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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Documentário - Leo from Chicago


1. Documentário do Vaticano
O documentário "Leo from Chicago", realizado pelo cineasta James Keach, é um retrato profundamente humanista e comovente que narra a extraordinária trajetória de Leo, um homem que viveu durante décadas nas ruas de Chicago. Longe de ser uma abordagem assistencialista, Keach utiliza a sua lente para capturar a essência de um indivíduo que, apesar de mergulhado na pobreza extrema e na invisibilidade social, nunca abandonou a sua dignidade ou a sua fé inabalável. Em Chicago, Leo era conhecido não apenas pela sua condição de sem-abrigo, mas pela sua inteligência, pela doçura do seu trato e por uma resiliência silenciosa que o tornava uma figura respeitada na sua comunidade urbana.

A narrativa ganha uma dimensão quase transcendente quando descreve como Leo chegou ao Vaticano. Através de uma rede de amizades e do apoio de pessoas que reconheceram nele uma luz espiritual invulgar, Leo foi convidado a viajar até Roma. Este percurso simboliza um contraste visual e emocional poderoso: a transição das calçadas frias e hostis do Midwest americano para a grandiosidade secular e o mármore dos palácios pontifícios. O documentário culmina no encontro simbólico entre Leo e a cúpula da Igreja Católica, personificando a visão de uma "Igreja para os pobres" e demonstrando que a verdadeira riqueza não se encontra na opulência dos edifícios, mas na pureza de coração de quem nada possui. É uma obra elegante que nos recorda que, independentemente das circunstâncias materiais, a essência humana permanece sagrada.

2. Outro Documentário: Robert Prevost - De Chicago ao Papa Leão XIV
Um Papa diferente de todos os outros. Na primavera de 2025, o mundo assistiu ao fumo branco a subir sobre a Basílica de São Pedro, assinalando um novo capítulo na história católica. O homem escolhido: Robert Prevost — um antigo coroinha de Chicago, missionário no Peru e humilde frade agostiniano. Agora, é o Papa Leão XIV, o primeiro norte-americano a liderar a Igreja Católica global.

Neste documentário aprofundado traça a vida extraordinária do Papa Leão XIV, desde a sua infância cheia de fé no coração da América até aos bairros poeirentos do Peru, aos corredores do Vaticano e, finalmente, à varanda papal. Testemunhe como um construtor de pontes moldado pela compaixão, justiça e humildade ascendeu para pastorear 1,4 mil milhões de almas.

Através de uma narrativa cinematográfica e de uma rica perceção histórica, exploramos o homem, a missão e a mensagem por detrás de Leão XIV — um Papa que convoca o mundo para a unidade, a paz e a renovação missionária.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

The Smashing Pumpkins - Try, Try, Try


Uma canção que é um hino à capacidade sobre-humana de resistência da vida face ao infortúnio

Letra
Pop Tart, what’s our mission?
Do we know but never listen?
For too long they held me under
But I hear it’s almost over
In Detroit on a Memphis train
Like you said, it’s down in the heat and the summer rain
The automatic gauze of your memories
Down in the sleep at the airplane races

[Chorus]
Try to hold on
To this heart a little bit longer
Try to hold on
To this love aloud
Try to hold on
For this heart’s a little bit colder
Try to hold on
To this love

[Post-Chorus 1]
Paperback scrawl your hidden poems
Written around the dried out flowers
Here we are, still trading places
To try to hold on

[Verse 2]
Pop Tart, can you envision
A free world of clear division?
For too long they held us under
But I know we’re getting over
In Detroit with the Nashville tears
Like you said, it’s down in the heat with the broken numbers
Down in the gaze of solemnity
Down in the way you’ve held together

[Chorus]
Try to hold on
To this heart a little bit closer
Try to hold on
To this love aloud
Try to hold on
For this heart’s a little bit older
Try to hold on
To this love aloud

[Bridge]
And we are still alive
Try to hold on
And we have survived
Try to hold on
And no one should deny
[Post-Chorus 2]
We tried to hold onto the pulse of the feedback current
Into the flow of encrypted movement
Slapback kills the ancient remnants
That try to hold on

[Chorus]
Try to hold on
To this heart alive
Try to hold on
To this love aloud
Try to hold on
And we are still alive
Try to hold on
And we have survived
Try to hold on

[Outro]
Pop Tart, you never listen
Skinned knees, try to hold on
Stop start, what’s our mission?
Skinned knees, try to hold on

Esta é uma das músicas mais emocionantes do álbum Machina/The Machines of God. É aquele tipo de canção que equilibra perfeitamente a melancolia com uma ponta de esperança, típica do Billy Corgan.

Se é a primeira vez que escutas esta faixa agora, vale a pena notar alguns pontos:

1. A atmosfera sonora
Diferente do som pesado de guitarras de álbuns anteriores, "Try, Try, Try" é mais atmosférica e eletrónica.

O Ritmo: Tem uma batida constante, quase hipnótica, que dá uma sensação de movimento (ou de cansaço repetitivo).

Os vocais: O Corgan canta de uma forma mais suave e vulnerável, o que combina com a letra sobre "tentar aguentar firme".

2. O Vídeo (Curta-Metragem)
O videoclipe é, na verdade, um curta~metragem de 15 minutos dirigido por Jonas Åkerlund. É uma experiência bem forte:

A História: mostra a vida crua de um casal sem-teto em Estocolmo, lidando com vício e pobreza extrema.

O impacto: O vídeo muda completamente a percepção da música. O que parece ser um conselho genérico de "tente mais uma vez" se torna um grito desesperado de sobrevivência. Na época, foi amplamente censurado pela MTV por ser pesado demais.

Por que ela é especial?
Em "Try, Try, Try", do The Smashing Pumpkins, a repetição do verso “Try to hold on” (“Tente aguentar firme”) destaca a luta constante para manter a esperança e o afeto em meio ao desgaste emocional e à dor. A música aborda a perseverança como um ato de resistência e sobrevivência, especialmente diante de situações difíceis. Imagens como “skinned knees” (“joelhos ralados”) e menções a cidades como Detroit e Memphis conectam a letra à realidade dura mostrada no videoclipe, onde jovens enfrentam marginalização, vício e perda. Essa ligação entre a letra e o vídeo reforça o retrato de um cotidiano marcado por desafios sociais e emocionais.

A melancolia da canção é intensificada por versos como “the automatic gauze of your memories” (“a gaze automática das suas memórias”) e “paperback scrawl your hidden poems / written around the dried out flowers” (“rabisco de bolso seus poemas escondidos / escritos ao redor das flores secas”). Esses trechos evocam lembranças de tempos melhores e a tentativa de preservar sentimentos em meio ao caos. O single também traz símbolos alquímicos e referências místicas, sugerindo que a busca por sentido e redenção é complexa e quase espiritual. Mesmo com o coração “a little bit colder” ou “older” (“um pouco mais frio” ou “mais velho”), a insistência em tentar seguir adiante transforma a música em um hino à resiliência, reconhecendo tanto a dor quanto a força de quem não desiste.

Em termos de banda e destino 
Try,Try,Try marcou o fim da "era clássica" do Smashing Pumpkins, já que a banda se separou pouco tempo depois, no final de 2000. Ela carrega aquele peso de despedida, de quem já deu tudo de si e está tentando encontrar um motivo para continuar.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

UADA - Something in the Way


A banda UADA é de nacionalidade norte-americana (originária de Portland, Oregon) e o seu estilo musical principal é o Melodic Black Metal (Black Metal Melódico).

Sobre o lançamento específico 

1. "Something in the Way" (Cover de Nirvana)

Embora a canção original seja um clássico do Grunge da banda Nirvana, o UADA lançou uma versão desta música em janeiro de 2026.

Estilo da Versão: A banda reinterpretou a canção dentro da sua estética sombria, transformando-a numa espécie de "lamento de Black Metal". Eles mantiveram a estrutura melancólica original, mas adicionaram uma atmosfera mais densa, gélida e o uso de violoncelo para acentuar o tom fúnebre.

Significado da Escolha: Segundo o vocalista Jake Superchi, a cover foi uma homenagem às influências regionais da sua juventude (o Noroeste Pacífico dos EUA, berço do Grunge) e uma exceção à regra da banda de não fazer covers.

2. Estilo Musical da Banda

O som do UADA é frequentemente caracterizado por:

Melodias Marcantes: ao contrário do Black Metal mais caótico, eles focam em harmonias de guitarra que lembram bandas como Dissection ou Mgła.

Atmosfera e Mistério: as letras abordam temas como paganismo, misticismo e escuridão. Visualmente, a banda é conhecida por atuar com os rostos cobertos por capuzes, mantendo um ar de anonimato.

USBM (United States Black Metal): Eles são considerados um dos principais nomes da nova vaga do Black Metal dos Estados Unidos.

Curiosidade: o nome "Uada" vem do latim e significa "Assombrado".

Em “Something In The Way”, dos Nirvana, a imagem de "viver debaixo da ponte" funciona como uma metáfora forte para o isolamento extremo e a sensação de estar à margem da sociedade. Apesar de muitos fãs acreditarem que a letra seja autobiográfica, refletindo um suposto período em que Kurt Cobain teria vivido como sem-teto, não há confirmação de que isso tenha realmente acontecido. A música, portanto, se apresenta mais como um retrato emocional do que um relato literal da vida de Cobain.

O verso “And the animals I've trapped have all become my pets” (E os animais que capturei viraram meus animais de estimação) mostra a solidão do personagem, que encontra companhia apenas nos animais, reforçando o sentimento de abandono. A repetição de “Something in the way” (Algo no caminho) destaca a presença de um obstáculo invisível, algo que impede o personagem de se reconectar com o mundo. Trechos como “living off of grass and the drippings from my ceiling” (vivendo de capim e do que pinga do meu teto) e “it's okay to eat fish 'cause they don't have any feelings” (tudo bem comer peixe porque eles não têm sentimentos) evidenciam a precariedade e a desumanização, além de mostrar uma tentativa de racionalizar a própria sobrevivência. O arranjo minimalista e o tom sombrio da música reforçam a sensação de resignação. A colaboração não creditada de Mark Lanegan pode ter contribuído para esse clima de desolação. A canção ganhou novo significado ao ser usada no filme “The Batman”, ilustrando o isolamento e o tormento do personagem principal, o que mostra como sua melancolia é universal e atemporal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Leonard Cohen - Democracy


A imagem do poderoso navio do Estado que deve passar pela tempestade do ódio, atravessar os recifes da ganância para chegar às praias da necessidade é a coisa mais linda que se pode ouvir numa canção!

"Democracy" é uma canção do Leonard Cohen com a participação de Jeff Fisher, originalmente lançada no álbum The Future, de Cohen, em 1992.  A letra aborda as falhas e as promessas da democracia nos Estados Unidos A canção foi escrita aproximadamente durante a queda do Muro de Berlim, o que levou Cohen a questionar a origem da democracia. Cohen afirmou que era "uma canção de profunda intimidade e afirmação da experiência democrática" nos Estados Unidos.

Democracy
Leonard Cohen

It's coming through a hole in the air
From those nights in Tiananmen Square
It's coming from the feel
That this ain't exactly real
Or it's real, but it ain't exactly there
From the wars against disorder
From the sirens night and day
From the fires of the homeless
From the ashes of the gay
Democracy is coming to the U.S.A

It's coming through a crack in the wall
On a visionary flood of alcohol
From the staggering account
Of the Sermon on the Mount
Which I don't pretend to understand at all
It's coming from the silence
On the dock of the bay
From the brave, the bold, the battered
Heart of Chevrolet
Democracy is coming to the U.S.A

It's coming from the sorrow in the street
The holy places where the races meet
From the homicidal bitchin'
That goes down in every kitchen
To determine who will serve and who will eat
From the wells of disappointment
Where the women kneel to pray
For the grace of God in the desert here
Snd the desert far away
Democracy is coming to the U.S.A

Sail on, sail on
O mighty Ship of State!
To the Shores of Need
Past the Reefs of Greed
Through the Squalls of Hate
Sail on, sail on, sail on, sail on

It's coming to America first
The cradle of the best and of the worst
It's here they got the range
And the machinery for change
And it's here they got the spiritual thirst
It's here the family's broken
And it's here the lonely say
That the heart has got to open
In a fundamental way
Democracy is coming to the U.S.A

It's coming from the women and the men
O baby, we'll be making love again
We'll be going down so deep
The river's going to weep
And the mountain's going to shout Amen!
It's coming like the tidal flood
Beneath the lunar sway
Imperial, mysterious
In amorous array
Democracy is coming to the U.S.A

Sail on, sail on

I'm sentimental, if you know what I mean
I love the country but I can't stand the scene
And I'm neither left or right
I'm just staying home tonight
Getting lost in that hopeless little screen
But I'm stubborn as those garbage bags
That Time cannot decay
I'm junk but I'm still holding up
This little wild bouquet
Democracy is coming to the U.S.A

Em "Democracy", Leonard Cohen apresenta uma análise irónica e crítica sobre o ideal democrático nos Estados Unidos. Ele deixa claro que a democracia não é um estado já alcançado, mas um processo contínuo, muitas vezes marcado por caos e sofrimento. Cohen faz referência a eventos como as "noites em Tiananmen Square" (noites na Praça da Paz Celestial) e menciona "as cinzas dos gays" e "os incêndios dos sem-teto", conectando lutas globais e marginalizações internas. Com isso, sugere que a verdadeira democracia nasce das experiências de dor, exclusão e resistência de grupos marginalizados. O verso "Democracy is coming to the U.S.A." (A democracia está chegando aos EUA) traz esperança, mas também ironia, indicando que, apesar do discurso oficial, a democracia plena ainda não foi alcançada no país.

A música foi composta durante a queda do Muro de Berlim, um momento de grandes mudanças políticas, o que reforça a visão de Cohen dos EUA como um laboratório imperfeito, onde a experiência democrática é testado entre extremos: "the cradle of the best and of the worst" (o berço do melhor e do pior). Ele também ironiza a espiritualidade e a busca por transformação, enquanto reconhece a solidão e a fragmentação social americana: "It's here the family's broken / And it's here the lonely say / That the heart has got to open / In a fundamental way" (É aqui que a família está desfeita / E é aqui que os solitários dizem / Que o coração precisa se abrir / De uma forma fundamental). O refrão, repetido como um mantra, funciona como desejo e alerta, mostrando que a democracia só se concretiza quando impulsionada "from the sorrow in the street" (a partir da dor nas ruas) e das vozes dos excluídos. No final, Cohen se mostra sentimental, mas desiludido, optando por observar à distância, mas mantendo uma esperança persistente, como "those garbage bags / That Time cannot decay" (aqueles sacos de lixo / Que o Tempo não consegue destruir). A canção segue atual ao abordar as contradições e desafios do sistema democrático, sem perder a fé em sua renovação.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Hoje é dia de Janis Joplin - Raise Your Hand


Tema actualíssimo!

Raise Your Hand
(Eddie Floyd, Stephen Lee Cropper, Alvertis Isabell)

If there's somethin' you need
Hon that you've never, ever, ever had
I know you've never had it
Oh, honey, don't you just sit there cryin'
Don't just sit there feelin' bad
No, no, no
You'd better get up
Now, don't you understand?
And raise you hand
Hey, hey, hey
I said, raise your hand

You know I'm standin' about, yes I am
Want to give you all my love, oh, I do
Oh, honey, won't you come on and open up
I said, open up in your heart
Please won't you let me try?
Yeah!!

Got to be good
Don't ya understand?
Raise your hand
Hey, hey, hey
I said, raise your hand
Right here, right now, babe!

Whoaaaah, yeah!

Whoaaaah!!
Raise your hand

Raise
Gonna raise

Said, raise your hand, come on!
Raise your hand, feel it!
Raise your hand, I gotta have it!
Raise your hand

Raise your hand, yeah!
Raise your hand, yeah!
Raise it up, on up to me
Come on, raise it up, on up to me
Oh, raise it up, on up to me, yeah!
Yeah!

"Raise Your Hand" é uma canção cover de Janis Joplin, originalmente escrita por Eddie Floyd, Steve Cropper e Alvertis Isbell, presente no álbum Cheap Thrills (1968) de Big Brother and the Holding Company.
A letra incentiva o ouvinte a abandonar a passividade, parar de chorar ou se lamentar e "levantar a mão" para pedir o que precisa, simbolizando abertura emocional e iniciativa para receber amor ou satisfação.
No contexto de Joplin, a música ganha uma energia blues-rock explosiva, frequentemente interpretada ao vivo como um grito de empoderamento e conexão com o público.
  1. Biografia e discografia
  2. Janis Joplin: The Unmatched Voice of Rock, Blues, and Soul
You are really piece of my heart

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Cardboard Boxer - O Resgate De Uma Vida (2016)

Sinopse: 
O filme segue Willie, um homem sem-abrigo que vive nas ruas de Los Angeles. Um dia, ele é recrutado por um jovem rico para lutar contra outros sem-abrigo em combates organizados por dinheiro. Enquanto enfrenta essa dura realidade, Willie encontra um diário perdido de uma jovem e passa a refletir sobre a sua própria vida, humanidade e a compaixão que ainda resta num mundo que o esqueceu.

Temas principais: 

pobreza, dignidade, amizade, redenção e a luta pela humanidade nas margens da sociedade.

É um filme emocional e cru, com uma excelente atuação de Thomas Haden Church — elogiada pela crítica pela sensibilidade e profundidade com que retrata a vida nas ruas.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

A pobreza habitacional no Reino-Unido no início da década de 70


Entre 1968 e 1972, enquanto os homens caminhavam pela superfície lunar e os hippies tomavam ácidos, um jovem de vinte e poucos anos fotografava um mundo completamente diferente: as péssimas condições de vida da população urbana pobre em Inglaterra e na Escócia, onde pouco tinha mudado desde a era vitoriana. As fotografias tiradas por Nick Hedges durante este período foram utilizadas numa campanha nacional pela habitação que teria um profundo impacto no público britânico e ajudaria a defender uma mudança na lei. Esta mudança chegou finalmente com a Lei da Habitação (Pessoas em Situação de Sem-Abrigo) de 1977, que foi um grande avanço na proteção legal para as pessoas em situação de sem-abrigo.


O trabalho do fotógrafo Nick Hedges, falecido aos 81 anos (8 Junho 2025) , revelou a realidade das péssimas condições de vida da população urbana pobre do Reino Unido nas décadas de 1960 e 1970. O seu trabalho compassivo transformou percepções e ajudou a galvanizar a mudança social.


No final da década de 1960, em plena crise imobiliária em que 3 milhões de pessoas ainda viviam em bairros de lata e casas consideradas "impróprias para habitação", a Shelter contratou o fotógrafo Nick Hedges para documentar estas condições de vida precárias em toda a Grã-Bretanha.


Mais fotografias aqui

quinta-feira, 26 de junho de 2025

A riqueza acumulada desde 2015 por 1% dos mais ricos do mundo permitiria erradicar a pobreza 22 vezes.



Um relatório divulgado esta quinta-feira pela Oxfam Internacional concluiu que a riqueza acumulada desde 2015 por 1% dos mais ricos do mundo permitiria erradicar a pobreza 22 vezes.

No documento "Do lucro privado ao poder público: Financiar o desenvolvimento, não a oligarquia", a organização não governamental (ONG) denunciou que a riqueza dos 1% mais ricos aumentou 33,9 biliões de dólares (cerca de 29 biliões de euros) em termos reais desde 2015, quando foram acordados os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

O montante seria o suficiente para acabar com a pobreza anual 22 vezes, denunciou a ONG, no relatório publicado no âmbito da preparação da Conferência Internacional sobre o Financiamento do Desenvolvimento, que se realiza na próxima semana em Sevilha, no sul de Espanha.

Esta nova análise revelou um "aumento astronómico" na riqueza privada entre 1995 e 2023, com um crescimento de 342 biliões de dólares (296,4 biliões de euros), oito vezes maior que o da riqueza pública.

O documento acusa os governos ricos de estarem a fazer os maiores cortes na ajuda ao desenvolvimento, "algo essencial para a sobrevivência", desde que os registos de ajuda começaram em 1960.

"A riqueza de apenas três mil multimilionários aumentou 6,5 biliões de dólares [5,63 biliões de euros] em termos reais desde 2015 e representa agora o equivalente a 14,6% do PIB mundial", afirmou a ONG.

A análise argumentou ainda que só os países do G7 (grupo dos sete países mais desenvolvidos do mundo), que representam cerca de três quartos de toda a ajuda oficial, estão a reduzi-la em 28% até 2026, em comparação com 2024.

Ao mesmo tempo, a crise da dívida "está a levar à falência os países pobres, que estão a pagar muito mais aos seus credores ricos do que podem gastar em salas de aula ou hospitais".

O relatório também examina o papel dos credores privados, que "representam mais de metade da dívida dos países de baixo e médio rendimento, exacerbando a crise da dívida com a sua recusa em negociar e as suas condições punitivas".

"Os países ricos colocaram Wall Street no comando do desenvolvimento global. Trata-se de uma tomada de controlo global das finanças privadas que ultrapassou as estratégias com base empírica, para combater a pobreza através do investimento público e de uma tributação justa", afirmou o diretor-geral da Oxfam, Amitabh Behar.

A Oxfam apelou aos governos para que subscrevam as propostas políticas "que propõem uma mudança radical, combatendo a desigualdade extrema e transformando o sistema de financiamento do desenvolvimento".

Estas propostas incluem:
  1. desenvolvimento de novas parcerias estratégicas contra a desigualdade;
  2. rejeição do financiamento privado como uma "solução milagrosa" para o desenvolvimento;
  3. tributação dos ultraricos;
  4. reforma da arquitetura da dívida, bem como a revitalização da ajuda.
"É tempo de rejeitar o consenso de Wall Street e, em vez disso, dar o controlo aos cidadãos. Os governos devem atender às exigências generalizadas de tributar os ricos e acompanhá-las com uma visão de construção de bens públicos, desde os cuidados de saúde à energia", acrescentou Behar.

A investigação foi elaborada pela empresa de estudos de mercado Dynata, entre maio e junho, no Brasil, Canadá, França, Alemanha, Quénia, Itália, Índia, México, Filipinas, África do Sul, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos.

Em conjunto, estes países representam cerca de metade da população mundial, segundo a Oxfam.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Palavras Que Não Ferem

Bom dia. Sobre as palavras que magoam, dilaceram, discriminam, oprimem, ofendem. Um poema meu e uma foto minha de um sem abrigo, ontem no Porto. Que as palavras que usamos elevem-nos e não o contrário.
Palavras Que Não Ferem
Fala…
mas fala com alma.
Com a intenção de não ferir.
Com o desejo de acalmar.
A palavra, quando nasce no cuidado,
tem perfume de verdade.
Não precisa gritar.
Não precisa vencer.
Quem sabe ouvir antes de dizer,
já começa a curar o mundo.
Palavras não foram feitas para cortar.
Foram feitas para tocar.
Com leveza.
Com presença.
Com compaixão.
Respira…
Há coisas que o silêncio diz melhor.
E há palavras que só valem
se vierem com o coração limpo.
Antes de falar, pergunta a ti mesmo:
— Isso é necessário?
— É verdadeiro?
— É gentil?
Se não for…
deixa passar.
Como folha no rio.
Porque palavra que magoa
volta.
E se aloja,
em quem falou…
e em quem ouviu.
Escolhe ser ponte,
e não pedra.
Escolhe ser abrigo,
e não arma.
O dom da palavra é sagrado.
Usa-o como quem toca
o que é mais frágil no outro:
a alma.

João Paulo Soares, 20.06.2025

terça-feira, 17 de junho de 2025

O avanço da Intorelância e o Silêncio da Empatia



São cada vez mais evidentes os sinais de uma escalada de intolerância e violência em Portugal, num registo que historicamente não nos era habitual. Os episódios multiplicam-se nas ruas, nas escolas, nas redes sociais, nos discursos públicos,  com uma frequência que percebemos crescente. Por vezes são subtis, outras vezes explícitos, mas todos têm em comum perceção de que algo se está a deteriorar no nosso tecido social. 
Vivemos tempos de frustração acumulada, de insegurança difusa, de um mal-estar que se infiltra lentamente na vida quotidiana. A imprensa nacional destacou recentemente o brutal ataque a um ator à saída do teatro, a agressão de duas voluntárias que levavam ajuda a pessoas sem-abrigo, ou mesmo ameaças e intimidações contra professores que defendem a inclusão nas escolas. Quando esta tensão se transforma em violência contra quem representa a cultura, a solidariedade ou o cuidado, ultrapassamos um limiar perigoso: o da desumanização do outro.
A polarização cresce quando deixamos de reconhecer a dignidade e a legitimidade de quem pensa, vive ou age de forma diferente. Quando o discurso público se transforma numa trincheira onde se dispara em vez de dialogar, quando se normaliza - direta ou indiretamente - a hostilidade como reação aceitável, e quando a raiva passa a ter mais protagonismo do que o respeito, é aí que o tecido social começa a rasgar. A convivência democrática exige mais do que regras institucionais; exige uma ética da relação, sobretudo na diferença e no desacordo.
Portugal tem uma tradição de convivência pacífica e de solidariedade discreta, mas eficaz. São traços que marcaram o nosso percurso coletivo, mesmo em tempos difíceis. Não podemos permitir que essa herança se dilua na banalização do ódio ou na indiferença face à degradação do espaço público. 
Quando quem cuida, quem acolhe, quem ensina, quem cria - em suma, quem constrói comunidade - começa a ser alvo de desconfiança ou hostilidade, estamos a destruir as bases da nossa democracia. Essa erosão abre caminho para o fortalecimento de discursos simplistas e excludentes que, lamentavelmente, têm vindo a ganhar cada vez mais espaço para se afirmar.
A raiz desta tensão é complexa. As crises sucessivas - económica, pandémica, habitacional, ambiental - têm gerado um sentimento de desorientação, de perda de controlo, de uma inquietante ausência de futuro. E onde falta horizonte, facilmente emerge o ressentimento. A indignação pode ser justa, mas quando não é acompanhada de lucidez e de responsabilidade, transforma-se em cinismo ou fúria. 
É muito importante restaurar a confiança mútua. Reabilitar o espaço público como lugar de encontro e não de ameaça. Valorizar a empatia como prática política e cívica; não como ingenuidade, mas como condição fundamental de humanidade. Porque resistir à violência simbólica ou física começa na forma como olhamos, ouvimos e falamos uns com os outros. Porque a democracia, afinal, é também a forma como nos tratamos todos os dias.

Saber mais sobre o Livro "O Poder da Empatia

segunda-feira, 19 de maio de 2025

A empatia é uma fraqueza ou um superpoder? - Sem-Abrigo


Há formas de com pouco salvar vidas, e vou-vos mostrar como: Elon Musk diz que a “empatia é um sinal de fraqueza”, ele tem mais dinheiro, mas eu acredito que aqueles que acreditam que a empatia é dos sentimentos mais poderosos da mente humana são a maioria dos portugueses. Ajudam-me a provar que Musk está errado?
Orgulho-me muito de ter trabalhado uns anos no INEM, que para além da experiência médica que fui absorvendo me permitiu entrar em todo o tipo de casas, de todo o tipo de pessoas, no grande Porto. Bairros problemáticos dominados pelo tráfico e pelo crime, as famosas “ilhas” escondidas, e até casebres no meio do nada sem eletricidade. Entrei em todo o lado, com os 5 sentidos bem alerta. Achava eu que tinha visto tudo, mas infelizmente não. Há pior. Há muito pior.
Há um submundo escondido que não se vê a olho nu mesmo para quem já palmou a cidade de lés a lés. Gente que vive nos extremos da pobreza e faz por não ser vista pela fuga às autoridades e também para que não sejam vistos pelos cidadãos que têm local para tomar banho, ou seja, todos nós. Inimaginável como se colocam em tantos lugares onde já passei centenas de vezes e jamais imaginava que havia uma civilização escondida feita de tendas, panos e cartão. Alguma coisa em nós os fez tornarem-se invisíveis. São os “sem-abrigo”. Invisíveis mas iguaizinhos a nós.
A SABER COMPREENDER apoia de uma forma muito humana, integrada e de proximidade estas pessoas há quase 10 anos. Fazem as famosas “rondas”.
Prepararam-se os kits com comes, bebes, café e chá como cartão de visita para o mais importante: SABER quem são, e COMPREENDER os porquês de viverem sem um tecto digno, para que se possam tentar encontrar caminhos e soluções. Esta oferta de comida e bebida, além de suprir o básico é uma porta de entrada para uma conversa, para que aos poucos se ganhe a confiança com psicólogos e assistentes sociais, e se possam encaminhar estas pessoas à tão desejada dignidade humana, só alcançada com a independência económica. É um trabalho muito difícil, mas onde se salva “mais” vidas do que nos hospitais.
Dói-me a alma pensar que há tanta gente com tanto, e outros a dormir na rua ao frio, à chuva e à mercê da maldade alheia. Fontes oficiais: em Portugal a estimativa é que sejam mais de 13.000 as pessoas que vivem no degrau mais baixo da miséria, os sem-abrigo.
A SABER COMPREENDER faz o seu trabalho num regime de 100% voluntariado, e tinha até há pouco tempo o uso fruto duma carrinha da Junta de Freguesia que chegou ao fim. Agora, para que possam fazer o seu trabalho que tem toques de magia humana, acreditem em mim que já fiz uma ronda com eles, precisam de comprar uma carrinha em segunda mão… e já há semanas que não saem à rua, o que quer dizer que há muitos dos nossos irmãos mais pobres a sofrer ainda mais, por falta desta pequena, mas enorme ajuda e com incontáveis casos de enorme sucesso.
Se fosse fácil por certo já estaria feito. É preciso ouvir, sentir, dar e receber, criar laços, vincar a confiança, para que num momento... naquele momento certo, se consiga abrir a porta de saída para uma ajuda técnica e especializada que possa tratar as questões de fundo, e encaminhar para a tão desejada independência económica que lhes permita voltar a ser visíveis por todos nós. “Des-desumanizá-los”!
Cada um de nós vale pelo tamanho dos seus sonhos, e como sociedade apenas temos a força do nosso elo mais fraco. Só ficaremos mais fortes se fortalecermos os mais vulneráveis. É um facto. Somos um tecido humano, em que a fragilidade de uma peça, é o desequilíbrio de todos nós.
Nunca duvidem que podia ser qualquer um de nós, a “tropeçar” numa situação de sem-abrigo. Há dois anos, descobri que tinha um amigo de infância nessa situação, e foi a SABER COMPREENDER que tanto me ajudou, mas a minha admiração já vinha de antes ao ponto que lhes ofereço os lucros dum dos meus livros.
E por isso, vos peço a vossa ajuda (link a baixo), com o que entenderem poder dar, para que se consiga uma carrinha para que a humanidade não perca esta pequena gota de água de humanidade, mas que encharca de amor centenas e centenas de pessoas.
Contribuam, e partilhem se acreditam que vale a pena lutar por um mundo melhor!
Muita gente vos ficará grata por salvarem as suas vidas, e acredito que as memórias do Papa Francisco também vos agradecerão, tal como ele diz na sua carta de despedida revelada após a sua morte: “Se alguma vez as minhas palavras vos tocaram, não as guardem. Transformem-nas em ação. Abracem quem está sozinho.”
Ajudem a provar que Elon Musk está errado! Doar Aqui
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sábado, 10 de maio de 2025

É português uma das pessoas que mais irrita Trump - chama-se Alberto M. Carvalho



1. Chama-se Alberto Carvalho o português que mais admiro entre todos os portugueses que considero admiráveis.
Quase ninguém o conhece aqui, mas o seu nome tem dividido as águas nos Estados Unidos – de um lado, tornou-se bandeira dos que consideram Trump um símbolo do mal; do outro, tornou-se um alvo para os que juram estar com Trump até à morte.

2. Em Portugal, poucos são os que o conhecem.
Só alguns amigos da sua juventude ainda se lembram de que morava numa casa miserável sem casa de banho, luz e água potável. No Bairro Alto dos marinheiros e fadistas, da gatunagem e dos jornalistas, das prostitutas e escritores, Alberto e os seus cinco irmãos faziam o que podiam para ajudar o pai e a mãe que costurava sem parar.
Foi o único a pedir ao pai para prosseguir os estudos, não queria desistir, tinha sonhos.
E assim foi: terminou o liceu em 1982 e tornou-se o orgulho da família.

3. Tinha 17 anos, mas o liceu não lhe bastava.
Juntara dinheiro em segredo e poucas semanas após o último exame já estava na América.
Ao desembarcar em Nova Iorque, com um visto para três meses e o deslumbre da Estátua da Liberdade, atacou o seu primeiro problema. Precisava de arranjar trabalho, fazer o que fosse preciso pois nem sequer tinha dinheiro para jantar nesse primeiro dia.
Quatro horas depois de ter chegado já estava a lavar pratos. Esteve na cozinha de um restaurante de vão de escada, mas arranjou um emprego infindavelmente melhor: acartar sacas de cimento e tijolos em obras.
Entretanto o visto caducou e Alberto ainda era menor.
Passou a dormir na rua, a dormir literalmente debaixo da ponte.
Foi sem-abrigo durante dois meses. E um dia, coisas de um destino que não se cansa de nos surpreender, um professor deu-lhe uma moeda e ficou um bocadinho à conversa.

4. Alberto maravilhou-o com os seus sonhos.
O professor americano ajudou-o a legalizar-se e o miúdo português voltou a estudar. Ao fim de um ano já recebia bolsas de mérito e licenciou-se com brilhantismo em Biologia. Tornou-se professor de Física num liceu em Miami.
A sua capacidade de fazer coisas encantou toda a gente e rapidamente o convidaram para vice-diretor da escola.
Imaginou projetos, escreveu livros sobre educação e somou diplomas e honrarias – durante mais de dez anos revolucionou o ensino na Florida e enquanto superintendente, com a tutela de 400 mil alunos, tornou-se icónico.
Durante a pandemia, muito influenciado pela família Obama, aceitou o convite para liderar todas as escolas de LA, o segundo maior distrito escolar americano, com a tutela de 660 mil alunos e de largas centenas de escolas.

5. Alberto Carvalho é o português que mais admiro.
Tem 60 anos e está nas bocas da América. Já há entre os fanáticos quem o ameace de deportação.
E sabes porquê?
Porque a polícia quis entrar pelas suas escolas para prender e deportar miúdos para El Salvador.
Alberto pôs-se à frente e moveu mundos e fundos para que tal não acontecesse. Na escola ou em casa.
A escola não podia ser um lugar de medo, a escola era um lugar de esperança, futuro e proteção. Por isso, se quisessem entrar e levar as suas crianças teriam de o levar a ele.
Alberto é uma lição de coragem.
Nascido num bairro de fadistas, ladrões, poetas, má fama e jornais, é um dos mais brilhantes soldados do Bem.
E é português a língua que fala dentro de si.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Amizade eterna: cadela espera por seu dono falecido todos os dias


The story of a Thai dog is similar to that of the famous dog Hachiko. Since the death of her homeless owner, Moo Deng has spent every day in the same spot in front of a supermarket. The dog Hachiko became famous for his loyalty in the 1930s after the dog waited for ten years in front of Shibuya station in Tokyo for his deceased owner to return.

A faithful dog that mourned its late owner to the point of being “severely depressed” has found a new home after being adopted by a Thai princess.

Images of the brown and white dog, named Moo Daeng (Thai for “red pork”), sleeping in front of a convenience store went viral on social media in January, reported The Nation

The Mari-Mo Photography Facebook page, which has been posting photos of Moo Daeng since its owner’s death in November 2024, said in various posts that the dog had been living in front of a 7-Eleven outlet in Yamo Market, in the Mueang district of Nakhon Ratchasima province.

Moo Daeng’s photos were reposted by another more popular Facebook page, KoratForumSkyscrapercity, and eventually went viral on social media.

When Moo Daeng’s owner, a homeless man, was alive, he took his pet begging in the vicinity of the market for food and money during the day. They would regularly rest in front of the 7-Eleven store when night fell, according to The Nation.

However, Moo Daeng’s owner, whose name is not known, fell ill and died in November 2024.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

A mãe dos pobres do Porto, deixou-nos a todos.


Espero que o seu legado continue.
Guiada pelo lema "Mais importante do que verbalizar doutrinas é humanizar atitudes", Lasalete foi a luz na vida de sem-abrigo, toxicodependentes e migrantes com necessidades.
Morreu La Salete Piedade, fundadora e presidente do Coração da Cidade, instituição de solidariedade social que se destaca no apoio a sem-abrigo e outras pessoas desfavorecidas e que ganhou notoriedade pelo apoio do ex-presidente do F. C. Porto, Pinto da Costa.

O antigo líder dos dragões é presença assídua na instituição, designadamente na distribuição de refeições na altura do Natal.

La Salete Piedade era a figura máxima do Coração da Cidade, que nasceu pela sua mão em 1996, e figura de relevo na área do apoio social. Morreu aos 73 anos e o velório realiza-se a partir das 15 horas desta quinta-feira. As cerimónias fúnebres estão agendas para as 15 horas de amanhã, sexta-feira, no Tanatório de Paranhos (Rua de Roberto Frias), onde o corpo será cremado.

Nas redes sociais, multiplicam-se as mensagens de consternação e de pesar pela morte de La Salete Piedade.

"Natural do Porto, onde nasceu a 8 de julho de 1951, La Salete viveu e trabalhou na cidade toda a sua vida, dedicando-se incansavelmente à causa dos mais vulneráveis. A sua infância foi marcada por grandes dificuldades, tendo vivido episódios de pobreza extrema antes de ser acolhida por uma instituição religiosa, onde recebeu formação e educação até à idade adulta. Este percurso moldou o seu compromisso com a dignificação da pobreza, algo que norteou a sua vida e obra", refere-se num comunicado em que se anuncia o falecimento.

La Salete Piedade fundou, em meados dos anos 90, a Associação Migalhas de Amor, que ficou conhecida como Coração da Cidade. A primeira sede foi na Rua do Bonjardim, onde apoiava cerca de 50 pessoas carenciadas com refeições.

Poucos anos depois, a associação já estava a servir 875 refeições por dia a pessoas em situação de sem-abrigo, toxicodependentes e migrantes. "Todos vestíamos a rigor, decorávamos as mesas com azevinho e oferecíamos presentes aos utentes. La Salete acreditava que dignificar a pobreza era essencial para elevar a autoestima de quem dela sofria", afirma Adriana Monteiro, voluntária de longa data citada no referido comunicado, relembrando os Natais na instituição,

Dada a exiguidade das instalações na Rua do Bonjardim, a associação mudou-se, em 2003, a para um espaço maior na Rua de Antero de Quental, passando a apoiar também desempregados, idosos e crianças. "Em 2004, já prestava assistência mensal a .000 pessoas, incluindo 500 crianças", acrescenta o texto, recordando que em 2010 foi lançado o programa VER - Vidas em Risco, "que oferecia apoios alimentares, clínicos, jurídicos e habitacionais a mais de 2000 pessoas por mês".

Já em 2015, nasceu o programa AI - Ajuda Imediata, "eliminando burocracias e respondendo às necessidades de 3600 pessoas mensalmente". "Durante a pandemia de covid-19, quando muitas instituições encerraram, reabriu as portas do Coração da Cidade, organizando voluntários para cozinhar 200 quilos de arroz por dia e prestar apoio alimentar a famílias necessitadas", refere ainda o comunicado. "Nos últimos quatro anos, o Coração da Cidade distribuiu mais de uma tonelada de alimentos diariamente, ajudando cerca de 2300 pessoas", acrescenta.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

O suficiente para uma vida digna


Quase todos os dias assistimos ao drama associado à migração de pessoas em busca de melhores condições de vida. Bem perto de nós, sucedem-se os naufrágios no Mediterrâneo, e apesar de interpelados pela tragédia e pelo desespero de homens, mulheres e crianças, não conseguimos pôr termo a tanto sofrimento e consensualizar uma solução. Por outro lado, numa contradição em que a humanidade parece ser pródiga, nunca a economia mundial gerou tanta riqueza, mas a sua distribuição não é uniforme e a desigualdade continua a prosperar. De acordo com a informação publicada por organismos internacionais dedicados, cerca de metade da riqueza mundial está na posse de cerca de 1.1% dos mais ricos, enquanto os 55% mais pobres do mundo – mais de 4 mil milhões de pessoas – detêm apenas 1,3% da riqueza global. Esta disparidade não seria tão chocante se aqueles que ficam com uma pequena parte tivessem o suficiente para viver uma vida digna. Infelizmente, sabemos que não é assim; cerca de 10% da população mundial vive em condições de extrema pobreza. 

À pobreza e carência de recursos que esta condição significa, acrescenta-se a falta de poder e influência. Invariavelmente e à escala universal, as taxas de pobreza são mais elevadas entre os jovens ou idosos, não brancos, mulheres, e aqueles que têm níveis mais baixos de educação. Por outro lado, muita riqueza garante a influência sobre a maioria das decisões, o que se traduz numa situação em que, por exemplo, os principais partidos políticos de um país são financiados pelos mais ricos e pelas empresas que existem para gerar lucros para distribuir por indivíduos maioritariamente ricos. 

É neste contexto de profunda desigualdade económica e social, que o mundo enfrenta agora uma crise planetária, destacando-se o impacto das alterações climáticas, da desflorestação, da perda de biodiversidade ou da escassez de água doce. A crise social agrava a crise planetária. Quando analisamos a problemática das alterações climáticas, verificamos que 10% das economias mais ricas emitem cerca de 50% das emissões de gases com efeito de estufa, enquanto os 50% mais pobres geram apenas 7% das emissões. Ou seja, os países mais afetados pelas alterações climáticas são os que menos fizeram para as causar. Importa ter consciência que as alterações climáticas estão já a matar pessoas, desde logo, pelo impacto na saúde e pela perda da produtividade agrícola e menor acesso a bens alimentares. 

É tempo de afrontar um sistema económico absurdo e injusto, baseado no crescimento medido em Produto Interno Bruto (PIB). Quando nos concentramos no PIB, omitimos o essencial: a construção de uma economia que funciona para as pessoas e para o planeta. Como Robert F. Kennedy muito bem expressou em 1968, o PIB “mede tudo (...) exceto o que faz a vida valer a pena”. 

Continuar a fazer crescer a economia através de uma insana delapidação de recursos, esperando que a riqueza verta para os cidadãos mais pobres, não alivia a pobreza e convida ao colapso ambiental. Se estamos a transgredir as fronteiras planetárias agora, como pode o planeta sustentar uma economia que será quatro vezes maior em menos de 5 décadas? Precisamos de uma economia capaz de dar resposta às pessoas e respeitar os limites do planeta, reduzindo a pegada material. Precisamos de abandonar o PIB como a principal medida de prosperidade e começar a medir as coisas que importam, construindo um mundo sem pobreza e sem indústrias nocivas para o planeta e para as pessoas. Para resolver a crise planetária, temos que priorizar as pessoas e criar uma sociedade mais igual e mais justa, e não permitir que o excesso de riqueza resulte num poder absurdo e desproporcionado. 

domingo, 31 de março de 2024

Kyrie, de José Carlos Ary dos Santos


Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.

Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.

Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.

Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.

Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

sábado, 7 de outubro de 2023

Documentário: Pobreza Zero - O futuro a construir


Um milhão e 700 mil pessoas vivem em situação de pobreza em Portugal, ou seja, com um rendimento inferior a 551 euros por mês. 
São, essencialmente, famílias alargadas com crianças ou famílias monoparentais, mas também pessoas que vivem sós, mulheres, idosos, trabalhadores e desempregados. 
A pobreza no país é estrutural e perpetua-se por gerações. A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza é a mais recente iniciativa para inverter esta situação, e a prioridade no curto/médio prazo é aproximar Portugal é dos países da União Europeia com as menores taxas de risco de pobreza. 
Mas que caminho temos de percorrer para lá chegar? Que medidas, estratégias e políticas de combate à pobreza em Portugal são necessárias?
As respostas neste documentário, uma co-produção da Fundação com a RTP. Com narração ao vivo do jornalista Carlos Daniel.

sexta-feira, 10 de março de 2023

From Below (2022)

Um documentário de longa-metragem com foco na ajuda mútua e nas respostas comunitárias durante a COVID-19 em Inglaterra. Apresenta entrevistas com voluntários, organizadores, ativistas, líderes religiosos e trabalhadores de instituições de solidariedade, falando sobre o trabalho que realizaram, os desafios que enfrentaram e como estão a avançar no pós-COVID e na crise do custo de vida. Os indivíduos economicamente desfavorecidos no Reino Unido esforçam-se por superar as adversidades, unindo-se para impulsionar a mudança através de iniciativas locais e defendendo políticas que combatam as desigualdades socioeconómicas. 

Mais info aqui

domingo, 16 de janeiro de 2022

Música do BioTerra- Beck - Beercan


O videoclipe de "Beercan" reforça este tema, mostrando um grupo de pessoas sem-abrigo a destruir uma casa, transformando a ideia de "festa" num ato de anarquia surrealista.

sábado, 2 de outubro de 2021

Mais de 116,8 milhões de pessoas vivem atualmente sem acesso permanente a alimentos no Brasil.


No Rio de Janeiro, a crise gerada pela pandemia fez crescer a procura por alimentos rejeitados pelos supermercados e o que antes seria para dar aos cães, hoje em dia serve para comer.

Uma reportagem do jornal brasileiro Extra revela como um camião com restos de carne e ossos tornou-se numa esperança para quem tem fome e não tem dinheiro suficiente para comprar alimentos.

Naquela que já é apelidada como "a fila da fome", homens e mulheres, jovens ou mais velhos, juntam-se no bairro da Glória, na zona sul do Rio de Janeiro, à espera do veículo que recolhe ossos e peles dos supermercados da cidade.


Sensibilizados, o motorista e o ajudante da empresa doam parte do que foi recolhido todas as terças e quintas. Em declarações ao jornal, o motorista, José Divino Santos, conta que o número pessoas a pedir os ossos e restos aumentou nos últimos meses

"Há dias em que chego aqui e tenho vontade de chorar. Um país tão rico não pode estar assim. É muito triste as pessoas passarem por esta situação. O meu coração dói. Antes, as pessoas passavam aqui e pediam um pedaço de osso para dar aos cães. Hoje, imploraram por um pouco de ossada para fazer comida. Duas ou três pessoas em situação de sem abrigo passavam aqui e levavam. Hoje, há dias em que há umas 15 pessoas", conta o motorista.

O homem refere ainda que os restos seguem para uma fábrica em Nova Iguaçu. Lá, parte do material é transformado em ração para animais e a outra — a gordura — é utilizada para fazer sabão.

"Às vezes está um pouco estragado, dizemos nós, mas as pessoas querem na mesma", remata.

A pobreza extrema, que leva pessoas à procura de restos, foi acentuada no Brasil durante a pandemia de covid-19. Os dados da Rede Brasileira de Pesquisas em Segurança Alimentar e Nutricional, citados pelo Extra, revelam que mais de 116,8 milhões de pessoas vivem atualmente sem acesso permanente a alimentos no país.

Dessas, 19,1 milhões (cerca de 9% da população) passam fome, vivendo um “quadro de insegurança alimentar grave”. Os números revelam um aumento de 54% no número de pessoas que sofrem com a escassez de alimentos, em comparação a 2018.

É o caso, por exemplo, da desempregada Vanessa Avelino de Souza, de 48 anos, que se desloca uma vez por semana ao ponto de distribuição. Com calma, separa pele a pele e osso por osso em busca de algo melhor para pôr no saco.

"Nós limpamos e separamos o resto de carne. Com o osso, fazemos sopa, colocamos no arroz, no feijão… Depois de fritar, guardamos a gordura e usamos para fazer a comida”, disse ao jornal.

De acordo com a reportagem, há mesmo quem percorra mais de 30 quilómetros em busca destes alimentos: Denise Silva, de 51 anos, é mãe de cinco filhos e avó de 12 e ficou viúva recentemente. Sozinha na luta para alimentar a família, faz o percurso de comboio duas vezes por semana.

"Não vejo um pedaço de carne há muito tempo, desde que a pandemia começou. Este osso é a nossa mistura. Levamos para casa e fazemos para os meninos comerem. Sou muito grata por ter isto aqui", conta ao extra.