Acabei hoje de ler a crónica de Daniel Oliveira - “Não há TINA, há um consenso falhado” - e veio demonstrar aquilo que eu já tenho abordado no meu ensaio sobre a anatomia da extinção anunciada: a crise económica e o colapso ambiental não são dois problemas distintos, mas duas manifestações do mesmo modelo político-económico.
Durante quase meio século, incutiram-nos um dogma cómodo para quem detém o poder: a ideia de que a gestão da sociedade é um assunto puramente técnico. Vendeu-se a ilusão de que a economia e a gestão dos recursos naturais pertencem a uma esfera neutra, habitada por peritos, matemática e leis de mercado inquestionáveis — longe do alcance e da perturbação da escolha política. Hoje, diante de salários estagnados, desigualdade em máximos históricos e alertas científicos cada vez mais dramáticos sobre a degradação da biosfera, a máscara da "inevitabilidade" caiu. A suposta neutralidade técnica foi, e continua a ser, a escolha política mais consequente dos últimos cinquenta anos.
Trinta e cinco anos após a hegemonia do “Consenso de Washington” ter ditado a liberalização desregrada e a privatização sistemática, a revisão crítica operada por debates recentes sobre o chamado “Consenso de Londres” traz à tona uma verdade desconfortável: o modelo económico não falhou por acidente. Ele funcionou exatamente como foi desenhado para funcionar. Ao mesmo tempo, os alertas recorrentes da comunidade científica e da climatologia - que desenham o mapa do esgotamento planetário pós-2050 - demonstram que a degradação ambiental partilha exatamente a mesma génese. A crise social e a emergência ecológica não são dois problemas paralelos; são duas manifestações da mesma opção ideológica.
A falsa neutralidade e a captura do estado
O debate público foi propositadamente afunilado numa falsa dicotomia entre "Estado Mínimo" e "Estado Máximo". A verdadeira questão nunca foi o tamanho do Estado, mas sim ao serviço de quem ele trabalha. Quando o modelo económico desregulamentado colapsou na Grande Crise Financeira de 2007–2009, o suposto "Estado mínimo" transformou-se instantaneamente num Estado intervencionista máximo, injetando biliões em garantias e liquidez para salvar o setor financeiro. Socializaram-se os prejuízos privados e cobrou-se a conta aos cidadãos sob a forma de austeridade.
Esta mesma lógica de captura institucional replica-se com exatidão na esfera ecológica. A omissão governamental perante o esgotamento dos ecossistemas não resulta de ignorância ou falta de dados. Os modelos do GIEC/IPCC há décadas que preveem com precisão milimétrica os cenários de eventos extremos que hoje testemunham. Se os governos hesitam em impor limites estritos à extração de recursos, ao uso de combustíveis fósseis ou à poluição corporativa, é porque a capacidade regulatória do Estado foi subordinada à lógica do lucro de curto prazo. A regulação preventiva foi desmantelada para não perturbar a acumulação de capital, reservando-se ao Estado apenas o papel de absorver os estragos depois dos desastres consumados.
O fetiche do PIB e a desigualdade estrutural
Esta convergência reflete-se com clareza na forma como medimos o sucesso de uma sociedade. O produto interno bruto (PIB) e os indicadores macroeconómicos convencionais tornaram-se métricas cegas: contabilizam a extração desenfreada e a transação financeira de soma zero como "crescimento", enquanto ignoram tanto a destruição do património natural como o esvaziamento do poder de compra de quem trabalha.
Nos últimos quarenta anos, assistimos ao crescimento exponencial da concentração de mercado e à perda de poder negociador dos trabalhadores. O capital desviou-se do investimento produtivo e da inovação real para a engenharia financeira. O resultado traduz-se numa divergência gritante: a produtividade aumentou, mas a quota do rendimento captada pelo 1% mais rico disparou, enquanto os salários médios permaneceram estagnados. À escala global, a livre circulação de capital aliada à competição fiscal entre Estados transferiu o ónus dos impostos para o trabalho e desmantelou o tecido comunitário de regiões inteiras.
Paralelamente, a biosfera - subordinada a limites biofísicos invioláveis - foi tratada como um armazém infinito de recursos e um depósito ilimitado de resíduos. Ao dissociar a economia da física e da ecologia, o sistema financeirizado passou a promover a ilusão de um crescimento ilimitado num planeta finito, tratando a destruição ecológica como uma mera "externalidade" sem valor contabilístico.
O esvaziamento da democracia e a destruição do TINA
As consequências moram ao nosso lado. A estagnação salarial, a degradação dos serviços públicos, o sentimento de abandono regional e a perda de coesão social não são apenas estatísticas económicas; são os motores primordiais da erosão democrática, da fragmentação política e da ascensão do populismo extremista. Quando a população perceciona que as instituições democráticas foram instrumentalizadas para proteger os interesses de quem concentra riqueza, a confiança no sistema representativo desmorona-se.
Durante décadas, a máxima TINA (There Is No Alternative / "Não Há Alternativa") foi utilizada como um espartilho intelectual. Dizia-se que a globalização sem regras, a desregulação laboral e a mercantilização da vida eram forças inelutáveis da natureza às quais restava apenas a resignação.
Contudo, nada disto foi inevitável. As regras da economia foram desenhadas e escritas por escolhas humanas para servir determinados objetivos; por conseguinte, podem ser desmanteladas e reescritas. A física do clima impõe limites reais e invioláveis; a economia, pelo contrário, é uma construção social submetida à vontade política.
Rejeitar o determinismo tecnológico e económico implica devolver a economia ao seu lugar de origem: o da política e da ética. Enfrentar a emergência do século XXI exige um novo compromisso que associe a progressividade fiscal, a valorização do trabalho e a regulação financeira a uma transição ecológica justa baseada nos princípios do decrescimento, na transição para uma economia circular e na regulamentação estrita da inteligência artificial e do consumo de recursos. Reconhecer que a economia é política é o primeiro passo para resgatar a democracia e impedir que a crónica de uma catástrofe anunciada se torne o nosso destino final.
Saber mais:
- Interessante escutar este painel de debate How do we fix climate change? promovido pela London School of Economics and Political Science. Conheça os oradores aqui
- A ilusão do consumo e o silêncio da extinção: uma crítica da ecologia política ao poder corporativo
