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sábado, 25 de julho de 2026

A Odisseia é ficção. Mas os seus monstros e magia podem ter bases científicas

Pellegrino Tibaldi (1550–1551) - Ulisses acceca Polifemo (em português: Ulisses cega Polifemo)

A Odisseia é um mito. É duvidoso que um homem tivesse demorado, literalmente, uma década a viajar desde Tróia, uma cidade situada na costa da Turquia, até à ilha grega de Ítaca após a guerra de Tróia, tivesse sido amaldiçoado para fazer amor com bruxas, viajado até ao Hades e lutado com um ciclope. Ou, se tivesse mesmo demorado assim tanto tempo, a sua maldição deveria incluir não pedir indicações.

No entanto, o relato da viagem extraordinariamente longa de Ulisses alude a coisas que as pessoas poderão ter encontrado no mundo antigo, desde um ciclope de carne e osso a remoinhos assassinos e plantas alucinogénicas. Seguem-se algumas das realidades científicas por trás das suas lendárias aventuras.

O ciclope
Na história, o ciclope Polifemo - um gigante que aprecia carne humana e, como é óbvio, tem apenas um olho no meio da cabeça - prende a tripulação de Ulisses e come alguns dos seus homens ao almoço. Ulisses cega Polifemo com uma lança aquecida e depois eles conseguem fugir, amarrados às barrigas das ovelhas de Polifemo.

Uma das hipóteses para a origem deste gigante mítico com um só olho encontra-se nos fósseis do Deinotherium giganteum, um parente do elefante que deambulou pela Europa, a Ásia e África há entre 23 e 8 milhões de anos. Paleontólogos desenterraram os seus ossos na ilha de Creta, onde os antigos gregos também os podem ter encontrado. Os crânios de elefante têm cavidades oculares relativamente pequenas, com um orifício enorme no centro. Esse orifício aloja a tromba. Contudo, uma vez que os elefantes alcançavam 4,6 metros à altura do ombro, o enorme crânio poderá ter sido confundido com a cabeça de uma pessoa gigante com um só olho.

No entanto, os gregos também poderiam estar familiarizados com a ciclopia, um defeito congénito raro e mortal, em que as órbitas oculares e o cérebro não se dividem da forma correcta durante o desenvolvimento do embrião humano. Em vez de um nariz, o feto desenvolve um apêndice tubular que aparece geralmente acima de um único olho. A ciclopia só ocorre uma vez em cada 100.000 nascimentos humanos. Infelizmente, 39 por cento são nados-mortos e os que resistem ao nascimento não sobrevivem mais do que 13 horas.

Embora seja uma condição muito rara, os cientistas estimaram que na época d’ A Odisseia, poderiam nascer cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além disso, outras espécies também podem padecer de ciclopia, incluindo ovelhas, vacas e cabras - sobretudo se as progenitoras ingerirem plantas como heléboro.

O monstro e o remoinho
Ulisses escapou a Polifemo de forma inteligente, mas uma vez encurralado entre o monstro marinho Cila, com as suas seis cabeças, e o poderoso remoinho Caríbdis, já não teve tanta sorte. Perdeu a sua tripulação numa tempestade intensa. Na manhã seguinte, Ulisses encontra-se entre os dois. Esta perigosa passagem baseia-se num sítio real – o Estreito de Messina, um canal estreito entre a Calábria, na península itálica, e a ilha da Sicília.

No estreito, o Mar Jónico encontra-se com o Mar Tirreno e os dois corpos de água têm marés opostas – a maré alta no Jónico é maré baixa no Tirreno e vice-versa, diz Sergio Longhitano, sedimentologista da Universidade de Basilicata, em Itália, que publicou um artigo sobre as águas traiçoeiras do estreito em 2018. Por isso, “no meio do Estreito de Messina, existe um ponto conhecido na oceanografia como ponto anfidrómico”, diz Longhitano, onde a altura da água nunca muda.

A altura pode nunca mudar, mas as correntes mudam, acelerando até uns estimados 5 metros por segundo quando há ventos fortes ou tempestades, diz Longhitano. As correntes rápidas e em constante mudança e as marés contrastantes formam padrões estranhos na água. “Por vezes, vêm-se as correntes divergentes”, diz Longhitano. As correntes mais fortes fluem em sentidos opostos, enquanto as mais pequenas puxam para dentro. Quando as correntes que puxam para dentro fluem na mesma direcção “ou quando as duas correntes convergem, pode haver remoinhos”, diz ele. As marés desta região mudam a cada seis horas, o que significa podem surgir remoinhos no estreito várias vezes por dia. Caríbdis está sempre à espera.

Quanto a Cila, o monstro de seis cabeças, existe “uma enorme falésia que pode ser vista à distância, sobretudo ao pôr do Sol. Conseguimos ver uma forma muito escura estendendo-se em direcção ao norte do Estreito de Messina”, explica Longhitano. Embora seja impossível conhecer a inspiração exacta de Homero, este pode ser um bom sítio para um monstro.

Os comedores de lótus
Alguns encontros d’ A Odisseia acarretam menos perigos, assemelhando-se mais a festas com drogas à disposição. Ao chegar a uma ilha, Ulisses envia batedores para conhecer os habitantes, mas eles são “comedores de lótus”, que partilham deliciosos frutos de “lótus”, pondo os tripulantes num transe que os leva a abandonar as suas tarefas.

Muitas pessoas pensam imediatamente em drogas viciantes como o ópio, mas os antigos gregos conheciam as papoilas e o ópio e não lhe chamavam lótus. Além disso, o ópio é mencionado especificamente na Odisseia, como “nepente”, uma droga que Helena de Tróia mistura com vinho para ajudar os gregos a esquecerem as suas adversidades.

O que era então o lótus? Numa análise efectuada em 2020, cientistas conseguiram identificar sete géneros diferentes de plantas às quais os antigos gregos chamavam “lótus”.

Algumas são os nenúfares que podemos descrever actualmente como flores de lótus, do género Nymphaea. Mas Homero diz que o “lótus dos Lotófagos” era uma árvore e autores posteriores como Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte de África, na região da cidade de Trípoli, na Líbia.

“Não conheço nenhum ‘lótus’ que cause perda de memória, diz Joe Schwarcz, químico da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Alguns historiadores supuseram que os gregos se referissem à jujubeira (ou tamareira-chinesa) como ‘lótus’.” Plantas arbustivas como a jujubeira pertencem ao género Ziziphus. As plantas deste género produzem um tipo jujuba que existe no norte de África. Este fruto não tem propriedades psicoactivas, mas pode ser fermentado e um golo de álcool é sempre bom para esquecer.

A bruxa que transformou homens em porcos
Noutra ilha, a bruxa Circe faz uma emboscada a Ulisses à a sua tripulação, causando-lhes mais problemas de memória. Fá-los beber uma poção com “drogas potentes que os fazem esquecer completamente o seu lar”. Ao beberem, os homens transformam-se em porcos. Ulisses vai libertá-los, auxiliado pelo deus Hermes, que colhe uma planta chamada moli, com raízes negras e flores brancas. Armado com a planta, Ulisses resiste à magia de Circe e salva os seus homens.

Seria necessária magia de verdade para transformar homens em porcos. Mas fazer homens acreditar que são porcos é muito mais fácil, diz Schwarcz. “Os antigos gregos conheciam certamente as plantas que tinham capacidades psicoactivas.” Plantas como a datura (Datura stromonium), frequentemente chamada figueira-do-inferno, e a beladona (Atropa belladonna) contêm compostos como atropina e escopolamina que bloqueiam os receptores de um mensageiro químico do cérebro chamado acetilcolina. “No cérebro, [este químico] participa na criação de memórias e o bloqueio da sua actividade causa alucinações e, possivelmente, delírios”, diz Schwarcz.

Quanto à “moli” que manteve Ulisses em segurança, “o antídoto para o envenenamento com atropina é a fisostigmina, que está presente no feijão-de-Calabar (Physostigma venenosum)”, diz Schwarcz. Num artigo publicado em 2022, Schwarcz também sugere que a flor branca de Ulisses pudesse ser Galanthus nivalis, que produz galantamina. Ambos os químicos bloqueiam a enzima que decompõe a acetilcolina, o que poderia aumentar os níveis do mensageiro químico. (Patologias como a doença de Alzheimer estão associadas a uma actividade reduzida da acetilcolina no cérebro e a galantamina e a fisostigmina foram ambas estudadas como tratamento.)

A Odisseia torna bem claro que as plantas podem ser remédios, mas também podem ser venenos. “A ideia mais enganadora talvez seja que “o natural é seguro” e “a natureza sabe o que faz”, diz Schwarcz.

E embora alguns dos encontros do poema épico possam ter uma base científica, um pouco de magia nunca fez mal a ninguém. É possível inventar monstros, os homens podem contar histórias sobre o submundo e as bruxas podem fazer venenos. “É apenas uma história. E numa história vale tudo”, diz Schwarcz. “As plantas podem transformar homens em porcos, embora algumas pessoas possam dizer que não são necessárias [plantas] para essa transformação.”


sábado, 9 de maio de 2026

Primeiros americanos: descoberta no Novo México recua povoamento em 23.000 anos


Durante décadas, os livros escolares afirmaram que os primeiros americanos chegaram há cerca de 13.000 anos. Contudo, pegadas fossilizadas descobertas no Parque Nacional de White Sands, no Novo México (EUA), acabam de deitar por terra essa cronologia. Os vestígios mais antigos têm quase 23.000 anos - e narram uma história de tirar o fôlego.

Cientistas utilizaram a datação por radiocarbono em sementes incrustadas nas pegadas para confirmar a sua idade milenar. Um dos trilhos mostra uma mulher, ou uma adolescente, a carregar uma criança ao colo, caminhando apressadamente sobre o leito lamacento de um antigo lago. Ela escorregou. Cansou-se. Pousou a criança por um momento. E depois continuou a avançar. 

Ao seu redor: lobos-terríveis (Aenocyon dirus) e tigres-dentes-de-sabre. Aquilo não era um passeio; era sobrevivência.

As pegadas estão tão bem preservadas que é possível distinguir os dedos dos pés da criança, a passada da mulher e até o local onde ela fez uma pausa. "Se alguma vez teve de correr para algum lugar importante enquanto carregava uma criança cansada, sentiu uma emoção muito semelhante", afirmou um dos investigadores. [toda a história aqui]

Naquele período, o continente atravessava o Último Máximo Glacial, uma fase marcada por um clima mais frio e pela presença de grandes carnívoros.

Esta descoberta no sul dos Estados Unidos reescreve, por completo, a história da presença humana na América do Norte.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Cientistas resolvem mistério sobre origem da vida complexa na Terra



Cientistas descobriram que os nossos antepassados microbianos usavam ambos oxigénio, resolvendo o mistério presente na teoria de que a vida complexa na Terra surgiu após a união de dois micróbios muito diferentes, foi esta quarta-feira divulgado.

O problema da teoria "mais amplamente aceite" para a evolução das "plantas, animais e fungos, conhecidos coletivamente como eucariotas" era não conseguir explicar como é que os dois micróbios estavam tão próximos para se unirem, quando um precisa de oxigénio para sobreviver e o outro era conhecido por viver em espaços sem este gás.

Estudo revela que antepassados "usam, ou pelo menos toleram, o oxigénio"
Segundo um estudo publicado na revista científica Nature, algumas arqueias Asgard, grupo de organismos do qual fazia parte um daqueles antepassados e que hoje em dia vivem sobretudo nas profundezas do mar e noutros espaços sem oxigénio, "usam, ou pelo menos toleram, o oxigénio".

"A maioria dos Asgards vivos de hoje foram encontrados em ambientes sem oxigénio", diz um dos autores do estudo, Brett Baker, professor associado de Ciências Marinhas e Biologia Integrativa na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, citado num comunicado de divulgação do estudo desta instituição.

"Mas aqueles que estão mais relacionados com os eucariotas vivem em locais com oxigénio, como sedimentos costeiros pouco profundos, flutuando na coluna de água, e têm muitas vias metabólicas que utilizam oxigénio. Isto sugere que o nosso antepassado eucariótico provavelmente também possuía estes processos", acrescenta.

Teoria de Baker diz que a vida evoluiu num ambiente rico em oxigénio
A mais recente descoberta da equipa de Baker, que investiga genomas de arqueias Asgard, descobrindo novas linhagens, expandindo a diversidade enzimática e explorando as suas vias metabólicas, dá mais credibilidade à ideia de que a vida complexa evoluiu como a teoria previa e aparentemente num ambiente rico em oxigénio.

De acordo com a ciência, até há cerca de 1,7 mil milhões de anos a atmosfera terrestre tinha muito pouco oxigénio, mas os níveis do gás aumentaram drasticamente durante o período conhecido como o Grande Evento de Oxidação e "algumas centenas de milhares de anos" depois "surgiram os primeiros microfósseis de eucariotas conhecidos", o que indica que a presença de oxigénio pode ter sido importante para a origem da vida complexa.

"O facto de alguns dos Asgardianos, que são os nossos antepassados, serem capazes de usar oxigénio encaixa muito bem nisso", adianta Baker.

"O oxigénio apareceu no ambiente e os Asgardianos adaptaram-se a ele. Descobriram uma vantagem energética na utilização de oxigénio e, então, evoluíram para eucariotas".

Para os cientistas, os eucariotas surgiram quando uma arqueia Asgardiana desenvolveu uma relação simbiótica com uma alfaproteobactéria e esta terá evoluído, tornando-se "uma organela produtora de energia dentro dos eucariotas, chamada mitocôndria".

A coautora Kathryn Appler, investigadora de pós-doutoramento no Instituto Pasteur, em Paris, França, destaca "o enorme esforço de sequenciação e a sobreposição de métodos de sequenciação e estruturais" realizados pelos cientistas e que permitiram" ver padrões que não eram visíveis antes desta expansão genómica."

Investigação começou com a extração de ADN de sedimentos marinhos em 2019
Segundo o comunicado, esta investigação resulta do trabalho de doutoramento de Appler no Instituto de Ciências Marinhas da Universidade do Texas, que começou com a extração de ADN de sedimentos marinhos em 2019.

A equipa da UT e os seus colaboradores reuniram mais de 13 mil novos genomas microbianos, tendo conseguido "centenas de novos genomas de Asgard" e "quase duplicando a diversidade genética" do grupo que era conhecida.

Com base em semelhanças e diferenças genéticas, os cientistas construíram uma árvore da vida alargada das arqueias de Asgard, tendo os novos genomas permitido também descobrir novos grupos de proteínas, "duplicando o número de classes enzimáticas conhecidas".

De seguida, analisaram a Heimdallarchaeia e compararam as proteínas que produz com proteínas eucarióticas envolvidas no metabolismo energético e do oxigénio. Usando um modelo de inteligência artificial chamado AlphaFold2, previram como estas proteínas se dobram em formas tridimensionais. As formas, ou estruturas, das proteínas determinam o seu funcionamento. Os resultados mostraram que várias proteínas produzidas pela Heimdallarchaeia se assemelham muito às utilizadas pelos eucariotas para o metabolismo energético eficiente baseado no oxigénio.

Os ex-investigadores da UT Xianzhe Gong (atualmente na Universidade de Shandong, na China), Pedro Leão (agora na Universidade Radboud, Países Baixos), Marguerite Langwig (agora na Universidade de Wisconsin-Madison, Estados Unidos) e Valerie De Anda (atualmente na Universidade de Viena, Áustria) são outros autores do estudo.

sábado, 28 de junho de 2025

Teilhard de Chardin, a síntese e a totalidade cósmica


Pierre Teilhard de Chardin nasceu em Orcines, França, em 1881 e morreu em 1955 nos Estados Unidos da América. Padre jesuíta e paleontólogo, estudou na Sorbonne e ensinou em Paris mas em 1922 é enviado para a China, certamente também pela inconveniência dos seus escritos, principalmente em relação ao pecado original. As suas ideias foram proibidas de ensinar nos institutos católicos mas a sua obra e influência pós-morte é notável, sendo reconhecidamente influenciador do Concílio Vaticano II. Foi reabilitado pelos papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

Precisamente por não ser um verticalizante teólogo, filósofo ou cientista, mas um mestre na síntese horizontal destes vetores, Chardin é um autor incontornável. Se somarmos a sua argúcia e ousadia extrema (para a época em que escreveu) ao seu ser místico, estamos diante de alguém crucial e muito relevante na Igreja mas, em certo sentido, difícil de acompanhar.

O meu amigo P. Alfredo Dinis sj, com quem fiz muito caminho nestas temáticas e a quem presto aqui homenagem, decidiu, nos últimos tempos da sua vida, reler toda a obra de Chardin. Já com a voz caída mas de sorriso alargado e cheio de honestidade, dizia-me: “João, está lá tudo!” (na obra de Chardin, bem entendido…). Estas palavras do Alfredo, porque as sinto na mente e no coração, dão bem conta do potencial deste autor e místico do século passado.

A amplitude da obra e daquilo que está também por interiorizar na vida Cristã, tornam quase ridículo um artigo de poucas linhas sobre alguns dos seus horizontes. Consciente da largueza do que representa Chardin, permito-me um ligeiro alinhamento, quase telegráfico, de algumas ideias fortes do seu pensamento. Reproduzo aqui aquilo que tem vindo a ser mais relevante para mim, já perpassado pela subjetividade de uma leitura necessariamente pessoal. Recomendo, para aprofundamentos ulteriores, as suas vastas obras e/ou os trabalhos de associações à volta desta figura ilustre (ver, por exemplo: Associação dos Amigos de Pierre Teilhard de Chardin em Portugal ).

1- Chardin pode ser sintetizado na ideia charneira de um Deus que cria evolutivamente ou que evolui criativamente… Compreende-se porque o chamaram (e perseguiram como) panteísta: o Universo é divinizador, divinizante e divinizável. Ele próprio quis reabilitar um certo “panteísmo cristão”, sublinhando que o Deus revelado em Jesus Cristo, não se confundido com a natureza, nela está radical e evolutivamente “empapado” (palavras minhas): Deus criou e está a criar o Cosmos, para que o Cosmos, incluindo-nos, seja! As suas referencias a um “Cristo cósmico” são o resultado de uma osmose positiva no alinhamento: antropogénese, cosmogénese, biogénese, cristogénese.

2- Chardin rejeita o tomismo da substância ser “o crucial”. A este substancialismo, propõe-nos uma alternativa a que poderíamos chamar relacionista-evolutiva: incorpora-se o tempo, a mudança e a relação como constituintes de Deus e dos homens.

3- Chardin talvez seja um filósofo da globalização. A sua fidelidade à terra (curiosamente uma expressão de Nietzsche) coloca no centro a unidade evolutiva entre o Cosmos e a consciência da humanidade tomada na sua unidade. A evolução, para ter sentido, tem de fazer convergir e o amor é a força-impulso deste movimento.

4- São de Chardin as ideias de que o Deus do ‘em frente’ supera o Deus do ‘em cima’. Sem prejuízo da transcendência, enfatiza-se uma horizontalidade muito humana (e Cristã, diria eu) e que nos convida a evitar os moralismos.

5- Chardin teve um forte investimento na reteologização do pecado original. Mais do que uma falha em certo instante da história, o pecado original é evolutivamente constitutivo. Relaciona-se com o mau uso da liberdade humana, amorosamente “arriscada” por Deus, querendo dizer principalmente que a criação acarreta falta, fragilidade intrínseca e custo. De arrasto com o problema do pecado original, Chardin dá subsídios novos para rever teologicamente o mal e a cruz, assim tomados no seu dinamismo evolutivo e, crucialmente, tonificados por uma vida que valha a pena viver. Podemos dizer que com Chardin se pode abrir uma visão menos “pessimista” do pecado original, não esquecendo nunca o contexto de um Deus que “viu que era Bom”…

6- Desconheço sínteses mais libertadoras sobre a complexa tensão entre a totalidade e a singularidade do que a obra, em si mesmo, de Chardin. Diz ele: “A preocupação com o Todo tem as suas raízes no fundo mais secreto do nosso ser. Por necessidade intelectual – por carência afectiva – por impressão direta, quiçá, do Universo, somos essencialmente levados, a cada instante, à consideração do Mundo, tomado na sua totalidade”. É verdade que Cristo, é, Ele mesmo, para nós e para Chardin, esta mesma síntese.

7- Chardin teve também rejeições da comunidade científica (não apenas do lado religioso, portanto). Compreende-se tal pois o seu lado místico cria ruído cognitivo a quem está do lado de fora da fé. Embora Chardin tente uma lucidez e uma linguagem universais, é certo que será preciso ter fé para entender Chardin (mais do que conhecer Chardin para ter fé). Mas será que não precisamos de fé para entender “por dentro” seja o que for?…

8- Juan González de Arintero, no final do século XIX, afirmava que havia que fazer com a teoria da evolução de Charles Darwin o que Tomás de Aquino fez com Aristóteles. Chardin, para mim, foi o obreiro desse trabalho. À boa maneira chardiana, reformulo: “Chardin está a ser o obreiro desse trabalho”… pois que, da sua obra, há muito ainda para compreender, extrair e incorporar na vida dos Cristãos!

sexta-feira, 28 de março de 2025

Teilhard de Chardin, uma das figuras mais fascinantes do século XX

Por José Tolentino de Mendonça

Pierre Teilhard de Chardin é uma das figuras mais fascinantes e complexas do pensamento do século XX. Sua obra, que se encontra na intersecção entre ciência, teologia e filosofia, representa uma tentativa ousada de integrar a evolução cósmica com uma visão espiritual do universo. Em sua vida e em seus escritos, surge uma síntese original que desafia as dicotomias tradicionais entre fé e razão, natureza e espírito, tempo e eternidade. Este volume se propõe a explorar o pensamento de Teilhard em profundidade, oferecendo uma perspectiva penetrante sobre seu legado intelectual e espiritual.

Mercè Prats, professora e documentarista da Fondation Teilhard de Chardin, é conhecida pelos acadêmicos por ter conseguido reconstruir a circulação clandestina dos escritos do pensador jesuíta francês. Ela consultou arquivos até então inacessíveis, reconstruindo a transmissão em estilo cíclico de seus textos. Esses escritos, que frequentemente apresentavam perspectivas teológicas inovadoras e, às vezes, controversas, foram copiados e distribuídos de forma privada durante décadas, alimentando uma rede de leitores e apoiadores.

O que torna este volume particularmente original em comparação com outros estudos sobre Teilhard de Chardin é também a abordagem inovadora e interdisciplinar adotada pela autora. Prats não apenas examina as ideias de Teilhard em seu contexto histórico e filosófico, mas também as relê à luz dos desafios do mundo contemporâneo. Essa capacidade de dialogar com questões atuais, como a crise ecológica, a globalização e a busca de significado espiritual na era tecnológica, confere ao seu trabalho uma relevância e um frescor extraordinários.

Outra característica distintiva do texto de Prats é sua capacidade de tornar conceitos complexos do Teilhardi acessíveis a um público amplo. Por meio de um estilo claro e envolvente, a autora consegue traduzir as profundas intuições de Teilhard numa linguagem compreensível sem sacrificar a sua profundidade.

Teilhard de Chardin foi um jesuíta, um paleontólogo e um místico. Sua vida foi marcada por uma busca incessante de significado, alimentada tanto pela observação científica quanto pela contemplação espiritual. Nascido em 1881 na França, ele cresceu num ambiente rico em estímulos culturais e espirituais. Sua formação jesuíta lhe proporcionou uma sólida base teológica, enquanto seu trabalho como cientista o colocou frente a frente com as grandes questões da evolução e da natureza do homem. A fé e a ciência moldaram o seu pensamento, que se distingue por sua capacidade de integrar diferentes perspectivas em uma visão de mundo unificada.

O ponto central do pensamento de Teilhard é a ideia de que o universo está evoluindo constantemente em direção a uma maior complexidade e a uma consciência mais profunda. Essa “teologia da evolução”, como foi frequentemente chamada, é uma de suas percepções mais originais e provocativas. Para Teilhard, a evolução não é simplesmente um processo biológico, mas um movimento cósmico que envolve toda a criação. O universo, em sua visão, é animado por uma força interna que o conduz ao ponto ômega, um termo cunhado por Teilhard para denotar o ápice da evolução, onde a consciência humana e a divina se unem em harmonia.

O pensamento de Teilhard – como Mercè Prats ilustra muito bem – provocou muitos debates, tanto na comunidade científica quanto no âmbito teológico. Por um lado, sua visão da evolução como um processo intrinsecamente orientado para o transcendente levantou questões sobre a compatibilidade de suas ideias com a teoria darwiniana. Por outro lado, sua ousadia em reinterpretar a fé católica à luz das descobertas científicas provocou reações contrastantes dentro da Igreja. Apesar das controvérsias, ou talvez por causa delas, o seu pensamento continua exercendo uma profunda influência, inspirando novas gerações de pensadores e fiéis.

O Papa Francisco recordou a figura de Teilhard em setembro de 2023, durante sua viagem à Mongólia, no vizinho deserto de Ordos, exatamente onde, cem anos antes, o jesuíta rezou sua famosa “Missa sobre o mundo”. Francisco pronunciou as palavras dessa oração e depois disse: “Esse padre, muitas vezes incompreendido, intuiu que ‘a Eucaristia é sempre celebrada, em certo sentido, no altar do mundo’ e é ‘o centro vital do universo, o centro transbordante de amor e de vida inesgotável’, mesmo em uma época como a nossa, de tensões e de guerras”. Dessa forma, Francisco quis comemorar e enaltecer a figura desse pensador cristão a quem o então Santo Ofício impôs um Monitum em 1962, mas que também foi citado por vários Pontífices ao longo do tempo.

Um aspecto particularmente significativo do pensamento de Teilhard, que Prats explora com grande sensibilidade, é seu profundo otimismo. Numa época em que o progresso é frequentemente associado a riscos e perigos, Teilhard nos convida a ver a evolução não apenas como uma fonte de conflito, mas também como uma oportunidade de crescer como espécie e como indivíduos. Seu otimismo não é ingênuo, mas está radicado em uma profunda confiança na capacidade do homem de colaborar com as forças criativas do universo.

Outra contribuição significativa de Teilhard é sua reflexão sobre o amor como uma força cósmica. Para Teilhard, o amor não é apenas um sentimento ou uma virtude moral, mas uma força fundamental que guia a evolução em direção a uma maior união e complexidade. Esse aspecto de seu pensamento, que Prats desenvolve com grande profundidade, oferece uma nova perspectiva sobre a natureza do amor e seu papel em nossa vida pessoal e coletiva.

O volume de Mercè Prats é uma contribuição importante não apenas para os estudiosos de Teilhard de Chardin, mas também para qualquer pessoa interessada em refletir sobre as grandes questões da existência. A capacidade da autora de tornar conceitos complexos acessíveis e de entrelaçar o pensamento de Teilhard com os desafios de nosso tempo faz deste livro uma leitura desafiadora, porém importante.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

A história da relação entre os humanos e os cetáceos (baleias, golfinhos e toninhas) em Portugal


Um estudo inovador, recentemente publicado na prestigiada revista científica PLOS ONE, lança uma nova perspectiva sobre a história da relação entre os humanos e os cetáceos (baleias, golfinhos e toninhas) em Portugal, graças ao trabalho de especialistas de diversas instituições europeias, incluindo investigadores do Centro de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (UNIARQ).

A investigação, liderada por Mariana Nabais do IPHES-CERCA (Tarragona, Espanha), contou com a participação da UNIARQ, que contribuiu na escavação e análise de vestígios arqueológicos, fundamentais para a identificação da cronologia das descobertas e para a interpretação do papel dos cetáceos no quotidiano das antigas sociedades portuguesas. “As nossas descobertas revelam uma ligação humana de longa data com os cetáceos, desde o aproveitamento oportunista de animais encalhados no Paleolítico até à pesca baleeira organizada em períodos posteriores”, explica a responsável. “Estas descobertas desafiam a visão simplista das sociedades interiores portuguesas antigas como exclusivamente dependentes de recursos terrestres”.

Esta investigação, para além de enriquecer a informação existente sobre a vida antiga em Portugal, oferece dados muito interessantes sobre a ecologia histórica do país, destacando os impactos duradouros da pesca baleeira nas populações marinhas, tais como a baleia-franca-do-atlântico-norte, actualmente extinta nas águas portuguesas.

A colaboração entre a UNIARQ e parceiros internacionais, como o Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA) e a Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU) reforça a importância da cooperação internacional na descoberta e interpretação da relação complexa entre humanos e ecossistemas marinhos ao longo do tempo.

Este trabalho sublinha o compromisso da UNIARQ em aliar métodos de investigação tradicionais a tecnologias de ponta, contribuindo para um entendimento mais profundo da história.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

O manto da Terra pode revelar as origens da vida


Investigadores descobriram a amostra mais profunda de rocha marinha alguma vez extraída do manto terrestre que poderá ajudar a revelar as condições no início da vida.

O fragmento de rocha foi extraído da Crista Média Atlântica por uma equipa internacional no navio de perfuração JOIDES Resolution e está a ser analisado pelo Professor Gordon Southam da Universidade de Queensland.

”A amostra foi recolhida durante uma expedição do Projeto Internacional Ocean Discovery que conseguiu, pela primeira vez, perfurar 1.268 metros abaixo do fundo do mar em rochas do manto”, disse o Professor Southam.

“É um trabalho incrível, uma vez que as perfurações anteriores neste tipo específico de rocha – peridotito oceânico – só tinham atingido uma profundidade máxima de 201 metros”, sublinhou.

“Estas amostras ajudarão a melhorar a nossa compreensão das ligações entre a geologia da Terra, a química da água, os gases e a microbiologia”, revelou, explicando que “sempre que os perfuradores recuperavam outra secção do núcleo profundo, recolhíamos amostras para cultivar bactérias”.

“Utilizaremos estas amostras para investigar os limites da vida neste ecossistema marinho de subsuperfície profunda, melhorando a nossa compreensão das suas origens e ajudando a definir o potencial de vida para além da Terra”, acrescentou.

Para compreender o percurso da vida na Terra, os investigadores vão analisar a forma como a olivina, um mineral abundante nas rochas do manto, reage com a água do mar, conduzindo a uma série de reacções químicas que produzem hidrogénio e outras moléculas que podem alimentar a vida.

A equipa prepara-se agora para analisar o teor de níquel do núcleo.

“O níquel é necessário para a hidrogenase, a enzima chave que permite que estas bactérias antigas utilizem o hidrogénio nestes ambientes extremos, pelo que estamos atualmente a seguir o seu percurso através da rocha do manto”, disse o Professor Southam.

Os minerais descobertos serão examinados utilizando microscópios eletrónicos no Centro de Microscopia e Microanálise da UQ e o Microscópio Fluorescente de Raios X da ANSTO no Sincrotrão Australiano, para melhor compreender o efeito da circulação da água do mar na carbonatação dos minerais.

Esta investigação é essencial para o trabalho do Professor Southam como líder do Grupo de Geomicrobiologia da UQ.

“Estamos a investigar o papel da microbiologia na transformação do dióxido de carbono em minerais de carbonato estáveis e a forma como podemos reduzir as concentrações de gases com efeito de estufa na atmosfera”, explicou.

Para além de analisar a vida primitiva e melhores formas de sequestrar carbono, os resultados da expedição poderão também ter implicações importantes para a compreensão da formação do magma e do vulcanismo.

“Há descobertas espantosas ainda por descobrir nas profundezas da Terra e os dados desta expedição são apenas o começo”, disse o Professor Southam.

“Os resultados serão tornados públicos, pelo que esperamos que outros cientistas e entusiastas possam contribuir com as suas descobertas sobre o funcionamento do nosso mundo”, concluiu.

A investigação foi publicada na revista Science.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Nature’s Warning: Early Signs in Marine Life Predicting the Next Mass Extinction


A study using foraminifera fossils suggests that shifts in marine community structures can predict future extinctions, highlighting the role of historical data in forecasting climate change impacts on biodiversity.

For hundreds of millions of years, single-celled organisms known as foraminifera, which are microscopic and hard-shelled, have thrived in the oceans. These tiny creatures form the foundation of the food chain. The fossils of these ancient organisms provide insights into potential shifts in global biodiversity linked to our warming climate.

Using a high-resolution global dataset of planktonic foraminifera fossils that are among the richest biological archives available to science, researchers have found that major environmental stress events leading to mass extinctions are reliably preceded by subtle changes in how a biological community is composed, acting as a pre-extinction early warning signal.

The results are in Nature, co-led by Anshuman Swain, a Junior Fellow in the Harvard Society of Fellows, a researcher in the Department of Organismic and Evolutionary Biology, and an affiliate of the Museum of Comparative Zoology. A physicist by training who applies networks to biological and paleontological data, Swain teamed with co-first author Adam Woodhouse at the University of Bristol to probe the global, community structure of ancient marine plankton that could serve as an early warning system for future extinction of ocean life.

“Can we leverage the past to understand what might happen in the future, in the context of global change?” said Swain, who previously co-authored a study about the formation of polar ice caps driving changes in marine plankton communities over the last 15 million years. “Our work offers new insight into how biodiversity responds spatially to global changes in climate, especially during intervals of global warmth, which are relevant to future warming projections.”

Leveraging Historical Data for Future Predictions
The researchers used the Triton database, developed by Woodhouse, to ascertain how the composition of foraminifera communities changed over millions of years – orders of magnitude longer time spans than are typically studied at this scale. They focused on the Early Eocene Climatic Optimum, the last major period of sustained high global temperatures since the dinosaurs, analogous to worst-case global warming scenarios.

They found that, before an extinction pulse of 34 million years ago, marine communities became highly specialized everywhere but southern high latitudes, implying that these micro-plankton migrated en masse to higher latitudes and away from the tropics. This finding indicates that community-scale changes like the ones seen in these migration patterns are evident in fossil records long before actual extinctions and losses in biodiversity occur.

The researchers thus think it’s important to place emphasis on monitoring the structure of biological communities to predict future extinctions.

According to Swain, the results from the foraminifera studies open avenues of inquiry into other organismal groups, including other marine life, sharks, and insects. Such studies may spark a revolution in an emerging field called paleoinformatics, or use large spatiotemporally resolved databases of fossil records to glean new insights into the future of Earth.

Reference: “Biogeographic response of marine plankton to Cenozoic environmental changes” by Anshuman Swain, Adam Woodhouse, William F. Fagan, Andrew J. Fraass and Christopher M. Lowery, 17 April 2024, Nature.

terça-feira, 11 de junho de 2024

Uma equação universal pode prever frequência de batimento de asas de aves, insetos, morcegos e até baleias



Uma única equação universal pode aproximar a frequência dos batimentos das asas e das barbatanas das aves, insetos, morcegos e baleias, apesar dos diferentes tamanhos do corpo e formas das asas, segundo um novo estudo de Jens Højgaard Jensen e colegas da Universidade de Roskilde, na Dinamarca, publicado na revista PLOS ONE.

A capacidade de voar evoluiu de forma independente em muitos grupos de animais diferentes. Para minimizar a energia necessária para voar, os biólogos esperam que a frequência com que os animais batem as asas seja determinada pela frequência de ressonância natural da asa.

No entanto, tem sido difícil encontrar uma descrição matemática universal para o voo. Os investigadores utilizaram a análise dimensional para calcular uma equação que descreve a frequência dos batimentos das asas de aves voadoras, insetos e morcegos, e os batimentos das barbatanas de animais mergulhadores, incluindo pinguins e baleias.

Descobriram que os animais voadores e mergulhadores batem as suas asas ou barbatanas com uma frequência que é proporcional à raiz quadrada da sua massa corporal, dividida pela área da asa. Testaram a exatidão da equação comparando as suas previsões com dados publicados sobre as frequências de batimento das asas de abelhas, traças, libélulas, escaravelhos, mosquitos, morcegos e aves de vários tamanhos, desde beija-flores a cisnes.

Os investigadores também compararam as previsões da equação com dados publicados sobre as frequências de batimentos das barbatanas dos pinguins e de várias espécies de baleias, incluindo as jubartes e os roazes do norte.

A relação entre a massa corporal, a área da asa e a frequência dos batimentos das asas mostra pouca variação entre os animais voadores e mergulhadores, apesar das enormes diferenças no tamanho do corpo, na forma da asa e na história evolutiva, concluíram. Finalmente, estimaram que um pterossauro extinto (Quetzalcoatlus northropi) – o maior animal voador conhecido – batia as suas asas de 10 metros quadrados a uma frequência de 0,7 hertz.

O estudo mostra que, apesar das enormes diferenças físicas, animais tão distintos como as borboletas e os morcegos desenvolveram uma relação relativamente constante entre a massa corporal, a área da asa e a frequência dos batimentos das asas.

Os investigadores referem que, no caso dos animais nadadores, não encontraram publicações com toda a informação necessária; os dados de diferentes publicações foram reunidos para fazer comparações e, nalguns casos, a densidade dos animais foi estimada com base noutras informações.

Além disso, os animais extremamente pequenos – mais pequenos do que qualquer outro ainda descoberto – provavelmente não se encaixariam na equação, porque a física da dinâmica dos fluidos muda a uma escala tão pequena. Este facto poderá ter implicações no futuro para os voadores. Os autores afirmam que a equação é a explicação matemática mais simples que descreve com exatidão o bater das asas e das barbatanas em todo o reino animal.

Os autores concluem: “Com uma diferença de quase um fator de 10.000 na frequência dos batimentos das asas e das barbatanas, os dados relativos a 414 animais, desde a baleia azul até aos mosquitos, situam-se na mesma linha. Como físicos, ficámos surpreendidos ao ver como a nossa simples previsão da fórmula do batimento das asas funciona para uma coleção tão diversa de animais”.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Ideia peregrina- bisontes europeus em Portugal


Texto de Luís Vicente, Biólogo

Esta vai ser longa porque me tirou do sério.
Por definição, uma ideia peregrina é uma solução ou proposta muito estranha ou desadequada.
Tento traduzir para inglês e o melhor que consigo é “a peculiar form of madness”.
Acho que serve!
Pode haver ideias peregrinas inofensivas (pelo menos para a comunidade) e que só afectam o idiota. Confesso que pensei que “idiota” poderia ser uma pessoa com ideias. Contudo, consultados os dicionários, concluo que o termo se aplica apenas a quem denota estupidez. Pronto. Em inglês poderia ser “jerk” ou “asshole”.
E até existem os Prémios Darwin para essas pessoas.
Para quem não sabe, os Prémios Darwin sãoatribuídos àqueles que cometem erros tão estúpidos que levam à incapacidade de legar aos seus descendentes as suas características, dessa forma contribuindo para melhorar o pool genético da humanidade e para a diminuição da estupidez.
Uma ideia peregrina inofensiva para a humanidade é, por exemplo, um tipo atirar-se do Cabo Girão acreditando que consegue voar. Só o afecta a ele e talvez entristeça os que lhe são mais próximos.
Eu também já tive ideias peregrinas. Recordo-me de, ainda no liceu, tomar anfetaminas para um exame. Era um exame escrito, de História. Creio que nunca escrevi tanto na vida e... chumbei... os disparates foram mais do que muitos.
Mas há as ideias peregrinas perigosas e que nos põem a todos em perigo.
As ideias peregrinas perigosas geram confusões e calafrios. Vêm de gente que, afirmando-se cientistas, desconhecem as diferenças entre ciência básica, ciência aplicada, técnica e indústria.
Não submetem as suas especulações a qualquer prova, são dogmáticos, negam a crítica, utilizam argumentos “ad hominem” e “ad verecundiam” em vez de argumentos honestos. É, por exemplo, afirmar que a sua teoria (pobre teoria), se baseia no “estudo de uma universidade!” Poderíamos dizer que vendem “gato por lebre”!
E os incautos caiem na esparrela.
Mas atenção, as ideias peregrinas podem ser muito perigosas quando, com argumentos pseudocientíficos, são postas em prática. O estalinismo e o nazismo foram pródigos nestas coisas.
Confunde-se ciência com pseudociência… e no fim actuam com base em nada.
Recordo-me, há uns anos, do extermínio de ratos e coelhos na Berlenga... com base em nada.
Agora tornam-se moda as introduções, ou reintroduções.
A notícia fantástica, segundo o DN (e passo a citar): “A primeira manada de bisontes europeus, constituída por oito animais, foi instalada em Portugal, numa herdade em Castelo Branco, anunciou hoje a organização responsável pela operação. De acordo com a Rewilding Portugal, a presença dos animais vai estimular a biodiversidade e apoiar o crescimento do turismo de natureza”.
Fiquei boquiaberto... com base em quê?
Uma reintrodução? Não! Não há registos fósseis de bisonte europeu (Bison bonasus) no nosso território. O que terá ocorrido por aqui terá sido o bisonte-da-estepe (Bison priscus), provavelmente um antepassado do Bison bonascus. Há uma imagem lindíssima nas paredes de Altamira.
Mas terão os promotores do projecto reflectido sobre a extinção aqui do bisonte-da-estepe após o pleniglaciar de Würm? Talvez valesse a pena.
E introduz-se assim à Lagardère?
[A expressão “à Lagardère” é utilizada quando alguém faz algo com atrevimento, mas sem medir bem as consequências. Esta expressão refere-se a Lagardère, herói da obra de Paul Féval intitulada Le Bossu (O Corcunda) e publicada em França em 1858.]
Na mesma lógica do Rewilding Portugal (nome da entidade responsável pela ideia peregrina) poderíamos pensar noutras introduções ou reintroduções com vista ao turismo ou a uma pseudo-conservação da Natureza.
No Plistocénico havia por aqui Mamutes (Mammuthus primigenius) os quais, como os elefantes actuais pertencem à família Elephantidae incluída nos proboscídeos. Cá por mim proponho o Elefante-da-floresta (Loxodonta cyclotis), talvez nas zonas de olival intensivo do Baixo Alentejo. Que turístico seria ir vê-los a chafurdar nas margens do Alqueva. Como já houve hienas por aqui, como a Hiena-das-cavernas (Crocuta crocuta spelaea), porque não, no meio dos rebanhos da Serra da Estrela introduzir Hiena-malhada (Crocuta crocuta)? A diferença é apenas subespecífica (interrogo-me sobre se os promotores do Rewilding Portugal serão capazes de me explicar, à luz do Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, o que é uma sub-espécie).
E obviamente há mais. Para a Mata da Margaraça mandava Rinocerontes. Há registos fósseis do género Dicerorhinus na nossa península. Talvez aquela malta do sul da Ásia queira negociar connosco a venda de alguns Rinocerontes-de-Sumatra (Dicerorhinus sumatrensis). Que giro seria levar os turistas à Fraga da Pena para se deliciarem com os rinocerontes.
E tantos mais. Também há registos fósseis de leões e leopardos por aqui. Porque não? E crocodilos no Douro? Os fósseis também existem.
Mas falemos mais a sério. Será que as gentes do Rewilding Portugal sabem alguma coisa sobre evolução ou sobre ecologia? Sabem o que é um ecossistema? Sabem o que são zonas adaptativas? Terão algumas noções sobre nicho ecológico? Não me parece, mas talvez não lhes fizesse mal estudar.
De acordo com a Rewilding Portugal, a presença dos animais vai estimular a biodiversidade e apoiar o crescimento do turismo de natureza.
Saberão o que é biodiversidade? Saberão medi-la? Saberão que grande parte da nossa biodiversidade depende dos extratos herbáceo e arbustivo. Micromamíferos, aves, anfíbios, répteis, insectos, muitos polinizadores?
Saberão que os riscos de incêndio resultam, maioritariamente, de desordenamento do território e de péssimas políticas florestais, em particular na região mediterrânica onde os fogos são recorrentes?
Dizem eles: “Como grandes herbívoros, os animais diminuirão o risco de incêndios catastróficos, ao reduzirem a vegetação inflamável e criando corta-fogos naturais, enquanto abrem áreas florestais, o que permite a entrada de mais luz e o crescimento de erva em vez de mato”. Só uma perguntinha de biólogo, o que é “mato”?
Chegam a dizer que os bisontes são sequestradores de carbono e emissores de metano... fantástico. Afinal sempre vamos cumprir as metas da descarbonização! Isso é bom?
Bom, perdi a paciência. Já descarreguei.
Poderia escrever tanto aqui que todos perderiam a paciência de ler o meu texto.
Vivam as ideias peregrinas!!!
E fica uma pergunta: quem lucra com elas?

domingo, 2 de junho de 2024

Descobertos fósseis que podem ter sido dos maiores animais do mundo


Entre 1976 e 1990 foram descobertos restos fósseis que pertencem a três novos ictiossauros na Formação Kössen, nos Alpes Suíços. Os paleontólogos encontraram um dente que acreditam ser o maior de que há registo, com uma largura duas vezes maior do que qualquer réptil aquático conhecido. Além disso, encontraram também a maior vértebra de tronco da Europa, que pertencia a um ictossauro, e que compete com o maior fóssil de réptil marinho descoberto até hoje – um da espécie Shastasaurus sikkanniensis, com 21 metros de comprimento. O grupo acredita, por isso, que estes fósseis desenterrados na Suíça podem pertencer aos maiores animais que já viveram no Planeta.

“Talvez existam mais restos das gigantes criaturas marinhas escondidas debaixo das geleiras”, sugere Martin Sander, principal autor do estudo. “Haviam apenas três grupos de animais que tinham massas superiores a 10-20 toneladas métricas: dinossauros de pescoço longo (saurópodes); baleias; e os ictiossauros gigantes do Triássico”, explica.

Os ictiossauros surgiram na Terra há cerca de 250 milhões de anos atrás, e atingiram a sua maior diversidade no Triássico Médio, tendo ainda algumas persistido durante o período Cretáceo. O seu corpo era idêntico ao das baleias, e o focinho muito parecido ao dos golfinhos.

Os espéciemes gigantes foram encontrados principalmente na América do Norte, mas também nos Himalaias e na Nova Caledónia. Contudo, esta descoberta confirma a expansão dos mesmos, que era ainda desconhecida.

“Em Nevada, vemos o início dos verdadeiros gigantes, e nos Alpes, o fim. Apenas os golfinhos de médio a grande porte – e com formas semelhantes às orcas sobreviveram no Jurássico”, afirma Martin Sander.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Petição Criação da Ordem dos Geólogos (2024)

Para: Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República

Os geólogos são profissionais com formação superior específica no vasto domínio da geologia, debruçando-se, nomeadamente, no estudo do solo, do subsolo, dos processos geológicos ativos e daqueles que ocorreram ao longo da história da Terra. Atuam, igualmente, no âmbito do ordenamento e planeamento do território, na exploração e gestão sustentável dos recursos naturais, e na prevenção e mitigação dos riscos geológicos. O desempenho da profissão de geólogo está dependente do conhecimento geológico do território, sendo este de importância estratégica para o desenvolvimento socioeconómico do país. Estes profissionais contribuem para a obtenção de soluções sustentáveis para muitos dos grandes problemas sociais, económicos e ambientais que a Sociedade enfrenta, tais como as mudanças climáticas, a transição energética, a escassez hídrica e o declínio dos ecossistemas.

A profissão de geólogo tornou-se, nas últimas décadas, complexa e muito diversificada devido à sua ligação com outras profissões numa grande variedade de domínios de atividade, nomeadamente, nos sectores das indústrias de construção, extrativa e energética, do ordenamento do território, da gestão ambiental, bem como da prestação de serviços especializados ao Estado e às empresas. Atua, ainda, nos setores da proteção ambiental e societal. Ou seja, o geólogo é um especialista com um olhar único na proteção e gestão sustentável do nexo solo-água-energia-alimentos-património, tão destacado, por exemplo, pela ONU – Organização das Nações Unidas, FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, e UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Tem, também, um papel determinante na dinamização da geologia espacial dos programas da AEP - Agência Espacial Portuguesa, ESA – Agência Espacial Europeia e NASA - Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Estados Unidos da América).

Neste quadro complexo, mas desafiante, os geólogos defendem a necessidade da criação de uma associação pública profissional, assentando esta aspiração em quatro pontos fundamentais:

1) A necessidade de uma cabal regulação da profissão, visando definir os requisitos e as qualificações profissionais, o âmbito da profissão e a exigência dos respetivos atos profissionais, levando à atribuição de uma certificação através de uma cédula profissional, elevando assim os mais exigentes padrões na prática do geólogo profissional englobando todos os princípios éticos e de probidade técnica que acarretam;

2) A necessidade de dispor de um código de princípios deontológicos e de dispositivos jurídico-disciplinares adequados à defesa da independência do julgamento profissional;

3) A necessidade de criar condições que permitam o reconhecimento das qualificações e requisitos profissionais em condições de reciprocidade com instituições homólogas nacionais e estrangeiras, visando garantir o exercício da atividade profissional dos geólogos portugueses dentro e fora do espaço europeu;

4) A verificação do cumprimento de requisitos profissionais deve ser confiada aos próprios geólogos constituídos em associação pública profissional, dado que, face à atual complexidade desta atividade profissional, estão mais bem apetrechados para a realizar, compatibilizando a liberdade de acesso e de exercício da profissão, e a ponderação do interesse público.

A estreita relação entre a natureza da profissão e o interesse público emerge com clareza do simples enunciado de algumas das áreas mais paradigmáticas da intervenção profissional dos geólogos:

a) Planeamento territorial e georrecursos: estudos de cartografia geológica sistemática do país, realizada a várias escalas, implementação e gestão de bases de dados digitais da cartografia geológica, dos recursos geológicos, hidrogeológicos e geotérmicos, entre outros. Apoio à execução de cartografia temática e com fins diversos que incluem uma perspetiva agronómica, agrícola, geotécnica, hidrológica, territorial e de risco natural/geológico. De facto, o território é um agente de transformação a ser conhecido e gerido de uma forma ambientalmente sustentável e de interligação com todos os agentes envolvidos, incluindo as comunidades e os ecossistemas;

b) Riscos naturais, segurança e proteção civil: previsão e prevenção de riscos naturais visando a minimização dos desastres, a proteção da vida humana e a limitação de danos (identificação das falhas sísmicas e zonamento do perigo sísmico das regiões e dos sítios, contribuição na engenharia sísmica geotécnica, monitorização da atividade vulcânica, controlo da erosão, da estabilidade de taludes, das encostas e das arribas de praia ou adjacentes a outros espaços públicos, entre outros);

c) Análise de riscos na construção e economia das grandes obras: estudo e avaliação das condições geológico-geotécnicas para o projeto e construção das grandes obras de engenharia e identificação dos riscos financeiros, bem como de problemas de desempenho induzidos por causas geológicas (a derrapagem do custo final das grandes obras está frequentemente relacionada com a falta ou com a insuficiência de estudos de geologia de engenharia);

d) Ambiente, água, território e adaptação às mudanças climáticas: prospeção, pesquisa, captação e proteção de águas subterrâneas; contributo para a avaliação, proteção e gestão sustentável dos recursos hídricos e recursos hidrominerais, a várias escalas; avaliação da radioatividade natural; estudos sobre o uso sustentável do solo; prevenção e mitigação de riscos naturais ou tecnológicos; remediação de solos e águas contaminadas, monitorização da erosão costeira, restauro da natureza, gestão da geodiversidade, entre outros;

e) Gestão sustentável e proteção dos recursos naturais: prospeção, avaliação e extração dos recursos minerais numa base eco-eficiente (metálicos estratégicos e não-metálicos); estudo, caracterização e gestão de geomateriais; colaboração na exploração e gestão dos recursos energéticos (como a geotermia); conservação do património geológico e valorização do geoturismo;

f) Saúde pública e geologia: prevenção dos riscos de contaminação dos solos e das águas subterrâneas, com base no estudo dos sistemas aquíferos, da sua vulnerabilidade e dos processos de propagação dos contaminantes; estudo da contaminação dos solos e dos métodos de descontaminação; avaliação do risco de exposição da radioatividade natural; estudos e o papel da geologia médica nos solos-alimentos-água; o papel terapêutico e de bem-estar dos recursos hidrominerais; contributos dos recursos hidrominerais em produtos farmacêuticos e dermocosméticos, entre outros temas;

g) Geologia marinha e reconhecimento dos fundos oceânicos da Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal: o nosso país detém a maior ZEE da Europa, revestindo-se esta de grande valor estratégico e potencial base de um novo paradigma do desenvolvimento económico do país ligado à Economia do Mar e Oceanografia Geológica. Os geólogos têm um papel preponderante no estudo da geologia dos fundos marinhos, e no estudo, exploração e gestão dos valiosos recursos naturais localizados na ZEE. A geologia costeira é, igualmente, importante na gestão, valorização da zona costeira continental e insular, bem como para a valorização deste fantástico e frágil território de interface com o oceano;

h) Investigação, ensino e cultura: os geólogos têm um papel extremamente relevante quer nas atividades de investigação, desenvolvimento e inovação em equipas inter, multi e transdisciplinares, quer no ensino básico, secundário e superior, bem como na formação de cidadãos cultos e informados. É, igualmente, relevante a sua participação em programas de astrogeologia para a difusão da geologia planetária, promovidos pela AEP e ESA. Os geólogos têm, também, um papel pertinente na difusão e disseminação de uma literacia e cultura geocientífica esclarecida direcionada aos cidadãos, através de programas e iniciativas de divulgação científica.

Assim, tendo em conta a defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos, a salvaguarda do interesse público e a correlativa necessidade de autorregulação da profissão de Geólogo, assinamos esta petição solicitando à Assembleia da República a criação da Ordem dos Geólogos.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Nova árvore da vida das Aves


Um novo estudo genético dá agora uma ideia mais clara sobre a árvore genealógica das aves. Todas têm um ancestral comum, que viveu há cerca de 90 milhões de anos, que se dividiu em 3 grupos: o das aves que nas voam, como a ema, o kiwi e a avestruz, o dos patos, galinhas de água e afins, e o das Neoaves, que inclui mais de 95% das aves actuais. Mas só há cerca de 61 milhões de anos, após a extinção dos dinossaurios seus parentes 5 milhões de anos antes, é que as aves se diversificaram. O mesmo aconteceu com os mamíferos, cujas linhagens ancestrais remontam ao Jurássico, mas que que se mantiveram na sombra até à extinção dos dinossaurios.

Uma ave, o hoatzin da América do Sul, não se parece com nada e é a única representante da sua linhagem, mantendo-se a sua origem um mistério. Curiosa é a associação dos falcões com os papagaios. Já os passeriformes, que representam mais de 50% de todas as aves, terão surgido na Austrália e daí se expandido para todo o mundo. São o grupo mais recente e diverso do planeta.

O estudo do genoma é o produto de quase uma década de pesquisa, conduzida como parte do Projeto Bird 10.000 Genomes. O objetivo final deste projeto é sequenciar os genomas de todas as 10.000 espécies de aves vivas.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Humanos já causaram a extinção de 1.430 espécies de aves


Os seres humanos causaram a extinção de um total de 1.430 espécies de aves, um número duas vezes maior do que aquele que se pensava, revelou um novo estudo publicado na revista científica Nature Communications.

Muitas das ilhas do planeta eram paraísos intocados. Mas a chegada dos seres humanos a locais como os Açores, Tonga ou o Havai tiveram, ao longo do tempo, grandes impactos como a desflorestação, sobre-caça e a introdução de espécies invasoras. Como consequência, muitas espécies de aves desapareceram.

Se o desaparecimento de muitas aves desde os anos 1500 já está registado, o nosso conhecimento sobre o destino das espécies dependia, até agora, de fósseis. Acontece que estes registos são limitados porque os ossos das aves, muito leves, se desintegram com o passar do tempo. Este facto tem mascarado a verdadeira extensão da extinção mundial das aves.

Os investigadores acreditam agora que 1430 espécies de aves, quase 12%, desapareceram durante a história moderna, desde o final do Pleistoceno há cerca de 130.000 anos. A grande maioria dessas aves extinguiu-se directa ou indirectamente por causa da actividade humana.

O estudo, coordenado pelo Centro Britânico para a Ecologia e Hidrologia (UKCEH, sigla em Inglês), usou modelos estatísticos para estimar as extinções de aves até agora desconhecidas.

Rob Cooke, principal author do estudo e investigador do UKCEH, disse, em comunicado, que este estudo “demonstra que houve um impacto humano muito superior na diversidade das aves do que o que era reconhecido até agora”.

“Os humanos devastaram rapidamente populações de aves através da perda de habitat, sobre-exploração e introdução de ratos, porcos e cães que destruíam os ninhos das aves e competiam com elas por alimento. Mostramos que muitas espécies se extinguiram antes de haver registos escritos delas; não deixaram nenhum rasto, perderam-se na História.”

Estas extinções históricas têm hoje “grandes implicações na actual crise da biodiversidade”, alertou Søren Faurby, da Universidade de Gotemburgo e um dos autores da investigação.

“O mundo pode não apenas ter perdido muitas aves fascinantes mas também os seus papéis ecológicos que poderiam ter tido funções cruciais como a dispersão de sementes e a polinização. Isto terá efeitos negativos em cascata nos ecossistemas. Por isso, além das extinções das aves teremos perdido muitas plantas e animais que dependiam daquelas espécies para sobreviver.”

Observações e fósseis mostram que 640 espécies de aves foram empurradas para a extinção desde o final do Pleistoceno, 90% destas em ilhas. Estas incluem espécies como o icónico dodô (Raphus cucullatus) das ilhas Maurícias ou ainda o arau-gigante (Pinguinus impennis) do Atlântico Norte.

Mas os investigadores estimaram que houve mais 790 extinções até agora desconhecidas, elevando para 1430 o número de espécies perdidas, deixando apenas menos de 11.000 nos nossos dias. Cooke alerta que é provável que apenas 50% destas espécies se tivessem extinguido naturalmente.

Os cientistas afirmam que o seu estudo revelou a maior extinção de vertebrados causada por humanos da História quando, durante o século XIV, 570 espécies de aves desapareceram com a chegada dos primeiros povos ao Pacífico Leste, incluindo ao Havai e às Ilhas Cook. Esse número é quase 100 vezes maior do que a taxa natural de extinção.

Acreditam ainda que houve um grande evento de extinções no século nove, causado pela chegada do ser humano ao Pacífico Oeste, incluindo às Ilhas Fiji e às Ilhas Mariana, bem como às Ilhas Canárias.

Os investigadores apontam ainda o evento de extinções que hoje vivemos e que começou em meados do século XVIII. Desde então, além do aumento na desflorestação e da disseminação de espécies invasoras, as aves estão ameaçadas por ameaças adicionais como as alterações climáticas, agricultura intensiva e poluição.

Trabalhos anteriores destes autores sugerem que nos arriscamos a perder entre 669 e 738 espécies de aves no próximo século.

“Está nas nossas mãos se mais espécies de aves se irão extinguir ou não. Recentes projectos de conservação salvaram algumas espécies e devemos agora aumentar os esforços para proteger as aves com o restauro de habitats liderado pelas comunidades locais”, defendeu Cooke.

sábado, 18 de novembro de 2023

Como era Portugal na Idade do Gelo?


Portugal não terá tido mais de 10 mil habitantes na idade do Gelo e o número deverá ter sido ainda menor nas fases mais antigas do Paleolítico. Metade dos europeus vivia na Península Ibérica. Mas, como viviam estes habitantes remotos no nosso território?
Neste «Da Capa à Contracapa», o investigador e autor do novo livro «Portugal na Idade do Gelo: Território e habitantes» João Zilhão e o arqueólogo Carlos Fabião explicam o que a arqueologia paleolítica já desvendou sobre este período histórico. 
Ouça o novo episódio e subscreva o podcast aqui


Este ensaio é uma excursão, com bases científicas, até à existência dos humanos mais remotos cujos genes nos foram transmitidos: a família da criança do Lapedo, os neandertais da Gruta da Oliveira ou os heidelbergensis da Gruta da Aroeira.

Nesta época, a atual Serra da Estrela estava coberta de gelo e da costa viam-se icebergues à deriva. Os bem menos de dez mil habitantes deste espaço eram caçadores-recolectores que conviviam com leões, hienas, rinocerontes e cavalos numa paisagem de charneca arborizada que recorda as da Escócia no presente.
Do que eles foram, comeram e fizeram, sobreviveram vestígios, cada vez mais decifrados pela arqueologia paleolítica. Venha descobrir como teremos sido por aqui, na Idade do Gelo.

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Música do BioTerra: Três Tristes Tigres - Animália


Fui mamute, dodó, tigre de bengala
Fui tartaruga gigante, humana pobre, migrante
Que podem os animais contra securas dilúvios?
Que podem os vegetais contra fogos infernais?

Asa no crude não voa
insecto não se debate

Além do panda e da morsa
do peixe-boi, do gorila
Araras, orangotangos
abelhas, ursos polares
Que podem os animais contra securas dilúvios?
Que podem os vegetais contra fogos infernais?

Não há bicho ou vegetal que a nafta não mate!
À tona flutua, não se debate

Salve-se a gente da gente
...e os animais da extinção