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domingo, 18 de janeiro de 2026

A fermosura desta fresca serra


A fermosura desta fresca serra,
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do Sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos of’rece,
Me está se não te vejo magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias, mor tristeza.

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

E-Livro: As Plantas na obra Poética de Camões


O poema épico Os Lusíadas é composto por 1102 estâncias, cada uma com oito versos decassilábicos (8816 versos). Tendo o poeta viajado pela região tropical asiática indo-pacífica, de elevada biodiversidade e rica em especiarias, o número de espécies de plantas referidas neste poema é quase o dobro do das citadas em toda a Lírica camoniana. Como Camões viajou por ilhas florestadas, n’Os Lusíadas são referidas muito mais espécies arbóreas e plantas tropicais do que na Lírica. Como a maioria dos poemas líricos foram escritos na Europa, predominam referências a plantas europeias. A Lírica camoniana (canções, éclogas, elegias, odes, redondilhas, sextinas e sonetos) é, fundamentalmente, poesia de afetos e amores, e por isso nela predominam referências a flores de plantas herbáceas. Apesar de a Lírica camoniana ter um maior número de versos (cerca de mais 20% do que o poema épico), a fitodiversidade referida na Lírica é muito menor (cerca de metade).
O E-livro encontra-se aqui

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Reinterpretar o fogo num tempo que extraiu dele um novo Adamastor


Este país, que durante séculos se pensou pelo mar, hoje vê-se encerrado pelo fogo, e com a extensão crescente da área ardida, se tantos vulgarizam o apelo da indignação, fica claro como esta apenas serve para ocultar um ajuste de contas, uma consciência da realidade que emerge pelo fogo, lavrando a cada verão como o grito de um território e de uma população abandonados

Dantes era o mar, esse elemento de expansão e ligação com o mundo, espelho convulso que nos abismava diante do desconhecido, um horizonte líquido e que prometia passagem, mas se este limite aberto recuou para a margem da memória, hoje é a orla flamejante que devora pinhais e eucaliptais a cada verão e nos convoca para um espectáculo de impotência e despossessão, é o fogo o elemento que mais nos acossa, capturando-nos, dançando ao nosso redor e pintando um inferno em cerco. Se o mar foi, outrora, uma promessa e um sustento, se nos treinou para a distância, para o conhecimento dos ventos, do risco e da deriva, desse antigo mar da História o que resta? Eduardo Lourenço notou como este banhava já «sem paixão o promontório sacro, donde outrora investimos o Desconhecido para hoje ainda, por esse gesto, termos no silêncio expectante de uma memória que nos julga na sua luz imperecível um rosto e um nome que são os nossos por nós sermos deles». Outro elemento reemerge agora para nos entregar a esse resíduo final dos tempos, e conseguimos ouvir-lhe o murmúrio sobre a terra, os picos desses fogos, o ar que de súbito nos enclausura. Se antes nos pensávamos pelo mar, hoje parece ser o fogo que pensa em nós, pensa por nós, nos força a imaginar um mundo em que já não controlamos nada, mas somos o alvo constante da predação de elementos sobre-excitados, que avançam sobre nós como titãs, arrasando tudo à sua passagem. O fogo deixa, assim, de ser uma arma, a nossa primeira técnica ou indústria, e liberta-se dessa chama que se deixava contemplar, tornando-se uma muralha móvel, inferno imediato, que atravessa aldeias e compromete tudo. Parece, assim, romper com esse delírio empobrecido, essa lúgubre fantasia do quotidiano, e instala um excesso de realidade que consome a própria imaginação. O fogo deixa de ser símbolo e torna-se destino.

O historiador do ambiente Stephen J. Pyne diz que, num clima que era já propício a incêndios, as alterações climáticas e as mudanças no uso da terra, nomeadamente através da agricultura intensiva e de outras formas de exploração que apenas acumulam combustível, entrámos na era do Piroceno. Pela leitura do livro com este mesmo título, publicado entre nós pela Livros Zigurate, com tradução de Sara I. Veiga, fica claro que não se trata de um termo ostentoso ou de uma metáfora escandalosa, mas serve antes como um diagnóstico civilizacional: a história humana pode ser lida como uma história do fogo, e o tempo presente como a sua culminação mais ambígua. Desde o início, o Homo sapiens é um animal pirotécnico, distinguindo-se de todas as outras espécies pela capacidade de dominar a combustão e de a usar como extensão do corpo e da comunidade. O fogo alimentou as cozinhas e os mitos, abriu clareiras nas florestas, forjou ferramentas e territórios, e, sobretudo, instaurou uma ecologia artificial, uma ecologia do fogo, onde natureza e cultura se confundem. Assim, ao invés de propor algum rótulo geológico, o que Pyne nos oferece é uma cronologia que nos permite actualizar algumas noções decisivas. Se o Holoceno foi a idade da estabilidade climática e o Antropoceno a era em que o humano se tornou força geológica, o Piroceno é a idade em que o fogo industrial, liberto dos limites ecológicos, passou a governar. Ao queimar os combustíveis fósseis para alimentar esse estado de crisálida constante das sociedades modernas, absorvidas na mitologia do progresso, e cada vez mais alheadas da ecologia planetária, é o fogo, esse elemento que parecia condenado a tornar-se apenas metáfora ou resíduo, que regressa para nos sacudir deste estupor. Como se Prometeu tivesse finalmente partido os grilhões e viesse cobrar a dívida acumulada de séculos.

Pyne propõe, assim, uma tripla articulação: primeiro, o fogo natural, produto da fulguração terrestre, dos raios, das erupções, do acaso atmosférico; depois, o fogo cultivado, domesticado pelos humanos, agente de agricultura, de expansão, de conquista de espaços; por fim, o fogo fóssil, aquele que, desde a Revolução Industrial, escava os subterrâneos do planeta e liberta, de modo concentrado e inédito, a energia acumulada em eras geológicas. Essa última combustão – carvão, petróleo, gás natural – é a que funda o Piroceno: um tempo em que a humanidade queimou o passado fossilizado para inflamar o presente, convertendo o planeta num imenso campo de cinzas.

Sacrifício total
Deste ponto de vista, o Piroceno é simultaneamente técnico, climático e político. Não se trata apenas de incêndios florestais devastadores, cada vez mais frequentes, mas de uma mudança estrutural na relação entre as sociedades e fogo. O regime energético fóssil multiplicou a potência do fogo para lá de qualquer contenção cultural ou ecológica: onde antes havia ciclos, práticas de manejo, rituais de controlo, agora há uma combustão que não pode ser detida senão pelo esgotamento da própria matéria-prima ou pelo colapso climático. As chamas que ardem na Califórnia, na Amazónia, no Mediterrâneo ou na Austrália, são apenas sintomas localizados de uma pirotecnia global que revela o parasitismo na atitude que temos para com o planeta.

Assim, aquele fogo vivo que os povos indígenas sabiam cultivar, de tal modo que mesmo os campos de cevada pareciam inspirados nele, aproveitando-lhe o eco, deu lugar a esta irrupção descontrolada e que denuncia a lógica de supressão, fazendo nascer esse fogo que parece tomado de um ânimo vingativo, vindo reclamar com juros tudo o que lhe é devido. Neste quadro, já sem colónias nem extensões além-mar, Portugal parece recair uma vez mais nos seus vícios seculares, na tendência para a ruína que sempre nos acompanhou, vendo-se comprometido face à intriga cobiçosa que Camões já denunciara através do Velho do Restelo, cultivando as espécies mais rendosas e que mais o fragilizam. Se antes tínhamos uma agricultura que criava mosaicos, hoje deixamos apenas combustível acumulado à espera de uma faísca. Assim, não há ano em que o verão não seja atravessado pela expectativa do desastre, pelas imagens das chamas colossais, das colunas de fumo, aldeias evacuadas, cinzas a cair como uma neve sinistra. Aos poucos, o mar já não é a imagem central, mas é o fogo que molda a percepção contemporânea de um país ciclicamente em chamas, laboratório de uma era em que a paisagem se torna pira.

Quando o fogo devorar a terra inteira, se algo lhe sobreviver, talvez se diga que começou por aqui. Mas, por agora, o colapso é também da narração, pois sempre que essa coreografia macabra dos nossos verões se instala, com ela surgem os chavões e o tom enfático daqueles que preenchem os directos televisivos e que simulam o escândalo, uma má-consciência em pó para misturar em qualquer beberagem, e, para além disso, também os relatórios ministeriais e as sucessivas promessas de maiores investimentos, da afectação de mais recursos para o combate aos fogos, a criminalização, a prevenção. Por detrás de toda esta coreografia lateja uma falha de imaginação, enquanto o mais fácil continua a ser figurar o fogo como inimigo absoluto, sonhando-se a utopia de uma paisagem sem combustão. Quer-se negar os ciclos, a transitoriedade, e esse elemento de alquimia natural que o fogo providencia. Ao expulsá-lo, apenas se consegue alimentá-lo. Ao querer extinguir inteiramente as chamas, prepara-se o sacrifício total. Eis-nos, assim, diante desse Adamastor de brasas, que faz de nós mirrados argonautas de um século que nos atemoriza, sem bússola nem um verdadeiro anseio de qualquer espécie. Vemos emergir esse colosso no modo como as chamas serram ao vento, as brasas empalidecem e logo se adensam ainda mais, uma e outra vez, como o pulsar do sangue de um ser vivo eviscerado, e que se reergue, vingativo. «Assim, contemplamos o fogo que contém em si algo dos próprios homens, que são menos sem ele, estão apartados das suas origens e são exilados. Porque cada fogo é todos os fogos, e é o primeiro fogo e o último» (Cormac McCarthy). São estas as representações que emergem a partir do momento em que se quer fazer do fogo esse inimigo terrível, não nos deixando senão a hipótese de encarar o próprio futuro como um fogo devorador, que nos deixará reduzidos ao próprio fóssil da civilização que erguemos. «A imagem mais viva do inferno./ Eis o fogo em todos seus vícios:/ eis a ópera, o ódio, o energúmeno,/ a voz rouca de fera em cio», escreve João Cabral de Melo Neto.

E poderíamos levar bem mais longe este vitral em combustão, esta catedral consumida pelas chamas, como um imaginário que subitamente se propagasse também ele, sujeito ao mesmo clarão, sentindo o impulso de um deus convocado a partir das entranhas da terra. Ver-nos-emos assim cercados por «monstros sem ordem génios galopando na respiração estrelada dos meus pulmões», para trazer aqui uns versos de Ernesto Sampaio. «Olhar suculento mestre do horror e da audácia gelada em cada canto em cada flor de fumo colada aos ossos dum horizonte inocente e inesgotável/ Poeira dum astro pré-existente ao nosso espiral dos dias que estreitamos puros tripas da raiva vegetal que embrulhamos em cada palavra/ Fogo perpétuo fruto espantoso de bandeiras negras e vermelhas comboio que esmaga e canta e ninguém deterá».

Íntimo e universal
De qualquer modo, o ponto central e a advertência que colhemos nas páginas do livro de Pyne é de que esta ideologia da supressão do fogo está fadada ao fracasso. Enquanto isso, e para não comprometer os lucros, continua a acumular-se combustível, e o interior do país vê-se transformado num barril de pólvora. Ao suprimir as queimadas, esses fogos quase rituais que controlam a dispersão do mato, incubámos o tal monstro que depois só é travado quando toda a matéria que tinha à sua disposição para se alimentar foi consumida. O resultado é o que vemos verão após verão: esses incêndios imensos, tragédias como as de Pedrógão Grande, um país incinerado e que se tornou uma espécie de entretenimento televisivo para os que, nas cidades, se sentem defendidos. E o país aceita esta condição de epicentro do Piroceno, um país-vitrine do que acontece quando uma cultura deixa de integrar o fogo no seu regime ecológico e o relega apenas para o desastre.

Há aqui uma lição mais profunda, e que nos puxa para essa relação tão próxima com o fogo, sendo este, segundo Gaston Bachelard o elemento ultra-vivo. «É íntimo e é universal. Vive no nosso coração. Vive no céu. Ergue-se das profundezas da substância e oferece-se com o calor do amor. Ou pode descer de novo à substância e ocultar-se aí, latente e represado, como o ódio e a vingança. Entre todos os fenómenos, é de facto o único a que se podem atribuir com tanta nitidez os valores opostos do bem e do mal. Brilha no Paraíso. Arde no Inferno. É brandura e é tormento. É cozinha e é apocalipse.» Mesmo essa imagem de um cigarro aceso junto ao rosto, iluminando-o, admite esse ígneo impulso, esse anseio contemplativo, tão bem cultivado por estes versos da poeta russa Marina Tsvetáieva: «O cigarro arde e apaga-se,/ na sua ponta treme,/ como um poste consumido – a cinza./ Dá-te preguiça sacudi-la –/ o cigarro inteiro atravessado pelo fogo.»

Num tempo em que, diante dos avanços científicos, tudo, e até a religião, merece o seu sarcasmo, o fogo parece atravessar-se como um elemento ancestral, que vem escarnecer da prepotência que nos entregou a um estado de fragilidade absurda, colocando-nos à mercê dos elementos, e, desde logo, ao lado insano e impiedoso do fogo, que em mitologias antigas aparecia como dádiva divina, e agora surge como um Prometeu invertido. Atrás das noites, o incêndio corta pelo meio, como flor terrível que se abre no escuro. As ondas de calor mortíferas, os incêndios que acabarão por cercas as cidades, lembram teatros de guerra, e deixam claro como a criatura pirotécnica perdeu o seu pacto com a chama. Já não a domina. O Antropoceno, dito de outro modo, não é senão a face geológica do Piroceno: o homem imprime na Terra a assinatura do fogo que libertou.

Contudo, isto marca também uma cisão dentro da espécie, uma vez que, para boa parte dela, a humanidade se foi tornando em qualquer coisa de odioso. Podemos pressentir como já trazíamos o incêndio na cabeça, como um ensejo secreto de devastação de uma realidade absurdamente profana, e este já não seria justamente um país de marinheiros ou navegantes, mas de incendiários, uma vez que quem se sente queimado, devastado interiormente, toca tudo com essa ferida que anseia por degradar a envolvência, participando do horror que o consome. Nesta orla vã desfeita em que o país se transformou, condenando todos a sentirem-se estranhos à sua própria terra, é realmente de espantar que venha alguém lançar fogo à paisagem? Não é a absoluta impotência e o desvario dos sentidos que sopra intimamente uma fúria elementar, «como se um fogo celestial tornasse/ seu, de um instante para outro, os mais estranhos objectos,/ assim consagrando um intervalo/ de outro modo inconsequente// por nos dar grandeza e glória,/ ou até amor.» (Sylvia Plath).

Entre nós, quem levou mais longe esta denúncia foi certamente Manuel Bivar, que este ano assinou, com Sofia da Pala Rodrigues, a reportagem ‘País de Incendiários’, um podcast de investigação da revista Divergente, e que, no país com mais área ardida da União Europeia, vem por fim preencher uma lacuna estarrecedora, esforçando-se por nos dar a conhecer o contexto e as motivações daqueles que fazem arder Portugal. Antes desta investigação, Bivar tinha já publicado, em 2021, A Charca, livro que, apesar das suas quatro edições, continua a não ter qualquer eco nos nossos órgãos de imprensa. Assim, talvez seja desculpável que seja o seu editor a fazer esta chamada de atenção, reproduzindo aqui um excerto: «Dizem os psicanalistas que os ascetas, os pastores, os puritanos, não eliminando o esperma, se tornam possessos e puxam fogo. Mas ele não concordava com estas teorias da psicanálise. Ele odiava psicanálise. Puxam fogo porque são desgraçados, porque se sentem revoltados e porque o incendiário é, nestes matos, o revolucionário possível. Também dizem que os incendiários são alcoólicos, mas isso não explica nada. O álcool apenas dá coragem à vontade de fazer. O alcoolismo é de certa forma o oposto do puxar fogo, é um puxar fogo ao interno para esquecer o externo, enquanto no foguear o mato tudo é externo, tudo é glória. A combustão final, a salga da terra, a morte nas chamas como a menos solitária das mortes, porque se morre em conjunto com o que está em volta. Quem vê um fogo não o esquece, como quem vê a revolução não a esquece. Mas o fogo está sempre ao alcance, em acto individual e grande, e a revolução não. O fogo é a arma dos solitários e, convenhamos, não tem nada que ver com ejaculação.

O fogo, a arma dos desvalidos, dos oprimidos, daqueles a quem querem controlar e a quem tudo é negado. Basta riscar o fósforo em Julho ou Agosto e tudo vai pelos ares. Nem ricos nem pobres, nem poderosos nem indigentes, o fogo está ao alcance de todos, torna a todos iguais, dá sentido à existência, e não nega o gesto a ninguém. De­sesperado, perseguido pela burocracia da natureza, num estado mental que não lhe permitia enfrentá-los, entendia pela primeira vez o porquê de metade dos que ali subsistiam serem incendiários em potência.»

Mais à frente, Bivar ainda ensaia uma réplica àqueles que, a cada ano, com uma espécie de fulgor patriótico, encenam o seu repúdio ou incompreensão diante desses pequenos monstros no íntimo dos quais eclode essa pulsão de largar um fósforo a tudo isto, estes seres que se passeiam por ali nessa deserção etílica, como espectros que atravessam o fumo, fantasmas de tudo o que ardeu e ainda vai arder, assombrados pelo tumulto dos lugares esquecidos. «Quando os via discutir o porquê de tanto fogo posto, de tantos incendiários, dava-lhe vontade de rir de tão óbvia que era a resposta numa terra onde todos tinham sido re­duzidos ao papel de passar os dias em frente da televisão a ver programas da manhã ou agarrados a telemóveis, e que simplesmente queriam voltar a fazer parte deste mundo. Como não respeitar o velho que fechado no lar a ver tele­visão de dia e de noite, que escuta os arrotos dos dez com quem partilha o quarto e que de vez em quando morrem ao fim da tarde e só são tirados de manhã porque há falta de pessoal de noite, e que sai discreto e puxa fogo à serra numa derradeira e última acção cujo resultado assiste ser transmitido em directo na televisão? Como não respeitar o rendeiro que, expulso do terreno de que sempre tratou porque vão plantar olival intensivo, corta os carvalhos centenários, faz explodir a mina de água com dinamite e por fim puxa fogo aos matos de giestas?»

Um novo pacto
Como resulta claro da leitura do livro de Pyne, nenhuma política de fogo é neutra. Toda a técnica carrega uma imaginação, e acaba por gerar as suas catástrofes e assombrações. O século XX cultivou a fantasia prometeica da supressão total do fogo, deixando para o século XXI a obrigação de ter de aprender, à força, que a supressão alimenta o monstro, enquanto acumula combustível, alonga épocas de risco, permitindo que o menor impulso sirva de ignição a esse efeito concatenado. Começa também a ficar claro como, do lado dos homens, o fogo responde a uma ânsia de intensidade pura, prometendo vir, com a sua força, lavrar um tempo que nos esgota na sua condição intervalar, indecisa, enquanto tudo já arde, mas sem se ver. Afinal, o próprio coração é tido como um fogo encoberto que se consome e canta… Ora, sendo o país já em si uma catástrofe para aqueles que se sentem entregues a essa periferia urbana, perante estes, o fogo, esse elemento incapaz da imobilidade, mostra-se um agente de revelação, um monstro propriamente dito, no sentido em que mostra aquilo que foi escondido. E se o fio da história humana pode ler-se como uma sucessão de fogos – o fogo que aquece a gruta, a chama que cozinha e purifica os alimentos, encurtando os intestinos, e que, assim, assume uma co-autoria biológica do humano, permitindo a expansão do cérebro… e o fogo que, mais tarde, arde sob caldeiras e asfaltos –, isto diz-nos que, qualquer que venha a ser o sobressalto do capítulo seguinte, o fogo desempenhará um outro papel, e é possível que esteja uma vez mais ao lado daqueles que se sentem impotentes.

De algum modo, desde cedo o fogo nos convoca, por meio daquela sua soberba ondulação nas formas… Como diz Herberto Helder, «o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma». Perante uma cultura ensurdecida, é a própria natureza que resgata a dimensão épica, e vem reelaborar os caracteres desastrosos que foram despertados por uma civilização que tende claramente para a mitificação do progresso, desertando o real, provocando a degradação dos ecossistemas e a extinção em massa da vida no planeta. O próprio fogo nuclear persiste e vê agravar-se a sua ameaça existencial a cada dia que passa. E, nisto, aqueles homens que ficaram para trás, podem não saber explicar-se melhor, e podem encontrar nessas grandes arcadas de fogo toda a eloquência que falta à sua expressão. Surge neles, assim, esse ânimo de passar fogo à criação inteira, iluminando por dentro as coisas até as carbonizar num espectáculo que sacia o lado demoníaco das naturezas inquietas que nos restam. E uma vez mais vemos como o fogo responde, nos pensa, elabora sobre o que somos. Entre os símbolos nocturnos, emerge essa escrita cheia de prenúncios quanto ao que nos espera. Por isso mesmo, Stephen J. Pyne recusa qualquer fatalismo, e vinca como esta análise da civilização humana na relação com o fogo permite entender como aquilo que se nos impõe é estabelecer uma nova política do fogo, um novo pacto, para que possamos reaprender a gerir combustões, reatar laços com práticas tradicionais de queimada controlada, reconhecer que o fogo não pode ser abolido, apenas administrado. Num planeta saturado de carbono, pensar o futuro é pensar regimes de chama. Assim, o Piroceno não é um conceito que deva apenas situar-nos numa cronologia geológica, mas aparece como uma alegoria do destino humano: o século XXI será julgado pelo modo como lidou com o fogo – se continua a queimar o passado fossilizado até ao último sopro, ou se inventa uma pirotecnia diferente, renovável, reconciliada com o ritmo da Terra.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

O discurso de Lídia Jorge na íntegra – a mensagem do 10 de Junho que será recordada


Contra a possibilidade de loucos atingirem o poder e contra "a fúria revisionista que assalta pelos extremos", a escritora e conselheira de Estado Lídia Jorge dedicou o discurso que proferiu no âmbito das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas a uma condenação do racismo, da escravatura e da cultura da mediocridade. Para ler aqui na íntegra

Lídia Jorge, conselheira de Estado falava enquanto presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho, em Lagos, num discurso que antecedeu o do chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa.

Na sua intervenção, com cerca de 30 minutos, citou Shakespeare, Camões e Cervantes, “três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência”.

O discurso na íntegra

“Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico.

Mas, em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.

Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade e, muitas vezes, é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto.

Há a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra.

A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem.

O país retribui-lhes, reconhecendo, desde há muito, que as comunidades portuguesas são o corpo essencial do nosso ser identitário.

Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar, porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado, foi cidade anfitriã em 1996.

Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera.

O que mudou e o que justifica que, de novo, tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos.

É sabido que Lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres.

A escassos 40 quilómetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação.

A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos 90 permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por Terras do Infante.

Era a altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade vencedora e de apoiar estas celebrações de importância ou de interesse cultural.

Mas há outro motivo para que, este ano, a celebração deste dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a invocar o nascimento de Camões, ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu.

Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Beethoven: Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu.

Provam-no a forma como, passados cinco séculos, tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior.

Novos autores têm surgido, atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões.

O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa moderna que hoje usamos.

Demonstrou como a língua portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do Oceano, como lhe chamou Baltasar Estaço.

Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal, não são lendas, são verdades.

O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim, não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índio redigiu na margem de um exemplar d’Os Lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade: Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa sem tener uma sábana com que cobrisse, despues de haver navegado 5.500 léguas per mar.

Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana, já depois de morto.

Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e seu mistério, isso, talvez.

Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi.

Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que, se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda.

Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões, como se fossem filos modernos, feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.

Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em “Sôbolos rios que vão”, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos, escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender que os tempos duros que atravessamos têm conformidade com os tempos em que o próprio viveu.

Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo e, sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das 1.102 oitavas que compõem Os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então.

Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império.

E nesse campo pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.

É bom lembrar que, entre os séculos XVI e XVII, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos e, no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas.

Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias: sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista.

No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral, mencionava “o vil interesse e sede imiga/Do dinheiro, que a tudo nos obriga”, e evocava, entre os vários aspetos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado um mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer cultura. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual, que resultava depois, na prática, na degradação dos atos do dia a dia.

Escreve o poeta no final do canto oitavo: “Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências./ Este interpreta mais que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis”.

Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram.

Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque.

Os três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência.

Escreveu Shakespeare no ato IV do Rei Lear: “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”.

Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de La Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido.

Por seu lado, Camões, no corpo d’Os Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas, em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto X. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura.

No entanto, o fim do ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa.

Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global. Porque nós, agora, somos outros.

Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço.

Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas.

É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos.

Sobre estes areais, aconteceram momentos decisivos para o mundo.

No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com o achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira e a lenda coloca-o a meditar em Sagres.

Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu: “Ali vimos a veemência do visível/ o aparecer total exposto inteiro/ e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ era o verdadeiro”.

Esta ideia de que, na mente do Infante, se processou uma epifania, anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou, assim, para a história e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo.

Mas existe uma outra perspetiva, como é sabido, e hoje em dia o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.

É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade.

É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade.

O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade.

E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso.

Lagos, precisamente, oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico.

Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorso pelo facto de que se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, como polos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.

Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como, num dia de agosto de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia e como foram repartidos e por quem.

Alguém que, muito prezamos, encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio Infante D.Henrique.

Lagos não se furta a expor essa verdade histórica.

Lagos também mostra o local onde depois levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de Lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia Banta.

Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui,no dia de hoje.

Aliás, a UNESCO criou a Rota do Escravo e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura, para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sob os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos.

Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene: Homens não se matem uns aos outros.

É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 1444 porque o cronista do infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da “Crónica dos Feitos de Guiné” para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse.

Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.

O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença.

É uma luta nossa, contemporânea.

Em Lagos, hoje em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Kneebone, datado de 2014, que tem corrido mundo.

A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre, está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes.

O tripulante da grande embarcação pergunta: de onde vêm vocês? Da lancha, apinhada, alguém responde: vimos da terra.

Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar.

Consta que em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana.

Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos.

O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma.

Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.

A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte.

Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte.

A pergunta é esta: quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem-máquina, entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano?

Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.

Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha a poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial.

Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto I d’Os Lusíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos: “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno”.

Nestes versos, se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estóica contra, centrada na confiança em si mesmo.

Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido, a separá-lo da terra. Igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos.

Mas entretanto, no século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e, durante algumas décadas, foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.

O conceito de representatividade respeitável da figura do Chefe de Estado, oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida.

A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende.

Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: adoro-vos, adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram.

Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?

Nós, portugueses, não somos ricos. Somos pobres e injustos. Mas, ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criámos uma comunidade de países de língua portuguesa. E fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz.

Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas, perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.

Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi génio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia, de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.

Muito obrigada.”

terça-feira, 10 de junho de 2025

Feliz Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas


"Se de saudade
Morrerei ou não,
Meus olhos dirão
De mi a verdade.
Por elles me atrevo
A lançar as ágoas,
Que mostrem as mágoas
Que nesta alma levo.
As ágoas, qu'em vão
Me fazem chorar,
Se ellas são do mar,
Estas de amar são.
Por ellas relévo
Todas minhas mágoas;
Que se fôrça d'ágoas
Me leva, eu as levo.
Todas me entristecem,
Todas são salgadas;
Porém as choradas
Doces me parecem.
Correi, doces ágoas,
Que se em vós m'enlévo,
Não doem as mágoas,
Que no peito levo."
Luis Vaz de Camões


Alcindo Bernardo Monteiro - a noite em Portugal matou um dos seus

Há datas que um país carrega como cicatrizes. O 10 de junho é, em Portugal, o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas — celebração da língua, da cultura, da herança que os portugueses espalharam pelo mundo durante séculos de navegação e de encontro com outros povos. É também, desde 1995, a data em que um grupo de skinheads decidiu sair às ruas de Lisboa para matar negros. E matou.
Alcindo Bernardo Monteiro nasceu a 1 de outubro de 1967, na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, em Cabo Verde. A família emigrou para o Barreiro em 1978, quando Alcindo tinha onze anos, numa altura em que Cabo Verde já era independente. Alcindo voltaria a ter bilhete de identidade português em 1991. Era um homem simples, de vida ordenada. Trabalhava numa oficina de mecânica automóvel e nos tempos livres gostava de cuidar dos seus periquitos, cozinhar e dançar. Era um cidadão português. Na noite de 10 de junho de 1995, tinha 27 anos e queria apenas divertir-se.
Não chegou a fazê-lo.
Dias antes do crime, corria nos meios frequentados por skinheads a informação de que estava a ser organizado um jantar de comemoração do feriado de 10 de junho. Em particular no bar Ramis, em Almada, um viveiro de cabeças rapadas. Miguel Temporão, líder do núcleo de skinheads de Lisboa, ficou encarregado de fazer os convites. Chamavam-lhe o "dia da Raça", para assim afirmarem a sua ligação umbilical ao fascismo salazarista.
O que se seguiu pertence àquele território estreito e insuportável onde a barbárie humana não cabe em palavras, mas tem de ser dita à mesma. Um grupo de dezenas de skinheads desceu as ruas do Bairro Alto com um único propósito: espancar pessoas negras. Alcindo foi encurralado, derrubado, espancado com botas de biqueira de aço e soqueiras. Em coma profundo, foi encontrado na Rua Garrett, perto do local onde hoje ficam os Armazéns do Chiado. O óbito seria declarado às 10h30 da manhã de 12 de junho. O relatório médico registava: hemorragias sub-pleurais, edema pulmonar, graves lesões traumáticas crânio-vasculo-encefálicas, fractura da calote craniana.
Um homem morreu porque tinha a pele escura. Morreu no Dia de Portugal.
Doze vítimas foram socorridas no Hospital de S. José. Alcindo, dado o estado de extrema gravidade, foi internado. A notícia chegou às primeiras páginas dos jornais ainda antes da morte ser confirmada. O país ficou em choque — ou fez de conta que ficou. Porque o choque, em Portugal, tende a durar o tempo de um ciclo de notícias, e depois a vida volta ao ritmo costumeiro do mito de um povo naturalmente tolerante e acolhedor.
Esse mito tem nome. Chama-se lusotropicalismo. Na primeira metade do século XX, o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre desenvolveu uma teoria sobre a relação de Portugal com os trópicos, defendendo que o processo colonial português se distinguia pela empatia e proximidade com os povos colonizados. Durante os anos cinquenta e sessenta, essa doutrina foi politicamente apropriada pelo Estado Novo para justificar a presença colonial portuguesa em África perante a comunidade internacional.
Ficou como herança mental.
A ideia de que os portugueses não são racistas porque "sempre se misturaram", porque "navegaram o mundo", porque têm essa capacidade inata e generosa de acolher o outro.
Em Portugal, uma grande parte da população — incluindo parte da classe política — continua a ver o racismo como algo de alheio, de estrangeiro, de outro. Alcindo Monteiro foi morto dentro dessa ilusão confortável.
No julgamento que se seguiu, os acórdãos registaram a completa ausência de arrependimento dos envolvidos. Em 2002, Hugo Silva foi condenado a 18 anos de prisão. Os restantes receberam penas variadas. Todos acabariam por sair em liberdade.
A mãe, Francisca Monteiro, e as irmãs de Alcindo continuam a ir ao cemitério de Vila Chã, no Barreiro, falar com ele. Quando o realizador Miguel Dores contactou a irmã Luísa, ela ouviu o silêncio do outro lado do telefone e disse apenas: "já sei do que vens falar. Nunca acaba."
Nunca acaba.
Em 2021, o antropólogo e realizador Miguel Dores, então a concluir um mestrado em Antropologia Visual na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, apresentou o documentário "Alcindo" no DocLisboa. A sessão esgotou o Cinema São Jorge. A família estava presente. O público aplaudiu de pé. O documentário é inteligente na sua abordagem, metódico — explorando as implicações que o Estado Novo e a sua herança têm nos valores coletivos que orientam o povo português. O filme ganhou o "Prémio do Público". No ano seguinte, na semana do 10 de junho, foi exibido em São Vicente, Cabo Verde — no Centro Cultural do Mindelo, na Universidade de Cabo Verde e ao ar livre, no bairro da família Monteiro.
O Estado português nunca assumiu uma memória oficial sobre este caso. Em 2019, as comemorações do Dia de Portugal realizaram-se em Cabo Verde e o nome de Alcindo Monteiro nem sequer foi referido. Em 2020, vinte e cinco anos depois, a Câmara de Lisboa inaugurou uma placa na Rua Garrett, onde o jovem foi assassinado. Tarde. Como quase sempre.
Dois dos condenados pelo assassínio de Alcindo voltariam a ser julgados décadas mais tarde. O processo Hells Angels — uma investigação de grande envergadura da Polícia Judiciária que desmantelou uma rede de violência organizada com ligações à extrema-direita portuguesa, aos neonazis e ao gangue de motards — revelou que o ódio que matou Alcindo nunca tinha deixado de existir: apenas mudara de farda. Tiago Palma e Nuno Monteiro, dois dos condenados pelo homicídio de 1995, foram condenados a 13 anos e meio de prisão por novas agressões brutais e tentativas de homicídio. O ódio não prescreve. Nem se reabilita.
O 10 de junho celebra Camões, os Lusíadas, a língua que atravessou oceanos. Celebra a ideia de um Portugal que se estendeu pelo mundo. Mas o mundo também veio ter com Portugal — em barcos de emigrantes, em famílias que fugiram da miséria ou da violência, em homens e mulheres que ajudaram a construir este país com o trabalho das suas mãos. Alcindo Monteiro era um deles. Era português. E foi assassinado no dia em que Portugal celebra ser Portugal.
Essa contradição não é acidental. É o retrato mais honesto de quem somos — e do que ainda precisamos de deixar de ser.

sábado, 24 de maio de 2025

Portugal apaga o português na Expo 2025 Osaka: uma vergonha diplomática, um acto de ignorância desmedida


Fonte: Página Um
Na Exposição Universal de Osaka, em pleno 2025, sobre a qual hoje escrevi para falar dos gastos, fiquei estupefacto com uma constatação: o pavilhão de Portugal optou por apresentar-se ao mundo sem uma única mensagem em português. Nas projecções que “recebem” os visitantes, apenas se lêem mensagens em japonês e em inglês. Presumo que a palavra Portugal apareça como Portugal porque assim se escreve em inglês.

Esta aberração num projecto de quase 26 milhões de euros — que é o que custará aos cofres públicos a presença portuguesa em Osaka — não se trata de um lapso trivial. Trata-se de uma vergonha. Uma vergonha diplomática. Uma vergonha cultural. E, sobretudo, um acto de ignorância desmedida da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) sobre a própria História de Portugal — precisamente no Japão, um país onde o português foi, durante décadas, a língua da diplomacia, da fé, do comércio e da ciência.

Ricardo Arroja e as “alminhas” da AICEP podem não saber da riqueza histórica entre Japão e Portugal, nem sempre pacífica quando mundos se contactam pela primeira vez. Mas, se tiveram mais de 13 milhões de euros para montar um edifício com 10 mil cordas, talvez por meia dúzia de patacas (não as de Macau, que isso é China) pudessem contratar um historiador.

Se tiveram 200 mil euros para contratar a Ernst & Young para lhes fazer a contabilidade, poderiam ter contratado a decência para lhes explicar que, quando se promove Portugal, só se promove com a língua portuguesa, porque, como escreveu bem Fernando Pessoa (ou Bernardo Soares), “minha pátria é a língua portuguesa”.

Num país que se envergonha pelo que faz no presente, parece agora querer vilipendiar o passado. Quer apagar da História Universal que o primeiro grande contacto da Europa com o Japão moderno foi feito por intermédio dos portugueses. Em 1543, três navegadores — António da Mota, António Peixoto e Francisco Zeimoto — ancoraram nas ilhas nipónicas, dando início a uma relação de trocas e fascínio mútuo que marcaria profundamente ambos os povos.

Fernão Mendes Pinto, na sua Peregrinação, misto de verdade e ficção, reclama para si um lugar nesse feito inaugural, descrevendo com minúcia a sua chegada ao Japão, o assombro dos locais perante as armas de fogo portuguesas e o espanto recíproco perante os costumes e a cultura. É dele um dos primeiros retratos europeus do Japão — colorido, cheio de admiração e revelador de um encontro entre civilizações.

Na sua narrativa, refere a entrega de espingardas a um senhor feudal japonês e o impacto profundo que esse gesto teve, ao ponto de modificar para sempre o modo como os japoneses concebiam a guerra. Mais do que uma crónica de aventuras, a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é um testemunho vivo da presença portuguesa no Japão do século XVI. E é, também, um monumento literário que dá voz à nossa língua nas lonjuras do Oriente.

Recorde-se ainda que Francisco Xavier, missionário jesuíta português, foi um dos primeiros evangelizadores do arquipélago. A cidade de Nagasáqui foi doada aos jesuítas portugueses. A primeira gramática da língua japonesa foi redigida por um português. A imprensa de tipos móveis foi introduzida por missionários portugueses. A língua portuguesa foi, até ao século XVII, o veículo oficial da comunicação dos japoneses com o mundo. Que país mais poderá reivindicar tal feito no Japão?

E como poderemos honrar, com esta postura, esse insigne vulto que foi Wenceslau de Moraes, que nos deixou um legado sobre o Japão em tantos escritos? Logo ele que, por lamentável ironia, até foi cônsul em Osaka…

E, no entanto, o Portugal de 2025 apresenta-se no Japão ignorando a sua própria língua — como se o português fosse um fardo do passado, um acessório irrelevante, uma relíquia a esconder. Como se a língua de Camões e de António Vieira, de Eça e de Pessoa, não merecesse aparecer agora num dos países que primeiro a escutaram no Extremo Oriente. Este apagamento não é casual. É sintoma de um Estado que já não se entende como Nação, que prefere o inglês da conveniência ao português da identidade.

Numa era em que o multiculturalismo é brandido como bandeira, Portugal é dos poucos países que insiste em esconder a sua Cultura para parecer moderno. Mas não há modernidade possível sem memória. E não há presença internacional digna quando se abdica da própria língua — sobretudo quando essa língua é um dos maiores legados da presença portuguesa no Japão.

O pavilhão português em Osaka já não é apenas um edifício; é uma metáfora da forma como o Estado português se vê a si mesmo: envergonhado da História, ignorante do seu papel no Mundo, submisso aos ditames de uma comunicação global onde tudo se quer nivelado, uniformizado, sem raízes.

Não sou dado a sentimentalismos patrioteiros nem a arroubos diplomáticos, e muito menos me comovem cortejos de bandeiras ou salamaleques culturais. A minha pátria — como bem disse Pessoa — continuará a ser a língua portuguesa. Não me indigno demasiado com quem tropeça no português por ignorância — isso tem cura. Mas o que já me enoja é a opção consciente de apagamento da língua que nos define, como se se varresse Camões para debaixo de um tapete institucional ou se riscasse Pessoa das vitrinas da História.

Com a indiferença burocrática dos que não percebem que se pode vender um país em silêncio, bastando para isso omitir-lhe a fala, a AICEP não cometeu apenas um deslize administrativo — trata-se de um acto simbólico de rendição cultural. E a rendição, quando feita sem disparar um só alfabeto, é ainda mais vergonhosa — porque já nem é traição: é desistência.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Música do BioTerra: Lina - O que temo e o que desejo (feat. Rodrigo Cuevas)


O que temo, e o que desejo
Que sempre o que temo, vejo
Que isso me dera da morte [2X]

De maneira me sucede
Nunca o que a vontade pede
Alma e vida a toda a sorte [2X]

Con ganas de darme muerte
El morirme es dulce suerte
Ojos que os detenéis [2X]

Muerto volvéis a mirarme
Acabad ya de matarme
Por que me resucitéis [2X]

Alma e vida a toda a sorte
Que isso me dera da morte
De maneira me sucede [2X]

O que temo, e o que desejo
Que sempre o que temo, vejo
Nunca o que a vontade pede [2X]

La llaga, cierto, es la mía
El morirme es alegría
Y así digo que acabéis [2X]

Ojos ya de matarme
Muerto volvéis a mirarme
Por que me resucitéis [5X]

10 de Junho - Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas



“Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades”.
Luiz Vaz de Camões

Saber mais sobre este dia aqui 

sexta-feira, 31 de maio de 2024

31 de Maio é Dia Mundial dos Irmãos e assinala também a Visitação da Virgem a Santa Isabel


Texto de Vitor Serrão
Por isso recorro a Jacopo Pontormo e ao maravilhoso painel que pintou há cinco séculos na igreja de San Michele de Carmignano. É um dos quadros mais belos que admirei na vida: o desenho serpentino das figuras, o calor dos tons, as poses sem-tempo, a expressão das quatros mulheres, envolvem-nos numa espécie de eterno elóquio.

O tema é o abraço fraterno, a plena partilha. Pintado em 1526-1528, este é o melhor atestado de que existem obras de arte (sagradas ou profanas) que se fazem interlocutoras de fascínios perenes. Têm esse poder de dar rosto a todos os anseios: inquietam, abraçam, revelam, incendeiam sonhos, amores, utopias. Para além das injustiças, desmemórias e barbáries, a nossa senda de humanos ainda não está perdida sem remissão.

Tudo é efémero no que respeita às migalhas de uma vida, mas é certo que só a arte ilumina, e liberta. A 'noção de incerteza' de Pontormo, expressa nas páginas do seu diário 'Il Libro Mio' reflecte a consciência do que existe para além do humano entendimento - e nessa (in)definição me encontro, também, com os nossos poetas Camões e Jerónimo Corte-Real, nascidos nos anos em que o florentino atingia o auge da fama.

O Pontormo inventou aqui uma Sacra Conversazione composta em losango, aos modos da gravura 'Quattro streghe' de Durer (1497), mas com peso na deliberada deformação das poses, com alongamento de corpos e uso de um colorismo quase psicadélico.

A lição solidária destas quatro Graças supera a cobiça, a cegueira, o preconceito, no seu apelo às luzes. Essa verdade cristalina ajusta-se à mágica transparência de formas e cores de um quadro como este. Sim, a Amizade e o Amor são bens preciosos, precisos, e raros: guardemo-los como nosso tesouro.

Sobre o Dia Internacional dos Irmãos
O Dia dos Irmãos comemora-se em Portugal a 31 de maio.

O principal objetivo da data é relembrar a importância que os irmãos têm na formação pessoal de todos os indivíduos, celebrando e homenageando os irmãos. Irmãos fazem parte da história pessoal de quem os têm, em grande parte das vezes partilham memórias de infância e são os primeiros amigos.

Além disso, podemos ter como irmãos tanto os que são filhos dos nossos pais, como aqueles que conhecemos ao longo da vida e são mais que amigos.

O Dia dos Irmãos, a 31 de maio, é a celebração que encerra aquele que é considerado o Mês da Família.

A celebração, que acontece em Portugal nesta data desde 2014 e é iniciativa da European Large Families Confederation, tem como principal promotora  a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas.

Mensagens para feliz dia do irmão
"O dia do irmão é uma oportunidade para expressar o amor que sinto por você. Agradeço por te ter como companheiro e por poder dividir os melhores anos da minha vida contigo."

"Feliz dia dos irmãos para você que alegra minha vida e faz dos meus dias os melhores de sempre. Te amo muito!"

"Por vezes podemos brigar e até ficar sem falar, mas saibas que meu amor por ti vai além de qualquer divergência. Feliz dia, minha querida irmã!"

"Eu tenho o melhor irmão do mundo! Que neste dia te sintas amado e saibas o quanto te quero ver bem e feliz."

quinta-feira, 21 de março de 2024

Dia Mundial da Poesia

David Sylvian/Isabelle Adjani - There's One Word Missing/Il Manque Un Mot 


A Poesia "está no ar, nos olhos, na palavra dita e por dizer", lê-se na mensagem da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) a propósito do Dia Mundial da Poesia, que hoje se celebra.

"A Poesia não carece em absoluto de forma escrita: está no ar, nos olhos, na palavra dita e por dizer, na sensação e no sentimento do que amamos ou combatemos", lê-se na mensagem de autoria do escritor João de Melo.

Melo realça as diferentes facetas do poema, que é "escuridão e luz perpétua da claridade".

O autor afirma que "o poema é ao mesmo tempo dor e canção, desamparo e amor, solidão e solidariedade, desespero e esperança, escuridão e luz perpétua da nossa claridade".

"A Poesia é uma forma de linguagem para a beleza; uma imaginação verbal no seu estado mais puro. Apetece-me fazer-lhe o elogio como se ela fosse algo que estivesse ao mesmo tempo no centro (na essência) e muito para além de toda a Literatura", lê-se na mesma mensagem.

No texto, João de Melo sublinha a forte ligação da Poesia à Música.

"O que mais eu amo no poema é a sua proximidade ao sentimento e à música", assim abre a sua mensagem João de Melo, afirmando que "alguém inventou o poema para ser cantado".

"Criou-o como forma superior de pranto e oração aos deuses da Música, do Silêncio, do Sonho e da grande Melancolia que atravessa todos os séculos do Homem".

"Mas o que existe de tão luminoso na escrita dos poetas? E que pode haver de poético na linguagem dos prosadores? O poema pertence ao género masculino ou feminino?" questões colocadas por João de Melo, esclarecendo desde logo, que não veio para as responder.

Todavia, considera o autor "que há qualquer coisa de múltiplo na ideia de cada um acerca da Poesia".

"O elogio que dela se possa fazer não deve ser genérico nem abstrato. Cada um de nós traz em si, consigo, uma reserva desconhecida de Poesia. O nosso destino é também o dos poetas. Porque ela, Poesia, é um trabalho da sensibilidade e do ouvido - do ouvido que reconhece a música, mas também do outro: aquele que ouve e escuta o mundo, que ouve o silêncio e a voz dos humildes, dos humildes universais que devíamos ser todos nós".

Para Melo, a Poesia "é sobretudo uma voz no interior da linguagem, algo como um suspiro ou um grito sem voz, e tanto pode morar à esquina de um soneto ou de uma oitava, como em cima de um muro erguido pelas palavras, isto é, pela prosódia de uma prosa".

"Tal como o poeta, também o poema tem causas a suscitar ou a defender: do amor à amizade, da vida à morte, do júbilo à dor, da indignação à revolta, da rua e da casa do poeta à morada universal da humanidade inteira. Ele está na rua, connosco se deita e se levanta: caminha, trabalha e regressa a casa", afirma Melo que na sua mensagem cita poemas de Natália Correia, João Ruiz de Castelo-Branco, Luís de Camões, Herberto Hélder, Ruy Belo e um dos heterónimos de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro.

Pior que tudo, remata João de Melo, "será um homem despedir-se da sua memória da Poesia".

Adotado pela Organização das Nações Unidas para a Cultura, Educação e Ciência (UNESCO, na sigla em inglês) em 1999, o Dia Mundial da Poesia pretende "homenagear poetas, reviver tradições orais de recitais de poesia, promover a leitura, escrita e ensino de poesia, e fomentar a convergência entre a poesia e outras artes".

sábado, 10 de junho de 2023

O 10 de Junho do nosso descontentamento

O 10 de Junho é um cadáver exumado anualmente em soturnas comemorações oficiais.
Os EUA exaltam o 4 de julho, data da declaração da Independência, e fazem desse dia a festa nacional. Que melhor razão para celebrar o dia do que o nascimento do país, que promulga uma constituição avançada e declara o direito à felicidade?
A França fez da tomada da Bastilha, em 14 de julho, o símbolo da liberdade, a festa da Revolução que aboliu as velhas monarquias de direito divino e deu origem às modernas democracias governadas por cidadãos que o voto popular escrutina.
O Estado português escolheu, não a independência, não a glória das descobertas, não a liberdade, mas o óbito de um poeta, singular e grande, é certo, mas a morte, nem sequer o nascimento cuja data e local ignora.
Os EUA e a França celebram a liberdade e os povos exultam, Portugal evoca a morte e os portugueses deprimem-se. O dia 10 de Junho era na ditadura o «Dia de Camões, de Portugal e da Raça». Era um dia de nojo, na dupla aceção, com os carrascos a distribuir veneras pelas viúvas, pais e irmãos dos militares mortos na guerra colonial.
Hoje, em democracia, o dia 10 de Junho apenas perdeu a Raça. É o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Não é festa, é velório.
Portugal tem uma Revolução para festejar o seu dia, o dia que fez a síntese do melhor que herdámos do liberalismo e do 5 de Outubro, a madrugada que emocionou o Mundo e libertou Portugal da mais longa ditadura do Século XX – o 25 de Abril.
Portugal prefere o velório à festa, a véspera da perda da independência à alvorada da libertação, a continuidade das cerimónias da ditadura à aurora de todas as liberdades, à festa do povo e à grandeza épica do 5 de Outubro e do 25 de Abril.
A exaltação da data, a nível nacional, deve-se ao salazarismo que aproveitou os heróis da República, expurgando-os do sentido positivista e laico que os republicanos lhes atribuíram, e introduzindo um sentido nacionalista adequado à propaganda fascista.
O Presidente da República, versão civil e culta de Américo Tomás, começou este ano a comemorar a data, em Braga, no seu jeito excessivo, talvez saudoso de um 28 de maio que abateu a liberdade.
Américo Tomás era diferente, nunca foi eleito democraticamente, mas a liturgia pouco mudou na coreografia pífia.
O atual Presidente da República, de Braga a Peso da Régua, parecia, na sanha contra o Governo, seguir os passos do marechal Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa. Hoje, como em 1926, os amigos dirão que é para «tirar o Governo aos devoristas e sanguessugas da República» e os adversários que «é o caminho para a ditadura» em cujo ambiente foi educado.

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas


“…Língua nascida numa Pátria exígua territorialmente, mas que ela alargou aos cinco continentes, graças ao seu dom expressivo e proteico, que lusitanizou, brasilizou e africanizou terras e almas. Grácil e subtil logo no berço, em breves cantigas de amor ou de maldizer, ao cabo de oitocentos anos, não só conserva o viço inicial, como floresce dia a dia em sambas, modinhas, mornas e obras literárias de largo fôlego. Não há ritmo de verso de que não seja capaz, arroubo épico para que não tenha alento, andamento narrativo a que não saiba dar balanço....”

Texto de Miguel Torga enviado aquando da fundação da CPLP em 1996

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Feliz Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas


Macau, 10 de Junho de 1987
NA GRUTA DE CAMÕES
Tinhas de ser assim:
O primeiro
Encoberto
Da nação.
Tudo ser bruma em ti
E claridade.
O berço,
A vida,
O rastro
E a própria sepultura.
Presente
E ausente
Em cada conjuntura
Do teu destino.
Poeta universal
De Portugal
E homem clandestino.