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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Desarmar a inteligência artificial, a mensagem do Papa ponto por ponto


Da ordenação de um robô-monge na Coreia à nova encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV junta-se a cientistas para lançar um aviso urgente: a IA e a Realpolitik ameaçam a nossa essência. O Pontífice exige reformas éticas globais para que permaneçamos, simplesmente, humanos

Conhece o robô de 130 cm chamado Gabi que foi, recentemente, ordenado monge num templo na Coreia do Sul? Se não conhece, faz mal, mas pode conhecê-lo através deste link. Este robô humanoide, recém-nascido (data de fabricação: 03.03.2026), recebeu há poucas semanas um colar de 108 contas de oração no templo sul-coreano de Jogyesa. Esta é, segundo a ordem de Jogye, a maior denominação budista da Coreia, uma tentativa de travar a falta de participação religiosa e de interesse pelo templo, em especial por parte da população mais jovem.

De facto, nada grita mais que o mundo está a mudar, se é que ainda era preciso gritá-lo, do que a ordenação de um robô-monge. Há 135 anos, a Igreja Católica pressentiu o mesmo, quando o Papa Leão XIII publicou a Carta Encíclica Rerum Novarum (‘Das Coisas Novas’), demonstrando a sua preocupação com a questão operária da época, ou seja, um clamor de ação para recuperar operários que pareciam cada vez mais distantes da Igreja.

Ora, se nos finais do século XIX a preocupação era com a possível perda de um grupo populacional das sociedades europeias modernas, agora, com o Papa Leão XIV, a preocupação é com a possível perda de toda a humanidade. A apresentação pública da encíclica Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA (link), pelo próprio Papa – algo bastante incomum – ao lado de especialistas em IA, como o autodeclarado ateu e cofundador da Anthropic, Chris Olah – algo ainda mais incomum – é uma demonstração da aceleração dos nossos tempos. Ou, como escreve o Papa Leão XIV, é uma forma de “sabedoria para interpretar as tendências do nosso tempo”. Em especial, a fuga do poder do monopólio dos Estados e a sua dispersão por sujeitos privados e transnacionais, com mais poder do que os próprios sistemas estatais e mais distantes de qualquer lógica de bem comum.

Leio esta encíclica em quatro eixos gerais.
Teologicamente, a IA desafia a dignidade ontológica – aquela que pertence a cada ser humano simplesmente porque existe, foi desejado, criado e amado por Deus. Pelo contrário, a era da IA acelera os processos e sonhos de autossuficiência e autoaperfeiçoamento infalível, desligando-os dos próprios sentidos de religação e comunhão. A IA conduz-nos para nós mesmos, tentando alcançar a plenitude ou a autossuficiência excluindo o Criador ou tentando corrigir a fragilidade que faz parte da condição humana.

Ao nível da política internacional, o Papa Leão XIV já havia manifestado a sua visão do mundo, em particular a Donald Trump. Na encíclica, essa visão torna-se mais clara. Denuncia a cultura do poder, “feita de polarizações e violências”, que normaliza a guerra; dispara os “imperialismos” e “potências que desejam conservar a sua supremacia e potências que aspiram a conquistá-la”; desconfia da corrida tecnológica a armas “cada vez mais poderosas”, “desumanizantes” e que “parecem não conhecer limites”. Sobre o recente entusiasmo pela realpolitik, é claro: é “irresponsável”, pois coloca-nos num estado resignado que aceita a guerra como inevitável, desqualificando sistematicamente a paz e o diálogo. A guerra, como instrumento reabilitado de política internacional, é assim criticada, reconhecendo-se, neste contexto, a “crise do multilateralismo” e as fragilidades das Nações Unidas. Para o Papa, são necessárias “reformas profundas” e não apenas “ajustes técnicos”, indo ao núcleo dos fundamentos éticos das nações, orientando o “multilateralismo para o verdadeiro bem comum”.

Relativamente à guerra, mais especificamente no que toca à teoria da “guerra justa”, há uma viragem: considera oficialmente superada a sua teoria clássica, reduzindo o uso das armas à legítima defesa. Além disso, no quadro da dimensão mediática e digital, denuncia que os conflitos atuais são culturalmente preparados e normalizados no ambiente digital através de narrativas maniqueístas, desinformação e medo, sendo amplificados por algoritmos concebidos para privilegiar o confronto. Neste campo, apela à memória histórica e critica a ilusão de uma guerra tecnológica “limpa” ou “inevitável”, reafirmando que o recurso à força é sempre um sinal de pobreza relacional com efeitos desastrosos para os civis. Insta, assim, a humanidade a ativar as suas ferramentas mais eficazes de promoção da vida: o diálogo, a diplomacia e o perdão.

Por fim, sobre os desafios atuais da IA, a encíclica não defende uma posição ludita; pelo contrário, reconhece o seu valor potencial. Todavia, alerta que ela não é eticamente neutra, refletindo a visão eficiente, uniformizadora e reducionista de quem a concebe, financia, regula e utiliza. Aqui, o Papa alerta-nos para o risco da síndrome de Babel: “a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital” que desumaniza. A encíclica apela a que se desarme a IA, que se quebre a equivalência entre poder técnico e direito de governar; ou seja, que sejam retirados os monopólios, tornando-a um bem comum, habitável e plural. Isto só é possível com o cultivo de um “saudável realismo” onde, segundo Leão XIV, a técnica é acolhida, mas enquadrada por valores éticos e espirituais.

A mensagem desta encíclica parece clara: permanecer humanos. O que, em si mesmo, diz muito do mundo em que vivemos – humanos a dizerem a humanos para se manterem humanos. Num mundo dominado pela técnica, o verdadeiro progresso mede-se pelo cuidado e pela relação, não pelo poder. O modelo é o de Neemias que reconstruiu Jerusalém “tijolo por tijolo” através da oração, planeamento e trabalho conjunto. O legado que o Papa quer construir é uma “civilização do amor” – por oposição à cultura do poder, do descartável, do desencontro, do imediato e da hiperestimulação –, um projeto social e político que coloca o amor, a fraternidade e a justiça como princípios organizadores da sociedade. Este amor deve traduzir-se em “estruturas de justiça”, dando corpo institucional à fraternidade, combatendo as desigualdades causadas pela tecnologia e tornando o “outro” um aliado necessário na construção do bem comum.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Dia Mundial da Paz - Mensagem do Papa Francisco


Todos os anos é publicado em primeiro de janeiro a mensagem do Santo Padre o Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz. No primeiro dia do ano, além de ser para nós católicos o dia de Santa Maria Mãe de Deus, o mundo inteiro celebra o Dia da Confraternização Universal ou Dia Mundial da Paz. Na mensagem, o Papa Francisco pede que todos busquem a paz, pois somente ela é capaz de unir a todos os povos.

Além da mensagem, que é publicada nesse dia 1º de janeiro, o Papa Francisco profere diretamente de Roma a benção “Urbi et Orbi”, ou seja, a cidade de Roma e ao mundo. Essa benção que o sucessor de Pedro profere em Roma é a benção da paz que vem do Senhor, conforme o que ouvimos na liturgia da Palavra desse dia: “Que Deus nos dê a sua graça e a sua benção” (Sl 66/67). Independente de raça ou religião, a benção que o Papa profere nesse dia é para todos os povos do mundo e todos devem acolher a benção e a mensagem proferida pelo Papa Francisco.

Este é o 58º Dia Mundial da Paz e o tema da mensagem deste ano é: “Perdoai-nos as nossas ofensas: dai-nos a vossa Paz”, as mensagens para esse dia sempre têm como motivação animar todos os povos e encorajá-los para se unirem na construção de um mundo melhor para todos. A mensagem sempre tem cunho humanitário e independe de religião, tornando-a universal. Todos os povos são chamados a edificarem um mundo melhor e se unirem por construir a paz.

O desejo de Deus é que todos os povos fossem um, por isso rezamos “Pai-Nosso”, no plural. É obrigação de todos os povos se unirem na construção da paz. O desejo de Deus é que os povos do mundo inteiro se unissem e promovessem a paz e não as guerras.

Todas as mensagens já publicadas têm como tema central a paz, mas em especial a desde ano devido ao momento atual que o mundo atravessa com duas grandes guerras, que inclusive o Papa Francisco mencionou na benção “Urbi et orbi” do Natal. Quando o Papa Francisco usa o tema “Perdoai-nos as nossas ofensas”, ele pede que Deus perdoe as ofensas de toda a humanidade que infelizmente é incapaz de dialogar e promover a paz, e ao invés disso preferem as armas.

O Papa Francisco faz uma súplica ao Senhor, que perdoe as ofensas de todos nós quando, infelizmente, não conseguimos construir a paz em nossa casa, em nosso ambiente de trabalho, na escola, enfim, em nosso convívio social. O caminho para a edificação da paz deve começar, em primeiro lugar, de cada um de nós, a partir disso é possível pedir ao Senhor a paz para todo o mundo, pois se não conseguirmos manter a paz no ambiente em que vivemos, não podemos pedir ao Senhor a paz para restante do mundo.

Por isso, em primeiro lugar devemos pedir o perdão ao Senhor por todas as vezes que não conseguimos manter a paz e depois pedir ao Senhor a paz tão necessária. Infelizmente, através das guerras, muitos inocentes acabam morrendo, pessoas que não têm nada a ver com as guerras, sobretudo as crianças, enfermos e idosos, conforme afirmou o papa na benção de Natal. As guerras acontecem por causa da dureza do coração do ser humano e pela ganância do ter e do poder. O coração humano se afasta de Deus e não há espaço para amar ao próximo, mas somente para guerras e para o ódio.

Neste ano de 2025 a Igreja vive o Jubileu da Esperança: que essa esperança invada o coração de todos para que a situação das guerras melhore e tenhamos a paz. Peçamos ao Senhor o fim de todas as guerras e que as novas gerações que estão nascendo agora tenham no coração o desejo da paz e de um mundo melhor. Os conceitos esperança e perdão são o coração de todo o jubileu. Pois, ao longo de todo o jubileu poderemos obter de Deus o perdão para os nossos pecados, e cada fiel é convidado a esperar com todo amor nesse Deus misericordioso.

Deus chama a cada um para confiar em sua misericórdia, Deus não condena ninguém, não olha a quantidade de nossos pecados, mas sempre está pronto para nos dar o seu perdão. Tenhamos a esperança na reconciliação e no amor de Deus por nós, tendo esperança na misericórdia do Senhor é possível se abrir ao perdão do próximo e amá-lo com toda confiança. Cabe a cada pessoa pacificar, conversar, dialogar, e não guerrear e disseminar o ódio.

É missão de todos os governos e autoridades das nações promoverem condições de vida digna para a população, desde saneamento básico, saúde, educação e moradia, mas também é missão das autoridades promoverem a paz e não as guerras. E ainda, cuidarem da segurança pública das cidades, municípios e país, pois conforme já sabemos, temos algumas guerras em curso no mundo, mas infelizmente vivemos uma guerra civil em muitos estados e cidades do Brasil, por causa da violência urbana.

Rezemos pela paz mundial e pela paz em nosso país, cidade e estado. Rezemos antes de tudo pela conversão daqueles que só tem o desejo de ódio e violência no coração, para que se convertam e optem pelo caminho da paz e justiça. Unamo-nos ao Papa Francisco nesse dia e rezemos junto com o tema dessa mensagem: “Perdoai-nos as nossas ofensas: dai-nos a vossa Paz” 

"A paz é a única luta que vale a pena travar" - Albert Camus

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Um texto natalício muito sensato

Jesus filho de virgem: por que é que essa história não surpreendia os primeiros cristãos.

“A Anunciação”, de Sandro Botticelli, cerca de 1485. Crédito: Metropolitan Museum of Art


Todos os anos, no Natal, os cristãos celebram o nascimento do fundador de sua religião, Jesus de Nazaré da Galileia. Parte dessa celebração inclui a alegação de que Jesus nasceu de uma mãe virgem chamada Maria, o que é fundamental para o entendimento cristão de que Jesus é o divino filho de Deus.

O nascimento virginal pode parecer estranho para o público moderno – e não apenas porque vai contra a ciência da reprodução. Mesmo na própria Bíblia, a ideia raramente é mencionada.

Como um estudioso do Novo Testamento, no entanto, argumento que o público original dessa história não teria se deixado levar pela suposta “estranheza” da história do nascimento virginal. A história teria parecido muito mais familiar para os ouvintes naquela época, quando o antigo Mediterrâneo estava cheio de relatos de homens lendários nascidos de deuses – e quando os primeiros cristãos prestavam muita atenção às profecias da Bíblia hebraica.

O que a Bíblia diz – e não diz

Surpreendentemente, o Novo Testamento é relativamente silencioso sobre o nascimento virginal, exceto em dois lugares. Aparece apenas nos evangelhos de Mateus e Lucas, escritos algumas décadas após a morte de Jesus.

O Livro de Mateus explica que, quando José estava noivo de Maria, ela “achou-se grávida pelo Espírito Santo”. O escritor vincula essa gravidez inesperada a uma profecia do Antigo Testamento em Isaías 7:14 , que afirma que “a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ela o chamará de Emanuel”. Segundo o profeta Isaías, essa criança seria um sinal para o povo judeu de que Deus os protegeria de poderosos impérios.

Agora, a maioria dos primeiros cristãos fora da Judeia e em todo o império romano não conhecia o Antigo Testamento no hebraico original, mas sim uma tradução grega conhecida como Septuaginta. Quando o Evangelho de Mateus cita Isaías 7:14, ele usa a Septuaginta, que inclui o termo parthenos, comumente entendido como “virgem”. Esse termo difere do Antigo Testamento hebraico, que usa a palavra almah, traduzida corretamente como “jovem”. A pequena diferença na tradução entre o hebraico e o grego pode não significar muito; mas para os primeiros cristãos que sabiam grego, ela fornecia uma prova profética do nascimento de Jesus da Virgem Maria.

A crença no nascimento virginal foi baseada em uma tradução incorreta? Não necessariamente. Esses termos às vezes eram sinônimos no pensamento grego e judeu. E a mesma palavra grega, parthenos, também é encontrada na versão de Lucas da história. Lucas não cita a profecia em Isaías 7:14. Em vez disso, essa versão da história da Natividade descreve o anjo Gabriel anunciando a Maria que ela daria à luz, embora fosse virgem. Como na versão da história de Mateus, Maria é informada de que seu bebê será o “filho de Deus”.

Humano e divino?

Para os primeiros cristãos, a ideia do nascimento virginal acabou com qualquer rumor sobre a honra de Maria. Também contribuiu para a crença de que Jesus era o Filho de Deus e Maria, a Mãe de Deus. Essas ideias tornaram-se ainda mais importantes durante o segundo século, quando alguns cristãos debatiam as origens de Jesus: Ele simplesmente nasceu um ser humano, mas tornou-se o Filho de Deus depois de ser batizado ? Ele era um ser semidivino, não realmente humano? Ou ele era totalmente divino e totalmente humano?

A última ideia, simbolizada pelo nascimento virginal, foi a mais aceita – e agora é a crença cristã padrão. Mas o relativo silêncio sobre isso nas primeiras décadas do cristianismo não sugere necessariamente que os primeiros cristãos não acreditavam nisso. Em vez disso, como o estudioso bíblico Raymond Brown também observou, o nascimento virginal provavelmente não era uma grande preocupação para os cristãos do primeiro século. Eles afirmavam que Jesus era o divino Filho de Deus que se tornou um ser humano, sem tentar explicar exatamente como isso aconteceu.

Raízes greco-romanas

Afirmar que alguém nasceu divinamente não era um conceito novo durante o primeiro século, quando Jesus nasceu. Muitos heróis greco-romanos tiveram histórias de nascimento divino. Tome três figuras famosas: Perseu, Íon e Alexandre, o Grande.

Uma das lendas gregas mais antigas afirma que Perseu, um antigo ancestral do povo grego, nasceu de uma mãe virgem chamada Dânae. A história começa com Dânae aprisionada por seu pai, o rei de Argos, que a temia porque foi profetizado que seu neto o mataria. Segundo a lenda, o deus grego Zeus se transformou em chuva de ouro e a engravidou.

Quando Dânae deu à luz Perseu, eles escaparam e depois pousaram em uma ilha onde ele cresceu. Ele acabou se tornando um herói famoso que matou a Medusa de cabelos de cobra, e seu bisneto era Hércules , conhecido por sua força e raiva incontrolável.

O dramaturgo Eurípides, que viveu no século 5 a.C., descreve a história de Íon, cujo pai era o deus grego Apolo. Apolo estuprou Creusa, mãe de Íon, que o abandonou ao nascer. Íon cresceu sem saber de seu pai divino, mas acabou se reconciliando com sua mãe ateniense e ficou conhecido como o fundador de várias cidades gregas na atual Turquia.

Por fim, as lendas afirmam que Zeus era o pai de Alexandre, o Grande, o governante macedônio que conquistou seu vasto império antes dos 33 anos. Alexandre foi supostamente concebido na noite anterior à consumação do casamento de sua mãe com o rei da Macedônia, quando Zeus a engravidou com um relâmpago do céu. Filipe, o rei da Macedônia, criou Alexandre como seu filho, mas suspeitava que havia algo diferente em sua concepção.

Um tipo familiar de herói

No geral, as histórias da concepção divina eram familiares no antigo mundo mediterrâneo. No século 2 d.C., Flávio Justino (também conhecido como Justino Mártir), um teólogo cristão que defendia o cristianismo, reconheceu este ponto: que o nascimento virginal não seria considerado “extraordinário ” em sociedades familiarizadas com as divindades greco-romanas. De fato, em um discurso ao imperador romano Antonino Pio e aos filósofos, Justino argumentou que eles deveriam tolerar a crença cristã no nascimento virginal, assim como fizeram com a crença nas histórias de Perseu.

A ideia do divino participando da concepção de uma criança destinada à grandeza não teria parecido tão incomum para um público antigo. Ainda mais, a interpretação dos primeiros cristãos da profecia em Isaías 7:14 da Septuaginta apoiou sua crença de que a origem de Jesus não era apenas divina, mas prevista em suas escrituras proféticas.

* Rodolfo Galvan Estrada III é professor assistente de Novo Testamento na Vanguard University (EUA).

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Sobre a Igreja Católica, a ordenação e papel das Mulheres, o casamento entre padres, a homofobia e a pedofilia



Castidade e Homossexualidade

2357 A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atracção sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (103) a Tradição sempre declarou que «os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» (104). São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados.

2358. Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objectivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição.

2359. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.

Mesmo a célebre intervenção do Papa Francisco em que pergunta, de fato: "Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para a julgar?" Mas, depois, continua: "O Catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem".

Referindo-se ao papel das mulheres, Francisco afirmou que não é possível "imaginar uma Igreja sem mulheres ativas", mas mantendo que a instituição disse "não à ordenação de mulheres".

"Esta porta foi fechada" por João Paulo II, a respeito deste pedido (da ordenação), referiu o papa.

Francisco declarou que "a Igreja é feminina, mãe, e a mulher não é somente a maternidade, a mãe de família" e afirmou desejar "uma teologia aprofundada da mulher" que ainda não foi realizada.
 
O sexo e amor não têm que ter o fim único da procriação. A sexualidade entre casais deve ser vivida em pleno. Ao longo da sua história, a Igreja Católica desenvolveu uma doutrina em matéria de sexualidade retrógrada e muito traumática , refletida nas encíclicas Casti Connubii , Humanae Vitae e Evangelium vitae, bem como na exortação apostólica Familiaris Consortio e nos ensinamentos do Papa João Paulo II sobre a teologia do corpo . Essa doutrina evoluiu ou foi esclarecida ao longo dos séculos. Desde 1992, a doutrina está resumida no Catecismo da Igreja Católica (CCC).

Para a Igreja Católica, a sexualidade e o prazer sexual são aspectos do amor conjugal, um meio de aperfeiçoar a união física e espiritual entre o homem e a mulher. Para respeitar o desígnio divino e a dignidade humana, a sexualidade deve ser uma dádiva total no quadro indissolúvel do matrimónio (quer seja o matrimónio sacramental, entre dois batizados, quer seja natural) e, em particular, deve permanecer aberta à procriação. Contudo existem casais estéreis. Para esse efeito foi elaborado a instrução Donum Vitae.

Ora há uma obra pioneira "O quarto de Giovanni" que eu adoro e explora com sageza e intensidade estes temas, a bissexualidade e a atração e os tabús. Ao publicá-la em 1956, James Baldwin quebrou mais do que um tabu: era um escritor negro a escrever sobre o amor entre dois homens brancos. O seu editor aconselhou-o a queimar o manuscrito. Um verdadeiro hino ao Amor.

Portanto, se for entendimento profundo do Amor carnal/ espiritual os padres católicos também devem casar se são heterossexuais, assumirem a homossexualidade e vivê-la com toda liberdade ou que sejam assexuados e manter a Fé. Basta o número de filhos pais incógnitos, cujos pais eram/são padres católicos. Sim, à ordenação de mulheres celebrando a Missa. [ler: Júnia, a mulher que a Igreja quis esconder]

Não condenar o divórcio e novos casamentos, sejam hetero ou homossexuais. Faz parte da vida íntima a dois. Habitualmente, sucede que os ex-companheiros agridem violentamente as/os seus antigos(as) companheiras (os), por questões do catolicismo e fanatismo católicos. A pedofilia, a violência doméstica e os abusos sexuais têm que ter um fim na igreja Católica. Um BASTA.

Sejamos felizes com as nossas orientações sexuais.

Saber mais:

terça-feira, 26 de julho de 2022

O fascismo anticristão do Chega, a Igreja e os jornalistas

Hitler também foi eleito numa eleição democrática e sabemos em que tragédia isso acabou. A irresponsabilidade criminosa que é considerarmos como normal aquele discurso de ódio, só porque foi eleito, caiu-nos sempre em cima, quando o discurso se transformou em poder. Não nos lembramos?



"É público que o líder do Chega se afirma católico, vai à missa e comunga. Não sei como pode fazê-lo. Não me atrevo a julgar o íntimo de ninguém mas, enquanto católico, creio que há uma total contradição entre comungar e gritar disparates como aqueles que ele e o seu partido tantas vezes gritam.

Ontologicamente, a fé em Jesus expressa-se em comunidade. Comungar na missa é, por isso, uma afirmação de comunhão com Deus, através das suas criaturas. Desde logo, com todas as mulheres e homens que habitam neste planeta. Para um cristão, as pessoas concretas – cada pessoa, mesmo aquelas que não conheço, as que me são pouco simpáticas ou até as que detesto – são o rosto real de Deus.

Na linguagem cristã, dizer que ninguém é perfeito é dizer que somos todos pecadores  limitados na nossa imperfeição). Mas não falo da imperfeição inerente à condição humana. Uma coisa é ser imperfeito. Outra, bem diferente, é gritar coisas que são a antítese absoluta do Evangelho (não me refiro a ideias, porque o Chega não as tem; apenas grita mentiras, demagogias e indecências).

E é isso que se passa: o Chega defende, em muitas coisas, o oposto do Evangelho e da tradição cristã (e judaico-cristã). Quando Abraão acolhe os três estrangeiros em Mambré, é o próprio Deus que está a acolher. A história está no Génesis, o primeiro livro da Bíblia, no capítulo 18, caso porventura no Chega não a saibam localizar. A sua leitura é edificante.

Uma página deste jornal não seria suficiente para reproduzir as dezenas de citações, advertências, apelos do próprio Deus sobre este tema (para quem crê que é Deus que fala na Bíblia, claro). Como esta, do livro do Levítico (19, 33-34): “Se um estrangeiro vier residir contigo na tua terra, não o oprimirás. O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiros na terra do Egipto.” Ou no Deuteronómio (10, 18-19): “Ele [Deus] faz justiça ao órfão e à viúva, ama o estrangeiro e dá-lhe pão e vestuário. Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egipto.” Ou quando, no livro de Ezequiel (16, 49), se lembra o verdadeiro pecado de Sodoma (que não é a sodomia que muitos pensam): “Eis em que consistiu o crime de Sodoma: orgulho, abundância de alimentos e insolência; estas foram as faltas que cometeu e as de suas filhas: não socorreram o pobre e o indigente.”

Vale a pena lembrar ainda o apelo do Êxodo (23, 9) para que não se oprima o estrangeiro? Ou o aviso do profeta Malaquias (3, 5) contra os que “roubam o salário do operário” e os que violam “o direito do estrangeiro”? Ou o rogo (I Livro dos Reis 8, 41-44) a que se atendam “todos os pedidos do estrangeiro”?

A Bíblia (não) dá para tudo
Jesus continuou nesta lógica, claro, em relação aos bandidos, prostitutas, adúlteros, estrangeiros (os samaritanos ou o centurião romano), presos e todos os proscritos do tempo em Israel. “Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.” (Está em Mateus 25. Jesus fala em ir visitar quem está na prisão e não aumentar a pena de prisão para 65 anos, ou seja, para uma prisão perpétua disfarçada.)

É estranho, aliás, que um político que vai à missa e comunga veja inimigos e pessoas de mal em tanta gente – e ainda mais nas pessoas ciganas – e esqueça a máxima do amor ao próximo (a todos) e do amor aos inimigos – a maior exigência cristã.

Claro: a Bíblia dá para tudo. Até para dizer o contrário do que lá está ou do sentido que as palavras têm. Com a Bíblia na mão, muitos já justificaram o racismo e o apartheid, a escravatura e o colonialismo, a morte de “inimigos” ou “heréticos” nas cruzadas e na Inquisição. Quem isso fez frequentava mal a Bíblia. Quem defende a intolerância e promove o ódio continua, por isso, a mostrar a sua profunda ignorância sobre a Bíblia – mesmo ouvindo os seus textos nas missas, todos os domingos.

Em relação aos estrangeiros, é pena que a gritaria daquele partido não lhe permita conhecer todos os estudos que dizem que Portugal (e qualquer país de imigração) só tem ganho com os estrangeiros que para cá vêm trabalhar. Contribuições para a Segurança Social, impostos, força de trabalho, natalidade, quantos factores a ajudar o país.Convém estudar, já agora! Teve razão, aliás, o presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, na quinta-feira, recordando o que devemos, como país, aos estrangeiros.

Igreja e jornalistas, os meus problemas
E com isto o que quero? Dizer que tenho dois problemas. E não são com o Chega: é mesmo com a minha comunidade de fé, a Igreja Católica (enquanto instituição), e com a minha casa profissional, o jornalismo.

Com a Igreja: não entendo como os seus responsáveis se podem calar perante o discurso profundamente antievangélico daquele partido e a instrumentalização que ele faz da instituição. A mensagem cristã consubstancia-se na defesa dos direitos e da dignidade humana; da primazia dos trabalhadores sobre o capital ou do bem comum sobre a propriedade privada; da necessária protecção de refugiados, migrantes, pobres e injustiçados; na proclamação da paz contra a indústria do armamento; no acesso de todos à saúde e à justiça.

O líder do Chega gosta de dizer que prefere o Papa João Paulo II ao Papa Francisco. Provavelmente, não o diria se tivesse lido alguma das encíclicas sociais do Papa Wojtyla – em que ele defende todas aquelas prioridades.

Nisso, aliás, o Chega não está sozinho – e por responsabilidades da Igreja institucional, que não promove a formação dos seus crentes na doutrina social católica, fundada no Evangelho. A social-democracia, que nasceu cruzando influências marxistas e da doutrina social da Igreja, é hoje essencialmente um liberalismo mal disfarçado (pobre Sá Carneiro, que bebeu precisamente no Evangelho a sua forma de intervenção política). E a “democracia-cristã” há muito que se eclipsou, esquecendo a sua matriz e adoptando um populismo liberal, demagógico e amorfo.
Com os meus camaradas jornalistas tenho também um problema. Existencial, no caso: porque se dá tanto espaço e tempo a quem se limita a gritar e a criar epifenómenos que se esvaziam no momento seguinte?

Ah, a democracia e tal, foram eleitos e mais não sei quê. Nada disto justifica o tempo exagerado, o espaço, o fazer daquele um discurso normalizado, que não o é. Hitler também foi eleito numa eleição democrática e sabemos em que tragédia acabaram os nossos pais e avós. A irresponsabilidade criminosa que é normalizar aquele discurso de ódio, só porque foi eleito, caiu-nos sempre em cima, quando o discurso se transformou em poder. Não nos lembramos? A gritaria que apenas busca o protagonismo deve ser reduzida à sua insignificância.

É um exagero falar de fascismo? Foi sempre na recusa do outro e da diferença que germinaram (e continuam a germinar) todos os fascismos. Sejam eles os que levaram ao inominável da Shoah, sejam os salvinis, orbáns, erdogans, modis ou putins da actualidade. Não tenho dúvidas de que, se o Chega fosse poder, não haveria lugar para a divergência democrática, para a busca de consensos e o respeito pela dignidade humana.

O caminho? Para os cristãos, conhecer o Evangelho e o pensamento social dos últimos papas. Para os jornalistas, uma reflexão sobre a responsabilidade de cavar a sepultura da própria profissão cada vez que se abre o microfone ou o bloco-notas à gritaria protofascista. Para a democracia e os democratas, o cultivo do exemplo cívico. Mas este discurso anticristão não pode avançar.

António Marujo (Jornalista e director do jornal digital 7Margens), Público, 24/07/2022

sábado, 30 de abril de 2022

Cardeal Parolin: “A guerra é um sacrilégio. É preciso uma nova Conferência como a de Helsinquia"


O Secretário de Estado, card. Pietro Parolin, apresentou na manhã desta sexta-feira (29/04) um livro na Universidade Maria Santíssima Assunta (Lumsa), em Roma, intitulado "Contra a guerra", publicado pela Livraria Editora Vaticana e pela editora Solferino. O volume contém as intervenções e apelos do Papa contra a guerra e a favor do desarmamento e do diálogo.

Durante a apresentação da obra, o Cardeal Parolin afirmou: "A paz é do interesse de todos os Povos. É preciso intensificar a participação em organizações internacionais e maior capacidade nas iniciativas europeias”. Eis seu apelo para "superar as posições rígidas, caso contrário a guerra continuará a devorar os filhos da Ucrânia".

"Hoje precisamos de uma nova Conferência de Helsínquia", continuou o Cardeal Parolin, ao recordar o evento de 1975, que representou um passo fundamental para deter a Guerra Fria. Uma Conferência como esta poderia pôr um ponto final nos horrores do presente: “O conflito na Ucrânia é um verdadeiro ‘sacrilégio’, em contínuo aumento”.

A tragédia da Ucrânia

Partindo da leitura das páginas do volume, que ressalta a radicalidade do "não à guerra" expresso pelo Papa desde o início do seu Pontificado - e ainda mais desde a eclosão do conflito na Ucrânia no último dia 24 de fevereiro -, o Cardeal-Secretário de Estado propõe um "esquema de paz" que se contrapõe ao "esquema de guerra".

Diante da tragédia que acontece na Ucrânia, continuou o Cardeal, e diante das milhares de mortes de civis, das cidades destruídas e dos milhões de refugiados - mulheres, idosos e crianças obrigados a deixar suas casas, não podemos reagir segundo o que o Papa chama “de esquema de guerra”.

Armas: uma resposta frágil

No entanto, o Cardeal Pietro Parolin pede para que seja "intensificada a participação em organizações internacionais e maior capacidade nas iniciativas europeias". A "Europa cristã", disse, está sendo envolvida na "terrível guerra" na Ucrânia: "Não quero entrar na questão das decisões dos vários países de enviar armas à Ucrânia, pois, como nação, têm o direito de se defender de uma invasão. Porém, limitar-se às armas é uma resposta frágil. Ao contrário, uma resposta forte deveria ser a de tomar iniciativas para deter o conflito e se chegar a uma solução negociada, em vista de uma convivência pacífica em nosso Velho Continente”.

Apelos de Francisco

Por fim, em seu pronunciamento, o Cardeal Secretário de Estado recordou os apelos Papa Francisco, destacando o risco de considerá-los como “obrigatórios", um modo desencantado de encarar o magistério do Papa, escavando um abismo sempre maior entre a sua palavra e a realidade. Desta forma, perde-se de vista o fato de que a mensagem de não-violência do Papa provém do Evangelho, onde Cristo crucificado, inerme no patíbulo, “enfrentou uma morte injusta, sem reagir”.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

A ecologia integral de Leonardo Boff e as encíclicas do Papa Francisco


Na apresentação online do seu mais recente livro Una ecología integral – Por una eco-educación sostenible, em meados de dezembro do 2020, Leonardo Boff, teólogo e filosofo, confirmou o que já antes se tinha noticiado: as encíclicas do Papa Francisco, Louvado Sejas e Todos Irmãos, foram forjadas também com o contributo de Boff, que enviou ao Papa diversos textos. E de facto quem leu o seu livro Sustentabilidade, publicado no Brasil em 2012, sente ao ler aquelas encíclicas o tom quer desse livro, quer da Carta da Terra, de que Boff faz parte.

Doutorado em Filosofia e Teologia foi ordenado presbítero e era membro da Ordem dos Franciscanos Menores. Em 1985 foi reduzido ao silêncio pela Congregação da Doutrina da Fé, presidida pelo que viria a ser o papa Bento XVI.

Professor brilhante, em 1992 deixou o ministério sacerdotal e a ordem de que fazia parte, e com outros teólogos veio a ser um dos grandes impulsionadores da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base. Continuou o seu trabalho de evangelização e, agora, colaborou nas duas encíclicas do Papa Francisco, o que traduz duas certezas: uma, que foi reabilitado; outra, que as teses que defende não estão em desacordo com o pensamento da Igreja Católica romana. Daí, talvez, que as encíclicas, em Portugal, não têm sido escutadas.

O seu “livrinho” – como o refere Boff –, é uma edição de bolso, que contém o que sempre tem defendido sobre ecologia integral, e segue as linhas centrais das encíclicas referidas. Há a referir alguns dados importantes para a compreensão de todo o caminho seguido. Tem o cuidado de, no capítulo “Ecologia Ambiental”, salientar que “ecologia” deve ser definida como “o estudo das relações de todos os seres vivos e não vivos entre si e com o seu meio ambiente. Todos vivem na sua Casa Comum, que é a Terra, e juntos se ajudam mutuamente para se alimentar, reproduzir e evoluírem. O chamado meio ambiente que, na verdade, é o ambiente completo porque abarca todos os seres vivos e suas relações”. Sendo um diálogo, a ecologia abarca uma resposta à crise que se abate sobre a biosfera e é constituída pelo diálogo de todas as variáveis ambientais, económicas, sociais e culturais, diz.

Em semelhante sentido, o teólogo, ex-padre, refere aquilo que chama uma “Ecologia Mental”, onde defende o “cultivo da espiritualidade”, não como “um monopólio das religiões, mas sim como pertencendo a uma dimensão profunda do ser humano” e “cada vez que se pergunta donde venho, para onde vou, que posso esperar, cada vez que se sente que por trás de todas as coisas existe uma energia misteriosa e amorosa que une e reúne tudo em grande harmonia e dá sentido à vida, incluindo para além da morte, cada vez que se vive esta dimensão, estamos a alimentar a espiritualidade de cada um”, que se expressa através do amor, do cuidado, da compaixão, da aceitação do outro e da esperança”.

Porque a ecologia integral vai mais além da ecologia ambiental, política, social e mental, económica, social ou cultural, este pequeno livro deve constituir motivo da nossa leitura e reflexão, tando mais que estamos no tempo, de 18 a 25 de janeiro, da oração pela unidade dos cristãos. Ora, este livro é verdadeiramente ecuménico

domingo, 17 de janeiro de 2021

«Fratelli Tutti»: «Uma política que semeia divisão, inimizade ou um ceticismo desolador é uma política condenada ao fracasso» – D. José Tolentino Mendonça

Cardeal português comentou a encíclica do Papa na primeira sessão do curso «Filosofia, Literatura e Espiritualidade» promovido pela Capela do Rato


Lisboa, 11 jan 2021 (Ecclesia) – O cardeal D. José Tolentino Mendonça afirmou hoje que a modernidade “persistirá como um projeto incompleto” se esquecer a fraternidade, disse que lógicas de xenofobismo são indesculpáveis e que uma política que “semeia a divisão” está “condenada ao fracasso.

“Uma política que semeia divisão, inimizade ou um ceticismo desolador, uma política que é incapaz de um projeto comum, inclusivo, é uma política condenada ao fracasso”, afirmou o bibliotecário e arquivista da Santa Sé na primeira sessão do curso “Filosofia, Literatura e Espiritualidade”, promovido pela Capela do Rato, do Patriarcado de Lisboa, onde comentou a encíclica do Papa Francisco ‘Fratelli Tutti’.

O cardeal D. José Tolentino Mendonça comentou a encíclica do Papa publicada no oitavo ano do pontificado de Francisco considerando que se trata de um “texto de síntese” onde se pode compreender “a visão, o legado, o projeto que o Papa Francisco oferece ao nosso tempo e àquele que virá”, nomeadamente no que diz respeito ao exercício da atividade política.

“As grandes perguntas que acabam por julgar a qualidade da atividade política pública são ‘Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Que laços reais construí? Que forças positivas desencadeei? Quanta paz social semeei? Que produzi no lugar que me foi confiado?’”, referiu D. José Tolentino Mendonça, citando a encíclica do Papa.

O cardeal português lembrou a “visão crítica” de Francisco em relação aos “populismos e neoliberalismos exacerbados”, que “pensam que o mercado aberto é suficiente para regular todas as assimetrias sociais”, desafiando “os atores políticos a reencontrarem a nobreza da atividade política como a grande expressão do amor comum”.

O poeta madeirense comentou também as caraterísticas da “bandeira do projeto de modernidade”, consignadas nos atributos da liberdade, igualdade e fraternidade, considerando que as “sociedades democráticas acolheram a liberdade e a igualdade”, mas “a fraternidade ficou de fora”, como “não se pudesse legislar, como não pudesse ser operacionalizada como um dever, como uma proposta ética, concreta a efetivar nas sociedades". O cardeal Tolentino Mendonça lembra que o Papa Francisco reconheceu a demora da Igreja Católica a condenar a escravatura e “tantas outras formas de violência”, acrescentado que, hoje, não há desculpas para continuar “dentro de lógicas de violência, de xenofobia ou de desprezo pelos outros seres humanos”.

Recordando a primeira saudação após a eleição, no dia 13 de março de 2013, D. José Tolentino lembrou que o Papa Francisco se referiu a “um caminho de fraternidade” ao afirmar, no primeiro discurso: “Rezamos uns pelos outros, rezamos pelo mundo, para que o mundo seja uma grande fraternidade". O cardeal Tolentino Mendonça sublinhou que “a fraternidade é uma palavra, uma ideia, uma experiência, um desafio que acompanha o pontificado do Papa Bergoglio desde o primeiro momento”.

Para o arquivista e bibliotecário da Santa Sé, a fraternidade não é uma “ideia nova nem solitária” no pontificado do Papa, mas “um tópico central” nos diálogos, na diplomacia e nos pronunciamentos de Francisco, que pretende promover um diálogo com todos e “chegar a todos”.

O comentário à encíclica do Papa Francisco ‘Fratelli Tutti’ pelo cardeal D. José Tolentino Mendonça constituiu a primeira sessão do curso “Filosofia, Literatura e Espiritualidade”, promovido pela Capela do Rato, no Patriarcado de Lisboa, que reúne a partir desta segunda-feira perto de 500 participantes na plataforma zoom, semanalmente. José Tolentino Mendonça disse que a encíclica ‘Fratelli Tutti’ tem um “forte componente de desejo”, “não é um documento sobre a atualidade” ou de doutrina, mas “uma espécie de corpo de fogo atirado mais longe, um bólide espiritual lançado ao presente e ao futuro”, que consiste “num novo sonho de fraternidade espiritual”.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A Economia da Felicidade, de Francisco e o caminho da transformação


No caso dos economistas, é muito fácil perceber quando estão a mentir: 1. quando se põem a prever o futuro; 2. quando dizem que não fazem, nem se metem em, política.

Na verdade, a ciência social, que é a economia, lida com fenómenos humanos e sociais que, ontologicamente, são de previsão fina impossível. Ao contrário da física, que é regida por leis, na economia não há tal coisa, apenas tendências de comportamento individual e coletivo. Ao mesmo tempo, o objeto sobre o qual atuam as políticas económicas são as pessoas e as sociedades. Ora, ao contrário do betão, que reage sempre de mesma forma à pressão que sobre ele é exercida por uma dada estrutura de engenharia, os seres humanos e as sociedades reagem de formas sempre diversas, nomeadamente porque conseguem antecipar as políticas, adaptando-se ou transformando-se.

Por outro lado, os engenheiros não têm que ter preocupações ideológicas, uma vez que não nos temos que preocupar com a “vida” do betão. Já os economistas, como todas as políticas que advogam afetam fortemente a vida das pessoas, e a vida humana e a sua qualidade é tudo o que importa, têm que explicitar quais são os seus pressupostos ideológicos.

Se é possível fazer ciência económica, tentando encontrar quais os determinantes de certos fenómenos da economia (ainda que com muitas dificuldades, por falta de dados e de condições experimentais), já não é possível fazer qualquer aconselhamento de política sem um teor ideológico.

Infelizmente, aquilo que mais vemos são economistas com voz pública a debitarem o que deve ser feito em termos de políticas económicas, arrogando-se de uma suposta neutralidade.

Na prática, o que fazem é proclamar um conjunto de medidas que, supostamente, são as mais conducentes ao crescimento económico, dizendo que isso é “o bem” da sociedade e da economia (tanta ideologia aqui!).

Acontece que isso é falso! Falso porque algumas dessas conclusões derivam de modelos fantasistas, sem provas empíricas; e porque não é o crescimento económico, em si, que cria o bem-estar humano.

Não é por as sociedades ficarem mais ricas que, necessariamente, as pessoas vivem melhor, são mais felizes, nem que o planeta é sustentável.

Aliás, quando Simon Kuznets criou o PIB, disse, expressamente, que esse não era um indicador de bem-estar, apenas uma contabilidade da produção anual de uma nação.

Acontece que a cegueira ideológica que, infelizmente, domina a academia económica, elevou o PIB ao estatuto de grande objetivo da economia, levando os políticos e as organizações internacionais por arrasto (FMI, Banco Mundial, OCDE ou U.E.), com o beneplácito financiador daqueles poucos que, de facto, beneficiam sempre muito com o crescimento económico.

Mas o séc. XXI está a dar provas empíricas (a pandemia é apenas um exemplo) de que essa cegueira ideológica tem que terminar: crescer economicamente não garante a paz, a felicidade nem a sustentabilidade.

Mais do que um problema de quantidade, temos um problema de qualidade e temos de responder às questões: como crescer? para quê crescer?

Como os economistas do séc. XVIII e XIX bem sabiam, e os economistas da felicidade o recordam agora, só faz sentido crescer se produzirmos felicidade, algo que não é automático (como a maioria dos economistas atuais pensa), pois que o aumento do PIB não garante o aumento da felicidade (hoje sabemo-lo cientificamente). E como os ecologistas nos avisam, só podemos crescer na justa medida em que o planeta aguente e se regenere.

Assim, é precisa uma forte mudança: cultural, institucional e ideológica.

Para essa mudança, quer a Economia da Felicidade, quer a Economia de Francisco podem ser fortes contribuintes.

A economia da felicidade, ramo de investigação da ciência económica, já com mais de 25 anos de produção científica ao mais alto nível, ensina-nos que a relação entre o PIB e a felicidade não é linear, e que quanto mais rica é uma nação, menos o PIB consegue gerar felicidade adicional.

E isso acontece porque os seres humanos não são, nem se comportam como, as máquinas hiper-racionais, monetariamente calculistas, que surgem nos livros de economia ensinados nas faculdades.

Ao contrário, somos seres que se adaptam (ao que ganhamos e ao que perdemos), se comparam (consigo próprios no passado, com os outros e com os quadros de referência), têm expectativas (e ficamos felizes se as superaremos, infelizes se as frustramos), se posicionam socialmente (tendo prazer em estar no topo e sofrendo estando na base), agem de acordo com princípios de altruísmo, empatia e reciprocidade e para os quais os bens relacionais são mais importantes que os materiais.

Mais, as diferentes dimensões da nossa vida não são substituíveis: não se compra amor com dinheiro, nem se obtém realização profissional através do lazer.

Acontece que o crescimento económico desenfreado do séc. XX produziu muita coisa à custa da destruição de afetos, de laços sociais, de saúde mental, de beleza natural, de silêncio, de culturas locais e de esquemas de cooperação, acicatando uma competição individualista maligna. E muito do que produziu foi poluição e produtos conspícuos e viciantes, que não são capazes de produzir felicidade duradoura.

Ter mais bens materiais, mas ter menos tempo livre, menos família, amigos e colegas, menos cooperação e estabilidade no trabalho, menos solidariedade, menos vizinhança ou menos beleza natural é uma via de perda de bem-estar. Isto, a ciência da felicidade já nos demonstrou.

Ao mesmo tempo, a Igreja Católica está comandada por um Papa interventivo, que quer que o mundo seja guiado pelo amor fraterno cristão, “todos irmãos, todos filhos de Deus”.

Nessa lógica, foi criada a iniciativa “Economia de Francisco”  que mais não é que uma doutrina económica que visa “fraternizar” a economia global, não permitindo que, sob o pretexto do crescimento económico, valha todo o desrespeito pelo ser humano e pela natureza.

O Papa denuncia os males que a globalização desregulada e os mercados sem freio têm provocado, desde a desigualdade crescente entre as pessoas, passando pelas guerras ou pela exploração insustentável dos recursos naturais (ver a Encíclica “Fratelli Tutti” de 2020).

Esta interessante convergência entre a Economia da Felicidade e a Economia de Francisco, com economistas como Jeffrey Sachs, Stefano Zamagni, Leonardo Becchetti ou Stefano Bartolini – que tenho o prazer de conhecer pessoalmente das conferências académicas da economia da felicidade, que tenho acompanho desde 2005 – a estarem nos dois “campos de batalha”, permite a comunhão de pessoas: os que vêm pelo lado da ciência (Economia da Felicidade) e os que vêm pelo lado da doutrina cristã (Economia de Francisco). Todos compreendendo que o modelo económico para o séc. XXI já não pode ser o do séc. XX, extractivista, consumista, materialista.

Temos de encontrar alternativas num crescimento moderado, sustentável, redistributivo e de qualidade. Só assim se produzirá uma efetiva felicidade sustentável.

Os economistas que negam isto têm uma visão psicopática, uma cegueira ideológica pela produção material, negando a natureza empática, cooperativa, relacional, contemplativa e espiritual do ser humano.

De resto, precisamos de todos, para fazer esta mudança acontecer.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

O Futuro da Terra - Diálogos Com o Papa Francisco sobre Ecologia Integral


Foram três encontros. Francisco conta ao gastrónomo-escritor Carlo Petrini a sua “conversão ecológica”: do ‘cansaço’ como cardeal em Aparecida em 2007 pela insistência dos bispos brasileiros em defesa da Amazônia até a preparação da encíclica Laudato si’. E explica: “É preciso mudar rapidamente nossos paradigmas se quisermos ter um futuro”

Um Papa, como Francisco, que como cardeal argentino sentiu "cansaço" pela "insistência com que os bispos brasileiros falavam dos grandes problemas da Amazônia" na conferência de Aparecida e como bispo não entendia qual era o seu papel em relação à "saúde do pulmão verde do mundo". E um agnóstico, ex-comunista e gastrónomo, como Carlo Petrini, fundador do "Slow food", a quem o Pontífice chama de "piedoso" porque "tem piedade da natureza, uma atitude nobre" e "coerente consigo mesmo". Unidos pelas raízes piemontesas comuns".

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As raízes piemontesas e a amizade do bispo Pompilli
Do encontro, ou melhor, dos três encontros em dois anos, de maio de 2018 a julho de 2020, nasceu "Futuro da Terra: Diálogos com Papa Francisco sobre ecologia integral", livro a ser publicado em 9 de setembro que Petrini, também promotor da rede internacional de ecologistas "Terra Madre", publica com a Editora Giunti-Slow Food. O Papa de 83 anos, com antepassados da região de Asti e o gastrónomo de 71 anos e escritor de Cuneo, da região Piemonte. O primeiro encontro foi realizado com a presença do Bispo de Rieti Domenico Pompili, com quem Petrini tem grande amizade por terem criado juntos as Comunidades "Laudato si'" para "dar vida" ao que Francisco propôs em sua encíclica.

Petrini impressionado pela primeira viagem em Lampedusa
O Bispo, que escreveu o prefácio, lembra que Francisco e Carlin, como ele é mais conhecido, nos diálogos identificam-se por "F" e "C", "e são dedicados à Terra e ao seu futuro" e que deste confronto surgem caminhos "para uma ecologia que deixe de ser uma bandeira e se torne uma escolha". O ponto de partida é o pensamento do Papa Francisco, que impressiona o agnóstico Petrini desde a escolha de fazer a primeira viagem como Pontífice a Lampedusa, "como sinal de solidariedade com os migrantes", que investiga, e escreve na "Laudato si", "o que está acontecendo com a nossa casa".

O primeiro diálogo: a génese da Laudato si’
No primeiro diálogo, em 30 de maio de 2018, três anos após a publicação da encíclica, que Carlo Petrini define como "poder extraordinário", que "mudou o cenário do discurso ecológico e social", Francisco fala da génese da ‘Laudato si’". Recorda que é fruto do trabalho de muitas pessoas, cientistas, teólogos e filósofos, que "me ajudaram muito a esclarecer", e com o material deles, trabalhou "na composição final do texto".

O interesse da ministra francesa Ségolené pela encíclica
E explica que a primeira vez que se deu conta da “centralidade" do documento e "sua importância pelas questões abordadas", foi no final de novembro de 2014, ao se encontrar com a então Ministra francesa do Meio Ambiente Ségòlene Royal em sua visita ao Parlamento Europeu em Estrasburgo. A Ministra, relata o Papa, mostrava "muito interesse" pelo texto, do qual se conhecia apenas a referência "aos temas da casa comum e da justiça social". "É muito importante", disse a Ministra ao Pontífice, e previu que seria "de grande impacto, estamos todos aguardando".

Esperava-se uma voz forte, hoje penso que tenha sido aceite
Até então, confessa o Papa Francisco a Petrini, “não sabia que teria causado tanto clamor”

“Lá percebi que a expectativa crescia e que se esperava uma voz forte nesta direção. Depois, correu tudo bem: após seu lançamento, vi que a maioria das pessoas, os que se preocupam com o bem da humanidade, leram e apreciaram, usaram-na, comentaram-na, citaram-na. Acho que foi quase universalmente aceita”

O percurso: de Aparecida a Laudato si’
Ao responder a Petrini que lhe pede a confirmação de que sua atenção às questões ambientais "amadureceram com o tempo", Francisco confidencia que "foi um longo percurso", iniciado em 2007 em Aparecida, no Brasil, onde como cardeal arcebispo de Buenos Aires foi presidente da Comissão para a elaboração do documento final da Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Recorda bem "de ter sentido cansaço" com a atitude dos bispos brasileiros que em todas as ocasiões "falavam dos grandes problemas da Amazônia", de suas "implicações ambientais e sociais", e "não entendia esta urgência e insistência". E também havia solicitações incessantes de colombianos e equatorianos, para incluir estas questões no documento final.

A “conversão ecológica” de Jorge Mario Bergoglio
Desde então, comenta o Pontífice, "passou muito tempo e eu mudei completamente a percepção do problema ambiental".

“No início eu também não entendia estes temas. Depois, quando comecei a estudar, tomei consciência, abriu-me um mundo. Creio que seja correto dar tempo a todos para entenderem. Porém, ao mesmo tempo, devemos nos apressar para mudar nossos paradigmas se quisermos ter um futuro”

Uma encíclica para todos, não só para os crentes
Se Petrini aponta que ainda acha difícil construir pontes de diálogo entre o mundo "crente" e o mundo "secular", o Papa Francisco enfatiza que "a Laudato si' é um ponto comum de ambos os lados, porque foi escrita para todos". O diálogo, diz o gastrónomo-escritor, "não é uma opção moral", mas "um método real". E o Papa acrescenta que "é um método acima de tudo humano". Não se trata, reitera, "de aplanar as diferenças e os conflitos, mas ao contrário de exaltá-los e ao mesmo tempo superá-los para o bem maior".

A mudança começa por nós, basta de despesas mundanas
Ao ler a encíclica, o fundador do "Slow Food" ficou fascinado com o valor dado às "boas práticas individuais" na "geração de mudanças virtuosas". A mudança começa por nós, confirma Francisco, lembrando que "o dever do pároco é apagar a luz, sempre", porque ele deve "guardar as ofertas para usá-las para a caridade". Enquanto isso, observa, o terceiro item de despesa das famílias no mundo, depois dos alimentos e vestiário, é o cuidado do corpo, da beleza e a cirurgia estética, e o quarto é o animal de estimação. "A educação não aparece", lamenta, e assim "é difícil falar de uma nova abordagem ecológica e de uma nova harmonia com o meio ambiente".

Não ao egoísmo de pedir demais à Terra
A fim de encorajar as pessoas a agirem pessoalmente para a mudança, o Pontífice procura as palavras certas:

“O egoísmo deve ser combatido, o pensamento de que eu exploro a Mãe Terra porque a Mãe Terra é grande e deve me dar o que eu quero, deve acabar. É um pensamento completamente doentio, só pode nos levar ao colapso”

Não é uma encíclica ambientalista, mas social
Neste ponto o Papa Francisco retorna ao conceito de ecologia integral, para explicar que a "Laudato si’" não é uma encíclica verde, não é um texto ambientalista. É antes de tudo uma encíclica social". Porque nós, homens, "somos os primeiros a fazer parte da ecologia", o homem e o meio ambiente não são separáveis.

Biodiversidade é rezar a Deus com a própria cultura
Carlo Petrini lembra também do grande valor que a encíclica dá à biodiversidade, e o Papa esclarece que "é a herança que nos permite viver neste planeta", uma riqueza inestimável, "mas nós, com nosso modelo produtivo e económico, a destruímos como se não nos interessasse". A Amazónia é um depósito de biodiversidade: a Petrini que lhe recordou do discurso feito em Puerto Maldonado e do reconhecimento do valor da espiritualidade e da cultura dos povos indígenas, Francisco fala de "inculturação".

“Todos podemos rezar da mesma maneira, mas isso destrói a biodiversidade humana, que é principalmente cultural. Não! Todos rezam de acordo com sua própria cultura! E celebram os sacramentos de acordo com sua própria cultura: na Igreja existem mais de vinte e cinco ritos litúrgicos diferentes, que nasceram em diferentes culturas”

Levar o Evangelho no mundo significa inculturá-lo
O Pontífice recorda das críticas recebidas pela sua declaração "precisamos de uma Igreja Amazónica" recordando também as críticas escandalizadas dos teólogos romanos a Matteo Ricci, o missionário jesuíta que queria "inculturar" o Evangelho na China, "aceitando também alguns rituais chineses". "A Igreja não o entendeu – explica Francisco com decepção – fechando de fato as portas para o Evangelho na China".

“Bento XVI, um revolucionário”
O primeiro diálogo se conclui com Carlo Petrini que elogia os missionários da Consolata e seu testemunho do Evangelho através de um hospital para os índios Yanomani, na Amazónia brasileira, sem proselitismo. Enquanto que o Papa Francisco recorda que foi Bento XVI, em Aparecida, que afirmou que "a Igreja cresce não pelo proselitismo, mas pela atração, ou seja, pelo testemunho", condenando assim o proselitismo.

“Por isso me irrito quando dizem que Bento é um conservador, Bento foi um revolucionário! Em tantas coisas que ele fez, em tantas coisas que ele disse, ele foi um revolucionário”

O segundo diálogo: rumo ao Sínodo Pan-amazónico
O segundo encontro ocorreu em 2 de julho de 2019, três meses antes do Sínodo dos Bispos para a Amazónia. O gastrónomo fundador do "Slow food", que nessa ocasião receberia um convite para participar da assembleia como auditor, pergunta ao Papa o que ele espera do Sínodo, e Francisco responde: "que tenha um impacto clamoroso". Porque "há necessidade de criar discussões férteis e profícuas", "para colocar energias e ideias em circulação". Ele nega que seja organizado o consentimento que "permitiria aos padres amazônicos se casarem".

Não ao celibato, mas os grandes temas de hoje
O Papa explica que Bispos e especialistas do mundo inteiro, e representantes da Amazónia discutirão sobre "os grandes temas de nossos dias": "meio ambiente, biodiversidade, inculturação, relações sociais, migração, equidade e igualdade". O Pontífice revela que também quis "convidar alguns padres e bispos um pouco conservadores" porque "se não houver opiniões diferentes o debate é estéril e há o risco de não dar nenhum passo adiante". Há necessidade, explica ele, "do pensamento e dos recursos de todos".

Só o ambientalismo não é suficiente, é preciso justiça social
Os grandes temas a serem discutidos, lembra o Papa Francisco, são todos abordados no "Laudato si’".

“Não se trata de ambientalismo, que por mais nobre que seja, não é suficiente. Aqui estamos falando de qual modelo de convivência e futuro temos e como construí-lo: está em jogo a enorme questão da justiça social que, ainda hoje, no mundo interligado e aparentemente próspero em que vivemos, está longe de ser alcançada”

Greta e a mobilização dos jovens “também pelo presente”
Petrini, promotor do "Terra Madre", uma rede ecológica "de agricultores, pescadores, artesãos, cozinheiros, pesquisadores, nativos, pastores", pergunta ao Papa como ele vê o movimento dos jovens nascido da menina sueca Greta Thunberg. Francisco aprova, e cita os slogans dos jovens, pois "o futuro é nosso e não seu". Ele não se interessa em saber se Greta é "empurrada por outros": se seu ativismo permite que milhões de jovens se mobilizem "só se deve se alegrar". "Estou interessado na reação dos jovens - esclarece – além do futuro, eles devem tomar o presente para si".

“Os jovens estão cientes de que esta civilização e este modelo estão deixando apenas as migalhas e que se não agirem agora pessoalmente, correm o risco de se encontrar em dificuldades”

Não ao populismo, que usa os instintos dos que estão em dificuldade
O diálogo se transfere para acusações de "bonomia excessiva" feitas contra o Papa Francisco pelo seu compromisso com a acolhida e a integração dos migrantes. O Papa cita Dom Quixote de Cervantes e explica que "não se deve responder nem ser intimidado, porque os ataques são o sinal de que está sendo feita a coisa certa". Aos que dizem que "estou perdendo minha rota porque recebi os ciganos no Vaticano", pergunta: "mas aonde este fechamento nos leva, o que nos espera? Vivemos numa Europa que não tem mais filhos, que se fecha violentamente à imigração e esquece sua história de séculos de migração".

“Nestes tempos o populismo está recebendo muita atenção, que é a forma mais conveniente de evitar o surgimento do popularismo, a verdadeira alma do povo. O populismo não tem nada a ver com o povo, ao contrário, oprime sua alma, enjaula seu espírito mais positivo e nobre. (...) O populismo trabalha sobre o povo, mas sem o povo, usa os instintos das pessoas em dificuldades para indicar um inimigo a ser combatido exclusivamente pelo poder”

O egoísmo anti-migrante rejeitado com caridade e gentileza
Então de onde vem, pergunta Petrini, esta nova onda de racismo também em relação aos jovens atletas, filhos de migrantes, com insultos e desconfiança. Não somos mais capazes de empatia e proximidade? Para o Papa Bergoglio é uma tendência temporária, mas de qualquer modo preocupante...

“Uma corrente de egoísmo que dói e deve ser rejeitada com caridade e gentileza. (...) Hoje as prioridades mudaram. Primeiro queremos viajar, queremos comprar uma casa, temos que fazer outras coisas que na cultura de hoje são mais importantes e têm precedência. (...) O que nos espera no futuro? Sem filhos e migrações, o que nos espera?”

A boa globalização é multifacetada e salva as identidades
No entanto, continua o Pontífice, na Itália muitas vezes são as mulheres estrangeiras, babás e cuidadoras, "as que transmitem a fé e a mantêm viva" com o exemplo. Uma diversidade que deve ser mantida. O Papa Francisco reitera sua oposição ao que ele chama de "globalização esférica".

“A globalização é boa se for multifacetada, ou seja, se cada povo for único e mantiver sua própria identidade. Aplanar as diferenças só faz mal e é inútil, é uma perda gigantesca para todos”

A comida, construtor de pontes e amizades
O gastrónomo Carlo desloca a atenção para os alimentos "um instrumento para construir pontes", e Francesco lembra que para criar uma relação de amizade "é preciso comer juntos muitas vezes", porque comer, sem espetacularizar o ato e sem colocar no centro a comida em si, mas a relação entre as pessoas, "atua como um meio de valores e culturas". Segue uma saborosa troca de comentários sobre a união entre a cozinha piemontesa e argentina na família Bergoglio nos anos 40 e 50, com o adolescente Jorge Mario, que misturava “cappelletti” e “asado”, e depois “bagna cauda” e muita polenta.

Igreja e prazer: um bem que vem de Deus
Em favor do prazer da comida que "não é abundância, mas sobriedade", o convidado agnóstico provoca o Pontífice, afirmando que "a Igreja Católica sempre mortificou um pouco o prazer, como se fosse algo a ser evitado". O Papa Francisco não concorda e lembra que a Igreja condenou o "prazer desumano, vulgar", mas aceitou o prazer "humano, sóbrio".

“O prazer vem diretamente de Deus, não é católico ou cristão ou qualquer outra coisa, é simplesmente divino. O prazer de comer serve para nos manter saudáveis através da alimentação, assim como o prazer sexual é feito para tornar o amor mais belo e garantir a continuidade da espécie”

Da comida ao cinema: A festa de Babette
Da comida ao cinema, o "trait d’union" é "A festa de Babette", um filme que ambos adoram. "É um dos mais belos que já vi" confirma o Papa, "um hino à caridade cristã, ao amor", que "consegue fazer com que se perceba aquele prazer divino por muito tempo foi sufocado erroneamente". "Sou apaixonado pelo cinema", confessa, e lembra que quando criança cresceu com o neorealismo italiano, três filmes de cada vez vistos com sua família.

O terceiro diálogo: reflexões sobre a pandemia
O último encontro na Casa Santa Marta entre o Papa Francisco e Carlo Petrini foi no dia 9 de julho de 2020, e do Sínodo Pan-amazónico passamos à pandemia da Covid-19. O gastrónomo fala de sua participação na assembleia dos bispos como "uma experiência extraordinária". "Vi uma Igreja diferente do que imaginei: uma Igreja com os pés no chão, muito viva". Mas uma humanidade prostrada por esta emergência sanitária, acrescentou ele, precisa agora de palavras de esperança. E o Papa lembra que a humanidade é "pisoteada por este vírus e por tantos vírus que fizemos crescer", "vírus injustos: uma economia de mercado selvagem, uma injustiça social violenta".

Uma nova economia, novo protagonismo dos povos
Para encontrar esperança, para sair melhor desta crise, olhemos para as periferias, é o seu convite, "onde o futuro está em jogo". Descentralizando. Para Francisco agora precisa:

“Uma política que diga jamais a uma economia de mercado selvagem, jamais à mística das finanças às quais não se pode apegar porque são virtuais. Uma nova forma de entender a economia, um novo protagonismo do povo”

Aumentou a consciência da Laudato si’
Volta-se a falar do "Laudato si’", com Petrini convencido de que com este "tumulto" a encíclica "é mais atual do que nunca". Sim, confirma o Pontífice, "a consciência da Laudato si’ aumentou". Os pescadores de San Benedetto del Tronto que no ano passado "me disseram" que haviam recolhido "seis toneladas de plástico em um único barco", recorda, "tomaram consciência e entenderam que deveriam limpar o mar". E aos petroleiros recebidos em 2019 que lhe explicaram que se o petróleo for deixado de lado agora "haverá uma segunda crise" como nos anos Trinta, ele responde que é verdade, mas "é preciso sabedoria para fazer as coisas devagar, sem tirar o trabalho. Porque o trabalho é como o ar em nossa cultura, sem trabalho, o homem é reduzido...”.

Tempo de mudar com a descentralização
Petrini recorda que se todos "desejam uma mudança", após a pandemia, infelizmente, há também uma tendência a retornar "aos mesmos valores de antes".

“É verdade que algumas pessoas estão trabalhando para este retorno. Mas nós devemos preparar algo a mais! A alternativa! E vencer com esta alternativa. (...) Sim, porque muitas pessoas estão se preparando com algumas pinceladas de tinta para depois dizer "Ah, tudo mudou!", mas, ao contrário, nada mudou. Deve-se mudar com a descentralização”

O Concílio a ser aceito e a Teologia da Prosperidade
O fundador do "Slow food" muda a atenção para os grandes profetas italianos do século passado, de Don Milani para Don Mazzolari, de Don Tonino Bello a Arturo Paoli, que "agora, felizmente - comenta o Papa Francisco - estão recuperados", também graças ao Concílio Vaticano II. E o Papa lamenta, “um Concílio que ainda não foi aceito, depois de cinquenta anos, por muitas pessoas que tentam voltar atrás". Estamos a meio caminho, as reações mais fortes, explica, vêm "de uma concepção do liberalismo econômico", semelhante à "do Cristianismo da Teologia da Prosperidade". Este não é o caminho certo. Na verdade, o caminho certo é o da Teologia da Pobreza"!

Populismos que semeiam medo no povo
O Papa, portanto, volta a criticar os populismos, que "agarram-se ao povo usando uma ideia, semeando medo", por exemplo a dos migrantes, e "alguns discursos de certos líderes políticos" realmente vão "na direção de um populismo perigoso", próximo ao de 1932-33 na Alemanha.

Querida Amazônia e os índios assediados e descartados
O diálogo termina com uma referência ao Sínodo, ao documento "Querida Amazônia" e aos índios "molestados pela tecnologia e pelas multinacionais". Descartados porque são povos "que não nos dão algo, que não produzem". Descartados como "os idosos que são a sabedoria de um povo

Idosos com jovens, os pais de hoje são fracos
Francisco justifica sua insistência no "diálogo entre idosos e jovens" com o fato de que "a geração atual de pais", "com esta cultura de bem-estar, perdeu a memória de suas raízes, mas os idosos ainda a têm". Se esses pais estão enfraquecidos pelo "bem-estar e consumismo", a escola e a universidade têm a tarefa de "retomar as três linguagens humanas: a da mente, a do coração e a das mãos". Mas em harmonia!". Caso contrário "formará técnicos que talvez com o desenvolvimento serão substituídos pela inteligência artificial que não tem coração e não pode acariciar".

O homem maduro é o que brinca com seus filhos
A conclusão ainda é dedicada à educação. O Pontífice lembra de um "grande professor de filosofia" que dizia "se um homem não sabe brincar com as crianças, ainda não está maduro". E que ele, como confessor, sempre perguntava aos pais: "Mas o senhor brinca com seus filhos?".

“Essa é a verdadeira poesia! Se um pai não é um poeta, ele não poderá educar bem seu filho, mas com esta poesia de gratuidade, sim”

A segunda parte: cinco temas da Laudato si’
Na segunda parte do livro, Carlo Petrini desenvolve e comenta os cinco grandes temas que ele distinguiu na "Laudato si'", integrando-os com discursos e documentos do Papa Francisco. Da biodiversidade, com os capítulos II e IV de "Querida Amazónia", passa à economia, com um trecho de "Evangelii Gaudium" e a carta do Papa aos movimentos populares de abril de 2020. Depois fala sobre migrações, com a mensagem de Francisco para o Dia do Migrante de 2019, de educação, com dois discursos do Pontífice, um dirigido em 2017 aos estudantes e ao mundo académico, o outro a mensagem de 2019 para o lançamento do Pacto Educacional, e por fim, de comunidade, com o discurso à Comece em 2017 e a mensagem para as Comunidades Laudato si’ de 2019.

Ainda sobre Carlos Petrini
Em 2004, a revista TIME nomeou-o «Herói Europeu dos Nossos Tempos» na categoria Inovação. Em janeiro de 2008, foi o único italiano incluído na lista das «50 Pessoas que Provavelmente Salvarão  o Mundo», publicada pelo jornal The Guardian. Em 18 de Setembro de 2013, Carlo Petrini recebeu o Prémio Campeão da Terra, outorgado pelo Programa Ambiental das Nações Unidas, a maior homenagem na área ambiental atribuída pelas Nações Unidas. Criou a Universidade de Ciência Gastronómica, publicou vários livros e fundou a editora Slow Food. 

O Slow Food defende, de forma resoluta, um futuro sem agrotóxicos e OGMs, uma perspectiva cujo cerne é o valor dos alimentos e a dignidade dos produtores.

Teses de Mestrado sobre a Laudato Si