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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Cast of Lions - Sticks and Stones


Cast of Lions: O Retrato de uma Infância Inocente no Coração do Indie Rock
Lançada em 2013 no único álbum de estúdio da banda, Eyes Wide to New Places, a canção “Sticks & Stones” do grupo britânico Cast of Lions assume-se como uma autêntica ode à infância e à redescoberta da inocência. Formada em Londres, a banda nasceu como um projeto paralelo de vida curta que reuniu músicos com percurso firmado no cenário alternativo do Reino Unido, nomeadamente Stefan Abingdon (dos The Midnight Beast) e elementos da prestigiada formação de synth-punk Hadouken!. Musicalmente, o projeto move-se entre o indie rock, o indie pop e o pop-punk alternativo, combinando guitarras enérgicas, arranjos rítmicos marcantes e melodias de grande impacto imediato.

A letra de “Sticks & Stones” contrasta de forma percetível a nostalgia dos jogos infantis com as marcas do envelhecimento e o peso da vida adulta. Ao evocar imagens de crianças a correr com paus, pedras e "armas" desenhadas com as mãos, a canção explora a forma como a infância encara o mundo: com fascínio, pureza e sem o cinismo inerente à maturidade. A composição subverte propositadamente o célebre provérbio da tradição oral anglófona - "Sticks and stones may break my bones, but words will never hurt me", despojando-o da sua carga moral para o devolver ao seu sentido físico e lúdico. Na narrativa da canção, os arranhões e ossos partidos da infância são feridas superficiais que saram rapidamente, em claro contraste com as dores invisíveis e a carga emocional simbolizadas pelas rugas da vida adulta.
Versão acústica
Sob o ponto de vista filosófico e literário, o conceito da canção e do próprio álbum ressoa profundamente com o olhar puro e desarmado sobre a realidade. Esta perspetiva evoca o pensamento do Iluminismo e do Romantismo - desde o "estado de natureza" e a pureza original defendidos por Jean-Jacques Rousseau até à celebração da imaginação infantil nas obras poéticas de William Blake e William Wordsworth. A infância surge aqui como um estado primordial de verdade e liberdade, no qual o olhar do indivíduo permanece amplo (eyes wide) e capaz de se deslumbrar com o quotidiano, antes que as convenções sociais e a ansiedade existencial imponham as suas barreiras.

A existência do Cast of Lions esteve intrinsecamente ligada à ética da cultura DIY (Do It Yourself ou "Faça Você Mesmo"). Como reflexo deste movimento que tem as suas raízes no punk dos anos 1970, o grupo optou por não depender das grandes editoras multinacionais, criando o seu próprio selo (Cast of Lions Records) para lançar a sua música com total autonomia artística. Após a edição do álbum em agosto de 2013 e a promoção de alguns videoclipes, o projeto cumpriu o seu propósito pontual. Os seus elementos regressaram aos seus caminhos originais e a novos desafios: Stefan Abingdon prosseguiu o seu trabalho no audiovisual e na comédia musical, enquanto os restantes membros migraram progressivamente para a produção em estúdio, engenharia de som e composição para outros artistas. A banda deixou, assim, um registo temporal único e apreciado pelos entusiastas do indie alternativo da década de 2010.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Eivør - Spøkilsir - Revenants


Eivør (Eivør Pálsdóttir), uma das artistas mais emblemáticas das Ilhas Faroé — território autónomo do Reino da Dinamarca -, construiu uma identidade artística singular ao fundir as raízes do folk nórdico com dark folktronica, art pop e música ambiente. A canção "Spøkilsir", originalmente lançada em faroês no álbum Slør (2015) e mais tarde adaptada para o inglês sob o título "Revenants" (2017), exemplifica perfeitamente esta estética ao combinar técnicas vocais tradicionais escandinavas, como o kveding e o galdr, com sintetizadores industriais e paisagens sonoras cinemáticas.

Tematicamente, a composição explora o peso do passado e a forma como memórias, traumas e emoções mal resolvidas continuam a assombrar o presente. O termo revenant - referente a um espírito que regressa dos mortos - serve de metáfora para estas presenças internas que habitam o subconsciente, convidando o ouvinte a refletir sobre a aceitação da dor e a coexistência com as próprias sombras em vez da sua negação. No teledisco, esta mensagem ganha vida através das paisagens dramáticas, austeras e enevoadas das Ilhas Faroé, onde a natureza funciona como um espelho da psique humana. A performance de Eivør adquire contornos quase xamânicos e rituais, encenando um confronto poético com figuras veladas que simbolizam o limiar entre o visível e o invisível, a vida e a memória.

Esta abordagem carrega fortes influências literárias e filosóficas. Por um lado, bebe do folclore nórdico e nas sagas medievais, evocando a figura do draugr - o morto que regressa por deixar algo inacabado na terra. Por outro, dialoga diretamente com o conceito de "Sombra" da psicologia analítica de Carl Jung, sugerindo que o crescimento pessoal exige integrar as partes reprimidas da mente, bem como com a angústia existencial da temporalidade abordada por filósofos como Søren Kierkegaard. A obra filia-se ainda no Romantismo Escuro, onde o sublime e o aterrador se entrelaçam para encontrar beleza na melancolia e na impermanência.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Antilope & Pedro Code - The Expanse


A colaboração em "The Expanse" junta o músico e compositor norueguês Karl Morten Dahl (o projeto Antipole, sediado em Trondheim) e o vocalista e poeta português Pedro Code (conhecido pelo seu trabalho na banda de darkwave IAMTHESHADOW). Esta união transnacional reflete a própria essência do som, estabelecendo uma ponte entre a melancolia contemplativa do Norte da Europa e o romantismo obscuro e existencialista do Sul.

A canção insere-se nas correntes de Post-Punk, Coldwave e Darkwave, destacando-se pela sua arquitetura sonora. Enquanto os sintetizadores criam uma atmosfera envolvente e fluida em segundo plano, a guitarra sobressai com arpejos limpos, hipnóticos e repletos de reverb e delay. Este dedilhado preciso e melódico sobrepõe-se à pulsão eletrónica, evocando referências icónicas dos anos 80 como The Cure, Durutti Column ou Clan of Xymox, mantendo simultaneamente uma identidade contemporânea e elegante.

Visualmente, o videoclipe em preto e branco contrapõe a imensidão da natureza norueguesa - composta por árvores, florestas e espaços abertos onde a guitarra é tocada - com a introspeção dos espaços fechados e urbanos onde Pedro Code interpreta a voz. Esta dicotomia reflete o tema central da obra: a busca por significado perante "a expansão" (the expanse) do tempo e do espaço. Liricamente, o tema aborda o vazio, a espera e a passagem inexorável do tempo, utilizando a estética monocromática para simbolizar a sobriedade do isolamento e a procura de clareza interior no meio da escuridão.

A lírica de Pedro Code bebe fortemente do existencialismo filosófico, evocando pensadores como Jean-Paul Sartre e Søren Kierkegaard ao abordar a condição humana, a solidão, a finitude e a necessidade de preencher o vazio da existência através da palavra e da arte. Notam-se ainda traços do romantismo sombrio e da poesia simbolista, nos quais elementos naturais como a luz, a sombra e o gelo servem de metáforas para estados de alma e reflexões sobre a memória.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A ciência da quietude: nictinastia e ritmos naturais


A quietude que se sente no solo da floresta ao anoitecer não é uma ilusão provocada pela penumbra, mas sim um processo biológico ativo. Cenoura-brava (Daucus carota), prestes a despertar no matagal: rodeada por botões no meio de uma densa folhagem, uma única flor branca suspendeu o seu desabrochar até ao amanhecer, repousando lado a lado com pequenas flores roxas companheiras (talvez violetas) no sub-bosque húmido e sombreado.

Esta reação dinâmica à transição entre o dia e a noite ocorre através da nictinastia - um movimento funcional em resposta à ausência de luz e à descida de temperatura. As células das plantas da família Apiaceae alteram a sua pressão de turgor (a pressão da água no seu interior), fazendo com que a umbela e os seus botões imaturos se dobrem ou se fechem hermeticamente. Este mecanismo protege os delicados órgãos reprodutivos contra o frio e a humidade noturnos. Enquanto o mundo dorme, toda a flora parece descansar e desacelerar, respeitando em silêncio os ciclos ancestrais da Terra.

Entre o Sinal e o Silêncio
Enquanto a rede pulsa em cabos de luz,
e o ecrã consome o olhar distraído,
a terra, em segredo, a si se reduz,
num ritmo antigo, calmo e esquecido.

Procuramos o mundo num brilho irreal,
hiperconectados, em febre e desterro,
esquecidos do sopro do chão ancestral,
presos à ilusão do vidro e do ferro.

Mas lá fora, na sombra, a flor sabe esperar.
A cenoura-brava dobra o seu manto,
suspende o desabrochar até o sol voltar,
coberta de orvalho, de noite e de encanto.

Sem pressa, sem rede, sem código ou sinal,
a vida recolhe na sua quietude profunda.
O verdadeiro mistério do mundo real
é o silêncio da terra quando a noite o inunda.

Poema de João Soares, 03.08.2026

«A ilusão da falta de vida é apenas isso: uma ilusão. Em todo o lado há a garantia de que o ciclo se cumpriu, contendo em si os meios para a sua própria renovação.» - Rachel Carson in O Mar que Nos Cerca

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Trentemøller: In The Gloaming

Melhor som aqui
Letra
[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

[Verse 1]
Tears of a silent rain falling
Leading me back to you
Through the dusk, into the dark night

[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

[Bridge]
In the gloaming
All the shadows, they fall
In the moonlight
All the stars are aligned
For you
For me
For us to see

[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

[Verse 2]
In the gloaming
In the twilight
Will I find a way?

[Chorus]
You draw me in
You pull me down
A rose behind all those many thorns

Em relação à nacionalidade, o projeto é dinamarquês, já que Anders Trentemøller nasceu em Copenhague, na Dinamarca, e toda a produção e base do seu selo independente, In My Room, estão sediadas lá. Quanto às colaborações, a grande parceira desta faixa e de boa parte do álbum é a cantora e guitarrista dinamarquesa Lisbet Fritze, ex-membro da banda Giana Factory, que assume a responsabilidade pela voz etérea e flutuante que guia a melodia da canção, além de colaborar de perto nos arranjos de guitarra com Trentemøller. 
No estilo musical, a música marca uma consolidação da transição do artista, que começou na música eletrônica minimalista e no techno, migrando para sonoridades mais orgânicas e analógicas. Dessa forma, o estilo de "In The Gloaming" pode ser classificado como Dream Pop ou Space Pop, devido às linhas de sintetizadores brilhantes e vocais enevoados que remetem a bandas clássicas como Cocteau Twins, e também como Shoegaze ou Post-Punk, pelo uso de guitarras marcantes com muito reverb e linhas de baixo melódicas e proeminentes, com forte influência de bandas dos anos 80 e início dos 90, como The Cure e o selo 4AD. 
Sobre o significado da canção, o termo "Gloaming" significa o crepúsculo ou a hora do lusco-fusco, que é aquele momento de transição exato entre o fim do dia e o início da noite. Liricamente, a canção usa essa metáfora do entardecer para falar sobre transição, impermanência e o esmaecer de um relacionamento. Segundo o próprio Trentemøller, a letra é aberta e abstrata, funcionando quase como uma pintura para complementar a música, retratando a ambiguidade de um amor que está esfriando, como uma rosa por trás de tantos espinhos, a sensação de perda iminente, mas também a busca por uma luz ou guia para atravessar esse momento de escuridão, equilibrando melancolia e um romantismo sombrio. 
Por fim, a mensagem do vídeo mostra que o videoclipe oficial captura perfeitamente essa estética alucinógena e melancólica do crepúsculo, brincando visualmente com o conceito de liminaridade, que é o espaço entre dois estados, como a vigília e o sonho, ou a luz e a sombra. A mensagem do vídeo gira em torno do isolamento e da introspecção, de modo que, através de imagens granuladas, contrastes de luz desfocada e cores frias intercaladas com lampejos de luz quente, o clipe transmite a sensação de que o tempo está desacelerando, espelhando visualmente a jornada emocional da música e o sentimento de estar perdido nos seus próprios pensamentos, olhando para o espaço, enquanto o mundo ao redor mergulha na noite para simbolizar o fim de um ciclo ou o momento exato em que aceitamos que algo chegou ao fim.

Embora o videoclipe de "In The Gloaming" não seja um documentário sobre a natureza ou mostre florestas tropicais exuberantes, a biofilia faz-se presente de forma subtil, poética e melancólica. Trentemøller usa a relação com os elementos naturais para traduzir o estado psicológico das personagens, surgindo no vídeo através de três aspetos principais.

Primeiramente, o crepúsculo surge como um elemento vital, associado à hora do lusco-fusco, visto que a biofilia dita que respondemos biologicamente aos ciclos da Terra e ao ritmo circadiano. O teledisco é inteiramente focado na transição da luz do dia para a escuridão da noite, pelo que o ambiente natural do entardecer, com o sol a sumir no horizonte e a mudar a tonalidade do céu, não é apenas um fundo fotográfico, mas sim algo que dita o ritmo desacelerado, a introspecção e o sentimento de recolhimento das personagens, retratando o ser humano a reagir emocionalmente a um fenómeno natural.

Em segundo lugar, destacam-se os ambientes naturais nórdicos e o isolamento, dado que o vídeo se passa em grande parte ao ar livre, mostrando paisagens típicas da Escandinávia, como praias desertas, o mar cinzento, campos abertos e o vento constante. Existe aqui um contraste biofílico muito claro, pois as personagens parecem perdidas ou distantes quando estão em espaços fechados, sendo precisamente quando vão para a natureza, como a praia e o campo aberto, que parecem processar os seus sentimentos de forma mais profunda, funcionando a imensidão do mar e do céu como um espelho para o vazio ou a melancolia que sentem por dentro.

Por último, verifica-se o embate entre a luz orgânica e a luz artificial, com o teledisco a abusar de texturas visuais e a focar-se imenso na forma como a luz natural, vinda do sol poente e dos reflexos na água, bate na lente da câmara, gerando feixes de luz desfocados, conhecidos como lens flares. Esta busca por texturas orgânicas e imperfeitas da luz natural constitui uma forma de design biofílico visual que gera uma sensação de calor, presença e nostalgia que a luz artificial e fria de um estúdio jamais conseguiria replicar.

Concluindo, o veredicto aponta que, no vídeo, a biofilia não aparece como uma celebração alegre da vida selvagem, mas sim como uma ligação visceral e melancólica com a impermanência da natureza, onde as personagens procuram o isolamento no mundo natural para conseguirem digerir o fim de um ciclo afetivo.

sábado, 27 de junho de 2026

Slowdive - Sugar for the Pill

Melhor som aqui
Letra
There's a buzzard of gulls
Travelling in the wind
Only lovers alive
Running in the dark

[Refrão]
And I rolled away, said we never wanted much
Just a rollercoast', our love has never known the way
Sugar for the pill, you know it's just the way things are
Cannot buy the Sun, this jealousy will break the whole

Cut across the sky
And move a little closer now
Lying in a bed of greed
You know I had the strangest dream

[Refrão] 2X

"Sugar for the Pill", da banda britânica de shoegaze Slowdive, é uma canção melancólica e atmosférica que explora a complexidade, o desgaste e a inevitabilidade do fim de uma relação amorosa. O título da música baseia-se numa conhecida metáfora inglesa ("sugarcoating the pill"), que significa adocicar ou suavizar uma pílula amarga para que seja mais fácil de engolir. No contexto da letra, esta imagem serve como o pilar central para descrever a tentativa infrutífera de mascarar uma realidade dolorosa: o amor entre duas pessoas esfriou e a rutura é inevitável.

Ao longo do tema, a narrativa evoca uma forte sensação de desapego, solidão partilhada e cansaço emocional. O vocalista Neil Halstead canta sobre um casal que parece estar fisicamente próximo, mas emocionalmente distante, comunicando através de silêncios ou de palavras que já não conseguem curar as feridas existentes. As referências ao vento, à perda de controlo e ao ato de "dar voltas" sugerem um ciclo vicioso de discussões ou de tentativas falhadas de salvar o que resta, onde ambos sabem que o desfecho será o afastamento.

A expressão "açúcar para a pílula" funciona, assim, como uma crítica a esse esforço de manter as aparências ou de adiar o sofrimento. Por mais que os envolvidos tentem encontrar desculpas, usar palavras meigas ou recorrer a falsos confortos para suavizar o impacto da separação, a verdade subjacente permanece amarga e imutável. A música capta precisamente o momento em que se ganha a consciência de que a ilusão já não funciona e de que é necessário encarar a dor de frente, sem anestesias.

Sonoramente, a faixa espelha esta mensagem com maestria. A linha de baixo constante e a guitarra minimalista e cheia de eco criam um ambiente flutuante, quase hipnótico, que traduz o sentimento de se estar à deriva. Em suma, "Sugar for the Pill" é uma reflexão íntima sobre a desilusão amorosa e a aceitação da perda, ilustrando a transição dolorosa entre o esforço de romantizar um problema e a inevitável rendição à realidade dos factos.

Neil Halstead explicou detalhadamente a origem da canção no podcast Song Exploder. A inspiração visual para o início da letra - a famosa imagem das gaivotas na bruma ("There's a blizzard of gulls...") - surgiu durante caminhadas que Neil fazia na costa de Cornualha (Cornwall), no sudoeste de Inglaterra, onde vive. O barulho e o caos das aves marinhas daquela região costeira ditaram o tom inicial. Também disse que se inspirou na música depois de ler o clássico Os Montes Uivantes (Wuthering Heights), de Emily Brontë. Neil Halstead revelou que leu o livro pela primeira vez em 2014, enquanto escrevia o álbum. Ele ficou fascinado pela envolvência da natureza na história e pela relação intensamente destrutiva e condenada entre Heathcliff e Cathy. Esse ambiente ventoso, selvagem e melancólico dos pântanos ingleses serviu de metáfora perfeita para o romance em ruínas que a música retrata.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

O Andorinhão

Andorinhão-preto (Apus apus) - Foto de Nuno Campos

O Andorinhão
"Elegante, escuro, incansável e livre.
Irmão do vento, filho do céu sem fim.

Amante do ar livre, do vendaval impetuoso e da emoção da caça.
Temendo apenas o solo firme, a terra pesada e a quietude de uma gaiola.

Doador de velocidade ao céu, de um grito agudo ao verão e de sombras às nuvens.
Vivendo num turbilhão de movimento, dormindo na brisa, bebendo da chuva.

Ansiando tocar as estrelas, perseguir o sol e nunca ter de aterrar.
Encontrando um lar nas vigas mais altas, nos céus mais profundos e no azul aberto.

Residente do horizonte sem limites.
Apus"

João Soares, 25.06.2026

Como é que os andorinhões conseguem dormir a voar?
O que muitas pessoas desconhecem é que os andorinhões passam quase toda a vida a voar, incluindo dormir. E conseguem fazê-lo sem acidentes porque “não dormem de forma contínua”.

À noite, “sobem a altitudes que podem chegar aos 2000 metros, aproveitando massas de ar quente”, e dessa forma ficam a salvo de chocar contra telhados, fachadas de prédios e outras estruturas. “Fazem movimentos de batimentos de asas de quatro segundos aos quais se seguem períodos de repouso de três segundos, que funcionam como um período de descanso intermitente”.

Tudo isto acontece enquanto continuam a voar a cerca de 20 km/h, sempre embalados pelas correntes de ar. E como descansam à noite em altitudes elevadas, os predadores – como corujas e falcões – têm dificuldade em caçá-los.

A verdade é que o corpo destas aves insectívoras está especialmente adaptado para o voo. “Toda a silhueta parece um arco com uma flecha. A cabeça fica bem escondida entre os ombros, as asas têm forma de foice e o corpo parece um torpedo.” É assim que atingem velocidades de 100 km/h, sendo considerados as aves mais rápidas do mundo em voo contínuo.

E é em pleno voo que caçam, normalmente a velocidades mais moderadas para escolherem os alimentos preferidos. “Com a sua enorme boca conseguem caçar mais de quinhentas espécies diferentes de insectos de diversos tamanhos e formas, e até aranhas em teias suspensas no ar.”

É também assim que recolhem materiais para os ninhos, aproveitando tudo o que apanham, como ervas secas e penas, que depois misturam com saliva. E é no ar que muitas vezes acasalam e realizam todas as outras tarefas, como a limpeza das penas ou beber água – o que fazem “em voos rasantes a rios e lagoas.”

Pousam apenas para se abrigarem de chuvas fortes e tempestades prolongadas, abrigando-se nos ninhos ou noutros abrigos, mas só aguentam sem comer um máximo de três a quatro dias. Outra pausa no voo acontece quando cuidam das crias que já nasceram. Nos primeiros 10 a 15 dias de vida daquelas, “um dos adultos, ou até os dois, ficam no ninho durante a noite.”

Os pequenos andorinhões vão permanecer abrigados quase um mês e meio. Depois, logo na primeira vez que levantam voo, “ficam de imediato independentes dos pais e nunca irão regressar ao ninho, começando a migração para África quase de imediato.” Durante pelo menos dois anos, vão continuar a voar, fazendo um total de 50.000 km sem pausas.

“Se considerarmos que a esperança de vida de um andorinhão pode chegar aos 21 anos – normalmente vivem apenas quatro a seis anos – percorrem distâncias que dariam para ir e vir à Lua várias vezes.”
Fonte

sábado, 20 de junho de 2026

Antipole & Ja'kob - Echoes (ft. Pedro Code)


Letra
Face the need to close your eyes
Strange belief
To make wrong, right

All is fear inside your mind
Use me
Make wrong right
Use me
Show me where's life
 
Tame this need
The fire inside
All is fear
Inside your mind
 
Use me
Make wrong right
Use me
Show me where's life
A música conecta duas geografias europeias distintas, unindo o frio do norte com o romantismo sombrio do sul:
  • Antipole (Karl Morten Dahl) - Norueguês. é o guitarrista e compositor principal estabelecido em Trondheim, Noruega.
  • Ja'kob (Jakob Viberg-Dahl)- Norueguês. ele é um jovem guitarrista em ascensão e, curiosamente, é filho de Karl Morten Dahl (Antipole).
  • Pedro Code: Português. vocalista, letrista e produtor da faixa, amplamente conhecido na cena gótica europeia como a mente por trás do projeto nacional IAMTHESHADOW.

Liricamente, "Echoes" (Ecos) fala sobre o confronto inevitável com os fantasmas e traumas que carregamos, tanto a nível individual como coletivo. O existencialismo sombrio da letra aborda:
  • O ciclo do medo: versos como "All is fear inside your mind" retratam a mente como uma prisão onde os receios passados continuam a ecoar (daí o título da faixa).
  • Vulnerabilidade e rendição: o apelo repetitivo "Use me / Show me where's life" funciona como um pedido de socorro ou de ligação humana profunda. Mostra a necessidade de encontrar a "vida" e a luz no meio da escuridão interior, usando o outro ou a própria arte como um guia para superar a paralisia emocional.
  • Cura através do confronto: fechar os olhos e encarar o fogo interior ("Face the need to close your eyes / Tame this need, the fire inside") sugere que a única forma de pacificar a mente é aceitar a dor, silenciar o ruído exterior e tentar transformar o que está errado em algo certo ("To make wrong, right").

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Antipole & Pedro Code - Your Dreams Explode

Melhor som aqui
Letra
Close your eyes
You, soul unpure
Tame the fire
You, soul impure  

You are running thru a wall
As your dreams explode  

Close your eyes
You, soul unpure
You are facing all the doubts
As your fate come true  

Are you losing all the fights
You, soul unpure  

And your dreams explode
Your dreams explode

Significado da canção
"Your Dreams Explode" é uma viagem introspetiva que aborda a crise existencial, o choque com a realidade e a perda da inocência. Ao repetir o chamamento "You, soul unpure", a letra não fala necessariamente de maldade, mas sim da perda da pureza original provocada pelos erros, traumas e desilusões da vida adulta, funcionando como um confronto direto com o espelho. Esta decadência reflete-se no colapso das expectativas, onde a metáfora de "correr contra uma parede" enquanto os sonhos explodem ilustra aquele momento inevitável da vida em que os planos idealizados falham categoricamente, traduzindo a dor de ver as ilusões desfeitas pela força bruta da realidade. Diante deste cenário, surge o confronto com o destino através da passagem "You are facing all the doubts / As your fate come true", sugerindo que aceitar o fim dos sonhos e abraçar as próprias falhas faz parte do percurso humano. Perder as lutas externas obriga a personagem da canção a "fechar os olhos" e a olhar para dentro, procurando uma transformação através do caos. Resumindo, é uma canção melancólica, mas de certa forma libertadora, sobre o desabamento daquilo que construímos na nossa mente e a necessidade de renascer dos escombros dos nossos próprios desejos.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mild Orange - This Kinda Day

Keep moving
To the out-lies
Of your head

Like an ocean
So often
In change

Yeah it's this kinda day
For a long kinda night
Yeah it's this kinda day
For a long kinda night

Let it getaway
Let's get away

'Cause I can tell there's something wrong
Usually it's not like this
All these things inside of our heads
Are okay - this moment too
Will all make sense someday

Keep your eye on
The horizon
Always

'Cause I can tell there's something wrong
And usually it's not like this
All these things inside of our heads
Are okay - this moment too
Will all pass someday
It's not like you're always like this
Remember how it felt moving forward
But for now - this moment too
Will all make sense someday

Yeah it's this kinda day
For a long kinda night
Yeah it's this kinda day
For a long kinda night

Let it getaway
Let's get away

'Cause I can tell there's something wrong
And usually it's not like this
All these things inside of our heads
Are okay - this moment too
Will all pass someday
It's not like you're always like this
Remember how it felt moving forward
But for now - this moment too
Will all make sense someday
It's not like you're always like this
Remember how it felt moving forward
But for now - this moment too
Will all make sense someday

Significado
Com uma letra minimalista e repetitiva, a canção aborda a importância da pausa, da autorreflexão e da gratidão. O eu lírico descreve o ato de deitar-se ao sol e refletir sobre as próprias ações passadas, concluindo que a paz daquele dia específico desperta uma vontade incontrolável de dizer "eu te amo". Longe de ser apenas uma declaração romântica tradicional, o refrão funciona como uma expressão de amor à vida, ao momento presente e à sensação de contentamento puro.

O videoclipe da música, dirigido por Simon Oliver e pelo vocalista Josh Mehrtens, aprofunda esse conceito ao explorar visualmente o contraste entre a monotonia do isolamento urbano e a libertação proporcionada pela natureza e pelos laços comunitários. Filmado com uma estética analógica e vintage que evoca nostalgia, o vídeo acompanha jovens que deixam suas rotinas solitárias e fechadas para se moverem em direção às paisagens naturais da Nova Zelândia, como praias e colinas verdes. O foco em elementos sensoriais, como a luz do sol e o vento, culmina na reunião desse grupo de amigos na praia. Assim, o videoclipe transforma a faixa num manifesto sobre saúde mental e desaceleração, sugerindo que a cura para os dias pesados está na reconexão com o mundo natural e na celebração das conexões humanas simples e genuínas.


"Estivemos recentemente em confinamento na Nova Zelândia e o tempo estava deslumbrante, por isso montámos o nosso estúdio no jardim e gravámos esta pequena sessão ao vivo enquanto convivíamos com os pássaros, as borboletas e... os dinossauros. A vida selvagem na Nova Zelândia é simplesmente excecional. Aproveitem"

sábado, 6 de junho de 2026

Evangelina Mascardi baroque lute: Preludio e Fuga de Sylvius Leopold Weiss

Tenho tido a incrível sorte de assistir a inúmeros concertos ao vivo ao longo dos anos, desfrutando tanto de ambientes íntimos em recintos fechados como de atuações ao ar livre, rodeadas pela natureza. Há uma alquimia única quando música bela é tocada com tanta naturalidade por um verdadeiro mestre e, para mim, Evangelina Mascardi personifica essa perfeição. O seu domínio do alaúde é absolutamente hipnotizante.

O meu profundo amor por este instrumento estende-se também à brilhante obra do alaúdista e compositor alemão Sylvius Leopold Weiss. As suas composições transmitem uma beleza profunda e intemporal que ressoa profundamente, especialmente quando trazidas à vida por artistas que compreendem a alma delicada do alaúde.

Ouvir esta música no seio da natureza é uma experiência sublime - onde o suave dedilhar das cordas se funde na perfeição com o farfalhar das folhas e o céu aberto. É uma lembrança de quão poderosa e reconfortante a arte pura pode ser.

Biografia de Evangelina Mascardi

Tocar um instrumento musical como o alaúde barroco em plena natureza é uma experiência que cruza de forma profunda a biologia, a cultura e a sensibilidade humana. Para compreender esta ação, podemos dividi-la em duas perspetivas fundamentais: a biofilia e a etnobiologia. A biofilia, um conceito popularizado pelo biólogo E. O. Wilson, sugere que os seres humanos possuem uma tendência inata para procurar conexões com o mundo natural e outras formas de vida. Ao levar um instrumento para um bosque, para uma praia ou para um jardim, o músico não está apenas a contemplar a paisagem, mas sim a interagir ativamente com ela. A música transforma-se num diálogo e numa busca por bem-estar, onde o ritmo do dedilhar e o timbre do instrumento se alinham instintivamente com o som do vento, das ondas ou do canto dos pássaros. No caso específico do alaúde barroco, esta ligação é ainda mais íntima devido à sua natureza inteiramente orgânica, construída com madeiras ressonantes leves e cordas delicadas, produzindo um som acústico e suave que não agride o ecossistema, mas funde-se perfeitamente com ele.

Por outro lado, embora o ato isolado de tocar não seja uma ciência, a relação humana e cultural que o sustenta é o objeto de estudo perfeito para a etnobiologia. Esta disciplina estuda as complexas interações entre as sociedades humanas e os ecossistemas ao seu redor. Quando analisamos o alaúde barroco sob esta lente, entramos no campo da etnobotânica aplicada à luthieria, que é a arte de construir instrumentos de corda. A própria existência do alaúde é o resultado de séculos de conhecimento acumulado por artesãos europeus sobre as propriedades físicas e acústicas das árvores. Para criar o tampo harmónico do instrumento, por exemplo, utiliza-se historicamente o abeto de ressonância, uma madeira proveniente de árvores que crescem em altitudes elevadas e em condições de frio extremo, como nos Alpes. Este crescimento lento gera anéis de madeira extremamente compactos e regulares, garantindo uma elasticidade e uma rigidez únicas que permitem ao instrumento vibrar com a máxima sensibilidade. Já para a construção da concha traseira do alaúde, recorre-se a madeiras como o ácer, que reflete o som rapidamente e confere brilho e clareza às notas, ou o teixo e as madeiras de árvores de fruto, como a ameixoeira, que trazem doçura e harmónicos calorosos à música.

Existe ainda uma ponte fascinante entre estes conceitos chamada biomúsica ou zoomusicologia, que estuda a música humana que incorpora ou responde diretamente aos sons do ambiente. No período Barroco, compositores como Sylvius Leopold Weiss criavam obras inspiradas na imitação da natureza, tentando traduzir paisagens e movimentos do mundo natural para as cordas do instrumento. Ao interpretar estas peças ao ar livre, o músico está, na verdade, a devolver essa matéria-prima florestal, agora transformada em património cultural, ao seu local de origem. Cria-se assim uma simbiose física e ambiental instantânea, uma vez que a madeira, sendo um material vivo e higroscópico, reage diretamente ao microclima, expandindo-se ou contraindo-se com a humidade e a temperatura do ar. Hoje em dia, esta relação enfrenta até desafios ecológicos modernos, pois as alterações climáticas e os invernos menos rigorosos na Europa fazem com que as árvores cresçam mais depressa, forçando os construtores de instrumentos a subir cada vez mais alto nas montanhas para encontrar a madeira ideal. Assim, tocar este instrumento na natureza manifesta o impulso biofílico de pertença ao mundo vivo e, em simultâneo, celebra o conhecimento etnobotânico que permitiu transformar a floresta em arte pura.

Finalmente, saber que o instrumento foi construído em 2024 pelo conceituado luthier Cezar Mateus, em Nova Jérsia, liga o passado histórico diretamente ao presente globalizado.

Do ponto de vista da etnobotânica moderna, a construção deste alaúde específico reflete a complexa jornada dos materiais na atualidade. Embora Cezar Mateus trabalhe nos Estados Unidos, um construtor desse nível mantém a tradição rigorosa de importar as madeiras europeias ideais, como o abeto dos Alpes para o tampo harmónico e o ácer ou o teixo para o corpo. Isto demonstra como o conhecimento tradicional sobre as árvores europeias cruzou o Atlântico, sendo aplicado por um mestre artesão nas Américas para criar um instrumento que, depois, viaja de volta à Europa para ser tocado na natureza pela alaudista Evangelina Mascardi. É a globalização ao serviço da preservação duma arte ecológica e histórica.

Além disso, o facto de ser um instrumento tão recente traz uma dinâmica física única para a biofilia e para a acústica ao ar livre. Um alaúde construído em 2024 é um instrumento "jovem". As suas madeiras ainda estão a aprender a vibrar juntas e são extremamente sensíveis às condições atmosféricas. Quando a artista o retira do ambiente controlado de um estúdio e o toca num espaço natural, o instrumento enfrenta o seu batismo de fogo ambiental, reagindo de forma muito viva à humidade e à temperatura daquele momento. Há uma beleza poética nisso: um instrumento feito recentemente com árvores antigas, esculpido do outro lado do oceano, a cantar e a vibrar pela primeira vez em plena sintonia com a natureza europeia.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Melancolia foi um movimento cultural Europeu atingindo sobretudo a elite Inglesa dos séc. XVI e VII: John Eccles - The Mad Lover


Melancolia (do grego antigo: μελαγχολία, romanizado: melancholía; de μέλαινα χολή, mélaina cholḗ, 'bile negra') é um conceito encontrado ao longo da medicina antiga, medieval e pré-moderna na Europa que descreve uma condição caracterizada por um humor marcadamente deprimido, queixas físicas e, por vezes, alucinações e delírios. Além de uma condição patológica, a melancolia também se podia referir a um estado de espírito ou temperamento e, por vezes, era até usada como uma descrição da condição humana em geral.

A melancolia (ou mais precisamente a 'bile negra', da qual a melancolia deriva o seu nome) era considerada um dos quatro temperamentos que correspondiam aos quatro humores. Até ao século XVIII, os médicos e outros estudiosos classificavam as condições melancólicas como tal devido à sua causa comum percebida – um excesso de um fluido nocional conhecido como "bile negra", que estava comummente ligado ao baço. Hipócrates e outros médicos antigos descreveram a melancolia como uma doença distinta com sintomas mentais e físicos, incluindo medos e desalentos persistentes, falta de apetite, abulia, insónia, irritabilidade e agitação. Mais tarde, os delírios fixos foram adicionados à lista de sintomas por Galeno e outros médicos. Na Idade Média, a compreensão da melancolia mudou para uma perspetiva religiosa, com a tristeza a ser vista como um vício e a possessão demoníaca, em vez de causas somáticas, como uma potencial causa da doença.

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um culto cultural e literário da melancolia, associado à transformação da melancolia, por parte do neoplatonista e humanista Marsilio Ficino, de um sinal de vício numa marca de génio. Esta melancolia da moda tornou-se um tema proeminente na literatura, na arte e na música da época.

Movimento cultural inglês

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um curioso culto cultural e literário da melancolia. Num influente ensaio de 1964 na revista Apollo, o historiador de arte Roy Strong traçou as origens desta melancolia da moda até ao pensamento do popular neoplatonista e humanista Marsilio Ficino (1433–1499), que substituiu a noção medieval de melancolia por algo novo:

"Ficino transformou o que até então tinha sido considerado o mais calamitoso de todos os humores na marca do génio. Não admira que, eventualmente, as atitudes de melancolia se tenham tornado logo um complemento indispensável para todos aqueles com pretensões artísticas ou intelectuais."


The Anatomy of Melancholy (A Anatomia da Melancolia, ou na sua versão completa: O Que Ela É: Com Todos os Seus Tipos, Causas, Sintomas, Prognósticos e Várias Curas... Filosoficamente, Medicinalmente, Historicamente, Aberta e Dissecada) de Robert Burton, foi publicada pela primeira vez em 1621 e continua a ser um monumento literário definidor dessa moda. Outro grande autor inglês que se expressou extensamente sobre o facto de ter uma disposição melancólica foi Sir Thomas Browne na sua obra Religio Medici (1643).

Night-Thoughts (Queixume: ou, Pensamentos Noturnos sobre a Vida, a Morte e a Imortalidade), um longo poema em verso livre de Edward Young, foi publicado em nove partes (ou "noites") entre 1742 e 1745, tornando-se enormemente popular em várias línguas. Teve uma influência considerável nos primeiros românticos em Inglaterra, França e Alemanha. William Blake foi mais tarde contratado para ilustrar uma edição posterior.

Nas artes visuais, esta melancolia intelectual da moda surge frequentemente na retratística da época, com os modelos posados sob a forma de "o amante, com os braços cruzados e o chapéu desabado sobre os olhos, e o erudito, sentado com a cabeça apoiada na mão" – descrições retiradas do frontispício da edição de 1638 da Anatomia de Burton, que mostra exatamente essas personagens que, por essa altura, já se tinham tornado clichés. Estes retratos eram frequentemente ambientados ao ar livre, onde a Natureza oferecia "o cenário mais adequado para a contemplação espiritual", ou num interior sombrio.

Na música, o culto pós-elisabetano da melancolia está associado a John Dowland, cujo mote era Semper Dowland, semper dolens ("Sempre Dowland, sempre em pranto"). O homem melancólico, conhecido pelos contemporâneos como um "malcontente", é personificado pelo Príncipe Hamlet de Shakespeare, o "Melancólico Dinamarquês".

Um fenómeno semelhante, embora não sob o mesmo nome, ocorreu durante o movimento alemão Sturm und Drang, com obras como As Dores do Jovem Werther de Goethe, ou no Romantismo com obras como Ode sobre a Melancolia de John Keats, ou ainda no Simbolismo com obras como A Ilha dos Mortos de Arnold Böcklin. No século XX, grande parte da contracultura do modernismo foi alimentada por uma alienação comparável e por um sentimento de falta de propósito chamado "anomia"; a preocupação artística anterior com a morte passou a ser designada sob a rubrica de memento mori. A condição medieval de acedia (acédia em português) e o Weltschmerz romântico eram conceitos semelhantes, com maior probabilidade de afetar o intelectual.

Mais detalhado aqui

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Encontros Improváveis: Paul Éluard e Steven Mcloughlin


O perfume do espelho verde

A terra acorda vestida de azul,
Uma nudez de pétalas onde o vento se perde.
Não há caminhos entre as árvores,
Há apenas o olhar que se dissolve no infinito.

Eu toco na luz que atravessa as folhas,
Como quem toca nos teus cabelos ao amanhecer.
O bosque não esconde os seus segredos,
Exibe-os nesta tapeçaria de silêncio e cor.

Aqui, o tempo é um rio estagnado de flores,
Onde o rosa e o azul disputam a primazia da sombra.
Viver é este deslumbramento:
Ser árvore, ser haste, ser a claridade que nos salva.

O mundo é belo como um rosto reencontrado
No fundo de uma floresta que nunca termina.

Meu poema, baseado na leitura do livro Capitale de la douleur (1926), de Paul Éluard

Steven McLoughlin é um reputado artista britânico, nascido em 1970 em Derbyshire, Inglaterra, que se tem vindo a destacar no panorama da arte contemporânea pelo seu olhar único sobre as paisagens do Reino Unido. Maioritariamente autodidata, McLoughlin trabalhou durante vários anos no setor da arte comercial, um percurso que lhe permitiu consolidar uma extraordinária destreza técnica antes de se dedicar por inteiro à pintura de estúdio e de ar livre.

O seu estilo artístico insere-se num Impressionismo Atmosférico Contemporâneo. Mais do que uma reprodução literal ou fotográfica da realidade, o pintor procura captar o "estado de espírito" (mood) e a carga emocional de um lugar, deixando-se guiar pelas constantes mutações do clima e das estações do ano. As suas telas evocam uma profunda sensação de tranquilidade e nostalgia, convidando quem as observa a entrar na narrativa visual da obra, seja através de um caminho sugerido ou de uma clareira de luz.

No que toca à técnica, a luminosidade quase etérea que se observa em obras como Bluebell Forest é alcançada através de um processo minucioso. McLoughlin combina óleos e meios mistos, recorrendo frequentemente à técnica de vitrificação (glazing). Este método consiste na aplicação sobreposta de múltiplas camadas de tinta extremamente finas e translúcidas. Como resultado, a luz consegue penetrar estas películas e refletir-se a partir das camadas inferiores, conferindo ao tapete de jacintos-azuis e à folhagem das árvores um brilho vibrante, profundo e tridimensional que parece emanar do interior da própria tela.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Biofilia- o cordão vital que esquecemos de cortar

Cartaxo-comum ( (Saxicola rubicola)- macho

A nossa existência não é um fenómeno isolado, mas sim um capítulo indissociável da narrativa biológica da Terra. O ser humano, por mais que se cerque de betão e silício, carrega no seu ADN uma herança ancestral que clama pela proximidade com o mundo natural. Esta interdependência é capturada pelo conceito de biofilia - a nossa tendência inata para procurar ligações com a natureza e outras formas de vida. Como afirmou o biólogo Edward O. Wilson, o proeminente impulsionador deste conceito: 
"A nossa existência depende desta propensão, o nosso espírito tece-se a partir dela, e a esperança nela reside." 
Não se trata de um capricho estético ou de uma nostalgia romântica pelo campo; a biofilia é, em última análise, uma estratégia de sobrevivência. Num mundo que idolatra o betão, a luta pelo domínio dos recursos não renováveis e agora a Inteligência Artificial, insistir na nossa interdependência com o mundo natural é frequentemente ridicularizado como um delírio utópico ou um radicalismo fora de horas. No entanto, o verdadeiro irrealismo reside na crença de que podemos prosperar enquanto cortamos os laços com o sistema que nos mantém vivos. Como Edward O. Wilson alertou, a nossa essência está tecida na biodiversidade. Ignorar este vínculo não é apenas um erro filosófico, é um passo em direção à extinção. 

Quando rotulamos de "radical" quem defende a integração da natureza nas cidades ou a prioridade dos ecossistemas sobre o lucro imediato, estamos a sofrer de uma miopia civilizacional. A biofilia relembra-nos que o impacto ambiental não é um "problema lá fora", mas uma ferida no nosso próprio corpo coletivo. Negar esta ligação é como tentar viver num vácuo: podemos ignorar as leis da biologia por algum tempo, mas a conta acaba sempre por chegar. O vínculo essencial com a Terra não é uma escolha ideológica; é a nossa única apólice de seguro.

A metáfora do "cordão umbilical" é fascinante porque, ao contrário de um nascimento biológico onde o corte simboliza a conquista da independência, na biofilia, o corte simboliza a interrupção do fluxo vital. Se cortarmos essa conexão, não nos tornamos independentes da natureza; tornamo-nos biológica e psicologicamente órfãos de um sistema do qual somos apenas uma engrenagem, o que torna a ideia de "cortar o cordão" não uma evolução, mas um erro de cálculo fatal.

O ser humano moderno comporta-se como um adolescente que declara independência dos pais, mas continua a usar o cartão de crédito e a comer a comida deles. O nosso "cartão de crédito" são os recursos finitos do planeta. Não se trata de um luxo ou de um passatempo de fim de semana, mas sim de um imperativo evolutivo. Se essa ligação for definitivamente rompida, enfrentamos uma degenerescência em várias frentes. Psicologicamente, a humanidade já sofre daquilo que os investigadores chamam de "Perturbação de Défice de Natureza", onde a desconexão gera picos de ansiedade e um isolamento existencial que nenhum algoritmo consegue mitigar. Fisicamente, a nossa sobrevivência depende de serviços ecossistémicos que não controlamos, como a polinização e os ciclos de purificação da água. Cortar o cordão seria, na prática, desligar as máquinas que sustentam a nossa sobrevivência no planeta.

Muitas vezes, a civilização moderna age como se o progresso fosse o ato de superar a natureza, mas essa é uma antítese falsa. A verdadeira resiliência da nossa espécie depende da nossa capacidade de integração e não do isolamento em ambientes puramente sintéticos. Tentar viver inteiramente fora da biofilia seria como tentar manter um peixe vivo num copo de leite: a estrutura física está lá, mas o meio é incompatível com a essência da vida. Portanto, a biofilia não é um laço que nos prende ao passado, mas sim a rede de segurança que nos permite ter um futuro. Se a cortarmos, não estaremos a nascer para uma nova era, estaremos a assinar a nossa própria extinção.

Referências bibliográficas
  1. Abram, David (1996). The Spell of the Sensuous: Perception and Language in a More-Than-Human World. 
  2. Fromm, Erich (1973). The Anatomy of Human Destructiveness.
  3. Kaplan, Stephen (1995). The restorative benefits of nature: Toward an integrative framework. Journal of Environmental Psychology.
  4. Kellert, Stephen R. & Heerwagen, Judith (2008). Biophilic Design: The Theory, Science, and Practice of Bringing Buildings to Life.
  5. Kellert, S.R., Wilson, E.O. (Eds.). 1995. The biophilia hypothesis. 
  6. Louv, Richard (2005). Last Child in the Woods: Saving Our Children from Nature-Deficit Disorder.
  7. Terrapin Bright Green (2014). 14 Patterns of Biophilic Design.
  8. Wilson, Edward O. (1984). Biophilia.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A história do adufe na Beira Baixa é uma viagem fascinante que atravessa continentes e milénios, fundindo heranças religiosas, culturais e sociais


1. A Origem Árabe e a Expansão Islâmica
A palavra adufe deriva do árabe ad-duff. O instrumento chegou à Península Ibérica durante a ocupação muçulmana (a partir do século VIII). Naquela época, os panderos quadrados eram comuns em todo o Médio Oriente e Norte de África, sendo utilizados tanto em contextos festivos como religiosos.

2. A Reconquista e a Fixação no Interior
Com a Reconquista Cristã, muitos elementos da cultura árabe foram assimilados pela população local em vez de serem erradicados. A Beira Baixa, devido ao seu relativo isolamento geográfico e carácter fronteiriço, tornou-se um "baluarte" onde estas tradições se enraizaram profundamente. Enquanto noutras regiões o instrumento se perdeu ou evoluiu para o pandeiro redondo, na Beira Baixa ele manteve a sua forma quadrangular original.

3. O Papel das Mulheres e da Religião
O adufe sobreviveu e prosperou principalmente através das mãos das mulheres (as adufeiras). Houve uma transição curiosa do seu uso:
  1. Contexto Profano: Ritmos de trabalho no campo e festas populares.
  2. Contexto Sagrado: O instrumento foi adotado pelas irmandades e festividades católicas. Tornou-se indissociável do culto à Senhora do Almortão ou à Senhora da Póvoa, onde o toque do adufe acompanha os cânticos litúrgicos e as procissões.
4. Por que é que ficou "preso" na Beira Baixa?
Existem várias teorias para a exclusividade regional:
  1. Isolamento: As serras da Estrela e da Gardunha dificultaram a entrada de influências externas que pudessem substituir o adufe por instrumentos mais "modernos".
  2. Identidade Comunitária: O adufe tornou-se um símbolo de resistência cultural e identidade local, passado de mães para filhas como uma herança viva.

Curiosidade Técnica
O que torna o adufe da Beira Baixa especial é a sua construção: dois quadrados de madeira revestidos com pele de ovelha (ou cabra), contendo no seu interior sementes ou pequenas soalhas (pedrinhas), que conferem aquele som de "chuva" característico quando o instrumento é vibrado.

Sabia que? Apesar de ser o símbolo da Beira Baixa, existem registos históricos e iconográficos que mostram que o adufe foi usado em quase todo o Portugal até ao século XVII, incluindo na corte de Lisboa, antes de se tornar uma exclusividade do interior.


terça-feira, 14 de abril de 2026

Estudo revela que a ligação humana com a natureza diminuiu 60% em 200 anos


Estamos a perder a ligação à natureza e talvez nem estejamos a perceber.
Um estudo recente indica que a “ligação à natureza” terá diminuído mais de 60% desde o século XIX. Esta conclusão resulta de um modelo que combinou dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e mudanças culturais entre gerações, mostrando uma redução progressiva no contacto direto com o mundo natural.
Curiosamente, a investigação de Miles Richardson, professor da Universidade de Derby, em Inglaterra, aponta também para um reflexo simbólico desta mudança: a presença de palavras relacionadas com a natureza — como “rio”, “musgo” ou “flor” — tem diminuído na literatura ao longo do tempo, sugerindo uma transformação na forma como a natureza ocupa o nosso imaginário coletivo.
Os investigadores descrevem este fenómeno como uma possível “extinção da experiência”: menos contacto quotidiano com ambientes naturais, menos transmissão desse vínculo entre gerações e, consequentemente, uma relação mais distante com a biodiversidade que nos rodeia.
O estudo publicado na revista Earth ainda sugere medidas político-sociais para reverter esta tendência, tal como a introdução das crianças na natureza desde tenra idade e o reflorestamento radical dos ambientes urbanos, as intervenções mais eficazes, por exemplo.

sábado, 21 de março de 2026

Trentemøller: Miss You


"Miss You" é talvez a faixa mais emblemática do dinamarquês Trentemøller. É uma peça consegue ser incrivelmente emocional usando muito poucos elementos.

"A tune I’m still very proud of. Written and recored in two hours! That was it. I didn’t change a single note afterwards because I was so happy with the result. I captured that longing vibe I had late that night and it still is a song I love to play live in different versions." - Anders Trentemøller

Anders Trentemøller é dinamarquês. Nasceu em Vordingborg, na Dinamarca, e a sua base criativa é em Copenhaga.

Embora Trentemøller tenha começado muito ligado à música de dança (Techno e Minimal House), "Miss You" afasta-se das pistas de dança e mergulha noutros géneros:
  1. Ambient / Electronica: a faixa é construída sobre uma melodia de glockenspiel (ou sons de sinos sintetizados) que flutua num espaço sonoro vazio, sem batida de percussão (o que é raro no trabalho dele).
  2. Minimalismo: a música foca-se na repetição e na variação subtil de uma única melodia melancólica.
  3. Indie Electronic: pelo tom introspectivo e pela estética "faça-você-mesmo" refinada.
  4. Folktronica (subtil): Devido à textura quase orgânica e delicada dos sons utilizados, que parecem caixas de música antigas.
Uma curiosidade sobre a faixa
"Miss You" faz parte do álbum de estreia de 2006, The Last Resort. Este disco foi um marco porque provou que um produtor de música eletrónica podia criar um álbum narrativo, quase cinematográfico, que funciona tão bem numa sala de estar como num filme.

Conselho de audição: se gostas do lado mais melancólico desta faixa, recomendo que ouças o álbum inteiro. Ele começa calmo e vai-se tornando mais denso e "negro", quase como uma transição do dia para a noite.

Para saber mais sobre o álbum aqui

domingo, 15 de março de 2026

Of The Wand And The Moon - Your Love Can't Hold This Wreath Of Sorrow


Canção do álbum Your Love Can't Hold This Wreath Of Sorrow (2021)

Original (Inglês)
Your love can't hold this wreath of sorrow
Your love can't hold this wreath of sorrow

The stars are falling from the sky
And I am just a passerby

Your love can't hold this wreath of sorrow
Your love can't hold this wreath of sorrow

The sun is setting in the West
And I am just a ghost at best

Tradução 
O teu amor não consegue segurar esta coroa de mágoa
O teu amor não consegue segurar esta coroa de mágoa

As estrelas estão a cair do céu
E eu sou apenas um transeunte

O teu amor não consegue segurar esta coroa de mágoa
O teu amor não consegue segurar esta coroa de mágoa

O sol põe-se no Ocidente
E eu sou, no máximo, um fantasma

A canção de Kim Larsen sob o projeto Of The Wand & The Moon é uma meditação sombria sobre a inevitabilidade da perda e a profunda insuficiência do amor humano perante o destino ou uma dor existencial avassaladora. O centro emocional da obra reside na metáfora da "Coroa de Mágoa" (Wreath of Sorrow), um termo que evoca imediatamente a imagem das coroas de flores funerárias, simbolizando um fardo emocional ou o luto por algo que morreu irremediavelmente. A letra sugere que, por mais genuíno ou forte que seja o afeto de outrem, ele é incapaz de sustentar ou curar a tristeza inerente à própria existência do narrador, que parece carregar um peso que não pode ser partilhado.

Essa atmosfera é reforçada por um sentimento de transitoriedade e niilismo, onde o eu lírico se posiciona como um mero "transeunte" ou, no limite, um "fantasma". Estas imagens revelam um desapego amargo do mundo material e das relações interpessoais, aceitando com passividade que as estruturas do universo estão a desmoronar — como "estrelas a cair do céu" — e que o indivíduo é impotente perante a passagem do tempo.

Inserida numa estética noir e num pessimismo romântico, a música não se manifesta como um grito de desespero, mas sim como uma aceitação sussurrada. É o reconhecimento melancólico de que o amor tem limites intransponíveis e que certas mágoas são de tal forma densas que nem o sentimento mais puro consegue oferecer redenção ou suporte, restando apenas o silêncio e a observação do fim.

Jiddu Krishnamurti - a reforma que vale é a reforma do indivíduo


Quando os modelos estão experimentados e falham gradualmente na criação multilateral e igual de abundância e prosperidade, uma sociedade informada, sensata e consciente, deve começar a procurar novos sistemas e modelos, para que prevaleça e prospere .Ou neste caso concreto, ir buscar os exemplos onde está a sabedoria maior , na Natureza, que em muitos bilhões de anos já fez todas as experiências difíceis e criou modelos tão complexos e eficientes, que com toda a nossa tecnologia e estudo empírico, ainda só afloramos superficialmente.
A sabedoria da Natureza está em tudo o que acompanha o nosso quotidiano. Não inventamos nada, só vamos conseguindo ler e reproduzir , com o engenho e criatividade.
Este processo, seja na escala de consciência individual ou colectivo, transversalmente a tudo, deveria ser a base da nossa conduta, aceitando humildemente aquilo que não sabemos e aceitar a sabedoria da natureza, reproduzindo então com estas nossas capacidades que são o que de melhor temos.

Não somos sábios, mas a criatividade e engenho são dos nossos melhores atributos, como espécie .
Estes mesmos atributos trouxeram a um ponto que podemos construir ou destruir a escalas globais. Resida aqui a tal encruzilhada de escolhas .
Não querendo ser pessimista, porque não o sou, mas se não conseguirmos interiorizar isto primeiro e depois aplicar, temo que possa ser cheio de incertezas e perigos, o nosso futuro enquanto espécie neste maravilhoso e fascinante planeta e cosmos .
E que cada um vá dando o seu contributo, na sua escala e realidade, pode ser muito mais significativo do que se pensa .

Seguindo uma frase que diz que o pior erro é não fazer nada por acharmos que é pequeno ou os outros o farão.
Parece-me claro que estamos cada vez mais próximo de uma encruzilhada determinante .
E parece também que ao invés de aprendermos, só reproduzimos os mesmos erros e cada vez com mais consequências drásticas. É exponencial a capacidade que temos de destruir ou construir .
É uma escolha feita de muitas escolhas.

E-Livros de Jiddu Krishnamurti

Todos os livros traduzidos aqui

sexta-feira, 13 de março de 2026

The Marrow of the Infinite

Foto do meu amigo Rui Manuel Vitor Cortes

"The mountain does not hold the water;
it is the water,
and the water is the stone’s slow breath.

We do not look at the wild;
we are the wild looking back at itself,
remembering that the boundary of our skin
is as porous as the moss upon the rock.

To go out into the wild is to go in,
climbing not over the rocks, but through the soul,
where every moss-slicked boulder
is a scripture written in green and grey.

Our biological dance is in the spray;
we breathe what the forest exhales,
and the forest drinks what we let fall.
There is no "environment" out there to save -
only our own extended body,
leaping over the precipice in a roar of white foam.

We listen with the heart that reconnects.
In the rush of the current, we hear the world’s grief
and the world’s ancient, stubborn joy.

We stop being the masters of the flow
and become the flow itself—
held by the ancestors of the silt,
feeding the children of the sea.

The granite stands. The water moves.
And we, the watchers, are the bridge
where the mountain finally learns
how beautiful it is. "

João Soares, 13.03.2016

Pedi ao Gemini para criar uma música baseada no meu poema. Ouvir aqui