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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ainda antes de a mina abrir, a injustiça já chegou ao Barroso, mostra estudo europeu

O projeto da mina de lítio em Covas do Barroso, no concelho de Boticas, transformou a região num dos maiores palcos de conflito social e ambiental em Portugal. Promovido pela empresa Savannah Resources, o projeto insere-se na estratégia da União Europeia para garantir a autossuficiência em matérias-primas críticas essenciais à transição energética e à produção de veículos elétricos. Contudo, a intenção de implantar uma exploração de mineração a céu aberto numa região classificada pela FAO, desde 2018, como Património Agrícola Mundial gerou uma forte onda de contestação por parte das populações locais, de associações de defesa do território e de investigadores académicos.

A análise deste caso pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra trouxe para o debate o conceito de justiça prospetiva ambiental, que descreve como os impactos negativos de um grande empreendimento começam muito antes do início da exploração física do solo. Desde a fase de anúncio, consultas públicas e processos de licenciamento, o território passa a viver num estado prolongado de incerteza e ansiedade. Este período prévio afeta diretamente a economia local, paralisando investimentos na agricultura e no turismo rural, e provoca fraturas no tecido social, dividindo a comunidade entre a expetativa de compensações económicas e o receio da destruição do seu modo de vida.

O impasse no Barroso expõe o dilema central da transição ecológica europeia: a contradição entre a urgência global de descarbonização e os custos locais dessa mesma transformação. Enquanto os promotores sustentam que o projeto cumpre os requisitos ambientais e impulsionará a economia regional, as populações e movimentos de contestação denunciam a assimetria de poder nos processos decisórios e rejeitam que territórios rurais protegidos sejam convertidos em zonas de sacrifício para responder a metas industriais externas.

Texto completo: Público

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O Abraço do Sol e da Vida: Uma Ode ao Encontro e à Resistência

Nesta imagem, capturada em Gemunde, no Porto, a Terra desvela um dos seus rituais mais antigos e urgentes: o dinamismo mutualista no seu estado mais puro. Um girassol ergue-se como um centro gravitacional de vida, onde a reciprocidade não é uma escolha, mas a própria condição de existência. A sua corola, um disco solar denso em tons de terra e ouro, transforma-se na praça pública onde a planta oferece néctar e as abelhas asseguram a fertilidade - uma troca perfeitamente equilibrada onde nenhum dos lados extrai sem devolver.

No entanto, esta dança ancestral enfrenta hoje a sombra das agressões humanas. A proliferação de venenos invisíveis, como os neonicotinóides e os pesticidas de síntese, ataca silenciosamente o sistema nervoso destas pequenas arquitetas da biodiversidade, desorientando-as e ameaçando colmeias inteiras. Quando o modelo agrícola convencional fragmenta esta teia vital, compromete o próprio ecossistema que o sustenta.

É precisamente aqui que a agricultura biológica e a economia circular emergem como imperativos éticos e regenerativos. Ao rejeitar os químicos sintéticos e ao fechar ciclos de nutrientes em harmonia com a natureza, a produção biológica devolve aos campos a capacidade de autocura. O girassol e as abelhas personificam o motor circular da vida: a matéria orgânica nutre o solo, o solo saudável alimenta a flor, a flor sustenta o polinizador e este garante a continuidade dos frutos e das sementes, sem resíduos, sem contaminação, num fluxo infinito de renovação.

Ao fundo, o azul do céu e o verde carnudo do folhedo emolduram este instante de resistência simbiótica. O que a foto regista não é apenas um momento poético, mas uma chamada de atenção: defender estas abelhas e apostar num modo de produção biológico é salvaguardar o tecido vivo que nos alimenta e a própria saúde do planeta.

Ciência em Ação: O Impacto Neurobiológico dos Pesticidas nas Abelhas
A vulnerabilidade das abelhas aos agrotóxicos e a sua incapacidade de os evitar não é uma mera suposição, mas um facto demonstrado pela comunidade científica internacional:
  1. Atração Neuroquímica e Falta de Deteção: A investigação realizada por Kessler et al. (2015) na Nature provou que as abelhas não conseguem detetar a presença de neonicotinóides e chegam a preferir néctar contaminado, uma vez que estes químicos estimulam os seus recetores cerebrais de forma análoga aos mecanismos de adição.
  2. Perda de Orientação e Navegação: Experiências conduzidas por Henry et al. (2012) na Science através de microchips RFID demonstraram que doses subletais afetam criticamente a memória espacial, impedindo os polinizadores de regressar à colmeia.
  3. Danos na Aprendizagem Olfativa: O estudo de Williamson & Wright (2013) no Journal of Experimental Biology evidenciou que a exposição a defensivos agrícolas compromete a retenção de memória e a capacidade de associar odores a fontes de alimento seguras.
  4. Procura Compulsiva de Alimento por Escassez: Trabalhos como o de Muth et al. (2019) na Frontiers in Ecology and Evolution mostram como a degradação dos habitats força as abelhas a consumir recursos contaminados, anulando qualquer barreira de repulsão natural.

sábado, 12 de setembro de 2026

O colapso dos sistemas naturais pode intensificar o aquecimento em 30 por cento, alerta novo estudo



À medida que o planeta aquece, a tundra está a descongelar, as zonas húmidas estão a fermentar e as florestas estão a ceder a incêndios florestais maiores e mais frequentes. o colapso destes sistemas naturais está a libertar volumes enormes de emissões, intensificando ainda mais o aquecimento provocado pela queima de combustíveis fósseis. de acordo com uma nova investigação, estes ciclos de retroalimentação (feedback loops) podem ampliar o aquecimento causado pela ação humana entre 20 e 30 por cento.

Mesmo que a humanidade alcance a neutralidade carbónica (emissões líquidas zero) no final deste século, as retroalimentações adicionariam mais 0,2 °C de aquecimento, segundo o estudo de modelação publicado esta semana na revista Environmental Research Letters. e se o mundo não conseguir atingir a neutralidade carbónica, e os países continuarem a produzir algumas emissões residuais até ao final deste século, o aquecimento adicional ficará mais próximo dos 0,4 °c.

O mundo está já 1,4 °C mais quente do que na era pré-industrial e as emissões de combustíveis fósseis continuam a crescer, colocando a Terra em rota para ultrapassar os 2,5 °C de aquecimento este século, dizem os cientistas - ultrapassando largamente as metas climáticas internacionais. no entanto, embora o aquecimento adicional proveniente dos ciclos de retroalimentação vá acelerar ainda mais o aumento das temperaturas, as emissões decorrentes do colapso dos sistemas naturais estão em grande parte ausentes dos modelos climáticos mais influentes, aqueles que orientam as negociações climáticas.

«Este multiplicador oculto está ausente dos modelos que orientam a política climática, pelo que esses modelos estão provavelmente a subestimar quanto aquecimento está para vir - e a sobrestimar quanto carbono ainda nos podemos dar ao luxo de emitir», disse o autor principal Sam Abernethy, investigador na Spark Climate Solutions, uma organização sem fins lucrativos sediada em São Francisco que visa identificar «pontos cegos» climáticos e contabilizá-los nas políticas. «para fechar essa lacuna, precisamos de compreender melhor estes processos e de os integrar nos modelos em que confiamos.»

Os desafios são enormes. os ciclos de retroalimentação são difíceis de modelar e escasseiam dados sobre emissões em locais de difícil acesso, como a Sibéria ou a Bacia do Congo. no entanto, como o Yale Environment 360 reportou recentemente, cientistas de todo o mundo estão a trabalhar para prever melhor as emissões dos sistemas naturais.

«Se não se estiver a incluir todas as emissões que vão para a atmosfera, fica-se de mãos atadas desde o início», disse Brian Buma, cientista climático no Environmental Defense Fund, ao e360. «as pessoas estão a reconhecer que, quanto mais tempo passarmos sem ter em conta estas emissões, maior será a lacuna.»

Ler mais: 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

A transição energética e a aceleração da IA: os custos ocultos da mineração na biodiversidade global

Um estudo recente publicado na revista Nature Communications no passado mês de maio - e hoje destacado pela plataforma Greensavers - revelou que a exploração de minerais fundamentais para a produção e desenvolvimento de tecnologias limpas pode estar a causar “impactos negativos significativos” na biodiversidade à escala global. A investigação, conduzida por uma equipa da Universidade de Tohoku sob a liderança de Keiichiro Kanemoto, mapeou cerca de 70 mil locais de mineração de 20 minerais essenciais. Ao cruzar este mapeamento com dados públicos de desflorestação e de risco de extinção de espécies entre 2001 e 2022, os investigadores contabilizaram a perda de 16.268 quilómetros quadrados de floresta - com maior incidência nas florestas húmidas da Amazónia, do sudeste asiático e da Bacia do Congo.

Contudo, o trabalho faz sobressair uma “mudança crítica” no padrão do extrativismo mundial: enquanto a mineração tradicional de ouro continua a figurar como o principal motor da desflorestação direta e visível, a extração dos minerais da transição energética obedece a uma dinâmica diferente. Elementos vitais como o lítio, o cobalto e o níquel exercem pressões mais subtis, mas com riscos desproporcionalmente elevados para a biodiversidade em ecossistemas ecologicamente sensíveis. A extração de lítio em salinas e zonas húmidas, por exemplo, provoca uma perda de coberto florestal praticamente impercetível, mas desregula drasticamente os recursos hídricos de ecossistemas frágeis e coloca em risco espécies endémicas vulneráveis. Como alertam os autores, o caminho para a descarbonização traz consigo custos ambientais ocultos que exigem um reequilíbrio urgente entre as metas climáticas e a proteção da biodiversidade.

Embora este artigo científico não aborde de forma explícita o fenómeno da inteligência artificial, o seu diagnóstico valida de forma direta a reflexão que venho a consolidar no BioTerra. A infraestrutura material que viabiliza o boom da IA - desde os data centers de alta densidade até às redes de supercomputação - é profundamente intensiva em recursos minerais. Na prática, o setor tecnológico concorre diretamente com a transição energética pelas mesmas cadeias de suprimento de lítio, níquel, cobre e terras raras, sobrecarregando ainda mais esses ecossistemas vulneráveis.

Esta confluência entre o avanço sociotécnico e a degradação ambiental tem sido um eixo central nas publicações recentes do blogue:

As conclusões agora trazidas a público confirmam o alerta: quer se fale de veículos elétricos, de painéis solares ou de redes neuronais de IA, o modelo de expansão contínua assenta sobre a mesma base extrativa frágil. Sem uma viragem em direção à soberania metabólica e à redução do uso de matérias-primas, a promessa de uma transição verde continuará a transferir o seu custo para o silêncio e a degradação dos ecossistemas planetários.

sábado, 29 de agosto de 2026

Espécies marinhas invasoras em Portugal aumentaram 75% em 10 anos

O número de espécies marinhas invasoras nas águas portuguesas aumentou 75% em 10 anos, com mais 98 registos, de acordo com um estudo científico a que hoje a agência Lusa teve acesso.

Este estudo foi uma atualização de um levantamento com 10 anos das “espécies não indígenas ou espécies introduzidas nas águas costeiras portuguesas, portanto estuários nas costeiras, lagoas costeiras, e incluiu tanto o continente como as ilhas”, explicou à Lusa Paula Chainho, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Mare), uma das organizações que tutelou o projeto.

“Verificámos que há 10 anos tínhamos reportado 133 espécies não indígenas e atualmente reportámos 231”, que corresponde a “uma taxa muito elevada de novas introduções”, disse.

Isto “é ainda mais preocupante” porque os investigadores que realizaram o estudo há 10 anos admitiam que o elevado número então registado correspondia a espécies que não haviam sido estudadas, mas tudo indica que estes novos 100 registos correspondem a um “aumento bastante acentuado” porque, desde então, têm sido feitas várias análises.

“Das 231 espécies confirmadas, 159 ocorrem em Portugal continental, 81 nos Açores e 62 na Madeira”, pode ler-se na apresentação do trabalho de 31 investigadores de 11 universidades portuguesas entre várias organizações, e liderado pelo Mare e pela Rede de Investigação Aquática (Arnet), que foi publicado na revista Marine Pollution Bulletin e aponta vários problemas na costa portuguesa.

Segundo Paula Chainho, a “navegação é a principal causa de introdução de novos exemplares”, seja através da “incrustação nos cascos das embarcações” de espécies ou pela lavagem dos tanques de água de lastro.

As embarcações de transporte têm tanques de água no interior para ficarem equilibradas quando carregam mercadoria e descarregam conforme necessitem para garantir a estabilidade da estrutura.

“Quando uma embarcação descarrega uma determinada carga, tem que compensar essa saída de peso com um peso adicional e, portanto, neste caso, as águas que são introduzidas nos tanques de lastro”, que são descarregadas noutro ponto do globo quando carregam novas mercadorias.

“Nestas águas que são captadas num local e descarregadas noutro viajam muitos organismos vivos”, explicou a investigadora, que aponta também riscos na aquacultura.

Em causa, nestes casos, está a introdução de novas espécies de produção, mas também organismos que “chegam à boleia” destes exemplares.

Por isso, o “foco deve estar principalmente na prevenção porque quando uma espécie aquática entra num determinado local, nós só vamos detetá-la quando ela já está perfeitamente instalada”, defendeu a investigadora.

Nesse capítulo, existe uma “convenção internacional das águas de lastro que obriga ao tratamento lastro antes de serem descarregadas” mas “em Portugal não temos relatórios oficiais que possamos consultar sobre como é que isto tem vindo a ser implementado”.

Já em relação à aquacultura, “também há regulamentação e, portanto, para ser introduzida uma nova espécie não indígena para a aquacultura é preciso um requerimento específico”, mas também “não há nenhum tipo de verificação em Portugal em relação a como é que isto está a ser cumprido ou não”, disse.

Noutros casos, há espécies como a ameijoa japonesa, uma espécie invasora nas águas nacionais há muitos anos, e em que a única forma de controlar a sua população é através da gestão da pesca, reconheceu.

O trabalho propõe também uma lista de vigilância inédita com 22 espécies detetadas através de ADN ambiental, um sistema de deteção precoce capaz de identificar espécies invasoras antes de serem observadas a olho nu.

Nas águas de Portugal continental, 39% das espécies não indígenas são originárias do Pacífico Norte, seguidas de 24% com origem noutras zonas do Atlântico Norte, uma tendência que é invertida nos Açores e Madeira, com o Pacífico Norte a ter predominância.

De todos os portos, Sines “surge no estudo como um ponto estratégico de entrada, dada a sua localização no cruzamento de rotas marítimas que ligam a Ásia, o Mediterrâneo, os Estados Unidos e África”, refere, justificando a investigação específica desta zona.

“As invasões marinhas são um fenómeno dinâmico e transfronteiriço, e compreendê-las exige uma ciência capaz de trabalhar à mesma escala. Este estudo permitiu-nos ir muito além de uma simples atualização do número de espécies, revelando padrões de introdução, lacunas no conhecimento genético e prioridades para a monitorização futura”, refere Romeu Ribeiro, investigador do Mare e primeiro autor do estudo, num comunicado.

A equipa desenvolveu uma “lista de vigilância pioneira com 22 espécies detetadas exclusivamente por métodos moleculares, como o ADN ambiental”, mesmo “sem confirmação física da existência.

Este mecanismo constitui “um sistema de alerta precoce, capaz de sinalizar potenciais invasores antes de serem visualmente identificados no terreno”.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Investigador quer reescrever a árvore evolutiva dos antepassados humanos

Hominídeo do género Paranthropus

As recentes descobertas sobre a evolução humana podem obrigar a repensar a forma como classificamos e designamos os nossos antepassados, segundo uma investigação da Universidade de Monash, na Austrália. O estudo, publicado na American Journal of Biological Anthropology, propõe que todas as espécies humanas e os seus parentes fósseis mais próximos que viveram nos últimos quatro a cinco milhões de anos sejam incluídos no género Homo.

A evolução humana é frequentemente apresentada como uma sucessão relativamente linear de espécies, desde antepassados com características semelhantes às dos símios até aos primeiros representantes do género Homo e, finalmente, ao Homo sapiens. No entanto, o registo fóssil revela uma história bastante mais complexa, com novas descobertas a pôr em causa características que durante décadas foram utilizadas para distinguir diferentes grupos.

Ian Towle, investigador do Monash Biomedicine Discovery Institute e autor principal do estudo, considera que os avanços recentes tornam este um momento adequado para rever a taxonomia tradicional. “As recentes descobertas de fósseis e os avanços na análise evolutiva e genética fazem deste um momento ideal para reconsiderar se a nossa taxonomia tradicional ainda representa de forma rigorosa a evolução humana”, afirma.

Segundo o investigador, as classificações atuais dos géneros Homo, Australopithecus e Paranthropus podem já não refletir adequadamente as relações evolutivas entre estes grupos, todos presentes no registo fóssil dos últimos cinco milhões de anos.

“Estes grupos não representam necessariamente ramos evolutivos distintos, ou ‘clados’, e as diferenças de comportamento e ecologia que eram anteriormente utilizadas para os distinguir são também cada vez mais difíceis de sustentar”, explica Towle.

Uma árvore evolutiva mais complexa
Nos últimos 50 anos, o conhecimento sobre a evolução transformou a forma como os cientistas classificam os organismos. A taxonomia moderna procura cada vez mais refletir as relações evolutivas reais, agrupando espécies com base na sua ascendência comum. Contudo, segundo o investigador, essa abordagem tem avançado mais lentamente quando se trata da nossa própria história evolutiva.

O género Homo foi tradicionalmente associado a características como cérebros maiores, utilização sofisticada de ferramentas e determinados traços anatómicos e comportamentais. Contudo, o registo fóssil revelou entretanto representantes do género com cérebros muito pequenos, enquanto existem indícios de comportamentos complexos em espécies classificadas nos géneros Paranthropus e Australopithecus.

É neste contexto que Towle propõe alargar o género Homo de forma a incluir também estes grupos. A alteração, defende, permitiria representar de forma mais coerente as relações evolutivas entre os diferentes antepassados humanos e reduzir a necessidade de alterar repetidamente a classificação à medida que surgem novos fósseis e novas informações.

“Quanto mais aprendemos sobre os nossos antepassados e parentes fósseis próximos, mais percebemos como a nossa árvore genealógica é complexa e não linear”, afirma o investigador.

“Expandir o género Homo de modo a incluir também espécies de Australopithecus e Paranthropus permitir-nos-á ter em conta as diferenças sem reclassificar regularmente determinados grupos”, conclui.

domingo, 23 de agosto de 2026

Renaturalização vs. Restauro Ecológico: Qual é afinal a diferença?



Numa altura em que a crise climática e a perda de biodiversidade dominam o debate público, ouvimos falar cada vez mais em "devolver o espaço à natureza". Contudo, nem todas as intervenções ambientais são iguais. Termos como restauro ecológico e renaturalização (rewilding) são frequentemente usados como sinónimos, mas representam filosofias e métodos bastante distintos.

Se quer entender como a ciência e os conservacionistas estão a tentar reanimar o nosso planeta, descubra a diferença fundamental entre estes dois conceitos.

O que é o Restauro Ecológico?
O restauro ecológico é uma intervenção intencional, planeada e minuciosa que visa recuperar um ecossistema que foi degradado, danificado ou destruído.

A palavra-chave aqui é referência histórica. Segundo os padrões definidos pela Society for Ecological Restoration (SER), o objetivo do restauro ecológico é olhar para o passado - para o estado do ecossistema antes do impacto humano significativo - e tentar reconstruí-lo.

Como funciona? É um processo altamente assistido pelo ser humano. Envolve a remoção de espécies invasoras, a reparação química do solo, a limpeza de poluentes e a plantação manual de espécies autóctones específicas.

Exemplo prático: A reflorestação de uma área que ardeu recentemente, onde técnicos e voluntários plantam manualmente milhares de sobreiros autóctones para reconstituir a floresta original que ali existia há um século.

Estudo de Referência: vários trabalhos académicos, como o estudo global publicado na revista científica Nature sobre prioridades globais para o restauro de ecossistemas, demonstram que o restauro ecológico ativo em áreas prioritárias pode evitar até 60% das extinções de espécies e absorver grandes quantidades de carbono.

No restauro ecológico, o ser humano assume o papel de arquiteto e jardineiro da paisagem.

O que é a Renaturalização (Rewilding)?

A renaturalização - amplamente conhecida pelo termo em inglês rewilding - adota uma perspetiva diferente. Em vez de tentar replicar uma fotografia do passado, a renaturalização foca-se em devolver a autonomia à natureza para que esta decida o seu próprio futuro.

A ideia central não é gerir o ecossistema para sempre, mas sim restaurar os processos naturais (como as cadeias alimentares e os ciclos da água) e, em seguida, o ser humano afastar-se.

Como funciona? Geralmente começa com intervenções pontuais de grande impacto — como a remoção de diques e barragens obsoletas para libertar o curso dos rios, ou a reintrodução de grandes herbívoros e predadores. A partir daí, a intervenção humana reduz-se ao mínimo.

Exemplo prático: Retirar os muros de betão das margens de um rio e reintroduzir castores. Os castores criam açudes naturais, alteram o fluxo da água, previnem cheias e criam ecossistemas húmidos onde novas plantas e animais voltam a prosperar sem qualquer ajuda humana.

Estudo de Referência: O relatório científico Rewilding Complex Ecosystems publicado na revista Science destaca como a reintrodução de espécies-chave e a redução da gestão humana aceleram a resiliência ecológica e a recuperação de funções tróficas naturais.

Na renaturalização, o ser humano é apenas o facilitador inicial que abre a porta e deixa a natureza assumir o comando.
CritérioRestauro EcológicoRenaturalização (Rewilding)
Ponto de ReferênciaO passado (estado histórico original).O futuro (processos naturais autónomos).
Papel do HumanoGestor e gestor contínuo.Facilitador inicial; depois retira-se.
Grau de ControloElevado (procura-se um resultado pré-definido).Reduzido (a evolução do ecossistema é aberta).
Ações TípicasPlantação de espécies nativas, controlo de invasoras.Remoção de barreiras nos rios, reintrodução de fauna chave.
existem
Existem Planos Nacionais para estas áreas?

Sim, existindo compromissos governamentais e europeus específicos, embora com abordagens institucionais diferentes:

1. Para o Restauro Ecológico (Existem Planos Oficiais Vinculativos)

O Restauro Ecológico é hoje uma política de Estado obrigatória na União Europeia:
  1. Plano Europeu: O Regulamento (UE) 2024/1991 relativo ao Restauro da Natureza da União Europeia exige metas juridicamente vinculativas: restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas da UE até 2030.
  2. Plano Nacional em Portugal: Portugal desenvolveu o seu Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN), coordenado pelo ICNF . Este plano prevê metas concretas até 2050 para a recuperação de ecossistemas degradados, incluindo a plantação contínua de árvores autóctones, recuperação de galerias ripícolas e proteção de solos.
2. Para a Renaturalização / Rewilding (Abordagem Complementar e Iniciativa Privada/ONG)
Não existe um "Plano Nacional de Rewilding" formal emitido pelo Governo com esse nome, mas a prática está integrada em estratégias de conservação e projetos locais:
  1. Enquadramento Estratégico: A Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ENCNB 2030) enquadra o aumento da conectividade ecológica e a promoção de processos naturais autónomos.
  2. Iniciativas no Terreno: O grande motor do rewilding em Portugal são ONG e parcerias internacionais. O principal exemplo é a ONG Rewilding Portugal, responsável por gerir projetos no Grande Vale do Côa e Corredor Ecológico do Oeste, em coordenação com iniciativas europeias como o projeto LIFE WolFlux para a conservação do lobo-ibérico.
Em conclusão
Embora o restauro ecológico conte com o respaldo direto de leis europeias e de um Plano Nacional com metas governamentais, a renaturalização surge como um complemento indispensável, liderado no terreno por redes e associações de conservação. Ambas as abordagens são essenciais para devolver o equilíbrio ambiental a Portugal e à Europa.