sendo detetável a uma distância de até 10 quilómetros da instalação. [1]
  • Degradação da intensidade: a intensidade do calor gerado reduz-se para cerca de 30% quando atinge um raio de 7 km de distância. [1]
Dinâmica e Causas do Fenómeno
Os centros de dados focados em modelos de IA operam com milhares de unidades de processamento gráfico (GPUs) de alto desempenho a funcionar continuamente sob cargas de trabalho extremas. Esta arquitetura gera duas fontes principais de perturbação térmica: 
  • Exaustão direta [1]: Os sistemas de refrigeração industrial extraem calor do interior dos edifícios, expelindo massivamente ar quente e vapor de água para a atmosfera circundante. [1, 2]
  • Pegada da construção: As próprias características físicas do complexo (grandes telhados, superfícies de asfalto e betão) absorvem a radiação solar e criam um efeito semelhante ao das ilhas de calor urbanas tradicionais. [1, 2, 3]
Populações e regiões afetadas
Estima-se que mais de 340 milhões de pessoas vivam em zonas sob o raio de influência térmica destas instalações a nível global. Os investigadores apontaram que anomalias de temperatura anteriormente difíceis de justificar coincidem diretamente com a expansão de grandes polos de dados em regiões como: 
  • Aragão (Espanha)[1]
  • Bajío (México)
  • Teresina, Piauí (Nordeste do Brasil) [1, 2]
Caminhos para Mitigação
Para conter o aparecimento destas zonas microclimáticas sem travar a inovação tecnológica, o ecossistema aponta soluções em duas vertentes principais: 
  • Otimização de hardware e refrigeração[1, 2]: integração de tecnologias de refrigeração líquida avançada de ciclo fechado e reaproveitamento do calor residual para sistemas de aquecimento residencial local ou processos industriais. [1, 2, 3, 4]
  • Eficiência de software: desenvolvimento de algoritmos e modelos de IA estruturalmente focados em eficiência energética e sustentabilidade desde a sua conceção, reduzindo o esforço computacional bruto. [1]
A notícia já tinha sido avançada aqui

sexta-feira, 13 de março de 2026

The "Two mountains" dilemma


Humanity faces a defining choice: do we climb the green mountain of ecological health and community wellbeing, or the gold and silver mountain of endless economic growth that is destroying the foundations of life on Earth?

No country dramatises the conflict between these two competing choices more clearly than China. In elevating its Two Mountains Theory - that lucid waters and lush mountains are as valuable as mountains of gold and silver - China has done the world a paradoxical service. By naming the conflict explicitly, it reveals what most nations conceal: that they are trying to climb two mountains at once.

This two-part series explores the meaning and implications of China’s dilemma.
Part I examines the environmental paradox of China’s Two Mountains strategy: its leadership in renewables and ecological restoration alongside its continued promotion of coal.
Part II looks at the human and global consequences of the conflict and how they bear most heavily on the poor majority.

Together, these reflections underscore a simple truth: no climber can ascend two mountains at once. Humanity must choose.

The Origin of the Two Mountains Theory
In 2005, while serving as provincial party secretary of Zhejiang, Xi Jinping introduced what he called the Two Mountains Theory: lucid waters and lush green mountains are as valuable as mountains of gold and silver. At the time, it was Xi’s local call to temper economic development with environmental protection. When Xi rose to national power -becoming General Secretary of the Communist Party in 2012 and President of China in 2013 - he elevated the Two Mountains Theory to the level of national strategy.

The paradox is clear. China was the first nation to pledge itself to building an Ecological Civilisation. Yet it also continued its established commitment to growing its economy, including using coal as a significant energy source. By giving the contradiction a name [the Two Mountain Theory], China exposes the conflict and gives the world a mirror to view the conflict that every nation faces. Yet most try to obscure it with slogans of “green growth” or “sustainable development.”

Achievements that inspire
Whatever else one says about China, its achievements in ecological innovation are breathtaking in scale and speed. In 2023, China installed more than 217 gigawatts of new solar power capacity—over twice the combined annual additions of the United States and European Union. Reports for 2024 estimate China installed 329 gigawatts of new solar plus 79 gigawatts of wind.

This build-out reflects China’s immense scale. With a population of 1.4 billion people—more than double the combined populations of the US and EU—it faces enormous energy demand. Still, the speed of China’s renewable expansion shows what is technically and financially possible when policy aligns with ecological ambition.

China’s expansion of high-speed rail is equally impressive. Since the early 2000s, China has built more than 45,000 kilometres of high-speed rail—longer than the rest of the world’s networks combined. Trains traveling up to 350 km/h now connect nearly every major city, carrying hundreds of millions of passengers annually.

The achievement is unparalleled in modern history. By contrast, the US has yet to complete even a single true high-speed rail line. Europe’s networks are extensive, but still far smaller in scale. China’s population density and state-driven model give it unique advantages—but its success demonstrates that when a nation makes a clear commitment, massive infrastructure shifts are possible.

China also leads the world in electric mobility. Shenzhen became the first city to electrify its entire bus fleet - more than 16,000 vehicles - and then moved on to electrify taxis. Other cities quickly followed suit. Today, China operates more than half of the world’s electric buses.

Of course, buses alone cannot solve urban congestion, and car ownership continues to rise. But the pace of this transformation shows how quickly urban fleets can transition when backed by policy, subsidies and manufacturing capacity.

China has also undertaken ecological restoration at an unprecedented scale. Its Great Green Wall programme involves planting billions of trees to halt the spread of the Gobi Desert. On the Loess Plateau, decades of restoration have turned one of the world’s most degraded landscapes into fertile farmland, reducing soil erosion and improving rural livelihoods.

These projects have their own limits. Monoculture tree planting has sometimes failed. Ecological complexity is hard to replicate. Still, the scope of China’s efforts offers lessons for other regions facing desertification, from Africa’s Sahel region to India’s drylands.

China has also made urban resilience a priority. Through its “sponge city” programme, China is reimagining urban water management. Cities like Wuhan, Shanghai and Shenzhen are embedding wetlands, green roofs and permeable pavements to absorb rainwater, reduce flooding and disperse heat.

These experiments are not yet universal, and many cities still rely on traditional “grey infrastructure” like concrete drainage systems. But if scaled up effectively, sponge cities could become a global model for adapting to intensifying climate impacts.

Each of these accomplishments demonstrates the power of focused public investment and long-range planning. They also prove that rapid, large-scale transformation is possible.

Contradictions that alarm
Yet, China’s ecological ambition collides with another reality: its plans for continued economic expansion.

Coal addiction: despite its boom in renewable energy, China still generates more than half of its electricity from coal. Even as solar and wind expand, new coal plants continue to be approved. Each one locks in emissions for decades.

Industrial emissions: China is the world’s largest producer of steel and cement, two of the most carbon-intensive industries. They are the backbone of its infrastructure drive but exact steep ecological costs.

Mega-project disruptions: the celebrated Three Gorges Dam produces renewable electricity but displaced more than a million people and disrupted entire ecosystems. Other projects marketed as “green” carry similarly heavy environmental costs.

Governance gaps: environmental laws are tightening, but enforcement is often lax. Public participation is limited, and independent oversight remains weak.

For every inspiring green initiative there remains a countervailing commitment to fossil energy and industrial expansion. This is the Two Mountains paradox made visible.

Comparisons with others
China’s dilemma becomes well demonstrated in the EU and the US. While the EU leads the world in environmental regulation and citizen participation and has pioneered carbon pricing, it has been slow to build out the renewable infrastructure needed to meet its lofty goals. And in the US, we have world-class science, activism and technological innovation, yet fossil fuel interests have captured the politics, even more so under Donald Trump.

The Two Mountains Theory acknowledges the desire for both ecological health and economic expansion, even as it leaves unresolved the impossibility of achieving both. This may be China’s most important contribution to the world: not that it has solved the dilemma, but that it has made it visible. By holding up a mirror, China forces us all to see that the conflict is not uniquely Chinese - it is universal.

No climber can ascend two mountains at once. At some point, China—and all of us—must choose. For the sake of peace, for the wellbeing of the poor majority and for the survival of life itself, there will be no winners on a dead Earth. Humanity must climb the mountain of life.

Read part II here.

Saber mais:

The great divergence between the world’s two superpowers on climate policy continues. Chinese officials passed a major new environmental protection law on the last day of their annual policy meeting in Beijing.

Today’s Bloomberg Green explains what’s in the new legislation and what it means for Chinese climate policy going forward.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Mau tempo: País não podia evitar tempestades mas deve usar melhor o território


Maria José Roxo, um dos nomes mais relevantes da Geografia portuguesa e especialista em catástrofes e riscos ambientais considera que o país não podia evitar as recentes tempestades, mas poderia minimizar os efeitos dos fenómenos meteorológicos extremos com outra forma de ocupar e “usar o território”.

“Não podíamos evitar porque aquilo que está a acontecer em Portugal, e em muitas outras áreas do planeta, como estamos a ver nos últimos dias, com a tempestade de neve nos Estados Unidos muitíssimo forte e com as chuvas muito intensas no Brasil, são fenómenos que têm a ver com algo que nós andamos há muitíssimo tempo a falar, que é o efeito do aquecimento global”, afirmou Maria José Roxo.

Em declarações à Lusa, a professora do departamento de Geografia e Planeamento Regional da Universidade Nova de Lisboa, analisou os efeitos das recentes depressões Kristin, Leonardo e Marta, que desde a madrugada de 28 de janeiro provocou pelo menos 18 mortos, centenas de feridos e desalojados, principalmente nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.

A também investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS), da Nova, salientou que Portugal possui a particularidade de ter um clima de grande variabilidade, de características mediterrânicas e atlânticas, que “tem sido perturbada por este aquecimento global”, tornando as tempestades e as superfícies frontais cada vez mais intensas.

“Não podíamos evitar, mas podíamos minimizar. E aqui é que temos que nos concentrar. Este minimizar implicava o que há muito tempo se vem falando sobre a forma como se está a ocupar e a usar o território, e esse é que é o grave problema”, apontou.

O problema, sublinhou, está na maneira como se utilizam os recursos naturais, perturbando a dinâmica dos sistemas naturais, com a canalização dos cursos de água nas áreas urbanas e o uso do “recurso solo”, com a impermeabilização das áreas urbanas.

“Pensar cidade é pensar cidade com a natureza. As cidades têm que ser cidades esponjas, que absorvam água, viu-se o exemplo de Setúbal, com a bacia de retenção, e todos esses aspetos de mais verde nas cidades, mais espaços de absorção, menos impermeabilização”, defendeu, aludindo ao exemplo do parque urbano da cidade junto ao Sado que amorteceu as recentes cheias.

A especialista em desertificação, catástrofes e riscos ambientais, recursos naturais e geomorfologia, exemplificando com as caleiras nas cidades para colocar árvores, constatou que em muitos sítios “são mínimas, muitas vezes até impermeabilizadas”, tornando difícil compreender até como é que as “árvores sobrevivem”.

“Esta questão de como fazemos planeamento tem que ser equacionada devidamente, porque é necessário pensar de uma forma diferente” e de uma forma integrada, defendeu Maria José Roxo, acrescentando que não se pode só pensar nos solos, mas também nos cobertos vegetais e na água, três elementos que “têm que estar sempre associados”.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Música do BioTerra: The Paper Kites - Walk Above The City (feat. MARO)


O título "Walk Above The City" (Caminhar sobre a cidade) funciona como uma metáfora. Não se trata de uma caminhada física literal, mas de encontrar um estado mental de serenidade ou um lugar (talvez um telhado ou uma colina) onde o barulho lá embaixo já não importa.

A presença de outra pessoa (representada no dueto) é o que permite esse "vôo". A canção sugere que, quando estamos com alguém que nos entende, conseguimos nos desligar do resto do mundo e observar a vida de uma perspectiva superior e mais calma.
A sonoridade suave, quase como uma canção de ninar, evoca a imagem de luzes da cidade à noite vistas de longe — bonitas, mas distantes. 
Melhor som aqui

A canção consta do álbum 

domingo, 25 de janeiro de 2026

Metade das emissões fósseis do mundo tem origem em apenas 32 empresas

Vitaliy Mashchenko (pintor Ucraniano, nascido em 1975)"Permanency", 2021


Apesar dos objetivos globais para a redução de emissões de gases com efeito de estufa, uma análise recente da Carbon Majors mostra que, em 2024, a poluição com origem na produção de combustíveis fósseis e cimento continuou a aumentar. A base de dados aponta que 166 produtores foram responsáveis por 34,7 gigatoneladas de CO2 equivalente, mais 0,8% do que no ano anterior.

O dado mais expressivo do relatório é a forte concentração das emissões em “apenas 32 empresas” que “estiveram associadas a mais de metade das emissões globais de CO2 provenientes de combustíveis fósseis e cimento em 2024”. Há cinco anos, eram 38 as empresas responsáveis por essa fatia de emissões, evidenciando uma tendência de concentração progressiva da produção poluente.

A maioria das 166 organizações são controladas pelo Estado, que representam “54% das emissões globais em 2024”, enquanto 93, com capital privado, originaram 23,7%. No topo da tabela, a concentração é ainda mais evidente, mostram os dados. “As dez empresas com maiores emissões, responsáveis em conjunto por 27,6% das emissões globais de CO2 fóssil em 2024, eram todas total ou maioritariamente detidas pelo Estado”, lê-se no relatório.

A base de dados Carbon Majors, gerida pela InfluenceMap, agrega informação histórica e atualizada sobre a produção de petróleo, gás, carvão e cimento, e atribui emissões às empresas produtoras e não aos países.

Os números de 2024 surgem num contexto climático particularmente crítico, já que aquele foi o ano em que, segundo o Copernicus, pela primeira vez a temperatura média global ultrapassou 1,5 graus acima dos níveis pré-industriais. No mesmo ano, as emissões globais de gases com efeito de estufa atingiram um novo máximo histórico e as emissões de CO2 provenientes da queima de combustíveis fósseis subiram para cerca de 38,6 gigatoneladas.

Em declarações citadas pelo The Guardian, Emmett Connaire, analista sénior da InfluenceMap, afirma que “as empresas petrolíferas e de gás têm sido, durante décadas, dos lóbis mais negativos para a política climática a nível mundial”. O responsável acrescenta que estas empresas “desenvolveram um manual de táticas que passa por enganar decisores políticos e a opinião pública, tendo feito campanha repetidamente contra políticas destinadas a permitir uma transição justa”.

Os dados do Carbon Majors estão, por isso, a ser cada vez mais utilizados como base para mecanismos de responsabilização. O relatório destaca que, no estado norte-americano de Nova Iorque, está em discussão legislação que poderá exigir até 75 mil milhões de dólares em compensações por danos climáticos a grandes produtores de combustíveis fósseis. Numa declaração citada no relatório, a senadora Liz Krueger defende que “é agora possível utilizar os registos das empresas para determinar a quantidade de produto colocada no mercado e traduzi-la num volume de gases com efeito de estufa emitidos para a atmosfera”.

Recorde-se que, de acordo com dados mais recentes do Copernicus, 2025 voltou a ser um dos anos mais quentes de sempre desde que há registo, apenas 0,01 graus abaixo de 2023 e 0,13 graus abaixo de 2024. Pela primeira vez, o planeta viveu três anos seguidos acima do limite de 1,5 graus definido pelo Acordo de Paris como sendo o teto máximo a manter até ao final deste século.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Tribunal suíço vai julgar caso histórico contra gigante do cimento Holcim



A Swiss court is set to hear a climate case against cement giant Holcim after admitting a complaint filed by four residents of the low-lying Indonesian island of Pari.

The residents say rising sea levels are swallowing their home and accuse Holcim of failing to cut carbon emissions.

The Cantonal Court of Zug admitted the complaint in full, marking the first time climate litigation against a corporation will proceed in Switzerland, according to Swiss Church Aid (HEKS/EPER), one of the NGOs assisting the islanders.

The case is part of a global effort to hold major companies accountable for climate damage that threatens millions, especially in poorer countries.

Climate change could submerge Pari by 2050
The case was brought in 2023 by four residents of Pari Island, Ibu Asmania, Pak Arif, Pak Edi, and Pak Bobby, to the court in Zug, where Holcim is headquartered. Rising waters linked to climate change could submerge most of the island by 2050. Pari sits just 1.5 meters (5 feet) above sea level.

The plaintiffs, supported by international NGOs including Swiss Church Aid (HEKS/EPER), the European Center for Constitutional and Human Rights, and The Indonesian Forum for Living Environment (WALHI), say Holcim is one of the world's largest emitters of greenhouse gases. They are demanding rapid cuts in CO2 emissions — 43% by 2030 and 69% by 2040 — as well as compensation for damage and funding for flood protection.

Ibu Asmania said he and the other plaintiffs were "very pleased" by the court's decision.

"This decision gives us the strength to continue our fight," he said. "This is good news for us and our families."

Cement giant plans to appeal
Holcim, which has not operated cement plants in Indonesia since 2019, plans to appeal the court's decision to allow the case to move ahead. The company has repeatedly stressed it is committed to reaching net zero by 2050 but argues lawmakers should decide how those goals are met.

"Holcim remains convinced that the courtroom is not the appropriate forum to address the global challenge of climate change," the company said.

Cement production accounts for about 9% of global carbon dioxide (CO2) emissions, according to the Global Cement and Concrete Association.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Esta é a lista de clientes divulgada por Marques Mendes


O candidato presidencial Luís Marques Mendes divulgou esta sexta-feira uma lista com os 22 clientes da sua empresa, na qual se encontram prestações de serviços em consultoria, comentário e participações em conferências, e que inclui a construtora de Famalicão Alberto Couto Alves.

Numa lista enviada à agência Lusa pela sua candidatura, encontram-se como clientes da sociedade LS2MM, Lda., no âmbito de consultoria estratégica: a Alberto Couto Alves, SGPS, SA; a Associação Portuguesa dos Industriais de Engenharia Energética (APIEE); a Atrys Portugal Centro Médico Avançado, SA, do Porto; a Denominador Comum – Consultoria de Negócios, SA, com sede na Póvoa de Lanhoso; e a Painhas SA, com sede no Porto.

À Lusa, o diretor de campanha, Duarte Marques, desafia os restantes candidato, “a bem da transparência”, a divulgarem “tudo o que se possa suscitar conflitos de interesses”.

McDonald’s e transportes pesados entre clientes

Na sequência de um artigo da revista Sábado, segundo o qual Marques Mendes ganhou mais de 700 mil euros nos últimos dois anos enquanto consultor da Abreu Advogados e na sociedade LS2MM, Lda, o candidato presidencial comprometeu-se a divulgar a lista da sua empresa familiar, após autorização dos clientes, mas não da sociedade de advogados, por colocar em causa o sigilo profissional.

Da lista da sua empresa constam igualmente, no âmbito de conferências proferidas por Marques Mendes: a ARP – Associação Rodoviária de Transportes Pesados de Passageiros; associação de Restaurantes McDonald’s, Brandom – Comunicação, Imagem e eventos, Lda; CBRE – Sociedade de Mediação Imobiliária, Lda; Cimpor – Serviços, SA; Eixo e Debate, Lda; El Circo del Marketing SL; Ger Imotion – Lda; GS1 Portugal; Marketividade – Marketing, comunicação e vendas, Lda; Primavera – Business Software Solutions, SA; Rede Global, SA; Shopitur, SA; a Tabaqueira II, SA; e Tedcom, Lda.

A SIC Sociedade Independente de Comunicação, SA, aparece na lista pelo espaço de comentário que manteve, assim como a Medipress Sc Jornalística e Editorial, Lda, no âmbito de artigos de opinião.

"Quem não deve não teme"
O diretor de campanha de Marques Mendes salientou, na declaração escrita enviada à Lusa, que o candidato presidencial divulgou esta lista “por dever de escrutínio e porque quem não deve não teme”.

“Cumpriu o que prometeu”, declarou, sublinhando que “o escrutínio deve ser para todos”.

“Isto é escrutínio e é correto. Outra coisa são insinuações vindas de alguns outros candidatos, só exibem desespero e baixa política”, afirmou Duarte Marques, que disse que “Marques Mendes resolveu fazer algo de inédito em Portugal em termos de transparência: divulgar a lista de clientes com que trabalhou, na sua vida”.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Donatella Marraoni


Donatella Marraoni (pintora Italiana, nascida em 1972) - "Nothing like me", 2022

Pintora contemporânea, Donatella é conhecida por um estilo expressivo e emocional que emerge do caos e da confusão.

As suas obras apresentam linhas fortes, rápidas e inacabadas, que criam texturas marcantes e transmitem emoção crua.

Donatella utiliza uma variedade de materiais como óleo, tinta, pigmentos, vidro, cimento e até café para compor retratos e paisagens com camadas e arranhões.

A figura da mulher é um tema central nas suas pinturas, explorando emoções e situações de vida como amor, espera, paixão, dor, abandono, desejo e até perversão.

O estilo pode ser descrito como contemporâneo e figurativo com elementos gestuais e narrativos fortes, muitas vezes buscando evocar sentimentos intensos no espectador.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Ilhéu na Indonésia luta contra gigante suíço do cimento

Quatro residentes da pequena ilha indonésia de Pulau Pari prometeram lutar contra uma das indústrias mais prejudiciais para o clima: o cimento. A sua luta tem feito manchetes em todo o mundo. Nesta reportagem, falámos com eles na sua ilha natal ameaçada.

A partir de Jacarta, é preciso uma hora de barco e depois uma caminhada de cinco minutos para chegar à modesta casa de hóspedes no centro de Pulau Pari, uma pequena ilha cujo nome se tornou conhecido em todo o mundo.

Uma vez chegados, o olhar do visitante é imediatamente atraído por numerosos cartazes que apelam a "salvar a ilha".

De pé, junto ao fogão, a fritar bananas, está Ibu Asmania, gerente da casa de hóspedes. É também ela que está por detrás da primeira queixa climática apresentada na Suíça contra o fabricante de cimento Holcim.

Nesta manhã de quarta-feira de outubro, o terraço da pensão está cheio de gente. Um jornalista e um operador de câmara de um canal de televisão indonésio e dois representantes de uma ONG local também fizeram a viagem. "Viemos para contar a mesma história", diz entusiasmado o jovem jornalista.

O terraço da casa de hóspedes de Ibu Asmania está sempre ocupado, servindo de ponto de encontro para os residentes empenhados na justiça climática

A presença dos meios de comunicação social - incluindo do estrangeiro - já não surpreende ninguém nesta ilha paradisíaca de 1.500 habitantes. O processo que opõe quatro membros desta comunidade ao gigante do cimento Holcim, com sede em Zug, é histórico. Poderá abrir caminho a processos semelhantes na Suíça e noutros países.

Pulau Pari, que fica a cerca de 40 quilómetros a noroeste da capital indonésia, está na linha da frente do aquecimento global, tal como muitas pequenas ilhas em todo o mundo. A população sofre diariamente com o impacto negativo da subida do nível do mar, da degradação do ecossistema marinho e de condições meteorológicas cada vez mais imprevisíveis.

No entanto, os habitantes da ilha, que vivem principalmente da pesca e do turismo, contribuíram muito pouco para as emissões de gases com efeito de estufa responsáveis por estas alterações.

"As alterações climáticas estão a afetar-nos gravemente", diz Asmania. "Mas nós sempre cuidámos da nossa ilha. Estamos a sofrer as consequências das emissões de gases com efeito de estufa de multinacionais como a Holcim. É injusto."

Foi por isso que ela e três outros residentes decidiram deslocar-se à Suíça para intentar uma ação civil contra a Holcim, que consideram corresponsável pela crise climática. Exigem que o fabricante de cimento os indemnize pelos danos sofridos e contribua para medidas de proteção, num total de 14.700 francos suíços (18.200 dólares). Pedem igualmente à empresa que reduza as suas emissões de dióxido de carbono.

Depois de terminado o pequeno-almoço, Asmania, 42 anos, leva-nos para a sua sala de estar, onde apenas o zumbido de um ar condicionado quebra a calma. Na estante, há fotografias emolduradas da sua visita à Suíça, que a mostram em frente ao edifício do Parlamento Federal, em Berna, com vários deputados que apoiam a sua luta.

Um mês após o seu regresso, esta mãe de três filhos não esconde a sua preocupação enquanto "espera impacientemente" por notícias do tribunal de Zug.

Ao contrário dos outros queixosos, Asmania não cresceu em Pulau Pari, mas na cidade de Bekasi, a leste de Jacarta. Isso não a impede de lamentar o facto de o local ter mudado muito nos últimos anos. "Quando vim para cá, era uma ilha de pescadores", diz. Mudou-se para cá com o marido, Tono, com quem casou em 2005.

Na altura, Pulau Pari era conhecida pela sua cultura de algas marinhas, que eram exportadas internacionalmente e constituíam uma importante fonte de rendimento para a população. Depois de transformadas, estas algas eram utilizadas na indústria alimentar e farmacêutica.

terça-feira, 9 de julho de 2024

A biomimética é infinita – do velcro ao edifício Gherkin

O desenho da Torre Gherkin, em Londres, foi inspirado na esponja de cristal Euplectella aspergillum . Esta esponja especial possui um exoesqueleto em forma de treliça. 

O dicionário Priberam define a biomimética (de bio, “vivo” + mimético, “capaz de imitar”) como uma “área interdisciplinar que pretende utilizar na ciência os conhecimentos da estrutura biológica dos seres vivos”, acrescentando também que “biomimético” é aquele “que imita alguma coisa da natureza ou algum processo natural”. Por outras palavras, a biomimética consiste na aplicação do conhecimento sobre o mundo natural, principalmente ao nível da engenharia ou do design, para solucionar problemas ou suprir necessidades humanas. O termo, que substituiu outros mais antigos, foi cunhado por Otto Herbert Schmitt em 1957, na sua tese de doutoramento que apresentava um aparelho cujo funcionamento era baseado no funcionamento de um nervo de lula.

Desde quando existe a biomimética?
Podemos dizer que a biomimética sempre deve ter existido, pois o homem sempre se inspirou no que via na natureza para resolver problemas práticos. No entanto, a primeira figura que é descrita como tirando inspiração directa da natureza para desenvolver objectos é a figura semi-mitológica chinesa de Lu Ban, do fim da dinastia Zhou, por volta de 500 a.c., a quem é atribuído um sem número de invenções, incluindo a daserra, cuja inspiração seria proveniente de uma planta em que Lu Ban teria cortado acidentalmente a mão na borda em serrilha, percebendo então que poderia usar aquele padrão serrilhado para construir uma ferramenta que mais facilmente lhe permitisse cortar vários materiais.

Mais tarde, durante o Renascimento, Leonardo da Vinci cita explicitamente o voo das aves como inspiração directa para as suas máquinas voadoras, que nunca chegaram a ser construídas, fonte de inspiração essa que dizem ter sido comum também aos irmãos Wright que, no início do século XX, inventaram o primeiro avião controlado por um piloto.

Em 1851, Joseph Paxton cita as folhas dos nenúfares como inspiração para o padrão de vigas de metal cruzadas que suportam a estrutura do Palácio de Cristal construído para a Grande Exibição que ocorre nesse ano.

Quais são alguns exemplos relevantes da biomimética?
Muitos objectos que utilizamos no dia-a-dia tiveram inspiração directa da natureza. Uma das mais famosas é o velcro, uma invenção registada em 1955 pelo suíço Georges de Mestral que consiste em fitas de aspereza distinta que aderem uma à outra quando em contacto. O nome do invento entretanto tornado produto provém do francês velours (veludo) e de crochet (gancho) e teve como origem uma caçada em que o cão do futuro inventor ficou coberto de “ouriços”, pequenas sementes que aderem ao pelo dos animais a fim de se espalharem com mais eficiência. Mestral teve visão e decidiu, com sucesso, imitar o que observou na natureza.

Da mesma forma, um dos edifícios mais conhecidos de Londres, o Gherkin, teve como inspiração directa a esponja Euplectella aspergillum e o seu exoesqueleto silicioso (ver imagem no topo do artigo). Curiosamente, gherkin significa pepininho e a arquitectura do edifício da torre é apodada de neo-futurista, pós-moderna ou hi-tech.

Talvez se lembre também do sucesso da equipa olímpica de natação dos EUA nos Jogos Olímpicos de 2008, que conquistou 98% das medalhas possíveis, devida em grande parte aos seus fatos desenvolvidos com o apoio da NASA: estes tinham inspiração directa na pele dos tubarões, cujas escamas especializadas criam zonas de baixa pressão que aumentam a sua velocidade na água. Este material apresenta também propriedades físicas que fazem com que seja muito difícil a fixação de bactérias na sua superfície, o que o torna apetecível para, por exemplo, uso em hospitais.

No Zimbabwe, cientistas inspiraram-se nos sistemas de refrigeração naturais das termiteiras para construir edifícios que se autoarrefecem, poupando assim grandes quantidades de energia na refrigeração e, por isso, com efeitos ambientais positivos.

Em 2015, o microbiólogo holandês Henrik Jonkers desenvolveu uma solução inspirada no corpo humano para cimento auto-reparador, recorrendo à adição à massa de bactérias produtoras de calcário, que se tornam activas quando em contacto com água.

Que futuro para a biomimética?
Embora muitas invenções sejam fruto de processos biomiméticos, podemos dizer que ainda estamos no início de uma verdadeira revolução. As aplicações de replicação de processos ou soluções naturais aos problemas humanos são infinitas, e apenas limitadas pelo nosso conhecimento da natureza. No entanto, isto também reforça a importância da preservação da biodiversidade e do seu estudo: quantas soluções para os nossos problemas estarão já presentes na natureza, e quantas já terão desaparecido da face da Terra antes que sequer soubéssemos da sua existência?

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

A 'hipocrisia verde" do aumento do IUC


“A hipocrisia ‘verde’ do aumento do IUC: o governo quer sufocar ainda mais os que vivem fora dos eixos do transporte público, que vivem na periferia e dependem do carro, enquanto reformula o aeródromo de Tires para receber jatos particulares dos que podem viver à frente do Metro no centro de Lisboa. As emissões médias de um único voo de jato privado correspondem a 23 mil km de um carro a gasolina, segundo o Greenpeace. ‘Um voo de um jato privado entre Lisboa e Nova Iorque emite mais CO2 do que um ano de consumo energético para aquecimento numa casa europeia’. Raquel Varela.

Aumento do IUC é duplamente "inconstitucional", considera o constitucionalista Paulo Otero. 

Saber mais:
  1. Webinar: Aviation Greenwashing and False Solutions (2020)
  2. As companhias aéreas estão a ser atingidas por litígios anti-greenwashing – eis o que as torna alvos perfeitos

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Paris quer remover 40% do asfalto para enfrentar picos de calor


O conselheiro para a Transição Ecológica do município de Paris, Dan Lert, alertou que a capital francesa vai enfrentar picos de calor de até 50 graus Celsius e terá de repensar a sua arquitetura, vegetação e remover 40% do asfalto.

Esperamos e prevemos picos de calor muito fortes e muito elevados e vagas de calor de 50 graus. O clima de Paris vai assemelhar-se ao de uma cidade como Sevilha, no sul de Espanha, nos próximos anos”, disse Dan Lert numa entrevista à agência de notícias EFE, depois de um período em que França bateu recordes históricos de temperaturas no final do verão.

Segundo o responsável, Paris está a viver uma “corrida contrarrelógio” contra a crise climática e as ondas de calor extremo são o “desafio número um” para a cidade.

Para responder ao desafio, que representa investimentos avultados, Paris planeia plantar 170.000 árvores até 2026, eliminar lugares de estacionamento e transformá-los em espaços verdes até 2030 e remover 40% do asfalto.

A ideia é passar de uma cidade que é como um radiador, que tem um efeito de ilha de calor urbana, para uma cidade que seja um oásis“, explicou Lert.

Os edifícios residenciais, em particular, terão de ser adaptados, mas a transformação levanta questões importantes sobre a preservação do património parisiense, tão intimamente ligado à estética dos edifícios.

"Temos telhados de zinco em Paris que fazem a beleza de Paris, mas num telhado de zinco estão 80 graus. E quando temos picos de calor que vão dos 40 aos 50 graus, precisamos isolar esses edifícios”, frisou Dan Lert.

Os telhados pretos, por exemplo, concentrariam menos calor se fossem pintados com cores claras, algo que já está a ser feito em alguns edifícios públicos.

As obras necessárias para melhorar o isolamento interior são por vezes travadas por autorizações de conservação do património e o conselheiro apelou para que os Arquitetos dos Edifícios de França mudem os seus procedimentos e se aceite que “a paisagem de Paris vai mudar para se proteger”.

“Uma pessoa idosa que vivesse debaixo de um telhado não isolado tinha quatro vezes mais probabilidades de morrer de calor“, ilustrou o responsável, com base em estudos sobre uma vaga de calor intenso em 2003.

Os ritmos da cidade também terão de mudar para aproveitar as horas mais frescas, acrescentou Lert.

Mais fontes, guarda-sóis e pulverizadores de água em toda a cidade serão também fundamentais e estão a ser implementados já este verão e no período que antecede o verão de 2024, que coincide com os Jogos Olímpicos.

O evento desportivo deixará também outro legado para uma cidade mais habitável em períodos de calor intenso: concretizar a promessa feita no final dos anos 80 pelo então presidente da câmara, Jacques Chirac, de poder tomar banho no rio Sena.

Até agora, não foi possível realizar as provas em águas abertas e de triatlo previstas para agosto, devido às chuvas e aos níveis de sujidade na água, mas as obras planeadas, como as cisternas para armazenar e purificar a água, tornarão esse cenário possível no próximo ano.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Grandes marcas destroem roupa que tinham prometido reciclar – investigação


Um par de calças doado à C&A foi queimado num forno de cimento e uma saia doada à H&M viajou 24.800 quilómetros, de Londres até um terreno baldio no Mali.

A maior parte das roupas doadas a grandes marcas, que prometem reutilizá-las ou reciclá-las, é na verdade destruída, deixada em armazéns ou enviada para África, segundo uma investigação divulgada esta segunda-feira.

A investigação, da responsabilidade da organização “Changing Markets Foundation”, com sede nos Países Baixos, indica que várias cadeias internacionais “deitam fora roupas que prometeram salvar”. E trata-se de roupa, diz a organização, em perfeitas condições.

A organização não-governamental (ONG) explica num comunicado que usou “air tags” da Apple (dispositivos que enviam a localização) e assim conseguiu rastrear 21 peças de roupa usada, em perfeitas condições. Os artigos foram doados às lojas H&M, Zara, C&A, Primark, Nike, The North Face, Uniqlo e M&S na Bélgica, França, Alemanha e Reino Unido, e outros doados a uma grande cadeia de vendas online.

Grandes marcas comprometem-se a reciclar, produzir menos resíduos, acabar com produtos químicos perigosos, e fazem ofertas para quem entregar roupa em segunda mão, que dizem será para reciclar ou reutilizar.

Segundo a organização, apesar das promessas, três quartos dos artigos (16 em 21) foram destruídos, deixados em armazéns ou exportados para África, onde cerca de metade da roupa usada é retalhada para outras utilizações ou abandonada.

A “Changing Markets Foundation” dá exemplos: um par de calças doado à M&S foi destruído numa semana, outro par doado à C&A foi queimado num forno de cimento, uma saia doada à H&M viajou 24.800 quilómetros, de Londres até um terreno baldio no Mali, onde parece ter sido despejada. Três artigos acabaram na Ucrânia, onde as regras de importação foram flexibilizadas devido à guerra. Apenas cinco artigos dos 21 foram reutilizados na Europa ou acabaram numa loja de revenda.

“A maior parte dos programas promete explicitamente não deitar fora a roupa utilizável. Mas nenhuma das marcas mencionadas mantém registos públicos sobre o destino das roupas que lhes são doadas. Em vez disso, entregam-nas a empresas especializadas em reutilização, reciclagem e eliminação final” diz a ONG no comunicado.

Urska Trunk, da ONG, diz citada no documento que as promessas das lojas são mais um truque de “lavagem ecológica” (greenwashing), porque os artigos doados em perfeitas condições são na sua maioria destruídos, deixados em armazéns ou enviados para o outro lado do mundo.

A “Changing Markets” lembra que a União Europeia está a reforçar as regras em matéria de resíduos e pede uma lei forte, que contemple objetivos obrigatórios de reutilização e de reciclagem.

O “greenwashing” é uma estratégia de publicidade através da qual uma empresa poluidora pretende fazer passar uma imagem de responsabilidade ambiental, que na verdade não tem.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Portugal diminuiu emissões de gases com efeito de estufa, mas falhou nos resíduos

Os dados da Pordata mostram também uma grande dependência da energia fóssil e que Portugal tem vindo a ter temperaturas cada vez mais altas.

Portugal é dos países da União Europeia (UE) que mais diminuiu as emissões de gases com efeito de estufa mas foi incapaz de lidar com os resíduos, estando neste caso muito abaixo da média europeia.

Os números fazem parte de um retrato estatístico da situação ambiental em Portugal, divulgado no Dia Mundial do Ambiente pela base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos, a Pordata, em colaboração com a Agência Portuguesa do Ambiente.

Se os dados mostram que desde 2005 Portugal reduziu 35% das emissões de gases com efeito de estufa (média da UE é 24%), mostram também uma grande dependência ainda da energia fóssil, e mostram que o país tem vindo a ter temperaturas cada vez mais altas, e que produz cada vez mais resíduos.

Energia e transportes produzem metade das emissões de gases em Portugal
A Pordata nota na análise que face a 2005, e apesar das oscilações, as emissões de GEE têm baixado na generalidade dos setores, em Portugal e na UE, com exceção da agricultura em Portugal, cujas emissões de GEE aumentaram 4,7%.

Na área da energia, apesar dos ganhos nas renováveis, a energia fóssil representa 65% do cabaz (repartição pelas diferentes fontes da energia aprovisionada), com 40,6% vinda do petróleo e 23,6% do gás natural, em 2021. Face a 2000 o peso do carvão baixou de 15% para menos de 1% e o petróleo caiu mais de 20 pontos percentuais, com crescimento do gás natural e das renováveis.

Positivo é o peso das energias renováveis na produção de energia elétrica. Em 2021 64,9% da produção vinha de fontes renováveis. Desde 2018, destaca o Pordata, mais de metade da produção elétrica tem como fonte as energias renováveis.

Economia portuguesa é das que mais recursos naturais consome
Segundo os dados da Pordata, em 2021, Portugal consumiu cerca de 174 milhões de toneladas de materiais (segundo o Eurostat, o INE indica 163,9 milhões), o equivalente a 16,9 toneladas por habitante, quando o valor da média europeia não vai além das 14,1 toneladas por habitante.

A Pordata explica que os minerais não metálicos, muito usados na construção, são os mais consumidos em Portugal, representando 63% do total em 2021.

"Em Portugal, o consumo interno de materiais aumentou 65% entre 1995 e 2008, ano em que atingiu o seu valor máximo com 242 milhões de toneladas. A trajetória posterior foi de forte redução durante o período da crise económica, tendo-se seguido uma quase estabilização em torno de 164 milhões de toneladas", explica a análise, a que a Lusa teve acesso.

De acordo com os números, no balanço entre crescimento económico e consumo de materiais, Portugal atingiu em 2013 uma melhoria de 23% na produtividade dos recursos (quociente entre o PIB e o Consumo Interno de Materiais), face a 1995.

Desde então, apesar de manter sempre a produtividade acima de 1995, nunca mais atingiu o mesmo valor. Em 2021 foi de 14%.

Na área dos resíduos os números mostram que em 2020 cada pessoa produziu em média 1,4 quilos de lixo por dia. Desde 1995 que a produção de resíduos "per capita" tem aumentado, um aumento que desde então foi de 46%, quando a média europeia não passou dos 12%.

Outro fator negativo é o da deposição de resíduos em aterro, metade dos resíduos portugueses tiveram esse destino em 2021, o dobro da média europeia (23%).

A Pordata nota que o ponto de partida de Portugal foi diferente, porque em 1995 cerca de 90% dos resíduos urbanos em Portugal iam para aterro, contra 65% da média europeia.

Um ponto de partida também diferente na reciclagem. No mesmo ano de 1995 Portugal reciclava 1% e a média europeia já era de 12%. Assim, em 2021, o principal destino dos resíduos urbanos na UE era a reciclagem (30%) mas em Portugal atingia-se apenas os 13%.

Hoje, Dia Mundial do Ambiente
O Dia Mundial do Ambiente celebra-se anualmente a 05 de junho desde 1974. Este ano, tendo como países anfitriões a Costa do Marfim e os Países Baixos, debate soluções para a poluição plástica.

Nos últimos 50 anos tem sido um pretexto para sensibilizar a população mundial para as questões ambientais.

Para assinalar a data, os desafios a emergência climática serão debatidos num debate na Central Tejo, em Lisboa, numa iniciativa das entidades gestoras de resíduos, Novo Verde e ERP Portugal, em parceria com a Fundação EDP.

O dia é também assinalado com outras iniciativas, quer em Lisboa quer em cidades como Guimarães ou Coimbra, Braga, Guarda ou Funchal, sobretudo com conferências.

A propósito da efeméride a empresa Prosegur apresenta uma lista do que considera os principais crimes ambientais, na qual inclui a pesca irregular, não declarada e não regulamentada, a posse e o comércio ilegal de espécies, a caça ilegal ou furtiva, a exploração ilegal e o tráfico de madeira, a extração ilegal de recursos minerais e a gestão ilegal de resíduos.