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segunda-feira, 13 de julho de 2026

RY X - Salt

Melhor som aqui

Letra
Under the lighting
Heavier breath
High by a mouth made
Knees to your chest

[refrão]
We let love be like water to wine
We let love be the higher design
We let love be a call in the night
We let love be the fire divine

Under the shadow
Heavy remains
Chemical ashes fall
Lips to my veins

[refrão]

But here we are turning our heads down
Here we are falling like lovers
We're falling like lovers and I turn my head
'Cause I know what shame you've done

[refrão] 2X

I know I started it all
I know I started to run
I won't let go of it all
I won't let go of the gun

Oh God, below
What have we done?

Abaixo, analiso os diferentes aspetos desta obra, desde as suas origens até às suas camadas mais profundas de significado.

RY X, nome artístico do cantor, compositor e produtor Ry Cuming, é um artista australiano cuja identidade musical foi profundamente moldada pelas suas origens em Angourie, uma isolada comunidade costeira em New South Wales. Essa ligação visceral com a natureza reflete-se num estilo musical único, frequentemente classificado como Indie Pop, Ambient Folk e Alt-Pop. A sua assinatura sonora assenta numa abordagem minimalista e despojada, onde guitarras acústicas dedilhadas e sintetizadores subtis servem de moldura para a sua voz de falsete etérea, criando uma atmosfera de intensa intimidade, melancolia e vulnerabilidade. A faixa "Salt", lançada no aclamado álbum Dawn, é um dos exemplos mais puros desta estética.

A canção funciona como uma meditação profunda sobre a dor, a impermanência e o processo de cura. O título "Salt" carrega uma dupla metáfora poética: evoca tanto o sal das lágrimas provocadas pelo sofrimento e pelo distanciamento emocional, quanto o sal do oceano, que atua como um elemento de purificação e renovação espiritual. Na sua essência, a letra explora a coragem de se manter vulnerável e a necessidade de sentir a dor por inteiro para que se possa, eventualmente, transcendê-la.

Essa mesma narrativa estende-se ao videoclipe da faixa, co-dirigido pelo próprio artista. Visualmente, o vídeo utiliza uma paleta de cores frias e um jogo expressivo de luz e sombra para construir uma atmosfera cinematográfica e crua. Através da dança contemporânea e expressionista, os corpos dos intérpretes contorcem-se, aproximam-se e repelem-se, traduzindo visualmente o conflito interno, o desejo de conexão e a angústia da separação. A presença constante de elementos naturais e a nudez parcial reforçam o desapego das máscaras sociais, expondo o ser humano no seu estado mais primitivo e honesto.

Do ponto de vista intelectual, a obra de RY X bebe de ricas fontes filosóficas, literárias e poéticas que valorizam o silêncio e a introspeção. Há uma clara ressonância com o pensamento oriental, particularmente com o Zen Budismo e o conceito do Wabi-Sabi, que prega a aceitação da imperfeição e da transitoriedade da vida. Em vez de evitar o sofrimento, o compositor abraça-o como parte fundamental da existência. Na literatura e na poesia, "Salt" aproxima-se do Romantismo Sombrio e do olhar transcendental de autores como Rainer Maria Rilke e Walt Whitman, que utilizavam as forças da natureza como um espelho para a alma. O mar e os elementos naturais surgem na canção como representações do inconsciente e das emoções avassaladoras, transformando o peso do sofrimento num ritual estético de desapego que converte a dor numa beleza quase sagrada.

domingo, 14 de junho de 2026

A Garça de Camurça e Oiro

Papa-ratos (Ardeola ralloides)

Silenciosa, orgulhosa e belamente vestida,
Uma vigia solitária à beira da vala escondida,
Saudando os ventos suaves do arrozal e a luz pálida da manhã,
Sobressaltada pelo passo repentino ou pela sombra de um estranho que passa,
Procurando apenas a poula silenciosa e um ramo isolado para pousar,
Adornada com as suas penas domingueiras de um fino camurça e oiro,
Uma habitante fundida  onde as águas mansas se cruzam com o céu,
Um espírito do caniçal plantado na terra.

João Soares, 14.06.206

sábado, 6 de dezembro de 2025

Marc Antoine Charpentier - Musiques pour la Sainte Chapelle

Musiques pour la Sainte Chapelle, de Marc-Antoine Charpentier (1643–1704), é um conjunto de obras sacras escritas durante o período em que o compositor trabalhou na Sainte-Chapelle de Paris (c. 1698–1704). Não se trata de uma obra única, mas sim de um repertório composto para o serviço litúrgico daquele espaço, considerado um dos centros mais prestigiados de música sacra em França.

Depois de anos a trabalhar para patronos privados (como Mlle de Guise) e para o teatro (incluindo colaborações com Molière), Charpentier assumiu o cargo de maître de musique da Sainte-Chapelle em 1698. Ali compôs numerosas obras vocais religiosas, muitas das quais sobrevivem em manuscritos autógrafos. Biografia

A minha prenda Natal para os meus amigos. Para além da ritualização, sempre um pouco avesso ao consumismo e prendas, prefiro a presença, a celebração dos encontros durante o Advento (mais união e fortalecimento de vínculos)  e  uma escolha espiritual. Para mim o Natal são momentos de oração e da prática meditativa, acredito também na visão holística e na essência Zen manifestas nesta época especial. Compreender a vida a partir de um ponto de vista holístico, significa acolher preceitos de comunhão entre o divino e o material e viver no caminho do amor. Como disse Buda, sábia divindade, "Jamais, em todo o mundo, o ódio acabou com o ódio; o que acaba com o ódio é o amor".

Assim como Cristo e Buda, seres que cumpriram os seus caminhos espalhando atitudes e palavras de sabedoria, que seguem-nos inspirando e nutrindo o espírito, também somos seres divinos e todos os dias traçamos passo a passo a nossa jornada espiritual na caminhada terrena. Possuindo a mágica possibilidade de escolher traçar trajetos amorosos, gentis e afetuosos, seguindo os preceitos de nossa essência interior.

Afeiçoado à práticas de amorosidade e generosidade, temos a divindade espiritual Jesus Cristo, que pregou atitudes de solidariedade e continua uma grande referência de liderança humanitária. Às vésperas do Natal, a comemoração de seu aniversário recebemos o convite interior em olhar as suas práticas de uma forma inspiradora, de nutrir as nossas relações e atitudes de uma forma mais pacifista.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Dias Perfeitos (Perfect Days) 2023



O filme Dias Perfeitos (Perfect Days, 2023), dirigido por Wim Wenders, é uma obra contemplativa e profundamente humanista que aborda temas como rotina, simplicidade, solidão, e o sentido da vida.

A história segue Hirayama, um homem de meia-idade que trabalha limpando casas de banho públicos em Tóquio. À primeira vista, leva uma vida monótona e solitária, mas o filme revela pouco a pouco a beleza e a plenitude que ele encontra nas pequenas coisas do quotidiano: o som das folhas ao vento, a luz da manhã, a música que ouve em cassetes antigas, os livros que lê, as fotografias que tira.
🌿 Temas centrais:
  • A dignidade do trabalho simples: Hirayama faz o seu trabalho com dedicação e calma, mostrando que há valor e beleza mesmo nas tarefas mais humildes.
  • A contemplação do quotidiano: o filme celebra o minimalismo e a atenção plena — viver o presente e encontrar alegria em gestos simples.
  • O silêncio e a introspeção: Wenders usa longos planos e pouca fala, convidando o espectador a observar e refletir junto com o protagonista.
  • A solidão e a escolha de um estilo de vida: Hirayama parece viver à margem da sociedade moderna, mas o faz por escolha — há uma liberdade na sua rotina.
  • A natureza e a cidade: o contraste entre o betão urbano e o verde das árvores reflete a harmonia que o personagem busca entre o mundo humano e o natural.
🎬 Destaques:
Koji Yakusho (no papel de Hirayama) ganhou o prémio de Melhor Ator no Festival de Cannes 2023.

A banda sonora é nostálgica, com músicas de Lou Reed, Patti Smith e The Animals . canções que traduzem o estado de espírito do protagonista.

A fotografia é poética e meticulosa, mostrando Tóquio como uma cidade silenciosamente viva.

Em suma, Dias Perfeitos é um filme sobre a beleza da rotina e a profundidade da simplicidade, uma espécie de meditação visual sobre o que significa viver bem — mesmo (ou talvez sobretudo) quando se vive com pouco.

🧍‍♂️ Resumo

Hirayama (interpretado magistralmente por Koji Yakusho) vive uma rotina precisa e quase ritualística: acorda cedo, arruma a cama, cuida das plantas, apanha o mesmo comboio, limpa os sanitários públicos de Tóquio com esmero e, no tempo livre, lê livros usados, tira fotos em filme analógico e ouve música em cassetes antigas.

Essa repetição não é um vazio, mas uma forma de contemplação — uma vida em harmonia com o presente. Contudo, o filme deixa escapar, aos poucos, fragmentos do passado de Hirayama, sugerindo que ele escolheu esse modo de vida após um afastamento profundo da sua antiga realidade.

Quando a sobrinha adolescente, Niko, o visita inesperadamente, descobrimos que Hirayama pertence a uma família abastada, provavelmente da elite empresarial japonesa. A visita mostra o contraste entre o seu modo de vida simples e o materialismo do mundo que ele deixou para trás. Niko, fascinada pela autenticidade do tio, decide fugir da sua casa, e esse encontro reacende em Hirayama uma certa ternura, mas também uma melancolia silenciosa - ele sabe que as suas escolhas o afastaram de vínculos humanos.

🎞️ O final
No último ato, depois de reencontrar o irmão (pai de Niko), Hirayama regressa à sua rotina. Tudo parece igual - ele volta a acordar cedo, limpar, almoçar sozinho, dirigir. Mas há uma subtil diferença emocional: a visita da sobrinha parece ter reavivado algo dentro dele.

O filme termina com ele dentro do carro, conduzindo para o trabalho, enquanto ouve “Feeling Good” de Nina Simone. A câmara foca lentamente o seu rosto: ele sorri, depois o sorriso se desfaz, e lágrimas discretas surgem. O ecrã escurece.

🌅 Significado simbólico do final

Essa sequência final é profundamente ambígua - e é aí que está a sua força:
  • A lágrima não é tristeza pura. É um momento de epifania. Hirayama sente, por um instante, a plenitude da sua própria existência. É o reconhecimento da beleza e da dor de estar vivo.
  • “Feeling Good” reforça essa ideia: a música fala de recomeços (“It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me”), ecoando o possível renascimento interior do protagonista.
  • O sorriso que se transforma em emoção mostra que, embora ele viva só, ele sente profundamente — o filme desmonta a ideia de que uma vida simples é uma vida vazia.
  • O ciclo recomeça, mas não de forma mecânica: cada dia é o mesmo e, ao mesmo tempo, único — daí o título Dias Perfeitos.
🕊️ Em essência
Wenders convida-nos a olhar para o quotidiano com outros olhos - a encontrar o sagrado no banal, o extraordinário no comum.
Hirayama é uma espécie de monge urbano, alguém que, através da rotina e do silêncio, alcançou uma forma serena de iluminação.

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Crise populacional no Japão atinge ponto crítico


O Japão tem lutado para lidar com uma combinação de crescimento económico anémico e uma população em declínio há mais de 30 anos. 2025 marca o ponto de viragem, quando os custos crescentes superam a capacidade do país para os pagar. O chefe da redação do Financial Times em Tóquio, Leo Lewis, analisa a forma como o país geriu a sua lenta crise demográfica e o que o resto do mundo pode aprender com a sua experiência.

Se pensa que a migração vai mudar alguma coisa, vai ter uma grande surpresa.75% dos países do mundo estão abaixo da taxa de reposição populacional, pelo que a crise é global (até a Índia começa a perder população nas zonas mais densamente povoadas).

O problema é que hoje em dia tudo é inacessível, ter filhos é muito caro. O problema deve-se principalmente à questão económica.

O que se está a ver é apenas capitalismo em fase terminal: foco nos ganhos dos acionistas das megacorporações, que precisam de aumentar os lucros a cada trimestre, até que isso deixe de acontecer. Assim, a única forma de aumentar os lucros é cortando nos custos e aumentando o horário de trabalho. No final, a maior parte da riqueza está concentrada em mãos privadas, com algumas empresas a fornecer a maior parte dos bens e serviços, enquanto a maior parte da população acaba por ter dificuldades em pagar a habitação, a alimentação e, claro, ter filhos. No final, as corporações acabarão por ter fábricas muito eficientes, cheias de robôs e IA, prontas para vender bens e serviços a ninguém, uma vez que ninguém pode comprar nada. Perfeito: autodestruição infligida pela ganância.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Música do BioTerra: Love and Rockets - Express Kundalini


[Verse 1]
This is an announcement
For the transcendental run
The train now standing
Leaves for higher planes
Due to a derailment
There will be no other train
So why not hop on this one?
Hear the porter's glad refrain

Each carriage is connected
As is every single train
The rails all form a track
Which is a link within a chain
The chain's connected
To another chain now
You will need no ticket
If you wish to ride on this train

[Chorus]
Woot woo!
Woot woo!
Woot woo!
Woot woo! Woot woo!
All aboard the express Kundalini
All aboard the express Kundalini
All aboard the express Kundalini
You might also like

[Bridge]
The song is in your heart
Your heart is in the song
The song is of the earth
The song is of the sky

[Verse 2]
You are disintegrating
Into everything around
Reintegrating
The worm we dug from higher ground
You have let go of ego
Ego is no longer you
Closer to nirvana
Since the porter's whistle blew

[Chorus]
All aboard the express Kundalini
All aboard the express Kundalini
All aboard the express Kundalini
Woot woo!

A energia Kundalini, conhecida também como Shakti, é uma energia espiritual que está localizada na base da coluna. O conceito de energia Kundalini existe há séculos e foi mencionado em antigos textos védicos de 1.000 aC.
A Kundalini Shakti é considerada a consciência divina presente no corpo, dividida entre a parte superior e inferior do corpo, ao ativar a energia Kundalini de forma segura, ela ajuda a equilibrar os chakras, aumentar o nível de consciência e bem-estar.
Quando a energia Kundalini Shakti é despertada e se eleva dentro de nós, toda a nossa vida se torna uma dança de alegria e bem-aventurança.

O que é Kundalini
O termo Kundalini vem da palavra em sânscrito kundal, que significa circular. Também se refere a uma cobra enrolada. Essa energia se manifesta no corpo através dos chakras, subindo ou descendo, provocando diferentes emoções.
Quando a kundalini se move para o topo da cabeça, no chakra coronário, é possível experimentar o estado de plenitude e bem-aventurança. Sentimentos de conexão começam a surgir com tudo e todos. Os antigos Rishis retratam cada um dos sete Chakras na forma de uma lótus ou de diferentes pétalas de flores, representando a consciência sutil, fresca e delicada.

Kundalini e os Chakras
A energia kundalini flui através dos chakras, num movimento ascendente ou descendente, provocando diferentes emoções, sentimentos ou sensações. É uma energia que se manifesta de diferentes maneiras nas diferentes regiões do corpo.
Os sete chakras ou sete centros nervosos estão conectados com diferentes glândulas do corpo – glândula tiróide, glândulas adrenal, glândula pituitária, glândula pineal, etc.
A ciência prova o que os antigos Rishis, sábios espirituais, afirmavam nas escrituras sagradas há milhares de anos atrás – cada uma dessas glândulas são responsáveis ​​por diferentes tipos de emoções.
Quando a energia kundalini está adormecida nos chakras é comum sentir sensações como inércia, raiva, apego, preguiça, etc. Quando ela é ativada, a inércia se transforma em entusiasmo, depois em criatividade. Do sentimento criativo, surge a alegria, e quando estamos felizes naturalmente surge a generosidade.
Então a energia se move para o chakra do coração, onde é possível sentir amor por todos ao redor, desencadeando o sentimento de gratidão e logo após, o estado de alerta. Trazendo expansão da consciência e bem-aventurança.

O perigoso despertar de Kundalini
É importante salientar sobre a prática correta da meditação kundalini pois o uso de forças e técnicas erradas, podem causar inúmeras consequências. É como se o fusível da lâmpada explodisse, devido ao excesso e surto descontrolado de energia.
Somente com a orientação correta sobre as técnicas, dieta e descanso, o corpo se torna sintonizado e propício para vivenciar esse fenômeno sutil. É importante respeitar o tempo de cada um, pois ao tentar despertar a kundalini shakti pela força, há grandes chances de perder o equilíbrio mental. Só quem tem anos e anos de prática de yoga e profundo conhecimento sobre isso é capaz de realmente praticar essas técnicas de forma adequada sem nenhum efeito colateral.

Meditação Kundalini
Quando a energia sobe naturalmente e através da técnica adequada, experimenta-se tanto entusiasmo, alegria e pertencimento. Todos estes são sinais de um verdadeiro despertar de shakti (energia).
Só é possível meditar quando a kundalini está desperta. Sempre que acontece a meditação, toda essa energia cintilante flui por todo o seu ser. Isso é o que é Kundalini.
O despertar da energia acontece muito naturalmente durante o Sudarshan Kriya, técnica de respiração da Arte de Viver. Por ser uma prática segura é possível sentir, de forma muito natural, cada célula do corpo desperta e viva.
Não tente fazer tudo isso à força, caso contrário você perderá perder o sono.

Kundalini e a serpente – Compreensão mitológica
A energia kundalini foi simbolicamente comparada a uma serpente. Nas histórias mitológicas, diz-se que a Mãe Terra repousa sobre os capuzes da serpente – Shesha Naag, que simboliza a força centrípeta e a força centrífuga. O planeta Terra é sustentado por esses dois tipos de forças. Essas forças não atuam em uma direção linear. Essas forças atuam de forma circular. Uma cobra também nunca viaja em linha reta. Uma cobra se enrola de maneira quase circular à medida que avança. O movimento da serpente é impulsionado por forças centrípetas e centrífugas.
O Shesha Naag simboliza as duas forças – centrípeta e centrífuga, que sustentam a Terra em sua revolução ao sol, da mesma forma o simbolismo da serpente kundalini representa a força vital que nos sustenta. Isso não significa que você deve procurar uma cobra dentro do seu corpo ou nem que você precise procurar uma flor de lótus.

Kundalini Yoga
O kundalini yoga é praticado para ativar a energia shakti, o que permite que ela se mova para cima e através dos chakras ao longo da coluna. A prática de kundalini yoga combina canto, posturas de yoga e respiração:
Canto de abertura: Cada aula começa com um mantra de abertura.Pranayama ou aquecimento: É comum realizar exercícios de respiração, chamados pranayamas, e às vezes movimentos para alongar a coluna. O objetivo do pranayama é praticar o controle da respiração.Kriya: Palavra em sânscrito que significa purificação, é uma sequência de posturas, pranayama ou mudras – posições das mãos. A duração e intensidade do kriya depende do professor.Relaxamento: Permite que seu corpo e mente absorvam os efeitos de um kriya.Meditação: O professor pode guiar uma meditação para cultivar a expansão da consciência.Canto de encerramento: A aula termina com um mantra de encerramento.


Efeitos do kundalini no corpo
À medida que a energia kundalini desperta, é muito comum se sentir mais conectado espiritualmente consigo mesmo e com os outros, e surgir sentimentos como:
  1. mais empatia
  2. aumento da criatividade
  3. carisma
  4. aumento de energia
  5. paz interior

terça-feira, 19 de março de 2024

Nuno Júdice - Fragmentos


Fôssemos assim, inundados desta sabedoria.

1
Aceita o transitório; nada do que
é definitivo, dura, te pode atingir
2
Algo de visível perpassa
nos limites do ser.
3
De noite, o vento partiu
um dos vidros das traseiras.
4
Só o ruído da noite sobrevive
à luz e ao furor matinais.
5
(Se aquelas nuvens, no horizonte,
chegassem até mim…)
6
O fragmento, porém, exprime
o estilhaçar da intensidade.
7
No último fragmento, fixa
o efémero e repousa.

In Meditação sobre Ruínas

sábado, 22 de janeiro de 2022

Thich Nhat Hanh - vida e obra

O amado professor e ativista dos direitos civis foi um pioneiro do budismo engajado que popularizou a atenção plena em todo o mundo.
Thich Nhat Hanh com o Dr. Martin Luther King Jr. em uma coletiva de imprensa conjunta em 31 de maio de 1966 Chicago Sheraton Hotel | Cortesia da Comunidade Plum Village do Budismo Engajado

O mestre zen vietnamita Thich Nhat Hanh - um líder espiritual, autor, poeta e ativista da paz de renome mundial - morreu neste sábado (22) à meia-noite (horário local), em seu templo raiz, o Templo Tu Hien, em Hue, Vietnã. Ele tinha 95 anos.

“Nosso amado professor Thich Nhat Hanh faleceu em paz”, disse sua sangha, a Plum Village Community of Engaged Buddhism, em um comunicado. “Convidamos nossa família espiritual global a tirar alguns momentos para ficar quieta, para voltar à nossa respiração consciente, enquanto juntos mantemos Thay em nossos corações em paz e gratidão amorosa por tudo que ele ofereceu ao mundo.”

Estava Com A Saúde Debilitada

Thich Nhat Hanh estava com a saúde em declínio desde que sofreu uma grave hemorragia cerebral em novembro de 2014, e logo após seu aniversário de 93 anos em 10 de outubro de 2019, ele deixou o Templo Tu Hien para visitar um hospital em Bangkok e ficou por algumas semanas em Thai Plum Village em Pak Chong, perto do Parque Nacional Khao Yai, antes de retornar a Hue em 4 de janeiro de 2020. Ele havia retornado ao Vietnã no final de 2018, expressando o desejo de passar os dias restantes em seu templo raiz.

Conhecido Como Professor, Foi Autor De Cerca De 100 Livros

Conhecido por seus milhares de seguidores em todo o mundo como Thây - vietnamita para professor - Nhat Hanh era amplamente considerado entre os budistas, perdendo apenas para Sua Santidade o 14º Dalai Lama no escopo de sua influência global. Autor de cerca de 100 livros – 75 em inglês – fundou nove mosteiros e dezenas de centros de prática afiliados e inspirou a criação de milhares de comunidades locais de mindfulness. Nhat Hanh é creditado por popularizar a atenção plena e o “budismo engajado” (ele cunhou o termo), ensinamentos que não apenas são centrais para a prática budista contemporânea, mas também penetraram no mainstream. Por muitos anos, Thich Nhat Hanh tem sido uma visão familiar em todo o mundo, liderando longas filas de pessoas em silenciosa meditação andando “consciente”.

É difícil exagerar a importância do papel de Thich Nhat Hanh no desenvolvimento do budismo no Ocidente, particularmente nos Estados Unidos. Ele foi sem dúvida o catalisador mais significativo para o envolvimento da comunidade budista com as preocupações sociais, políticas e ambientais. Hoje, esse aspecto do budismo ocidental é amplamente aceito, mas quando Nhat Hanh começou a ensinar regularmente na América do Norte, o ativismo era altamente controverso nos círculos budistas, desaprovado pela maioria dos líderes budistas, que o consideravam uma distração do foco no despertar. Em uma época em que o budismo ocidental era notavelmente paroquial, a visão não sectária de Nhat Hanh motivou muitos professores a alcançar e construir laços com outras comunidades e tradições do dharma. Não seria exagero dizer que sua visão inclusiva lançou as bases para o florescimento de publicações budistas, incluindo Tricycle, nos últimos 35 anos.

Embora Thich Nhat Hanh fosse um professor e líder singular e inovador, ele também estava imerso na tradição budista de seu Vietnã natal. Mais do que qualquer outro mestre zen, ele trouxe o caráter essencial do budismo vietnamita – ecumênico, cosmopolita, politicamente engajado, artisticamente orientado – à mistura de influências culturais que alimentaram o desenvolvimento do budismo no Ocidente.

Nascido Nguyen Xuan Bao no centro do Vietnã em 1926, Nhat Hanh tinha 16 anos quando se juntou ao Templo Tu Hieu em Hue como monge noviço na escola Linchi (Rinzai em japonês) do Zen vietnamita. Ele estudou na Academia Budista Bao Quoc, mas ficou insatisfeito com o conservadorismo dos ensinamentos e procurou tornar a prática budista mais relevante para a vida cotidiana. (De forma reveladora, ele foi o primeiro monge no Vietnã a andar de bicicleta.) Buscando se expor às ideias modernas, estudou ciências na Universidade de Saigon, retornando mais tarde para a Academia Budista, que incorporou algumas das reformas que ele havia proposto. Nhat Hanh recebeu a ordenação completa em 1949 em Tu Hieu, onde seu professor primário foi o mestre Zen Thanh Quý Chân Thậ.

Nos anos 1950 e início dos anos 1960, Nhat Hanh assumiu papéis de liderança que eram precursores da escrita prolífica e do ativismo implacável que seu futuro reservava. No início dos anos 50, ele iniciou uma revista, The First Lotus Flowers of the Season, para visionários que promoviam reformas, e mais tarde editou o Budismo Vietnamita, um periódico da Igreja Budista Unificada do Vietnã (UBCV), grupo que reunia várias seitas budistas em resposta à perseguição do governo na época. Em 1961, o budismo vietnamita foi fechado por líderes budistas conservadores, mas Nhat Hanh continuou a escrever em oposição à repressão do governo e à guerra que estava aumentando no Vietnã.

Nhat Hanh viajou pela primeira vez para os Estados Unidos em 1961, para estudar religião comparada na Universidade de Princeton. No ano seguinte, foi convidado a ensinar budismo na Universidade de Columbia. Em 1963, quando o regime de Diem aumentou a pressão sobre os budistas vietnamitas, Nhat Hanh viajou pelos Estados Unidos para obter apoio para os esforços de paz em casa. Após a queda de Diem, ele retornou ao Vietnã e, em 1964, dedicou-se ao ativismo pela paz ao lado de outros monges. Nhat Hanh tornou-se um oponente amplamente visível da guerra e estabeleceu a Escola da Juventude para Serviço Social (SYSS), um programa de treinamento para trabalhadores da paz budistas que trouxe educação, assistência médica e infraestrutura básica para vilarejos em todo o Vietnã. Em fevereiro de 1966, com seis líderes da SYSS, ele estabeleceu a Ordem do Interser, uma sangha internacional dedicada à paz interior e à justiça social, guiada por seu profundo compromisso ético com a interdependência entre todos os seres.

Em 1º de maio de 1966, no Templo Tu Hieu, Nhat Hanh recebeu a transmissão do dharma do Mestre Chan That, tornando-se um professor da linha do dharma Lieu Quan na quadragésima segunda geração da escola Lam Te Dhyana. Pouco depois, ele viajou pela América do Norte, pedindo o fim das hostilidades em seu país. Ele pediu ao secretário de Defesa dos EUA, Robert S. McNamara, que pare de bombardear o Vietnã e, em uma entrevista coletiva, esboçou uma proposta de paz de cinco pontos. Nessa viagem, ele também se encontrou com o monge trapista, ativista social e autor Thomas Merton na abadia de Merton em Kentucky. Reconhecendo uma alma gêmea, Merton mais tarde publicou um ensaio, “Nhat Hanh é meu irmão”.

Enquanto nos EUA, Nhat Hanh exortou o reverendo Dr. Martin Luther King Jr. a condenar publicamente a guerra no Vietnã. Em abril de 1967, King se manifestou contra a guerra em um famoso discurso na Riverside Church de Nova York. Prêmio Nobel, King nomeou Nhat Hanh para o Prêmio Nobel da Paz em uma carta ao Comitê Nobel que chamou o monge vietnamita de “um apóstolo da paz e da não violência, cruelmente separado de seu próprio povo enquanto eles são oprimidos por uma guerra cruel”. Nhat Hanh não recebeu o Prêmio Nobel da Paz: ao anunciar publicamente a indicação, King violou uma proibição estrita do Comitê do Nobel.

Impedido De Retornar À Sua Terra Natal

O ativismo antiguerra e a recusa de Thich Nhat Hanh em tomar partido enfureceram tanto o Vietnã do Norte quanto o do Sul, e após sua turnê pelos EUA e Europa, ele foi impedido de retornar à sua terra natal. Ele recebeu asilo na França, onde foi nomeado para liderar a delegação de paz budista aos Acordos de Paz de Paris. Em 1975, Nhat Hanh fundou Les Patates Douce, ou a comunidade “Sweet Potato” perto de Paris. Em 1982, mudou-se para Dordogne no sudoeste da França e foi renomeado Plum Village. O que começou como uma pequena sangha rural desde então se transformou em um lar para mais de 200 monges e cerca de 8.000 visitantes anuais. Sempre um forte defensor das crianças, Nhat Hanh também fundou a Wake Up, uma rede internacional de sanghas para jovens.

Após 39 anos no exílio, Nhat Hanh retornou ao Vietnã pela primeira vez em 2005 e novamente em 2007. Durante essas visitas, ele deu ensinamentos a multidões de milhares e também se encontrou com o presidente vietnamita em exercício, Nguyen Minh Triet. Embora recebidas com alarde considerável, as viagens também provocaram críticas dos ex-colegas de Nhat Hanh na UBCV, que achavam que as visitas davam credibilidade a um regime opressor. Mas consistente com sua posição de muitos anos, Nhat Hanh fez propostas públicas e privadas instando o governo vietnamita a aliviar suas restrições à prática religiosa.

Viajou Pelo Mundo Ensinando E Liderando

Fluente em inglês, francês e chinês, além de vietnamita, Nhat Hanh continuou a viajar pelo mundo ensinando e liderando retiros até seu derrame em 2014, que o deixou incapaz de falar. Mas o legado de Nhat Hanh continua em seu vasto catálogo de trabalhos escritos, que inclui ensinamentos acessíveis, erudição rigorosa, comentários bíblicos, pensamento político e poesia. Amado por seus versos calorosos e evocativos, Nhat Hanh publicou uma coleção de poesia intitulada Call Me By My True Names em 1996. Seu trabalho instrutivo e explicativo inclui Vietnam: Lotus in a Sea of Fire, publicado em 1967, e best-sellers como Peace is Every Step (1992), The Miracle of Mindfulness (1975, reeditado em 1999) e Living Buddha, Living Christ (1995).

Além de seus seguidores em todo o mundo, Nhat Hanh deixa para trás muitos irmãos e irmãs próximos no dharma, principalmente a irmã Chan Khong. Amiga de longa data e ativista por direito próprio, ela assumiu um papel de liderança mais pronunciado na sangha nos últimos anos.

Saber mais:
Zen Master

domingo, 14 de novembro de 2021

Bauhaus - Kick in the Eye

Melhor som aqui
And he spoke of pastures green
I was never told why
Each journey lasts an age
And my throat feels dry
It must be the lesson
Hidden deep inside
It must be the lesson
So roll the tide

So I began the crossing
My throat burned dry
Searching for Satori
The kick in the eye
I am the end of reproduction
Given no direction
Every care is taken
In my rejection

Kick in the eye

Every care is taken
With my rejection
And my abduction
To my addiction
Every care is taken
With my protection
And my abduction
From my addiction

Kick in the eye

Bauhaus e "Kick in the Eye": origens, estética e significado
Os Bauhaus são uma banda de pós-punk e rock gótico originária de Northampton, na Inglaterra (Reino Unido). Formados em 1978, adoptaram inicialmente o nome Bauhaus 1919, uma referência directa à famosa escola de arte, design e arquitectura fundada por Walter Gropius na Alemanha nesse mesmo ano. A escolha do nome reflectiu a vontade do grupo de unir estética, minimalismo e experimentação visual e sonora, procurando criar uma obra total que transcendesse a música convencional, tal como a instituição alemã procurou unir as várias vertentes artísticas num único movimento.

A canção "Kick in the Eye", lançada em 1981 e integrada no álbum Mask, explora temas como o impacto social, o choque e o confronto com a realidade. O título - uma expressão em inglês que significa levar um "duro golpe" ou passar por uma "desilusão súbita" - serve de metáfora para aqueles momentos da vida em que somos surpreendidos de forma abrupta por uma verdade desconfortável ou uma reviravolta inesperada. Estilisticamente, a faixa enquadra-se no pós-punk e no nascimento do rock gótico, mas destaca-se por uma forte e inusitada fusão com ritmos funk e dub.

O começo envolvente do tema deve a sua magia à dinâmica rítmica singular criada pela banda. A música abre com uma linha de baixo proeminente e pulsante de David J, combinada com uma bateria seca e cheia de groove de Kevin Haskins e o som marcante de blocos de madeira (woodblock) ou claves a dar o tempo. Em vez de entrar logo com guitarras densas e sombrias, o tema estabelece um ritmo tribal, seco e hipnótico através desta percussão incisiva, criando um contraste fascinante entre a energia física da batida e a atmosfera soturna característica do grupo.

No que toca às influências artísticas, literárias e filosóficas, os Bauhaus alimentavam-se do Expressionismo Alemão, do Existencialismo e da literatura decadente e de terror dos séculos XIX e XX.

No Expressionismo Alemão, a influência nota-se na estética dos telediscos e da iluminação de palco. Inspirados em filmes como O Gabinete do Doutor Caligari (1920) e Nosferatu (1922), os Bauhaus usavam luzes rasantes de baixo para cima, sombras alongadas e maquilhagem pálida e angular. Peter Murphy adoptou a linguagem corporal dramática e espasmódica dos actores do cinema mudo expressionista (como Conrad Veidt), transformando o palco num cenário teatral sombrio.

Na literatura, as referências eram explícitas e estruturais. Edgar Allan Poe influenciou o imaginário de decadência e a obsessão pela mortalidade e pelo isolamento, algo evidente em temas como "In the Flat Field". Oscar Wilde inspirou o lado dândi, a estética do romantismo sombrio e a busca da beleza no trágico; a banda homenageou-o directamente na canção "Of Lillies and Remains" e na própria postura visual refinada e maquilhada de Murphy e Daniel Ash. De Antonin Artaud e o "Teatro da Crueldade", os Bauhaus retiraram o conceito de usar o espectáculo não para entreter, mas para agredir os sentidos do público, recorrendo a luzes estroboscópicas violentas, vocalizações guturais e uma entrega física extrema que visava libertar emoções reprimidas.

Filosoficamente, o grupo aproximou-se do Existencialismo e do Absurdismo de Camus e Sartre ao abordar o vazio urbano, a alienação e a perda de sentido na sociedade moderna pós-industrial. A rejeição do materialismo traduzia-se na ausência de adereços supérfluos: em consonância com o princípio da própria escola de arquitectura Bauhaus - onde a forma segue a função -, o grupo despia a sua música de arranjos complexos, reduzindo a sonoridade ao essencial (baixo rítmico, guitarra crua e sem harmonias tradicionais, percussão seca e voz). Essa austeridade formal, combinada com o dramatismo visceral dos seus temas, criou a matriz estética que definiu a subcultura gótica.


Versão Searching for Satori (2)
O enigma de Satori no caos Pós-Punk
A inclusão do verso "Searching for Satori" introduz uma dimensão espiritual e orientalista na narrativa de "Kick in the Eye", criando um contraste intencional com o tom caótico e urbano do pós-punk. No Budismo Zen, Satori  representa a iluminação espiritual súbita, o despertar imediato ou um vislumbre instantâneo da verdadeira natureza da realidade. A sua presença no texto articula-se em três eixos fundamentais, a começar pela justa posição irónica entre o título da canção e a própria busca espiritual. Enquanto o Satori pressupõe uma revelação interior e edificante, o protagonista encontra ao longo do tema um duro golpe exterior - uma desilusão abrupta -, retratando a procura ingénua por significado num mundo absurdo e hostil onde a tentativa de elevação resulta num confronto doloroso com a realidade. Por outro lado, esta referência reflecte a forte influência da Geração Beat e da filosofia oriental na contracultura ocidental. A introdução do Zen no pós-punk deveu-se em grande parte a autores como Jack Kerouac - no seu livro Satori in Paris - e Allen Ginsberg, cujas obras inspiraram os Bauhaus a absorver a busca por estados alterados de consciência e pela evasão espiritual perante o cenário alienante da era pós-industrial. Finalmente, a frase traduz o próprio desespero existencial do final dos anos 70 e início dos anos 80, funcionando como a tentativa de encontrar transcendência, paz ou ordem interior numa Grã-Bretanha marcada pelo desencanto político e social. Repetida ao longo da faixa como um mantra frustrado, a expressão simboliza essa busca interminável por algo superior que continua sistematicamente a escapar ao indivíduo.

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domingo, 23 de fevereiro de 2020

O pensamento de George Ohsawa

O pensamento de George Ohsawa é uma síntese filosófica que transcende a simples dietética para se afirmar como um sistema de compreensão do mundo. No âmago da sua doutrina reside o Princípio Único, a lei da mudança eterna regida pela dinâmica entre o Yin e o Yang. Para Ohsawa, o universo não é um conjunto de objetos isolados, mas sim um fluxo constante de energia onde os opostos se procuram e se transformam mutuamente. Esta visão cosmológica serve de base para o que ele designou como o "Julgamento Supremo", a capacidade humana de perceber a unidade por trás de toda a dualidade e, assim, alcançar a liberdade absoluta.

A saúde, neste contexto, é interpretada como um estado de harmonia biológica que permite a expansão da consciência. Ohsawa defendia que o sangue é o suporte físico do pensamento e que a sua qualidade depende inteiramente do que ingerimos e do ambiente onde vivemos. Ao escolhermos alimentos que respeitam a ordem da natureza — privilegiando os cereais integrais como centro equilibrador e os produtos locais e sazonais — estaríamos a alinhar a nossa vibração interna com a do planeta. A doença não era vista por ele como um inimigo a abater, mas como um sinal corretor, um aviso pedagógico de que o indivíduo se desviou das leis naturais.

Para além da mesa, o pensamento de Ohsawa é profundamente ético e pragmático. Ele acreditava que a paz mundial e a felicidade individual eram impossíveis sem a reforma do entendimento humano através da autodisciplina. O seu conceito de "Não-Dualidade" implica que a felicidade e a infelicidade são duas faces da mesma moeda, e que o homem sábio é aquele que aceita as dificuldades com gratidão, utilizando-as como combustível para o crescimento espiritual. Em última análise, a Macrobiótica de Ohsawa é um convite à autonomia: uma via para que cada ser humano se torne o seu próprio mestre, capaz de gerir a sua saúde e o seu destino através da compreensão das leis universais.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Leonard Cohen - Happens to the Heart


Depois da deslumbrante “The Goal”, “Happens To The Heart” é a nova e lindíssima canção extraída de “Thanks For The Dance”. O álbum póstumo de Leonard Cohen, compilado e produzido pelo seu filho, chega dia 22 de Novembro.

Quando Leonard Cohen morreu em 2016, deixou-nos a imensa riqueza de uma vasta e luxuosa discografia. Essa riqueza irá ser aumentada. Dia 22 de Novembro é a data de chegada de um novo álbum póstumo, “Thanks For The Dance”. Depois da curta, mas deslumbrante canção “The Goal”, o primeiro single deste trabalho, estreou hoje a lindíssima “Happens To The Heart”.

A canção está acompanhada de vídeo realizado por Daniel Askill. Nele, seguimos uma figura, que pretende evocar o próprio Cohen, através de um bosque. No decorrer do vídeo descobrimos um jovem que se despe das roupas de Cohen e, ao encontrar um monge, assume roupas monásticas orientais, dirigindo-se então a um precipício onde se senta em meditação.

“Happens to the Heart é uma reflexão final de Leonard Cohen sobre a própria vida, unindo espiritualidade, memória, amor e mortalidade. A canção funciona como um testamento íntimo em que Cohen revisita diferentes versões de si mesmo — o monge zen, o poeta, o amante, o homem falho — e tenta compreender o que realmente acontece ao coração depois de tudo aquilo que nos forma e nos destrói. Ele fala da busca sincera pela iluminação e da constatação inevitável das próprias imperfeições, reconhecendo que, apesar de ter trilhado caminhos espirituais rigorosos, nunca conseguiu escapar totalmente do ego e da vaidade. O amor também surge como força central: ora ilumina, ora fere, deixando marcas que moldam o coração ao longo da vida. A pergunta repetida, “What happens to the heart?”, sintetiza a dúvida essencial do fim da vida: o que resta de nós quando as paixões, as ambições e as ilusões se esgotam? Escrito quando Cohen já estava muito doente, o poema-musical transmite um olhar terno e lúcido sobre as memórias, as falhas e o legado pessoal, revelando um homem que busca não respostas definitivas, mas aceitação.

“Thanks For The Dance” foi compilado e produzido por Adam Cohen, filho do cantor. O álbum conta com as participações de Feist, Beck, Damien Rice, Richard Reed Parry, Bryce Dessner (dos National) e Daniel Lanois, entre outros.

I was always working steady
But I never called it art
I was funding my depression
Meeting Jesus reading Marx
Sure it failed my little fire
But it's bright the dying spark
Go tell the young messiah
What happens to the heart

There’s a mist of summer kisses
Where I tried to double-park
The rivalry was vicious
And the women were in charge
It was nothing, it was business
But it left an ugly mark
So I’ve come here to revisit
What happens to the heart

I was selling holy trinkets
I was dressing kind of sharp
Had a pussy in the kitchen
And a panther in the yard
In the prison of the gifted
I was friendly with the guard
So I never had to witness
What happens to the heart

I should have seen it coming
You could say I wrote the chart
Just to look at her was trouble
It was trouble from the start
Sure we played a stunning couple
But I never liked the part
It ain’t pretty, it ain’t subtle
What happens to the heart

Now the angel’s got a fiddle
And the devil’s got a harp
Every soul is like a minnow
Every mind is like a shark
I've opened every window
But the house, the house is dark
Just say Uncle, then it's simple
What happens to the heart

I was always working steady
But I never called it art
The slaves were there already
The singers chained and charred
Now the arc of justice bending
And the injured soon to march
I lost my job defending
What happens to the heart

I studied with this beggar
He was filthy he was scarred
By the claws of many women
He had failed to disregard
No fable here no lesson
No singing meadow lark
Just a filthy beggar blessing
What happens to the heart

I was always working steady
But I never called it art
I could lift, but nothing heavy
Almost lost my union card
I was handy with a rifle
My father's 303
We fought for something final
Not the right to disagree

June 24, 2016

"Happens to the Heart" é uma meditação profunda e desiludida sobre o balanço final de uma vida dedicada à arte, ao espírito e ao desejo. Nesta canção, Leonard Cohen apresenta-se não como um mestre iluminado, mas como um sobrevivente exausto que, após percorrer todos os caminhos possíveis — a religião, a política, o sexo e a fama —, conclui que nada disto o poupou ao desgaste inevitável da existência.

A letra funciona como um inventário de máscaras que ele usou. Quando ele diz que "vendia quinquilharias sagradas" ou que "andava bem vestido", está a admitir, com uma ironia fina, que a sua imagem de poeta espiritual era também uma espécie de encenação. Ele descreve a sua busca por respostas (citando o encontro entre o sagrado de Jesus e o materialismo de Marx) como uma tentativa fútil de "financiar a depressão", sugerindo que as ideologias foram apenas distrações para uma dor interna que nunca desapareceu.

Um dos pontos centrais da música é a ideia da perda de inocência e a aceitação do fracasso. Cohen fala de um "mendigo imundo" com quem estudou, que foi incapaz de resistir às tentações das mulheres, servindo como um espelho do próprio Cohen: um homem que, apesar de procurar a transcendência, nunca deixou de ser escravo da sua natureza humana e dos seus apetites. Não há aqui uma lição moralista ou um final feliz; há apenas a constatação de que o coração, ao longo do tempo, é inevitavelmente marcado, endurecido e "ferido" pelas experiências.

O uso de termos como o "cartão do sindicato" ou o "rifle do pai" reforça a ideia de que ele encarou a vida e a escrita como um trabalho braçal, uma luta constante ("working steady"). No fim, a casa está escura e todas as janelas estão abertas, simbolizando um homem que já não tem segredos nem defesas. A canção é, em última análise, um gesto de rendição elegante. Cohen diz-nos que, independentemente do sucesso que alcancemos ou da sabedoria que acumulemos, o destino final é sempre o mesmo: a aceitação estóica do dano que a vida inflige ao coração.

sábado, 26 de maio de 2018

O cosmos radiante, por Thich Nhat Hanh

Réka Zsirmon
“O cosmos radiante e elegante que podemos observar é na verdade a nossa própria consciência e não algo exterior a ela” ~ Thich Nhat Hanh

sábado, 28 de abril de 2018

Caminha comigo - uma viagem pela atenção plena com Thich Nhat Hanh


Narrado por Benedict Cumberbatch, Caminha Comigo é um trajecto cinematográfico pelo mundo da mindfulness (atenção plena) – o exercício de focar a nossa atenção no momento presente – e do famoso Mestre Thich Nhat Hanh, conhecido como o "Pai da Mindfulness". Filmado ao longo de três anos e com um acesso sem precedentes, o filme proporciona a descoberta rara de uma comunidade de pessoas que deixou a sua família e prescindiu de todos os seus bens para se juntar a Thich Nhat Hanh no mosteiro Plum Village, em França, e com ele praticar a arte da mindfulness.


Nascido no Vietname a 11 de outubro de 1926, Thich Nhat Hanh é um monge budista que se tornou mundialmente conhecido devido às suas acções pacifistas na luta pelos direitos humanos. Em Saigão, no início dos anos 60, enquanto decorria a Guerra entre o Vietname e os EUA, fundou a Escola de Serviço Social da Juventude, uma organização de apoio popular que se dedicou à reconstrução de aldeias bombardeadas, ajuda às famílias deslocadas e à criação de escolas e centros médicos. Reunindo cerca de dez mil estudantes voluntários, a organização baseou o seu trabalho nos princípios budistas da compaixão e não-violência. Depois de, em 1966, visitar os EUA e a Europa, numa missão de paz, foi proibido de entrar no seu país-natal sendo obrigado a adquirir o estatuto de refugiado político em França. Passava a maior parte do seu tempo em Plum Village, uma comunidade budista localizada no sul de França, criada por si e por Chân Không, onde são regularmente organizados retiros espirituais.

Um filme de Marc J.Francis e Max Pugh
Com Thich Nhat Hanh
Narrado por Benedict Cumberbatch | M/14

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Thich Nhat Hanh- We Need a Revolution: It Starts with Falling in Love with the Earth


We and the Earth are One

The Earth is our mother, nourishing and protecting us in every moment–giving us air to breathe, fresh water to drink, food to eat and healing herbs to cure us when we are sick. Every breath we inhale contains our planet’s nitrogen, oxygen, water vapor and trace elements. When we breathe with mindfulness, we can experience our interbeing with the Earth’s delicate atmosphere, with all the plants, and even with the sun, whose light makes possible the miracle of photosynthesis. With every breath, we can experience communion. With every breath, we can savor the wonders of life.

We need to change our way of thinking and seeing things. We need to realise that the Earth is not just our environment. The Earth is not something outside of us. Breathing with mindfulness and contemplating your body, you realise that you are the Earth. You realise that your consciousness is also the consciousness of the Earth. Look around you–what you see is not your environment, it is you.

Great Mother Earth

Whatever nationality or culture we belong to, whatever religion we follow, whether we’re Buddhists, Christians, Muslims, Jews, or atheists, we can all see that the Earth is not inert matter. She is a great being, who has herself given birth to many other great beings–including Buddhas and bodhisattvas, prophets and saints, sons and daughters of God and humankind. The Earth is a loving mother, nurturing and protecting all peoples and all species without discrimination.

When you realise the Earth is so much more than simply your environment, you’ll be moved to protect her in the same way as you would yourself. This is the kind of awareness, the kind of awakening that we need, and the future of the planet depends on whether we’re able to cultivate this insight or not. The Earth and all species on Earth are in real danger. Yet if we can develop a deep relationship with the Earth, we’ll have enough love, strength and awakening in order to change our way of life.

Falling in Love

We can all experience a feeling of deep admiration and love when we see the great harmony, elegance and beauty of the Earth. A simple branch of a cherry blossom, the shell of a snail or the wing of a bat–all bear witness to the Earth’s masterful creativity. Every advance in our scientific understanding deepens our admiration and love for this wondrous planet. When we can truly see and understand the Earth, love is born in our hearts. We feel connected. That is the meaning of love: To be at one.

Only when we’ve truly fallen back in love with the Earth will our actions spring from reverence, and the insight of our interconnectedness. Yet many of us have become alienated from the Earth. We are lost, isolated and lonely. We work too hard, our lives are too busy, and we are restless and distracted, losing ourselves in consumption. But the Earth is always there for us, offering us everything we need for our nourishment and healing: The miraculous grain of corn, the refreshing stream, the fragrant forest, the majestic snow-capped mountain peak, and the joyful birdsong at dawn.

True Happiness is Made of Love

Many of us think we need more money, more power or more status before we can be happy. We’re so busy spending our lives chasing after money, power and status that we ignore all the conditions for happiness already available. At the same time, we lose ourselves in buying and consuming things we don’t need, putting a heavy strain on both our bodies and the planet. Yet much of what we drink, eat, watch, read or listen to, is toxic and is polluting our bodies and minds with violence, anger, fear and despair.

As well as the carbon dioxide pollution of our physical environment, we can speak of the spiritual pollution of our human environment: The toxic and destructive atmosphere we’re creating with our way of consuming. We need to consume in such a way that truly sustains our peace and happiness. Only when we’re sustainable as humans will our civilization become sustainable. It is possible to be happy in the here and the now.

We don’t need to consume a lot to be happy; in fact, we can live very simply. With mindfulness, any moment can become a happy moment. Savoring one simple breath, taking a moment to stop and contemplate the bright blue sky, or to fully enjoy the presence of a loved one, can be more than enough to make us happy. Each one of us needs to come back to reconnect with ourselves, with our loved ones and with the Earth. It’s not money, power or consuming that can make us happy, but having love and understanding in our heart.

The Bread in Your Hand is the Body of the Cosmos

We need to consume in such a way that keeps our compassion alive. And yet many of us consume in a way that is very violent. Forests are cut down to raise cattle for beef, or to grow grain for liquor, while millions in the world are dying of starvation. Reducing the amount of meat we eat and alcohol we consume by 50% is a true act of love for ourselves, for the Earth and for one another. Eating with compassion can already help transform the situation our planet is facing, and restore balance to ourselves and the Earth.

Nothing is More Important than Brotherhood and Sisterhood

There’s a revolution that needs to happen and it starts from inside each one of us. We need to wake up and fall in love with Earth. We’ve been homo sapiens for a long time. Now it’s time to become homo conscious. Our love and admiration for the Earth has the power to unite us and remove all boundaries, separation and discrimination. Centuries of individualism and competition have brought about tremendous destruction and alienation. We need to re-establish true communication–true communion–with ourselves, with the Earth, and with one another, as children of the same mother. We need more than new technology to protect the planet. We need real community and co-operation.

All civilisations are impermanent and must come to an end one day. But if we continue on our current course, there’s no doubt that our civilisation will be destroyed sooner than we think. The Earth may need millions of years to heal, to retrieve her balance and restore her beauty. She will be able to recover, but we humans and many other species will disappear, until the Earth can generate conditions to bring us forth again in new forms. Once we can accept the impermanence of our civilization with peace, we will be liberated from our fear. Only then will we have the strength, awakening and love we need to bring us together. Cherishing our precious Earth–falling in love with the Earth–is not an obligation. It is a matter of personal and collective happiness and survival.

Fonte:Up Lift Connect

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

George Ohsawa, Afonso Cautela e os ensinamentos da Filosofia e Medicina do Extremo Oriente, a Macrobiótica

 

Em 1977 o tão pioneiro poeta, jornalista, ecologista e ensaísta Afonso Cautela publicava nos seus cadernos policopiados da Frente Ecológica, jornal de vanguarda, descolonização cultural, macrobiótica zen, bioagricultura, tecnologias leves, luta anti-nuclear, parto sem dor, revolução artesanal, agro-comunas/sociedade paralela, energias infinitas e não poluentes, reconversão de consumos, alternativas à medicina, um número de 36 páginas intitulado A Cura pela Energia, 55 Indicações de base, que representava a sua compreensão dos processos de vida saudável e de cura, baseando-se nos ensinamentos da Filosofia e Medicina tradicional do Extremo Oriente, conforme George Ohsawa ensinara e divulgara no Ocidente e que tinham sido bem acolhidos em alguns países.

Quem fora George Ohsawa de quem celebramos hoje 18 de Outubro de 2023, os 133 anos de nascimento?
Nascera como Nyoiti Sakurazawa, em 1893, em Kyoto, de uma família de samurais empobrecida, já que o Ohsawa veio do francês, Oh ça va..., com que tinha de responder à pergunta, Como está? Aderira ao movimento Shokuiku, Educação alimentar, fundado pelo genial médico Ishizuka Sagen, (1850-1909) e que atingira grande sucesso (no pico, 100 consultas por dia) pelos seus tratamentos pelo equilíbrio alimentar do Yin e Yang, consignados na obra Uma teoria química da nutrição na Saúde e Longevidade.
Nyoiti Sakurazawa aprende com um seu discípulo, Manabu Nishibata e, vindo para o Ocidente, transmitirá esta filosofia do equilíbrio do Yin-Yang, negativo e positivo, feminino e masculino, noite e dia, e sobretudo do conteúdo do potássio (yin) e sódio (yang) no alimentos, iniciando no Ocidente o método macrobiótico (grande vida) de alimentação, como disciplina harmonizadora do corpo e alma, recomendando o uso de cereais, verduras, leguminosas e algas, e a cautela com as proteínas animais, o açúcar e o excesso de Yin, ou seja de alimentos com mais teor de potássio. Os alimentos mais recomendados e utilizados salutarmente, além dos cereais, eram miso, daikon e umesboshi, ainda hoje fazendo parte da dieta nipónica. Regressado ao Japão em 1931, vai aprofundando os seus estudos e análises das pessoas, doenças, sociedades, como filósofo e educador pacifista e quando anos mais tarde prevê a derrota do Japão, é preso, condenado à morte e foi por pouco que escapou e só após depois da rendição nipónica é que foi libertado, consagrando-se de novo aos seus estudos, publicações e ensinamentos da aplicação do Princípio Único do Yin e do Yang da filosofia Taoísta. A sua visão do mundo e dos seus fenómenos, bastante simplificadora e revolucionária face aos conhecimentos e poderes instituídos, embora em certos aspectos datada ou limitada, em muitos outros continua a ser muito rica de um discernimento directo e profundo da vida e da mente humana. Publicou, além de quatro revistas, mais de duzentas obras em japonês, inclusive de história, biografias e traduções (Alexis Carrel, e Northrop's, The meeting of East and West), e vinte delas em francês, já que esteve nos anos 20-30 em Paris, editadas pela reputada Vrin, em 1929 a primeira Le Principe Unique de la Philosophie et de la Science d'Extreme Orient, mas também dadas à luz noutras editoras francesas e belgas, país este onde teve muitos amigos e centros de tal modo que a fábrica de alimentos macrobióticos, que teve o nome da sua mulher Lima, ali nascerá em Gand, e ainda hoje é uma referência da qualidade biológica dos produtos, tendo-a eu visitado em 1982 e nela bem dialogado. A partir de 1957, George Oshawa viaja por todo mundo, ensinando, dialogando e está mesmo na floresta africana cerca de um ano com Albert Schweitzer (1875-1965), o filósofo e místico em acção abnegada pelos leprosos. Em 1961 saiu a sua obra mais popular, a mais prática e condensada, O Zen e a Macrobiótica, que foi traduzida para numerosas línguas. Mas nela, após as muitas páginas de explicação da filosofia do Extremo Oriente e de salutares receitas de bons cozinhados e de ideias práticas quanto ao uso e conservação dos alimentos, termina com um corajoso capítulo intitulado Certificado pro-forma do óbito do império mundial da dinastia americana do ouro, algo que estamos a observar hoje um começo, com o crescimento do BRICS e a diminuição do papel e valor do dólar infinito (impresso ilimitadamente, e logo injusta e corruptamente) no mundo. Será em 1966, de um ataque de coração, que se evolará da Terra.

Ora em Portugal desde os meados dos anos 60 havia alguns núcleos, alimentados por publicações vindas de França e do Brasil e assim em 1969 saía a primeiro número de uma revista do Centro Ignoramus de Macrobiótica Zen, sediada na R. da Emenda, 110, 2º, Lisboa, e que era orientado por Fernando Mesquita e José Galambas. Nela funcionava também o restaurante, a Colmeia, que a breve trecho passou a ser dirigido por Abel Trancoso e depois apoiado pelo calmo e sábio João Ribeiro. Provavelmente foi pela Colmeia que Afonso Cautela teve conhecimento da Macrobiótica, tal como eu e muitas outras pessoas, ainda que no Norte houvesse também um núcleo que teve como dinamizadores Augusto Coutinho e outros donde surgiriam os centros e restaurantes Pirâmide e mais tarde o Suribachi, este ainda hoje vivo, no Porto. A partir de 1975, um discípulo de Ohsawa, Michio Kushi, sediado nos USA, passará a vir a Portugal para seminários e consultas, divulgando o seu aprofundamento da Macrobiótica através da edições da Cooperativa Unimave e da Trigrama, onde ainda trabalhei, fundada por Gomes Ribeiro, um do co-fundadores do Suribachi, com Maria Arminda e Amândio.

Contracapa de uma publicação da Trigrama sobre a Macrobiótica

Essa obra de Afonso Cautela A Cura pela Energia. 55 Indicações de Base, vamos então transcrever algumas partes em homenagem aos 133 anos de George Ohsawa e a Afonso Cautela:


As 55 indicações de base são antecedidas de duas páginas nas quais Afonso Cautela expõe a sua compreensão da cura pelo equilíbrio da polaridade yin e yang da força energia cósmica aplicado a cada ser ou doente que «é um ponto da espiral, o micro do macrocosmos», «um elo da grande corrente corrente universal, ininterrupta e infinita». A ideia base é que «todas as doenças são curáveis: e a maior ou menor rapidez na cura depende do método ou regime alimentar seguido», e assim após as 55 indicações de base podemos ver os três regimes sugeridos (as famosas dietas nº5 (50% de cereais, 30% legumes frescos, 10% leguminosas, 10% algas e saladas), nº6 (75% cereais) e nº7 de Ohsawa), conforme a proporção de cereais, legumes, leguminosas e algas.


55 Indicações

«1 - Cada pessoa deve ter uma terapêutica especial. "Não há doenças, há doentes". (Hipócrates). Mas o que aqui se indica são generalidades, que podem servir a todo e qualquer caso, todo e qualquer doente, como medida imediata de prevenção, defesa, controle e terapêutica.
2 - Do ponto de vista racional (terapêutica causal), o que importa é deixar o organismo reagir por si, porque o o organismo" – Hipócrates – "é que se cura a si mesmo". Se assim foi e assim será, a única atitude inteligente quando a doença ataca, não é atacar ainda mais o organismo com medicamentos, deixa-lo exausto com alimentos complicados e pesados, mas libertá-lo de todos esses encargos suplementares para o deixar com forças de reagir por si.
6 – Para começar,o melhor de tudo é um pequeno jejum. Ao contrário do que afirmam os preconceitos de costumes retrógrados, o doente não deve ser super-alimentado. É exactamente o contrário. Se der descanso digestivo ao seu corpo, este ficará disponível para colocar todas as energias e reservas no "combate à doença".
25 - A MASTIGAÇÃO é um segredo base a que a frivolidade ocidental não liga importância mas que se encontra na raiz das grandes alterações possíveis através da Macrobiótica Zen.
Enquanto o doente não se convencer da importância da MASTIGAÇÃO na sua cura, a eficácia do regime encontra-se grandemente comprometida.
Ao insistir na MASTIGAÇÃO (30 a 50 vezes cada garfada) a macrobiótica deveria ao mesmo tempo frisar a ENSALIVAÇÃO. De facto, a importância desta primordial operação alimentar, é dupla: primeiro, é com uma boa mastigação que se assegura uma boa digestão, uma assimilação completa do cereal e o seu máximo aproveitamento quer nutritivo quer terapêutico; segundo, uma salivação abundante (a produção de saliva, assim como o PALADAR, também se educa!) irá fornecer ao processo digestivo a dose de ptialina necessária para se efectuar o desdobramento das proteínas contidas no cereal e nos restantes alimentos.
26 - Cereais mais citados no livro de Ohsawa: arroz, trigo sarraceno,, aveia, centeio, milho [míudo, ou millet].
39 - Tal como preconiza Oshawa, o Jejum é sempre útil, em qualquer doença e mesmo que não haja doença: é um repouso, uma pausa do organismo que o habilita a recobrar forças e resistência às agressões do meio ambiente, à contaminação do habitat.
Mas fazer jejum, não é, para Ohsawa, passar fome.
O jejum é para ele uma forma de fazer recuar a doença e ajuda a curar outras.
Durante o jejum convém não despender esforços intelectuais nem físicos. Todas as energias do corpo, normalmente utilizadas no trabalho da digestão, se concentram para fazer frente à doença. Além disso, o jejum é um princípio de desintoxicação.
Mas a grandes descoberta de Ohsawa é que o doente poderá fazer o jejum continuando em actividade, se a sua vida lhe não permitir que seja de outra maneira. Ideal seria que descansasse, física e intelectualmente. Mas senão conseguir esse ideal, nem por isso o jejum deixará de operar no processo de retroagir a doença.»

Como último ensinamento-testamento, nesta homenagem e comunhão com George Oshawa e Afonso Cautela, leiamos as suas 52 e 53 indicações de base, e sigamos ou aplicamos as que nos dizem mais:
52 - Conservar a Energia: Princípio único de toda a cura.
«Na cura pelo Princípio Único [da Ordem do Universo e que é o do equilibrar o Yin e o Yang, negativo e positivo] têm a máxima importância os mínimos pormenores. Seja qual for o caso, recomenda-se aos doentes:
- Que use pente de madeira. - Que use talheres de madeira. - Que não coma alimentos frigorificados (o frigorífico desmagnetiza). - Que não cozinhe alimentos em vasilhas de alumínio ou barro vidrado (barro não vidrado não tem inconvenientes). - Que só coma alimentos biológicos (com carga energética). - Que ensalive longamente e mastigue o maior número possível de vezes cada alimento que leve à boca. - Que não utilize farinhas (mesmo integrais) pois nas farinhas o grão já perdeu toda a concentração energética tendo-se pulverizado até ao infinito. - Que não perca a esperança na cura, porque se é da Energia Eterna e do Infinito que tudo provém e para onde tudo vai, se é do Princípio Único ou lei que tudo depende, a fé nesse princípio e nessa energia pode curar, pode mesmo mudar o destino de uma pessoa.»
53 - Leitura Ecológica da doença e seus sintomas
Saúde e doença não são fenómenos isolados, esporádicos, de superfície: radicam na mais profunda realidade do homem e do meio ou habitat que o cerca: urbano, físico, climático, histórico, cultural, etc.
Se todas as doenças são de ambiente, o conceito de intoxicação estará na primeira fila dos que importa estudar.
Entre os tóxicos alimentares, basta citar: mariscos, carne, peixe, molhos, frituras, bebidas alcoólicas, levedura prensada, alimentos fermentados, corantes, enlatados, conservas, etc.
Entre os tóxicos não alimentares, basta citar: tabaco, fármacos, estupefacientes, água e ar poluídos, adubos, pesticidas, etc.
Perante o número de tóxicos que cercam o consumidor e de que ele fez regular o consumo, não é difícil concluir a importância que o estudo ensaístico de Medicina Ecológica deverá atribuir aos métodos e técnicas de desintoxicação: monodieta, jejum, banhos de sudação, saunas, massagem, marcha, yoga, etc.
Se a maior parte das doenças são doenças do Ambiente, como aqui se sustenta, compreende-se a importância de estudar ensaisticamente a desnutrição por insuficiência alimentar tanto como desnutrição por alimentos desvitalizados: açúcar refinado, cereais refinados, óleos refinados, sal refinado, arroz descorticado, etc.; e de que forma a fome, as avitaminoses e todas as doenças de carência tanto com as indústrias alimentares estão ao serviço da exploração do homem pelo homem.
Uma vez que a esta concepção causal e ecológica da Doença e ao papel defensivo do sintoma no equilíbrio orgânico, se opõem os erros e crimes da medicina sintomática (transferência de sintomas e transferência de doença aguda para doença crónica), parece ao autor importante prosseguir o estudo ensaístico das duas correntes do pensamento médico; a sintomática, causal ou prospectiva [holistica]: e a medicina sintomática, curativa e medicamentosa (plástica e reconstrutiva), na medicina física e de reabilitação, na medicina de reanimação, na medicina das vacinas (dita preventiva), etc.»

Bons discernimentos .....