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domingo, 28 de abril de 2024

Discurso de Rui Tavares na Sessão Solene dos 50 anos do 25 de Abril

A mais extraordinária homenagem ao 25 de Abril
A revolução dos cravos foi a mais bela e marcante do século XX. E mudou muita coisa, desde uma guerra colonial sem sentido à autodeterminação das mulheres, que finalmente puderam votar e deixarem de ter donos. Os detractores, porque os há - basta ver os que não bateram as palmas impossíveis -, convivem mal com este dia. São os que escrevem livros sobre a família tradicional e que dizem que o lugar das mulheres é de avental na cozinha, em suma, os mesmos que cristalizaram no 24 de Abril.
Rui Tavares deu uma aula de História ao vivo. Depois deste discurso, what else?

sábado, 13 de janeiro de 2024

Música do BioTerra: Edmundo Inácio - Minha Mãe feat. Os Ganhões de Castro Verde

Perdi já várias mulheres, entre as quais a minha mãe, irmã, mães amigas e a minha esposa, mãe do meu filho. Partiu cedo. Faleceu tinha o meu filho apenas 11 anos. Não encontro mais palavras. Esta vai ser a canção que voltarei a ouvir para sossegar e aliviar esta dor profunda. Sou graúdo, tenho imensas responsabilidades, mas falta-me o doce colo de mãe. Como me faz falta. Gratidão Edmundo!
 

Ó minha Mãe, quem me dera não chorar
Por nos teus braços um dia não poder deitar

Quem me dera
Voltar a ser tão pequenino
Quando era inocente
De choro impertinente
E ainda mal te via

E quantas vezes
Pressentiste as minhas feridas
Meus problemas eram teus
Até quando disse adeus
Está na hora de voar

E quando o teu dia chegar
Não terei o teu amar
Só te queria dizer
Não tе quero perder
Ó Mãе

Ó minha Mãe, quem me dera não chorar
Por nos teus braços um dia não poder deitar
Já sou graúdo, mas ainda morro de medo
De enfrentar o mundo sem o teu olhar

Quem me dera
Poder voltar no tempo
Adormecer no teu sofá
Sabendo que estás lá
Sem medo de acordar
E não te ter

E um dia não sei pr’onde vais
Só sei que não te terei mais
Quem vai não volta
E revolta não te ter
E mesmo que seja tarde
Amo-te, Mãe!

Ó minha Mãe, quem me dera não chorar
Por nos teus braços um dia não poder deitar
Já sou graúdo, mas ainda morro de medo
De enfrentar o mundo sem o teu olhar

Ó minha Mãe, quem me dera não chorar
Por nos teus braços um dia não poder deitar
Já sou graúdo, mas ainda morro de medo
De enfrentar o mundo sem o teu olhar

Amo-te, Mãe

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Ainda a Homenagem a Sara Tavares - afinal o racismo negro contra os brancos existe em Portugal


Porque é que Cristina Roldão não escreve em cabo-verdiano "bunita"?? Bela homenagem logo no título!! Diz a cronista que corriam os anos de 1993 e 1994 e que "naqueles breves minutos - quando a Sara Tavares cantou e venceu o Chuva de Estrelas e o Festival da Canção- , deixámos de ser mandadas para a “nossa terra”, porque subitamente éramos daqui; deixámos de ser as “pretas da Guiné que lavavam a cara com chulé”, as “barrote queimado”, as “macacas” que cheiravam a “catinga”. Só se for em Lisboa.
Quantos "brancos" portugueses que conheço e adoptaram menino(a)s moçambicanos, cabo-verdianos, tomeenses já antes dessa altura.... Os próprios retornados de África foram os pioneiros na adopção de crianças africanas. Não trouxeram ódio. Muitos dos seus filhos mantiveram a dupla-nacionalidade (Angola-Portugal, Moçambique-Portugal, Guiné-Bissau-Portugal, por aí fora).  Cristina Roldão mal!! Não convoquemos racismo negro. Sara Tavares não era racista!! Contudo e por falar  nos anos 80 (e 90) na faculdade onde estudei havia muitos estudantes universitários CPLP. Portugal nunca falhou o pagamento da bolsa. Já os seus países de origem demoravam a pagar. Tinham que trabalhar para concluir os estudos. Os macaenses também igual sorte. 
Outra homenagem racista leio em Joacine Katar Moreira, apelando ao orgulho preto, dizendo que morreu "uma luz para todas nós, meninas negras". Sara foi adoptada por avós brancos no Pragal. Morreu uma MULHER. Ponto. Grande voz, amor eterno à música. Lembremos a Sara Tavares, sem etnia nem côr. 
P.S. Uns tios meus "brancos" ( já falecidos ) adoptaram uma menina manca moçambicana. Isto há 40 anos atrás. Agora é uma mulher realizada, está casada com um homem "branco" e têm dois filhos mestiços. Já conversei com ela muitas vezes sobre se alguma vez sentiu em Portugal alguma discriminação por  ser "preta" e ela diz-me que não e que está-se a marimbar para o Black Lives Matters. "Isso é um fenómeno dos States", diz ela. E tem razão.

domingo, 14 de maio de 2023

Universidade de artes londrina retira a palavra "mulher" das suas políticas de maternidade e menopausa

Uma Universidade de Londres foi criticada por ter retirado a palavra “mulher” das suas políticas de maternidade e menopausa, declarando que estes estados se aplicam a “todos os géneros”.


A University of the Arts London (UAL) implementou a redacção nas suas políticas há um ano, mas a medida atraiu a atenção desde que a instituição veio em público defender os direitos LGBTQIA+ nas redes sociais e no seu próprio website.

De referir que em 2023, a UAL e a Royal College of Art foram distinguidas como as melhores do mundo em Arte e Design.

N uma publicação no LinkedIn em Outubro de 2022 o vice-chanceler da Universidade de Artes de Londres, James Purnell, escreveu :
“Na UAL, estamos a introduzir uma licença parental igual. Todos os novos pais terão direito a seis meses com salário integral. É justo para todos os tipos de pais, de qualquer género ou sexo, ou orientação sexual, quer adoptem ou não”.
Num outro comunicado de imprensa, a Universidade salientou que as suas políticas de maternidade e menopausa se aplicam
“independentemente do género, da orientação sexual ou da forma como as pessoas se tornam pais”.
No texto referente a essas políticas lemos que:
“queremos afirmar, através da linguagem utilizada nesta carta, que nem todas as pessoas grávidas são mulheres e, por conseguinte, reconhecer as pessoas grávidas e os pais trans, não binários, queer e com fluidez de género”.
Nas políticas actualizadas sobre a menopausa, é declarado que
A UAL reconhece que a menopausa também pode ser vivida por colegas que não se identificam como mulheres, pelo que esta orientação e conteúdos de apoio destinam-se a apoiar qualquer pessoa que esteja a passar pela menopausa, independentemente da sua identidade de género.”
O Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS) também foi acusado de “apagar” as mulheres, depois de ter retirado todas as referências ao sexo feminino de uma secção de aconselhamento online sobre a menopausa e de ter alterado as suas páginas de orientação sobre o cancro dos ovários, retirando a ocorrência da palavra “mulheres”, numa medida que, segundo alegaram, se destinava a ser mais “inclusiva” em relação às pessoas trans, não binárias e inter-sexuais.

Além disso, um pedido de acesso à Lei da Liberdade de Informação revelou, no ano passado, que apenas 29 dos 124 hospitais do NHS em Inglaterra com maternidades continuam a utilizar exclusivamente as palavras “mulher” ou “mãe” para se referirem à gravidez, enquanto todos os outros incluem termos como “pessoas que dão à luz” ou “pessoas grávidas”.

O NHS foi anteriormente acusado de sobre-diagnosticar o tratamento de mudança de sexo em crianças por receio de ser rotulado de “transfóbico”. Desde então, parece ter mudado de rumo, avisando que a confusão de género em crianças “pode ser uma fase transitória, particularmente em crianças pré-púberes”.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

"Mãe heroína": Putin recupera tradição soviética

Distinção foi concedida pela primeira vez na URSS em outubro de 1944, com o objetivo de estimular as taxas de natalidade.

No ano de 1944, no auge da Segunda Guerra Mundial, o governo da União Soviética criou a ordem de Mãe Heroína, atribuída às mulheres responsáveis pela criação de dez ou mais filhos próprios. Após a queda da União Soviética, o título mudou de nome e atualmente é conhecido como a ordem da Glória dos Pais.


De acordo com as condições estabelecidas pelos dirigentes soviéticos, o título de Mãe Heroína era entregue às mulheres com dez filhos vivos, assim que o último deles completasse um ano de idade. Ao longo de 40 anos da sua existência, o prêmio foi recebido por mais de 750 mil mulheres.

Além disso, a legislação da União Soviética previa a premiação das cidadãs mães de seis e cinco filhos, inclusive adotados, com a ordem de Maternidade do primeiro e segundo grau respectivamente. A ordem do primeiro grau foi adquirida por mais de 1,5 milhões de mulheres e do segundo por mais de 2,7 milhões. As últimas receberem os prêmios em 14 de novembro de 1991, durante o governo do Mikhail Gorbachev.

Com a queda da União Soviética, ambas as ordens deixaram de existir devido a uma série de problemas económicos e políticos que haviam tirado o foco dos dirigentes do país dos assuntos demográficos.

Depois, deixou de existir após a queda da União Soviética em 1991.

A Rússia enfrenta há anos uma nova crise demográfica, que se agravou com a pandemia de covid-19 e o início da ofensiva russa na Ucrânia.

Retoma

No entanto, mais tarde, a prática de premiação das famílias numerosas foi retomada. Em fevereiro de 2008, o então primeiro vice-presidente do Conselho do Governo da Federação Russa, Dmitri Medvedev, sugeriu a criação da ordem de Glória dos Pais, cujo projeto foi baseado no prémio soviético de Glória Maternal.

A nova recompensa começou a ser distribuída entre as famílias com quatro ou mais herdeiros em 2009, visando valorizar o seu “mérito marcante no fortalecimento do casamento como instituto social e na criação dos seus filhos”. Até 2013, um dos pais premiados recebia uma parcela única no valor equivalente a US$ 1.300 dólares, que posteriormente subiu para US$ 2.600. O valor é atualmente depositado para os casais que cumprem todos os requisitos necessários.

Em fevereiro de 2013, Mikhail Serdiuk, membro do Comitê de Orçamento da Duma Federal e pai de uma grande família, sugeriu o restabelecimento da prática de premiação com a ordem de Mãe Heroína. O projeto, no entanto, não foi aprovado pelos seus colegas
.
O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, concedeu os primeiros títulos de "mãe heroína", retomando uma tradição soviética que homenageia mulheres com dez ou mais filhos, de acordo com um decreto presidencial hoje divulgado.

Medni Kadyrova, mulher do líder checheno Ramzan Kadyrov, que tem 14 filhos segundo o 'site' oficial da presidência chechena, tornou-se uma das duas primeiras mulheres russas a receber este título.

A segunda mulher distinguida é Olga Dekhtiarenko, da península de Yamal, localizada ao norte do Círculo Polar Ártico.

A sua família, com dez filhos, venceu a competição nacional "Família do Ano" em 2020, segundo os órgãos de comunicação social locais.

O título "mãe heroína", por vezes traduzido como "mãe heroica", foi implementando na era soviética e Putin decidiu restaura-lo em agosto.

Vladimir Putin decidiu restaurar este título, determinando também o pagamento de um milhão de rublos [cerca de 16.200 euros] às mulheres homenageadas.

De acordo com os resultados preliminares dos últimos censos, publicados pela agência russa de estatística (Rosstat), cerca de 147 milhões de pessoas viviam na Rússia em outubro/novembro de 2021, um milhão a menos do que em 1992, após a queda da URSS.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

“Se não mudarmos de comportamento não vai sequer haver futuro.” Grande entrevista a Jane Goodall

Amiga dos chimpanzés e militante da esperança, despediu-se da sua amada Gombe, na Tanzânia. Deixa para trás a descoberta de um mundo novo para agarrar-se à missão de salvar o que ainda existe.


Fonte: Expresso, 5.2.22


O que se esperava era um ecrã escuro e a voz idosa de Jane Goodall do outro lado do computador para uma conversa virtual entre o Expresso e a amante dos chimpanzés. Mas Jane foi generosa e do escuro fez imagem. Surgiu então o rosto conhecido da mulher de 87 anos, o cabelo branco preso num rabo de cavalo baixo. Explicou que tinha pensado em não ligar a câmara porque lhe aparecera um rubor incómodo no rosto, mas, afinal, mudara de ideias. Que bom. Como cenário, a biblioteca da casa de família em Bournemouth, na costa sul da Inglaterra, onde vive com a família desde que a pandemia a impediu de viajar.

Por trás de Jane, as estantes cheias de livros com lombadas antigas, fotografias de outras eras, de uma mulher recostada numa cadeira de lona, com a vegetação típica de África ao fundo; de uma Jane adolescente com “Rusty”, o cão e companheiro. Foi ali que passou a infância, descobriu a felicidade de uma guerra terminada, ouviu os pássaros que já lhe não cantam à janela. Uma casa habitada, não um espaço concebido para ser visto por estranhos. E, apesar da distância digital, quase cheirava às rosas patológicas que florescem no inverno.

A conversa foi sobre o passado, sobre os amigos chimpanzés, para quem Jane Goodall conquistou um estatuto nunca antes reconhecido: o de utilizadores de artefactos. Uma pedrada no charco da tradição que remetia os animais para a escuridão da subalternidade. Jovem, loira e bonita, foi desacreditada e só conquistou credibilidade quando a “National Geographic” a enviou novamente para a Tanzânia, para o amado refúgio de Gombe, acompanhada por um fotógrafo que viria a se tornar o seu primeiro marido, e as imagens falaram por ela. A partir dali foi se tornando um mito, entrou para a universidade de Cambridge sem ter uma licenciatura, deu a volta ao mundo para falar dos animais e escreveu dezenas de livros. No último, “O Livro da Esperança”, lançado este mês em Portugal, defende a delicadeza como arma para convencer os mais reticentes em abraçar a causa ambiental. Na conversa com o Expresso fala ainda de “Roots & Shoots”, projeto que lançou em dezenas de países, inclusive Portugal, para educar os jovens.

Falou ainda do que acredita ser um erro do Papa, dos estragos causados por Bolsonaro, da zanga que Greta carrega no coração. E falou de “Leo”, o amigo Leonardo Di Caprio, que lhe pediu para ver o seu último filme. A mulher que viajava 300 dias por ano até ser travada por um vírus está de volta ao ponto de origem e diz que não quer ter na amada Gombe a sua última morada. Porque o mundo mudou, mesmo que ela seja a mesma.

Porque está preocupada em falar de esperança? Não deveria fazer alertas sobre a gravidade da situação?

Obviamente que temos de falar sobre os problemas, é muito importante, mas se apenas falarmos sobre o que está errado, as pessoas vão pensar que não há nada que possam fazer. E se você não tem alguma esperança, então porque se vai importar com o que quer que seja? Se não é para ajudar a resolver os problemas, porque se vai incomodar? Se não tiverem esperança, as pessoas não se sentem inspiradas a tomarem uma atitude de mudança. Mas é preciso saber como se define esperança. Para mim, é como se estivéssemos num túnel muito, muito escuro e, no fim, víssemos uma pequena estrela luminosa. Esta luz é a esperança. Mas não podemos ficar sentados no fundo do túnel, à espera que a luz venha ter connosco. Não, temos de endireitar os ombros e ir à luta. Dar a volta a todos os obstáculos, passar por cima de pedras, sejam a destruição do ambiente e da biodiversidade ou a existência de governos corruptos. Temos de lutar e lutar juntos.

A sua noção de esperança não é lírica nem estática. Não é um sonho, mas exige luta. Esperança é ação?

Sim! Esperança é ação. E nós não agimos em parceria. Ainda não temos as pessoas suficientes, preparadas para lutar. É verdade que em alguns lugares, a esperança parece ser algo absolutamente impossível. Não consigo deixar de pensar na situação das mulheres no Afeganistão.

Não tem qualquer esperança face a esta situação?

Não consigo lidar com o que se passa no Afeganistão. É algo que está muito para lá de nós mesmos. Continuamos a pensar apenas no que se passa na Europa e nos Estados Unidos, mas temos de pensar em África e na América Latina e no que poderia ser feito se as populações destes locais se unissem e agissem.

Ou seja, é fácil ter esperança na Europa e nos Estados Unidos, mas muito difícil se estivermos em locais como o Afeganistão ou em África?

O que se passa no Afeganistão está para lá do imaginável. Assumo que não sei lidar com aquela situação. Mas, em África, estamos a dar esperança a milhões de pessoas através, por exemplo, dos programas em que trabalhamos com as comunidades locais. Falamos com elas, colocando-lhes nas mãos a autoria do que é feito e, desta forma, conseguimos preservar a floresta e a vida animal selvagem. Porque as pessoas decidiram por elas mesmas ao perceberem que esta é a decisão correta para o seu próprio futuro e não apenas para a vida selvagem.

Em algumas destas geografias, como o Afeganistão ou alguns países africanos, a única esperança das populações é partir. Este é um tipo distinto de esperança, associada à perda.

Sim, suponho que para uma mulher no Afeganistão, a única forma de ter esperança é acreditar que conseguirá sair do país. Penso nos refugiados ambientais, pessoas que fogem de uma seca que torna impossível continuarem a viver da forma como viviam tradicionalmente. E sim, nestes casos, a esperança está em procurar outro país. Há vários tipos de esperança, mas, também, cada vez mais, há formas de ajudarmos estas pessoas a lidarem com a situação, resistirem, encontrarem novas maneiras de cultivar a terra. Temos de procurar caminhos novos para ultrapassar os obstáculos que surgem. E, entretanto, temos de continuar a tentar fazer os líderes e os governos mudarem as políticas de emissões de gases. Temos de provocar a mudança, forçar que aconteça. E as pessoas comuns, como eu e você, temos de continuar, diariamente, a pensar nas escolhas que fazemos, no que compramos, se o que adquirimos contribui para a destruição do ambiente ou se resulta de atitudes cruéis face aos animais.

Não há sinais positivos?

A boa notícia é que cada vez mais empresários estão a mudar. Há algumas semanas, falei com o presidente executivo de um grande grupo internacional e ele me contou que nos últimos oito anos tem trabalhado para garantir que as empresas dele são cada vez mais responsáveis do ponto de vista social e ambiental. E as explicações dele para esta mudança foram simples. A primeira é que percebeu que se continuar a usar os recursos naturais ao mesmo ritmo, será o fim, não só do seu negócio, como de todos. Além disso, disse que há uma cada vez maior pressão dos consumidores, que não querem continuar a comprar produtos muito baratos, feitos à custa da miséria dos trabalhadores. Mas, o que realmente desequilibrou a balança, segundo este empresário, foi quando a filha de oito anos chegou a casa e o confrontou: “Paizinho, disseram-me na escola que o que fazes está a destruir o ambiente! Não é correto porque este é o meu planeta.” Este tipo de comentários vai direto ao coração. É por isso que continuo a contar histórias.

Porque é tão importante contar histórias?

Vou lhe dar um exemplo. Há muitos anos, quando pela primeira vez percebi o que acontecia com os chimpanzés utilizados em pesquisas médicas, recém-chegada da pesquisa de campo e de lidar com os chimpanzés como se fossem indivíduos, forcei-me a ir pessoalmente ver o que lhes acontecia. Encontrei cinco jaulas, alguns dos chimpanzés viviam ali, sozinhos, há 20 anos. São animais muito sociáveis mas não tinham ninguém com quem interagir, com quem crescer. O único contacto que tinham era com pessoas vestidas de branco que surgiam para lhes injetar qualquer coisa no corpo. Recordo-me que no primeiro encontro que tive com responsáveis do NHS (National Health System, o Serviço Nacional de Saúde inglês) que lideravam aquele programa, mostrei-me completamente chocada. Estava em frente a um grupo de homens sentados à volta de uma mesa, à espera que eu falasse, e o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi que qualquer pessoa minimamente dotada de compaixão sentiria o mesmo que eu estava a sentir. Eles estavam silenciosos e comecei a lhes contar sobre a forma como os chimpanzés se comportavam em Gombe [Tanzânia]. Eu tinha algumas fotografias comigo e mostrei-lhes e percebi que eles compreenderam o que eu estava a sentir. Não é que eles fossem cruéis, mas o que lhes faltava era conhecimento, perceção da realidade. Se você quer que alguém mude, não é boa ideia acusá-la, discutir, mas fazê-la ouvir o que tem a dizer, encontrar uma forma de lhe chegar ao coração. Só assim se vai provocar uma mudança real.

Discorda da atitude zangada de Greta Thunberg? A nova geração é ativa e está preocupada com o ambiente, mas não fala ao coração.

Eles estão zangados, mas não os culpo. Greta conseguiu promover uma enorme onda de indignação por todo o mundo. Nós precisamos daquele tipo de atitude, assim como também precisamos de tocar o coração das pessoas. A situação do planeta é tão preocupante que precisamos de todos os contributos. A minha maneira de falar é essa, indo ao coração. Não sou agressiva. E é a mensagem que procuramos passar no nosso programa “Roots & Shoots”, que também existe em Portugal. Ensinamos os jovens a contarem histórias, a não presumirem à partida que as pessoas são más. Essa é a forma que acreditamos para alterar os comportamentos e ultrapassar a barreira das incompreensões.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Maria Sequeira Mendes: “É absurdo achar que uma pessoa que nunca teve uma família já não precisa de a ter”


“Começo este livro no dia da mãe. É a minha segunda celebração, apesar de o meu filho ter 8 anos e de a minha filha ter 17, e não viver connosco. (...) Há muitas formas de se ser mãe, e não me impressiona a ideia de que o meu filho tenha duas ou até três mães. Todas gostamos dele, disso não tenho dúvidas, e pode ser que se ele o souber cresça mais forte e feliz, assim como a sua irmã”. No primeiro parágrafo de Adopção Tardia, livro editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e publicado em maio de 2021, Maria Sequeira Mendes, a sua autora começa por nos situar. Abre-nos a porta e convida-nos a entrar num mundo que é o seu, mas que é também universal.

Maria tem 44 anos, nasceu em Portalegre, é professora na Faculdade de Letras da Universidade. Tem dois filhos, de quem é orgulhosamente mãe e de quem fala sempre com uma profunda admiração. Como qualquer mãe, tem uma vida profissional e ocupações além da maternidade, mas tornou a sua experiência em algo maior do que a experiência em si. Algo maior do que ser mãe de dois filhos e ter passado por um processo de adopção. Adopção Tardia é o livro que gostava de ter lido quando decidiu adoptar uma criança e uma adolescente que já tinham idade suficiente para revisitar as memórias que podiam querer esquecer; é um gesto “egoísta” — é a própria que assim o adjetiva — cheio de generosidade. Com a ajuda das equipas que estiveram do seu lado, uma da Segurança Social e outra da Santa Casa da Misericórdia, conseguiu chegar a mais histórias e ouvir as pessoas que raras vezes são ouvidas quando se escreve sobre adopção: as crianças, jovens e adultos que passaram pelo processo de adopção.

Num livro que se lê num sopro, Maria Sequeira Mendes desconstrói os estereótipos que existem em torno da adopção tardia numa abordagem de proximidade. Não há espaço para frases feitas nem para ideias infundamentadas. Com recurso a referências como Johanne Lemieux - autora de La Normalité Adoptive, que teoriza e simplifica as complicações da adopção - e a vozes que falam na primeira pessoa, costura uma manta de retalhos que nos mostra que o processo de adopção tem tanto de complexo como de fascinante. Cinco meses depois do lançamento de Adopção Tardia, Maria Sequeira Mendes conversa com o Gerador sobre o livro que já tem sido útil para famílias que estão a dar início a processos de adopção, os desafios de pais e filhos, e a urgência de se perceber que, afinal, o direito à família não pertence aos pais, mas sim as crianças.

Gerador (G.) - A Maria começa o livro num tom muito pessoal, colocando-se de imediato na história. Sabemos, desde logo, que tem dois filhos e que passou por um processo de adopção. Este livro partiu de uma certa inquietação? É o livro que gostava de ter lido?

Maria Sequeira Mendes (M.S.M.) - Sim, é. Um bocadinho depois da adopção comecei a fazer parte de um grupo de pós-adopção americano, que foi muito importante para mim porque de repente cheguei lá e as dificuldades que eu tinha eram super normais. Toda a gente dizia “ah, isso, claro claro”. Um pai adoptivo, ou uma mãe no meu caso, que tem uma criança já crescida não passa por aquela fase do bebé, em que podemos fazer asneiras e ninguém sabe [risos]. Esse grupo foi muito importante e eu percebi que era mesmo necessário ter contacto com outros pais que tinham adoptado, e parti dessa ideia de poder começar a conhecer famílias e fazer um estudo sobre como é que tinha sido com crianças mais velhas, como é que elas estavam agora, e acabou por ser muito útil. Não apenas os contactos com as famílias, mas sobretudo com os jovens que foram adoptados — achei que foi mesmo bonito, porque tal como acontece com a minha filha mais velha que tem lembranças e que consegue descrever as coisas muito bem, acho que os miúdos que surgem no livro descrevem de formas muito perspicazes e inteligentes as experiências pelas quais passaram, e penso que tinha sido importante para mim tê-las ouvido antes da adopção. Acho que posso dizer que é um livro egoísta, e que tem o impulso de transmitir a outros pais essa informação que fui recebendo.

G. - Mas há uma generosidade muito grande nesse egoísmo. No seu livro, diz-nos que existem sete vezes mais candidatos à adopção do que crianças para adoptar; ainda assim, é elevado o número de crianças que crescem em instituições. Esta era uma realidade que já conhecia?

M.S.M. - Já conhecia e sabia que a partir de uma certa idade — diria que dos 9, 10 anos, às vezes menos — é muito difícil. Aos 14 anos, certamente, é muito difícil as crianças encontrarem uma família, o que é extremamente injusto. Às vezes também penso nisso, porque se isto fosse normalizado era tão mais fácil perceber-se que não é um bicho de sete cabeças. As pessoas têm muito medo de uma realidade que não conhecem, ou tentam reproduzir o modelo da criança com que sonharam e que não puderam ter (em casos de infertilidade), mas eu acho que a adopção é uma coisa diferente. Não é uma criança para nós, nós é que estamos a dar uma família à criança — tem que ser ao contrário. Desse ponto de vista, é mesmo engraçado quando eles são mais velhos porque já conseguimos conversar, já conseguimos trocar ideias, fazer perguntas, e isso facilita tanto o processo de adopção. Tenho muita pena que alguns candidatos, e às vezes algumas equipas também, fiquem focados na ideia de que uma criança mais velha está “muito traumatizada e vai ser impossível”. “Já não há nada a fazer”. Que horror, como se aos 10 anos alguém tivesse uma marca pela frente que diz que a vida nunca vai ser boa. Não pode ser, não pode ser assim.

G. - Essa questão da expectativa é abordada logo no começo. Fala-nos na expectativa que existe de um lado e de outro: a adopção vista como alternativa aos filhos que se conseguiu ter de forma biológica, num lado, e a família que não corresponde ao que se imaginou, no outro. Sente que quando se fala de adopção, por norma, se fala como um plano B?

M.S.M. - Acho que às vezes pode ser um plano B que surgiu numa história de infertilidade, mas para muitas pessoas que eu conheço foi um plano A. E mesmo para as que foi um plano B, a certa altura o plano B transformou-se num plano A super desejado. Acho que as famílias não a sentem como algo menor, pelo contrário; é muito bonito ver o orgulho que os pais têm nos filhos, e a maneira como eles são tão melhores do que nós.

G. - A Maria quis fazer algo diferente: deu espaço a crianças, jovens ou, em alguns casos, adultos que tinham sido adoptados. Menciona, a certa altura, uma abordagem negativa dos órgãos de comunicação social quando falam no tema — acha que essa abordagem negativa vem também porque não se traz a voz destes jovens que a Maria trouxe?

M.S.M. - A adopção em geral é sigilosa, as famílias não têm contacto umas com as outras. Não existe uma rede de famílias adoptivas, o que significa que muitas vezes nós temos amigos que adoptaram e, a não ser que sejam amigos muito próximos, nós não sabemos. Quando iniciei este percurso e disse que estava no processo, comecei a aperceber-me que à minha volta havia uma série de pessoas que ou tinham adoptado, ou que estavam no processo, ou que já tinha adoptado mais do que uma vez. O que percebi é que é claro que não se fala sobre isto, porque a partir de uma certa altura a adopção deixa de ser relevante, a família constitui-se enquanto família e a adopção é uma coisa que está no passado. Depois aquele é o meu filho, eu sou a mãe, não é necessário a pessoa explicar o processo. Mas isto leva a que quando corre bem, nunca se fale do assunto porque ficou lá para trás no passado.

Na comunicação social existe alguma tendência para, por vezes, ter uma abordagem catastrofista - “filho adoptado assassina mãe”. Eu penso sempre quantos o fizeram e não eram adoptados. Há falta de informação, e isso não ajuda nem os pais, nem as crianças, nem as escolas, nem os pediatras. Sinto que há um grande esforço que está a ser feito e que precisa de continuar a ser feito, no sentido de sabermos mais uns sobre os outros.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Roy T. Bennett - A Luz no Coração

Filhotes de gansos

"Atitude é uma escolha. Felicidade é uma escolha. O otimismo é uma escolha. A bondade é uma escolha. Dar é uma escolha. Respeito é uma escolha. Qualquer escolha que você fizer faz você. Escolha sabiamente."

sexta-feira, 10 de março de 2017

Os Gatos Não Têm Vertigem (Portugal, 2014) realizado por António-Pedro Vasconcelos


Jó é um rapaz de 18 anos, proveniente de uma família disfuncional, que está desencantado com a vida e é influenciado pelas más companhias do bairro. O seu pai, Alberto, é um toxicodependente que passa a vida a roubar e a bater no filho. No dia do seu aniversário, é expulso de casa pelo pai. Não tendo para onde ir, Jó abriga-se no terraço de Rosa, onde passa a noite. Na manhã seguinte, Rosa, uma mulher de 73 anos que perdeu recentemente o marido de toda uma vida, encontra o rapaz e decide acolhê-lo em sua casa. Aos poucos, vai nascendo uma grande amizade entre os dois que, apesar de incompreendida por todos, se torna cada dia mais forte e verdadeira. Entretanto, chega o dia em que Alberto descobre onde o filho está abrigado, e os problemas começam...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Irena Sendler - Fevereiro o mês do nascimento do anjo do Gueto de Varsóvia



Hoje falo de Uma Senhora que faria 101 anos chamada Irena e que faleceu há pouco tempo, em 2008.
Durante a 2ª Guerra Mundial, Irena conseguiu uma autorização para trabalhar no Gueto de Varsóvia.

Mas os seus planos iam mais além... Sabia quais eram os planos dos nazis relativamente aos judeus - os campos da morte.

Irena , trazia meninos escondidos no fundo da sua caixa de ferramentas e levava um saco de sarapilheira, na parte de trás da sua camioneta (para crianças de maior tamanho). Também levava na parte de trás da camioneta, um cão a quem ensinara a ladrar aos soldados nazis quando entrava e saia do Gueto.

Claro que os soldados não queriam nada com o cão e o ladrar deste encobriria qualquer ruído que os meninos pudessem fazer.

Enquanto conseguiu manter este trabalho, conseguiu retirar e salvar cerca de 2500 crianças.
Por fim os nazis apanharam-na e partiram-lhe ambas as pernas e os braços e prenderam-na brutalmente.

Irena mantinha um registo com o nome de todas as crianças que conseguiu retirar do Gueto, que guardava num frasco de vidro enterrado debaixo de uma árvore no seu jardim.

Depois de terminada a guerra tentou localizar os pais que tivessem sobrevivido e reunir a família. A maioria tinha sido levada para as câmaras de gás. Para aqueles que tinham perdido os pais ajudou a encontrar casas de acolhimento ou pais adoptivos.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Maternidade


A gravidez, fertilidade, FIV, adopção, barrigas de aluguer...Não interessa como. A maternidade é uma experiência mística e expressão de um amor especial.
Arte digital da minha amiga Armelle LLobet

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A força das canções de embalar - Pequena oficina de trabalho ( workshop) BioTerra, em 10 partes


Nas próximas postagens irei abordar de uma forma artística e activista, este encanto e força de sentimentos que são as canções de embalar, como são traduzidas em diferentes épocas, culturas, e dentro da mesma cultura as variações do tema. Durante a evolução, fala-se também da selecção do parentesco e da população. Deverá a família (e a população humana) funcionar como um todo cooperante, ou deveremos esperar egoísmo e engano mesmo entre os seus membros?
 
Deverá a pressão social humana diferenciar o tratamento desigual aos filhos? A planificação familiar é tão natural e no entanto em relação ao Homem parece não fazer muito sentido? As canções de embalar são então o pano de fundo para reflectirmos sobre estas e outras questões, como a adopção, xenofobias. As respostas genéticas estão muito bem explicadas no livro O Gene Egoísta, de Richard Dawkins. Todas estas perguntas eu procuro sugerir pistas, umas mais alegres, outras profundamente trágicas, como disse ao longo das próximas postagens (serão 10 histórias).

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A Geração dos Pais Confusos


Um livro de resposta para os perigos da paternidade no mundo de hoje, em que Diane Ehrensaft nos orienta com exemplos da sua actividade de psicóloga clínica. Transcrevo a seguir uma citação (adaptada) desta obra.

"[Nos anos 30 defendia-se o autoritarismo e nos anos 40 e 50 iniciaram-se as abordagens mais permissivas, promovidas por Benjamim Spock. Nos anos 80, cresceu a publicidade privilegiando o bébé adulto e nos anos 90 com o resultado das melhorias na tecnologia da fertilidade surge a ideia do bébé perfeito]. Hoje em dia, não existem directivas tão claras para guiar os pais ao longo da educação dos filhos. Em vez disso, saltitam desesperadamente de uma abordagem para a outra- de permissivos para autoritários, de democráticos para autocráticos, de condescendentes para castradores."

Sítio da Autora



quarta-feira, 23 de julho de 2008

Animais de companhia - não os abandone no Verão ou adopte um, caso ainda não tenha



As principais mensagens estão aqui ditas pelo psiquiatra José Gameiro a reter: um animal de companhia é um elo de ligação na família; o abandono é egoísmo; o abandono é crime pois a maioria dos animais abandonados são enviados para o canil e não sendo adoptados enfrentam a morte.