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terça-feira, 23 de junho de 2026

Domingos Xavier Viegas: "Ainda vemos muitas pessoas a enfrentar o fogo de calções e chinelos"

Licenciou-se em engenharia mecânica com especialidade na engenharia do vento, mas foi o fogo que chamou a sua atenção. Aos 76 anos, o diretor do Centro de Estudos de Incêndios Florestais, da Universidade de Coimbra, dedica-se a investigar a forma como o fogo se comporta em vários tipos de território e de condições climáticas numa tentativa de prevenir grandes incêndios e proteger as populações

Estudam há anos a resiliência dos solos quanto à humidade?
Começámos em 1986 a recolher amostras de combustíveis finos - plantas que podem arder como as folhas secas do pinheiro e do eucalipto -, que são recolhidas próximo do aeródromo. No verão, todos os dias é feita uma colheita a meio do dia, a hora de maior calor, e durante o resto do ano, uma vez a duas por semana. A humidade das folhas secas vai variando e sabemos que se quando a humidade é baixa pode representar condições de perigo elevado de incêndio. Trabalhamos com o Instituto Portugês do Mar e da Atmosfera e podemos prever antecipadamente qual vai ser a humidade combustível nos próximos dias em face das condições meteorológicas e difundimos esses dados às autoridades, para estarem informados.

Que descobertas realizaram no laboratório?
Fomos os primeiros no mundo a estudar o comportamento do fogo em estruturas com a forma de desfiladeiros. Percebemos que mesmo que seja um pequeno foco de incêndio, se começar num desfiladeiro, ele cria o seu próprio vento e este faz acelerar a velocidade de propagação. Foi o que aconteceu em Armamar. Aquilo que as pessoas muitas vezes diziam ter-se tratado de uma mudança do vento, conseguimos mostrar que não é nada disso, é o próprio fogo que cria o vento e faz alterar o seu comportamento.

É esse o fogo a que se chama de sexta geração?
Não. O fogo de sexta geração refere-se a intensidade de propagação do fogo, ou seja, quando o fogo tem uma intensidade de propagação que é superior a 60 megawatt (MW). Mas um fogo de primeira geração, que gera uma intensidade de propagação superior a 10 MW, que corresponde a chamas superiores a 10, 15 metros de altura, liberta uma potência calorífica que já não se consegue combater. Já é considerado extremo. Quando o fogo tem uma propagação de 20, 30, 40, até 60 megawatts, são chamados de 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, até 6ª geração. Só nos últimos anos é que se tem vindo a observar incêndios com estas intensidades de propagação.

O incêndio de Pedrógão Grande, em 2017, foi de sexta geração?
Correto, foi um dos incêndios mais intensos que nós tivemos. De acordo com os nossos dados, ainda é um incêndio que teve a maior velocidade de propagação que temos registo. Estamos a falar é da convecção que é criada pelo incêndio e faz essa aceleração. Isso pode acontecer até num pequeno incêndio, como o de Armamar, em que a extensão de área ardida não foi grande, mas que levou à morte de 14 bombeiros.

O que aconteceu em Pedrógão Grande para atingir aquelas proporções?
Dois focos de incêndio encontraram-se e interagiram. Esse é outro dos nossos contributos. Verificámos, ao estudar casos reais na natureza e depois em laboratório, que quando dois incêndios que estão perto um do outro e se juntam geram velocidades de propagação muito grandes, das mais altas que se têm registado. Foi o que aconteceu em Pedrógão Grande. Houve dois focos de incêndio que começaram debaixo de uma linha elétrica, em dois pontos diferentes, mas que, a certa altura, com a proximidade da tempestade, eles ficaram deitados no terreno e a propagar-se, mais ou menos, paralelamente na mesma direção. E ao interagirem, deram origem a esse incêndio de grandes proporções, que atingiu uma velocidade de 14 km por hora, é das velocidades mais altas registadas em Portugal.

Quando é que o combate ao fogo se torna impossível?
Quando a intensidade de propagação ultrapassa 10 MW por metro torna-se impossível de combater de forma diretamente, mesmo com aviões pesados, não se consegue suprimir uma frente de chamas que está a propagar-se com uma altura de chamas de mais de 10 metros.

A quantidade de árvores caídas provocadas pela tempestade Kristin aumenta o risco de um incêndio destas proporções?
Existem dois fatores: um é a quantidade de combustível e o outro é a velocidade de propagação. Se tivermos maior quantidade de combustível, maior é a intensidade de propagação, maior é a energia libertada. Na zona de Leiria, onde foram derrubadas muitas árvores e em que a carga de combustível duplicou em algumas zonas do terreno, podemos ter grandes intensidades de propagação mesmo que o fogo se propague a baixa velocidade.

O que é que influencia a velocidade de propagação?
Em primeiro lugar é o teor da humidade do combustível no terreno, depois são as condições de topografia e as condições do vento. Se tivermos um declive maior, a velocidade de propagação é maior, se tivermos um vento mais forte, a velocidade da propagação é mais elevada. Mas quando existe muita carga combustível, como em Leiria, não é preciso haver tanto vento, nem declive para termos uma velocidade e uma intensidade de propagação que pode dar origem a incêndios que não são combatíveis.

O eucalipto permanece o vilão dos fogos?
Nós temos três espécies dominantes: o sobreiro, o eucalipto e o pinheiro. Realmente, se só tivéssemos o sobreiro e floresta como existe, por exemplo, no Alentejo, em que as árvores estão espaçadas e há pouco combustível no solo, muito provavelmente não teríamos grandes incêndios. O problema é que nós temos na grande parte do país, todo o centro e norte, dominado pelo pinheiro e eucalipto e com um clima cada vez mais agravado. São áreas que não estão geridas, ou seja, onde não há capacidade para retirar a biomassa que existe. E, muitas vezes, são áreas com grande densidade de pinhal e eucaliptal: em vez de terem poucos pés por hectare e espaçados uns dos outros, são como que florestas de árvores muito finas, muito densas e que se o fogo entra nelas é difícil dar-lhe combate. porque não há condições de defesa. Nesse sentido, estas duas espécies são realmente perigosas.

Mas o eucalipto causa maior risco?
O eucalipto traz condições agravantes porque a mesma quantidade de folhas liberta muito mais calor do que as do pinheiro. Por outro lado, também liberta focos secundários, sobretudo pedaços de casca que podem ser transportados pelo vento a arder a distâncias grandes. Em Portugal, temos registo de focos secundários a distâncias de 10 quilómetros ou mais.

E é mais usado?
Sim. Aponta-se como vilão porque é uma espécie de investimento rápido. Num período de 10, 15 anos, as árvores estão crescidas e é possível ter algum retorno do investimento feito. O pinheiro precisa de mais tempo, 20 a 30 anos, e por isso, o risco de arder é maior. Nesse sentido, o eucalipto tem-se difundido muito e infelizmente em terrenos que não são apropriados e não são geridos. Por exemplo, as empresas de celulose gerem algumas plantações de eucalipto e, de modo geral, são bem cuidadas e não são tão afetadas pelo fogo.

O abandono do interior do país é um dos fatores para o aumento dos incêndios?
Não é apenas o abandono, porque há muitos proprietários que têm os seus terrenos e que são bem geridos. Mas quando essas propriedades são muito pequenas - a nossa propriedade está muito dividida, devido às heranças - torna-se muito difícil tirar qualquer rendimento dessas propriedades e caem no abandono, ficam cobertas de mato e, nas condições climáticas que estamos a ter, vão sendo cada vez mais sujeitas aos incêndios.

O Estado deveria intervir aí com sapadores florestais?
É muito difícil gerir toda a floresta, mas algumas partes do território deveriam ser geridas no sentido de reduzir a biomassa. E isso pode ser feito de diferentes maneiras, quer por meios manuais, mecânicos, quer pelo uso de fogo, quer pelo uso de pastoreio. Pelo menos, aquelas faixas de descontinuidade dos combustíveis, que existem nos altos das serras, que criam intervalos e permitem ajudar a parar o fogo.

Como?
Quando o fogo tem uma intensidade de propagação muito alta e não se pode atacar diretamente, pode-se fazer um contra-fogo que vai ao encontro da frente principal e parar um incêndio dessa maneira. Mas, para tal, precisamos ter essas faixas de descontinuidade na paisagem e na vegetação.

Na Catalunha, Espanha, está a investir-se em vinha para travar o fogo. É uma solução viável?
É a paisagem em mosaicos de que se fala muito hoje em dia. Uma paisagem feita de cobertos florestais diferentes, que não seja só a mesma espécie e que não tenha toda a mesma idade. A ideia é criar zonas agrícolas sem continuidade porque havendo essa continuidade o fogo propaga-se de um modo mais violento.

Isso implica um regresso ao interior.
Haver empreendimentos agroflorestais, onde se fomente a agricultura com a floresta e com a pecuária ajudava a gerir a biomassa e trazia mais pessoas para o interior que ajudam a vigiar e a intervir em casos de incêndio. Nos anos 40 do século passado, quando havia mais gente a viver no campo, as pessoas acorriam prontamente quando ocorria uma ignição e havia poucas dezenas de incêndios e algumas centenas de hectares ardidos.

Faltam bombeiros e recursos para combater estes grandes incêndios?
Quando há grandes incêndios, todos os recursos são poucos. O nosso país tem uma estrutura de prevenção e combate muito razoável. E mesmo em relação ao número de bombeiros, penso que estamos bem em comparação com outros países. Mas mais importante que o número é a preparação e a formação dos bombeiros: temos de dar uma formação ainda melhor aos bombeiros. Agora, quando temos grandes incêndios, muito alargados pelo país, na verdade, todas as pessoas são poucas e até os próprios cidadãos podem ajudar.

Os habitantes devem ajudar no combate?
No ano passado, em agosto, tivemos uma boa parte do centro do país a arder. Não tivemos muita destruição de casas e tivemos, relativamente, poucas vítimas mortais face à intensidade de propagação dos incêndios. Uma das razões é porque havia muita gente presente no território por ser agosto. Havia pessoas que tinham ido visitar as aldeias, os imigrantes que vieram de estrangeiro e, ao estarem lá, contribuíram no combate.

É importante dar formação de combate à população?
Sem dúvida. Existe o mito que o interior é povoado apenas por pessoas de idade, já sem capacidade, mas não é bem assim. Parte da população está envelhecida, mas também há muitas pessoas válidas que conhecem o fogo, sabem lidar com os incêndios, mas não têm os meios para o fazer. Desde logo, por exemplo, não têm roupa adequada e vemos pessoas a enfrentá-lo de calções, t-shirts e chinelos. E recorrem a baldes e alguidares quando deveriam ter realmente recursos necessários para proteger as suas casas e as suas aldeias. E, se possível, dar apoio aos bombeiros no combate, porque isso já foi uma realidade.

Quando?
No incêndio de Águeda de 1986, fez 40 anos no dia 14 de junho. O incêndio começou na Serra do Caramulo e os bombeiros demoraram mais de uma hora a chegar ao local do início do fogo. As pessoas que viviam nas aldeias da serra deram-se conta de que se tivessem meios poderiam ter até atacado o fogo e evitar a morte de 16 pessoas [13 bombeiros e três civis]. Mais tarde essas pessoas criaram unidades locais de proteção civil: através de subscrições e ofertas, adquiriram veículos de combate iguais aos dos bombeiros e tiveram treino fornecido pelos bombeiros. No verão estavam preparados e se havia incêndios naquela zona eles em 5 ou 10 minutos estavam em cima do incêndio.

Ainda existem hoje?
Sim, estas unidades locais foram replicadas em vários outros pontos do país e devem existir cerca de uma centena em todo o país. É o que se faz também noutros países do mundo.

O centro de estudos colaborou na construção de abrigos coletivos. O que são?
Os abrigos resultam do estudo e da análise de vários incêndios em que as pessoas se encontraram ameaçadas por um incêndio sem possibilidade de se retirarem em segurança. Podem ser refúgios em espaços abertos, como um campo de futebol ou uma piscina. Ou abrigos, espaços fechados que tenham resistência ao fogo, em geral são as igrejas, ou então, construções feitas para esse fim. Colaborámos em alguns desses projetos. Um deles na aldeia de Ferrarias de São João, em Penela.

Quais são as características do abrigo?
É uma área de betão completamente coberta, fechada, com espaços no interior onde as pessoas possam permanecer durante horas, preservadas de fumos e de gases quentes, até mesmo pessoas com necessidades respiratórias. Em outros casos, estamos a aproveitar construções que já existam e que são adaptadas, por exemplo, um salão de festas ou uma cave. O que é desaconselhado em absoluto é que as pessoas fujam à última hora, que se metam nos carros para o meio do incêndio, é assim que têm acontecido as maiores tragédias.

O que aprendemos com Pedrógão Grande?
Pelo menos nos primeiros anos, notámos uma sensibilidade grande relativamente à limpeza da vegetação em torno das casas. Também as autoridades têm sido mais atentas, a fiscalizar essa medida legal, que já havia de antes, só que não era respeitada. A diferença é que antes de Pedrógão, a maior parte das vítimas eram bombeiros, depois a maioria das vítimas foi entre cidadãos comuns. Qualquer pessoa em quase qualquer ponto do território pode ser atingida por um incêndio.

A inteligência artificial é usada no combate aos incêndios?
É usada num projeto nacional que se chama Gémeo Digital da Floresta em que estamos a criar um sistema informático que utiliza bases de dados sobre a floresta, desde o coberto vegetal, o terreno, a história dos incêndios passados, áreas ardidas e meteorologia. Quando lidamos com um número muito grande de bases de dados, a inteligência artificial identifica a relação entre parâmetros e facilita a tomada da melhor decisão na prevenção e no combate.

sábado, 9 de maio de 2026

Carta aberta ao Ministério do Ambiente e Energia contesta plano de gestão da ZEC Alvito/Cuba por ausência de espécie-alvo


Uma carta aberta subscrita pela Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural e pela CPADA – Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente contesta a proposta de Plano de Gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) Alvito/Cuba, acusando o documento de se basear na conservação da espécie Linaria ricardoi apesar de não existirem registos recentes da sua presença confirmada na área, segundo dados de prospeções realizadas entre 2019 e 2025.

Segundo a mesma fonte, a credibilidade da Rede Natura 2000 “assenta na eficácia em conservar valores naturais que ocorrem nas áreas classificadas para esse propósito, de forma significativa e comprovada. É por isso que constitui um dos pilares centrais da política europeia de conservação da biodiversidade”.

A proposta de Plano de Gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) Alvito/Cuba (PTCON0035), elaborada pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, que esteve em consulta pública entre os dias 2 e 30 de abril, foi criada com o objetivo exclusivo de conservação da planta endémica e prioritária Linaria ricardoi, espécie que consta do Anexo II da Diretiva Habitats da União Europeia. Contudo, “já não existe qualquer população confirmada de Linaria ricardoi dentro dos atuais limites da ZEC Alvito/Cuba, de acordo com os resultados das prospeções realizadas entre 2019 e 2020 pelo próprio ICNF, nem nas de 2025 ao encargo da SPB – Sociedade Portuguesa de Botânica”, alerta a nota.

A carta explica que o objetivo de conservação desta espécie, que se restringe ao Baixo Alentejo, deu origem ao Sítio Alvito/Cuba, incluído na Lista Nacional de Sítios, em 2000, tendo passado mais de duas décadas desde a classificação. Desde que passou de Sítio a Zona Especial de Conservação, esteve mais seis anos sem qualquer plano de gestão. O resultado é claro: “a extinção da espécie está em processo, o seu estatuto de ameaça tem-se elevado e a estratégia seguida falhou em travar essa tendência”.

No entanto, lê-se ainda, os próprios documentos oficiais do Estado português – incluindo o Relatório para a Conclusão do Processo de Designação da ZEC e o Plano de Gestão agora proposto – apresentam medidas “claramente incoerentes e desfasadas da realidade”:

O Plano de Gestão proposto insiste em propor metas como “aumentar o número de quadrículas ocupadas” ou “aumentar a densidade populacional” em ambas as parcelas classificadas como ZEC, aplicadas a um território onde a planta simplesmente não ocorre.

Uma ZEC que falha os critérios da Diretiva Habitats
De acordo com a Diretiva 92/43/CEE, a designação de Zonas Especiais de Conservação deve basear‑se, entre outros critérios, na existência real de populações das espécies que se pretendem conservar e na adequação ecológica do sítio para assegurar a sua sobrevivência a longo prazo.

Manter uma ZEC delimitada numa área onde:
  1. A espécie já não ocorre;
  2. Os solos não correspondem aos seus requisitos ecológicos;
  3. E as práticas agrícolas intensivas e super-intensivas dominantes são incompatíveis com o seu ciclo de vida, “representa um desvio claro dos objetivos da Diretiva Habitats e enfraquece a coerência da Rede Natura 2000”.
Atualmente, o Plano de Gestão em causa propõe manter os limites atuais da área e estender esta estratégia com vigência de dez anos, com base na escassa “possibilidade de persistência de um banco de sementes no solo”, enquanto há evidência científica de que a manutenção de um banco de sementes em olivais intensivos é improvável devido à modificação das condições ecológicas. Existem áreas alternativas, bem documentadas, onde a espécie ocorre com sucesso reprodutivo em vários municípios.

“Conservar mal é também perder tempo e colocar em causa a efetiva proteção da espécie”, sublinham as organizações.

E acrescentam: “persistir na implementação de um plano de gestão desajustado significa, na prática:
1 – Desviar recursos públicos para um território que não responde às necessidades da espécie;
2 – Impor condicionamentos territoriais a populações locais sem benefício ecológico comprovado;
3 – Adiar, mais uma vez, a proteção efetiva dos núcleos populacionais que garantem a sobrevivência de Linaria ricardoi”.

Um apelo à coerência, à ciência e à coragem institucional
A conservação da natureza “exige decisões difíceis, mas baseadas na evidência. Hoje, a própria documentação oficial reconhece que existe um desajuste entre a Rede Natura 2000 e as áreas de maior abundância de Linaria ricardoi”, alertam.

Perante este reconhecimento, “é incompreensível insistir na aprovação de um Plano de Gestão que perpetua esse erro”.

Defendem, por isso, que:
  • A atual proposta de Plano de Gestão da ZEC Alvito/Cuba não deve ser aprovada nos termos em que se encontra elaborada;
  • O processo deve ser reformulado com base na redefinição dos limites da ZEC para áreas onde a espécie efetivamente ocorre e onde existem núcleos populacionais que asseguram a diversidade genética nacional;
  • As entidades associadas e responsáveis pelo Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva, como a EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva, S.A., melhorem os efeitos das medidas estipuladas nas Declarações de Impacte Ambiental e nos Relatórios de Conformidade Ambiental (uma vez que falharam em impedir a extinção ou o processo de extinção em cerca de 87 núcleos de L. ricardoi, por destruição direta do seu habitat, num período de 20 anos).
“Proteger uma espécie ameaçada faz‑se onde ela existe, onde pode sobreviver e onde as medidas de conservação fazem sentido, em estreita colaboração com a população”, sublinham.

E concluem: “conservar a natureza exige rigor, mas também humildade para corrigir decisões passadas e atualmente erradas. Neste caso, essa correção é não apenas possível, mas urgente”.

Esta carta aberta é subscrita pela Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural e pela CPADA – Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente, a maior organização ambientalista do país, integrando cerca de 100 associações de defesa do ambiente ou organizações não governamentais de ambiente, de âmbitos nacional, regional e local, quer no Continente, quer nas Regiões Autónomas.

domingo, 3 de maio de 2026

Floresta: Portugal vai buscar insetos ao outro lado do mundo para salvar 3.000 milhões de euros por ano de exportações


Um escaravelho minúsculo, mas voraz, está a preocupar o setor florestal português. A traquimela - uma praga que se alimenta das folhas de eucalipto — ameaça um dos pilares das exportações nacionais: a fileira da pasta e do papel vale mais de 3.000 milhões de euros por ano.

A resposta está a milhares de quilómetros. Na Austrália, origem do eucalipto e também das suas pragas, investigadores portugueses procuraram aliados naturais: insetos que se alimentam da traquimela. No final do ano passado, cerca de 200 exemplares foram trazidos para Portugal e estão agora em quarentena, sob vigilância apertada.

O objetivo é simples, mas o processo é tudo menos trivial: garantir que estes “insetos bons” atacam exclusivamente a praga e não colocam em risco outras espécies ou culturas. “Como estamos a introduzir uma espécie nova, temos que ter a certeza que esse bicho só vai atacar a praga que nós queremos destruir”, explica Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

Em laboratório, a estratégia passa por simular o que acontece na natureza. Os investigadores criam a traquimela e expõem os potenciais predadores a diferentes espécies, incluindo insetos autóctones, para testar o seu comportamento alimentar.

A lógica segue um princípio conhecido como controlo biológico: combater uma praga com os seus inimigos naturais, evitando o recurso a químicos e tentando reequilibrar o ecossistema. “Vamos buscar à Austrália porque o eucalipto é de lá. As pragas são de lá e os insetos benéficos também”, resume a especialista em proteção de plantas e florestas.

O instituto RAIZ, criado pela Navigator, tem duas décadas de experiência neste tipo de intervenção — e já ajudou a resolver outras pragas em Portugal. Mas cada nova introdução exige testes demorados e rigorosos.

Só depois de meses - por vezes anos - de validação é que estes aliados improváveis podem ser libertados no terreno.

“Um inseto importado evitou que a cultura de eucalipto fosse completamente destruída”
Para compreender melhor a importação de armas biológicas da Austrália, a CNN Portugal entrevistou Catarina Gonçalves, investigadora do RAIZ - Instituto de Investigação da Floresta e Papel.

Há quanto tempo vamos buscar bichos à Austrália?
Os primeiros trabalhos na Austrália aconteceram em 2008. Os primeiros insetos foram importados em 2009. Desde então temos ido regularmente à Austrália, tendo a última vez sido em final de 2025, para procurar insetos contra uma praga que está a ser muito destrutiva, chamada traquimela, e para uma planta invasora, a acácia mimosa.

Esses imigrantes já foram espalhados pela floresta?
Sim. Já libertámos na natureza três espécies. Todas passaram por vários anos em quarentena, para testes. Só depois foram libertadas, com as autorizações das entidades competentes. Atualmente, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Com que resultados?
Os resultados têm oscilado entre o sucesso total, em que a praga que queremos controlar deixou de ser um problema, e um caso em que o inseto benéfico não conseguiu competir com outro que já estava estabelecido. Ou seja, não causou danos, mas também não teve uma contribuição significativa. Há um caso extremo de sucesso de um inseto, o ‘Anaphes nitens’, contra o gorgulho-do-eucalipto, que é um verdadeiro caso de estudo a nível mundial. Em Portugal, há um estudo científico que coloca o benefício deste inseto em, pelo menos, 1,8 mil milhões de euros. Na prática, este inseto foi a diferença entre ser possível produzir eucalipto em Portugal ou ter a cultura completamente destruída pela praga. Importa ainda referir que os insetos podem ser eficazes sozinhos ou complementarmente com outras técnicas de controlo das pragas, como o uso de plantas resistentes (o chamado melhoramento genético) ou boas práticas de silvicultura.

Colaboram com universidades?
Felizmente, temos uma rede de parcerias de luxo. Começámos por trabalhar com a Navigator Forest Portugal, a Altri Florestal e com o Instituto Superior de Agronomia. Com o tempo fomos alargando as parcerias, que incluem hoje também a Universidade de Coimbra, a Escola Superior Agrária de Coimbra, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, a ENCE (Espanha), a University of the Sunshine Coast (Austrália), a CSIRO (Austrália), Servicio Agrícola y Ganadero (Chile), o Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (Uruguai), o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Brasil), entre outros.

Como articulam a vossa atividade com o Estado?
Trabalhamos sempre com acompanhamento e supervisão do ICNF.

Oferecem ou vendem as espécies importadas a terceiros?
Não vendemos insetos, mas doamos a quem nos contacte através das equipas de apoio aos produtores. A estratégia é sempre libertar o máximo viável dentro das possibilidades de criação e ter como objetivo o benefício da floresta em geral. É normal que boa parte das áreas beneficiadas com o controlo biológico sejam de terceiros, frequentemente de pequenos produtores, que muitas vezes não têm acesso a outras formas de controlo, como as plantas resistentes.

sábado, 7 de março de 2026

Forest restoration would reduce the risk of forest fires. Countries like Portugal stand to benefit greatly


Fern Forest campaigner Siim Kuresoo shares insights from a recent field-trip to meet with foresters, local leaders and community members in Portugal – a country that has increasingly experienced severe forest fires.

As European summers get hotter and drier, devastating forest fires are becoming the Portuguese norm, along with dramatic images of fast-moving flames, airplanes trying to quell them, and people fleeing for their lives.

The overriding impression is that this is what we need to expect in the era of climate change. But is there more to this story?

To find out, Anna Muizniece (she/her) and I spent a few days in northern Portugal meeting with experts to find out what’s happening: João Paulo Fidalgo Carvalho (forestry academic and head of Pro Silva Portugal); Miguel Ribeiro (a forestry and restoration officer at NGO Quercus); and Fernando Antunes Amaral (forest fire survivor and activist). We visited impacted areas and talked with people eager to prioritise community safety and resilience.

They taught us much about the history of the problem, including that this is not a naturally occurring problem. The fires are heightened by the eucalyptus plantations that have been expanding for more than half a century, taking over land as rural abandonment grows and agricultural patterns change. Such plantations provide raw material for the mighty pulp and paper industry, and money for landowners struggling to find a purpose for their land.

But the social and environmental costs are enormous
Portugal’s natural tree species form less flammable, more biodiverse and carbon-rich ecosystems able to provide higher long-term economic returns for the landowner, but shifting to continuous cover forestry takes work, and the financial rewards aren’t immediate.

Nonetheless, some municipalities and communities are taking on the hard work and financial burden, despite receiving little of the external support they need, like funding and technical advice. And while the EU is helping by coordinating emergency help to put out fires, it would be cheaper in the long run for EU funds to help prevent the fires from happening in the first place. The Nature Restoration Regulation (NRR) explicitly requires Portugal to support the transition away from eucalyptus and EU funds could initiate a systemic change in land use.

But change will not happen while the pulp industry dominates policy and resource allocation. Funds from the Common Agricultural Policy must not be used to subsidise an industry determined to put production of short-lived products above people's safety.

EU funds must prioritise ambitious National Restoration Plans.
Doing so would support the inspiring people we met on our journey such as José and Joaquim, the former and current mayor of the local municipality of Bragança. Despite being fierce political opponents, they both take huge pride in the region’s forest restoration and share smiles when discussing turning a eucalyptus plantation into an oak forest. O Sr. Sergio, from Talhadas village, who responded to a big fire in 2024 by organising the community to restore natural forests. He doesn’t mind long working days but is increasingly worried about being seen as an enemy by the pulp industry and its powerful friends, and what this means in terms of obstacles to his mission.

So there is more to the story of Portugal’s fires. The very landscape has become a danger to its inhabitants because of one powerful industry, and because of the perverse use of funds to support this harmful type of forestry. But sadly, this is not just the case in Portugal. Similar stories are occurring across the EU, as revealed by Metodi Sotirov’s recent study Funding resilient forests: Rethinking EU and State subsidies. We still have time to implement the changes he recommends, but do we have the political will?

sábado, 31 de janeiro de 2026

Porque caem tantas árvores durante as tempestades?


Nos últimos anos Portugal tem assistido a um aumento significativo da queda de árvores durante tempestades intensas. Embora estes episódios sejam muitas vezes percecionados como acontecimentos súbitos ou inevitáveis, a ciência mostra que não se trata de fenómenos aleatórios. Pelo contrário, a queda de árvores resulta da combinação previsível entre condições do solo, características das próprias árvores, contextos urbanos e florestais, e eventos meteorológicos cada vez mais extremos.

Um dos fatores críticos é o estado do solo. Durante períodos de chuva intensa ou cheias, os solos ficam saturados de água e perdem grande parte da sua resistência. A água acumulada nos poros do solo reduz o atrito e a coesão que mantêm as raízes firmemente ancoradas. Nessas circunstâncias, árvores que permaneceriam estáveis em solos secos podem tombar mesmo sob ventos moderados. Este mecanismo é uma das explicações mais bem documentadas para a queda de árvores associada a tempestades.

A idade das árvores e o tipo de povoamento também desempenham um papel decisivo. Árvores jovens, comuns em plantações recentes, ainda não desenvolveram sistemas radiculares profundos e extensos. Em florestas mais maduras, as raízes entrelaçam-se e criam uma estabilidade coletiva que ajuda a dissipar a força do vento. Em contraste, povoamentos jovens e homogéneos – muitas vezes compostos por árvores da mesma idade e espécie – são estruturalmente mais frágeis, o que explica porque grandes áreas podem ser afetadas de forma simultânea durante eventos extremos.

Nas cidades, o problema tende a ser ainda mais grave. As árvores urbanas vivem sob múltiplos fatores de stress: solos compactados, pouco espaço para enraizar, impermeabilização do terreno, poluição, temperaturas elevadas e podas excessivas ou mal executadas. Ao longo do tempo, estas condições enfraquecem as árvores, favorecem o desenvolvimento de podridões internas e reduzem a sua capacidade de resistir ao vento. Como resultado, as árvores urbanas têm maior probabilidade de falhar, seja pelo arranque da raiz, seja pela quebra do tronco ou dos ramos.

As próprias tempestades amplificam estes riscos. A força exercida pelo vento aumenta rapidamente com a sua velocidade, e as copas molhadas pela chuva tornam-se mais pesadas e oferecem maior resistência ao ar. As rajadas provocam movimentos repetidos que “cansam” o tronco e o sistema radicular, acelerando a falha estrutural, sobretudo quando o solo já se encontra saturado.

Este cenário é agravado pelo contexto das alterações climáticas. Em Portugal, é cada vez mais comum a sucessão de longos períodos de seca – que debilitam as árvores – seguidos de episódios de chuva intensa e tempestades severas. Estes eventos combinados aumentam significativamente o risco de queda, uma vez que as árvores não têm tempo suficiente para recuperar nem para adaptar a sua estrutura às novas condições.

Em suma, a queda de árvores durante tempestades é um fenómeno explicável e, até certo ponto, previsível. Resulta da interação entre solos encharcados, sistemas radiculares pouco desenvolvidos, stress fisiológico (particularmente em ambientes urbanos) e eventos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes.

Se queremos continuar a viver com árvores, e a beneficiar dos múltiplos serviços ecológicos, climáticos e sociais que prestam, é imperativo preparar não apenas as infraestruturas físicas, mas também as infraestruturas naturais. Isso implica reconhecer que árvores não são elementos decorativos nem obstáculos urbanos, mas organismos vivos que dependem de solos funcionais, espaço para enraizar, diversidade estrutural e tempo para se adaptarem. A gestão do risco associado às tempestades futuras passa, portanto, por investir na qualidade dos solos, no desenho ecológico das cidades e das florestas, e numa abordagem preventiva baseada no conhecimento científico. Sem esta preparação sistémica, a coexistência com árvores tornar-se-á cada vez mais frágil num clima em rápida mudança.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O carvalhal


«Nos cumes mais elevados encontram-se, nos lugares húmidos, os bosques de vidoeiros e sobre os rochedos as sorveiras. Nos lugares mais baixos atingem-se no norte de Portugal os bosques de carvalhos, em que as árvores estão suficientemente próximas para darem sombra aos caminhos e suficientemente afastadas para permitirem a passagem.
Os vales do Minho estão cobertos de bosques de carvalhos contínuos. Em seguida surge a região dos bosques de castanheiros, os verdadeiros bosques deste país, cujas árvores se tocam pela folhagem. Ornam as encostas da Serra do Marão, da Serra da Estrela, na direcção do Fundão, da Serra de Portalegre e de Monchique. No sopé das grandes montanhas encontram-se os pomares, onde a cultura dos frutos é sinal de região fria. Mais abaixo surgem a árvore da cortiça, o carrasco, o pinheiro-marítimo, em seguida o limoeiro e finalmente a laranjeira. A oliveira está ainda mais espalhada, encontra-se perto dos vidoeiros do Gerês e ao lado das laranjeiras, perto de Lisboa.»
baseado nas viagens de Hoffmansegg e Link

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Novo estudo mostra que a expansão das plantações de eucalipto no País Basco levantou preocupações em relação à biodiversidade, particularmente, aos efeitos adversos sobre as comunidades aviárias


A expansão das plantações de eucalipto no País Basco levantou preocupações em relação à biodiversidade, particularmente, aos efeitos adversos sobre as comunidades aviárias. Este estudo examinou as diferenças na diversidade de espécies de aves em três grandes ecossistemas florestais (florestas nativas, plantações de pinheiros e plantações de eucalipto) e avaliou os fatores que influenciam estas variações, incluindo a vegetação, a paisagem circundante, a estrutura da floresta, a localização e a madeira morta. 
Os nossos resultados indicaram que as plantações de eucalipto suportam uma menor riqueza e abundância de espécies de aves em comparação com as florestas nativas e as plantações de pinheiros, e que a composição de espécies de aves nas plantações de eucalipto era distinta dos outros dois ecossistemas florestais, especialmente em comparação com as florestas nativas. Embora as plantações de pinheiros acolhessem algumas espécies de aves florestais, as comunidades aviárias permaneceram distintas das das florestas nativas, enfatizando o papel insubstituível das florestas nativas como habitat das aves. 
Além disso, uma análise das interações entre aves e plantas sugeriu que a maioria das interações entre plantas e aves eram com plantas nativas, uma vez que as espécies de plantas e a diversidade estrutural das florestas nativas fornecem um conjunto mais amplo de nichos para as aves, em comparação com comunidades mais simplificadas de plantações florestais. 
Além disso, estas interações ocorreram principalmente com plantas de frutos silvestres em comparação com espécies arbóreas. 
O nosso estudo destaca a necessidade urgente de conservação e restauro das florestas nativas para manter a diversidade aviária e sublinha a importância de estratégias de gestão florestal sustentável que priorizem a conservação da biodiversidade.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Demorar a chamar os fascistas pelo nome, custará a nossa democracia

Khan Younis, sul da Faixa de Gaza, 22 de novembro de 2023. Foto de Mohammed Dahman

A esfera pública, tanto nas redes sociais quanto na diplomacia internacional, está dominada por uma novilíngua cautelosa, onde a precisão sucumbe ao medo da reação. Palavras como genocídio, racismo, xenofobia, e apartheid são substituídas por termos amenos, não porque perderam relevância, mas porque se tornaram mistificação e que ameaçam os ditadores e multinacionais.

Nas plataformas digitais, a autocensura é uma tática de sobrevivência e de submissão, à custa de desinformação massiva e de desgaste e até MEDO. Evitamos nomear o ódio e a violência com termos exatos para não sermos punidos por algoritmos ou pelo "cancelamento". O despeito pelas reivindicações dos sindicatos existe e os globocratas tudo estão a fazer (via controlo dos media, plataformas digitais, com desinformação e com posições abertamente desumanas e cheias de maldade) para os denegrir e isso é também uma ameaça à democracia. Acrescentaria arrivismo!

Essa moderação artificial impede que o público/ cidadão chame o que é sujo pelo seu nome, distorcendo a gravidade dos problemas sociais e ideológicos.

Há claramente uma lavagem do cidadão (citizen washing). A citizen washing refere-se a estratégias de empresas, governos ou organizações que usam uma retórica de cidadania, participação cívica ou empoderamento social para melhorar a sua imagem, sem realmente promoverem mudanças estruturais ou garantirem uma participação efetiva dos cidadãos. É, portanto, uma forma de “lavagem” comunicacional: aparentar compromisso democrático ou inclusivo sem o praticar de facto.

No palco global, essa mesma pressão se manifesta. O caso de Israel e o conflito em Gaza é o exemplo perfeito. A coragem da África do Sul de usar a palavra "genocídio" na Corte Internacional foi recebida com indignação por nações ocidentais, que preferiam a linguagem de "crise humanitária" ou "direito de defesa". Essa rejeição inicial serve para defender o status quo e evitar implicações políticas e jurídicas.

Estamos também mergulhados numa crise democrática com novos colonialismos: químicos (pesticidas e outros venenos) , lavagem verde, monoculturas intensivas e exóticas (eucalipto, soja, milho, etc), minerais raros, ouro, diamantes, Big Oil, Big Tech e Big Pharma. Onde vivem cá Elon Musk e os seus comparsas multibilionários, todos reconhecidamente de direita e por vezes com atitudes e compromissos da ultra-direita.

O Sul Global e a China perseguem os seus "activistas" ora ambientais ora dos direitos humanos e até os assassinam!

No fim, a novilíngua não é sobre civilidade, é sobre controle. Ao nos impedir de usar as palavras mais quentes, ela nos impede de sentir a indignação e a urgência necessárias para exigir mudanças. É uma ferramenta de moderação que prioriza a ordem da narrativa em detrimento da verdade nua e crua.

Assim como não chamamos de genocidas, quem comete crimes contra a humanidade, também não chamamos de fascistas quem defende políticas fascistas! Chamamos de extrema direita, suavizando o que são realmente. Para os Palestinianos, demorar a chamar de genocídio apenas aumenta o número de mortos.

Demorar a chamar os fascistas pelo nome, custará a nossa democracia.

Referências bibliográficas

domingo, 21 de setembro de 2025

Porto contra os eucaliptos e na defesa da floresta tradicional

O país não pode estar entregue à celulose, além disso, o eucalipto não é assim tão bom negócio quanto isso.

"Com mais um bocado de trabalho, o carvalhal dá mais rendimento", argumentou Carlos Evaristo, apontando a um estudo da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Embora demore mais anos a crescer, uma floresta de carvalhos "permite subprodutos como os cogumelos ou o mel, valoriza a paisagem e atrai turistas - ninguém gosta de fazer turismo no meio dos eucaliptos", acrescentou, lembrando o mote principal da manifestação: os fogos florestais.

"O eucalipto é uma árvore que beneficia do fogo para se reproduzir", diz Carlos Evaristo. A árvore, originária da Austrália, não só medra no fogo como "é terreno fértil para outras invasoras como mimosas e acácias", argumentou, defendendo a substituição do eucaliptal por floresta autóctone. "Os carvalhos e sobreiros desenvolveram estratégias melhores para lidar com o ciclo do fogo", argumentou.

"A monocultura do eucalipto é uma paisagem monótona que só degrada os solos", que não é só consequência, mas também causa. "Num interior abandonado, o eucalipto cresce por ele próprio, não precisa de manutenção, não produz emprego e contribuiu mais para a desertificação", defende Carlos Evaristo.


O que precisamos é de uma floresta para o futuro, uma floresta com várias espécies misturadas e com espécies nativas, espécies que já estão adaptadas às nossas condições climáticas há milhares e milhares de anos, portanto, não precisamos de espécies exóticas que nos trazem os  problemas atrás referidos.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Marque na sua agenda - Participe amanhã na Manifestação "Deseucaliptar, Descarbonizar e Democratizar", em várias regiões do País


Toda a informação aqui

Este sábado, dia 20 de Setembro, haverá manifestações em 15 localidades do país, sob o mote de "que outra floresta é possível" e também "outra vida é possível para quem persiste em habitar em zonas rurais". Organizada por um grupo de cidadãos, a iniciativa terá lugar em Águeda, Arganil, Aveiro, Braga, Coimbra, Lisboa, Lousã, Odemira, Oliveira do Hospital, Pedrógão Grande e no Porto. 

Os mobilizadores defendem que "há várias propostas e reflexões a fazer", bem como "exigências e demandas imediatas e para os próximos anos". A iniciativa acontece a dois dias do começo do Outono, escolha que não terá sido aleatória. "O Verão finda e as televisões, os jornais, as rádios, as conversas nos cafés estão já concentradas noutros temas", reflectem os cidadãos, nas redes sociais, defendendo que a floresta e os incêndios rurais são temas para todo o ano.

Mobilização popular é "necessária"
Já em Setembro de 2024, a rede cidadã havia organizado o protesto "Pela Floresta do Futuro" e afirmou, em Agosto passado, que estava a iniciar um "processo de mobilização, contactando organizações nacionais e na Galiza". O objectivo primeiro é "lutar pela vida das pessoas que vivem nas áreas rurais, mas não só, é necessária uma crescente mobilização popular que travem os planos catastróficos que resultam da combinação dos interesses da indústria dos fósseis e das celuloses, apoiados pelos governos ibéricos durante as últimas décadas", acusam.

Este Verão, Portugal foi o país com a maior percentagem de área ardida da União Europeia. Foram destruídos mais de 3% do território nacional, com o incêndio de Arganil a assumir-se como o maior de sempre.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Antes que tudo arda

Incêndio em Avô (Oliveira do Hospital)

Em 2017, Portugal enfrentou uma das suas maiores tragédias coletivas: o incêndio de Pedrógão Grande. Uma ferida que destruiu vidas, memórias e esperanças, e expôs a vulnerabilidade estrutural do país. Nesse ano, após ouvir diferentes vozes ligadas à prevenção e ao combate, preparei uma breve síntese sobre a situação da floresta portuguesa. O retrato era conhecido, mas revelou-se devastador: um mosaico desordenado de pequenas propriedades essencialmente privadas, muitas abandonadas; política florestal errática e ausente no terreno; uma vigilância insuficiente; proteção civil dependente de participação voluntária; meios aéreos privados caros, mas ainda assim ausentes; comunidades rurais envelhecidas e esquecidas. Em síntese: uma floresta frágil, altamente inflamável, e um Estado incapaz de salvaguardar o interesse público.

Passaram oito anos. Houve avanços: destacaria o BUPi e os processos de emparcelamento que abriram caminho para resolver a fragmentação fundiária; a criação da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) e a sua ação programática trouxe mais visibilidade e expressão territorial à política florestal; a vigilância tecnológica progrediu; a proteção civil incrementou a capacidade de intervenção e preparação; a contratação de meios aéreos tornou-se mais transparente, mas ainda assim ineficaz.

No essencial, os bloqueios estruturais mantêm-se intactos. A floresta continua dividida, sem escala para uma gestão eficiente e transformadora. As políticas públicas do setor transitaram entre ministérios, mas permanecem sem coerência e incapazes de inspirar a confiança que o problema exige. A vigilância tecnológica cobre apenas parte da realidade diversa do país. A proteção civil, mais preparada, continua excessivamente dependente de esforço voluntário. O papel das Forças Armadas mantém-se episódico e sem coordenação local. Os projetos-piloto de mosaicos resilientes existem, mas são insuficientes para travar tendências e implementar a transição florestal, e as comunidades rurais continuam esmagadas pela burocracia e pelo abandono.

A verdade é que pouco mudou. A floresta portuguesa continua refém de interesses sobrepostos, centralismo sufocante e ausência de reformas estruturais que integrem floresta, agricultura, água e biodiversidade num mosaico vivo e resiliente. A acumulação descontrolada de biomassa, alimentada pelo abandono rural, transformou vastas áreas em depósitos de combustível à espera da próxima ignição. E manter grandes extensões de monocultura inflamável, num contexto climático cada vez mais adverso — com secas mais longas, ondas de calor mais intensas e ciclos de incêndio cada vez mais prolongados — é prolongar a catástrofe. É urgente diversificar espécies, apostar em ecossistemas resilientes, combinar produção florestal com regeneração ambiental e colocar a floresta ao serviço da segurança, da economia e da vida.

Esta mudança exige também um novo contrato com a indústria. O setor não pode ser assistente ou comprador de matéria-prima barata e combustível para exportação. Precisa de assumir corresponsabilidade na regeneração, investir em gestão sustentável, inovar em produtos de maior valor acrescentado e comprometer-se com a transição ecológica do país.

O futuro exige cinco escolhas inadiáveis: governança descentralizada com técnicos e meios próximos do território; uma reforma fundiária realista que permita gestão conjunta; a profissionalização parcial do combate, associada à prevenção; a assunção realista e firme do nexo entre floresta, agricultura, água, biodiversidade e clima; e, sobretudo, a reconstrução da confiança social, devolvendo às comunidades o papel de parceiras centrais, com incentivos claros e retorno económico justo.

Se 2017 foi o ano da tragédia, e 2018–2025 o tempo da resposta insuficiente, o próximo ciclo só pode ser o da reforma estrutural. Ou teremos a coragem de transformar a floresta portuguesa em alavanca de resiliência e futuro, ou continuaremos prisioneiros de um ciclo de fogo, abandono e luto.

Antes que tudo arda.

domingo, 17 de agosto de 2025

"Vamos embora", disse a ministra quando ia a ser confrontada com o que se está a passar nos incêndios


Decisão de não responder a perguntas surge no mesmo dia em que a Proteção Civil admitiu falhas num sistema crucial para os bombeiros (e não só). E há "muita coisa por explicar", está a ser "demasiado mau"
A declaração ao país da ministra da Administração Interna deste domingo durou menos de cinco minutos. Nela, Maria Lúcia Amaral comunicou que o Governo entendeu estender por mais 48 horas a situação de alerta face ao agravar dos incêndios - que já consumiram mais de 170 mil hectares e que, durante os últimos dias, levaram à morte de pelo menos duas pessoas, além de terem provocado destruição e consumido habitações e explorações agrícolas. No final, os jornalistas na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil tentaram fazer perguntas à ministra, mas a Maria Lúcia Amaral recusou-se a responder. "Vamos embora", disse - e depois foi mesmo.

A CNN Portugal questionou a razão por trás desta decisão, mas não obteve resposta. 

A decisão do Ministério da Administração Interna de não responder às perguntas dos jornalistas surge no mesmo dia em que a Proteção Civil admitiu falhas no sistema SIRESP, a rede de comunicações do Estado para comando e coordenação de comunicações em situações de emergência. Um problema que tem sido recorrente de cada vez que o país enfrenta uma crise - aconteceu, por exemplo durante o apagão geral de abril deste ano - e que levou o comandante dos bombeiros Luís Martins a descrever o assunto desta forma à CNN Portugal: "A rede de SIRESP muitas vezes falha e todos os anos falamos disto. É mais do mesmo, é de lamentar que uma das ferramentas importantes dos bombeiros não esteja disponível para o combate." 

Não houve, no entanto, qualquer referência da parte da ministra ao SIRESP, sistema o Governo pretende substituir - depois de em julho ter anunciado uma prorrogação de um estudo técnico com "o objetivo de encontrar uma solução que assegure um sistema de comunicações robusto, fiável, resiliente, tecnologicamente adequado e plenamente interoperável". De resto, as explicações dadas pela ministra abordaram também os fatores naturais que têm prejudicado o combate operacional aos incêndios, como o "agravamento dos ventos" e o "fumo intenso". 

O comandante Jorge Mendes refere à CNN Portugal que há "muita coisa ainda por explicar". "Sabemos neste momento que há bombeiros parados à espera de indicações para combater incêndios. Há zonas de combate que estão sem rede de comunicação. Há um certo desnorte em algumas zonas. Depois de isto tudo ter terminado, espero que as pessoas responsáveis façam uma avaliação e retirem consequências. Isto é demasiado mau, temos Sabugal completamente rodeado de chamas, temos Seia com o mesmo problema. Alguém terá de tirar as suas consequências."

A comunicação da ministra foi feita ao país num momento particularmente difícil no combate às chamas no Sabugal, onde quatro aviões Canadair deram este domingo apoio no incêndio que afeta o concelho raiano da Guarda desde sexta-feira, o que acabou por evitar que as chamas atingissem a aldeia de Rapoula do Côa, que esteve cercada. Os fogos, no entanto, continuam em polos opostos - o que tem dificultado a resposta das autoridades.

Também em Seia, a frente que nasceu em Teixeira passou as Pedras Lavradas, no Parque Natural da Serra da Estrela, e progride “com grande violência” na direção da freguesia da Erada, na Covilhã. Foi também neste município que foi registada a segunda vítima mortal desta vaga de incêndios: tratou-se de um bombeiro que morreu num acidente de viação enquanto se deslocava para um incêndio no Fundão. Em comunicado, a Proteção Civil indicou que o acidente ocorreu pelas 19:10 e que existiram ainda “quatro bombeiros feridos, que estavam a ser resgatados/assistidos pelas equipas de emergência no local”.

Já em Pampilhosa da Serra, a situação tornou-se mais dramática nas últimas horas, com o presidente do município a explicar que o vento "mudou", avançou a "grande velocidade" e que o fogo ficou "completamente descontrolado". “Neste momento a dimensão está de tal maneira... está de tal maneira descontrolado que já não há carros suficientes até para proteger as povoações”, avisou o autarca. 

A situação mantém-se portanto "desfavorável" - nas palavras do Ministério da Administração Interna - dois dias depois de Portugal ter pedido ajuda europeia para responder aos incêndios. O Governo acionou o Mecanismo Europeu de Proteção Civil na sexta-feira após ter rejeitado, num primeiro momento, essa possibilidade. A 7 de agosto, o MAI justificava que o país não precisava de ajuda externa por ter meios suficientes para responder ao avançar dos fogos. "Ainda não chegámos, felizmente, e esperamos e contamos não ter de chegar, à verificação de que já não somos capazes de debelar um problema com os nossos próprios meios", referia, na altura, a ministra. 

Essa decisão criticada pela oposição. No início do mês, o Chega disse que iria questionar o Governo sobre o atraso na ativação do mecanismo e o PS garantiu na altura que o apoio deveria ter sido pedido antes de forma a pré-posicionar meios aéreos para o combate aos incêndios. "O tempo deu-me razão", disse este domingo José Luís Carneiro à CNN Portugal, acrescentando que "há falhas graves de coordenação e essa coordenação precisa urgentemente de um comando político".

terça-feira, 15 de julho de 2025

Pedrógão Grande: terra de vã esperança e falsas ilusões

SCAPEFIRE defende redução do eucalipto em 12%

No passado dia 30 de junho terminou o período de discussão pública do Programa de Reordenamento e Gestão da Paisagem das Serras da Lousã e do Açorm (PRGPSLA). Antes, na apresentação do mesmo, em Castanheira de Pera, tive a oportunidade de revisitar a região de Pedrógão Grande, na área afetada pelo grande incêndio que percorreu a região entre 17 e 24 de junho de 2017. Sem novidades de monta, constatei o esperado!

No terreno, oito anos depois, persiste a ausência do Estado no que diz respeito ao ordenamento do território, pontuado por algumas “gotas” de iniciativa autárquica e privada num “oceano” de economia extrativista. Esta, baseada numa extensa área de monocultura lenhosa, contínua, na sua maioria ao abandono e muito disponível para futura catástrofe. Não é o eucalipto o problema! O grande problema está na estratégia empresarial da indústria de celulose: suicida, gananciosa, pronta a dar umas migalhas para extrair do território o solo, a água, a biodiversidade, as populações, pelo elevado perigo de propagação rápida de futuros incêndios florestais.

A ausência do Estado no ordenamento do território é, por seu lado, pontuada por programas e planos, para além da falsa segurança baseada nas designadas “faixas de gestão de combustível". Faixas essas fortes impulsionadoras da expansão de espécies exóticas invasoras, oriundas das mesmas paragens do eucalipto: as acácias. E como estão tão bem adaptadas ao fogo!

Afinal, o que representam faixas limpas de 10 ou 100 metros perante as projeções de material incandescente a partir do eucalipto e a atingir distâncias de vários quilómetros? O que adianta limpar e adubar meia dúzia de hectares de eucaliptal, sabiamente “oferecida” pelas celuloses, perante uma mancha contínua de amálgama de milhares de hectares de eucaliptal ao abandono? Como é fácil criar falsas ilusões!

Os atuais programas e planos, como o PRGPSLA, somam-se aos muitos que nas últimas décadas se têm traduzido em fracasso do Estado. Fracasso esse sabiamente assegurado pelas portas giratórias existentes entre as celuloses e os órgãos governamentais e da Administração. Náo é algo do passado, continuam a girar convenientemente. Os constrangimentos à proposta inicial do próprio PRGPSLA é disso um bom exemplo. Não se pode tocar num metro quadrado de eucaliptal, as celuloses fazem logo sentir a sua força!

O que traz de novo este PRGPSLA? Para a economia local, muito pouco ou nada! Nada que possa gerar rendimento no curto prazo, apenas a promessa de que poderão existir subsídios futuros. Uma espécie de resgate pelos contribuintes ao território, depois deste ter sido explorado por décadas pelas celuloses, através do funcionamento de um mercado em concorrência imperfeita. Sim, como referiu publicamente um ex-secretário de Estado das Florestas, tudo poderia ser diferente se às celuloses não fosse permitido manipular o mercado e pagassem o justo preço pela rolaria de eucalipto que sustenta a sua atividade industrial. Uma adequada gestão só é possível com um adequado rendimento!

Para a concretização do Programa não se vislumbra o essencial, algo que aproxime o conhecimento científico e a intervenção técnica para o desejado “reordenamento”. Não é um exclusivo deste PRGP, a ausência de serviços de extensão no terreno (que não apenas o das celuloses), a par da ausência de regulação dos mercados, estendem-se por décadas a quaisquer programas ou planos. Esta situação persiste desde a adesão de Portugal à então CEE. Abusando com a justificação de Bruxelas, foram-se desmantelando serviços essenciais do Estado nos sectores agrícola e silvícola.

Enquanto não forem criadas verdadeiras medidas de reordenamento daquele território, favorecendo um uso sustentável dos recursos naturais endógenos, uma economia agrária local de valor acrescentado e de produção diversificada, uma verdadeira segurança para contrariar o envelhecimento e o êxodo populacional, bem que se podem gastar resmas de papel para inscrever boas intenções. Assim se pode considerar o PRGPSLA.

Resta-nos a esperança de que novas políticas e novos agentes económicos possam vir a alterar futuramente o panorama da região, assente numa paisagem mais resiliente ao fogo, a par de contribuir para o reforço da biodiversidade, tão importante que esta é, nomeadamente para a atividade turística, com considerável impacto económico naqueles concelhos.

Paulo Pimenta de Castro

terça-feira, 17 de junho de 2025

Pedrógão Grande? Não esquecemos, nem perdoamos...


Começou precisamente neste dia, há 8 anos, um dos incêndios mais devastadores do nosso País.

O balanço oficial contabilizou 66 mortos (65 civis e 1 bombeiro voluntário de Castanheira de Pera) e 254 feridos (241 civis, 12 bombeiros e 1 militar da Guarda Nacional Republicana), dos quais 7 em estado grave (4 bombeiros, 2 civis e 1 criança). Entre as vítimas mortais, 47 foram encontradas nas estradas do concelho de Pedrógão Grande, tendo 30 morrido nos automóveis e 17 nas suas imediações durante a fuga ao incêndio. Uma outra vítima, morreu na sequência de um atropelamento ao fugir do incêndio. O incêndio também arrasou dezenas de lugares.

Mais de metade da região do Pinhal Interior Norte, que abrange Pedrógão Grande, estava ocupada por plantações de eucaliptos (Eucalyptus), cujo óleo é altamente inflamável, e de pinheiro-bravo (Pinus pinaster). O Jornal de Leiria escreveu: "a ajudar a violência do fogo pode ter estado a natureza do coberto vegetal da região, composto por mais de 90% de eucalipto, o baixo teor de humidade do dia de ontem e as altas temperaturas que, mesmo durante a noite, ainda se mantêm"

Os tempos não

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço....no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

in Todas as palavras - Poesia reunida (2012) - Manuel António Pina

domingo, 8 de junho de 2025

Petição - Lei de proteção dos carvalhos autóctones

Carvalho-de-Monchique

Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República,

Os signatários vêm por este meio solicitar a V. Ex.ª que submeta à consideração desse hemiciclo, a casa da democracia portuguesa, a urgente necessidade de criação de um enquadramento legal que assegure a proteção efetiva dos carvalhos autóctones portugueses e das formações florestais naturais onde estes se inserem.

A degradação e desaparecimento progressivo dos carvalhais — habitats únicos e de elevado valor ecológico, climático, paisagístico e cultural — resulta da ausência de legislação nacional específica, que permita salvaguardar estes ecossistemas singulares da pressão crescente sobre o uso do solo, do corte indiscriminado, da expansão de monoculturas e da proliferação de espécies exóticas invasoras.

A presente petição propõe:
- O reconhecimento legal da importância ecológica e biogeográfica dos carvalhos autóctones, com destaque para o carvalho-cerquinho (Quercus faginea), o carvalho-negral (Quercus pyrenaica), o carvalho-galego (Quercus orocantabrica) e o carvalho-de-monchique (Quercus canariensis);
- A criação de critérios técnicos claros para a sua proteção, conservação e restauro;
- A implementação de mecanismos de compensação, incentivo e apoio à conservação em propriedades privadas e públicas;
- A valorização do arvoredo isolado e das florestas climácicas com importância ecológica, genética e patrimonial.

Num contexto de alterações climáticas e perda de biodiversidade, proteger os carvalhos autóctones é também investir na resiliência do território e na preservação da identidade natural de Portugal.

Assinar e partilhar a Petição aqui

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Os cavalos selvagens de Espanha estão em perigo. Na Galiza, são essenciais para prevenir fogos florestais


Os cavalos selvagens de Espanha estão em perigo. Na Galiza, são essenciais para prevenir fogos florestais
Os incêndios florestais que costumavam arder todos os Verões nos bosques acima da aldeia espanhola de Barro diminuíram para quase nenhum desde que Lucia Perez começou a pastorear cavalos selvagens.

“Costumava haver incêndios todos os anos, mas desde 2019, quando começamos a vir aqui, tivemos um pequeno incêndio no primeiro ano e nada desde então”, disse Perez, 37, explicando como, ao limpar a vegetação rasteira entre as árvores, os cavalos ajudam a impedir que os incêndios se acendam e se espalhem.

A prevenção de incêndios é um dos vários papéis que estes animais desempenham na preservação dos ecossistemas delicados da região noroeste da Galiza. Mas a maior manada de cavalos selvagens da Europa diminuiu para menos de metade dos 22 mil que percorriam as suas montanhas, florestas e charnecas na década de 1970.

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A prevenção de incêndio é apenas um dos benefícios ecológicos que os cavalos selvagens oferecem na Galicia, uma região no noroeste da Espanha conhecida por seus delicados ecossistemas.

Os cientistas disseram que o maior rebanho de cavalos selvagens da Europa desempenha um papel fundamental na manutenção dessas paisagens, embora a população tenha caído dramaticamente. Na década de 1970, cerca de 22.000 cavalos selvagens percorreram as montanhas, florestas e charnecas da região. Hoje, apenas metade permanece.

Na Serra Da Groba, localizada a 80 km a sudoeste de Barro, os cavalos selvagens se alimentam das flores amarelas de Gorse – uma planta altamente combustível. “Ao limpar seletivamente (Gorse), os cavalos ajudam a prevenir incêndios florestais”, disse Laura Lagos, pesquisadora da Universidade de uma Coruna.

O pasto a cavalo permite que outras plantas, como urze de flor roxa e asfodelos brancos, florescessem, explicou Lagos. “Também ajuda a preservar a urze em torno de turfeiras, que são abundantes em musgos de esfagno – um dos ecossistemas mais eficazes para capturar carbono”, disse ela.

Um estudo de 2021 da Universidade de Corunha em que Lagos participou descobriu que o pastoreio de cavalos selvagens era o método mais eficaz para prevenir incêndios florestais, promovendo a biodiversidade vegetal e capturando carbono. O estudo comparou esse método com outros usos da terra, incluindo o plantio de florestas de pinheiros de longo prazo, plantações de eucalipto de curto prazo e pastoreio por animais domesticados.

Embora ovelhas e gado também possam ajudar a reduzir os riscos de incêndios florestais através do pastoreio, Lagos observou que os cavalos selvagens são adaptados exclusivamente ao terreno acidentado da Galicia. Ela destacou uma característica distinta: “Migidos que aparecem projetados para proteger seus lábios do tojo espinhoso”.

O clima mais quente e mais seco devido às mudanças climáticas está aumentando a frequência e a intensidade dos incêndios florestais na Galiza. De 2001 a 2023, os incêndios queimaram a 970 m² (375 m²) na região, de acordo com a Global Forest Watch.

Essa tendência coincidiu com a proliferação de árvores de eucalipto, trazida para a Galicia da Austrália por um missionário no século XIX. As árvores são pirófitas, o que significa que elas dependem de fogo para libertar e dispersar suas sementes. Sua disseminação contribuiu para o aumento dos riscos de incêndio, além de reduzir pastagens de pastagem para cavalos selvagens, porque apenas as samambaias crescem embaixo deles.

As florestas de eucalipto da Galiza agora representam 28 % da população total de árvores da região, de acordo com um estudo do governo local. A demanda por madeira de eucalipto das fábricas regionais de celulose impulsionou a expansão dessas plantações.

A história dos cavalos selvagens na Galiza remonta a milhares de anos. As esculturas de cavalos sendo caçadas por seres humanos sugerem sua presença na região durante o período neolítico.

Com o tempo, humanos e cavalos desenvolveram uma relação simbiótica. Conhecidos como “Besteiros” no dialeto galego, as pessoas tradicionalmente monitoravam a saúde de cavalos de roaming livre em troca de ocasionalmente domesticar ou vendê-los por carne.

Uma vez por ano, os cavalos foram arredondados durante os eventos chamados “Rapa Das Bestas”, ou “cisalhamento dos animais”. Durante essas reuniões, os animais foram dentulados, vacinados e tiveram suas crinas aparadas para impedir que os lobos os pegassem.

Hoje, o “Rapa Das Bestas” evoluiu para um festival cultural. O evento mais famoso de Sabucedo atrai milhares de turistas anualmente, que se reúnem para assistir aos habitantes locais lutarem cavalos selvagens no chão para tratamento.

Embora essas tradições continuem a honrar a conexão entre a Galicia e seus cavalos selvagens, os crescentes riscos de mudanças climáticas, perda de habitat e número de rebanho em declínio destacam a necessidade urgente de proteger os cavalos e os ecossistemas que eles sustentam.