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terça-feira, 15 de novembro de 2022
Música do BioTerra: Billy Bragg - Waiting for the Great Leap Forwards
sexta-feira, 23 de julho de 2021
Cuba não merece solidariedade?
Por Pedro Tadeu
Vi na semana passada muitas pessoas que se apresentam publicamente como de direita a chisparem farpas contra o governo cubano pela repressão de manifestantes do passado dia 11 de julho.
Estes comentadores engajados cumprem a sua missão ideológica, que inclui a eliminação de qualquer resquício, mesmo remoto, da possibilidade de uma sociedade com projeto socialista neste mundo.
Como dizem claramente ao que vão, respeito-os, oiço-os e leio-os com atenção para tirar as minhas conclusões sobre a razoabilidade, ou falta dela, na argumentação apresentada - mesmo se me sentir indignado com o que dizem, não me sinto enganado, e isso é saudável.
Vi, ainda, vários jornalistas/comentadores que se apresentam como "apartidários" a usarem retórica ideológica, descaradamente facciosa, para se colocarem na primeira fila da fotografia dos que combatem, dizem, a "ditadura comunista" da ilha.
Como estas almas me tentam enganar há anos com a sua suposta e impossível "isenção", baseada num fluxo informativo manipulado, que não controlam, não criticam e que reproduzem mecanicamente, não acompanho normalmente as suas intervenções. São uma perda de tempo.
Vi, também, várias pessoas que se apresentam publicamente como sendo de esquerda e se apressaram, antes mesmo de perceber minimamente o que se estava a passar em Cuba, a condenar o "regime cubano" por violação de direitos humanos.
Estas pessoas de "esquerda" já tinham condenado Lula da Silva por suposta corrupção, e hoje em dia veem essa acusação estar manifestamente fragilizada. A tese de uma conspiração que utilizou a justiça e os media para o derrubar ganhou, entretanto, evidente credibilidade.
Estas pessoas de "esquerda" já tinham alinhado com a acusação de uma suposta fraude eleitoral, que removeu Evo Morales da presidência da República da Bolívia e colocou no poder, via golpe de Estado "em nome da defesa da democracia", uma direita que resvalava para o fascismo à antiga.
A luta do povo boliviano conseguiu impor novas eleições e percebeu-se, pela derrota dos golpistas, que, afinal, a fraude era deles.
Estas pessoas de "esquerda" até alinharam com o golpe de Estado de Juan Guaidó na Venezuela, um óbvio tonto reacionário a soldo estrangeiro, que acabou por prolongar o poder do politicamente fraco Nicolás Maduro.
Estas pessoas de "esquerda" calaram-se durante um mês quando, no Peru, o vencedor das eleições, Pedro Castillo, esteve em risco de não poder tomar posse como presidente do país, apesar de ter ganho as eleições, por a direita, mais uma vez, ter tentado usar a arma da falsa fraude eleitoral e ter mesmo ameaçado com um golpe de Estado.
Estas pessoas de "esquerda" fecham os olhos ao evidente envolvimento, direto ou indireto, dos Estados Unidos da América em todas estas situações de luta pelo poder na América Latina, mesmo quando as respeitáveis imprensas americanas ou europeias as noticiam.
Estas pessoas de "esquerda" são as que me incomodam mais, que sou militante do PCP.
São pessoas do meu campo ideológico que, sistematicamente, passam a vida a defender uma sociedade conceptualizada pelo campo ideológico que dizem combater em vez da nova sociedade que teorizam dever acontecer. Se não se traem a si próprias (não estou dentro da suas cabeças, pelo que não sei) traem quem os lê - eu, pelo menos, sinto isso.
... E quantos deles, há 20 anos, adoravam Fidel Castro e Che Guevara?...
Ah! E o que é que eu penso sobre Cuba? Penso que todos os governos devem permitir manifestações de protesto. Penso que o governo cubano tem de ouvir essas pessoas. Penso que os cubanos devem resolver os seus problemas sem interferências estrangeiras. Penso que o bloqueio económico dos Estados Unidos é criminoso e decisivo.
Constato que não vi nenhum polícia de choque, de armadura, capacete e escudo. Constato que não vi canhões de água. Constato que não vi cargas de pelotões militarizados sobre a multidão. Não vi tiros de bolas de borracha. Vi um exercício de repressão com um nível muito inferior ao habitualmente usado na maioria das supostas democracias - até em Portugal, até nos Estados Unidos da América, até na União Europeia.
E depois há esta coisa simples, que me parece que qualquer pessoa de esquerda, defensora da autonomia e autodeterminação dos povos, deveria defender: enquanto os Estados Unidos quiserem dominar Cuba, é muito difícil Cuba não merecer solidariedade.
Jornalista
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sábado, 21 de março de 2020
O Poder da Empatia nas Relações
Em “O Poder da Empatia”, uma das principais referências bibliográficas atuais sobre o tema – e muito importante para o filósofo e historiador Roman Krznaric, clarifica o conceito da empatia, diferenciando-a de simpatia ou caridade, que ainda são um pouco confusos quando o tema é abordado. Ainda traz diversos casos reais e fictícios, argumentados com visões da filosofia, psicologia, neurociência, das artes, CNV (Comunicação Não Violenta) e do marketing contemporâneo.
A empatia, que o autor define como “a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações” (p.10), vem sendo muito citada nos nossos dias, mas parece contraditória nesta era de tecnologias e falta de tempo, que tende a nos deixar cada vez mais egoístas e autocentrados.
Mas em sua argumentação, o autor revela que o cérebro humano é equipado para a conexão social, e descreve os 6 hábitos de pessoas altamente empáticas, que podem nos ajudar a sermos mais empáticos, numa mudança que acontece de dentro para fora e pode transformar positivamente nossas atitudes com os outros. E quais são esses 6 hábitos?
Vamos deixar aqui uma breve lista, mas vale conferir os detalhes no livro de Roman:
1) Acione seu cérebro empático: reconhecer e colocar a empatia como centro da sua vida e expandi-la sempre que possível;
2) Dê o salto imaginativo: fazer um esforço para colocar-se no lugar do outro, seja ele um desconhecido ou até mesmo o seu inimigo;
3) Busque aventuras experienciais: experimentar realidades diferentes das suas, através de viagens, cooperação social ou imersão direta;
4) Pratique a arte da conversação: retirar as nossas máscaras sociais para escutar o outro, principalmente aqueles que não conhecemos;
5) Viaje em sua poltrona: utilizar as artes, as redes sociais e todas as ferramentas possíveis para nos transportar para a mente de outras pessoas;
6) Inspire uma revolução: gerar empatia numa escala de massa para alcançar mudanças significativas.
Ao longo do texto, vemos histórias de figuras como Jesus, Gandhi, Mandela e Che Guevara, entre outras personagens reais, que viveram em ambientes diferentes dos seus, viveram experiências antes não imaginadas e conheceram pessoas que não conheceriam caso permanecessem estáticos. Com isso, conseguiram mudar suas vidas radicalmente, dedicando-se a uma causa maior, focados no objetivo de impactar positivamente aqueles ao seu redor.
Nesta reflexão bastante atual, Roman nos dá a oportunidade de enxergar o mundo sob uma visão mais ampla e menos individual, colocando-nos no lugar do outro, não através de métodos ou técnicas, mas da CONEXÃO. Não a conexão da internet, mas sim dessa necessidade de nós humanos, que, quando acontece, beneficia todas as pessoas envolvidas com uma gratificante experiência, além de transformar relacionamentos, abandonar preconceitos, julgamentos e que pode até mesmo mudar o mundo em que vivemos.
Sobre o autor
Roman Krznaric é historiador, com PhD em sociologia política, e fundador da The School of Life. Conselheiro de diversas entidades, como a Oxfam e as Nações Unidas, teve seu nome listado pelo The Observer como um dos mais influentes pensadores da Grã-Bretanha dedicado ao tema dos estilos de vida. Com livros publicados em mais de vinte idiomas, Krznaric dá palestras e workshops em todo o mundo.
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terça-feira, 30 de janeiro de 2018
Musica do BioTerra: Nathalie Cardone - Hasta siempre
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domingo, 29 de janeiro de 2012
Encontros Improváveis- Hans Werner Henze e Walt Whitman
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Valete - Serviço Público
Esta é logo pos vossos top rappers
Com essa musica que fede
Amam hip-hop mas põem-lhe os cornos com pop-rap
É so bling bling os sons que vocês sentem
De rappers que se vendem nem valem 50 cêntimos
C'o valete não há paralelo
Desliga o mic, eu rimo com uma foice e um martelo
A verdade doí eu trago assim incolor
Mas vocês vêm TV só para atenuar a dor
Do cavaquismo, ao guterrismo, até ao socratismo
Mudam o ismos mas a gente continua no mesmo
Vocês ultrajam gays e é de serem machos que se gabam
Mas de quatro em quatro anos votam naqueles que vos enrabam
Legitimam o sistema vilão que nos consome
Quem é o Sócrates para amassar o pão c'a gente come
É só retórica e enrolamento
Que se foda Valete e Sam, os storytellers 'tão no parlamento
Mentores da escola que desinteressa a muitos intelectos
A mesma escola que forma doutores analfabetos
Põem-vos num trabalho para serem explorados com agrado
Vocês são todos escravos e ainda por cima assinam contratos
Sample - Hugo Chavez
"A nosotros nos toca compañeros y compañeras ser el partero de nueva vitoria"
Refrão - Valete
Traz o teu povo vem combater
Aponta a arma não temos nada a perder
Já faltou mais p'a podermos abater
O opressor
"A nosotros nos toca compañeros y compañeras ser el partero de nueva vitoria"
Refrão - Valete
Traz o teu povo vem combater
Aponta a arma não temos nada a perder
Já faltou mais p'a podermos abater
O opressor
Verso 2 - Valete
Capitalismo é a religião das massas nos nossos dias
Deixem Jesus em paz, o dinheiro é o vosso Messias
Igrejas são templos de estupidificação
Eu interpreto a vossa bíblia com um isqueiro na mão
Deus é omnipotente, omnipresente
Então vai à casa branca porque Deus está lá dentro
E é seguido por governantes que tens aplaudido
Governantes que deviam ter Lewinsky no apelido
E discursam de boca suja acelerados como Senna
É que o Bush não ejacula esperma, ejacula gasolina
Diz p'a saírem do Iraque e virem ter com o Keidje Lima
Que eu tenho armas de destruição maciça no meu bloco de rimas
Há 10% a engordar com 90% do guito
Põem 90% do people a fazer dietas, o que é que é isso?
É o terrorismo da globalização financeira
Que fode o 3º mundo de G-8 maneiras
E já não há forma de abrandarem (Não)
Eles destroem a Amazónia porque basta petróleo p'a respirarem
Este é o nosso mundo nu e cru
Se Adão soubesse no que isto ia dar só teria fodido a Eva no cu, nigga
Capitalismo é a religião das massas nos nossos dias
Deixem Jesus em paz, o dinheiro é o vosso Messias
Igrejas são templos de estupidificação
Eu interpreto a vossa bíblia com um isqueiro na mão
Deus é omnipotente, omnipresente
Então vai à casa branca porque Deus está lá dentro
E é seguido por governantes que tens aplaudido
Governantes que deviam ter Lewinsky no apelido
E discursam de boca suja acelerados como Senna
É que o Bush não ejacula esperma, ejacula gasolina
Diz p'a saírem do Iraque e virem ter com o Keidje Lima
Que eu tenho armas de destruição maciça no meu bloco de rimas
Há 10% a engordar com 90% do guito
Põem 90% do people a fazer dietas, o que é que é isso?
É o terrorismo da globalização financeira
Que fode o 3º mundo de G-8 maneiras
E já não há forma de abrandarem (Não)
Eles destroem a Amazónia porque basta petróleo p'a respirarem
Este é o nosso mundo nu e cru
Se Adão soubesse no que isto ia dar só teria fodido a Eva no cu, nigga
Scratch - Hugo Chavez
"No hay imperialismo que haya sobrevivido cuando los pueblos nos decidimos a ser libres"
Refrão - Valete
Traz o teu povo vem combater
Aponta a arma não temos nada a perder
Já faltou mais p'a podermos abater
O opressor
"No hay imperialismo que haya sobrevivido cuando los pueblos nos decidimos a ser libres"
Refrão - Valete
Traz o teu povo vem combater
Aponta a arma não temos nada a perder
Já faltou mais p'a podermos abater
O opressor
Outro - Selma & Valete
Traz outros manos contigo e vem pró batalhão
Precisamos de mais tropas p'á revolução
Não quero fama nem glória
Só uma t-shirt de Che Guevara
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sexta-feira, 25 de agosto de 2006
Marinaleda- Uma aldeia andaluza em autogestão, uma utopia real

A rua principal da pequena aldeia com cerca de 3000 habitantes conduz directamente ao ayuntamiento dirigido por Juan Manuel Sánchez Gordillo, que ganhou todas as eleições por uma ampla maioria e isto desde há mais de trinta anos.
Juan Manuel é um homem simples que recebe os visitantes no seu gabinete, que ostenta um grande retrato de Ernesto Che Guevara, espontaneamente e naturalmente sem agendamento nem protocolo. Ele não hesita em deixar o seu gabinete para mostrar as casas brancas situadas em frente ao edifício e construídas colectivamente pelos próprios habitantes em terras oferecidas quase gratuitamente (15,52 euros por mês) pela comuna. Esta põe igualmente à sua disposição a ajuda de um arquitecto e de um mestre-de-obras. A região contribui com o grosso do material de construção. Promotores imobiliários, especuladores e outros parasitas não têm aqui lugar. A habitação deixa assim de ser uma mercadoria e torna-se um direito.
Juan Manuel fala com entusiasmo e orgulho das numerosas realizações dos habitantes do seu município, com números e gráficos para confirmar. O empregado do café "La Oficina", um pouco afastado do ayuntamiento, relativiza um pouco as afirmações daquele dirigente mas confirma, no essencial, os avanços sociais da aldeia, nomeadamente a concessão dos terrenos àquelas e àqueles que precisam de uma habitação, primeira preocupação dos espanhóis. Ele confirma também a ausência total da polícia, símbolo da repressão estatal. Com efeito, os habitantes não experimentam qualquer necessidade de recorrer aos seus "serviços". Aqui os problemas de criminalidade, de delinquência, de vandalismo, etc estão ausentes. Eles pensam gerir e resolver eles próprios os problemas que possam surgir entre si. De qualquer forma, desde a partida para a reforma do último polícia, não consideraram útil substituí-lo.
Frente ao "La Oficina" ergue-se um edifício sobre o qual se pode ler "Sindicato de Obreros del Campo" e "Casa da Cultura". Mas esta grande sala serve igualmente como café, bar e restaurante. É um lugar de inter-relacionamento, debates, festa e convivialidade. É ali também que se encontram, a partir da madrugada, os trabalhadores agrícolas para um pequeno-almoço colectivo antes de partirem juntos para uma jornada de trabalho de 6h30 nos campo de "El Humoso", a 11 quilómetros da aldeia.
Esta terra andaluza, hoje trabalhada colectivamente, é testemunha de um passado carregado de acções, ocupações, manifestações, greves, marchas e processos nos tribunais. E é graças a esta luta muito dura e realmente popular que esta terra (1200 hectares) foi arrancada a um aristocrata da região, o Duque do Infantado. Nesta Andaluzia profunda as mulheres, apesar dos pesos sociais e dos preconceitos, desempenharam um papel determinante neste combate para que a terra pertença àquelas e àqueles que a trabalham.
Hoje "estas terras não são a propriedade de ninguém e sim de toda a comunidade de trabalhadores", como dizem os habitantes da aldeia.
Mas para estes operários, não se trata apenas de recuperar as terras, mas também de construir "um projecto colectivo no qual um dos objectivos é a criação de empregos e a realização da justiça social".
Foi assim que nasceu o conjunto das cooperativas que produzem e distribuem uma série de produtos agrícolas de grande qualidade que exigem ao mesmo tempo uma mão-de-obra abundante: azeite, conservas de alcachofras, pimentão vermelho, favas, etc. Os produtores directos destas riquezas trabalham de 2ª feira a sábado com um remuneração diária de 47 euros, qualquer que seja o seu posto ou seu estatuto. O excedente que resta é re-investido na empresa comum na esperança de criar mais empregos e permitir assim que todos trabalhem conforme o seu projecto colectivo. Eles tentam por a economia ao serviço do homem e não ao serviço do lucro. O desemprego aqui é quase inexistente, ao passo que ultrapassa os 25% da população activa na Andaluzia e 20% em toda a Espanha!
Em "El Humoso" as operárias e os operários falam com uma certa emoção da sua cooperativa, do seu trabalho, dos seus produtos, da solidariedade e da convivialidade que reinam entre eles. Mas evocam igualmente o temor de ver a sua unidade estalar por causa dos seus inimigos que pensam ser numerosos na região e mesmo em toda Espanha. Nos seus relatos revela-se muita convicção e muita humanidade.
Manolo, um operário da cooperativa, fala com carinho, como se se tratasse de uma pessoa, da máquina de extrair o azeite da azeitona, de que ele cuida. Não hesita em explicar o seu funcionamento, a manutenção de que precisa, etc a todos os visitantes. Fala igualmente com respeito do seu companheiro de luta, o presidente Juan Manuel que considera como "el ultimo" desta categoria de homens capazes de arrostar um tal desafio e de conjugar num mesmo movimento pensamento e prática. Manolo evoca também a vida ascética do autarca da aldeia, as prisões e as perseguições judiciais que sofreu e o atentado do qual escapou. Com insistência, Manolo convida o visitante a retornar à cooperativa no mês de Dezembro ou Janeiro para admirar o trabalho de extracção do azeite.
Mas na aldeia não há nem hotel nem pensão para uma eventual estadia. Entretanto, a municipalidade põe graciosamente à disposição dos visitantes pavilhões os quais podem igualmente, se quiserem, partilhar o alojamento de alguns habitantes por uma quantia simbólica como em casa de António na avenida principal da aldeia. António acolhe calorosamente seus convidados com os quais gosta de falar da originalidade da sua aldeia e parece feliz por viver ali: "agora, dizia ele, vivemos em harmonia aqui".
Vivem igualmente em harmonia com os habitantes da aldeia os trabalhadores imigrdos, também eles contratados pela cooperativa de "El Humoso". Segundo diz o empregado do café da delegação sindical estes homens e mulheres fazem parte integrante da comunidade dos trabalhadores e participam como os outros nas decisões tomadas em assembleias-gerais. Com efeito, estas famosas assembleias fazem-se numa grande sala junto à delegação sindical onde ao lado das cadeiras brancas de plástico há toda espécie de louça e de toalhas armazenadas, provavelmente à espera de uma próxima festa popular. A sala é também ornamentada por um imenso e esplêndido quadro no qual se podem ver homens e mulheres em linhas cerradas antecedidos por dois homens e uma mulher com uma criança nos braços, todos a marcharem para a mesma direcção. "Hoje às 20h30, assembleia-geral na delegação sindical", diz a menagem difundida incansavelmente por uma camioneta que percorre todas as ruas da aldeia, convidando os habitantes à reunião para decidir os seus assuntos.
Eles organizam também os chamados "Domingos vermelhos" em que voluntários encarregam-se gratuitamente, entre outras coisas, de limpar e embelezar a sua comuna: manutenção dos passeios e jardins públicos, plantação de árvores, etc. A aldeia é não só uma das mais seguras como também a mais limpa da região!
A aldeia é relativamente rica em equipamentos colectivos em comparação com as comunas vizinhas. Os habitantes podem banhar-se durante todo o Verão na piscina municipal pela módica quantia de três euros. O infantário para crianças não lhes custa senão 12 euros por mês, refeições incluídas. O complexo desportivo "Ernesto Che Guevara", bem conservado, permite-lhes que pratiquem vários desportos como futebol, ténis ou atletismo.
Durante o Verão, os habitantes assistem regularmente à projecção de filmes ao ar livre no parque natural. Debates, conferências, filmes e apoio aos povos oprimidos, nomeadamente aqueles que estão injustamente privados do seu território, fazem parte da vida cultural e política da aldeia. Juan Manuel usa muitas vezes, ostensivamente, o lenço palestino.
O desporto, a cultura, as festas etc são direitos abertos a todos, tal como o trabalho e a habitação. O desenvolvimento tanto material como intelectual de cada indivíduo é, aqui, a condição do desenvolvimento de todos.
Vá a Marinaleda ver e verificar a realidade desta "utopia". Vá ao encontro destes homens e destas mulheres admiráveis que conseguiram construir, graças ao seu trabalho diário e às suas convicções – e em meio a um oceano de injustiças, desgraças e servidão – uma sociedade diferente. O capitalismo, pelas suas crises repetitivas e o perigo que representa para o homem e a natureza, não tem futuro. O exemplo concreto e com êxito de Marinaleda mostra que uma outra sociedade é possível.
Vivem igualmente em harmonia com os habitantes da aldeia os trabalhadores imigrdos, também eles contratados pela cooperativa de "El Humoso". Segundo diz o empregado do café da delegação sindical estes homens e mulheres fazem parte integrante da comunidade dos trabalhadores e participam como os outros nas decisões tomadas em assembleias-gerais. Com efeito, estas famosas assembleias fazem-se numa grande sala junto à delegação sindical onde ao lado das cadeiras brancas de plástico há toda espécie de louça e de toalhas armazenadas, provavelmente à espera de uma próxima festa popular. A sala é também ornamentada por um imenso e esplêndido quadro no qual se podem ver homens e mulheres em linhas cerradas antecedidos por dois homens e uma mulher com uma criança nos braços, todos a marcharem para a mesma direcção. "Hoje às 20h30, assembleia-geral na delegação sindical", diz a menagem difundida incansavelmente por uma camioneta que percorre todas as ruas da aldeia, convidando os habitantes à reunião para decidir os seus assuntos.
Eles organizam também os chamados "Domingos vermelhos" em que voluntários encarregam-se gratuitamente, entre outras coisas, de limpar e embelezar a sua comuna: manutenção dos passeios e jardins públicos, plantação de árvores, etc. A aldeia é não só uma das mais seguras como também a mais limpa da região!
A aldeia é relativamente rica em equipamentos colectivos em comparação com as comunas vizinhas. Os habitantes podem banhar-se durante todo o Verão na piscina municipal pela módica quantia de três euros. O infantário para crianças não lhes custa senão 12 euros por mês, refeições incluídas. O complexo desportivo "Ernesto Che Guevara", bem conservado, permite-lhes que pratiquem vários desportos como futebol, ténis ou atletismo.
Durante o Verão, os habitantes assistem regularmente à projecção de filmes ao ar livre no parque natural. Debates, conferências, filmes e apoio aos povos oprimidos, nomeadamente aqueles que estão injustamente privados do seu território, fazem parte da vida cultural e política da aldeia. Juan Manuel usa muitas vezes, ostensivamente, o lenço palestino.
O desporto, a cultura, as festas etc são direitos abertos a todos, tal como o trabalho e a habitação. O desenvolvimento tanto material como intelectual de cada indivíduo é, aqui, a condição do desenvolvimento de todos.
Vá a Marinaleda ver e verificar a realidade desta "utopia". Vá ao encontro destes homens e destas mulheres admiráveis que conseguiram construir, graças ao seu trabalho diário e às suas convicções – e em meio a um oceano de injustiças, desgraças e servidão – uma sociedade diferente. O capitalismo, pelas suas crises repetitivas e o perigo que representa para o homem e a natureza, não tem futuro. O exemplo concreto e com êxito de Marinaleda mostra que uma outra sociedade é possível.
Ver também:
Sítio web oficial de Marinaleda
Marinaleda: un modèle d'auto-gestion unique en Europe
O original encontra-se em Le Grand Soir
Este artigo encontra-se em Resistir.info
Sítio web oficial de Marinaleda
Marinaleda: un modèle d'auto-gestion unique en Europe
O original encontra-se em Le Grand Soir
Este artigo encontra-se em Resistir.info
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terça-feira, 14 de junho de 2005
Boa Noite, Mãe! Eu vou com as aves
Do tempo da infância, Eugénio de Andrade, "de abundante" apenas conheceu "o sol e a água". À língua portuguesa deixa vasta herança uma obra luminosa, musical, marcada pelo rigor da palavra. O poeta morreu na madrugada de ontem, no Porto, aos 82 anos, vítima de doença degenerativa. O corpo encontra-se na sede da Cooperativa Cultural Árvore, local de que Eugénio gostava e onde tinha vários amigos. Amanhã, pelas 16.30, faz a sua derradeira viagem até ao cemitério do Prado do Repouso, no Porto.
Parte da infância, a tal de sol e água em abundância, passou-a na aldeia da Póvoa da Atalaia, no concelho do Fundão. Era filho de camponeses, dizia. De abundante, na infância e pela vida fora, teve ainda a ternura da mãe. É ao lado da mãe que abandona a aldeia e parte para Castelo Branco, onde apreende as primeiras letras. Ao lado da mãe vê pela primeira vez a claridade de Lisboa "Ela certamente a pensar no homem que sempre amara, eu com o mar na cabeça, de que tanto lhe ouvira falar".
É em Lisboa, para onde vai viver em 1932, que o jovem de olhos claros chamado José Fontinhas - Eugénio de Andrade para sempre a partir da publicação do primeiro livro - convive com o pai. Mas dessa relação distante, envolta em ressentimentos, pouco ou quase nada fica. O amor pela mãe era único e pleno, sem espaço para mais ninguém. E, no entanto, "No mais fundo de ti,/eu sei que traí, mãe!// Tudo porque já não sou/o retrato adormecido/no fundo dos teus olhos!"
Eugénio de Andrade escreve os primeiros versos em Lisboa. E inicia o encontro, pelas bibliotecas públicas, da palavra dos outros. Dos outros poetas. Um deles é António Botto, a quem mostra os primeiros textos . Um livro de Botto - Ciúme -havia impressionado profundamente o jovem poeta. "Voltei a sentir a terra faltar-me debaixo dos pés. Pedi explicações que significava aquilo de amor para outro homem?".
Estimulado por António Botto, corria o ano de 1939, publica numa plaquette o poema Narciso, assina com o seu nome civil, que cedo rejeitará. Seguem-se outras obras que mais tarde recusará parcialmente. A consagração surge em 1948 Eugénio de Andrade publica As Mãos e os Frutos, que recolhe rasgados elogios da crítica mais exigente. A partir daí, torna-se referência das letras portuguesas. A sua poesia, ao contrário de outros autores, continua e continuará a cativar as novas gerações de leitores - porque é límpida, aparentemente simples, tem ritmo, musicalidade.
palavra com endereço. Ao invés de outros companheiros da sua geração, o autor de Rosto Precário não fez da palavra uma arma política. "O acto poético", defendia, "é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo do conhecimento que é também o fogo do amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra". Eugénio, no entanto, escreveu poemas com endereço para Che Guevara, José Dias Coelho ou Catarina Eufémia. Palavras por encomenda do editor e amigo José da Cruz Santos. Um dos mais belos poemas a Vasco Gonçalves tem, aliás, a sua assinatura "(...) De tantas palavras que disseste algumas/ se perdiam, outras duram ainda, são lume/ breve arado ceia de pobre roupa remendada./ Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão/ era morada e instrumento de alegria. /Esse eras tu: inclinação da água. Na margem/ vento areias lábios, tudo ardia."
Exigia silêncio. As palavras são o ofício do poeta. "São a nossa condenação", dizia o autor de Os Afluentes do Silêncio. Ou também, como escreveu recentemente Daniel Faria, "o alimento derradeiro". Eugénio gostava das suas palavras, escolhidas com rigor depois de limpas e enxugadas, e das palavras do outros. Por isso, é um dos nossos melhores tradutores de Federico Garcia Lorca e de outros autores de língua castelhana.
Como antologiador, deixa a sua marca em obras como Daqui Houve Portugal, a antologia mais completa sobre o Porto - cidade para onde foi viver na década de cinquenta. Eugénio foi, como o mesmo rigor que impunha à sua escrita, um divulgador da poesia. Gostava de dizer os seus versos aos leitores mais jovens. Raramente recusava um convite para mostrar a sua arte nas escolas. Mas impunha uma firme condição as palavras são como cristais, o mínimo ruído podia poluí-las; por isso exigia silêncio. E assim, quase sempre, eram escutadas as suas frágeis palavras.
Dóceis animais. Gostava das palavras dos outros, mas tinha de ser ele a descobri-las. Um dia, na Livraria Leitura, uma poetisa viu Eugénio e apressou-se a comprar um livro da sua lavra e a oferecê-lo ao poeta. O autor de O Peso da Sombra ficou deveras desagradado com a generosidade da companheira de letras. Mal a poetisa virou costas, Eugénio atirou com o livro, com dedicatória e tudo, para o caixote de lixo mais próximo.
Outras das suas paixões eram os gatos. Foram durante muitos anos os seus silenciosos companheiros da noite. Essa admiração aos pequenos felinos, que conhecem a casa mas não conhecem o dono, fica firmada em vários poemas que lhes dedicou. No ano passado, todos os poemas sobre gatos surgiram no livro Os Dóceis Animais , ilustrado por Cristina Valadas, editado pela ASA.
Há cerca de de 25 anos, Eugénio encontra outro motivo para partilhar o seu amor Miguel, o afilhado que o poeta tratou como "o filho que nunca tive". Era Eugénio que levava a criança a escola, ajudava-a a executar os trabalhos de casa. Temia pelo menino quando o temporal se abatia sobre a cidade do Porto. Numa noite de grande intempérie - o poeta não gostava de sair à noite - chegou mesmo a chamar um táxi para ir a casa do Miguel confirmar se estava tudo bem.
O nobel não chegou. Em 2001, Eugénio foi distinguido com o Prémio Camões. Soube da notícia a olhar o mar, na Foz, na casa -fundação que tem o seu nome. Ficou feliz com a distinção, mas deixou fugir um lamento "Os prémios literários vêm sempre tarde". Deviam ser atribuídos quando ainda se é novo; nessa altura, sim, o dinheiro teria outro valor. Teria permitido ao poeta viajar mais e sem sacrifícios. Em 1948, quando publicou As Mãos e os Frutos, "para ir à Grécia, tive de vender alguns livros e quadros que amigos meus me tinham oferecido".
O Prémio Camões foi pouco para alguém que, por certo, desejaria mais. Mas o Nobel "é impensável! Em Portugal aconteceu uma vez, não voltará a suceder tão cedo. Não há nenhum membro da Academia Sueca que leia português", dizia Eugénio. E "eu também não escrevo para ganhar prémios". Depois, argumentava o autor de Matéria Solar , "o Nobel é um prémio como outro qualquer, só dá mais dinheiro, mas não tem importância nenhuma".
Rigoroso com a imagem, o poeta recusou deixar-se fotografar para os jornais quando foi distinguido com o Camões, "acho um excesso os jornais quererem tirar retratos nos dias dos prémios...". À primeira vista, poder-se-ia pensar que o poeta seria adverso ao culto da imagem. Mas basta uma visita à Fundação Eugénio de Andrade, a casa onde viveu os últimos anos, para se afastar as dúvidas em todas as paredes há retratos e fotografias do poeta, além de bustos e outras estatuetas.
Por onde passava, conta quem o conheceu de perto, ele tinha de ser a primeira figura. Só mesmo a vaidade de Jorge de Sena era suficientemente forte para ofuscar a presença de Eugénio.
"O amor da transparência é a minha fraqueza, mas a minha força também. Não significa o que digo que não haja em mim, e na poesia que faço, zonas de sombra", escreveu o poeta no catálogo da exposição sobre a sua obra, realizada no Porto em 1976. Foi a primeira grande homenagem nacional ao autor de Véspera de Água. Quando completou 80 anos, o Porto - uma vez mais por iniciativa do editor e amigo José da Cruz Santos - voltou a homenagear Eugénio de Andrade.
"não esqueci nada". O poeta não esteve presente. A doença degenerativa já o amarfanhava. Os derradeiros anos da vida foram terríveis; as palavras - razão da vida toda - abandonavam lentamente aquele que mais as amou. "Já não se passa absolutamente nada./E no entanto, antes das palavras gastas,/tenho a certeza/de que todas as coisas estremeciam/só de murmurar o teu nome/ no silêncio do meu coração.//Não temos já nada para dar./ Dentro de ti/não há nada que me peça água./O passado é inútil como um trapo./E já te disse as palavras estão gastas.//Adeus."
O filho de camponeses - que passou a infância numa dessas aldeia da Beira Baixa "que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante" apenas conheceu sol e água, partiu ontem às primeiras horas da madrugada. Longe, muito longe da terra onde nasceu. A derradeira caminhada do poeta de Branco no Branco
«Não me esqueci de nada, mãe./Guardo a tua voz dentro de mim./ E deixo-te as rosas.../Boa noite. Eu vou com as aves!"
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