“Começo este livro no dia da mãe. É a minha segunda celebração, apesar de o meu filho ter 8 anos e de a minha filha ter 17, e não viver connosco. (...) Há muitas formas de se ser mãe, e não me impressiona a ideia de que o meu filho tenha duas ou até três mães. Todas gostamos dele, disso não tenho dúvidas, e pode ser que se ele o souber cresça mais forte e feliz, assim como a sua irmã”. No primeiro parágrafo de
Adopção Tardia, livro editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e publicado em maio de 2021, Maria Sequeira Mendes, a sua autora começa por nos situar. Abre-nos a porta e convida-nos a entrar num mundo que é o seu, mas que é também universal.
Maria tem 44 anos, nasceu em Portalegre, é professora na Faculdade de Letras da Universidade. Tem dois filhos, de quem é orgulhosamente mãe e de quem fala sempre com uma profunda admiração. Como qualquer mãe, tem uma vida profissional e ocupações além da maternidade, mas tornou a sua experiência em algo maior do que a experiência em si. Algo maior do que ser mãe de dois filhos e ter passado por um processo de adopção. Adopção Tardia é o livro que gostava de ter lido quando decidiu adoptar uma criança e uma adolescente que já tinham idade suficiente para revisitar as memórias que podiam querer esquecer; é um gesto “egoísta” — é a própria que assim o adjetiva — cheio de generosidade. Com a ajuda das equipas que estiveram do seu lado, uma da Segurança Social e outra da Santa Casa da Misericórdia, conseguiu chegar a mais histórias e ouvir as pessoas que raras vezes são ouvidas quando se escreve sobre adopção: as crianças, jovens e adultos que passaram pelo processo de adopção.
Num livro que se lê num sopro, Maria Sequeira Mendes desconstrói os estereótipos que existem em torno da adopção tardia numa abordagem de proximidade. Não há espaço para frases feitas nem para ideias infundamentadas. Com recurso a referências como Johanne Lemieux - autora de La Normalité Adoptive, que teoriza e simplifica as complicações da adopção - e a vozes que falam na primeira pessoa, costura uma manta de retalhos que nos mostra que o processo de adopção tem tanto de complexo como de fascinante. Cinco meses depois do lançamento de Adopção Tardia, Maria Sequeira Mendes conversa com o Gerador sobre o livro que já tem sido útil para famílias que estão a dar início a processos de adopção, os desafios de pais e filhos, e a urgência de se perceber que, afinal, o direito à família não pertence aos pais, mas sim as crianças.
Gerador (G.) - A Maria começa o livro num tom muito pessoal, colocando-se de imediato na história. Sabemos, desde logo, que tem dois filhos e que passou por um processo de adopção. Este livro partiu de uma certa inquietação? É o livro que gostava de ter lido?
Maria Sequeira Mendes (M.S.M.) - Sim, é. Um bocadinho depois da adopção comecei a fazer parte de um grupo de pós-adopção americano, que foi muito importante para mim porque de repente cheguei lá e as dificuldades que eu tinha eram super normais. Toda a gente dizia “ah, isso, claro claro”. Um pai adoptivo, ou uma mãe no meu caso, que tem uma criança já crescida não passa por aquela fase do bebé, em que podemos fazer asneiras e ninguém sabe [risos]. Esse grupo foi muito importante e eu percebi que era mesmo necessário ter contacto com outros pais que tinham adoptado, e parti dessa ideia de poder começar a conhecer famílias e fazer um estudo sobre como é que tinha sido com crianças mais velhas, como é que elas estavam agora, e acabou por ser muito útil. Não apenas os contactos com as famílias, mas sobretudo com os jovens que foram adoptados — achei que foi mesmo bonito, porque tal como acontece com a minha filha mais velha que tem lembranças e que consegue descrever as coisas muito bem, acho que os miúdos que surgem no livro descrevem de formas muito perspicazes e inteligentes as experiências pelas quais passaram, e penso que tinha sido importante para mim tê-las ouvido antes da adopção. Acho que posso dizer que é um livro egoísta, e que tem o impulso de transmitir a outros pais essa informação que fui recebendo.
G. - Mas há uma generosidade muito grande nesse egoísmo. No seu livro, diz-nos que existem sete vezes mais candidatos à adopção do que crianças para adoptar; ainda assim, é elevado o número de crianças que crescem em instituições. Esta era uma realidade que já conhecia?
M.S.M. - Já conhecia e sabia que a partir de uma certa idade — diria que dos 9, 10 anos, às vezes menos — é muito difícil. Aos 14 anos, certamente, é muito difícil as crianças encontrarem uma família, o que é extremamente injusto. Às vezes também penso nisso, porque se isto fosse normalizado era tão mais fácil perceber-se que não é um bicho de sete cabeças. As pessoas têm muito medo de uma realidade que não conhecem, ou tentam reproduzir o modelo da criança com que sonharam e que não puderam ter (em casos de infertilidade), mas eu acho que a adopção é uma coisa diferente. Não é uma criança para nós, nós é que estamos a dar uma família à criança — tem que ser ao contrário. Desse ponto de vista, é mesmo engraçado quando eles são mais velhos porque já conseguimos conversar, já conseguimos trocar ideias, fazer perguntas, e isso facilita tanto o processo de adopção. Tenho muita pena que alguns candidatos, e às vezes algumas equipas também, fiquem focados na ideia de que uma criança mais velha está “muito traumatizada e vai ser impossível”. “Já não há nada a fazer”. Que horror, como se aos 10 anos alguém tivesse uma marca pela frente que diz que a vida nunca vai ser boa. Não pode ser, não pode ser assim.
G. - Essa questão da expectativa é abordada logo no começo. Fala-nos na expectativa que existe de um lado e de outro: a adopção vista como alternativa aos filhos que se conseguiu ter de forma biológica, num lado, e a família que não corresponde ao que se imaginou, no outro. Sente que quando se fala de adopção, por norma, se fala como um plano B?
M.S.M. - Acho que às vezes pode ser um plano B que surgiu numa história de infertilidade, mas para muitas pessoas que eu conheço foi um plano A. E mesmo para as que foi um plano B, a certa altura o plano B transformou-se num plano A super desejado. Acho que as famílias não a sentem como algo menor, pelo contrário; é muito bonito ver o orgulho que os pais têm nos filhos, e a maneira como eles são tão melhores do que nós.
G. - A Maria quis fazer algo diferente: deu espaço a crianças, jovens ou, em alguns casos, adultos que tinham sido adoptados. Menciona, a certa altura, uma abordagem negativa dos órgãos de comunicação social quando falam no tema — acha que essa abordagem negativa vem também porque não se traz a voz destes jovens que a Maria trouxe?
M.S.M. - A adopção em geral é sigilosa, as famílias não têm contacto umas com as outras. Não existe uma rede de famílias adoptivas, o que significa que muitas vezes nós temos amigos que adoptaram e, a não ser que sejam amigos muito próximos, nós não sabemos. Quando iniciei este percurso e disse que estava no processo, comecei a aperceber-me que à minha volta havia uma série de pessoas que ou tinham adoptado, ou que estavam no processo, ou que já tinha adoptado mais do que uma vez. O que percebi é que é claro que não se fala sobre isto, porque a partir de uma certa altura a adopção deixa de ser relevante, a família constitui-se enquanto família e a adopção é uma coisa que está no passado. Depois aquele é o meu filho, eu sou a mãe, não é necessário a pessoa explicar o processo. Mas isto leva a que quando corre bem, nunca se fale do assunto porque ficou lá para trás no passado.
Na comunicação social existe alguma tendência para, por vezes, ter uma abordagem catastrofista - “filho adoptado assassina mãe”. Eu penso sempre quantos o fizeram e não eram adoptados. Há falta de informação, e isso não ajuda nem os pais, nem as crianças, nem as escolas, nem os pediatras. Sinto que há um grande esforço que está a ser feito e que precisa de continuar a ser feito, no sentido de sabermos mais uns sobre os outros.