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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Crise Climática: Por Que Ter Esperança É Racional

Há muitos motivos para desesperar: a nossa terra verdejante e aprazível está seca e acastanhada, as albufeiras estão depletadas e os incêndios florestais estão a fustigar o Reino Unido, a Europa, Canadá e os EUA. Mas há muitos mais motivos para não desesperar: o desespero alimenta-se a si próprio; o desespero desarmar-nos-á; o desespero é aquilo que os sacanas querem que sintas. Mas, acima de tudo, o desespero é irracional. Deixa-me explicar porquê.

Por mais sofisticadas que sejam as nossas ferramentas de previsão, simplesmente não temos forma de saber o que vem a seguir. Tal como o clima, tal como qualquer ecossistema, a sociedade é um sistema complexo. As suas propriedades e respostas adaptativas não podem ser previstas estudando os seus componentes de forma isolada, independentemente do brilhantismo dos cientistas sociais e dos futurólogos. Acontecem coisas — coisas inesperadas —, por vezes a uma velocidade espantosa. Dito de outro modo, a sociedade tem pontos de rutura: pode passar rapidamente de um estado de equilíbrio para outro.

Veja-se a Irlanda, para dar apenas um exemplo. Até há poucas décadas, a República da Irlanda era uma teocracia católica. Tinha sido assim desde os anos 1920. Aliás, durante a maior parte do século XX, a Igreja Católica parecia estreitar cada vez mais o seu controlo. Quebrar esse controlo era algo quase inimaginável. Mas depois uma série de acontecimentos combinou-se de formas inesperadas. Uma sucessão de escândalos terríveis veio à tona: violência sexual sistemática, o rapto de mulheres e crianças, trabalho escravo e mortalidade em massa em instituições da Igreja. As viagens e os meios de comunicação social permitiram ao povo irlandês ver como era a libertação social e sexual noutros países. A comunicação social e os fóruns internacionais permitiram que ativistas corajosos, cujas vozes tinham sido suprimidas durante muito tempo, fossem ouvidos de forma mais ampla. As muralhas caíram mais depressa do que alguém poderia ter adivinhado. Em pouco tempo, tanto o casamento igualitário como o direito ao aborto foram legalmente sancionados: uma mudança que tinha sido quase inimaginável.

O mesmo se pode dizer do colapso do comunismo de Estado e do fim de quase todos os impérios e monarquias que outrora pareciam inabaláveis. O império dos combustíveis fósseis não é exceção.

O sistema complexo a que chamamos sociedade tem dois estados de equilíbrio: o impossível e o inevitável. A mudança que queremos parece sempre impossível. Voto para as mulheres? Perdeu o juízo. Independência para a Índia? A Grã-Bretanha nunca a vai largar. Direitos civis? Ridículo! Mas com pressão sustentada, um pouco de sorte e uma mudança de circunstâncias, pumba!, o impossível acontece. Depois toda a gente diz: “Pois, era inevitável, não era?”

Acho que podemos estar a aproximar-nos de um ponto de rutura no colapso climático. Durante anos disseram-nos: “Estão a pedir a Lua. Os combustíveis fósseis vieram para ficar.” Uma parte de mim acreditou nisso. Mas agora, como a reportagem do Guardian demonstrou, subitamente os combustíveis fósseis são muito mais caros do que as energias renováveis. Subitamente, são as tecnologias verdes que estão a gerar imenso emprego e rendimento. Subitamente, barreiras tecnológicas que pareciam insuperáveis ruíram. Subitamente, os políticos financiados pelos combustíveis fósseis parecem ultrapassados, ridículos, corruptos. Subitamente, estamos a acordar para a necessidade de uma ação urgente, à medida que os choques de calor reforçam a mensagem.

O problema de um ponto de rutura, seja ele positivo ou negativo, é que nunca se sabe de antemão onde ele possa estar. Só se consegue ver em retrospetiva. Se já causámos tanto aquecimento global ao ponto de o sistema de correntes do Atlântico estar destinado a colapsar, ou de um fracasso em cascata da floresta amazónica estar assegurado, ainda não sabemos. Mas, da mesma forma, se as condições necessárias para uma grande mudança social já estiverem alinhadas, não o saberemos até o sistema mudar.

Este tipo de mudança rápida exige um público informado por fontes de comunicação independentes, jornalistas comprometidos com os factos e não com interesses corporativos. O modelo aberto e financiado pelos leitores do Guardian é um antídoto claro para outros meios de comunicação — tanto a imprensa dos bilionários como os radiodifusores de serviço público — que estão ativamente a esquivar-se a este desafio, reduzindo a sua cobertura sobre o clima numa altura em que ela nunca foi tão crítica.

Por isso, no Guardian e não só, continuamos a pressionar, continuamos a expor, continuamos a demonstrar como a mudança pode acontecer. E, por razões inteiramente racionais, continuamos a ter esperança. Por favor, considera apoiar o nosso jornalismo hoje mesmo.

A maior questão com que nos confrontamos, possivelmente a maior questão que a humanidade já enfrentou, é saber se conseguimos atingir os pontos de rutura sociais antes de atingirmos os pontos de rutura ambientais.

Fonte

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como as cidades estão a transformar os seus rios poluídos em paraísos para banhos

No dia 5 de Julho de 2026, durante uma onda de calor opressiva, parisienses e turistas nadaram no Sena, um de muitos rios que foram limpos e estão a receber novamente banhistas urbanos.

Durante a maior parte da vida de Pauline Janbon, a ideia de tomar banho no rio Sena, em Paris, era inimaginável.

“Quando éramos crianças diziam-nos que havia cadáveres a flutuar na água”, disse Janbon, uma estudante de 20 anos da Universidade da Sorbonne, em Paris. “Tinha a reputação de ser extremamente sujo.”

Em Junho deste ano, porém, quando uma onda de calor inédita assolou o país, Janbon e milhares de parisienses mergulharam nas águas outrora temidas da cidade para se refrescarem. No dia em que a conheci, ela estava junto à margem do Canal Saint-Martin, rodeada por hordas de banhistas, que saltavam, nadavam e boiavam na água.

“Até hoje, nunca tinha dado um mergulho na minha própria cidade”, disse Janbon, enquanto espremia água do cabelo. “Parece que estou de férias.”

Paris é apenas uma de muitas cidades europeias que se têm esforçado para tornar as suas vias aquáticas novamente seguras para banhos. Copenhaga, Basileia, Zurique, Berna e Oslo passaram anos a melhorar os seus sistemas de gestão de águas residuais, criando uma infra-estrutura de águas pluviais e implementando políticas para controlar melhor a poluição aquática. Os seus esforços têm sido maioritariamente bem-sucedidos, com os residentes das cidades da Europa a regressarem às suas águas. E à medida que as alterações climáticas criam ondas de calor mais intensas e frequentes, os urbanistas e residentes também estão a virar-se para estas águas para lidar com os dias mais quentes.

“Estamos a ver pessoas a renegociar os seus contratos sociais com a água nestas cidades”, disse Matthew Sykes, co-fundador e director do programa Swimmable Cities, uma aliança de organizações que promove o direito ao usufruto das vias aquáticas urbanas. “As pessoas começam a perceber que é melhor ter uma cidade onde se possa nadar.”

Um regresso histórico às águas
Até ao início do século XX, tomar banho nos rios urbanos era uma actividade comum na Europa ocidental e em algumas zonas da América do Norte. Eram construídas casas de banhos directamente em cima dos rios e havia sítios que as pessoas visitavam a lazer, bem como para se lavarem. A falta de canalizações em casas particulares significava que estas casas de banho – populares em cidades como Nova Iorque, Londres, Boston, Filadélfia e Paris – eram frequentemente o único sítio onde as pessoas podiam lavar-se.

À medida que a industrialização foi avançando e as populações subiram a pique nas cidades, os rios urbanos da Europa tornaram-se inimaginavelmente sujos. Em Paris, águas residuais, partes do corpo de animais e escoamentos de lavandarias eram despejados directamente no Sena. Por esta razão, a cidade proibiu os banhos em 1923, declarando a água insegura para a saúde humana.

As autoridades municipais começaram a discutir a limpeza do rio em 1988, mas só em 2016 é que a presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, renovou o empenho da cidade em limpar o Sena, transformando o rio num pilar essencial da candidatura de Paris aos Jogos Olímpicos de Verão de 2024.

“Paris fez muito do trabalho pesado pelas outras cidades”, disse Sykes, comentando que o gabinete do presidente da câmara sofreu muitas críticas da parte da imprensa e dos eleitores. “Tiveram de provar que uma iniciativa como esta, que já tinha sido testada em cidades mais pequenas, era possível em grandes metrópoles urbanas.”

Em Julho de 2025, quando o Sena abriu oficialmente ao público, mais de 100.000 pessoas nadaram nas áreas de banho designadas, levando a cidade a prolongar a época balnear até ao início de Setembro. Agora, com o rio a entrar na sua segunda temporada de banhos, Paris está a provar que limpar os rios não só é possível, como é essencial na época das alterações climáticas.

Em Junho, Paris sofreu a sua onda de calor mais grave de que há registo. França tem poucos equipamentos de ar-condicionado: apenas um quarto das casas e menos de 7 por cento das escolas estão equipadas com sistemas de refrigeração. Em Paris, os edifícios haussamannianos que dão à cidade o seu visual emblemático, são notoriamente mal isolados contra o calor, deixando os parisienses com poucas opções para se refrescarem. Quando as temperaturas aumentaram no final de Junho, os parisienses suados procuraram refúgio nos corredores refrigerados dos supermercados e aguardaram em longas filas para entrar nas piscinas municipais da cidade. No entanto, as opções mais populares para muitos foram os rios e canais recentemente limpos de Paris, aos quais hordas de pessoas desceram para dar o seu primeiro mergulho na cidade.

Cientificamente falando, os parisienses têm poucas razões para se preocuparem com a higiene da sua água. Todos os dias, a cidade monitoriza o Sena em busca de E. Coli e enterococci, que podem causar febre, infecções do tracto urinário e diarreia. Estes testes têm concluído de forma consistente que a água é segura para banhos, de acordo com os regulamentos da União Europeia.

Mesmo assim, um bloqueio mental impede muitos parisienses de nadar no Sena. Em 2021, quando a agência de sondagens IFOP pediu a mil pessoas francesas a sua opinião sobre o Sena, 70 por cento dos inquiridos descreveram-no como sujo, poluído e malcheiroso. Poucos disseram que seriam capazes de mergulhar no rio. E embora essa perspectiva tenha começado a mudar, a longa reputação do Sena como um rio sujo é difícil de limpar.

“Estou feliz por os meus filhos poderem desfrutar da água, mas eu não meto os pés lá dentro”, disse Soizic Prado, de 52 anos, sentada num banco, toda vestida, a ver os filhos brincar. “Tenho a certeza que é segura, mas passei a minha vida inteira a ouvir dizer que a água é suja”, explicou. “Ça donne pas envie” [“Não dá vontade”].

sexta-feira, 24 de julho de 2026

França e Espanha tentam sobreviver a um fenómeno que está a atingir o Mediterrâneo e que ainda não chegou a Portugal

Os incêndios que destruíram parte de Vouzela e Alijó nos últimos dias são um exemplo de que é preciso estar atento, mas Portugal vai-se livrando, pelo menos para já, do inferno que está a atingir os países aqui ao lado.

Com a Europa em pânico perante ondas de calor consecutivas, França e Espanha são os melhores exemplos de um verão terrível que está deixar milhares e milhares de pessoas em sobressalto.

Depois de Almería ter vivido o pior incêndio de sempre da Andaluzia, com 13 mortes contabilizadas, mais acima cerca de 20 mil pessoas foram forçadas a deixar as suas casas perante os fogos fogos florestais de França.

É uma nova onda de calor vinda do mar que os investigadores não temem apelidar de “dantesca”, com a costa atlântica francesa a ter um impacto particularmente intenso.

Mais abaixo, e não muito longe de Almería, a província de Murcía vai sofrendo com dias constantes acima dos 40 graus. Esta terça-feira foram 44,7 em Cieza, de acordo com a agência de meteorologia de Espanha, a Aemet.

Antes disso tinham sido cidades como Albacete, Ávila ou Teruel a registar temperaturas recorde para julho, com os termómetros a chegarem aos 42 graus. Já nos arredores de Madrid tiveram de ser retiradas mais de três mil pessoas perante o perigoso aproximar das chamas.

De acordo com o Sistema de Monitorização do Mediterrâneo, esta onda de calor está a afetar 80% da superfície do mar que banha o sul da Europa, provocando temperaturas por vezes extremas, algumas delas com anomalias de cinco graus acima do expectável. Portugal, até porque tem a costa já em mar aberto, vai conseguindo escapar a este fenómeno.

Os dados do Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais apontam mesmo um ano recorde em termos de área ardida nesta altura do ano. É quase o dobro em relação ao mesmo período registado nas últimas duas décadas.

Em França a situação não é muito diferente. O fogo que começou junto à vila de Saumos, a 40 quilómetros de Bordéus, já queimou 3.700 hectares em pouco mais de 24 horas.

Não há registo de vítimas, mas muitas vidas não voltarão a ser as mesmas, até porque muitas casas foram totalmente consumidas pelas chamas. Nas últimas horas chegaram a estar 800 operacionais apoiados por vários meios aéreos a tentar conter as chamas, mas a situação continua “desfavorável” e longe de estar controlada.

“O fogo está altamente errático e a ganhar força muito significativa”, avisou o chefe do serviço regional de bombeiros, Marc Vermeulen, citado pelo jornal The Guardian.

“Uma das principais frentes está muito próxima de uma área semi-urbana. Estamos a defender casa a casa”, acrescentou.

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Vaga de calor agrava desperdício alimentar e acelera deterioração dos alimentos

Portugal enfrenta uma vaga de temperaturas extremamente elevadas, com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) a emitir múltiplos avisos meteorológicos devido ao calor intenso. Para além dos impactos na saúde pública e no quotidiano das populações, as temperaturas extremas trazem consigo um desafio crítico de sustentabilidade e gestão económica: a aceleração drástica do desperdício alimentar.

Esta aceleração é validada cientificamente através do Princípio Q10, que demonstra que um aumento de apenas 10°C na temperatura ambiente pode duplicar ou até triplicar a velocidade das reações químicas e biológicas responsáveis pela deterioração dos alimentos.

O fenómeno agrava o panorama nacional num período em que, de acordo com o relatório oficial do Parlamento Europeu sobre o Desperdício Alimentar, cada português desperdiça cerca de 184 kg de alimentos por ano – o que posiciona Portugal como o quarto país da União Europeia com maior quebra alimentar por habitante, estimando-se um total anual de 1,9 milhões de toneladas de comida desperdiçada no país.

Esta pressão estrutural intensifica-se consideravelmente durante a época estival. De acordo com o histórico de dados de consumo da Too Good To Go, 28% dos consumidores portugueses admitem desperdiçar uma maior quantidade de alimentos durante os meses de verão, sendo a fruta (48%) a categoria de produto mais afetada, seguida de perto pelos legumes e pelos produtos lácteo, devido ao seu menor tempo de vida útil sob temperaturas elevadas.

“As temperaturas extremas exigem uma adaptação rigorosa nos nossos hábitos de conservação”, afirma Maria Tolentino, Country Manager da Too Good To Go em Portugal. “Num contexto de pressão económica sobre o orçamento das famílias, o desperdício de alimentos devido ao calor representa um prejuízo duplo: o custo financeiro do produto que se estragou e o desperdício da energia elétrica que o equipamento de refrigeração consumiu, em sobre-esforço, para tentar conservar esse mesmo alimento. É fundamental adotarmos medidas preventivas imediatas, recorrendo tanto a pequenos gestos diários na cozinha como ao suporte da tecnologia, para mitigar este impacto antes que o desperdício aconteça.”

 Para apoiar os consumidores na mitigação do impacto das altas temperaturas, a Too Good To Go reuniu um conjunto de orientações e dicas:

  1. Avaliação sensorial dos produtos (Observar, Cheirar, Provar): o calor pode fazer com que laticínios ou sumos sofram alterações físicas ligeiras perto do fim do seu prazo de validade. Antes de descartar um produto com a indicação de “Consumir de preferência antes de” ultrapassada, a Too Good To Go recomenda a utilização dos sentidos para verificar se o alimento está realmente impróprio para consumo;
  2. Eficiência do equipamento de refrigeração: os frigoríficos operam em sobre-esforço com temperaturas externas elevadas. Para evitar falhas técnicas ou consumo excessivo de energia, não deve sobrecarregar o equipamento (o ar frio necessita de circular livremente) e deve assegurar a limpeza das bobinas traseiras. Garanta que a temperatura se mantém entre os 0°C e os 4°C na zona mais fria.
  3. Isolamento de alimentos produtores de etileno: frutas como bananas, maçãs e tomates libertam gás etileno, um componente natural que funciona como catalisador e acelera a maturação dos vegetais circundantes. Durante uma vaga de calor, separe estes alimentos dos restantes e armazene as frutas de verão na gaveta inferior do frigorífico para retardar o processo de desidratação e amadurecimento acelerado;
  4. Utilização de cortiça para controlo de humidade: a colocação de uma ou duas rolhas de cortiça (cortadas longitudinalmente) no interior da fruteira ajuda a absorver o excesso de humidade ambiente. Esta medida reduz significativamente a proliferação de bolor nas frutas mais sensíveis;
  5. Preparação de refeições frias (Gaspacho): Tomates e pimentos que tenham amolecido devido ao calor acumulam uma maior concentração de açúcares naturais. Este é o momento ideal para os processar a frio com azeite e alho, resultando numa refeição hidratante e com aproveitamento total da matéria-prima;
  6. Congelação e confeção de gelados caseiros: caso verifique que as bananas estão a amadurecer demasiado rápido, corte-as em rodelas e armazene-as no congelador. Posteriormente, podem ser trituradas para a criação de um gelado natural instantâneo (nice cream), sem adição de açúcares;
  7. Bebidas aromatizadas com excedentes de fruta: morangos ou fatias de pepino que apresentem sinais de desidratação pelo calor podem ser integrados num jarro com água fria e gelo, constituindo uma opção de hidratação refrescante e de desperdício zero;
  8. Armazenamento em suportes ventilados: evite recipientes fechados para produtos frescos. Os ventilados permitem a circulação contínua do ar, impedindo a criação de bolsas de calor e humidade entre os alimentos.
O papel da tecnologia na gestão do retalho nacional
As temperaturas elevadas não afetam apenas as cozinhas dos consumidores; representam também um desafio severo para a gestão de stocks em supermercados, padarias, restaurantes e mercearias, onde a quebra de produtos frescos tende a registar um aumento linear nos dias de maior calor.

A Too Good To Go, empresa de impacto social responsável pela maior aplicação do mundo para salvar alimentos e combater o desperdício alimentar, posiciona-se aqui como uma ferramenta de resposta rápida para o tecido empresarial. Atualmente, a comunidade da plataforma em Portugal já conta com mais de 2,7 milhões de utilizadores, que em conjunto com uma rede de mais de 5.500 parceiros já salvaram mais de 7,7 milhões de refeições (Suprise Bags) — o que evitou diretamente a destruição de mais de 7.700 toneladas de comida em perfeitas condições de consumo.

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1.Será que a Too Good To Go compensa? Testámos em supermercados e padarias, fizemos as contas... e temos respostas

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Filipe Duarte dos Santos tem uma coisa para lhe dizer sobre este calor: "Estamos em negação, isto não vai parar"

Durante muito tempo, o verão teve uma espécie de pacto com o corpo: o dia podia queimar, mas a noite devolvia algum descanso. Esse pacto está a quebrar-se.

As noites tropicais tornam-se mais frequentes, as cidades acumulam calor, os edifícios revelam fragilidades para as quais não foram desenhados e aquilo que antes parecia uma exceção meteorológica começa a parecer uma condição nova da vida europeia.

Filipe Duarte Santos não fala deste fenómeno como quem descreve uma surpresa. Professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, geofísico e uma das figuras mais reconhecidas em Portugal no estudo das alterações climáticas, observa há décadas a distância entre aquilo que a ciência sabe e aquilo que a política executa. Perante a hipótese de estarmos não diante de uma simples vaga de calor, mas de uma nova normalidade que se manifesta em vagas de calor, não hesita: “Não tenho dúvida nenhuma de que é a segunda hipótese”.

A diferença está na média, explica.

A temperatura média global da atmosfera à superfície já aumentou cerca de 1,5 graus Celsius desde o início do século XX. Pode parecer pouco. Não é. A média empurra os extremos para cima. As ondas de calor “sempre existiram”. Só que agora estão “num patamar mais alto”. No mesmo lugar, no mesmo mês, as temperaturas máximas são hoje mais altas do que há 50 ou 100 anos. “Isto não vai parar.”

O impacto não é apenas ambiental. É físico, urbano, económico, social. O calor mata de forma discreta, sobretudo quando o corpo deixa de recuperar durante a noite. “A mortalidade excessiva aumenta durante as ondas de calor”, sublinha. E não aumenta por igual. Atinge primeiro os idosos, as pessoas com doenças cardiovasculares, quem vive sozinho, quem vive em habitações mal isoladas ou sem condições térmicas, quem não pode fugir para um espaço arrefecido. As alterações climáticas, nas suas palavras, “agravam as desigualdades existentes”.

À CNN Portugal, Filipe Duarte Santos deixa um aviso sem conforto. As emissões de dióxido de carbono “em vez de diminuírem, aumentaram” desde o Acordo de Paris. A meta de 1,5 graus está praticamente perdida, os 2 graus podem chegar a meio do século e o dióxido de carbono que lançamos para a atmosfera não desaparece a tempo da nossa vida: em termos de gerações humanas, “é como se ficasse lá para sempre”.

A esperança, aqui, já não é voltar ao clima que tínhamos. É impedir que o pior se torne inevitável. Porque “quanto mais adiarmos a solução, pior será para as gerações futuras”.

Segue-se a entrevista. A ler e aprender, claro

terça-feira, 30 de junho de 2026

A onda de calor na Europa é a mais quente e húmida de sempre

As temperaturas actuais na Europa ocidental e central teriam sido virtualmente impossíveis há 50 anos, e os níveis de humidade sem precedentes tornam esta onda de calor especialmente perigosa.
Não sou eu que o digo. É a Ciência e a Biogeografia que o dizem.

A Europa está a viver um verão histórico e extremamente severo. Após um final de junho com recordes absolutos de temperatura estilhaçados por todo o continente, com os termómetros a passarem os 41°C na Alemanha e os 44°C em França e Espanha, os modelos de previsão sazonal apontam para uma continuidade deste cenário crítico nos meses de julho e agosto.
As previsões detalhadas para as próximas semanas indicam que, em julho, haverá o retorno da crista de altas pressões. Embora os primeiros dias do mês tragam um ligeiro alívio temporário em partes da Europa Central e Ocidental devido a uma mudança de fase na Oscilação do Atlântico Norte (NAO), o calor extremo vai regenerar-se rapidamente. Em Portugal e Espanha, o IPMA e a AEMET já emitiram avisos para o início de julho, prevendo máximas entre os 40°C e os 43°C, especialmente nos vales do Tejo, Douro e Alentejo, acompanhadas de "noites tropicais" onde as mínimas não descem dos 20°C a 25°C. 
Já na segunda quinzena de julho, os modelos europeus, como o ECMWF, apontam para o regresso em força da crista de alta pressão e de um bloqueio atmosférico. Espera-se que o núcleo do calor extremo se mova ligeiramente mais para Leste, afetando severamente a Europa Central, Itália e os Balcãs, mas mantendo todo o sul do continente com temperaturas muito acima da média.
Por sua vez, as previsões para agosto desenham-se como o mês mais preocupante em termos de persistência e risco de incêndios, caracterizando-se por calor sustentado e seca. 
Os modelos de longo prazo estimam que as temperaturas globais em agosto sejam 1°C a 2°C mais quentes do que a média histórica de referência de 1991–2020, sendo que no sul da Europa e no Mediterrâneo essa anomalia pode ser ainda maior. 
A probabilidade de ocorrência de ondas de calor com temperaturas acima do normal em agosto é de 60%, esperando-se que os sistemas de alta pressão se tornem dominantes e estacionários, o que favorece períodos de calor mais longos e secos. Adicionalmente, o fator marítimo terá um papel crucial, dado que as águas do Atlântico e, muito em particular, o Mar Mediterrâneo estão a registar uma onda de calor marinha. Esta água invulgarmente quente impede o arrefecimento noturno das zonas costeiras e atua como um combustível que intensifica a sensação de abafamento e a força das massas de ar quente que sobem do Norte de África.

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terça-feira, 23 de junho de 2026

Domingos Xavier Viegas: "Ainda vemos muitas pessoas a enfrentar o fogo de calções e chinelos"

Licenciou-se em engenharia mecânica com especialidade na engenharia do vento, mas foi o fogo que chamou a sua atenção. Aos 76 anos, o diretor do Centro de Estudos de Incêndios Florestais, da Universidade de Coimbra, dedica-se a investigar a forma como o fogo se comporta em vários tipos de território e de condições climáticas numa tentativa de prevenir grandes incêndios e proteger as populações

Estudam há anos a resiliência dos solos quanto à humidade?
Começámos em 1986 a recolher amostras de combustíveis finos - plantas que podem arder como as folhas secas do pinheiro e do eucalipto -, que são recolhidas próximo do aeródromo. No verão, todos os dias é feita uma colheita a meio do dia, a hora de maior calor, e durante o resto do ano, uma vez a duas por semana. A humidade das folhas secas vai variando e sabemos que se quando a humidade é baixa pode representar condições de perigo elevado de incêndio. Trabalhamos com o Instituto Portugês do Mar e da Atmosfera e podemos prever antecipadamente qual vai ser a humidade combustível nos próximos dias em face das condições meteorológicas e difundimos esses dados às autoridades, para estarem informados.

Que descobertas realizaram no laboratório?
Fomos os primeiros no mundo a estudar o comportamento do fogo em estruturas com a forma de desfiladeiros. Percebemos que mesmo que seja um pequeno foco de incêndio, se começar num desfiladeiro, ele cria o seu próprio vento e este faz acelerar a velocidade de propagação. Foi o que aconteceu em Armamar. Aquilo que as pessoas muitas vezes diziam ter-se tratado de uma mudança do vento, conseguimos mostrar que não é nada disso, é o próprio fogo que cria o vento e faz alterar o seu comportamento.

É esse o fogo a que se chama de sexta geração?
Não. O fogo de sexta geração refere-se a intensidade de propagação do fogo, ou seja, quando o fogo tem uma intensidade de propagação que é superior a 60 megawatt (MW). Mas um fogo de primeira geração, que gera uma intensidade de propagação superior a 10 MW, que corresponde a chamas superiores a 10, 15 metros de altura, liberta uma potência calorífica que já não se consegue combater. Já é considerado extremo. Quando o fogo tem uma propagação de 20, 30, 40, até 60 megawatts, são chamados de 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, até 6ª geração. Só nos últimos anos é que se tem vindo a observar incêndios com estas intensidades de propagação.

O incêndio de Pedrógão Grande, em 2017, foi de sexta geração?
Correto, foi um dos incêndios mais intensos que nós tivemos. De acordo com os nossos dados, ainda é um incêndio que teve a maior velocidade de propagação que temos registo. Estamos a falar é da convecção que é criada pelo incêndio e faz essa aceleração. Isso pode acontecer até num pequeno incêndio, como o de Armamar, em que a extensão de área ardida não foi grande, mas que levou à morte de 14 bombeiros.

O que aconteceu em Pedrógão Grande para atingir aquelas proporções?
Dois focos de incêndio encontraram-se e interagiram. Esse é outro dos nossos contributos. Verificámos, ao estudar casos reais na natureza e depois em laboratório, que quando dois incêndios que estão perto um do outro e se juntam geram velocidades de propagação muito grandes, das mais altas que se têm registado. Foi o que aconteceu em Pedrógão Grande. Houve dois focos de incêndio que começaram debaixo de uma linha elétrica, em dois pontos diferentes, mas que, a certa altura, com a proximidade da tempestade, eles ficaram deitados no terreno e a propagar-se, mais ou menos, paralelamente na mesma direção. E ao interagirem, deram origem a esse incêndio de grandes proporções, que atingiu uma velocidade de 14 km por hora, é das velocidades mais altas registadas em Portugal.

Quando é que o combate ao fogo se torna impossível?
Quando a intensidade de propagação ultrapassa 10 MW por metro torna-se impossível de combater de forma diretamente, mesmo com aviões pesados, não se consegue suprimir uma frente de chamas que está a propagar-se com uma altura de chamas de mais de 10 metros.

A quantidade de árvores caídas provocadas pela tempestade Kristin aumenta o risco de um incêndio destas proporções?
Existem dois fatores: um é a quantidade de combustível e o outro é a velocidade de propagação. Se tivermos maior quantidade de combustível, maior é a intensidade de propagação, maior é a energia libertada. Na zona de Leiria, onde foram derrubadas muitas árvores e em que a carga de combustível duplicou em algumas zonas do terreno, podemos ter grandes intensidades de propagação mesmo que o fogo se propague a baixa velocidade.

O que é que influencia a velocidade de propagação?
Em primeiro lugar é o teor da humidade do combustível no terreno, depois são as condições de topografia e as condições do vento. Se tivermos um declive maior, a velocidade de propagação é maior, se tivermos um vento mais forte, a velocidade da propagação é mais elevada. Mas quando existe muita carga combustível, como em Leiria, não é preciso haver tanto vento, nem declive para termos uma velocidade e uma intensidade de propagação que pode dar origem a incêndios que não são combatíveis.

O eucalipto permanece o vilão dos fogos?
Nós temos três espécies dominantes: o sobreiro, o eucalipto e o pinheiro. Realmente, se só tivéssemos o sobreiro e floresta como existe, por exemplo, no Alentejo, em que as árvores estão espaçadas e há pouco combustível no solo, muito provavelmente não teríamos grandes incêndios. O problema é que nós temos na grande parte do país, todo o centro e norte, dominado pelo pinheiro e eucalipto e com um clima cada vez mais agravado. São áreas que não estão geridas, ou seja, onde não há capacidade para retirar a biomassa que existe. E, muitas vezes, são áreas com grande densidade de pinhal e eucaliptal: em vez de terem poucos pés por hectare e espaçados uns dos outros, são como que florestas de árvores muito finas, muito densas e que se o fogo entra nelas é difícil dar-lhe combate. porque não há condições de defesa. Nesse sentido, estas duas espécies são realmente perigosas.

Mas o eucalipto causa maior risco?
O eucalipto traz condições agravantes porque a mesma quantidade de folhas liberta muito mais calor do que as do pinheiro. Por outro lado, também liberta focos secundários, sobretudo pedaços de casca que podem ser transportados pelo vento a arder a distâncias grandes. Em Portugal, temos registo de focos secundários a distâncias de 10 quilómetros ou mais.

E é mais usado?
Sim. Aponta-se como vilão porque é uma espécie de investimento rápido. Num período de 10, 15 anos, as árvores estão crescidas e é possível ter algum retorno do investimento feito. O pinheiro precisa de mais tempo, 20 a 30 anos, e por isso, o risco de arder é maior. Nesse sentido, o eucalipto tem-se difundido muito e infelizmente em terrenos que não são apropriados e não são geridos. Por exemplo, as empresas de celulose gerem algumas plantações de eucalipto e, de modo geral, são bem cuidadas e não são tão afetadas pelo fogo.

O abandono do interior do país é um dos fatores para o aumento dos incêndios?
Não é apenas o abandono, porque há muitos proprietários que têm os seus terrenos e que são bem geridos. Mas quando essas propriedades são muito pequenas - a nossa propriedade está muito dividida, devido às heranças - torna-se muito difícil tirar qualquer rendimento dessas propriedades e caem no abandono, ficam cobertas de mato e, nas condições climáticas que estamos a ter, vão sendo cada vez mais sujeitas aos incêndios.

O Estado deveria intervir aí com sapadores florestais?
É muito difícil gerir toda a floresta, mas algumas partes do território deveriam ser geridas no sentido de reduzir a biomassa. E isso pode ser feito de diferentes maneiras, quer por meios manuais, mecânicos, quer pelo uso de fogo, quer pelo uso de pastoreio. Pelo menos, aquelas faixas de descontinuidade dos combustíveis, que existem nos altos das serras, que criam intervalos e permitem ajudar a parar o fogo.

Como?
Quando o fogo tem uma intensidade de propagação muito alta e não se pode atacar diretamente, pode-se fazer um contra-fogo que vai ao encontro da frente principal e parar um incêndio dessa maneira. Mas, para tal, precisamos ter essas faixas de descontinuidade na paisagem e na vegetação.

Na Catalunha, Espanha, está a investir-se em vinha para travar o fogo. É uma solução viável?
É a paisagem em mosaicos de que se fala muito hoje em dia. Uma paisagem feita de cobertos florestais diferentes, que não seja só a mesma espécie e que não tenha toda a mesma idade. A ideia é criar zonas agrícolas sem continuidade porque havendo essa continuidade o fogo propaga-se de um modo mais violento.

Isso implica um regresso ao interior.
Haver empreendimentos agroflorestais, onde se fomente a agricultura com a floresta e com a pecuária ajudava a gerir a biomassa e trazia mais pessoas para o interior que ajudam a vigiar e a intervir em casos de incêndio. Nos anos 40 do século passado, quando havia mais gente a viver no campo, as pessoas acorriam prontamente quando ocorria uma ignição e havia poucas dezenas de incêndios e algumas centenas de hectares ardidos.

Faltam bombeiros e recursos para combater estes grandes incêndios?
Quando há grandes incêndios, todos os recursos são poucos. O nosso país tem uma estrutura de prevenção e combate muito razoável. E mesmo em relação ao número de bombeiros, penso que estamos bem em comparação com outros países. Mas mais importante que o número é a preparação e a formação dos bombeiros: temos de dar uma formação ainda melhor aos bombeiros. Agora, quando temos grandes incêndios, muito alargados pelo país, na verdade, todas as pessoas são poucas e até os próprios cidadãos podem ajudar.

Os habitantes devem ajudar no combate?
No ano passado, em agosto, tivemos uma boa parte do centro do país a arder. Não tivemos muita destruição de casas e tivemos, relativamente, poucas vítimas mortais face à intensidade de propagação dos incêndios. Uma das razões é porque havia muita gente presente no território por ser agosto. Havia pessoas que tinham ido visitar as aldeias, os imigrantes que vieram de estrangeiro e, ao estarem lá, contribuíram no combate.

É importante dar formação de combate à população?
Sem dúvida. Existe o mito que o interior é povoado apenas por pessoas de idade, já sem capacidade, mas não é bem assim. Parte da população está envelhecida, mas também há muitas pessoas válidas que conhecem o fogo, sabem lidar com os incêndios, mas não têm os meios para o fazer. Desde logo, por exemplo, não têm roupa adequada e vemos pessoas a enfrentá-lo de calções, t-shirts e chinelos. E recorrem a baldes e alguidares quando deveriam ter realmente recursos necessários para proteger as suas casas e as suas aldeias. E, se possível, dar apoio aos bombeiros no combate, porque isso já foi uma realidade.

Quando?
No incêndio de Águeda de 1986, fez 40 anos no dia 14 de junho. O incêndio começou na Serra do Caramulo e os bombeiros demoraram mais de uma hora a chegar ao local do início do fogo. As pessoas que viviam nas aldeias da serra deram-se conta de que se tivessem meios poderiam ter até atacado o fogo e evitar a morte de 16 pessoas [13 bombeiros e três civis]. Mais tarde essas pessoas criaram unidades locais de proteção civil: através de subscrições e ofertas, adquiriram veículos de combate iguais aos dos bombeiros e tiveram treino fornecido pelos bombeiros. No verão estavam preparados e se havia incêndios naquela zona eles em 5 ou 10 minutos estavam em cima do incêndio.

Ainda existem hoje?
Sim, estas unidades locais foram replicadas em vários outros pontos do país e devem existir cerca de uma centena em todo o país. É o que se faz também noutros países do mundo.

O centro de estudos colaborou na construção de abrigos coletivos. O que são?
Os abrigos resultam do estudo e da análise de vários incêndios em que as pessoas se encontraram ameaçadas por um incêndio sem possibilidade de se retirarem em segurança. Podem ser refúgios em espaços abertos, como um campo de futebol ou uma piscina. Ou abrigos, espaços fechados que tenham resistência ao fogo, em geral são as igrejas, ou então, construções feitas para esse fim. Colaborámos em alguns desses projetos. Um deles na aldeia de Ferrarias de São João, em Penela.

Quais são as características do abrigo?
É uma área de betão completamente coberta, fechada, com espaços no interior onde as pessoas possam permanecer durante horas, preservadas de fumos e de gases quentes, até mesmo pessoas com necessidades respiratórias. Em outros casos, estamos a aproveitar construções que já existam e que são adaptadas, por exemplo, um salão de festas ou uma cave. O que é desaconselhado em absoluto é que as pessoas fujam à última hora, que se metam nos carros para o meio do incêndio, é assim que têm acontecido as maiores tragédias.

O que aprendemos com Pedrógão Grande?
Pelo menos nos primeiros anos, notámos uma sensibilidade grande relativamente à limpeza da vegetação em torno das casas. Também as autoridades têm sido mais atentas, a fiscalizar essa medida legal, que já havia de antes, só que não era respeitada. A diferença é que antes de Pedrógão, a maior parte das vítimas eram bombeiros, depois a maioria das vítimas foi entre cidadãos comuns. Qualquer pessoa em quase qualquer ponto do território pode ser atingida por um incêndio.

A inteligência artificial é usada no combate aos incêndios?
É usada num projeto nacional que se chama Gémeo Digital da Floresta em que estamos a criar um sistema informático que utiliza bases de dados sobre a floresta, desde o coberto vegetal, o terreno, a história dos incêndios passados, áreas ardidas e meteorologia. Quando lidamos com um número muito grande de bases de dados, a inteligência artificial identifica a relação entre parâmetros e facilita a tomada da melhor decisão na prevenção e no combate.

domingo, 21 de junho de 2026

Alterações climáticas provocam redução significativa de aves migratórias

No Parque Tommy Thompson, em Toronto, uma estação de anilhagem de aves está a registar sinais preocupantes de declínio nas populações migratórias. Os investigadores começam a associar as mudanças ao impacto crescente das alterações climáticas.

Ao amanhecer, Shane Abernethy verifica as redes de captura de aves em busca de pássaros presos. É assim que começa a rotina diária do coordenador da estação de anilhagem do Parque Tommy hompson, em Toronto, que recolhe dados em tempo real sobre as aves migratórias num contexto de aquecimento global.
“Esta estação existe para monitorizar as aves migratórias que passam pela cidade de Toronto. Estamos no meio de uma importante rota migratória e um local como este é uma das melhores formas de as observar. A rotina diária é chegar aqui cedo, abrir as redes para capturar as aves antes de estarem completamente despertas e passar o resto do dia a capturá-las e a marcá-las. Verificamos estas redes a cada 30 minutos".
Num dia normal, a estação regista entre 100 a 150 aves, por vezes ultrapassam as 200.

Sinais de mudança
Os dados do Relatório Anual de 2025, recentemente divulgado pela estação, apontam para uma tendência preocupante: uma descida significativa no número de anilhagens na primavera e no verão, em comparação com médias históricas.

Durante uma recente onda de calor, com a humidade a fazer a temperatura percebida ultrapassar os 40ºC, os investigadores observaram uma redução acentuada no número de crias que conseguiram abandonar os ninhos.
“Isto leva-nos a extrapolar que pode haver uma taxa de falha de ninhos mais elevada localmente. O calor extremo afeta o sucesso da nidificação porque os progenitores têm um limite para a termorregulação, nomeadamente para arrefecer o ninho. Quando a temperatura ultrapassa um determinado limite, todo o ninho pode falhar".
As alterações climáticas estão também a alterar o calendário natural das espécies. Gregor Beck, diretor sénior para o Norte do Canadá da Birds Canada, explica que o aquecimento mais precoce da primavera está a fazer com que as populações de insetos atinjam o pico demasiado cedo, antes de muitas aves migratórias chegarem aos locais de reprodução.
“O clima em constante mudança também está a desorganizar os ciclos sazonais. Um dos desafios é que as alterações climáticas estão a fazer com que as coisas aqueçam mais rapidamente na primavera, pelo que o pico de abundância de insetos não coincide com a época de migração das aves”, disse Gregor.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ondas de calor desencadeiam “relação tóxica” entre ervas marinhas e microrganismos


As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes devido ao aquecimento contínuo do planeta, são já consideradas das maiores ameaças atuais à biodiversidade dos mares e dos oceanos por toda a Terra.

Uma investigação recente revela que os efeitos desses fenómenos não se limitam apenas a gerar águas mais quentes, mas que causam alterações importantes nas relações entres seres vivos que podem ter consequências nefastas para todo o ecossistema.

Quatro cientistas das universidades australianas de Sydney e da Nova Gales do Sul dizem que o stress térmico causado pelas ondas de calor marinhas desencadeia uma “relação tóxica” entre as ervas marinhas e “um ecossistema oculto de bactérias” que com elas normalmente coexiste, num arranjo que beneficia ambas as partes.

Tal como os microrganismos nos solos em terra firme são fundamentais para a vida das plantas, ajudando-as a manter-se saudáveis e a adquirir nutrientes, também na água as bactérias que vivem no leito aquático desempenham um papel semelhante em relação às ervas marinhas. Essas são plantas que vivem na água do mar e que dão flor, podendo formar extensas pradarias que servem de refúgio a muitos animais, purificam a água e ajudam a sequestrar carbono.

No que descrevem como uma “experiência de jardinagem subaquática”, os investigadores encontraram um ecossistema bacteriano de grande diversidade no solo e em torno das raízes das ervas marinhas. Num artigo publicado na ‘New Phytologist’, explicam que o aumento da temperatura da água, como durante uma onde de calor marinha, faz proliferar bactérias conhecidas por produzirem ácido sulfídrico, um composto que dizem ser tóxico para as ervas marinhas e que pode limitar o seu crescimento.

“Embora as ervas marinhas possam, à primeira vista, parecer bem, o que encontrámos no subsolo, em condições de temperatura elevada, revela uma realidade bem diferente”, avisa Renske Jongen, primeira autora do estudo.

“Sob stress térmico, as comunidades microbianas em torno das raízes das ervas marinhas alteram-se de formas que podem prejudicar a planta em vez de ajudá-la.”

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Climate Extremes - Agriculture (Extremos Climáticos - Agricultura)


De onde vem a sua alimentação?
Como é que os alimentos de todo o mundo chegam à sua mesa?
Como são os sistemas alimentares globais afectados pelas alterações climáticas?
Aprenda sobre o sistema alimentar global e as suas complexas relações com as alterações climáticas com cientistas de renome e executivos do agronegócio!

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Legendas disponíveis em: inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, turco, português, português do Brasil, chinês e russo.

Porque é que a produtividade agrícola está a diminuir com o aquecimento global?
O sistema alimentar global é a maior fonte de emissão de gases com efeito de estufa. Por isso, fazer alterações no sistema alimentar pode ser a nossa principal ferramenta para combater as alterações climáticas.
Ao mesmo tempo, a agricultura global é uma das áreas mais vulneráveis ​​às alterações climáticas. A perda de produtividade agrícola significa menos disponibilidade de alimentos para a humanidade.
O futuro do nosso planeta depende da forma como lidamos com estes desafios agrícolas.

"Extremos Climáticos: Agricultura" explora estas questões, apresentando perspetivas de especialistas, investigação científica recente e desenvolvimentos tecnológicos.

O filme conta com informações de cientistas e especialistas pioneiros, incluindo Johan Rockstrom, Daniel Swain, Shely Aronov, Paul Behrens, Matthias Berninger, Benjamin Bodirsky, Sir Charles Godfray, Monika Zurek e Jamie Basillie, de instituições como o Instituto Potsdam para a Investigação do Impacto Climático, a Escola Oxford Martin da Universidade de Oxford, a Bayer AG, a Universidade da Califórnia (Agricultura e Recursos Naturais), a InnerPlant e a Hedgehog Foods.

O documentário intitulado "Climate Extremes: Agriculture" aborda a profunda e complexa relação entre as alterações climáticas e o sistema alimentar global, explorando como o aumento das temperaturas e os eventos climáticos extremos, como secas e cheias, estão a prejudicar a produtividade agrícola mundial e a ameaçar a segurança alimentar. No que diz respeito aos principais temas abordados, a obra divide-se na análise dos impactos, das vulnerabilidades e do mosaico de soluções necessárias para o futuro.

No âmbito do impacto da agricultura no planeta, o documentário evidencia que o sistema alimentar atual é responsável por cerca de um terço das emissões globais de gases com efeito de estufa, sendo o principal motor por trás do desrespeito pelas fronteiras planetárias, como a perda de biodiversidade e o consumo excessivo de água potável. Adicionalmente, analisa-se a vulnerabilidade das monoculturas, demonstrando que a falta de diversidade genética nas colheitas modernas torna o sistema frágil perante pragas e doenças, que se propagam mais rapidamente com o aquecimento global. Outro ponto crítico discutido é o risco de falhas simultâneas nos celeiros do mundo, alertando para o perigo real de secas ou ondas de calor atingirem simultaneamente várias das regiões produtoras de alimentos mais importantes do planeta, como os Estados Unidos e o Brasil, o que inviabilizaria o comércio internacional para compensar a escassez.

Como resposta a estes desafios, o documentário apresenta um mosaico de soluções que combina práticas ancestrais e alta tecnologia. Entre elas, destaca-se a agricultura de conservação, que propõe abandonar o arado tradicional e adotar o plantio direto para manter o carbono e a humidade no solo. Sugere-se também uma mudança na dieta através do flexitarianismo, reduzindo o consumo de carne industrializada e de derivados de ruminantes para libertar vastas áreas de terra para a conservação e diminuir as emissões de metano. A bio-revolução e a inteligência artificial surgem como ferramentas essenciais para compreender proteínas, acelerar o melhoramento genético de sementes mais resilientes e criar plantas que emitem sinais óticos quando atacadas por fungos. Por fim, apontam-se as fontes alternativas de proteína, com foco no cultivo de fungos e cogumelos em grande escala, utilizando resíduos agrícolas e quase sem gastar água ou solo.

Relativamente aos painelistas e especialistas presentes, embora o documentário não apresente letreiros com os nomes completos ao longo de todo o vídeo, as intervenções dividem-se de forma clara entre grandes cientistas do sistema terrestre, decisores do setor agrícola corporativo e inovadores tecnológicos. Os cientistas do clima e sistemas terrestres, como Johan Rockström e outros investigadores seniores, lideram a explicação sobre as fronteiras planetárias e os pontos de não retorno (tipping points), como o risco de savanização da Amazónia e a urgência de manter o aquecimento global abaixo dos 1,5 °C. Por sua vez, os representantes da indústria agrícola, nomeadamente da Bayer, discutem o papel do investimento em Investigação e Desenvolvimento (I&D) privado no melhoramento de sementes, a estagnação recente da produtividade devido ao clima e a criação de ferramentas digitais ou seguros para apoiar os pequenos agricultores no Sul Global. A encerrar o painel, os inovadores e empreendedores de biotecnologia, como a equipa da Hedgehog, explicam o desenvolvimento de novas tecnologias agroalimentares, com particular destaque para o cultivo vertical e otimizado de micélio e fungos, capaz de criar proteínas altamente eficientes sem exercer pressão adicional sobre a terra.

A substituição da proteína animal por fungos é apresentada como uma solução essencial para os sistemas alimentares sob pressão climática, focando-se na eficiência biológica deste reino. De acordo com os especialistas do filme, enquanto a pecuária tradicional exige grandes extensões de terra, gera emissões elevadas e é altamente vulnerável a secas e quebras de colheita de ração, os fungos podem ser cultivados em ambientes fechados e controlados, totalmente protegidos de eventos meteorológicos extremos. A grande vantagem está na capacidade do micélio (a estrutura fibrosa dos fungos) de realizar uma bioconversão eficiente, transformando resíduos e subprodutos agrícolas de baixo valor biológico numa proteína altamente nutritiva e rica em fibras, com uma fração minúscula do uso de água e solo exigido pelos animais. Além disso, o documentário detalha que o uso de automação, robótica e inteligência artificial permite otimizar as condições atmosféricas e de substrato para acelerar o crescimento dos fungos, reduzindo drasticamente os custos de produção e tornando esta alternativa economicamente viável para o consumo em massa.

Em relação à autoria e liderança destas iniciativas no documentário, vale a pena notar que o principal porta-voz e especialista responsável por apresentar esta tecnologia específica de quintas robóticas de cogumelos é um investigador e trata-se de Jamie Balsillie, CEO e cofundador da startup de tecnologia climática Hedgehog. É ele o especialista encarregado de explicar como transformar os fungos numa fonte de proteína acessível e de baixo impacto ambiental a partir do reaproveitamento de resíduos. Se estiver a pensar na liderança feminina principal presente no segmento de inovação agrícola desse mesmo documentário, o filme destaca a investigadora e empreendedora Shely Aronov, que é CEO e cofundadora da InnerPlant, uma startup focada em engenharia de sementes que faz com que as plantas emitam sinais óticos detetáveis por satélite quando sofrem de stresse climático.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Combinação de fenómenos climáticos extremos pode obrigar a rever metas de emissões de carbono



Eventos climáticos extremos que ocorrem em simultâneo – como chuvas intensas acompanhadas por ondas de calor ou secas associadas a temperaturas extremas – poderão tornar-se muito mais frequentes nas próximas décadas se as emissões de carbono continuarem a aumentar. O alerta surge num novo estudo internacional publicado na revista científica Nature.

A investigação conclui que os atuais limites globais de emissões de dióxido de carbono (CO2) definidos para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C e 2 °C poderão ser insuficientes para evitar os impactos mais graves das chamadas “combinações de extremos climáticos”.

Os cientistas utilizaram modelos climáticos e simulações para calcular a frequência futura de fenómenos compostos, como eventos simultaneamente quentes e húmidos ou períodos de seca acompanhados por calor extremo, em função das emissões acumuladas de CO2.

Segundo o estudo, os eventos compostos mais comuns tendem a aumentar de forma linear à medida que as emissões sobem. Já os fenómenos mais raros e severos deverão intensificar-se de forma muito mais rápida.

Os investigadores Yao Zhang e Zhaoli Wang concluíram que estes eventos extremos poderão ocorrer entre 37% e 75% mais frequentemente do que o previsto pelos modelos climáticos atualmente utilizados.

De acordo com os autores, isto significa que os chamados “orçamentos de carbono” – a quantidade máxima de CO2 que a humanidade ainda pode emitir sem ultrapassar determinados limites de aquecimento global – poderão ter de ser reduzidos significativamente.

Os cientistas defendem que os modelos atuais avaliam sobretudo a relação entre emissões e aumento médio da temperatura global, mas não captam totalmente os impactos sociais e ecológicos provocados pela combinação simultânea de fenómenos extremos.

“Eventos compostos, como calor extremo e inundações ao mesmo tempo, representam riscos particularmente elevados para sociedades e ecossistemas”, sublinham os autores.

O estudo propõe ainda uma nova métrica para integrar estes fenómenos nas futuras negociações climáticas e na definição de políticas ambientais mais abrangentes.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Hegseth Says Climate Change Is ‘Crap.’ The Military Is Still Bracing for It


When Hurricane Michael, a Category 5 storm, tore through Florida’s Tyndall Air Force Base in 2018, it battered F-22 stealth fighter jets, destroyed hundreds of buildings and churned up 700,000 cubic yards of debris. The total cost of the damage approached $5 billion.

Now, Tyndall is being rebuilt as a super-resilient “installation of the future.” New buildings sit more than a foot above the ground, to remain dry through 75 years of sea-level rise. Their roofs are designed to withstand winds of up to 165 miles per hour. Manmade oyster reefs will protect coasts by breaking up waves.

The massive project will be 70% complete next year, said the officer leading it, Col. Robert Bartlow, chief of the US Air Force Civil Engineer Center Natural Disaster Recovery Division. “This is a first for the Air Force,” he said, with large-scale, cutting-edge construction taking place “on top of an existing base, while there was a continued flying mission.”

Storms like Michael are becoming more powerful and damaging as the world warms, and many military installations are exposed to them and other climate hazards. Still, Secretary of Defense Pete Hegseth vowed last year that the Pentagon wouldn’t do any “climate change crap” on his watch. Biden-era climate action plans were scrapped, and the 2025 National Security Strategy invoked climate change only to label it a “disastrous” ideology. Hegseth canceled nearly 100 research studies related to global warming and security, which experts say will compound the loss of climate knowledge across the federal government under President Donald Trump.

“Because ‘climate’ is a dirty word, we’re not investing in that predictive capability,” said Sherri Goodman, secretary general of the non-governmental International Military Council on Climate and Security and, from 1993 to 2001, the US deputy undersecretary of defense for environmental security.

But as Tyndall shows, the Defense Department is still engaged on one front of the climate fight: steeling its bases against the effects of a warming atmosphere, such as higher seas, fiercer storms and deadlier fires. A new flood wall is rising at the US Naval Academy in Maryland; a low-lying Air Force runway is being elevated in Virginia; and projects are underway to reduce wildfire risk around various military sites in Hawaii.

Work that was previously described as confronting the climate threat is now touted for ensuring “resilience” and “readiness.” The semantics are a nod to necessity: At stake are hundreds of billions of dollars of assets and the ability to launch missions quickly and smoothly.

“Ultimately, the military is a very pragmatic institution,” said John Conger, a past director of the nonprofit Center for Climate and Security and a senior Defense Department official during the Obama administration. “It wants to maintain mission capability. Whether we’re going to call it ‘climate,’ not ‘climate,’ whatever — if I can’t get to the base because the road is flooded, that’s a problem.”

Representatives of the Defense Department declined to comment.
Global warming impinges on American security and military operations in numerous ways. More climate-driven disasters means more deployments to respond to them. Extreme heat makes it harder for jets to lift off and sickens soldiers during training exercises. Climate change also acts as a “threat multiplier” – a term that Goodman coined – around the world. It can exacerbate drought conditions, which may limit water or food in regions already primed for conflict.

Much of the military’s resilience work began years ago; construction timelines are long. The $900 billion 2026 National Defense Authorization Act, which Trump signed into law in December, includes measures that could be said to come under the umbrella of climate adaptation. The law bolsters the military’s ability to respond to wildfires; raises the cost limit for replacing structures destroyed by disasters; and requires military leaders to identify the biggest risks to water security on bases.

Congress has given the military “decades-long, bipartisan direction” to prepare for climate change, even at times when the term itself was out of political favor, noted Will Rogers, a principal of Converge Strategies and the senior climate advisor to the secretary of the Army from 2022 to January 2025.

If climate preparedness is another term for environmental assessment, “the Army’s been doing this regularly now since World War II,” said Frank Galgano, a geographer at Villanova University who retired from the Army as a lieutenant colonel in 2007.

The approach may not have shifted, but the atmosphere has. Extreme weather and disasters have caused $15 billion of damage to defense facilities over the past decade. In 2023 alone, Typhoon Marwar ravaged two bases on Guam, heavy rains swamped the campus of West Point in New York and a landslide blocked the main road at Camp Pendleton in California.

Close to $400 billion of federal government assets, most of them belonging to the Defense Department, are at high risk of being hit by a major coastal flood or storm in coming years, according to a Bloomberg Law analysis.

The Pentagon explicitly recognized the warming climate as a danger for many years. The 2008 National Defense Strategy flagged climate change as an emerging risk, and two years later it was named a national security threat in the Pentagon’s Quadrennial Defense Review. After that, the Defense Department and the individual armed forces put out a stream of climate and sustainability plans. (Some have now been removed from government websites.)

James Mattis, who served as defense secretary during President Donald Trump’s first term, described climate change as a destabilizing force in 2017. His Biden-era successor Lloyd Austin said in 2021, “We face all kinds of threats in our line of work, but few of them truly deserve to be called existential. The climate crisis does.”

Trump and Hegseth have made a sharp pivot. In a March 2025 memo to military leaders, Hegseth called climate change a “distraction” from fighting wars, ordered that references to it be removed from mission statements and barred any environmental initiatives from being included in the Future Years Defense Program, a strategic plan.

Hegseth also included a caveat big enough to steer an aircraft carrier through. “Nothing in this memorandum,” he wrote, “shall be construed to prevent the department from assessing weather-related impacts on operations, mitigating weather-related risks, conducting environmental assessments, as appropriate, and improving the resilience of military installations.”

Days after Hegseth issued his memo, the Pentagon’s guidance on master planning for bases was updated. (By law, every major military installation must have a master plan.) In the older version from 2022, the word “climate” was used 54 times. It doesn’t appear once in the new version, which still directs planners to identify and mitigate risks from extreme weather.

Bartlow, at Tyndall, sees no contradiction between that project and Hegseth’s guidance.

The overarching goal at Tyndall, he said, is “preserving lethality in a high-end combat capability. When we talk about resilience, it’s focused on preserving that combat capability.” If another Category 5 hurricane hits, “there’ll be some interruptions, but the idea is you’ll be able to recover this installation quickly,” Bartlow said. “You can make that direct link back to readiness.”

Hardening efforts continue elsewhere but are falling short. A February Government Accountability Office report found that the military has failed to track all the costs from disaster damage and hasn’t fully incorporated climate-change projections into facility designs, and that many of its master plans still haven’t been updated to promote greater resilience.

One constraint is funding. “Our installations are funded at about 80% of what they need on a day-to-day basis,” said Rogers, the former Army climate adviser.

The Iran war could apply more pressure. Defense officials “could use their reprogramming authority to pay for contingency operations in Iran” with money meant for fortifying bases, said Rogers. “I would be worried about that, depending on how long this goes.”

Although the Pentagon has maintained a focus on resilience, under Hegseth it has backed off efforts to lower its emissions — the US military is the single biggest climate polluter in the country — and develop green ships and tanks. The armed forces have in recent years explored using hybrid and electric tanks for tactical, not just environmental reasons: They reduce reliance on diesel supply lines, are quieter and are less detectable to heat radar. While the Army is moving ahead with its hybrid M1E3 tank, funding for such initiatives has declined, said Rogers.

Of the studies that Hegseth canceled, some focused on the Indo-Pacific, where China has ambitions, noted Goodman. She said the lost knowledge and reduced funding for climate and weather research – not just in the military but in agencies like the National Oceanic and Atmospheric Administration – could set back defense planning.

She offered a hypothetical example: With AI pushing the envelope in forecasting, an adversary could anticipate and take advantage of a weather event to launch a cyberattack on the US. “And if we’re not understanding that,” she said, “then we have become more vulnerable.”

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O aquecimento dos oceanos causa uma redução anual de 20% no número de peixes

O aquecimento crónico e prolongado dos oceanos é o responsável pelo declínio anual de quase 20% na biomassa de peixes (o peso total dos peixes capturados vivos em redes de arrasto), segundo pesquisadores do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha e da Universidade Nacional da Colômbia.

A pesquisa, desenvolvida nas águas do Mediterrâneo, do Atlântico Norte e do Pacífico Nordeste, baseia-se na análise de 702.037 estimativas de mudanças na biomassa de 33.990 populações de peixes registadas entre 1993 e 2021 no Hemisfério Norte.

Os dados coletados, segundo os pesquisadores, devem ser cruciais para aprimorar a gestão da pesca e a conservação dos ecossistemas marinhos, dos quais depende grande parte da segurança alimentar mundial; hoje, 25 de fevereiro, eles publicam os resultados do seu trabalho na revista Nature Ecology and Evolution.

Shahar Chaikin, pesquisador do Museu Nacional de Ciências Naturais, explicou à EFE que calcularam essa perda de 'biomassa' analisando o peso total dos peixes vivos capturados em redes de arrasto de fundo durante o período abrangido pelos estudos científicos, que inclui espécies comerciais e não comerciais.

As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes, não afetam todos os peixes da mesma forma, pois há populações que "perdem" e outras que "ganham", e o estudo mostra que tudo depende da zona de conforto térmico, a faixa de temperatura ideal na qual cada espécie cresce e se desenvolve melhor.

No final das contas, ninguém ganha.
Shahar Chaikin afirmou que, tanto globalmente quanto em nível populacional (em locais específicos), a tendência geral é de diminuição dessa biomassa à medida que os oceanos aquecem, e declarou que o resultado final do trabalho é que "ninguém ganha a longo prazo".

Quando uma onda de calor leva os peixes em águas já quentes além de sua zona de conforto térmico, a sua biomassa pode cair até 43,4%, mas as populações em áreas mais frias muitas vezes prosperam temporariamente com o aumento das temperaturas, aumentando a sua biomassa em até 176%.

“Embora esse aumento repentino na biomassa em águas frias possa parecer uma boa notícia para a pesca, trata-se de um aumento temporário. Se os gestores aumentarem as quotas de pesca com base no aumento da biomassa causado por uma onda de calor, correm o risco de provocar o colapso dos stocks quando as temperaturas voltarem ao normal ou quando o efeito do aquecimento global a longo prazo se consolidar, porque esses aumentos são pontuais”, alertou Chaikin.

“Ao contrário das flutuações climáticas de curto prazo, que podem variar drasticamente, o aquecimento crónico exerce uma pressão negativa constante sobre as populações de peixes no Mar Mediterrâneo, no Oceano Atlântico Norte e no nordeste do Oceano Pacífico”, disse Juan David González Trujillo, pesquisador da Universidade Nacional da Colômbia, num comunicado à imprensa divulgado na quarta-feira pelo MNCN.

Coordenação internacional para gerir recursos que não conhecem fronteiras.
A abordagem tradicional à gestão da pesca já não acompanha o ritmo das alterações climáticas e, para garantir o futuro dos recursos pesqueiros globais, os autores propõem uma estrutura de três níveis que combina resposta rápida, planeamento a longo prazo e cooperação internacional. Observaram que as espécies, na tentativa de se manterem dentro da sua zona de conforto térmico, inevitavelmente atravessam fronteiras internacionais, pelo que a conservação requer coordenação internacional e acordos conjuntos de gestão de recursos.

O pesquisador do MNCN-CSIC, Miguel Bastos Araújo, enfatizou a importância de equilibrar cuidadosamente os aumentos localizados com os declínios a longo prazo para evitar a sobre-exploração e afirmou que a única estratégia viável diante do aquecimento dos oceanos é priorizar a resiliência a longo prazo. "As medidas de gestão devem levar em conta o declínio esperado da biomassa num oceano cada vez mais quente."

A conclusão é que os recursos pesqueiros não podem ser regulamentados apenas considerando o aumento ou a diminuição ocasional da biomassa devido a uma onda de calor marinha, disse Chaikin à EFE, citando o exemplo do robalo do Mediterrâneo: quando confrontado com uma onda de calor marinha, é essencial reduzir a pressão da pesca, porque enfrenta perdas muito maiores do que as populações em costas mais frias da Galiza ou da Inglaterra.

Mas, embora as populações nessas "bordas frias" possam experimentar um aumento significativo durante uma onda de calor, esses ganhos são "transitórios" e desaparecem com o aquecimento oceânico a longo prazo , portanto, não representam uma oportunidade para a "captura sustentável".