Mostrar mensagens com a etiqueta Ibero-Americano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ibero-Americano. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Mudar regimes tem sido uma aposta arriscada para os EUA


A posição dos EUA que levou à Guerra do Iraque ameaça agora criar problemas sérios na Venezuela.

Os Estados Unidos são o país que mais intervenções externas liderou para impor mudanças de regime. Calcula-se que tenham derrubado 35 governos estrangeiros nos últimos 120 anos. Este recorde assenta numa combinação perigosa de forte poder militar e um grande número de actores considerados inimigos — além de uma excessiva autoconfiança que se tem revelado sistematicamente errada.

Ninguém se tem mostrado mais tentado a recorrer às forças armadas e à economia mais fortes do mundo para vencer discussões, conquistar territórios, derrotar adversários e intimidar aliados do que Donald Trump. Neste momento, Washington tem em curso uma campanha militar e dos serviços secretos cada vez mais intensa contra o presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, depois de já ter atacado o Irão e o Iémen e de ter ameaçado, de forma mais vaga, a Nigéria, o México, o Panamá e mesmo a Dinamarca e o Canadá.

O derrube de líderes de outros países é uma tática suficientemente frequente para ter direito a uma sigla específica entre os académicos: FIRC, ou foreign-imposed regime change (mudança de regime imposta pelo estrangeiro).

De acordo com um levantamento realizado por Alexander Downes, professor associado e cientista político da Universidade George Washington e autor do livro Catastrophic Success: Why Foreign-Imposed Regime Change Goes Wrong (Sucesso Catastrófico: Porque Falham as Mudanças de Regime Impostas pelo Estrangeiro), entre 1816 e 2011, os Estados Unidos foram responsáveis por cerca de um terço das 120 destituições forçadas de líderes por uma intervenção externa em todo o mundo.

As mudanças de regime e outras intervenções violentas raramente correm de acordo com os planos. Pela sua parte, algumas das ameaças agora lançadas por Trump — como entrar «aos tiros» na Nigéria, onde há grupos extremistas armados e fortes conflitos étnicos e sectários — têm tudo para correr muito mal. Os fracassos do passado deveriam servir para recordar os americanos de que a arrogância pode ter consequências catastróficas, seja para os indivíduos, seja para os Estados.

Veja-se o caso da mudança de regime estrangeiro n.º 34, imposta pelos EUA ao Iraque, cujo resultado eu pude testemunhar numa série de patrulhas militares que acompanhei como repórter em Bagdad, em maio de 2006.

Três anos depois de os Estados Unidos terem derrubado Saddam Hussein com base em alegações falsas sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, não havia sinais da vaga de democratização que a equipa do presidente George W. Bush vaticinara para o Médio Oriente. Pelo contrário, quando as acompanhei, as patrulhas da 10.ª Divisão de Montanha tinham-se convertido num serviço de remoção de cadáveres. Todas as noites, recolhiam e transportavam os cadáveres de iraquianos que outros iraquianos deixavam abandonados nas ruas e nas calçadas de Bagdad.

Os mortos, na sua maioria jovens, alguns com as mãos estendidas no ar em choque ou amarradas atrás das costas pelos seus assassinos, foram vítimas de uma guerra civil sectária que a administração Bush não antecipou. Derrubar o governo sunita de Saddam e as suas forças de segurança foi uma tarefa fácil para as Forças Armadas dos EUA. Não se pode dizer o mesmo relativamente à luta pelo poder entre as milícias xiitas iraquianas, apoiadas pelo Irão, e os grupos revoltosos sunitas, nascidos do vazio de segurança que se seguiu à intervenção norte-americana. O desenrolar dos acontecimentos acabou por deixar o Irão mais forte, além de ter criado as condições para o surgimento do Estado Islâmico enquanto ameaça global. Há tropas americanas na região até hoje.

Muito tempo depois de as forças americanas terem expulsado Saddam, os cidadãos iraquianos ainda sentiam na pele as consequências dessa intervenção. Todos os dias, enfrentavam sequestros, torturas e assassínios, carros armadilhados, bombas suicidas, entre outros ataques.

Certa noite, em Bagdad, as tropas americanas foram atingidas por uma bomba de fabrico artesanal. A explosão deixou alguns dos jovens soldados a coxear ou atordoados. Já um motorista iraquiano que circulava ali perto foi atingido na cabeça e morreu.

Naquela noite, Will Shields, o segundo-tenente de 23 anos que liderava a patrulha, dirigira-se a um posto da polícia de Bagdad — uma das forças de segurança controladas pelos xiitas que os Estados Unidos tinham criado para impor a ordem no Iraque. Entre exortações e negociações, Shields incitou os polícias xiitas assustados a saírem dos seus gabinetes para, sob a proteção americana, ajudarem a patrulha dos EUA a recolher os corpos daquela noite durante o tempo que fosse necessário.

«Vocês têm noção de que é o vosso trabalho?», perguntou o frustrado tenente norte-americano à polícia iraquiana naquela noite. «Como é que podem esperar que os americanos façam alguma coisa, se vocês não fazem nada?»

A dimensão dos assassínios com motivações sectárias impediu que fossem atribuídos nomes e histórias de vida aos mortos iraquianos, reduzindo-os a uma sucessão de ferimentos, registados pelos soldados enquanto atiravam os corpos para dentro dos veículos de caixa aberta.

O caso da Venezuela representa o regresso a uma longa tradição de interferência dos EUA na América Latina. Segundo a investigação de Downes, cerca de 20 das 35 mudanças de regime apoiadas pelos EUA ocorreram na América Central, na América do Sul ou nas Caraíbas.

Em alguns desses países, os governantes foram sucessivamente afastados e substituídos pelos Estados Unidos, numa cadência digna de quem sacode uma máquina de venda automática para que caia o chocolate certo. Só em 1954, por exemplo, Washington D.C. destituiu três líderes guatemaltecos.

A nível mundial, um terço de todas as quedas forçadas de regime resultaram, nos dez anos seguintes, em guerras civis no país intervencionado, concluiu Downes.

Um caminho frequente rumo ao desastre é o que se verifica quando os regimes entram em colapso total, deixando as forças de segurança armadas, insatisfeitas e desnorteadas. Outro rumo desastroso frequente é quando as potências estrangeiras colocam no poder um novo líder, o qual é obrigado a uma tremenda ginástica para ir ao encontro de prioridades diversas do seu povo e da potência estrangeira que o colocou no poder.

«O grande problema das mudanças forçadas de regime é a tendência para não se pensar no que vem depois, não se saber qual é o plano para o futuro», afirmou Downes. «E é incrível a frequência com que isso acontece», acrescentou. «Os países continuam a interferir e, das duas, uma, ou não pensam no que vai acontecer a seguir ou acreditam... que as coisas vão ser diferentes naquele caso.»

Trump optou por recorrer a meios militares e à CIA, seja para assustar Maduro levando-o a abandonar o poder, seja para forçar a sua saída de cena.

De acordo com as estatísticas, as mudanças forçadas de regime têm mais hipóteses de conseguir levar a uma democracia consolidada se ocorrerem em países com prévia experiência democrática, que sejam economicamente prósperos e tenham uma população relativamente homogénea, como o Japão ou a Alemanha no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, concluíram Downes e os seus colegas de investigação.

Quando esses critérios não se verificam, surgem situações como o regresso ao poder dos talibãs no Afeganistão ou a ascensão da República Islâmica depois de os Estados Unidos e o Reino Unido terem ajudado o xá do Irão, afastando o seu adversário político. Após duas décadas de assassínios e rebeliões, o Iraque alcançou um certo grau de estabilidade, mas o custo de todo o processo assustou os restantes países da região, tornando-os ainda mais relutantes em relação a eventuais experiências democráticas. Alguns especialistas veem com alarme qualquer tentativa de impor uma mudança de regime na Venezuela, um país produtor de petróleo onde a má governação do autocrata socialista Maduro e do seu antecessor Hugo Chávez, agravada pelas sanções internacionais, destruíram a economia e criaram milhões de refugiados.

A administração Trump acusou Maduro de ligação ao tráfico de droga, mas os Estados Unidos exageram o papel da Venezuela no contrabando de droga para os Estados Unidos. Para reforçar a presença militar, Washington enviou o seu maior porta-aviões para a região. Dezenas de pessoas foram mortas em ataques norte-americanos contra lanchas que, segundo os Estados Unidos, mas sem que tenham sido apresentadas provas, transportavam droga.

A administração Trump tem sido vaga quanto às intenções dos EUA, nomeadamente se pretendem usar a força para expulsar Maduro (que manipulou as eleições para se manter no poder), ou se, com as suas ações militares — como os ataques aéreos —, visam encorajar os venezuelanos a tratarem eles mesmos do assunto.

A estratégia mais pacífica que caracterizou o primeiro mandato de Trump — com imposição de sanções financeiras para aumentar a pressão sobre Maduro e a proposta de um acordo de partilha de poder para facilitar a sua saída — não serviu, ao contrário do que se esperava, para capacitar a oposição venezuelana. Neste novo mandato, Trump optou por recorrer a meios militares e à CIA, seja para assustar Maduro, levando-o a abandonar o poder, seja mesmo para o forçar a sair de cena.

Os opositores de Maduro consideram que a Venezuela tem um governo eleito, liderado pelo candidato da oposição, que para os EUA e outros países, é o vencedor das presidenciais de 2024

«Já vimos este filme antes», declarou Jacqueline Hazelton, especialista no tema do impacto político do poder militar e anteriormente professora do Naval War College, hoje editora da revista International Security, segundo a qual este tipo de intervenções costuma desencadear o choque violento entre fações.

A Venezuela tem uma oposição democrática forte e motivada, liderada por Maria Corina Machado, galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 2025. Porém, Maduro dispôs de vários anos para reforçar e diversificar o seu domínio sobre as instituições do país. Corina Machado não tem capacidade para quebrar esse domínio e reprimir adversários, disse ainda Hazelton.

Como argumento em prol de uma intervenção dos EUA na Venezuela, os seus defensores invocaram a 31.ª mudança forçada de regime liderada pelos EUA, ocorrida no Panamá em 1990, em que o governo militar foi substituído por um governo democrático.

O Panamá, no entanto, é um país muito mais pequeno do que a Venezuela, quer em território, quer em população, e estava aí baseado um contingente militar dos EUA, o que não acontece na Venezuela, observou Downes.

Os defensores da intervenção dos EUA na Venezuela têm-se esforçado por responder a quaisquer dúvidas sobre esta opção. Ao ponto de um escritor da oposição venezuelana, defensor da intervenção dos EUA, ter rejeitado que seja apropriado usar a expressão «mudança de regime», no caso do seu país.

Maduro chefia uma rede criminosa de tráfico de drogas, por isso não se trata de derrubar um governo legítimo, disse-me Walter Molina, que fugiu da Venezuela de Maduro e vive agora em Buenos Aires. Molina e outros opositores ao regime consideram que a Venezuela tem um governo eleito, liderado pelo candidato da oposição, o qual, segundo os Estados Unidos e outros países, venceu as eleições presidenciais de 2024, mas que foi posto de lado por Maduro, e que aguarda as condições para regressar.

Qualquer intervenção dos EUA servirá «para respeitar a vontade do povo venezuelano», declarou Molina.

Até pode ser verdade — talvez a conjugação entre o desagrado interno face à má governação de Maduro e uma intervenção forte do exterior sejam suficientes para derrubar um autocrata e instaurar a democracia. A incerteza, contudo, é suficiente para justificar cautela. O mundo, aliás, já assistiu mais vezes a este tipo de abordagem, como quando Dick Cheney, então vice-presidente dos EUA, declarou que as forças armadas norte-americanas seriam «recebidas como forças de libertação» no Iraque.

Sobre a imposição de mudanças de regime em países terceiros, Downes comentou: «É tentador simplesmente avançar, dizendo: “Bem, aconteça o que acontecer, não pode ser pior do que está”. Só que isso por vezes não é verdade.»

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Paz, Paz, Paz!

Paz en todos los hogares.
Paz en la tierra, en los cielos,
bajo el mar, sobre los mares.
Paz en la aurora, en el sueño.
Paz en la pasión del grande
y en la ilusión del pequeño.
Paz sin fin, paz verdadera.
Paz que al alba se levante
y a la noche no se muera.
¡Paz, paz, paz! Paz luminosa.
Una vida de armonía
sobre una tierra dichosa.

domingo, 1 de dezembro de 2024

Cómo los tiburones pueden ser la clave para reverdecer la Tierra y combatir la sequía


E se a isto juntarmos os macro projectos fotovoltaicos que querem destruir tantos hectares de olivais, amendoeiras, sobreiros, etc. o que fazemos com toda esta raiva e impotência ao ver que vão ser realizados por multinacionais que para nos “roubar” o sol, estes ecocídios vão ser cometidos, sem se preocuparem com a seca que será ainda mais significativa, a falta de gado que não poderá pastar nos prados, as abelhas e insetos que não encontrarão um único arbusto, planta ou árvore para acompanhar o seu papel no ambiente. Adeus à biodiversidade e dê as boas-vindas à especulação e à destruição. Não pode ser feito assim!

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Música do BioTerra: Lina - O que temo e o que desejo (feat. Rodrigo Cuevas)


O que temo, e o que desejo
Que sempre o que temo, vejo
Que isso me dera da morte [2X]

De maneira me sucede
Nunca o que a vontade pede
Alma e vida a toda a sorte [2X]

Con ganas de darme muerte
El morirme es dulce suerte
Ojos que os detenéis [2X]

Muerto volvéis a mirarme
Acabad ya de matarme
Por que me resucitéis [2X]

Alma e vida a toda a sorte
Que isso me dera da morte
De maneira me sucede [2X]

O que temo, e o que desejo
Que sempre o que temo, vejo
Nunca o que a vontade pede [2X]

La llaga, cierto, es la mía
El morirme es alegría
Y así digo que acabéis [2X]

Ojos ya de matarme
Muerto volvéis a mirarme
Por que me resucitéis [5X]

terça-feira, 21 de maio de 2024

Colapso dos peixes migratórios ameaça alimentação de milhões de pessoas


O colapso das populações de peixes migratórios ameaça a segurança alimentar de milhões de pessoas e os ecossistemas críticos de água doce, indica um relatório ontem divulgado.

Em vésperas do Dia Mundial da Migração de Peixes, no próximo sábado, 24 de Maio, o documento salienta que desde 1970 se registou um declínio de 81% das populações de peixes migradores, sendo as quedas mais acentuadas na América Latina (91%), Caraíbas (91%) e Europa (75%).

No entanto a diminuição dos peixes de água doce regista-se em todo o mundo, o que põe em risco a segurança alimentar e os meios de subsistência de milhões de pessoas, a sobrevivência de muitas outras espécies, e a saúde a resiliência dos rios, lagos e zonas húmidas.

Os alertas fazem parte de um novo relatório do Índice Planeta Vivo, sobre peixes migratórios de água doce, publicado pela organização “World Fish Migration Foudation” e outras entidades, incluindo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e a “World Wide Fund for Nature” (WWF).

O Índice Planeta Vivo é um indicador global sobre o estado da biodiversidade, administrado pela Sociedade Zoológica de Londres em cooperação com a WWF.

No documento explica-se que metade das ameaças aos peixes migradores se relaciona com a degradação dos habitats, incluindo a construção de barragens e de outras barreiras nos rios, e a conversão das zonas húmidas para a agricultura. A sobre-exploração, o aumento da poluição e o agravamento dos impactos das alterações climáticas, estão também a diminuir as espécies de peixes migradores.

“O declínio catastrófico das populações de peixes migratórios é uma chamada de atenção para o mundo. Temos de atuar agora para salvar estas espécies fundamentais e os seus rios”, afirmou, citado num comunicado sobre o relatório, Herman Wanningen, da “World Fish Migration Foudation”.

O especialista considera que os peixes migratórios “são fundamentais para as culturas de muitos povos indígenas, alimentam milhões de pessoas em todo o mundo e sustentam uma vasta rede de espécies e ecossistemas”, alertando que não se pode “continuar a deixar que eles escapem silenciosamente”.

Os autores do documento salientam também que os peixes migratórios de água doce são vitais para a alimentação de milhões de pessoas, especialmente na Ásia, África e América Latina, e que são meio de subsistência para dezenas de milhões através da pesca local, comércio, indústria e pesca recreativa.

E destacam pela positiva que um terço das espécies monitorizadas aumentou, nomeadamente por melhor gestão de recursos, recuperação de habitats e remoção de barragens.

Na Europa e nos Estados Unidos já foram removidas milhares de barragens, diques, açudes e outras barreiras fluviais. No ano passado a Europa removeu um recorde de 487 barreiras, um aumento de 50 % em relação ao máximo anterior de 2022.

Os decisores de todo o mundo devem acelerar os esforços para proteger e restaurar os caudais dos rios, investindo em alternativas sustentáveis às barragens hidroelétricas que estão planeadas. E lembram os objetivos saídos da cimeira mundial sobre a biodiversidade Kunming-Montreal, no Canadá no final de 2022, de recuperação de 300.000 quilómetros de rios degradados.

A “World Fish Migration Foudation” promove desde 2014 o Dia Mundial da Migração de Peixes, para aumentar a consciencialização sobre os peixes migratórios. Este ano celebra os rios livres e já conta com mais de 65 países participantes.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

As virtudes da lentidão


Estou a começar a ter aulas de Tai-Chi desde Janeiro deste ano. Estou a adorar.
O nosso Presidente da República não podia estar mais certo quando afirmou que os orientais são lentos.
Siddhartha Gautama (o Buda) meditou durante seis meses (segundo alguns relatos) antes de descobrir as suas Quatro Nobres Verdades.
Na filosofia Taoísta apenas o lento e deliberado pode ser considerado Virtuoso ou Sábio.
Na estética japonesa "Ma" é o espaço vazio.
Na fotografia os espaços negativos (vazio) são importantíssimos para o sujeito "respirar".
Na escrita, a mesma tarefa. A lentidão contribui para a imaginação e vêm novas ideias. Acreditem.
Na actualidade ocidental com o nervosismo e stress das pessoas sempre ligadas a algo ou alguém distante, com os smatphones ligados na cabeceira da cama, no banho e ao lado dos talheres disputando a atenção, sinto-me grato pela aprendizagem diária desta arte de "lentidão oriental".
Ser lento é ser livre, evito respostas brutas e agressivas, degusto melhor (a slow-food é uma boa resposta) e prefiro falar do que teclar.
Acredito que chegámos a um ponto onde para evoluir é preciso regredir, reaprender com os antepassados e os bons exemplos asiáticos e também os africanos. E a sabedoria dos povos indígenas do Globo.

Adenda: Comentário de António Cerveira Pinto
Na China é uma prática comum, normalmente solitária. Vêem-se homens e mulheres, quase sempre de meia idade ou idosos, nos jardim d alamedas de Pequim realizando Tai Chi. Mas reparei também, corria o ano de 2007, nos avós que passeavam netos e netas, enquanto os pais trabalhavam. E ainda pequenos grupos de homens que escreviam caracteres no passeio, com água. Seria poesia, ou algum jogo? Não sei. Nos Estados Unidos há uma outra forma de escapismo (o que eu fui escrever!) muito em moda. Chama-se TM, ou Meditação Transcendental. Eu prefiro passear e filosofar, sozinho ou acompanhado. As ruas falam comigo, as casas falam comigo, as árvores reduzem-me à insignificância, as flores ensinam-me arte, os pequenos insectos atarefados explicar-me o que é uma vida de trabalho, e os corvos de Bruxelas, como os de Tóquio, ou da catedral de Évora, fazem de mim um irmão franciscano. Só vivemos uma vez.

P.S. De acordo com o Budismo, Siddhartha Gautama viveu várias reencarnações e relatou-as nos  chamados contos de  Jatakas.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Luís Sepúlveda

Quarto-crescente - 14.04.2024
"E o meu irmão
sabe
muitas coisas.
Sabe, por exemplo,
que um grama de pólen
é como um grama de si mesmo,
docemente predestinado ao lodo germinal,
ao mistério daquilo que se erguerá vivo de ramos,
de frutos e de filhos, com a bela certeza das transformações,
do começo inevitável e do necessário final, porque o que é imutável
encerra o perigo do eterno, e só os deuses têm tempo para a eternidade."

Luís Sepúlveda

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Fascistas, novamente? Não obrigado!

"Sou um homem, sou pai de família, sou avô e... sou fascista!" Foi dito publicamente na última 6.ª Convenção Nacional do Chega.
Pois bem, meus caros. Não esquecemos! Não esquecemos nem queremos recalcamentos nem pós-verdade. Ainda há muito silêncio e carrascos fachos que não chegaram à barra dos tribunais.
A Ditadura Nacional (1926–1933) e o Estado Novo de Salazar e Marcello Caetano (1933–1974) foram, conjuntamente, o mais longo regime autoritário na Europa Ocidental durante o séc. XX, estendendo-se por um período de 48 anos. Teve impacto global.
O regime franquista foi igual. Global. O Franquismo foi um regime totalitário de caráter nazifascista fundado pelo ditador Francisco Franco, que dominou a Espanha e os países ibero-americanos durante os anos de 1939 a 1975.
Por favor voltar a rever este excelente documentário.
O Silêncio dos Outros, retrato da luta das vítimas do franquismo é um dos mais importantes e premiados documentários do ano 2019.
Produzido por Pedro Almodóvar e realizadado por Almudena Carracedo e Robert Bahar, o filme conquistou, nos prémios mais importantes do cinema espanhol, o Goya de Melhor Documentário e venceu o Prémio do Público da secção Panorama no Festival de Berlim.
O Silêncio dos Outros mostra a luta épica das vítimas dos 40 anos da ditadura de Franco, em Espanha, que continuam hoje a procurar justiça. Filmado ao longo de 6 anos, o filme acompanha várias vítimas e sobreviventes, enquanto organizam o "Processo Argentino" e enfrentam uma amnésia imposta pelo Estado perante crimes contra a Humanidade num país, que após quatro décadas de democracia, continua dividido.

Desde sua morte, em 1975, o corpo de Franco esteve no Vale dos Caídos, um imponente mausoléu a 50 quilómetros de Madrid. Por decisão do próprio ditador, o local foi construído por milhares de presos políticos espanhóis nos anos 1940 e 1950. Neste templo católico, onde se destaca uma cruz de 150 metros de altura, também estão os restos mortais de 27 mil combatentes leais a Franco e das vítimas de seu regime, 10 mil republicanos, retirados de fossas comuns e cemitérios e levados para o local sem aviso prévio às famílias. O franquismo e o salazarismo tiveram impactos globais. Salazar com a Guerra Colonial e Franco estendendo o seu impacto nos países ibero-americanos.
Não esquecemos!

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Recordar Afonso Cautela


«"Salve-se quem puder, depois de nós o dilúvio e quem vier depois que se arranje". Esta frase tornou-se o lema e religião da mais recente geração de tecnoburocratas que estão conduzindo o mundo à beira do irreversível colapso». Assim começava o livro, "2000 - Depois do Petróleo, o Dilúvio" muito profeticamente, o Afonso Cautela. Muita Luz e Amor na sua alma!

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Apenas 5% dos povos negros da América Latina têm direitos à terra reconhecidos


No último dia 5 de dezembro, durante a Convenção nas Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP28), realizada em Dubai, Emirados Árabes, líderes afrodescendentes do Brasil, Colômbia e Honduras apresentaram resultados do estudo “Territorialidade dos Povos Afrodescendentes da América Latina e do Caribe em Hotspots de Biodiversidade”.
Esse estudo mostrou que apenas 5% dos povos negros dessas regiões têm reconhecimento legal de seus direitos coletivos à terra e ao território. Esses povos estão presentes em 205 milhões de hectares, englobando 16 países da região. Além disso, dados demonstram que as comunidades de povos negros da América Latina contribuem para a preservação do meio ambiente em seus territórios. Essa foi a primeira análise regional a documentar a presença territorial dos povos afrodescendentes e sua importância para a América Latina e o Caribe em termos de desenvolvimento, mitigação e adaptação às mudanças climáticas e conservação. Consultar o Atlas de Solos da América Latina e do Caribe.
O evento foi encerrado nessa terça-feira (12). O objetivo era convocar os Estados e os parceiros da região da América Latina e Caribe a promover e implementar reformas para o reconhecimento e a titulação dos territórios dos povos afrodescendentes, como forma de garantir um caminho eficaz para a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas.
A discussão foi organizada pela Rights and Resources Initiative (RRI) e contou com a presença de Susana Muhamad, ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia; Omaira Bolaños, da RRI; Jose Luis Rengifo, do Proceso de Comunidades Negras (PCN); Katia Penha, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) do Brasil; Gregoria Jimenez, da Organização para o Desenvolvimento das Comunidades Étnicas (Odeco), de Honduras; e Clemencia Carabali, da Associação de Mulheres Afrodescendentes do Norte do Cauca (Asom).

A diretora do Programa para a América Latina da RRI, Omaira Bolaños conversou com a Agência Brasil:
Agência Brasil: Como o estudo “Territorialidade da Biodiversidade dos Povos Afrodescendentes na América Latina e no Caribe”, apresentado na COP 28, em Dubai, pode contribuir para reduzir os efeitos das mudanças climáticas?
Omaira Bolaños: É importante destacar que esse é o primeiro estudo a documentar a presença territorial dos povos afrodescendentes e sua importância para a América Latina e o Caribe em termos de desenvolvimento, mitigação e adaptação às mudanças climáticas e conservação. Trata-se de um esforço conjunto entre a RRI, a PCN, a Conaq, o Observatório de Territórios Étnicos e Camponeses (Otec) e outras 20 organizações de base que o acompanham.
A análise revela que há 205 milhões de hectares em 16 países da região com a presença territorial de povos afrodescendentes. Entretanto, apenas 5% têm reconhecimento legal de seus direitos coletivos à terra e ao território. Essa análise também mostra que há mais de 1.271 áreas protegidas dentro ou adjacentes aos territórios dos povos afrodescendentes, 77% das quais têm transformação natural reduzida, o que demonstra a enorme contribuição dessas comunidades na proteção de áreas de alto valor ecossistémico.
O Brasil é um país significativo diante dos dados acima, pois 67% dessas áreas estão localizadas em municípios certificados com a presença de comunidades quilombolas sem titulação coletiva.

Agência Brasil: Que papel as comunidades tradicionais podem desempenhar na mitigação das mudanças climáticas?
Omaira Bolaños: As comunidades são as protagonistas dessa ação. As conclusões do estudo identificam a situação de modo que, a partir desse ponto de partida, há muito trabalho a ser feito para o reconhecimento e a proteção dos direitos das populações quilombolas dentro dos regimes legais de direitos de propriedade coletiva. O meio ambiente é preservado quando os territórios quilombolas são protegidos. A gestão territorial quilombola é conservacionista por excelência.

Agência Brasil: Embora a população afrodescendente na América Latina e Caribe represente cerca de 30% da população total da região, os direitos das comunidades tradicionais ainda não são reconhecidos por muitos países. O que deve ser feito para reverter essa situação?
Omaira Bolaños: Um evento dessa magnitude, que reúne líderes regionais para apresentar os resultados do estudo sobre a presença territorial dos povos afrodescendentes e sua importância para a América Latina e o Caribe em termos de desenvolvimento, mitigação e adaptação às mudanças climáticas e conservação, já é um passo importante para envolver diferentes governos na necessidade de implementar políticas que reconheçam os direitos de posse territorial dos povos afrodescendentes e sua importância na agenda global e nas metas de mitigação das mudanças climáticas e conservação da biodiversidade.
Segundo Omaira Bolaños, estudos mostram que quando detêm direito à propriedade, comunidades afrodescendentes aumentam a capacidade de evitar o desmatamento. 

Agência Brasil: As florestas tropicais representam cerca de 87 milhões de hectares nos territórios mapeados dos povos afrodescendentes, muitos dos quais estão localizados em áreas consideradas de biodiversidade. O que pode ser feito para garantir que esses territórios sejam reconhecidos como de grande valor para a preservação do planeta? E que políticas públicas os governos deveriam introduzir para proteger e garantir os direitos das pessoas de ascendência africana, como os quilombolas?
Omaira Bolaños: O Brasil é um país significativo diante dos dados acima, pois 67% dessas áreas estão localizadas em municípios certificados com a presença de comunidades quilombolas sem titulação coletiva. Apenas 1.093.645,1 hectares foram legalmente reconhecidos às comunidades quilombolas no Brasil. Ainda há pedidos de reconhecimento de 2.387.859,7 hectares de terras de comunidades quilombolas pendentes. O Brasil é um dos poucos países com um arcabouço legal robusto e uma estrutura institucional com capacidade para avançar na implementação de políticas de direitos de posse de terra para comunidades quilombolas em nível nacional e subnacional.
Vários estudos demonstram que, quando as comunidades têm direitos legais de posse sobre suas terras, sua capacidade de evitar o desmatamento e proteger a biodiversidade aumenta. Garantir os direitos à terra e aos recursos das comunidades quilombolas é uma das maneiras mais eficazes de avançar em direção às metas do Brasil em relação à mitigação das mudanças climáticas e à proteção da biodiversidade. O estudo mostra o papel significativo que as terras das comunidades afrodescendentes em toda a América Latina têm na proteção dos inestimáveis recursos florestais da Terra.
Esperamos que essa abordagem possa amplificar as vozes da população local e envolver proativamente governos, instituições multilaterais e atores do setor privado na adoção de reformas institucionais e de mercado para apoiar os direitos de posse das comunidades quilombolas, de modo que elas continuem desenvolvendo estratégias que apoiem a sustentabilidade da floresta e protejam a biodiversidade”.

Agência Brasil: Em 11 países, os direitos à terra desses povos foram reconhecidos, mas em outros isso ainda não aconteceu. O que as organizações não governamentais (ONGs) da América Latina e do Caribe ligadas à causa dos afrodescendentes propõem para remediar essa situação?
Omaira Bolaños: Acreditamos que a saída para a crise pode ser identificada pelas comunidades e territórios que sofrem esses impactos. Eles são os protagonistas dessa ação. Uma maneira é conhecer melhor os territórios, inclusive os que estão ao nosso redor. A coalizão para a produção do estudo em 16 países da região com a presença territorial de povos afrodescendentes, um esforço conjunto entre a RRI, o PCN, a Conaq, o Observatório de Territórios Étnicos e Camponeses (Otec) e outras 20 organizações de base que o acompanham, abre caminho para que sejam criadas soluções nas comunidades e nos territórios para problemas complexos.
A coalizão de organizações afrodescendentes e aliados que trabalham juntos nessa estratégia regional baseia-se em um roteiro que define duas grandes ações inter-relacionadas: o mapeamento de seus territórios e o ‘status’ legal do reconhecimento dos direitos de posse sobre esses territórios. Essas duas ações têm o objetivo de informar a cada um dos governos e às comunidades doadoras internacionais e bilaterais onde novas políticas precisam ser criadas ou implementadas e o nível de apoio – nacional ou subnacional – para garantir o avanço dos direitos à terra das comunidades afrodescendentes e quilombolas.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Livro - Cervantes Libertário


Este livro de Emilio Sola redescobre um Cervantes crítico do sistema social vigente à época, e amante da liberdade. Uma razão bastante para encontrarmos um Cervantes libertário que explica porque é que os anarquistas amam Cervantes

«A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos, que aos homens deram os céus: não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens.»

Cervantes, M. D. Quixote de La Mancha

“Alcançar a liberdade nesta vida” é um verso de Cervantes que contém em si todo um programa de vida e de ação para uma pessoa do seu tempo e de todos os tempos. Porque a riqueza de Cervantes reside precisamente na descoberta que cada geração dele faz à medida que evoluem novas sensibilidades, para além da mera erudição crítica dos Cervantes, sempre transbordando delas. Quatro dias antes de morrer, o próprio Cervantes disse: “os tempos não são os mesmos”, e que chegará um tempo em que as pessoas, amarrando os fios soltos e quebrados de suas histórias, verão o que ele quis dizer e, mais ainda, o que ele quis dizer, o que era apropriado dizer.

Este livro de Emilio Sola – historiador com obras fundamentais sobre questões fronteiriças e de informação na época de Cervantes, tanto no Mediterrâneo como no Extremo Oriente – é um convite precisamente a essa interpretação mais livre das obras de Cervantes, a uma leitura libertária. ou libertar que no seu tempo histórico - “os tempos não são os mesmos” - era inviável.

Para horror do sistema, dos casticistas, dos bem pensantes e politicamente corretos, a suspeita de um Cervantes anti-sistema, um cortesão impossível, caluniador de “trocas injustas e de lidar com emaranhados” (a mais básica corrupção econômica) , um Cervantes não-denominacional e até uma feminista de quem não se fala na pompa dos centenários, e cuja mensagem principal ele se esforçou conscientemente para construir ao longo de sua vida. Por esta razão, Cervantes, o libertário são ou lúcido, tem que inventar Dom Quixote, o libertário louco, para dizer o que queria dizer, uma pura busca pela liberdade de expressão para “alcançar a liberdade nesta vida”.

Inúmeras e sempre novas leituras de Cervantes, renováveis ​​mesmo com a mudança dos tempos, fundamentais para compreender, por exemplo, Cervantes quando diz que não é adequado como cortesão porque não sabe lisonjear, e cujas queixas sobre a justiça são radicais, sem costura, claramente antissistémica., como aparece no primeiro discurso da Idade de Ouro, pela boca de Quixote; ou o Cervantes que, numa análise magistral da modernidade que se aproximava, compara a empresa económica moderna com a galera corsária, e lamenta que o novo deus dos novos tempos seja o “juros”, o dinheiro, para que “as mudanças injustas e tratamento emaranhado" seja a nova lei desses novos tempos bárbaros; ou a feminista Cervantes que numa sociedade patriarcal e machista faz Marcela dizer que nasceu livre e o que acontece é que seu amante não correspondido, Crisóstomo, suicidou-se, porque era um perseguidor; ou o Cervantes que, numa sociedade confessional fundamentalista como a monarquia católica, faz despedir-se um mouro e um cristão numa peça teatral como esta: “O teu Cristo vai contigo”, diz o mouro Ali; “Seu Muhammad, Ali, fique com você”, diz o cristão; formulação sem paralelo na literatura europeia de então e quase hoje, no curso das coisas.

Esse é o Cervantes que as elites culturais e os especialistas não parecem ter interesse em encobrir para que todos o compreendam. Aquele que não consegue digerir uma sociedade formal que, no fundo, não entra plenamente nele porque, como lhe aconteceu na vida, a despreza e esconde, a confunde ou a ignora, e só consegue rir dela graças ao louco que fala besteiras, e que inventou por pura necessidade de liberdade de expressão, num artifício literário que cria o romance moderno.

Esse é, sem dúvida, o personagem histórico de Cervantes que deslumbra os anarquistas, os libertários, e por isso são radicalmente Cervantes, mais que quixotistas, porque apaixonados por Dom Quixote, centram seu interesse naquele homem que está por trás do a própria obra literária., que lhe dá vida, que a torna possível.

Que Dom Quixote de Alcalá de Henares, como José María Puyol Albéniz, puro emblema, resume no título de um livro que publicou em 1947 e que simplesmente assina Puyol: um exilado libertário que chegou à Argélia no navio Stanbrook fugindo da repressão de Franco, cuja paixão por Cervantes também é narrada em "Por que os anarquistas amam Cervantes". O livro termina com uma revisão das afinidades do movimento libertário com Dom Quixote e seu autor.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Os pretos que há em nós

Uma lição exemplar sobre as nossas origens e mais uma machadada nos preconceitos racistas…

Uma reconstrução da aparência do primeiro ser humano moderno do mundo, de cerca de 160 mil anos atrás (Museu Moesgaard, Dinamarca)
Os primeiros humanos modernos eram pretos, não muito diferentes de algumas etnias africanas actuais, e assim continuaram durante milénios enquanto alguns saiam de África. Chegados à Europa, Ásia e mais tarde América, depararam-se com climas diversos e foram-se adaptando para sobreviver. Alguns chegaram cedo à  Austrália, por volta de 60.000 anos atrás - os aborígenes -, e não mudaram muito. Outros, foram para norte e ocuparam a Eurásia - cro-magnons e denisovianos -, e ficaram mais claros porque a pele clara absorve mais raios UV, essenciais para produzir a vitamina D. A pele escura, surgida nos trópicos para precisamente proteger a pele contra o excesso de radiação solar, tornou-se num problema para as sociedades de caçadores-recolectores eurasiáticos que baseavam essencialmente a sua dieta em carne de mamute e outros animais de grande porte, pobre em vitamina D. Além disso, para se protegerem do frio vestiam roupas de peles dos animais que caçavam e mais tarde de tecido, pelo que a protecção solar contra um sol menos inclemente que nos trópicos tornou-se obsoleta e até contraproducente. Os primeiros habitantes europeus, por exemplo, que conviveram com os neanderthais, eram pretos e só há uns 30.000 anos começaram a mudar a cor da pele, tornando-se uns mais brancos que outros, consoante o clima. Os mais extremos foram os escandinavos, que ficaram mais brancos que a cal. Mas os esquimós, que vivem ainda mais a norte, são um pouco mais escuros que estes, o que parece um contra-senso, mas isso acontece porque vêm de uma linhagem diferente dos escandinavos, provavelmente dos denisovianos, e seguiram a sua própria evolução paralela. Portanto, este micro-promenor da cor da pele, que tem uma importância genética como outro qualquer, mas que serviu para todo o tipo de discriminações e atrocidades, baseia-se apenas numa adaptação climática dos euroasiáticos, que mais tarde também migrariam para as américas. E os europeus e norte-americanos, que tanto gostam (agora menos, felizmente) de apregoar a sua superioridade evolutiva, são uns inadaptados quando vão para os trópicos. Basta ver os camarões escandinavos que assam nas nossas praias - são uns bichos fora do seu habitat. Não fossem as roupas e morreriam das maleitas de pele mais atrozes...

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Café e cacau em risco? Alterações climáticas e agricultura insustentável causam perda de polinizadores vitais para essas culturas



As culturas tropicais, como o café e o cacau, bem como a melancia e a manga, podem estar em risco de graves perdas de produtividade devido à perda dos insetos polinizadores, como abelhas, borboletas, sirfídeos e tantos outros, de que essas espécies vegetais dependem para se reproduzirem.

O alerta é lançado por um grupo de investigadores do Brasil e do Reino Unido que, num artigo publicado esta semana na revista ‘Science Advances’, sugerem que nas regiões da África subsariana, nas zonas norte da América do Sul e no sudeste asiático os riscos são maiores e a tendência, que classificam como “preocupante”, deverá agravar-se a um ritmo mais acelerado do que noutras partes do planeta.

Por isso, avisam: “Simplesmente devido à perda de polinizadores, as alterações climáticas e a agricultura podem ser um risco para o bem-estar humano”. Isto, porque os insetos encontram na degradação ambiental e em práticas insustentáveis e nocivas de exploração do solo as maiores ameaças à sua sobrevivência.

A investigação suportou-se em dados recolhidos de mais de 2600 locais e abrangendo quase 3100 espécies de insetos polinizadores e, escrevem os autores, “mostramos que a combinação interativa da agricultura e alterações climáticas está associada a grandes reduções” desses animais, quer em termos de abundância, quer em termos de diversidade de espécies.

Para percebermos a dimensão da ameaça, os cientistas recordam-nos que cerca de 75% das culturas vegetais que os humanos consomem “dependem, de alguma forma, da polinização por animais”.

Embora os maiores riscos possam estar concentrados em algumas regiões, os impactos podem espalhar-se por todo o mundo, estendendo-se globalmente “através do comércio de colheitas dependentes de polinização”, salienta Joseh Millard, do Centro de Ciências da Vida do Museu de História Natural de Londres e investigador da University College London.

Explicam os investigadores que o café, o cacau, as mangas e as melancias, todas altamente dependentes de insetos polinizadores, “são vitais tanto para as economias locais como para o comércio global e a sua redução poem causar o aumento da insegurança dos rendimentos para milhões de pequenos agricultores” nas regiões mais afetadas.

“À medida que os insetos diminuem, por não serem capazes de tolerar a interação dos efeitos das alterações climáticas e o uso do solo, o mesmo acontecerá às culturas que dependem deles como polinizadores”, acautela Millard.

“Os nossos estudos destacam a necessidade urgente de se agir globalmente para mitigar as alterações climáticas, a par de esforços para desacelerar as mudanças no uso dos solos e para proteger habitats naturais para evitar prejudicar os insetos polinizadores”, refere.

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Remédios, a bela


Remédios, a bela
Remédios, a bela, ficou vagando no deserto da solidão, sem cruzes de costas, amadurecendo nos seus sonhos sem pesadelos, em seus intermináveis ​​banhos, nas suas refeições sem horários, nos seus silêncios profundos e prolongados sem memórias, até uma tarde de Março, quando Fernanda quis dobrar os seus lençóis de barbante no jardim e pediu às mulheres da casa. Mal haviam começado quando Amaranta notou que Remédios a bela, era transparente com uma palidez intensa.
-Você se sente mal? - perguntou.
Remédios, a bela, que segurava a outra ponta do lençol, deu um sorriso suave.
-Pelo contrário, disse ela, nunca me senti melhor.
Terminou de dizer isso, quando Fernanda sentiu  um delicado vento de luz lhe arrancava os lençóis das suas mãos e espalhava-os em toda a sua extensão. Amaranta sentiu um tremor misterioso renda das saias e tentou segurar o lençol para não cair. No momento em que Remédios, a bela, estava começando a surgir, Úrsula, agora quase cega, foi a única que teve serenidade de identificar a natureza daquele vento irreparável, e deixou os lençóis à mercê da luz, vendo Remédios, a bela, que lhe acenou adeus, entre a vibração deslumbrante das folhas que subiam com ela, que deixavam consigo o ar dos besouros e das dálias, e passaram com ela pelo ar onde terminavam as quatro da tarde, e se perderam com ela para sempre nos altos ares onde nem mesmo os mais altos pássaros da memória poderiam alcançá-la.

"Cem Anos de Solidão", Gabriel García Márquez

terça-feira, 22 de agosto de 2023

“Armadilha tóxica”: Dívidas aos países ricos mantêm Estados mais pobres ‘reféns’ dos combustíveis fósseis


Os países mais pobres, do chamado Sul Global, não têm alternativa senão manterem-se dependentes da exploração de combustíveis fósseis como forma de gerar receitas para pagarem dívidas às nações mais ricas e a credores privados.

A conclusão é de um relatório publicado esta segunda-feira por 35 organizações não-governamentais, incluindo a portuguesa Oikos – Cooperação e Desenvolvimento.

Enquanto na região ocidental do hemisfério norte do planeta se procura abandonar a energia fóssil em prol de uma transição energética que permita alicerçar essas sociedades em modelos de produção e consumo de energia de fontes limpas e renováveis, no sul o cenário é outro.

Os relatores avançam que para vários países em desenvolvimento, como a Argentina, o Uganda e Moçambique, poderá ser “impossível abandonar progressivamente os combustíveis fósseis” em prol das renováveis, a não ser que o problema das suas dívidas externas “seja resolvido”.

“Os governos do Sul Global não serão capazes de cortar a dependência da produção de combustíveis fósseis a menos que resolvamos os prejudiciais níveis de endividamento e as vulnerabilidades e desigualdades que estão associadas aos atuais sistemas financeiros e de dívida”, escrevem.

Assim, as organizações defendem, sobretudo, a implementação de planos de cancelamento das dívidas externas de todos os países mais pobres que deles precisem para poderem abdicar da energia fóssil, bem como o reforço do financiamento a esses Estados para poderem fazer face aos danos sofridos por eventos climáticos extremos.

“Altos níveis de endividamento são uma das principais barreiras ao abandono progressivo dos combustíveis fósseis para muitos países do Sul Global”, explica Tess Woolfenden, responsável de políticas da Debt Justice, uma das organizações que participou no trabalho.

A ativista alerta que muitos países em desenvolvimento estão ‘reféns’ da exploração da energia fóssil “para gerar receitas para pagar as dívidas”, e salienta que, por vezes, os projetos de combustíveis fósseis podem não gerar as receitas esperadas “e podem deixar os países ainda mais endividados do que quando começaram”.

Woolfenden fala de uma “armadilha tóxica” em que os Estados mais pobres estão enredados, apelando a que as nações do Norte Global cancelem “urgentemente” as dívidas dos seus contrapartes do Sul “para evitar ainda mais problemas climáticos”.

Para Mae Buenaventura, do movimento Asian People’s Movement on Debt and Development, cancelar as dívidas dos países mais pobres “é o mínimo que os países ricos e os credores podem fazer para compensar o Sul Global” pelos danos que a esses Estados causaram por causa do financiamento de projetos de energia fóssil. E diz que se trata de “uma questão de justiça”.

As alterações climáticas, e todos os seus efeitos, “estão a afundar cada vez mais os países vulneráveis em dívidas, aprisionando-os num ciclo vicioso que, perversamente, alimenta o investimento em combustíveis fósseis” que agudiza a crise climática, argumenta Arthur Larok, secretário-geral da organização ActionAid International.

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Europa - Casa Infeliz


O discurso Putiniano, anti-europeu, enxovalhando os valores mais elevados da Europa, discurso anti-democrático está, a par do discurso de ódio promovido pela extrema-direita, a minar o mais belo dos valores Ocidentais: tolerância religiosa, diálogo inter-religioso, a aceitação da diversidade cultural, o convívio dos saberes inter-culturais, a sã vivência com os imigrantes. Sejamos realistas: a Europa está envelhecida. Os padrões que levam a famílias ser monoparentais, é pelo facto dos europeus exagerarem na sua preocupação pela melhor educação dos filhos. Os europeus não são etnia branca. Os europeus resultam do cruzamento de invasões indo-asiáticas. Os europeus estão em diáspora por todo o mundo, seja por procura de melhor emprego, seja até por genuínos projectos de apoio aos povos africanos e sul-ameriicanos para eles saírem da pobreza, ora denunciando crimes do garimpo ilegal, ora confrontando os regimes ditatoriais em África e América. Sejamos esses europeus. Bem vindos os refugiados. Bem vindo os imigrantes.
Finalmente, mais que os norte-americanos, milhares de jovens europeus denunciam o capitalismo necro-fóssil. Estão fartos. Querem economia descarbonizada. Querem um mundo sem lobistas necro-fósseis!
Arte digital minha: "Unbutu".

domingo, 23 de julho de 2023

Caos climático marca o mês de Julho na Terra. Os avisos da NASA e de outros cientistas

Gavin Schmidt, cientista da NASA, avisa que Julho será provavelmente o mês mais quente da Terra. Outros investigadores notam que o actual caos climático vai deixar marcas na terra e no mar.


Vários especialistas climáticos da agência espacial norte-americana (NASA) reuniram-se esta semana em Washington. "Estamos a assistir a mudanças sem precedentes em todo o mundo", constatou Gavin Schmidt, director do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA, que deixou o alerta sobre o que ainda está por vir. Julho de 2023 será provavelmente o mês mais quente do mundo em "centenas, se não milhares, de anos", afirmou o climatologista, citado pela agência AFP.

O caos que se instalou um pouco por toda a parte neste mês de Julho colocou a crise climática bem à vista de todos. Incêndios alimentados por dias consecutivos de calor excessivo, vagas de altas temperaturas que se arrastam por semanas com recordes a ser quebrados em muitos países afectando sobretudo os continentes da Europa, América e Ásia, inundações de grandes proporções que causam vítimas mortais.

As ondas de calor deverão persistir em grande parte do mundo durante o mês de Agosto, disse esta sexta-feira um especialista da Organização Meteorológica Mundial (OMM), na sequência das temperaturas recorde registadas nas últimas semanas.

A OMM disse no início desta semana que esperava que as temperaturas na América do Norte, Ásia, Norte de África e Mediterrâneo fossem superiores a 40 graus Celsius "durante um número prolongado de dias desta semana, à medida que a onda de calor se intensifica". "Devemos esperar, ou pelo menos planear, que estas ondas de calor extremas continuem até Agosto", disse à Reuters John Nairn, conselheiro sénior para o calor extremo da OMM.

Este mês de Julho já conta com algumas quebras de recordes diários, de acordo com ferramentas geridas pela União Europeia e pela Universidade do Maine, nos EUA, que combinam dados terrestres e de satélite em modelos para gerar estimativas. Os dados divulgados não são ainda os dados finais, mas “a tendência para o calor extremo é inconfundível e irá provavelmente reflectir-se nos relatórios mensais mais robustos emitidos mais tarde pelas agências norte-americanas”, referiu esta semana Gavin Schmidt durante uma conferência de imprensa da NASA, citado pelas agências internacionais.

Ler notícia completa aqui