Mostrar mensagens com a etiqueta Manoel de Barros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manoel de Barros. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A Natureza não é um mero recurso - é onde o humano se reconecta

Toutinegra-de-bigodes-ocidental (Curruca iberiae)

Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol,
de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casa vazia de cigarra, esquecida no tronco das árvores só serve para poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores
são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão
se transformara, envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os
lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com as borboletas.

Manoel de Barros, in "O Livro das Ignorãças" (1993)

O poema de Manoel de Barros, extraído de O Livro das Ignorãças, constitui um hino à sensibilidade, à infância e à capacidade de o ser humano se libertar da lógica puramente racional para se fundir com o mundo natural. Ao longo dos versos, o autor convida-nos a compreender o mundo através daquilo que apelida de "desimportâncias", valorizando o olhar sensível em detrimento da rigidez utilitária do quotidiano.

No centro da narrativa encontramos o "estágio de ser árvore". Esta expressão não evoca uma metamorfose literal, mas sim um profundo exercício de empatia, silêncio e contemplação, onde o irmão do poeta adota o tempo e o ritmo da própria terra. É através desta simbiose que surge uma crítica subtil ao ensino tradicional e dogmático. Ao afirmar que o irmão aprendeu mais sobre o sol, a lua e a santidade no tronco de uma árvore do que na escola ou no internato com os padres, o poeta exalta o saber sensorial e a vivência direta. A comunhão com o meio ambiente revela-se a verdadeira escola da vida, capaz de aproximar o indivíduo daquilo que designa como o "perfume de Deus".

Manoel de Barros foca-se também na utilidade do que parece inútil. A imagem da casa vazia da cigarra, esquecida no tronco e que "só serve para poesia", ilustra perfeitamente a sua filosofia: numa sociedade focada no lucro e na funcionalidade, a arte e a poesia residem precisamente naquilo que foi abandonado e que perdeu a sua função prática. Ao mesmo tempo, o autor humaniza a natureza ao atribuir vaidade e ciúmes à árvore, esbatendo as fronteiras entre o Homem e o meio que o rodeia, celebrando uma amizade pura com as borboletas e os pássaros.

domingo, 24 de maio de 2026

Homem, corço, prado: a mesma pele

Corço, fotografado em Groningen, Holanda
Entro nas canas altas e húmidas do mundo,
E sinto-me contido numa pele maior.
A terra húmida respira sob os meus pés,
Um pulmão antigo que exala verde, selvagem e vasto.

Este é o trabalho que reconecta -
Permanecer imóvel até que a fronteira entre o solo e o ser
Se dissolva como o nevoeiro da manhã.

Ali, no meio da planície vibrante,
Ergue-se uma sentinela silenciosa, um corço esculpido de sol e sombra.
Ele é um nativo desta hora, perfeitamente em casa,
Sem nada pedir ao Estado, sem pagar impostos ao vento,
Vivendo deliberadamente na erva profunda,
Um pequeno e silencioso templo de solidão com quatro patas e uma coroa de osso.

Ele olha para mim e, no seu olhar, os séculos sossegam.
Eu vejo-te, irmão! Celebro-te e canto-me a mim mesmo!
Não és uma coisa separada, nenhum estranho num campo distante,
Mas o próprio sangue do cosmos a saltar a vala.

Os mesmos átomos que moldam o teu olho firme e escuro
Vagueiam pela erva, pelos telhados de colmo, pelas nuvens cinzentas e pesadas,
E pelo coração que bate dentro do meu próprio peito.

Cada folha de erva é uma obra-prima das estrelas,
E tu és a sua obra de arte esta noite.

Permanecemos suspensos - o corço, o prado e eu -
Enraizados na grande teia em movimento de todas as nossas relações,
Vivos, despertos e infinitamente livres.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Olhos parados - Manoel de Barros


"Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
Girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
Lembrar que estão longe e ter saudades deles…
Lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
Lembrar de músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
Lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente já viu.
Lembrar de viagens que a gente já fez e de amigos que ficaram longe.
Lembrar dos amigos que estão próximos e das conversas com eles.
Saber que a gente tem amigos de facto!
Tirar uma folha de árvore, ir mastigando, sentir os ventos pelo rosto…
Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
Gostar de estar ali caminhando. Gostar de estar assim esquecido.
Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas."

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Curta-Metragem - "Cogs"

“Cogs” é o título desta animação e significa rodas dentadas, engrenagem.
Dirigido pelo cineasta vencedor do Oscar, Laurent Witz, ‘Cogs’ conta a história de um mundo construído em um sistema mecanizado que favorece apenas alguns. Segue dois personagens cujas vidas parecem predeterminadas por este sistema e as circunstâncias em que nasceram. O filme foi feito para o lançamento internacional da AIME, uma organização de caridade em missão para criar um mundo mais justo, criando igualdade no sistema educacional.

A curta-animação ‘Cogs’ conta a história de dois meninos que se encontram, literalmente, em faixas separadas e pré-determinadas em suas vidas, e o drama depende do esforço para libertar-se dessas limitações impostas.

“Andar sobre trilhos pode ser bom ou mau. Quando uma economia anda sobre trilhos parece que é bom. Quando os seres humanos andam sobre trilhos é mau sinal, é sinal de desumanização, de que a decisão transitou do homem para a engrenagem que construiu. Este cenário distópico assombra a literatura e o cinema ocidentais. Que fazer? A resposta do curta animação “Cogs”, não pode ser mais clara: o que faz falta é descarrilar. Descarrilas tu, descarrilo eu… Mas, atenção, que descarrilar não é fácil. ”

Assista aqui curta animação “Cogs”, direção Laurent Witz

“Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.”
– Manoel de Barros, em “Matéria de Poesia”. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 32.

Ficha Técnica
Título: Cogs – tells the story of a world built on a mechanized
Direção: Laurent Witz**
Animação: Zeilt Productions (ver todos os créditos)
Criação: M&C Saatchi (Sydney)
Música/composição: Olivier Defradat e Clément Osmont
Cantora/Singer: Marion Pejon
País/ano: Austrália, Junho 2017
* ver no: vimeo

** O diretor deste curta animação, Laurent Witz, ganhou, em 2014, o Oscar de melhor curta-metragem de animação com o filme Mr Hublot

Elogio da dialética
A injustiça vai por aí com passe firme.
Os tiranos se organizam para dez mil anos.
O poder assevera: Assim como é deve continuar a ser.
Nenhuma voz senão a voz dos dominantes.
E nos mercados a espoliação fala alto: agora é minha vez.
Já entre os súditos muitos dizem:
O que queremos, nunca alcançaremos,

Quem ainda está vivo, nunca diga: nunca!
O mais firme não é firme.
Assim como é não ficará.
Depois que os dominantes tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem ousa dizer: nunca?
A quem se deve a duração da tirania? A nós.
A quem sua derrubada? Também a nós.
Quem será esmagado, que se levante!
Quem está perdido, que lute!
Quem se apercebeu de sua situação, como poderá ser detido?
Os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã.
De nunca sairá: ainda hoje.

– Bertolt Brecht, em “O duplo compromisso de Bertolt Brecht” [tradução Haroldo de Campos]. in: CAMPOS, Haroldo de.. O arco-íris branco. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Documentário- "Manoel de Barros - Só Dez por Cento é Mentira"


Só Dez Por Cento é Mentira é um original mergulho cinematográfico na biografia inventada e nos versos fantásticos do poeta sulmatogrossense Manoel de Barros. Alternando sequências de entrevistas inéditas do escritor, versos de sua obra e depoimentos de "leitores contagiados" por sua literatura o filme constrói um painel revelador da linguagem do poeta, considerado o mais inovador em língua portuguesa. 

Direção e Roteiro: Pedro Cezar. 
Produtora: Artezanato Eletrônico. 
Produção Executiva: Pedro Cezar, Kátia Adler e Marcio Paes. 
Direção de Fotografia: Stefan Hess. Montagem: Julio Adler e Pedro Cezar. 
Direção de Arte: Marcio Paes. 
Música: Marcos Kuzka. 
Depoimentos: Manoel de Barros, Bianca Ramoneda, Joel Pizzini, Abílio de Barros, Palmiro, Viviane Mosé, Danilinho, Fausto Wolff, Stella Barros, Martha Barros, João de Barros, Elisa Lucinda, Adriana Falcão, Paulo Gianini, Jaime Leibovicht e Salim Ramos Hassan

Biografia e bibliografia

Fundação

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Encontros Improváveis: Manoel de Barros e Beth Gibbons- Mysteries


"Guarda num velho baú os seus instrumentos de trabalho: 1 abridor de amanhecer, 1 prego que farfalha, 1 encolhedor de rios e 1 esticador de horizontes”Manoel de Barros

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Ecopoema da semana: "O fazedor do amanhecer" de Manoel de Barros


*MANOEL DE BARROS*
Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.

Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Eu penso renovar o Homem usando borboletas

Quando era criança tinha uma figueira num quintal muito próximo de casa. Confesso que não era lá grande e rápido escalador, mas só a vontade e persistência de chegar ao cimo dela era ENORME! Percebe-se porquê na postagem do BioTerra de hoje! Sempre que regresso a uma figueira, permaneço no chão, aprecio seu volume, seus ramos e cheiros. Descobri há uns anos uma figueira a crescer nas paredes do castelo de Monsaraz. Os cimos das árvores são poemas vivos, lições de vida e de Vida!


Retrato do Artista quando Coisa

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um

sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

Manoel de Barros (biografia)
Documentário "Só 10% é mentira"