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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Primal Scream - Kowalski

Melhor som aqui
Letra
[Intro]
This radio station was named Kowalski
In honor of the last American hero
To whom speed means freedom of the soul
The question is not when he's gonna stop
But who is gonna stop him

[Verse 1]
Like Kowalski in Vanishing Point
Kowalski in Vanishing Point
Kowalski in Vanishing Point
Vanishing Point, Vanishing Point, Vanishing Point

[Verse 2]
Like a butterfly on a pin
Like a butterfly on a pin
Soul on ice, soul on ice
Soul on ice, soul on ice

[Interlude]
What happening?
What happening?
What you need? Speed
Lighten up before

[Instrumental Break]

[Interlude]
There goes the challenger being chased by the blue, blue meanies on wheels
The vicious traffic squad cars are after our lone driver
The last American hero
The, the electric centaur, the demigod
The super driver of the golden west
Two nasty Nazi cars are close behind the beautiful, lone driver
The police know that they're getting closer, closer
Closer to our soul hero in his soul mobile
Yeah, baby, they're about to strike
They're gonna get him, smash him
Rape the last beautiful, free soul on this planet

[Refrain]
Vanishing Point, Vanishing Point
Vanishing Point, Vanishing Point

[Interlude]

[Refrain]
Soul on ice, soul on ice
Soul on ice, soul on ice
Soul on ice, soul on ice, soul on ice

[Outro]
Hello, Kowalski?
Hello, Kowalski?
Hello, Kowalski?
Cut it off

Primal Scream e Vanishing Point: A História da Música Kowalski e do Filme de 1971
A faixa abre precisamente com essa amostra de áudio (sample) icónica do filme original de 1971. A voz pertence à personagem Super Soul, o DJ de rádio cego interpretado pelo ator Cleavon Little, que atua como guia espiritual e aliado de Kowalski ao longo de toda a perseguição policial no deserto. No monólogo inicial da canção, ouve-se a sua transmissão de rádio na qual ele diz: "Kowalski, order of the day is to go. And we gonna do it in style...", servindo de ponto de partida perfeito para o tom hipnótico e acelerado da música dos Primal Scream.

Sob o ponto de vista musical, o tema funde o rock psicodélico com ritmos pesados de dub, trip-hop e big beat, servindo de peça central a um álbum conceptual desenhado pelo vocalista Bobby Gillespie como uma espécie de banda sonora alternativa para o filme. No plano filosófico e literário, tanto a canção como a fita de 1971 partilham raízes no existencialismo e no niilismo da contracultura dos anos 70, bem como na literatura de estrada da Beat Generation, invocando o espírito de obras como Pela Estrada Fora de Jack Kerouac ao transformar a fuga em alta velocidade de Kowalski - um veterano da Guerra do Vietname desiludido com o sistema - num ato de rejeição e busca por liberdade absoluta.
Kowalski (song)

Filmes:
1. Vanishing Point (1971)
É um grande clássico do cinema action-existencialist da década de 1970 e um marco dos filmes de perseguição de carros
Vanishing Point e 1971, realizado por Richard C. Sarafian e protagonizado por Barry Newman no papel do icónico Kowalski, é considerado um marco do cinema de ação e da cultura de culto dos anos 70. A história segue um ex-piloto de corridas e veterano de guerra que faz uma aposta para transportar um Dodge Challenger R/T de 1970 branco de Denver até São Francisco num tempo quase impossível. Ao longo do trajeto, a sua viagem em alta velocidade transforma-se numa perseguição policial de grande escala e numa reflexão sobre a liberdade e a contracultura da época, contando ainda com a ajuda de um locutor de rádio cego chamado Super Soul.

2. Vanishing Point (1997) - o remake
Em 1997, surgiu a versão para televisão, realizada por Charles Robert Carner e protagonizada por Viggo Mortensen. Embora conserve a premissa de velocidade e o mesmo modelo de Dodge Challenger branco, esta refilmagem alterou substancialmente as motivações do protagonista. Nesta versão, Jimmy Kowalski não corre por causa de uma aposta libertária, mas sim para chegar a tempo de acompanhar a sua mulher grávida, que sofreu complicações graves de saúde. A história ganha assim um tom mais dramático e pessoal, embora mantenha a essência do combate do indivíduo contra as autoridades ao longo das autoestradas americanas.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Patrick Watson - Drive



Letra
Drive, drive, drive, drive
You want to drive all night
Follow the yellow lines
Don't stop and look behind
And you don’t want to know where you're going
Just want to get lost sometimes
Get lost together

Drive, drive, drive, drive
And get lost together

Ah, ah, ah, ah

Want to get lost
You don't want to know where you’re going
Stepping through a hallway of trees
Getting lost to nowhere's good to me
Wild eyes in the high high beams
Staring back at me

Into endless night
Wild eyes staring back at me
Wild eyes staring back at me
Wild eyes staring back at me

A letra de "Drive" é minimalista, direta e altamente metafórica, girando em torno da urgência de escapar e do desejo de desapego, como se pode notar nos versos "You want to drive all night / Follow the yellow lines / Don't stop and look behind / And you don't want to know where you're going / Just want to get lost sometimes / Get lost together".

O significado central da canção pode ser destrinchado em quatro frentes principais. Em primeiro lugar, o carro surge como um refúgio, onde o ato de conduzir sem destino funciona como uma metáfora para a busca por paz mental; em momentos de sobrecarga emocional ou ansiedade, o foco nas linhas amarelas da estrada e a ordem de não olhar para trás representam o desejo de desligar o cérebro e viver apenas o presente imediato. Em segundo lugar, há a catarse do "perder-se", existindo uma beleza melancólica em admitir que não se sabe para onde se vai, o que valida o sentimento de que, às vezes, perder o rumo é exatamente o que precisamos para nos reencontrarmos. Adicionalmente, verifica-se uma profunda conexão no isolamento quando o eu lírico propõe perderem-se juntos ("get lost together"), transformando a solidão da estrada numa experiência partilhada que sugere uma cumplicidade íntima e o desejo de fugir das pressões do mundo real na companhia de alguém que partilha da mesma vulnerabilidade. Por fim, a faixa aborda o confronto com o desconhecido através de versos como "Wild eyes in the high high beams / Staring back at me" (Olhos selvagens nos faróis altos / Olhando de volta para mim), que introduzem uma pitada de mistério e perigo, representando o confronto com os nossos próprios medos ou com o "selvagem" que habita na escuridão ao sairmos da nossa zona de conforto.

Em resumo, "Drive" constitui uma obra sobre evasão, entrega ao fluxo da vida e a busca por um espaço de silêncio no meio do ruído do mundo moderno.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Manel Cruz com Clã - O Navio Dela


Letra
A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela

Não deseja ser o meu mundo
Mas tem-me em seus desejos
Eu noto nos seus olhos
A nítida presença
Das nossas aventuras

Voa com seus pássaros fantásticos
Agnósticos, simpáticos
Por campos de razões
E quando volta traz-me caramelos

Ela não se põe à janela
De corpo iluminado
Mas mostra o universo
Ao animais de caça
Quando desce ao mercado

Desce nos cabelos das estrelas
Bem nas barbas dos fantasmas
Que aprendeu a desmontar
E acaba a transformá-los em brinquedos

A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela

Ela é o capitão do seu navio

A junção de Manel Cruz com os Clã na interpretação de "O Navio Dela" — uma canção originalmente lançada pelo músico no seu álbum a solo Vida Nova, em 2019 — representa um dos momentos mais felizes da música portuguesa recente, expondo a cumplicidade de longa data entre estes artistas. Do ponto de vista do estilo musical, a versão original assenta numa folk-pop minimalista e acústica, guiada pelo ukulele e enriquecida por arranjos de sopros e violoncelo. Contudo, ao fundir-se com a identidade dos Clã, o tema ganha uma roupagem de pop-rock alternativo muito mais sofisticada, onde a energia instrumental, os teclados texturados e a precisão rítmica da banda abraçam a cadência poética e quase saltitante de Manel Cruz.

O significado da canção centra-se numa celebração absoluta da autonomia, da liberdade e da independência feminina. O tema desarma o ouvinte logo no primeiro verso ao afirmar que "a minha mulher não é minha, é da cabeça dela", desconstruindo de imediato a ideia patriarcal de posse nas relações amorosas. O "navio" funciona aqui como uma metáfora visual para a vida, os pensamentos e o destino dessa mulher, que assume o papel de única capitã da sua jornada. O eu lírico não demonstra qualquer desejo de controlo; pelo contrário, expressa uma admiração reverente por vê-la navegar livre e por testemunhar a sua capacidade de enfrentar os próprios fantasmas e transformá-los em brinquedos, resultando numa ode ao respeito pela individualidade dentro do amor.

Quanto ao seu enquadramento, "O Navio Dela" pode ser considerada uma canção de intervenção, embora se distancie do modelo clássico e histórico do género em Portugal. Enquanto os temas de intervenção tradicionais de figuras como Zeca Afonso ou Sérgio Godinho se focavam no combate político direto e na denúncia das injustiças sociais, esta composição alinha-se com uma abordagem moderna de intervenção cultural e de costumes. Em vez do tom de protesto agressivo, a música recorre à poesia, à sensibilidade e à subtileza do quotidiano para transmitir uma mensagem profundamente política sobre o feminismo e a igualdade de género. Ao atacar o conceito de que o amor legitima a posse, a canção intervém diretamente na desconstrução do machismo e das mentalidades conservadoras, provando que a música pode ser uma arma social através do afeto e da consciencialização.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Ecologia Real: Por que a autonomia da natureza é a nossa própria essência


A imagem da pega-rabuda, empoleirada com altivez sobre o tronco rugoso e coberto de líquenes, funciona como um manifesto visual da ecologia profunda, desafiando a visão antropocêntrica que teima em colocar o ser humano no topo de uma hierarquia imaginária. Nesta perspectiva, a ave não existe para o nosso deleite ou utilidade; ela possui um valor intrínseco e o direito inalienável de florescer por si mesma. O contraste entre a sua plumagem alvinegra e o brilho iridescente das suas asas revela a sofisticação da vida selvagem, que opera sob as leis de uma liberdade universal muito mais antiga e vasta do que as convenções sociais humanas.

Ao integrarmos o conceito de liberdade universal na ecologia, compreendemos que a autonomia deste ser está indissociavelmente ligada à integridade do ecossistema que o acolhe. Não existe liberdade real num mundo fragmentado; a verdadeira emancipação ocorre quando reconhecemos que fazemos parte de uma teia interdependente, onde o destino da ave, da árvore e do homem é rigorosamente o mesmo. É, por isso, nosso dever ético transmitir às gerações seguintes o princípio de do no harm e o respeito absoluto pelos nichos ecológicos, garantindo que o legado da biodiversidade seja preservado. Este texto convida à reflexão de que proteger o espaço de existência desta criatura é um ato de preservação da nossa própria essência, celebrando uma existência onde cada ser vivo é um cidadão soberano da biosfera, livre para cumprir o seu papel evolutivo na complexa rede de interações e equilíbrios que sustenta a biosfera.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Tempers - Hell Hotline

[Verse 1]
He watched his future turn to powder
As he looked out over the water
Put out his cigarette
Gave fate a chance
Took her out to a seaside dance

[Chorus] 2X
He was born to die in a seaside casino
Beneath the pretty lights
Pretty lights
You see
Some beautiful things
Get lost

[Verse 2]
How hope is like a golden devil
He wore his best black tie
Tied himself up best he could
In a house of flashing tricks
Flashing tricks

[Chorus] 2X

Melhor som aqui

A canção "Hell Hotline" é um dos pilares de "Services" (2015), o álbum de estreia dos Tempers, que consolidou o duo nova-iorquino na cena darkwave contemporânea. No contexto deste disco, a música funciona como um hino ao isolamento urbano e à alienação, utilizando sintetizadores frios e uma batida industrial para criar uma atmosfera de "discoteca vazia" na madrugada de uma metrópole. O álbum, no seu todo, explora a mercantilização dos sentimentos e a frieza das interações humanas modernas - o que a banda apelida de "alien pop" - transformando a angústia existencial numa experiência estética elegante e hipnótica. Ao ouvires o trabalho completo, percebes que "Hell Hotline" é o ponto onde o desespero e o prazer da dança se fundem de forma mais eficaz.

Podes ouvir o álbum completo aqui:

sexta-feira, 20 de março de 2026

EUA e Irão estiveram à beira de um acordo nuclear, diz Omã


O Ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, que mediou as negociações entre EUA e Irão, revelou que Teerão e Washington estiveram, por duas vezes, “à beira de um acordo” nuclear nos últimos nove meses. Por isso, Badr Albusaidi sublinha que o ataque conjunto de Israel e EUA contra o Irão foi recebido com “choque”. Para o chefe da diplomacia de Omã, o ataque norte-americano ao Irão foi o “maior erro de cálculo” da administração Trump.

“Por duas vezes em nove meses, os Estados Unidos e o Irão estiveram à beira de um acordo concreto sobre a questão mais complexa que os divide: o programa nuclear iraniano e os temores americanos de que ele se possa transformar num programa militar. Portanto, foi um choque, mas não uma surpresa, quando a 28 de fevereiro — apenas algumas horas após as últimas e mais substanciais negociações — Israel e os Estados Unidos lançaram novamente um ataque militar ilegal contra a paz que, por um breve período, parecera realmente possível”, sublinhou Badr Albusaidi, num artigo publicado no Guardian

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A verdadeira história da canção "Heroes" de Bowie e a interpretação de KinGeorg and Apoptygma Berzerk - Helter (David Bowie cover)


Helter significa Heróis em Norueguês 

Para escutar os 3 temas do álbum aqui

A canção Heroes foi escrita a dois, David Bowie e Brian Eno e originalmente cantada por David Bowie.

"Heroes": O Triunfo do efémero e a resistência do instante
A canção  foi escrita em 1977, durante o período em que Bowie vivia em Berlim Ocidental, imerso no que viria a ser conhecido como a sua “trilogia de Berlim” — Low, Heroes e Lodger — ao lado de Brian Eno e do produtor Tony Visconti. A cidade não era apenas o cenário: era o conceito. Dividida por um muro, carregada de tensão política, ideológica e emocional, Berlim oferecia a Bowie algo que ele procurava naquele momento da vida: distância do caos de Los Angeles, onde o vício em cocaína e o isolamento criativo quase o destruíram, e uma paisagem urbana que refletia a sua própria fragmentação interna.

O beijo sob o olhar da Stasi
A história por trás da canção é conhecida, mas nunca banal. Bowie escreveu “Heroes” inspirado num episódio real: ao observar pela janela do estúdio Hansa, localizado a poucos metros do Muro de Berlim, viu Tony Visconti a beijar uma mulher junto à barreira que separava o Leste do Oeste. A mulher era Antonia Maass, corista do álbum e, à época, envolvida com Visconti, apesar de ambos terem outros relacionamentos. O gesto, simples e arriscado, transformou-se no núcleo emocional da música. Não se tratava de amantes a desafiar apenas uma circunstância pessoal, mas de um ato de intimidade num dos espaços mais vigiados e simbólicos do planeta.

Engenharia de som como dramaturgia
Musicalmente, “Heroes” também nasce de uma experiência. Brian Eno construiu a paisagem sonora com sintetizadores e tratamentos electrónicos que expandiam a ambição do rock para além da sua forma tradicional. Visconti criou um sistema de microfones posicionados a diferentes distâncias da voz de Bowie, que se abriam progressivamente à medida que ele cantava mais alto, captando não apenas a performance, mas a própria arquitetura do estúdio.

O resultado é uma interpretação que cresce em intensidade, como se a canção literalmente ganhasse espaço físico à medida que Bowie se aproxima do clímax. É a técnica ao serviço da emoção.

A recusa do heroísmo grandioso
A letra, por sua vez, é deliberadamente simples. “We can be heroes, just for one day.” Não há promessa de eternidade, glória ou redenção total. Há apenas um instante. Um dia. Um gesto. Bowie nunca romantiza a vitória definitiva; ele oferece resistência temporária. E é exatamente essa recusa do heroísmo grandioso que torna a música tão poderosa. Num mundo de muros — físicos, políticos, afetivos —, ser herói por um dia já é um ato de coragem.

Do insucesso ao estatuto de Hino
Quando lançada, “Heroes” não foi um sucesso imediato nas tabelas de vendas. Alcançou posições modestas no Reino Unido e passou quase despercebida nos Estados Unidos. A crítica, entretanto, reconheceu desde cedo a sua singularidade, e a música começou a construir a sua reputação não pelo consumo rápido, mas pela sedimentação cultural. Com o tempo, tornou-se uma das faixas mais emblemáticas da carreira de Bowie, ao lado de “Space Oddity”, “Life on Mars?”, “Let’s Dance” e “Changes” — o quinteto que hoje define o coração do seu legado. 

Em 6 de junho de 1987, Bowie tocou "Heroes" no Reichstag, em Berlim Ocidental, o que foi considerado um catalisador para a queda do Muro.
 
Porquê agora?
Nada disto, porém, explica sozinho por que motivo “Heroes” ressoa tanto agora. Talvez porque vivamos novamente num mundo de muros, não apenas geopolíticos, mas simbólicos: polarização, guerras culturais, ansiedade coletiva, isolamento tecnológico. . Talvez porque, em tempos de exaustão moral, a ideia de um heroísmo possível, ainda que breve, soe mais honesta do que qualquer promessa de redenção total. “Heroes” não diz que o amor vence tudo. Diz que ele pode, por um instante, desafiar o impossível. E isso, para quem vive em 2026, não é pouco.

Um legado em datas
Após a morte de Bowie, em janeiro de 2016, o governo alemão agradeceu o músico por "ajudar a derrubar o Muro", acrescentando que "você está entre os Heróis"

Em 8 de janeiro de 2026, “Heroes” completou 49 anos desde o seu lançamento. Dois dias depois, a 10 de janeiro, assinalaram-se dez anos da morte de David Bowie. A coincidência de datas não é apenas cronológica; é simbólica. Bowie construiu uma carreira inteira baseada na transformação e na coragem de se reinventar.

Hoje, a canção é mais do que um clássico; é a prova de que, num tempo em que ser herói parece exigir façanhas impossíveis, às vezes tudo o que temos é um dia. Um gesto. Um beijo à beira de um muro. E, ainda assim, isso basta para mudar tudo.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Aiko Sakamoto

Rapariga com borboletas, da série Nocturnos (2022)

Aiko Sakamoto é uma artista plástica nascida em 1977 na província de Tóquio, no Japão, onde reside e trabalha actualmente. A sua formação académica foi realizada na Universidade de Arte Tama (Tama Art University), onde se graduou no Departamento de Pintura Japonesa e, posteriormente, concluiu o mestrado na mesma especialidade.
O seu estilo é profundamente enraizado no Nihonga (pintura tradicional japonesa), mas apresenta uma abordagem contemporânea e lírica que explora a relação entre o visível e o invisível. Utiliza técnicas que misturam pigmentos minerais, pó de ouro e prata sobre papel japonês (washi), destacando-se pela criação de borboletas tridimensionais feitas de papel e folha metálica que são aplicadas sobre a tela plana. Esta técnica permite que a luz seja refletida de diferentes ângulos, conferindo uma sensação de vitalidade e movimento às obras.

Os seus temas centram-se em fenómenos naturais efémeros e conceitos abstratos, como o vento, o som, as ondas e as flutuações da luz e da água. Através de uma paleta onde predominam o azul profundo e o preto denso, Sakamoto procura expressar a essência da existência humana e a circulação da vida em ciclos infinitos, fundindo figuras biomórficas com o cosmos e o silêncio.


A sua obra encerra um simbolismo contemporâneo que nos convoca ao desvelar de uma liberdade ancestral, sintonizando o ser com a génese de Gaia e o repouso absoluto de uma harmonia que transcende o visível.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Liberdade não se canta: vive-se!


A Liberdade é Acção  
"Os pássaros domesticados cantam sobre a liberdade. Pássaros selvagens voam." - John Lennon

Introdução
Esta breve citação encerra uma reflexão profunda sobre a forma como compreendemos e praticamos a liberdade. No seu aparente contraste simples — cantar versus voar — está implícita uma crítica poderosa aos discursos que exaltam a liberdade sem a concretizar. Este pensamento é particularmente pertinente quando analisado à luz da educação, da ecologia e da sociedade contemporânea.

Educação: ensinar a cantar ou aprender a voar?
Grande parte dos sistemas educativos afirma formar cidadãos críticos, autónomos e livres. Contudo, na prática, muitos continuam assentes em modelos de padronização, obediência e reprodução de conteúdos. Neste contexto, os estudantes tornam‑se “pássaros domesticados”: aprendem o vocabulário da liberdade, do pensamento crítico e da cidadania, mas raramente dispõem de espaço real para questionar, experimentar ou errar.

Uma educação verdadeiramente emancipadora não se limita a falar de autonomia — cria condições para que ela seja vivida. Voar, aqui, significa permitir escolhas, fomentar a curiosidade, aceitar a diversidade de percursos e reconhecer o erro como parte essencial da aprendizagem. Como defendia Paulo Freire, não há educação neutra: ou ela domestica, ou liberta.

Ecologia: discursos verdes em gaiolas douradas
No campo da ecologia, a metáfora de Lennon ganha uma força ainda mais evidente. Nunca se falou tanto de sustentabilidade, biodiversidade e proteção ambiental. No entanto, a degradação dos ecossistemas continua a acelerar. Multiplicam‑se os discursos “verdes”, mas persistem práticas económicas e políticas que mantêm a natureza confinada a uma lógica de exploração.

Cantar sobre a liberdade da natureza traduz‑se em campanhas, relatórios e compromissos internacionais; permitir que os pássaros voem implica respeitar os limites ecológicos do planeta, restaurar ecossistemas e aceitar que nem tudo pode — ou deve — ser controlado.

Uma ecologia autêntica não é apenas declarativa. É prática, ética e relacional. Reconhece que a natureza não precisa apenas de proteção, mas de autonomia funcional.

Sociedade contemporânea: a ilusão da liberdade
Vivemos numa sociedade que se apresenta como livre, aberta e plural. Contudo, muitos dos nossos comportamentos são moldados por algoritmos, padrões de consumo, pressões sociais e medo da exclusão. Fala‑se muito de liberdade de escolha, mas as escolhas são frequentemente condicionadas.

Os “pássaros domesticados” da contemporaneidade repetem discursos de liberdade enquanto permanecem presos a rotinas e expectativas impostas. Já os “pássaros selvagens” são aqueles que ousam questionar, desacelerar, resistir à normalização e viver com coerência entre valores e ações.

Voar, neste contexto, implica responsabilidade, consciência crítica e, muitas vezes, desconforto.

Conclusão: da retórica à prática
A citação de John Lennon lembra‑nos que a liberdade não se esgota na palavra. É uma experiência vivida, construída diariamente nas escolhas individuais e colectivas.

Na educação, na ecologia e na sociedade, o desafio é o mesmo: deixar de apenas cantar sobre a liberdade e criar condições reais para que ela exista. Porque, no fim, não é o canto que transforma o mundo — é o voo.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Idadismo? Nunca

Uma mulher idosa a caminhar livremente - Porto, Portugal

Bom primeiro dia de Ano Novo! Happy first day of the New Year!

"Sente-te livre por seres idosa,
ramo de sorrisos e rugas.
O que importa não envelhece na pele,
nem repousa nos lábios.
Não tomes isso como castigo divino.

Não rebentes em lágrimas.
O melhor do mundo humano és tu:
acende a lembrança no peito
e fixa o teu rosto na claridade do tempo.

Os sábios sabem:
não há motivo para luto.
A beleza não é um recipiente,
é o fogo que tremula dentro dele.

A tua alma luminosa
deixa-a inteira à vista,
assim eu te amo ainda mais.
Não te entristeças! Não dês ouvidos
às sentenças dos espelhos!

Tu és a mais bela!

João Soares, 01.01.2026

domingo, 7 de dezembro de 2025

Cinema da Noite : Eu sou David- filme realizado por Paul Feig (2003)

David, um rapaz de cerca de 12 anos, vive num campo de trabalhos forçados na Bulgária comunista. O único adulto de confiança que tem é Johannes (interpretado por Jim Caviezel), um prisioneiro gentil que lhe ensina línguas, valores humanos e formas de sobreviver emocionalmente. Johannes acaba por morrer (provavelmente executado), mas deixa em David uma profunda marca de esperança.

Um dia, um guarda misterioso dá a David a oportunidade de fugir, dizendo-lhe para seguir apenas para norte, transportando uma carta que deve entregar na Dinamarca. Apesar de desconfiar de tudo e todos — resultado de anos de trauma — David inicia a longa jornada a pé.

Ao escapar pela fronteira, David atravessa:

🇬🇷 Grécia

Onde é ajudado por marinheiros, mas foge por não confiar em ninguém.

🇮🇹 Itália

É acolhido por uma família, especialmente por uma criança que cria laços com ele. No entanto, temendo colocar todos em risco, parte novamente.

No caminho, David cresce emocionalmente ao contactar com pessoas que lhe mostram diferentes formas de humanidade: bondade, ingratidão, desconfiança e amor.

Ao chegar à Suíça, ele descobre parte da verdade sobre si:
A carta que carrega contém informações que revelam que a sua mãe está viva e vive agora na Dinamarca.

Com a ajuda de pessoas que encontra, David chega finalmente à casa dela.
A mãe, ao ver uma nota deixada por Johannes anos antes, percebe quem ele é.
David reencontra a mãe num final emotivo em que, depois de anos de sofrimento e fuga, encontra paz e pertencimento.


🎭 ANÁLISE DOS TEMAS PRINCIPAIS


1. Liberdade
O filme contrapõe dois mundos: o campo, onde David não pode decidir nada, e a Europa livre, onde cada pequena escolha se torna um ato enorme.
A jornada física é também uma libertação psicológica.

2. Identidade
David não sabe quem é, de onde veio nem quem foram os pais.
Descobrir a sua identidade é tão importante quanto alcançar a liberdade.

 3. Trauma e Cura
David tem medo de confiar — pegar comida, aceitar ajuda ou tocar em objetos que lhe ofereçam.
A cura ocorre gradualmente graças às pessoas bondosas que encontra.
 
4. Bondade vs. Crueldade
O filme mostra como um simples gesto (como o de Johannes ou de pessoas comuns) pode salvar uma vida marcada pela opressão.
 
5. Esperança
Mesmo nos momentos mais duros, a memória de Johannes funciona como bússola emocional de David. 📚 COMPARAÇÃO COM O LIVRO
ElementoLivroFilme
TomMais introspectivo, filosófico, centrado nos pensamentos de DavidMais sentimental, focado nas emoções e nas relações
Idade de David12 anosCerca de 12, mas com abordagem mais madura
Origem da fugaPlaneada por Johannes e outros prisioneirosNo filme, atribuída a um guarda que sente culpa
Revelação sobre a mãeMais gradual e menos romantizadaMais dramática e emocional
FinalSem grande dramatização, mas igualmente emocionalA reencontrar a mãe é mais cinematográfico
Temas políticosMais explícitos sobre totalitarismo communistaMais suavizados para público jovem

O filme segue fielmente a estrutura geral do livro, mas suaviza elementos mais duros e reforça aspetos emocionais.


🎬 FICHA TÉCNICA DO FILME

Título: I Am David
Título em português: Eu Sou David
Ano: 2003
Realização: Paul Feig
Baseado no livro: I Am David (1963), de Anne Holm
Género: Drama, Aventura
País: EUA / Reino Unido / Dinamarca / Itália
Principais atores:

  • Ben Tibber — David

  • Jim Caviezel — Johannes

  • Joan Plowright — Sophie

  • Hristo Shopov — O Guarda

  • Maria Bonnevie — Mãe de David

Duração: ~90 minutos
Classificação etária: Apropriado para adolescentes e adultos

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

The Stone Roses - She Bangs the Drums


She Bangs The Drums
The Stone Roses

can feel the earth begin to move
I hear my needle hit the groove
And spiral through another day
I hear my song begin to say
Kiss me where the sun don't shine
The past was yours
But the future's mine
You're all out of time

I don't feel too steady on my feet
I feel hollow I feel weak
Passion fruit and holy bread
Fill my guts and ease my head
Through the early morning sun
I can see her here she comes

She bangs the drums

Have you seen her have you heard
The way she plays there are no words
To describe the way I feel

How could it ever come to pass
She'll be the first she'll be the last
To describe the way I feel
The way I feel

Have you seen her have you heard
The way she plays there are no words
To describe the way I feel

How could it ever come to pass
She'll be the first she'll be the last
To describe the way I feel
The way I feel

Have you seen her have you heard
The way she plays there are no words
To describe the way I feel

How could it ever come to pass
She'll be the first she'll be the last
To describe the way I feel
The way I feel

Em “She Bangs The Drums”, do The Stone Roses, a frase “O passado foi seu, mas o futuro é meu” expressa a confiança e o desejo de renovação que marcaram a banda e o movimento Madchester no final dos anos 1980. Essa linha mostra uma geração que quer se desvincular do passado e construir algo novo, refletindo o espírito de ambição e mudança da época.

A repetição do verso “She bangs the drums” serve como uma metáfora central. Ela pode ser interpretada tanto como uma homenagem a uma mulher inspiradora quanto como uma referência à energia contagiante da música e à cultura dos clubes, onde a batida era fundamental para a experiência coletiva. A letra mistura sensações físicas e emocionais, como em “I don't feel too steady on my feet / I feel hollow I feel weak” (Não me sinto muito firme nos pés / Me sinto vazio, me sinto fraco), sugerindo o impacto intenso de uma paixão ou de um momento de êxtase musical. Trechos como “Kiss me where the sun don't shine” (Me beije onde o sol não brilha) trazem irreverência, enquanto “Passion fruit and holy bread / Fill my guts and ease my head” (Maracujá e pão sagrado / Enchem meu estômago e acalmam minha mente) misturam sensualidade e espiritualidade. Assim, a música se destaca como uma celebração da juventude, da liberdade e do poder transformador da música.


sábado, 11 de outubro de 2025

Raquel Varela silenciada pela estação pública RTP


Como é público, a nova Direção de Informação da RTP decidiu não continuar a contar comigo nos programas de debate semanal. Quero, ao final destes 11 anos, deixar aqui algumas notas que serão, espero, sinceras e delicadas.

Quero agradecer a quem me convidou, a quem esteve na organização e na produção, dos jornalistas aos técnicos de som, imagem, produção, realização, maquilhagem, cabeleireiro, um trabalho imenso e essencial. Fui acarinhada por tantos.

Quero agradecer aos amigos, colegas, com quem discuti semanalmente os temas, e a muitas outras dezenas de pessoas a quem, consoante os assuntos, telefonei, com quem me reuni para aprofundar saberes que nenhum indivíduo sozinho domina.

Vivi anos em países “nórdicos” onde a sinceridade não é vista como má educação. São países mais adultos e com uma esfera pública mais desenvolvida. Em Portugal, o desacordo frontal é mal visto (a não ser nos programas sobre futebol) e rapidamente se passa de debater ideias a acusar e insultar pessoas. Em suma, as pessoas fogem ao debate porque acham que assim evitam conflitos ou porque assim fomos habituados à força por décadas de ditadura. Mas o que acontece é que a violência verbal, a desconfiança, a coscuvilhice se instalam nessa ausência de debatermos frontalmente as divergências.

A minha saída do comentário semanal da RTP não se deve certamente a audiências, já que em todos os programas onde estive elas subiram. Há, porém, muitos programas sem grandes audiências que são excelentes, outros com grandes audiências que são uma desgraça para o nível geral de educação do país (desqualificam-no e embrutecem-no). Saio por uma escolha política – todas as escolhas são políticas, e devemos falar abertamente delas.

Há um quadro de mudança política no país. Está no poder um Governo da AD, com o apoio da IL, com influência crescente do partido fascista Chega. Há uma situação mundial de degradação do modo de vida e do debate de ideias. O Presidente dos EUA comunica por tweets e memes, e disse querer transformar Gaza num resort. Por cá, o presidente do Chega lidera uma organização racista que usa a mentira como arma política de eleição, e a internet está cheia de perfis falsos que reproduzem a propaganda do Chega. A União Europeia corta o orçamento para a saúde, para a educação, para a agricultura para produzir drones carros e aviões de combate, munições para matar, amputar e dizimar o género humano, a primeira pátria a que pertenço.

Pautei-me todos estes anos por uma defesa intransigente da liberdade de expressão. Mesmo contra um centro-esquerda que considero sem ânimo, moralista e descafeinado. Aquilo a que hoje se assiste é, porém, de enorme gravidade. Tenho vinte anos de carreira como historiadora e professora. Se afirmo que o Chega é fascista não é para produzir efeito mediático. Sou cuidadosa com os conceitos. Estamos a viver a legitimação do irracionalismo, do culto do Estado, da punição, da violência verbal (e física) contra os percebidos como mais fracos e da mentira como “opinião”. Que o Estado tenha legalizado isto é uma coisa, que eu como historiadora o aceitasse seria uma rutura ética com o meu trabalho.

A minha saída de comentadora da RTP fragiliza ainda mais a esfera pública. Não por mim, pois ninguém é insubstituível. Mas porque as vozes como a minha não representam mais uma “opinião”. Reflectem um modo de pensar a sociedade em que vivemos, com demonstração de argumentos e critério de verdade – errando, também -, que discorda abertamente dos grandes mantras da opinião publicada: a inevitabilidade do capitalismo, e da guerra, a naturalização do sofrimento e assédio contra quem trabalha. Defendi a Democracia sem adjetivos, que só pode ser de base, participativa, e a auto-organização dos cidadãos, plenos no uso da Razão, independente do Estado.

A voz pública é uma necessidade. Deve ser séria e diversa. É-o cada vez menos. E é isso que tem levado, também, à quebra de audiências – a repetição ad nauseam dos mesmos argumentos, da mesma falta de imaginação ou de vontade para repensar a sociedade. O que produzimos? Para quem produzimos? Como produzimos? Estas questões, que são centrais para a humanidade, quase nunca são feitas, fagocitadas por uma comunicação ligeira e ideologicamente homogénea.

Estive, por vezes sozinha como comentadora, ao lado das primeiras greves dos estivadores, da greve cirúrgica dos enfermeiros, da paralisação dos camionistas e da greve dos trabalhadores da AutoEuropa contra o trabalho ao domingo, todos alvo de campanhas mediáticas que pareciam verdades indiscutíveis na altura e mentiras descaradas dias depois. E estive, com poucos mais comentadores, ao lado das greves dos professores, médicos, maquinistas, transportes em geral, sustentando o que para mim é óbvio – se há alguém capaz de parar esta deriva para a guerra e para a morte são os trabalhadores organizados.

Nos últimos anos, nunca saí de casa sem que viessem ter comigo pessoas para falar, agradecer, apoiar, conversar. Recebi carinho e afeto, abraços, nos cafés, nos aviões, nas filas de serviços apinhados, nas escolas, entre as empregadas de limpeza de jardins e trabalhadores da ferrovia, motoristas e professores, enfermeiros e médicos. Tudo isso me ajudou a conhecer um país decente, que existe, embora muitas vezes sem voz. Muito obrigado a todas e a cada uma dessas pessoas. Ajudaram-me muito a crescer e a ter força para continuar.

Há um Portugal sentado e outro de pé. O de pé é quem vive do trabalho, e que todos os dias assegura a produção e a reprodução da nossa vida. É nesse país, dos que trabalham, que me revejo e ao qual procurei dar voz. Se fui um pouco voz desse Portugal ignorado, valeu a pena.

Continuarei a fazer ouvir a minha voz e ideias, a defender os trabalhadores e os seus direitos, a dar aulas públicas e conferências, cursos, documentários, livros, a lutar por um outro país assente no bem comum, na igualdade real, na democracia do povo e na liberdade.

O Estrangeiro (1967)


Um filme marcante. O Estrangeiro (1967), baseado na obra homónima de Albert Camus, com Marcello Mastroianni e dirigido pelo mestre Luchino Visconti. O filme capta toda a atmosfera do seu livro.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Relembrar a fascinante obra de Albert Camus - "O Estrangeiro"


O "estrangeiro" por vezes somos nós próprios!! É essa a grande lição deste livro. Não há fronteiras. Nesta obra profundamente simbólica e do absurdo, alerta-nos que a condição humana é sufocante e "estranha" a toda a gente. Há que alertar para a situação que as pessoas podem ser estrangeiras quando tu és estranho.

E no mundo actual o absurdo regressou. O absurdo é o discurso do ódio, levantar esqueletos do armário do imperialismo dos séculos atrás da nossa civilização, incluindo Portugal. Fazer basófia da barbárie contra os Palestinianos, denegrir a flotilha. Publicar um vídeo piroso do Ventura sobre Bangladesh. Por isso é importante RELER o "Estrangeiro" de Albert Camus.

O "Estrangeiro" é um dos livros da trilogia do absurdo, de Albert Camus. O livro conta a história de Meursault, um homem que vive completamente alheio à importância das coisas ao seu redor. O protagonista é indiferente a tudo, sendo que uma das palavras mais usadas por ele é: “tanto faz”. Albert Camus desenvolve uma história simples, escrita em frases curtas, evidenciando conceitos segundo o qual o homem é livre e seus atos são responsáveis por seu destino.

Meursault, é descrito como “um cidadão da França, homem do Mediterrâneo, um homem que dificilmente compartilha da cultura mediterrânea tradicional”. Semanas após o funeral de sua mãe, ele mata um homem árabe na Argélia francesa, que estava envolvido num conflito com um dos vizinhos de Meursault. Mersault é julgado e condenado à morte. A história é dividida em duas partes, apresentando a visão narrativa em primeira pessoa de Mersault antes e depois do assassinato, respectivamente.

Esta história, cuja narração me fez lembrar um conto ou um texto diarístico, deve ser encarada como uma reflexão acerca da existência humana. Através da indiferença extremada e quase absurda do Sr. Meursault, captamos uma perspetiva diferente da vida, alheia a sobressaltos, à importância das decisões, a questões filosóficas e a figuras transcendentes. Meursault limita-se a viver consoante o que lhe calha na sina, sem se entregar à extravagância das emoções ou à indignação contra o destino. Em vez disso, permanece apático e ultrapassa as reviravoltas da vida através do hábito.

Se há uma sensação que predomina, implacável, nesta obra, essa sensação é o calor. Um calor asfixiante, insuportável, captada pelo autor com tanta autenticidade e intensidade que o leitor se sente tentado a tirar o casaco. Essa impressão prolonga-se pela capa do livro, de um cor de laranja forte que me faz pensar nele como um deserto tórrido comprimido em menos de uma centena de folhas de papel.
Camus serve-se deste personagem principal para mergulhar no absurdo existencial. A vida banal de Mersault até ao momento em que ocorre um crime processa-se dentro do clima do absurdo da vida humana, que não pode ser logicamente explicado, mas simplesmente apreendido e vivido.

Para Camus, a vida é absurda e filosoficamente, isso quer dizer que a situação existencial humana é caracterizada essencialmente pela ausência de sentido e, dessa forma, não existem consistências, certezas e/ou garantias. Não há finalidade última e não há causas primeiras no mundo absurdo.

Para uma melhor compreensão do absurdo é necessário fazer uma análise do próprio quotidiano. As loucuras do dia-a-dia, o corre-corre e a busca do sentido para as coisas e acontecimentos já são indícios do absurdo. O homem cria uma rotina de vida, uma monotonia e acaba deixando levar-se pelo absurdo, perde o sentido da sua existência, passando a não dar mais importância aos factos e acontecimentos no seu trabalho, com os amigos, na família…tudo se torna comum, rotineiro.

Outro ponto que ilustra o absurdo é o facto do homem já não conseguir mais dar conta dos acontecimentos e tudo lhe foge da percepção e ele mesmo constata que o mundo não tem sentido nem razão, e que a vida é absurda e fantasiosa.

É necessário VER esta época, sair do absurdo e criar coragem e buscar inovações e outros caminhos para as atividades do dia-a-dia.

Albert Camus ele próprio dá pistas! Aconselho por isso a leitura "O Homem Revoltado", e em seguida "A Queda". E depois, "A Peste" que é um intermédio entre os dois temas.

USA - Land of the free?

The New Colossus
By Emma Lazarus
November 2, 1883

"Not like the brazen giant of Greek fame,
With conquering limbs astride from land to land;
Here at our sea-washed, sunset gates shall stand
A mighty woman with a torch, whose flame
Is the imprisoned lightning, and her name
Mother of Exiles. From her beacon-hand
Glows world-wide welcome; her mild eyes command
The air-bridged harbor that twin cities frame.
"Keep, ancient lands, your storied pomp!" cries she
With silent lips. "Give me your tired, your poor,
Your huddled masses yearning to breathe free,
The wretched refuse of your teeming shore.
Send these, the homeless, tempest-tost to me,
I lift my lamp beside the golden door!"

Cartoon por Mike Luckovich

Nota: The New Colossus é um soneto escrito pela poetisa norte-americana Emma Lazarus. Ele foi escrito em 1883 com o propósito de angariar fundos para o pedestal da Estátua da Liberdade. O soneto está embutido numa placa de bronze dentro da estátua.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A peste negra


Vai-me custar muito não voltar a ver Nova Iorque, o Inverno em Nova Iorque, o Thanks Giving, a árvore de Natal do Rockefeller Center, o Calatrava no Ground Zero, as iluminações e as montras de Natal na 5ª Avenida, os almoços na varanda interior da Central Station, os jantares no Village, ou a Frick Collection, um museu à dimensão de que eu gosto. Mas é assim a vida, estou velho para visitar ditaduras ou ver apodrecer por dentro a civilização em que fui baptizado, não me apetece ser recebido numa fronteira de aeroporto por um polícia de fuzil de guerra apontado, como se turista fosse igual a terrorista, e menos ainda acabar deportado para El Salvador ou Guantánamo, onde podem acabar todos os estrangeiros ilegais ou desalinhados com a loucura MAGA. Trump acaba de declarar os antifascistas terroristas e tornou claro, no funeral de Charlie Kirk, que, “ao contrário dele, eu odeio os meus adversários”. J. D. Vance, esse crânio da intelectualidade de direita, convidou os empregadores, os colegas e os vizinhos a denuncia­rem esses antipatriotas, para que o FBI e o desemprego se ocupem deles. O Supremo Tribunal Federal cauciona o despedimento de funcionários públicos por estritas razões políticas e inventou a teoria de que a Justiça não pode, invocando o desrespeito pela Constituição, contrariar o programa político de um Presidente eleito — o que significa o fim da separação de poderes, a morte da Justiça e a inutilidade da Constituição. Tudo substituído por uma ditadura unipessoal de um ser, talvez humano, mas doentiamente perturbado, que fez das suas características conhecidas — soberba, ganância material e crueldade — todo um programa político para consumo interno e exportação planetária. A História já viu semelhante e não foi assim há tanto tempo.

Em tempos normais, num mundo regulado pelos valores em que fomos educados, era impensável o que está a acontecer à América. E também era impensável ver a Europa ser humilhada sistematicamente, com o discurso ofensivo de J. D. Vance em Munique, a Dinamarca a ser ameaçada com uma invasão da Gronelândia, Von der Leyen a ser destratada nos domínios escoceses de Trump e depois a assinar a capitulação total da Europa na guerra comercial desencadeada por ele (o descaramento com que o homem nos manda comprar armas e petróleo aos seus amigos americanos em troca de nada) — e, no fim de tudo isto, ver os nossos líderes a rastejar aos pés do “aliado” americano. Zelensky, humilhado em directo por Trump e o seu acólito presidencial, engoliu tudo e respondeu com elogios, súplicas e agradecimentos; Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, encaixou a suprema vergonha de ver Trump revelar o conteúdo de uma missiva privada onde o elogiava ao melhor estilo dos subordinados de Estaline; ou o “grupo das boas vontades”, ou lá como se chama, ostensivamente ignorado por Trump nos seus diálogos com Putin, ir em excursão a Washington pedir para serem escutados sobre a guerra na Europa.

Mas a maior humilhação auto-infligida por alguma nação europeia aos pés do ditador americano foi, para mim, a recepção que a Corte e o Governo inglês reservaram ao rei Donald. Duvido que em vida de Isabel II tivesse sido possível assistir aos dois dias em que a velha Inglaterra, pátria da democracia e dos direitos do Homem, se ajoelhou, com pompa nunca antes vista, perante o homem que está a matar a democracia americana e a exportar para o mundo inteiro uma peste negra que aqui costuma ter o nome de fascismo. A Inglaterra que, após sucessivos desastres na escolha de um PM capaz — incluindo o actual Keir Starmer, uma espécie de amiga política —, se prepara para ver chegar ao poder Nigel Farage, o amigo e admirador de Trump, a quem os ingleses devem a saída da União Europeia. E mesmo este ‘aristo-fascista’ é desafiado ainda mais à direita por um ‘hooligan-fascista’, Tommy Robinson, capaz de levar 100 mil pessoas a manifestarem-se contra os imigrantes na cidade de Londres, que Trump descreveu como “irreconhecível” (apesar de cautelosamente a ter evitado na sua visita real). Desgraçadamente, os líderes europeus, que parecem entusiasmados com a eventualidade de uma guerra com a Rússia e que se dão ao luxo de desprezar a China, ainda não perceberam que o maior inimigo da Europa actualmente são os Estados Unidos da América de Donald Trump e J. D. Vance. E o perigo não é apenas a chantagem a que Trump submete a Europa a vários níveis: é o contágio, cada vez mais amplo, que aqui encontra a sua pregação, assente na prevalência dos interesses dos brancos, ricos e poderosos. Quanto mais tempo a Europa demorar a preparar-se para enfrentar o verdadeiro perigo — no comércio, na energia, na ciência, no clima, nos oceanos, na cultura e na ideologia — mais irreversível será a caminhada para o desaparecimento do mundo e do modo de vida em que fomos criados e educados.

A receita de Trump para a liquidação das democracias e do Estado de Direito é hoje uma espécie de manual de conduta de toda a extrema-direita mundial: dos nostálgicos do fascismo ou do nazismo, dos que gostam de ser mandados por “homens fortes”, ou dos que simplesmente não têm nada mais em que acreditar nem descortinam outro canto mais adequado onde se abrigarem. Todos acreditam na expulsão dos imigrantes das suas terras como solução única para a economia e a sociedade, todos consideram a esquerda como um inimigo a exterminar, todos já decidiram que os políticos das democracias são corruptos sem remissão, todos assimilam as “verdades” prontas-a-vestir que lhes servem e que os dispensam de uma alternativa que lhes daria muito mais trabalho: cultivar-se, informar-se, ouvir os outros (não é por acaso que só 12% dos votantes do Chega têm estudos superiores e 56% não concluíram o ensino secundário). E, consequentemente, todos dispensam o trabalho de procurar a verdade, assim como pouco lhes importam as mentiras constantes dos seus profetas, por mais obtusas que sejam (como as mais de 1500 viagens presidenciais de Marcelo, contabilizadas por André Ventura).

Alguns espíritos mais compreensivos ou modernos sustentam que a responsabilidade por esta onda galopante do populismo de extrema-direita é da esquerda e dos erros da esquerda. Sem dúvida que a esquerda cometeu e continua a cometer erros imperdoáveis, como a suprema imbecilidade do movimento woke, a defesa da autoflagelação histórica das nações com História ou as propostas económicas congeladas na análise marxista de há 150 anos. Mas nada disso seria suficiente para derrubar as democracias. O que derruba as democracias é a sua fragilidade natural — e a esquerda não é responsável por isso. A democracia é o mais frágil dos sistemas políticos, porque exige informação, formação, cultura, debate e capacidade de ouvir e dar razão ao outro, alternância de poder. E, sobretudo isto, um grande consenso social acerca da crença nestes valores e o amor à liberdade como valor primeiro. Mas assim como não é certo que o homem seja por natureza um animal bom, também não é certo que ele aspire por natureza a ser livre. A peste negra explora em proveito próprio o pior do ser humano, individual e socialmente considerado. A missão daqueles que querem continuar a ser livres é fazer-lhe frente. Nada mais.

"A peste negra" - Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 25/09/2025

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Portugal cai para 13.ª posição no índice de pluralismo dos media na UE


Portugal desceu nove pontos percentuais na Monitorização do Pluralismo dos Media na União Europeia (MPM), caindo do 7.º lugar em 2022, primeira edição da avaliação, para a 13.ª posição em 2025. 

Na edição deste ano, Portugal surge na 13.ª posição entre os 27 países da União Europeia (UE) e iguala, nesta matéria, a média da UE (49%), apresentando um "risco médio-baixo", enquanto em 2022 o país registava um índice de 40%.

Para o autor e investigador do Observatório da Diversidade e do Pluralismo do ICNOVA, Rui Cádima, a principal razão para esta queda "prende-se com a tendência crescente de agravamento da sustentabilidade económica do setor dos media", explicou à agência Lusa.

Rui Cádima salienta a existência de "redações fragilizadas, muito pressionadas pela precariedade, colocando a liberdade editorial em causa e o jornalismo de investigação como primeira vítima", acrescentando "uma cada vez maior dificuldade de filtrar a desinformação e a informação de múltiplos intermediários, apesar do surgimento dos 'fact-checkers'".

A disputar o primeiro lugar do índice, desenvolvido pelo Centre for Media Pluralism and Media Freedom para avaliar os riscos ao pluralismo dos media, estão a Alemanha (28%) e a Suécia (28%), seguidas pela Dinamarca (31%) e os Países Baixos (33%), com os quatro a apresentarem um nível de risco considerado "muito baixo".

Portugal regista um índice de pluralismo de 49%, estando entre França (46%) e a Letónia (50%), enquanto o último lugar é ocupado pela Hungria, com um nível de risco "muito alto" (74%).

Em 2022, Portugal ocupava a 7.ª posição entre 32 países e em 2024 encontra-se na 11.ª posição.

Abrangendo os 27 estados-membros da UE, o índice MPM (do inglês 'Media Pluralism Monitor') avalia o pluralismo mediático com base em múltiplas componentes.

Na área de 'Proteção Fundamental', Portugal mantém o nível "médio baixo", sendo que a proteção da liberdade de expressão é o indicador mais crítico, pois "continua a ser manchada em Portugal pela legislação do Código Penal que pune a difamação com pena de prisão".

"Outro aspeto preocupante tem a ver com a necessidade de legislar rapidamente disposições "anti-SLAPP", designadamente para proteger os jornalistas contra ações judiciais abusivas que visam silenciá-los", alerta o documento.

A pluralidade de mercado já apresenta um risco "médio-alto", devido à situação económica cada vez mais difícil das pequenas e médias empresas, às receitas dos meios de comunicação tradicionais que têm vindo a diminuir, bem como ao facto da profissão de jornalista estar a tornar-se cada vez mais precária.

No diz respeito à independência política, o país apresenta um "baixo risco", enquanto na inclusão social regista um risco alto, dado que "os meios de comunicação social locais são cada vez mais afetados por pressões financeiras e enfrentam vários desafios para garantir a estabilidade económica", lê-se no relatório.

Neste sentido, a "situação de maior risco surge no domínio da Inclusão Social, que apresenta agora um risco elevado. No domínio da Pluralidade de Mercado há também problemas persistentes de concentração de mercado. No caso da Proteção Fundamental, a situação piorou ligeiramente, uma vez que Portugal ainda tem questões críticas a resolver […] no caso da independência política, esta continua a ser o domínio mais estável, apresentado um nível de risco baixo".

Os resultados do relatório foram apresentados numa conferência na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Do (Im)possível


"Se te quiserem convencer de que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. Temos direito a viver. Acreditamos nessa certeza com todas as forças do nosso corpo e, mais ainda, com todas as forças da nossa vontade. Viver é um verbo enorme, longo. Acreditamos em todo o seu tamanho, não prescindimos de um único passo do seu/nosso caminho.
Sabemos bem que é inútil resmungar contra o ecrã do telejornal. O vidro não responde. Por isso, temos outros planos. Temos voz, tantas vozes; temos rosto, tantos rostos. As ruas hão-de receber-nos, serão pequenas para nós. Sabemos formar marés, correntes. Sabemos também que nunca nos foi oferecido nada. Cada conquista foi ganha milímetro a milímetro. Antes de estar à vista de toda a gente, prática e concreta, era sempre impossível, mas viver é acreditar. Temos direito à esperança. Esta vida pertence-nos.
Além disso, é magnífico estragar a festa aos poderosos. É divertido, saudável, faz bem à pele. Quando eles pensam que já nos distribuíram um lugar, que já está tudo decidido, que nos compraram com falinhas mansas e autocolantes, mostramos-lhes que sabemos gritar. Envergonhamo-los como as crianças de cinco anos envergonham os pais na fila do supermercado. Com a diferença grande de não sermos crianças de cinco anos e com a diferença imensa de eles não serem nossos pais porque os nossos pais, há quase quatro décadas atrás, tiveram de livrar-se dos pais deles. Ou, pelo menos, tentaram.
O único impossível é o que julgarmos que não somos capazes de construir. Temos mãos e um número sem fim de habilidades que podemos fazer com elas. Nenhum desses truques é deixá-las cair ao longo do corpo, guardá-las nos bolsos, estendê-las à caridade. Por isso, não vamos pedir, vamos exigir. Havemos de repetir as vezes que forem necessárias: temos direito a viver. Nunca duvidámos de que somos muito maiores do que o nosso currículo, o nosso tempo não é um contrato a prazo, não há recibos verdes capazes de contabilizar aquilo que valemos.
Vida, se nos estás a ouvir, sabe que caminhamos na tua direcção. A nossa liberdade cresce ao acreditarmos e nós crescemos com ela e tu, vida, cresces também. Se te quiserem convencer, vida, de que é impossível, diz-lhe que vamos todos em teu resgate, faremos o que for preciso e diz-lhes que impossível é negarem-te, camuflarem-te com números, diz-lhes que impossível é não teres voz."
José Luís Peixoto
Abraço, Quetzal Editores

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Dulce Pontes - Na Língua Das Canções



Não te posso amar
Sem te perguntar
Se já foste rio
Se és irmão das areias e das conchas e dos peixes e do mar
Sou irmã do vento
O meu pensamento
Só se faz canção
Ao sentir-se irmão
Do que quer cantar

Ao olhar pra ti
Sei que te escolhi
Porque foste rio
Dei as mãos aos abraços e a boca aos beijos que eu ousei sonhar
Sou irmã de tudo, amor
O meu canto é mudo, amor
Se eu não conseguir
Chorar e sorrir
Sempre que cantar

Mas eis que o coração
Se torna transparente
Eis que o coração
Abriga os temporais que nascem no mar
E tudo é ser capaz de traduzir na língua das canções
Na minha voz
Na tua voz
O som da água a passar

Sem te perguntar
Se já foste rio
Se és irmão das areias e das conchas e dos peixes e do mar
Sou irmã do vento, amor
O meu pensamento, amor
Só se faz canção
Ao sentir-se irmão
Do que quer cantar

A música 'Na Língua das Canções' de Dulce Pontes é uma ode à conexão profunda entre o ser humano e a natureza, bem como à capacidade de expressar emoções através da música. A letra começa com a cantora questionando se a pessoa amada já foi um rio, simbolizando a fluidez e a transformação. Ela se identifica como irmã do vento, sugerindo uma ligação íntima com os elementos naturais e a liberdade que eles representam. A ideia de que o pensamento só se torna canção ao sentir-se irmão do que quer cantar reforça a necessidade de uma conexão genuína e profunda para a verdadeira expressão artística.

Ao longo da música, Dulce Pontes explora a escolha do amor e a reciprocidade emocional. Ela menciona que escolheu a pessoa amada porque esta já foi um rio, o que pode ser interpretado como uma escolha baseada na capacidade de transformação e adaptação. A cantora também fala sobre a importância de sentir e expressar emoções, afirmando que seu canto se torna mudo se ela não conseguir chorar e sorrir ao cantar. Isso destaca a autenticidade emocional como um componente essencial da arte e da vida.

A metáfora do coração que se torna transparente e abriga os temporais que nascem no mar sugere uma vulnerabilidade e uma abertura para as emoções intensas. A música conclui com a ideia de traduzir essas emoções na língua das canções, utilizando a voz como um meio de comunicação universal. A repetição de elementos naturais como o rio, o vento e o mar ao longo da letra reforça a ideia de que a natureza e as emoções humanas estão intrinsecamente ligadas, e que a música é uma forma poderosa de expressar essa conexão.