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sexta-feira, 20 de outubro de 2023
sexta-feira, 18 de novembro de 2022
Indústria 4.0: o que é, consequências, impactos positivos e negativos
Presenciamos um novo cenário mundial. Um novo contexto político, económico e social com inúmeras oportunidades e desafios através da 4ª Revolução Industrial, ou Indústria 4.0, como também é chamada.
O conceito de Quarta Revolução Industrial foi dado em 2016 por Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, no seu livro homónimo. Portanto, nada melhor do que ir às suas páginas para encontrar uma definição: "A Quarta Revolução Industrial gera um mundo no que os sistemas de fabricação virtuais e físicos cooperam entre si de uma maneira flexível a nível global". Porém, não consiste somente em sistemas inteligentes e conectados. "Seu alcance é mais amplo e vai desde o sequenciamento genético até a nanotecnologia, e das energias renováveis à computação quântica. É a fusão destas tecnologias e sua interação por meio dos domínios físicos, digitais e biológicos que fazem com que a Quarta Revolução Industrial seja diferente das anteriores".
Não são meros avanços incrementais, estas tecnologias emergentes surgiram com propostas e possibilidades disruptivas, subvertendo formas já existentes de sentir, calcular, organizar, relacionar, expressar e tomar decisões.
Antes de entrarmos no requisito de prosperidade ou ameaça, é importante conhecer as fases de cada revolução industrial.
A Primeira Revolução Industrial aconteceu através da força do vapor. A Segunda Revolução Industrial teve como objeto a energia elétrica. Já a Terceira Revolução Industrial surgiu com a eletrónica e TI. A 4ª Revolução Industrial chega quebrando paradigmas, através da convergência entre o mundos físico, digital e biológico (in Klaus Schwab, 2016- 4ª Revolução Industrial). Todos integrados em prol das novas necessidades e hábitos da sociedade.
É um novo Mindset que está a moldar o futuro - que já é o agora - e o caminho da humanidade. Tudo está acontecendo numa velocidade tão grande que ainda não conseguimos ter a percepção das oportunidades e ameaças que temos pela frente. A grande questão é como iremos lidar com os desafios.
Não se trata apenas de tecnologia, pelo contrário, como o próprio Ricardo Cappra citou na sua apresentação durante o Festival Patch 2018:
"Na inovação a tecnologia não é a protagonista, ela é o meio. Os protagonistas continuam sendo as pessoas, que quando exploram esse recurso da melhor forma possível, potencializam seus negócios e decisões".
Está cheio de futurólogos prevendo os robôs a dominar o mundo num futuro próximo. Caso isto aconteça (o que é muito difícil), a 4ª Revolução Industrial será um fracasso e extremamente tóxica para a sociedade.
Claro que em trabalho e processos repetitivos os robôs irão dominar. A automação vem evoluindo desde a década de 70, com o avanço da robótica este seria um caminho natural.
Se focarmos em tecnologias de forma isolada, como simples ferramentas, todo o potencial positivo da 4ª Revolução Industrial irá flopar. Elas precisam fazer sentido e diferença na vida das pessoas, princípio básico da inovação.
Tecnologias emergentes como IA, IoT, Automação, Robótica, Blockchain, Machine Learning, RA, RV, etc, são sensacionais e capazes de transformar - para o bem ou para o mal - a sociedade e o mundo.
Klaus Schwab cita 3 importantes desafios para que a Industria 4.0 prospere:
- Nos certificar dos benefícios desta nova onda para que sejam distribuídos de forma justa e igual. Precisa ser inclusiva e sustentável, caso contrário, a desigualdade e soberania das grandes potências mundiais irá reverberar.
- Controlar as externalidades no que diz respeito aos possíveis riscos e danos. A computação quântica por exemplo poderia causar riscos significativos de segurança e privacidade. Armas de destruição em massa de fácil acesso e, assédio online também devem ser gerenciados.
- Que seja feita por humanos e para humanos. Não podemos perder a nossa essência e valores, a 4ª Revolução Industrial precisa ser centrada na humanidade. É como o pensamento sistêmico do Design Thinking, pessoas como os principais agentes na transformação. Empoderamento e oportunidades.
Precisamos rever também os atuais modelos de Governança, com mais agilidade e compatibilidade, incluindo os setores privado, governos e instituições regulatórias.
Os regulamentos e normas estão a ser estruturados por esta poderosa gama de oportunidades das tecnologias emergentes. Cabe a nós, trabalharmos em defesa de uma sociedade mais evolutiva, a fim de moldarmos a 4ª Revolução Industrial pela prosperidade.
Inovação não acontece num passe de mágica, é um processo centrado nas pessoas, não em tecnologias.
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sexta-feira, 11 de novembro de 2022
No Web Summit, a personagem central não foi a tecnologia, mas sim os seres humanos
O mundo passa por uma transformação digital que será cada vez mais imprevisível, sofisticada e complexa, sobretudo porque o sucesso dela dependerá sempre de nós, indivíduos.

Nós — humanos de carne, ossos e códigos — fomos personagens centrais do Web Summit por diversos ângulos: no clamor da primeira-dama ucraniana Olena Zelenska para que a tecnologia seja usada a favor da vida, nos cartazes pedindo internet livre no Irão, no crescente protagonismo de diferentes grupos sub-representados e nos múltiplos debates sobre a nossa relação com nossos empregos e com as organizações - das startups às gigantes.
Tive a oportunidade de cruzar com muitas falas, entrevistas e conversas especificamente a respeito desse novo pacto que se configura entre nós e as empresas, quando o assunto é carreira.
A primeira palavra que saltou aos olhos de todos foi flexibilidade. O debate não é mais sobre trabalho remoto, presencial ou híbrido. Não há propriamente uma fórmula a ser copiada - é um tema que depende muito de quem lidera, da cultura em questão e, também, das características de cada negócio. Estamos a falar, sobretudo, da crescente possibilidade de definir o lugar do trabalho na composição das nossas necessidades. Um mundo que seguirá tendo workaholics, mas não poderá mais criminalizar aqueles que redimensionam o peso do currículo sobre suas definições pessoais.
É um panorama que, ao apontar para o futuro, não olha mais para as descrições de cargos ou a extensão do currículo profissional. Obviamente as experiências continuam sendo importantes - mas elas não necessariamente definem o encaixe para uma posição atual. Falou-se muito sobre os empregos baseados em habilidades e competências - sem distinção entre hard e soft skills — afinal, essa separação per se implica um juízo de valor.
Foi inevitável, portanto, abordar o paradigma emergente da liderança nas corporações. Reconheceu-se que ainda falta treinamento suficiente para preparar pessoas realmente inspiradoras, solidárias, motivadoras e que, ao mesmo tempo, entreguem resultados. Entre os principais eixos de desenvolvimento das lideranças, destacam-se a capacidade de se comunicar bem com as equipas e colaborar entre diferentes clubes e parceiros. Não há mais espaço para déspotas encastelados em seus escritórios privativos.
Além disso, definiu-se a importância de líderes como indutores e responsáveis por um ambiente de trabalho pautado pelo bem-estar físico e mental. Como zeladores da segurança psicológica, não podem mais apartar esses pilares da performance das respectivas equipas. Produtividade e resultados estão, de forma indissociável, conectados às variáveis de saúde mental e segurança psicológica. Gerenciar recursos psicológicos será tão crucial quanto administrar métodos, orçamentos, estruturas e processos.
Não foram poucos os CEOs que ressaltaram a cultura organizacional como condição necessária para alavancar a prosperidade e a escala de suas empresas. E, bom lembrar, ela é uma metamorfose ambulante. E quem não se adapta fica pelo caminho.
Cultura, a propósito, não existe sem equidade e inclusão. É fundamental que sejamos intencionais no exercício de reduzir desigualdades e oferecer mais oportunidades. Saímos do QI (quem indica) para a AI (artificial intelligence). Ou seja: com base em mais dados e menos vieses, seremos mais capazes de definir as melhores pessoas para cada posição. Mas vem o desafio: como fazer isso em uma sociedade extremamente desigual?
Um dos caminhos mora, claro, na tecnologia — que pode oferecer inúmeras soluções para reduzir os abismos de habilidades, conhecimentos e competências. Em vez de mitigar os problemas, deve-se ampliar as oportunidades. Essa é uma tarefa ainda mais crítica na indústria tech, que tem 75% de brancos na força de trabalho — uma dos piores neste quesito. E, claro, isso se reflete na maneira pela qual desenvolvemos softwares e desenhamos serviços. No fim, é crucial pensar em quem está faltando à mesa na hora de tomarmos uma decisão importante.
Quando nos voltamos para as grandes questões planetárias não é diferente. Clima, guerra, violência de género, intolerâncias de múltiplas naturezas e pobreza cruzam-se na busca por respostas às nossas perguntas mais difíceis.
Uma coisa sabemos: o mundo passa por uma transformação digital que não é um projeto — mas um processo, uma jornada que será cada vez mais imprevisível, sofisticada e complexa. Sobretudo porque o sucesso dela dependerá sempre de nós, indivíduos.
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quinta-feira, 1 de setembro de 2022
Understanding "longtermism": Why this suddenly influential philosophy is so toxic
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(L-R) Nick Bostrom Philosopher at the Future of Humanity Institute in Oxford, Tesla CEO Elon Musk and Sir Francis Galton the father of Eugenics (Photo illustration by Salon/Getty Images) |
Perhaps you've seen the word "longtermism" in your social media feed. Or you've stumbled upon the New Yorker profile of William MacAskill, the public face of longtermism. Or read MacAskill's recent opinion essay in the New York Times. Or seen the cover story in TIME magazine: "How to Do More Good." Or noticed that Elon Musk retweeted a link to MacAskill's new book, "What We Owe the Future," with the comment, "Worth reading. This is a close match for my philosophy."
As I have previously written, longtermism is arguably the most influential ideology that few members of the general public have ever heard about. Longtermists have directly influenced reports from the secretary-general of the United Nations; a longtermist is currently running the RAND Corporation; they have the ears of billionaires like Musk; and the so-called Effective Altruism community, which gave rise to the longtermist ideology, has a mind-boggling $46.1 billion in committed funding. Longtermism is everywhere behind the scenes — it has a huge following in the tech sector — and champions of this view are increasingly pulling the strings of both major world governments and the business elite.
But what is longtermism? I have tried to answer that in other articles, and will continue to do so in future ones. A brief description here will have to suffice: Longtermism is a quasi-religious worldview, influenced by transhumanism and utilitarian ethics, which asserts that there could be so many digital people living in vast computer simulations millions or billions of years in the future that one of our most important moral obligations today is to take actions that ensure as many of these digital people come into existence as possible.
In practical terms, that means we must do whatever it takes to survive long enough to colonize space, convert planets into giant computer simulations and create unfathomable numbers of simulated beings. How many simulated beings could there be? According to Nick Bostrom —the Father of longtermism and director of the Future of Humanity Institute — there could be at least 1058 digital people in the future, or a 1 followed by 58 zeros. Others have put forward similar estimates, although as Bostrom wrote in 2003, "what matters … is not the exact numbers but the fact that they are huge."
In this article, however, I don't want to focus on how bizarre and dangerous this ideology is and could be. Instead, I think it would be useful to take a look at the community out of which longtermism emerged, focusing on the ideas of several individuals who helped shape the worldview that MacAskill and others are now vigorously promoting. The most obvious place to start is with Bostrom, whose publications in the early 2000s — such as his paper "Astronomical Waste," which was recently retweeted by Musk — planted the seeds that have grown into the kudzu vine crawling over the tech sector, world governments and major media outlets like the New York Times and TIME.
Nick Bostrom is, first of all, one of the most prominent transhumanists of the 21st century so far. Transhumanism is an ideology that sees humanity as a work in progress, as something that we can and should actively reengineer, using advanced technologies like brain implants, which could connect our brains to the Internet, and genetic engineering, which could enable us to create super-smart designer babies. We might also gain immortality through life-extension technologies, and indeed many transhumanists have signed up with Alcor to have their bodies (or just their heads and necks, which is cheaper) frozen after they die so that they can be revived later on, in a hypothetical future where that's possible. Bostrom himself wears a metal buckle around his ankle with instructions for Alcor to "take custody of his body and maintain it in a giant steel bottle flooded with liquid nitrogen" after he dies.
In a paper co-authored with his colleague at the Future of Humanity Institute, Carl Shulman, Bostrom explored the possibility of engineering human beings with super-high IQs by genetically screening embryos for "desirable" traits, destroying those that lack these traits, and then growing new embryos from stem cells, over and over again. They found that by selecting one embryo out of 10, creating 10 more out of the one selected, and repeating that process 10 times over, scientists could create a radically enhanced person with IQ gains of up to 130 points.
Nick Bostrom has explored the possibility of engineering "radically enhanced" human beings by genetically screening embryos for "desirable" traits, destroying those that lack these traits, and then growing new embryos from stem cells.
This engineered person might be so different from us — so much more intelligent — that we would classify them as a new, superior species: a posthuman. According to Bostrom's 2020 "Letter From Utopia," posthumanity could usher in a techno-utopian paradise marked by wonders and happiness beyond our wildest imaginations. Referring to the amount of pleasure that could exist in utopia, the fictional posthuman writing the letter declares: "We have immense silos of it here in Utopia. It pervades all we do, everything we experience. We sprinkle it in our tea."
Central to the longtermist worldview is the idea of existential risk, introduced by Bostrom in 2002. He originally defined it as any event that would prevent us from creating a posthuman civilization, although a year later he implied that it also includes any event that would prevent us from colonizing space and simulating enormous numbers of people in giant computer simulations (this is the article that Musk retweeted).
More recently, Bostrom redefined the term as anything that would stop humanity from attaining what he calls "technological maturity," or a condition in which we have fully subjugated the natural world and maximized economic productivity to the limit — the ultimate Baconian and capitalist fever-dreams.
For longtermists, there is nothing worse than succumbing to an existential risk: That would be the ultimate tragedy, since it would keep us from plundering our "cosmic endowment" — resources like stars, planets, asteroids and energy — which many longtermists see as integral to fulfilling our "longterm potential" in the universe.
What sorts of catastrophes would instantiate an existential risk? The obvious ones are nuclear war, global pandemics and runaway climate change. But Bostrom also takes seriously the idea that we already live in a giant computer simulation that could get shut down at any moment (yet another idea that Musk seems to have gotten from Bostrom). Bostrom further lists "dysgenic pressures" as an existential risk, whereby less "intellectually talented" people (those with "lower IQs") outbreed people with superior intellects.
This is, of course, straight out of the handbook of eugenics, which should be unsurprising: the term "transhumanism" was popularized in the 20th century by Julian Huxley, who from 1959 to 1962 was the president of the British Eugenics Society. In other words, transhumanism is the child of eugenics, an updated version of the belief that we should use science and technology to improve the "human stock."
It should be clear from this why the "Future of Humanity Institute" sends a shiver up my spine. This institute isn't just focused on what the future might be like. It's advocating for a very particular worldview — the longtermist worldview — that it hopes to actualize by influencing world governments and tech billionaires. And to this point, its efforts are paying off.
Robin Hanson is, alongside William MacAskill, a "research associate" at the Future of Humanity Institute. He is also a "men's rights" advocate who has been involved in transhumanism since the 1990s. In his contribution to the 2008 book "Global Catastrophic Risks," which was co-edited by Bostrom, he argued that in order to rebuild industrial civilization if it were to collapse, we might need to "retrace the growth path of our human ancestors," passing from a hunter-gatherer to an agricultural phase, leading up to our current industrial state. How could we do this? One way, he suggested, would be to create refuges — e.g., underground bunkers — that are continually stocked with humans. But not just any humans will do: if we end up in a pre-industrial phase again, it might make sense to stock a refuge [or bunker] with real hunter-gatherers and subsistence farmers, together with the tools they find useful. Of course such people would need to be disciplined enough to wait peacefully in the refuge until the time to emerge was right. Perhaps such people could be rotated periodically from a well-protected region where they practiced simple lifestyles, so they could keep their skills fresh.
In other words, Hanson's plan is to take some contemporary hunter-gatherers — whose populations have been decimated by industrial civilization — and stuff them into bunkers with instructions to rebuild industrial civilization in the event that ours collapses. This is, as Audra Mitchell and Aadita Chaudhury write, "a stunning display of white possessive logic."
Robin Hanson's big plan is to take people from contemporary hunter-gatherer cultures and stuff them into underground bunkers with instructions to rebuild industrial civilization if ours collapses.
More recently, Hanson became embroiled in controversy after he seemed to advocate for "sex redistribution" along the lines of "income redistribution," following a domestic terrorist attack carried out by a self-identified "incel." This resulted in Slate wondering whether Hanson is the "creepiest economist in America." Not to disappoint, Hanson doubled down, writing a response to Slate's article titled "Why Economics Is, and Should Be, Creepy." But this isn't the most appalling thing Hanson has written or said. Consider another blog post published years earlier entitled "Gentle Silent Rape," which is just as horrifying as it sounds. Or perhaps the award should go to his shocking assertion that
"the main problem" with the Holocaust was that there weren't enough Nazis! After all, if there had been six trillion Nazis willing to pay $1 each to make the Holocaust happen, and a mere six million Jews willing to pay $100,000 each to prevent it, the Holocaust would have generated $5.4 trillion worth of consumers surplus [quoted by Bryan Caplan in a debate with Hanson]
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WebSummit
domingo, 31 de outubro de 2021
Presidente executivo da Web Summit destaca clima e futuro do trabalho na edição deste ano
Paddy Cosgrave considerou que "muita gente se vai interessar pelo período" que se vive relativamente ao meio ambiente.
O presidente executivo da Web Summit destacou o clima e o futuro do trabalho como dois dos temas que estarão em destaque na edição deste ano, que conta com mas de 200 'startups' focadas na sustentabilidade.
Instado a destacar três temas na edição deste ano da cimeira tecnológica, que arranca na segunda-feira, em Lisboa, Paddy Cosgrave considerou que "muita gente se vai interessar pelo período" que se vive relativamente ao meio ambiente.
"Temos mais de 200 'startups' com foco na sustentabilidade, elas estão a fazer tudo o que poderia imaginar" para lidar com tudo, "desde a criação ao consumo de energia e tudo mais", acrescentou.
"Além do clima, energia e meio ambiente, temos também um grande foco na cripto", salientou.
A noite de abertura conta com o fundador da plataforma NFT de criptomoedas e a denunciante do Facebook Frances Haugen.
"E encerramos a Web Summit com uma conversa com Tim Berners-Lee, que criou a 'web', sobre o futuro da 'web' e o papel que a descentralização de protocolos e tecnologias podem desempenhar", acrescentou Cosgrave.
O terceiro tema "que estamos a ver a partir dos dados de todos os nossos participantes é o futuro do trabalho", apontou.
"Temos um novo palco inteiramente dedicado a discussões e debates sobre como o trabalho vai ser no futuro", porque "não acho que tudo venha a ser remoto, mas também não acho que vamos voltar aos velhos tempos", considerou.
Por isso, "o que é que vai funcionar para a maioria dos empregados? E para a maioria das empresas? Acho que isso não está claro e que todos estão a tentar descobrir" e este é um tema do interesse de muita gente, salientou o cofundador da Web Summit.
Este ano, a edição contará com 40.000 participantes porque a prioridade "é a saúde e segurança", afirmou, salientando que a organização trabalhou em "estreita colaboração com a DGS.
"Aprovaram a nossa licença há duas semanas e o principal para a aprovação da licença foi que cumpramos todas as regras e regulamentos que aconselharam, incluindo distanciamento social, incluindo como construímos o espaço, que tipo de espaços usamos", explicou.
"Como consequência, a única maneira de o fazer de forma segura e respeitando todas das regras é aumentar o espaço à disposição de todos. Portanto, este ano a capacidade máxima é de 40.000", disse, apontando que o evento está "muito perto de estar cheio".
Questionado se espera duplicar o espaço para o próximo ano, Paddy Cosgrave disse que sim.
"A menos que haja algo que eu não saiba, a minha expectativa é que o espaço seja duplicado, a construção de espaços para convenções é muito, muito rápida", leva cerca de seis meses para ficar concluída, disse.
Com o aumento do espaço, a organização espera acolher mais de 100.000 participantes
"Não tenho dúvidas de que a Web Summit poderá ter várias vezes o tamanho do que é hoje se tivéssemos mais espaço", salientou.
Na edição deste ano haverá "literalmente milhares de 'startups', 1.500 'startups' farão parte do nosso programa. Várias centenas delas irão aparecer no palco. Acho que há um grupo particular de 'startups' que estão na minha mente, as mais entusiasmantes ou mais importantes", disse, apontando as 200 focadas no clima.
Além disso, a "COP26 [conferência das Nações Unidas sobre alterações climáticas] estará a acontecer ao mesmo tempo. E temos líderes políticos de todo mundo e os maiores poluidores. Não sei por que é que eles estão lá. Esperançosamente, esperam que o acordo seja favorável", comentou.
"Mas na Web Summit temos vários empreendedores que esperam que as suas empresas e as suas inovações venham a ajudar-nos a criar um planeta mais habitável nos próximos anos, um planeta mais sustentável", disse.
Em termos de países, o Reino Unido lidera, apesar do Brexit, seguido da Alemanha, com o Brasil a ocupar o 'top 5' dos países de origem das 'startups'.
"Acho que há um gigante adormecido na América Latina que está lentamente a acordar e as suas 'startups' estão interessadas em conquistar a Europa e estão a vir à Web Summit em números cada vez maiores", contou.
Empresas de Angola, Moçambique e Cabo Verde também participam na edição deste ano.
"Acho que o continente mais desafiante na participação [desde evento] é África por causa das taxas de vacinação", que estão "abaixo dos 5% na maioria dos países, o que torna impossível, na maioria dos casos, as viagens dessas pessoas", lamentou.
Em termos de media, estão registados 1.500. No que respeita à participação por género, "mais de 40% das participantes" e "mais de 30% dos oradores" são do sexo feminino
Sobre a oradora Frances Haugen, denunciante das práticas do Facebook, cujo tema tem estado na ordem do dia, Paddy Cosgrave disse que todos na Web Summit "são crescidos e compreendem que "estas são as conversas" que é preciso ter no evento.
"Acho que os participantes preferem ouvir estas conversas do que demonstrações sem fim de pequenos produtos de tecnologia que podem ou não funcionar", considerou.
Sobre a expansão de eventos além da Web Summit, Cosgrave apontou que na próxima década os maiores mercados de crescimento para a cimeira são a América do Sul, África, Médio Oriente e Ásia.
"Estamos a planear nos próximos três anos começar eventos regionais Web Summit" nestes mercados, apontando que tal deverá arrancar em 2023.
"Se queremos crescer o evento anual, precisamos de ir a mercados onde o potencial de crescimento existe", porque assim é "mais fácil persuadir" as pessoas a apanhar aviões e voar de outras partes do mundo para vir para Lisboa todos os anos, argumentou.
Paddy Cosgrave salienta que se assistiu a mudanças no ecossistema português: primeiro, os empreendedores eram todos homens, o que hoje já não acontece, e eram todos portugueses, o que também já não é verdade.
"Diria que pelo menos um terço, senão metade dos empresários, são de outros países ao redor do mundo que decidiram" vir para Portugal, apontou.
"Acho que uma das mudanças mais surpreendentes é o número de pessoas que abrem empresas em Portugal, o que diz muito", e quando uma empresa nova decide escolher o país para abrir o negócio, isso "enriquece todo o ecossistema".
Sobre a possibilidade de Portugal criar um 'hub' de inteligência artificial (IA), Paddy Cosgrave salientou que esta é uma área que "obviamente vai ter um enorme papel no futuro da medicina, segurança", em quase todos os aspetos da vida das pessoas.
"Portanto, quanto mais Portugal puder fazer para apoiar investigação de ponta e depois ajudar a agrupar empresas líderes no espaço, acho que acaba por ter um efeito cumulativo positivo no ecossistema", defendeu, embora admita que na área da IA ainda há muitas coisas que não são claras.
"Tenho certeza de que há um futuro, é apenas incerto quão grande será esse futuro e quão grande será o papel que terá para Portugal", rematou.
Quanto as expectativas para a edição deste ano, Cosgrave afirmou que nunca viu tantas pessoas "entusiasmadas" com a Web Summit como agora.
"Acho que as pessoas estão simplesmente animadas por estar de volta", disse, esperando que as expectativas delas correspondam à realidade.
"O que é importante para nós (...) é que garantimos o máximo possível que o evento seja seguro" e que "haja café disponível", disse, a sorrir.
"E, depois disso, toda a magia e toda a 'networking' deverá simplesmente acontecer", concluiu Paddy Cosgrave.
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
The Roadmap to COP26 Roundtable- WHF Digital Summit 2020
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quinta-feira, 21 de junho de 2018
Os 3 D da energia: Digitalizar, Descentralizar, Descarbonizar
Energia, energia, para que te queremos? Para muita coisa, obviamente, e de preferência barata, eficiente e amiga do ambiente. E é rumo a esse horizonte que as mudanças verificadas apontam ou, pelo menos, tentam apontar. Cada vez mais as grandes companhias energéticas dão atenção à inovação como forma de atingir estes objetivos, com um acréscimo de sinergias com as startups, que têm sido parte importante deste processo. Porta que o EDP Open Innovation quer contribuir para manter aberta.
O projeto de empreendedorismo que desde 2012 junta a EDP ao Expresso está de regresso para a sétima edição e, mais uma vez, volta a apostar em projetos (mais concretamente dez) que vão de encontro à inovação no campo da energia e às grandes tendências do sector. São os “três D”, como lhes chama o administrador da EDP Inovação, Luís Manuel, que estão a moldar um futuro bem presente, a saber: “descarbonização, descentralização e digitalização”.
Por descarbonização entenda-se a utilização “crescente de fontes de energia renovável na geração elétrica, em combinação com maior eficiência energética do consumo”, processo que já se verifica há algumas décadas mas que tem ganhado cada vez mais força com o desenvolvimento das renováveis e consequente diminuição de custos na sua utilização. Energias como a hídrica ou a eólica já são muito generalizadas em Portugal, ao contrário da solar, por exemplo, que não chega aos 2% de produção.
Por isso, “perspetiva-se um crescimento”, garante o presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), António Sá Costa. Sobretudo se o objetivo ambicioso de em 2040 ter 100% da energia gerada num ano de origem renovável for para cumprir. O que não é de todo descabido, porque se no final do século XX pouco mais de 30% do consumo era deste tipo de fonte, hoje já anda na ordem dos “54%/55%, valor que ganha ainda mais significado quando se percebe que “a utilização elétrica mais do que duplicou.”
Disrupção
A crescente facilidade em obter painéis solares para uso doméstico ou as baterias e carregadores de carros elétricos são alguns dos exemplos da descentralização, isto é, do processo de dar mais ferramentas ao consumidor no sentido de este tornar-se mais um elemento produtivo da cadeia. “É uma transição gradual”, diz António Sá Costa, que implica uma “alteração de hábitos e costumes” de uma população que está “bem mais desperta”. Com reflexos “na forma como as empresas do sector e os clientes se relacionam”, atira Luís Manuel.
Por outro lado, vivemos uma digitalização crescente, num processo a que a energia não é de todo alheia. “A emergência de tecnologias como internet das coisas, inteligência artificial, machine learning, entre outras, combinada com a disseminação de aparelhos a que todos acedemos e com que todos comunicamos, está a provocar uma disrupção”, diz o administrador, sobretudo na forma como as empresas lidam com os clientes e no modo como estes querem cada vez mais uma experiência que os coloque no centro da indústria, o que nem sempre aconteceu, quando vemos que “estamos a falar de uma área onde o planeamento central executado pelos Estados era a norma por todo o mundo há 20 ou 25 anos”.Nuno Botelho Os 3 D da energia: Digitalizar, Descentralizar, Descarbonizar
Três D que funcionam como os pilares de um processo que os responsáveis não têm dúvidas que vai resultar em benefícios para a maioria das partes envolvidas. “Não é só um bocadinho melhor para todos, é muito melhor para todos”, acredita o presidente da APREN, que fala na “criação de emprego na economia” e numa contribuição para a “melhoria do ambiente” como bons sinais de futuro para “uma sociedade mais eficiente”.
Já Luís Manuel defende que “a esmagadora maioria destas tecnologias está a crescer porque são mais competitivas em custo ou porque proporcionam um serviço de maior qualidade”, com destaque para a mobilidade elétrica, em que a realidade de “uma cidade com três quartos de frota automóvel eletrificada e autónoma” pode encontrar-se mais próxima “do que todos pensamos”.
Sempre a evoluir
Inovações tecnológicas que já se fazem sentir, com casos que pode conhecer melhor na infografia da página ao lado e que o EDP Open Innovation quer continuar a atrair para o seu seio. “Não estaria no estágio de crescimento atual” sem o projeto, garante o CEO da Delfos, Guilherme Studart. A empresa brasileira, que desenvolveu um sistema que monitoriza, estabelece padrões de análise e antecipa problemas em tempo real nas turbinas eólicas, foi a vencedora em 2016, e o responsável fala de um ambiente onde se “evolui muito”. E que quer continuar a evoluir.
O responsável pela edição deste ano, organizada pela Beta-I, Gonçalo Negrão, fala de um programa cujo objetivo é que, em duas semanas, “as empresas tenham um pré-piloto” testado e validado, numa ligação “estreita” entre os responsáveis pelo projeto e as equipas. Será um período de trabalho intenso em que, mais do que ideias, “procuram-se soluções.” Para que mantenham sempre a energia.
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quarta-feira, 27 de abril de 2016
Zygmunt Bauman: pensamentos profundos num mundo líquido
"Houve muitas crises na história da humanidade, muitos períodos de interregno, nos quais as pessoas não sabiam o que fazer, mas elas sempre acharam um caminho. A minha única preocupação é o tempo que levarão para achar o caminho agora. Quantas pessoas se tornarão vítimas até que a solução seja encontrada?" - Zygmunt Bauman
Houve um tempo em que conceitos eram sólidos. Ideias, ideologias, relações, blocos de pensamento moldando a realidade e a interação entre as pessoas. O século 20, com suas conquistas tecnológicas, embates políticos e guerras viu o apogeu e o declínio desse mundo sólido. A pós-modernidade trouxe com ela a fluidez do líquido, ignorando divisões e barreiras, assumindo formas, ocupando espaços diluindo certezas, crenças e práticas.
A oposição entre o mundo sólido e o mundo líquido é a base do pensamento de Zygmunt Bauman, sociólogo, professor da London School of Economics e um dos mais respeitados intelectuais da atualidade.
Em passagem pelo Brasil, em 2016, Bauman conversou com o programa Milênio. Leia abaixo a entrevista concedida ao jornalista Marcelo Lins ou assista no site da GloboNews:
O senhor viveu tempos difíceis no século 20, como a Segunda Guerra Mundial e a ascensão e a queda do comunismo, para mencionar dois exemplos. Qual acha que é a principal característica deste início de século 21?
Zygmunt Bauman: Este século é muito diferente do século 20. Se compararmos o que eu vivenciei quando jovem, cheio de esperanças e expectativas, com o que vivencio agora, em retrospecto, comparando, revisando expectativas e esperanças, eu diria que estamos num estado de interregno. Esse é o termo que gosto de usar.
No “interregno", não somos uma coisa nem outra. No estado de interregno, as formas como aprendemos a lidar com os desafios da realidade não funcionam mais. As instituições de ação coletiva, nosso sistema político, nosso sistema partidário, a forma de organizar a própria vida, as relações com as outras pessoas, todas essas formas aprendidas de sobrevivência no mundo não funcionam direito mais. Mas as novas formas, que substituiriam as antigas, ainda estão engatinhando.
Não temos ainda uma visão de longo prazo, e nossas ações consistem principalmente em reagir às crises mais recentes, mas as crises também estão mudando. Elas também são líquidas, vêm e vão, uma é substituída por outra, as manchetes de hoje amanhã já caducam, e as próximas manchetes apagam as antigas da memória, portanto, desordem, desordem.
Acha correto dizer que hoje recebemos informação demais, que não somos capazes de absorver todas elas? Temos acesso mas não sabemos o que fazer com ela?
Zygmunt Bauman: Você tem toda a razão. Colocou o dedo na parte mais dolorosa de nossa ferida. Como E. O. Wilson, o grande biólogo, expressou de forma muito sucinta e correta: “Estamos nos afogando em informações e famintos por sabedoria."
Não temos tempo de transformar e reciclar fragmentos de informações variadas numa visão, em algo que podemos chamar de sabedoria. A sabedoria nos mostra como prosseguir. Como o grande filósofo Ludwig Wittgenstein dizia: “Compreender é saber como seguir adiante." E é isso que estamos perdendo. Não sabemos como prosseguir.
O senhor mencionou o fracasso de nossas instituições políticas: os partidos, a representatividade, que é falha no mundo todo. O senhor testemunhou o fracasso do sonho comunista na Polónia e na União Soviética. Qual foi o maior erro do comunismo?
Zygmunt Bauman: O comunismo se encaixava nas medidas do século 19. O século 19 foi um período de grande otimismo. Em primeiro lugar, as pessoas estavam convencidas — e tinham orgulho disso — de que, com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, seria possível refazer o mundo, virá-lo de cabeça para baixo. Era uma relação leve e despreocupada com a realidade. A realidade existia para ser reciclada, modificada, aperfeiçoada etc. Essa era uma coisa. A outra era a visão do caminho futuro, da estrada para a sociedade perfeita. Todos estariam trabalhando. Foi o período da revolução industrial. No final, todos se tornariam trabalhadores. Uma boa sociedade na grande fábrica com funcionários satisfeitos. Era o período da modernidade sólida e da sociedade industrial.
Hoje, vivemos na modernidade líquida e na sociedade pós-industrial do consumismo, e a passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo foi uma coisa muito poderosa e importante. Mudamos o foco da construção das bases do poder da sociedade sobre a natureza para o contrário: para a cultura do imediatismo, do prazer, da individualização, de identificar a visão da felicidade com o aumento do consumo. Todos esses fenómenos novos pegaram o comunismo totalmente despreparado.
Se existe um consenso, e acho que podemos dizer que existe o consenso de que o comunismo perdeu essa guerra específica e o capitalismo venceu, sabemos que essa vitória trouxe, de certa forma, alguns fracassos. Faltam soluções para vários problemas. Quais são os maiores problemas da sociedade de mercado na sua opinião?
Zygmunt Bauman: As pretensões do comunismo fora da Cortina de Ferro forçou o capitalismo a limitar suas próprias propensões destrutivas, mantendo a desigualdade social dentro de limites aceitáveis, sem perder o controle sobre ela, e criando leis para garantir direitos aos empregados, não só aos empregadores. A ideia da desregulamentação do mercado de trabalho, por exemplo, seria impensável, simplesmente porque havia um concorrente, que não era cuidadoso e fazia propaganda. Não era fácil. Aí, de repente, tudo passa a ser possível. Ninguém o vigia. Você pode fazer o que quiser, pode usar todos os recursos que possui para promover seus interesses, e isso é potencialmente catastrófico.
A falta de autolimitação é o que está acontecendo agora. Além disso, a primeira reação após a introdução do ideal neoliberal de sociedade por Margaret Thatcher e Ronald Reagan foi que tivemos 30 anos do que chamo de orgia consumista: gastamos um dinheiro que não tínhamos, tínhamos esperança de que o futuro reembolsaria o que estávamos pegando emprestado, e isso terminou, como você bem sabe, em 2007/2008, com a crise de crédito. Agora estamos novamente no ponto de partida.
Um dos maiores problemas desse novo ponto de partida é a desigualdade. O senhor escreveu muito sobre isso, e o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, apesar de ser um país rico. Aparentemente, está claro que a riqueza de poucos não beneficia a todos. Como equilibrar melhor essa equação numa democracia?
Zygmunt Bauman: A desigualdade não está apenas aumentando, ela muda sua natureza, sua estrutura e está ligada a esses limites que o capitalismo se impõe para manter as coisas em ordem, digestíveis, toleráveis, aceitáveis. Eles desapareceram e, como resultado, a desigualdade mudou sua natureza porque as vítimas da desigualdade da sociedade eram, antigamente, as pessoas que viviam na pobreza, na base da sociedade, os párias da sociedade. Hoje não é mais assim, porque estamos testemunhando o processo que Guy Standing, um sociólogo muito ativo, chamou de “precariado".
O que chamamos de classe média, que era a parte da sociedade mais bem sucedida e confiante, está se transformando muito rapidamente no precariado, que é uma espécie de equivalente ao antigo proletariado: pessoas que estão inseguras em relação à sua posição.
De acordo com as últimas teses dos economistas — pessoas que estudam o assunto melhor do que eu e calculam as estatísticas —, não é mais uma questão dos 25% mais ricos da população e dos 25% mais pobres, mas do conflito entre o 1% que está no topo e os 99% do resto da sociedade. Não sei se você notou que a riqueza dos Estados Unidos após a crise de crédito. Houve alguma recuperação e o valor agregado da riqueza dos EUA aumentou depois da crise, mas 94% desse valor agregado ficou com 1% da população. Todo o resto teve que dividir os outros 6%.
Vamos falar sobre conflitos, sobre a crise e a reação à crise. Estamos vivendo a crise dos refugiados. Ela começou como a crise dos imigrantes ilegais, como se chamava no início, mas logo percebemos que se trata de uma crise de refugiados. Como analisa a reação das potências mundiais a essa crise?
Zygmunt Bauman: Não se trata de um evento único, nem é novidade. A novidade é a atenção dedicada ao assunto, porque ele foi dramatizado, em parte com a ajuda da cobertura televisiva, quando vimos a criança morta na praia e aquilo que aconteceu em Lampedusa, quando centenas de pessoas se afogaram em embarcações sucateadas. Mas a migração em massa acompanha a era moderna desde o início.
O Brasil, por exemplo, é produto da migração em massa. Pessoas vieram da Itália, da Espanha e de Portugal para cá para criar uma vida própria. Por que vieram? Porque procuravam trabalho, água potável, condições decentes de vida, coisas que não tinham em seus países.
A reação da Europa tem um impacto duplo. Por um lado, as empresas têm interesse em assimilar essas pessoas. Sua força de trabalho. Elas lucrariam mais, para resumir. Por outro lado, existe a reação esperada do medo de estranhos. “Eles estão chegando para tumultuar. Vamos nos afogar, eles vão inundar nossas cidades." Os empregados, e não os empregadores, os enxergam como concorrentes que provocarão o arrocho de seus salários. Eles serão usados pelos patrões para rejeitar as demandas dos empregados atuais, que podem ficar sem emprego. São duas pressões diferentes novamente.
Mudando de assunto, já que nossa conversa está chegando ao fim. Neste mundo hiperconectado, no qual qualquer tipo de informação está a um clique no seu computador, qual é o papel da educação tradicional nas escolas e nas universidades? E também do jornalismo tradicional, se podemos chamar assim?
Zygmunt Bauman: Novamente, você mencionou um dos problemas mais importantes e dolorosos de nossos dias. Acho que a educação tem um papel tremendamente importante. Na situação atual, gosto de me referir a um ditado chinês da época de Confúcio. Ele diz que se você planeja para um ano, semeie milho. Se planeja para dez anos, plante uma árvore. Se planeja para 100 anos, eduque as pessoas. É disso que estamos nos esquecendo hoje.
Nosso sistema educacional atual é uma das vítimas da cultura do imediatismo. Educação e imediatismo são termos contraditórios. Não se pode ter os dois. Ou se tem uma educação de qualidade ou se tem o imediatismo. Não dá para ter os dois ao mesmo tempo. E este é um problema terrível.
Na história da sociedade humana, assim que os gregos antigos inventaram o conceito de paideia, a educação viveu constantemente algum tipo de crise, porque as circunstâncias mudavam e ela tinha que se ajudar às novas informações. Mas essa crise é muito básica e essencial. Você mencionou o contexto da tecnologia da informação, que é uma biblioteca de fragmentos, de pedacinhos, sem algo que os reúna e os transforme em sabedoria, em conhecimento.
E o fluxo é enorme.
Zygmunt Bauman: E isso destrói certas capacidades psicológicas, como atenção, concentração, consistência e o chamado pensamento linear, quando você estuda um assunto de forma consistente e o esgota, vai até o fim. Há mudanças na psique humana, é uma situação completamente nova, que põe os educadores numa posição muito difícil. Eles precisam repensar muitas coisas.
Numa tentativa de não terminar nossa conversa de forma triste, o que lhe traz esperança quando olha em volta? Que iniciativas, projetos e coisas estão sendo feitas que lhe dão esperança no futuro da humanidade?
Zygmunt Bauman: Quanto mais envelheço, mais amplio a perspectiva na qual baseio minha avaliação da situação. Primeiro eu me concentrei em alguns excessos da modernidade, depois passei a analisar a lógica ou a falta de lógica da modernidade líquida. Foram estudos limitados pela perspectiva histórica, mas sou pessimista em relação ao curto prazo e otimista em relação ao longo prazo.
Quando analisamos a história da humanidade, apesar da nossa tendência de esquecer a história, da crise da memória histórica, apesar disso, a história da humanidade é animadora. Ela era muito mais cruel e sórdida antes.
É muito menos cruel e sórdida agora, apesar de tudo de terrível e ultrajante que acontece. Houve muitas crises na história da humanidade, muitos períodos de interregno, nos quais as pessoas não sabiam o que fazer, mas elas sempre acharam um caminho.
A minha única preocupação é o tempo que levarão para achar o caminho agora. Quantas pessoas se tornarão vítimas até que a solução seja encontrada?
Fonte: Fronteiras do Pensamento
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