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sábado, 29 de agosto de 2026

Espécies marinhas invasoras em Portugal aumentaram 75% em 10 anos

O número de espécies marinhas invasoras nas águas portuguesas aumentou 75% em 10 anos, com mais 98 registos, de acordo com um estudo científico a que hoje a agência Lusa teve acesso.

Este estudo foi uma atualização de um levantamento com 10 anos das “espécies não indígenas ou espécies introduzidas nas águas costeiras portuguesas, portanto estuários nas costeiras, lagoas costeiras, e incluiu tanto o continente como as ilhas”, explicou à Lusa Paula Chainho, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Mare), uma das organizações que tutelou o projeto.

“Verificámos que há 10 anos tínhamos reportado 133 espécies não indígenas e atualmente reportámos 231”, que corresponde a “uma taxa muito elevada de novas introduções”, disse.

Isto “é ainda mais preocupante” porque os investigadores que realizaram o estudo há 10 anos admitiam que o elevado número então registado correspondia a espécies que não haviam sido estudadas, mas tudo indica que estes novos 100 registos correspondem a um “aumento bastante acentuado” porque, desde então, têm sido feitas várias análises.

“Das 231 espécies confirmadas, 159 ocorrem em Portugal continental, 81 nos Açores e 62 na Madeira”, pode ler-se na apresentação do trabalho de 31 investigadores de 11 universidades portuguesas entre várias organizações, e liderado pelo Mare e pela Rede de Investigação Aquática (Arnet), que foi publicado na revista Marine Pollution Bulletin e aponta vários problemas na costa portuguesa.

Segundo Paula Chainho, a “navegação é a principal causa de introdução de novos exemplares”, seja através da “incrustação nos cascos das embarcações” de espécies ou pela lavagem dos tanques de água de lastro.

As embarcações de transporte têm tanques de água no interior para ficarem equilibradas quando carregam mercadoria e descarregam conforme necessitem para garantir a estabilidade da estrutura.

“Quando uma embarcação descarrega uma determinada carga, tem que compensar essa saída de peso com um peso adicional e, portanto, neste caso, as águas que são introduzidas nos tanques de lastro”, que são descarregadas noutro ponto do globo quando carregam novas mercadorias.

“Nestas águas que são captadas num local e descarregadas noutro viajam muitos organismos vivos”, explicou a investigadora, que aponta também riscos na aquacultura.

Em causa, nestes casos, está a introdução de novas espécies de produção, mas também organismos que “chegam à boleia” destes exemplares.

Por isso, o “foco deve estar principalmente na prevenção porque quando uma espécie aquática entra num determinado local, nós só vamos detetá-la quando ela já está perfeitamente instalada”, defendeu a investigadora.

Nesse capítulo, existe uma “convenção internacional das águas de lastro que obriga ao tratamento lastro antes de serem descarregadas” mas “em Portugal não temos relatórios oficiais que possamos consultar sobre como é que isto tem vindo a ser implementado”.

Já em relação à aquacultura, “também há regulamentação e, portanto, para ser introduzida uma nova espécie não indígena para a aquacultura é preciso um requerimento específico”, mas também “não há nenhum tipo de verificação em Portugal em relação a como é que isto está a ser cumprido ou não”, disse.

Noutros casos, há espécies como a ameijoa japonesa, uma espécie invasora nas águas nacionais há muitos anos, e em que a única forma de controlar a sua população é através da gestão da pesca, reconheceu.

O trabalho propõe também uma lista de vigilância inédita com 22 espécies detetadas através de ADN ambiental, um sistema de deteção precoce capaz de identificar espécies invasoras antes de serem observadas a olho nu.

Nas águas de Portugal continental, 39% das espécies não indígenas são originárias do Pacífico Norte, seguidas de 24% com origem noutras zonas do Atlântico Norte, uma tendência que é invertida nos Açores e Madeira, com o Pacífico Norte a ter predominância.

De todos os portos, Sines “surge no estudo como um ponto estratégico de entrada, dada a sua localização no cruzamento de rotas marítimas que ligam a Ásia, o Mediterrâneo, os Estados Unidos e África”, refere, justificando a investigação específica desta zona.

“As invasões marinhas são um fenómeno dinâmico e transfronteiriço, e compreendê-las exige uma ciência capaz de trabalhar à mesma escala. Este estudo permitiu-nos ir muito além de uma simples atualização do número de espécies, revelando padrões de introdução, lacunas no conhecimento genético e prioridades para a monitorização futura”, refere Romeu Ribeiro, investigador do Mare e primeiro autor do estudo, num comunicado.

A equipa desenvolveu uma “lista de vigilância pioneira com 22 espécies detetadas exclusivamente por métodos moleculares, como o ADN ambiental”, mesmo “sem confirmação física da existência.

Este mecanismo constitui “um sistema de alerta precoce, capaz de sinalizar potenciais invasores antes de serem visualmente identificados no terreno”.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Permaculture showed us how to farm the land more gently. Can we do the same as we farm the sea?



As wild fish and other marine species get scarcer from overfishing and demand for ‘blue foods’ grows around the world, farming of the ocean is growing rapidly. Fish, kelp, prawns, oysters and more are now widely farmed. The world now eats more farmed seafood than wild-caught.

These farms are springing up along coasts and in offshore waters worldwide. Australians will be familiar with Tasmania’s salmon industry, New South Wales’ oyster farms, and seaweed farms along the southern coastline. Aquaculture is already larger than fishing in Australia. Farming the sea is hailed as a vital source of food and biomass essential to reduce the damage we do to our oceans and help feed a growing population.

But the booming “blue economy” is no panacea. Fish farms can pollute the water. Mangroves are often felled to make way for prawn farms. The solutions of today could turn out to be problems of the future. We cannot simply shift from one form of environmental exploitation to another.

There is an alternative: permaculture. This approach has proven itself on land as a way to blend farming with healthy ecosystems. What if it could do the same on water?

Making aquaculture better
Many of today’s most pressing problems – from climate change to biodiversity loss to pollution – are linked to the way we produce food on land. To make new farmland often involves removing habitat, destroying trees and adding synthetic fertilisers and pesticides.

Since humans began farming about 12,000 years ago, we have expanded to the point where we now actively control about 70% of Earth’s ice-free land to make food, build cities, and many other uses.

On land, we are farmers, tending domesticated species. But at sea, we’ve been hunters, seeking wild populations. Now, the seas are to be farmed. We should farm in ways which do not damage these ecosystems.

We cannot afford to use the same intensive methods of farming in the oceans as we have been on land. Given how sick many of the world’s ocean systems are already from overfishing, algal blooms from nutrient overload, and habitat loss, there’s not much room for error.

What is marine permaculture?
Permaculture as we know it was developed in the 1960s by Australians Bill Mollison and David Holmgren. The latter is a co-author of the research forming the basis of this article.

The goal was simple: create ways of farming which give back to the soil and ecosystems, using tools like no-till farming, companion planting and food forests. Over the last 50 years, it has been adopted by farmers around the world.

Permaculture is framed around three ethics – care of Earth, care of people, and a fair share – aimed at producing benefits and distributing costs equitably between different people and nature.

So what would permaculture of the seas look like? While it hasn’t been fully articulated, many recent developments in ocean production and governance have strong parallels with the work permaculture practitioners have been doing for decades.

Aquaculture systems can, many now believe, not only be low-impact but work to restore lost or damaged ecosystems. Picture oyster farms slowly bringing back the natural oyster reefs which once carpeted shallow coastal waters, or prawn farms surrounded by regrowing mangroves to protect the coast from erosion.

There are strong parallels between the closed-loop approach taken by permaculture on land and an emerging sea farming approach called integrated multi-trophic aquaculture. Here, species with different ecological roles are grown together, producing more food from your farm – and strengthening natural ecosystem services.

In these systems, food waste from consumers is recycled by seaweeds and shellfish, which in turn provide food and habitat to farmed fish species. If well-designed, these benefits flow out from the farm.

Permaculture’s influence is also evident in nature-inspired design and biomimicry, using natural shapes to give nature a boost. Australian work here includes efforts to restore rocky reefs by creating structures with the nooks and crannies small sea creatures need.

From the grassroots
At present, a handful of corporations have disproportionately high levels of control over fisheries and aquaculture. In part, that’s because supertrawlers, motherships, and large blue-water fish farms are expensive.

If we instead took a marine permaculture approach to the blue economy, we would seek to return power back to the people who live and work at the water’s edge – a permaculture equivalent to artisanal fishing.

A localised approach to aquaculture has real benefit. Individuals and communities could develop their own versions of marine permaculture which work in their area, by adopting design solutions used elsewhere or just by tinkering and trialing.

If something isn’t working or it’s creating flow-on consequences, people can see what’s happening and respond quickly.

Small-scale sea farms are less likely to do damage, and should also boost resilience by investing in local social and environmental benefits.

How do we make this a reality?
For their part, governments can help by creating policy frameworks encouraging small-scale producers – especially those able to demonstrate positive social and ecological outcomes.

Governments have an essential role in creating comprehensive spatial plans to guide aquaculture in an area or region. This is important, as it removes uncertainty and avoids conflict between different uses.

Researchers can help by developing measures of success and testing new techniques to help guide the new communities which will form to farm the sea.

Over the past half-century, permaculture on land has grown into a diverse movement challenging conventional wisdom about how to produce food.

We’ll need that same intense creative energy to make marine permaculture a reality. It’s entirely possible to design food-producing seascapes which give back to the sea as well as take from it – while making it possible for smaller sea farmers to flourish.

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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

A amêijoa-japónica do Tejo, uma “experiência” que pode ser letal


Sacos de amêijoas de japonica apreendidos de uma rede criminosa durante uma operação em Maio de 2021

A amêijoa-japónica foi introduzida nas águas portuguesas do Tejo e do Sado como uma “experiência ambiental” para purificar “mercúrio, chumbo e cádmio”. Atualmente, esta espécie invasora, tóxica para os humanos, chega aos consumidores em Portugal e Espanha através de redes de caça furtiva.

A amêijoa-japónica absorve as biotoxinas das águas dos rios lisboetas, um vestígio de um passado industrial que se tornou agora num “problema de saúde pública”, explica à Efe o chefe da Divisão Técnica Ambiental da Guarda Nacional Republicana (GNR), o tenente-coronel Ricardo Vaz Alves.

Apesar da sua elevada toxicidade, pode ser consumida caso tenha sido sujeita a níveis adequados de purificação mas, na sua maioria, é obtida furtivamente, é frequentemente mal descontaminada e intoxica o consumidor, causando graves consequências que podem até levar à morte.

O problema tem crescido nos últimos anos. As redes de caça furtiva que traficam a amêijoa-japónica chegam a capturar até 14 toneladas por dia. Após um processo de limpeza insuficiente e documentos falsos, as amêijoas podem acabar em supermercados em Espanha e Portugal, apesar de não estarem aptas para consumo sem o tratamento adequado.

Experiência fracassada
“Foram introduzidas artificialmente para filtrar a toxicidade” da água, diz Vaz Alves sobre a ideia de que os bivalves reteriam nos seus corpos o mercúrio, chumbo, cádmio e biotoxinas presentes no estuário.

Esta “experiência” levou a amêijoa-japónica até ao Tejo, na sua passagem por Lisboa, e até ao rio Sado, em Setúbal, a cerca de 40 quilómetros da capital.
A eliminação é agora “quase impossível”, reconhece o tenente-coronel da GNR.

O desmantelamento do tráfico deste bivalve é “um foco prioritário” para as autoridades de Portugal e Espanha, razão pela qual a GNR e o Seprona, o serviço de proteção da natureza da Guarda Civil espanhola, estão a trabalhar em conjunto para pôr fim a este crime.

Numa das suas últimas operações, em maio passado, foram apreendidas 1,5 toneladas de amêijoa-japónica impróprias para consumo. Este é apenas um exemplo, uma vez que as rusgas se repetem ao longo de todo o ano.

Mesmo frente a Lisboa, na outra margem do Tejo, nas bacias do Seixal, Barreiro e Montijo, estima-se que existam 1.400 pescadores a colher amêijoas ilegalmente, segundo dados da GNR.

As imediações da ponte Vasco da Gama, a mais longa da Europa, que liga Lisboa a Alcochete, do outro lado do Tejo, é um dos locais mais frequentados pelos caçadores furtivos.

“Não são só os marisqueiros, há toda uma cadeia acima”, diz Vaz Alves, que explica que na operação conjunta com o Seprona foram apreendidos “carros de muito valor”, o que leva as forças de segurança a acreditar que o tráfico de bivalves é apenas uma “atividade paralela” destas organizações criminosas.

Alta toxicidade
Sob a ponte Vasco de Gama, as águas do Tejo têm um elevado nível de toxicidade, atingindo a “classe C”, de acordo com o instituto meteorológico português. O rio Sado, porém, tem menos poluição, categoria B, o que significa que “o nível de purificação e tratamento é muito mais barato e mais simples”, explica Vaz Alves.

Uma prática comum dos caçadores furtivos é “adulterar a origem” das amêijoas, ou seja, apanhá-las no Tejo e certificar que são do Sado, a fim de seguir um nível inferior de purificação.

A maior parte das capturas é transportada por intermediários para Espanha, principalmente para os portos de Vigo e Pontevedra, onde é entregue em estabelecimentos de aquacultura.

Muitos destes estabelecimentos “conhecem a origem dos bivalves”, segundo a GNR, e para os adquirir precisam que o documento de registo indique a “classe B”.

As redes criminosas falsificam os documentos de registo e as amêijoas partem para Espanha em carrinhas preparadas que fazem movimentos quase diários.

Desde Espanha são comercializadas para toda a Europa.

Em Portugal “não temos nenhuma instalação para fazer o tratamento de categoria C, todas as amêijoas do Tejo devem partir para Espanha ou outros países para poderem ficar aptas para consumo humano”, explica Vaz Alves, que defende que o controlo seria “mais eficaz” se o tratamento de classe C estivesse disponível no país luso.

Esta experiência de limpeza das águas industriais transformou-se num autêntico “problema de saúde pública”, resume.

E-livro:

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Portanto, por mais que se torçam, a Ucrânia não vai aderir à UE. As potências agrícolas europeias não vão deixar.


A adesão à UE na potência agrícola Ucrânia resultaria na “morte” da agricultura familiar, alertou o sindicato dos agricultores alemães, no meio de preocupações crescentes sobre a futura direcção do programa de subsídios agrícolas da UE.

Leia o artigo original em alemão aqui .

Na sequência da recomendação da semana passada da Comissão Europeia para iniciar conversações formais de adesão com a Ucrânia , Joachim Rukwied, presidente da Associação Alemã de Agricultores (DBV), alertou para as suas consequências no sector agrícola.

A adesão “levaria ao fim da agricultura familiar na Europa”, disse ele numa conferência de imprensa sobre o futuro da Política Agrícola Comum (PAC) da UE na quarta-feira (15 de Novembro).

Isto deve “permanecer no pano de fundo de todas as discussões políticas”, acrescentou.

Rukwied destacou o grande sector agrícola da Ucrânia e o facto de a exploração agrícola média no país ser muitas vezes maior do que na UE.

A admissão significaria, portanto, “integrar na UE um setor agrícola com estruturas completamente diferentes, até explorações agrícolas da ordem de vários 100 mil hectares”, frisou.

Neste contexto, argumentou que uma Política Agrícola Comum (PAC) que inclua a Ucrânia “não é viável”, a menos que seja à custa das explorações agrícolas nos actuais países da UE.

Um documento de posição para o próximo período de financiamento da PAC, de 2028 a 2034, apresentado pela associação na quarta-feira foi, portanto, baseado no estado atual da UE e não num estado alargado, de acordo com Rukwied – embora a UE tenha mencionado uma meta provisória de estar pronto para a adesão até 2030.

Num impulso ao difícil processo de alargamento do bloco, a Comissão Europeia recomendou na quarta-feira (8 de Novembro) a abertura de negociações de adesão com a Ucrânia e a Moldávia – bem como potencialmente com a Bósnia, numa fase muito posterior – assim que finalizarem a implementação das principais reformas pendentes.

Na verdade, existe um amplo consenso entre os representantes políticos e as organizações de que a PAC não poderia continuar na sua forma actual se a Ucrânia aderisse.

Em particular, os chamados pagamentos diretos, pagos às explorações agrícolas por hectare de terras agrícolas, provavelmente não seriam financeiramente viáveis ​​para as grandes áreas da Ucrânia.

Contudo, ao contrário da DBV, o Ministério da Agricultura alemão, por exemplo, pressionou no sentido de utilizar a próxima adesão como uma ocasião para reformar fundamentalmente a PAC e abandonar os pagamentos por superfície, em grande parte incondicionais.

Vários estados federais alemães , bem como organizações ambientais e representantes da agricultura biológica e de pequena escala, também se manifestaram a favor da preparação de fundos agrícolas da UE para a adesão da Ucrânia.

Entretanto, o governo de Kiev argumenta que a adesão da Ucrânia fortaleceria o sector agrícola da UE e tornaria a União num actor global na agricultura.

Além disso, um estudo recente realizado pelo Instituto de Estudos Económicos Internacionais de Viena concluiu que o sector agrícola ucraniano não se tornaria um “poço sem fundo” para a PAC porque é competitivo sem grandes subsídios – mas ao mesmo tempo, em alguns aspectos, “demasiado competitivo” em comparação com outros países da UE.

Avaliar o impacto da adesão da Ucrânia nos subsídios agrícolas da UE segundo os critérios actuais não é um exercício relevante, uma vez que a adesão de Kiev à UE conduzirá provavelmente ao fim da Política Agrícola Comum tal como a conhecemos hoje, de acordo com o vice-ministro da Economia da Ucrânia, Taras Kachka.

“De facto, graças ao solo negro fértil e à mão-de-obra barata, a agricultura ucraniana produz de forma tão eficiente que representa uma concorrência séria para muitos países da UE, como mostra a disputa sobre as exportações de cereais da Ucrânia para a Polónia e a Hungria”, afirma o estudo.

Rukwied também alertou que a Ucrânia aderiria à UE “como um país cuja agricultura produz muito abaixo dos nossos padrões, por exemplo, no uso de pesticidas” e que, portanto, competiria injustamente com explorações agrícolas de outros países da UE.

Na realidade, porém, a Ucrânia terá de transpor todas as normas da UE para o direito nacional antes de poder aderir à União.

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quinta-feira, 8 de junho de 2023

Dia Mundial dos Oceanos - Descoberta de um extenso recife de corais de águas frias a 2.000 m de profundidade, na Madeira (2018)


Durante o mês de Julho de 2018, o Observatório Oceânico da Madeira levou a cabo mais uma expedição científica, desta vez para explorar as zonas profundas e desconhecidas adjacentes à Ilha da Madeira. A missão, complexa e exigente, requereu uma vasta equipa de cientistas, técnicos e operacionais e uso de equipamentos com tecnologias de vanguarda. Estudar a biodiversidade marinha e a oceanografia física das zonas costeiras adjacentes aos canhões submarinos foi o principal objetivo.
Nesta expedição fez-se uma das maiores descobertas científicas dos últimos tempos na ilha da Madeira quando, a 2.000 m de profundidade, com recurso ao ROV Luso, a equipa de investigadores observou pela primeira vez na região a presença de um extenso recife de corais de águas frias, rico em vida marinha, nas margens do canhão submarino da Ribeira Brava. Quando se fala em conservação marinha, estes habitats são prioritários devido ao papel que desempenham como reguladores ecológicos do bom estado ambiental do Oceano. Contrariando a tendência de notícias que relatam a destruição destas agregações massivas de carbonato de cálcio no Atlântico Norte devido à pesca de arrasto, encontramos na Madeira recifes pristinos, sem vestígios evidentes de impactos humanos.
A expedição teve o apoio da Fundação Rebikoff.
Infelizmente, o Governo Regional da Madeira, nomeadamente a Secretária do Ambiente e o Presidente do IFCN, não têm agido com o objectivo de conhecer, estudar, preservar e salvaguardar o Recife de Corais de águas frias descoberto em frente à costa da Ribeira Brava, onde lá persistem as jaulas de aquacultura de produção intensiva, das Empresas Ilha Peixe e Jerónimo Martins que estão a poluir o fitoplâncton, e a sua riquíssima biodiversidade e os ecossistemas naturais. Sem qualquer monitorização dos seus gravíssimos impactos ecológicos.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Falta de água ou falta de uso sustentável da água?


Por Maria Carolina Varela, Expresso
“A agricultura (irrigação, pecuária e aquacultura) representa 69% das captações anuais de água a nível mundial, tornando-a no setor que mais consome água no planeta.” Fonte ONU, Centro Regional de Informação para a Europa Ocidental
Quem não poupa água e lenha, não poupa nada do que tenha. Este dizer é uma forma popular de avisar as pessoas para a necessidade de usar a água de forma sustentável, foi provavelmente criado por alguém que tinha a noção empírica de sustentabilidade sem conhecer a palavra “sustentável”.
O problema da escassez de água no Sul de Portugal e da Península Ibérica é uma calamidade penosa que deriva da descontrolada expansão das culturas em regadio intensivo e campos de golf. Em zonas onde o clima é caracterizado por baixa quantidade de chuva, a atividade Humana dependente da disponibilidade de água tem de ser planeada para os valores mínimos de precipitação e não para a média.
O uso sustentável da água tem de começar pelo licenciamento prudente dos usos da terra. Porém, o que assistimos é à aprovação incessante, de forma danosa para os interesses do país, de vastas áreas de regadio e outras atividades de que implicam enorme consumo de água. As corporações que buscam o sul de Portugal para instalar atividades depredadoras de água são movidas pela voracidade do lucro. De per se nenhuma empresa vai pautar os seus investimentos pelo uso sustentável da água, impor contenção é da responsabilidade das autoridades que têm a tutela do assunto.
As empresas privadas têm conseguido expandir as áreas de culturas regadas aos milhares de hectares. Ao invés da agricultura que se baseie em uso sustentável da água, esta agricultura intensiva gera lucros enormes, rápidos e fáceis e é feita em exploração do tipo mineira. Quando os recursos da água e do solo se esgotam abandonam essa zona e reiniciam o ciclo noutro sítio ou noutro país qualquer.
Entre as culturas intensivas de regadio destacam-se a produção de frutas e legumes em estufa. No Mediterrâneo o pináculo é atingido nas imensas áreas de estufas em Almeria, de tal maneira imensas que tomaram o epiteto de “mar de plástico”. Até à década de 1950 na zona dominava a vegetação rasteira, as pastagens e algumas pequenas parcelas para cultivo sazonal. Em Portugal está a desenrolar-se um cenário idêntico com as estufas em Odemira. Mas o processo está a expandir-se a outras zonas do país.
O consumo insustentável da água vai muito para além das estufas. A milenar oliveira, tão respeitada pela sua frugalidade, pela capacidade de crescer e dar azeitona em montes e serras de solos esqueléticos pedregosos com escassa chuva e estios abrasadores, está a ficar irreconhecível. Está trasvestida numa cultura agrícola intensiva em regadio, onde já não existem as majestosas e centenárias árvores, mas umas moitas grotescas amontoadas em linhas, ridiculamente atarracadas que têm vida económica curta. Mas não é apenas a oliveira. Ao cortejo juntam-se outras espécies cultivadas em sequeiro há séculos e louvadas pela sua resistência como a vinha e a amendoeira. E já se fazem experiências-piloto para sobreiro com rega gota-a-gota.
A indústria (incluindo a geração de energia) é responsável por 19% do consumo de água e as famílias por 12%, todo o restante é consumido pelo sector agrícola.
Por baixo desses milhares de “árvores” transformadas em sebes a poder de máquinas consumidoras de combustível, estão quilómetros de tubos de plástico com goteiras que drenam incontáveis metros cúbicos das albufeiras que só têm a água da chuva como fonte de alimentação. Para agravar a escassez estival de água, muitas albufeiras têm as margens plantadas com eucalipto, uma árvore que a evolução natural dotou com uma fisiologia e arquitetura de raízes capaz de ir buscar água a profundidades sem par nas espécies mediterrânicas autóctones. As barragens do Alentejo e do Algarve foram construídas para complemento das culturas de sequeiro. As que nos anos recentes exibem mais problemas situam-se nos cursos dos rios Sado, Mira, Odelouca, Arade e afluentes terminais do Guadiana. Todos estes cursos de água nascem nas serras do Algarve que estão cobertas em grandes extensões por eucalipto que substituíram o sobreiro, as pastagens de sequeiro e outros usos seculares dessas terras.
Este consumo insustentável de água é um tabu que ninguém aborda, sejam políticos ou técnicos do setor.
Todos os discursos políticos e técnicos, repetidos pelos meios de informação, culpam a SECA. Quando o problema toma dimensões dramáticas, surgem os remendos -medidas conjunturais a jusante como o aumento do preço da água e o apelo à diminuição do consumo doméstico. São paliativos para afastar responsabilidades e encobrir o cerne do problema. Os midia espalham que os cidadãos urbanos podem contribuir para o alívio do problema se abrirem menos as torneiras das suas casas. Quando o nível da água das albufeiras se torna critico é certo que isso se torna imperativo até à próxima época de chuvas. Mas difundir que o uso familiar é parte do problema e incutir essa ideia no cidadão ingénuo é profundamente desonesto, sobretudo quando se sabe que o consumo doméstico representa pouco mais de 10% do consumo total de água.
Transferir a responsabilidade para o nível pessoal e criar a culpa no cidadão é toldar-lhe a capacidade de questionar sobre as causas estruturais e porque é que estão a ser omitidas.
Os Povos Mediterrânicos, nomeadamente o Sul de Portugal, lidam com a prolongada seca estival há milénios. Já os Romanos construíram barragens no SW da Espanha, como a albufeira de Proserpina, perto de Mérida, que foi sofrendo as necessárias manutenções e ainda hoje funciona. Os sistemas de regadio que os Árabes trouxeram para a Península Ibérica são mais um dos engenhos Humanos para o aproveitamento judicioso da água. Os egípcios usavam os nilómetros para medir o nível das cheias do Nilo e prever as colheitas em consonância. Os ciclos de chuva / seca já são descritos na BIBLIA, Gênesis 41, « Então chegaram ao fim os sete anos de abundância que houve na terra do Egito. E, como José havia predito, começaram a vir os sete anos de fome. Havia carestia e fome em todas as terras vizinhas, mas em todo o Egito havia o que comer.… E concluiu José: “Agora, portanto, que o Faraó escolha um homem inteligente e sábio e o estabeleça sobre toda a terra do Egito. Que o Faraó aja e institua funcionários supervisores na terra para recolher um quinto da colheita do Egito durante os próximos sete anos de fartura. Eles deverão reunir todos os víveres que puderem desses bons anos que virão e acumular reservas de trigo que, sob o controle do Faraó, serão armazenados nas cidades. Essa poupança servirá de reserva especial para os sete anos de fome que se abaterão sobre o Egito, a fim de que a terra não seja aniquilada e o povo não morra de fome!”
Os ciclos de chuva excelente e seca sempre existiram. Acontecem de forma errática e fazem parte da normalidade do clima de cada região. Viver com a média é bastante acessível, o engenho está em saber viver com os mínimos. Mas não há nenhuma técnica, por mais sofisticada, que permita gastar mais água do que a que as albufeiras podem armazenar com a precipitação que os céus nos oferecem.

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segunda-feira, 10 de abril de 2023

Sim ou não ao peixe de aquacultura? Mitos e verdades

Temem-se as “farinhas” com que são alimentados. Diz-se que estão cheios de antibióticos, que crescem em más condições, que não sabem a mar. O que há de verdade nestas ideias feitas dos portugueses – o povo que mais peixe come na União Europeia – em relação à aquacultura? E será que a pesca tradicional é mesmo a melhor opção?


Jorge Sousa, 60 anos, está sentado, de comando na mão, e volta e meia carrega num dos botões, enquanto ajeita o gorro que o protege do frio que se sente na lota de Sesimbra. É comum vê-lo por aqui às tardes, neste leilão do peixe. Mas também podemos cruzar-nos com ele de manhã, depois de uma madrugada da faina no seu barco.

O carro enche-se agora de exemplares saídos do mar e ainda com alguns criados em aquacultura. “Hoje em dia, comer um peixe do mar é um luxo. Até a cavala, para iscar, já vai a €2,5 o quilo. Dantes, era deitada fora”, nota, já a arrumar os exemplares, selvagens e de viveiro, no seu restaurante na praia do Meco. “Os stocks do mar estão a acabar, a aquacultura é o futuro se queremos continuar a alimentar-nos de peixe”, avisa.

Ouvi-lo a falar assim, põe-nos em sentido: trata-se de um pescador com muita experiência, de um comprador assíduo na lota e ainda se assume como um grande apreciador de produtos do mar. Será que Jorge Sousa, que gasta dos dois tipos de peixe, está absolutamente certo no que diz? Tudo indica que sim, mas a maioria da população não aderiu ainda a esse método, a avaliar pelos números.

Na última década, a aquacultura regista o maior crescimento dentro do setor alimentar, a nível mundial – metade do peixe consumido vem desse processo. Porém, na União Europeia esse valor fica-se pelos 20% e, em Portugal, a percentagem desce até aos 10 por cento. Neste momento, produzimos apenas 14 mil toneladas por ano. O objetivo, a nível nacional, é chegar às 25 mil toneladas em 2030.

Os preconceitos são os principais culpados para o facto de estarmos tão atrasados.

Depois de estudar peixes de proveniências diferentes, Ana Luísa Marques, nutricionista, chegou à conclusão de que o teor lipídico é, geralmente, mais concentrado no pescado de aquacultura. “Isso acontece porque as rações são preparadas à base de soja e milho, podendo também conter outros ingredientes, como sementes de chia, de linhaça e algas marinhas com o intuito de aumentar o teor em ácidos gordos polinsaturados ómega-3 e reverter a presença de ácidos gordos ómega-6.”

No caso do teor proteico, o peixe selvagem sai a ganhar, pois tem mais espaço para circular, o que se reflete numa maior quantidade de tecido muscular. “Além de uma composição nutricional idêntica face ao pescado selvagem, a aquacultura apresenta vantagens, como o abastecimento constante, um conteúdo nutricional uniforme e o controlo rigoroso sobre a produção”, acrescenta a nutricionista.

De que é feita a ração

No porto de Sesimbra, os barcos continuam a sair todas as noites, embora nesta época seja raro excederem as cotas, porque o mar está fraco em produtos de qualidade. As douradas, por exemplo, estão magrinhas, pois a desova foi em janeiro – as de aquacultura não sofrem com a sazonalidade.

António Raimundo, 55 anos, tem sete barcos (para o peixe-espada, para o cerco e para exemplares de escama) e ainda é dono de duas peixarias na Margem Sul do Tejo. Diz que “quem nasce numa família de pescadores, sabe que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O que vem do mar é sempre mais saboroso”. E não o afirma por temer a concorrência: “O de viveiro não incomoda a gente.”

5 mitos a desfazer
As principais ideias feitas que nos alimentam e nos afastam de decisões mais equilibradas

1. Os peixes de aquacultura são alimentados com farinhas
São alimentados com rações em forma de grão, compostas de proteína e óleo de peixe, soja e sementes como chia ou linhaça, nutricionalmente equilibradas. Nas explorações menos intensivas, os peixes também têm acesso a alimento natural, daí que a quantidade de ração ingerida seja menor.

2. Os peixes de aquacultura estão cheios de antibióticos
O uso de antibióticos de forma preventiva nas rações foi banido da União Europeia em 2006. São utilizados apenas em caso de doença e nas doses autorizadas por lei. No final do tratamento, os peixes ficam em quarentena até que desapareça qualquer vestígio do medicamento ingerido e seja seguro o seu consumo. Para a prevenção de doenças, já se usam vacinas. 

3. Os peixes selvagens têm mais ómega-3
Na verdade, os animais saídos da aquacultura são geralmente mais ricos em ómega-3, por causa da composição das rações. Além disso, têm menos mercúrio do que os selvagens.

4. A pesca tradicional é mais sustentável
Desde 2018 que Portugal não é autossuficiente em pescado, logo consumir peixes de aquacultura é uma atividade complementar desejada para aliviar a pressão nos mares.  

5. Os peixes de aquacultura morrem em sofrimento
Depois do cerco, os animais são retirados das redes e colocados imediatamente em gelo, o que os anestesia – a morte ocorre ao fim de meia hora. Na pesca tradicional, os peixes morrem por asfixia, processo que pode demorar algumas horas.

António Manuel, 62 anos, pescador há meio século, tende a concordar. “O peixe não sabe ao mesmo, nunca come o que há no mar”, assegura, para a seguir acrescentar, assente em alguma contradição, que o peixe do oceano é pouco, que o robalo começou a falhar, assim como a corvina e a dourada.

No final do leilão da lota, os comandos hão de fixar o preço da dourada de aquacultura, que neste dia estabilizou nos 14 euros o quilo (a de mar fixou-se nos €22). “Se for nacional, a diferença não é assim tão grande. A gordura e a frescura até podem ser melhores”, garante Luís Teodoro, 36 anos, dono de armazéns de manipulação de pescado. 

Estamos agora na EA Aquicultura, junto ao estuário do Sado, na maior exploração do País, gerida por Edo Alexandre, 36 anos, numas antigas marinhas de sal com 40 hectares. Aqui “faz-se” essencialmente dourada, mas nestes tanques de terra (os mais comuns em Portugal) também se encontram sargos, corvinas, linguados e robalos. “Setúbal é dos melhores sítios da Europa para criar dourada. A temperatura é idêntica à do mar e o rio é muito rico em nutrientes e alimento”, explica Edo.

O pescado de aquacultura tem mais teor lipídico: ácidos gordos polinsaturados ómega-3, explica a nutricionista Ana Luísa Marques

Em tempos, houve três maternidades nacionais, mas estão todas fechadas. Quer isto dizer que os peixes pequeninos, entre seis e dez gramas, são comprados em Espanha e França. Por outro lado, já existe uma empresa que fabrica rações, à base de produtos do mar, muitas vezes aproveitando o desperdício da lota e da indústria conserveira. A composição e a dosagem do granulado varia consoante a espécie e de acordo com as suas necessidades nutricionais.

Nesta exploração, os 800 mil peixes alimentam-se dessa ração, mas ela só representa 70% a 80% do que comem, porque a água do mar entra e sai, consoante as marés e há muito produto natural à disposição. “As minhas douradas crescem à velocidade das do oceano. Para pescar uma de 500 gramas, espero dois anos. Se as deixar crescer até ao quilo, quilo e meio, passa para três anos e meio”, revela o aquacultor.

Os 27 tanques e dois canais estão tapados com uma rede, para impedir que os corvos e as garças roubem cerca de 30% da produção, explica, enquanto conduz o trator que atira a ração para a água. “O facto de distribuir assim a comida obriga-os a movimentarem-se atrás dela, para ficarem com mais músculo.”  

Nesta altura do ano, pesca-se três vezes por semana (no verão, é todos os dias), logo de manhã. E há 20 toneladas prontas a sair até maio – Edo tem vendido mil quilos por semana, valor aquém do ano passado. Para isto, os pescadores cercam uma parte do tanque com a rede, como se se tratasse de arrasto, e depois selecionam à mão aqueles que estão no ponto para sair. Entram depois numas tinas grandes que comportam até 500 quilos, com gelo, para que o peixe esteja anestesiado quando morre. À tarde, são embalados e entregues nas grandes empresas de distribuição, os principais clientes.

Os preços para os peixes criados em regime semi-intensivo, como este, são altos, mas ainda assim ficam a cerca de metade dos seus congéneres do mar.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Moratória à mineração no mar profundo da Madeira - Moratorium on deep sea mining in the Madeiran waters

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A Assembleia Nacional Francesa – ANF acaba de tomar uma decisão histórica com vista a impedir a razia dos fundos marinhos por meio de mineração (215 votos a favor, 56 contra), ao convidar o governo francês a defender uma moratória relativa à exploração mineira dos fundos marinhos.
É uma decisão de grande importância, que vem contrariar a avidez de empresas e de Estados sobre as profundezas oceânicas relativamente a numerosos metais e minerais cobiçados pela indústria. A ANF pede a proibição dessa exploração na sequência de uma campanha determinada oriunda da sociedade civil francesa. Prevê-se que o governo siga as injunções dos deputados.
O presidente francês, Emmanuel Macron, inicialmente favorável à exploração dos mares profundos, mudou de opinião. Hervé Berville, secretário de Estado do Mar, afirmou nos debates parlamentares que precederam a votação: «Não é possível uma exploração mineira sem danos irreversíveis para os ecossistemas marinhos.»
A resolução vem reforçar a posição dos países críticos da exploração dentro da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, onde uma dúzia de Estados se pronunciaram até agora por uma moratória ou por uma simples pausa, isto enquanto já se iniciou a escavação em sondagens por robôs dos fundos oceânicos. (Adaptado do jornal digital francês ReporTerre, 18 de janeiro de 2023).



terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Um terço dos tubarões, raias e mantas estão em perigo de extinção


Um terço (exatamente, 32,6%) das espécies de tubarões , raias, raias, mantas, quimeras e outros peixes com esqueleto cartilaginoso estão em perigo de extinção, segundo os critérios da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Isso é indicado por uma nova análise publicada na revista Current Biology. Tubarões, raias, mantas e outros peixes com esqueletos cartilaginosos (condrictes) são excepcionalmente vulneráveis ​​à sobrepesca porque tendem a crescer muito lentamente e têm poucos descendentes.

Uma equipa de especialistas de todo o mundo analisou 1.199 espécies e concluiu que um total de 391 deveriam ser incluídas nas categorias de ameaça da IUCN: 90 “criticamente ameaçadas”, 121 “ameaçadas” e 180 “vulneráveis”. Isso é o dobro da avaliação de 2014.

As raias são o grupo de peixes mais ameaçado dos três grupos de peixes com esqueleto cartilaginoso (condrictianos): 41% de 611 espécies.

Além disso, cerca de 36% das 536 espécies de tubarões estão ameaçadas, assim como 9% das 52 espécies de quimeras (um peixe impressionante com olhos grandes, cabeça mais proeminente que o resto do corpo e barbatana caudal bastante longa).

O estudo identifica níveis de risco desproporcionalmente altos para tubarões e raias em águas costeiras tropicais e subtropicais, onde mais de três quartos das espécies estão ameaçadas. 

Pela primeira vez, três dessas espécies são consideradas "possivelmente extintas", já que a arraia de Java e a arraia torpedo do Mar Vermelho não são detectadas há mais de um século. Por seu lado, o tubarão perdido do Mar da China Meridional não foi detectado desde 1934.

“Os trópicos abrigam uma incrível diversidade de tubarões e raias, mas muitas dessas espécies inerentemente vulneráveis ​​têm sido fortemente pescadas por mais de um século por toda uma gama de pescarias que permanecem mal gerenciadas, apesar dos inúmeros compromissos de melhoria”, disse Colin Simpfendorfer , professor adjunto da James Cook University. 

"Como resultado", acrescenta, "temos que uma ou mais dessas espécies sejam confirmadas como extintas em breve devido à pesca predatória, um fato profundamente preocupante para os estoques de peixes marinhos. Vamos trabalhar para tornar este estudo um ponto de inflexão para para evitar mais perdas irreversíveis e, assim, garantir a sustentabilidade a longo prazo".

A análise concluiu que a sobrepesca é o principal risco para os condrictes, além das mudanças climáticas, que, segundo o Global Shark Trends Project (GSTP), afetam 10,2% das espécies ameaçadas. Outros perigos para essas espécies são a poluição e o desenvolvimento da agricultura ou da aquicultura, que causam a degradação do ecossistema.

Os governos ficaram muito para trás em atender aos conselhos científicos, cumprindo a obrigação de acabar com a exploração insustentável e priorizando a proteção das espécies de condrictes.

O estado de várias espécies, como o tubarão-narigudo, o tubarão-lixa-de-cauda-curta, Hemitriakis japanica, Rhinoperta marginata e dois peixes-viola piorou desde a primeira análise em 2014. Peixe-serra, cunha, raias diabólicas, peixes-guitarra gigantes, tubarões-martelo e raias-águia pelágicas são a família de chondrichthyes mais ameaçada.

"Nossa análise é alarmante e ainda oferece alguma esperança", disse Sonja Fordham, presidente da Shark Advocates International, um projeto da The Ocean Foundation. 

"Vimos uma recuperação significativa de várias espécies de raias fortemente exploradas graças aos limites estabelecidos pelos cientistas. Temos as estruturas, ferramentas e compromissos para replicar esse sucesso em todo o mundo, mas o tempo está se esgotando para mais e mais." e raias. Precisamos urgentemente que os governos, encorajados pelos cidadãos, continuem avançando e estabeleçam limites concretos para a pesca e, finalmente, mudem a situação desses animais extraordinários", acrescentou.

O estudo foi conduzido pelo Global Shark Trends Project (GSTP), em colaboração com o IUCN Shark Specialist Group, a Simon Fraser University, a James Cook University e o Georgia Aquarium, com o apoio do Shark Conservation Fund, a fim de avaliar o risco de extinção de peixes condrictes (tubarões, raias e quimeras). A equipa recrutou 322 especialistas de todo o mundo para concluir a análise, que durou 8 anos.

Com o objetivo de evitar o desaparecimento de espécies, danos contínuos aos ecossistemas e o medo da insegurança alimentar, o relatório propõe medidas de conservação para “inverter as tendências de declínio”.

Eles sugerem o estabelecimento de limites de pesca com base na opinião de cientistas para reduzir a mortalidade de espécies ameaçadas. Como medidas imediatas propõem a “restrição de desembarques, cumprimento das obrigações derivadas dos tratados de pesca e fauna”.

Eles também pedem às instituições que proíbam a retenção de espécies de tubarões e raias classificadas pela IUCN como “criticamente ameaçadas” ou “ameaçadas”.

“Precisamos urgentemente que os governos, encorajados pelos cidadãos, continuem avançando e estabeleçam limites concretos para a pesca e, finalmente, mudem a situação desses animais extraordinários”, conclui Sonja Fordham. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A espuma do mar é mais valiosa do que parece. Fotografe-a e ajude os cientistas


O novo projecto FitoAvista quer detectar grandes concentrações de microalgas na costa portuguesa, visíveis nas espumas e nas colorações do oceano. A Wilder falou com a coordenadora, Alexandra Duarte Silva, e conta-lhe tudo.

Se estiver junto à costa e avistar espuma na praia ou no mar, ou então uma coloração diferente nas ondas – vermelha, laranja ou castanha, por exemplo – o mais provável é não ser poluição, mas sim a parte visível de um imenso mundo microscópico que habita as águas do mar: o fitoplâncton formado por microalgas unicelulares, que estão na base da teia alimentar marinha.

Concentração de espumas do mar em Vila Nova de Gaia. Foto: Maria Lobo

Agora, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) tem um novo projecto para onde pode enviar o registo dessas observações, depois de as fotografar: o FitoAvista, irmão mais novo do GelAvista (dedicado aos gelatinosos), recorre tal como este a cidadãos cientistas para serem os “olhos” dos investigadores onde estes não conseguem chegar, explica a coordenadora da iniciativa, Alexandra Duarte Silva.

A partir das fotografias que recebe no email plancton@ipma.pt, a equipa do FitoAvista consegue perceber se há uma grande concentração de microalgas num determinado local, para aí recolher amostras e analisá-las em laboratório. Até porque o IPMA dispõe de várias estações ao longo da costa portuguesa e assim consegue chegar em pouco tempo aos locais.

Comuns na costa portuguesa

“O fitoplâncton está sempre presente na água e tem uma taxa de reprodução muito rápida, podendo atingir concentrações muito elevadas num curto espaço de tempo”, descreve Alexandra Duarte Silva, que é especialista em ecologia do fitoplâncton. Estas proliferações são comuns na costa portuguesa ao longo do ano, adianta.

Espuma observada numa praia de Peniche. Foto: Associação Mar à Deriva

Em causa estão duas razões principais. A primeira, é que “em Portugal temos um fenómeno no litoral chamado ‘upwelling’ ou afloramento costeiro, que acontece quando os ventos sopram de norte e trazem as águas do mar do fundo para a superfície, que são mais frias e ricas em nutrientes, o que acontece em especial na Primavera e no Verão”.

Em segundo lugar, “já entre o final do Inverno e a Primavera, o número destas algas aumenta muitas vezes com o enriquecimento das águas do mar devido aos nutrientes que são trazidos pelos rios”. Em causa estão as actividades urbanas e agrícolas e também a própria vida que existe nos cursos fluviais.

Espuma do mar avistada numa praia em Ovar. Foto: Raquel Chumbinho

O fitoplâncton é extremamente importante, tanto para a vida marinha como terrestre, mas quando acontecem proliferações muito grandes, podem ter “um impacto severo no sector aquícola e no turismo”, sublinha a mesma responsável. Por vezes, as águas do mar ficam com um aspecto estranho ou as praias podem mesmo encerrar, quando se trata de “marés vermelhas” – muitas provocadas por microalgas tóxicas para a saúde humana.

Noutras ocasiões, certas microalgas do grupo das diatomáceas têm o poder de “irritar e entupir as guelras dos peixes” nas explorações de aquicultura. Além do mais, quando se concentram grandes quantidades de microalgas, estas por vezes “apodrecem na água e privam de luz os bivalves que estão mais abaixo”, afectando a sua sobrevivência.

Uma das 20.000 espécies de diatomáceas conhecidas, fotografada ao microscópio. 
Foto: Alexandra Duarte Silva

Assim, se o IPMA analisar as amostras de água do mar e descobrir que estão em causa microalgas nocivas ou tóxicas, podem ser emitidos avisos. No caso de microalgas nocivas, estão em causa espécies que atacam as guelras dos peixes, por exemplo, pelo que a sua detecção pode ajudar a avisar os produtores para tomarem medidas.

Já as microalgas tóxicas prejudicam a saúde humana e também a dos mamíferos marinhos, e se forem encontradas podem levar à proibição de venda de bivalves em determinados locais da costa. É o que acontece por vezes durante o Verão, ajudando a impedir intoxicações alimentares e outras indisposições graves. É que algumas espécies de microalgas têm toxinas naturais que passam para as amêijoas e outros bivalves, que não são afectados, mas que concentram essas substâncias e podem afectar quem os ingere. “Não sabemos como o nosso organismo vai reagir a estas toxinas e, por isso, quando são emitidos alertas quanto ao consumo de bivalves, é importante termos todo o cuidado”, adverte Alexandra Duarte Silva.

Em poucos dias, 78 avistamentos

Entretanto, no espaço de uma semana, entre o último dia 17, quando foi lançado nas redes sociais, e a manhã de dia 25, o projecto FitoAvista já tinha recebido informação de 78 avistamentos de espumas e colorações no mar, de Viana do Castelo a Aljezur, enviada por cerca de 40 cidadãos cientistas.

Espuma observada na Praia Grande. Foto: José Azevedo

Este grande número de participações em pouco tempo surpreendeu a equipa e terá sido ajudado por uma parceria com o GelAvista, uma vez que uma parte dos observadores colaboram com os dois projectos. Além de Alexandra Duarte Silva, o FitoAvista é realizado por Antonina dos Santos, especialista em ecologia marinha de zooplâncton e coordenadora do GelAvista, e por Isabel Cruz, da área da comunicação.

“Temos várias pessoas que já incorporaram esta rotina [de reportar o que vêem] no seu dia-a-dia”, explica Alexandra, que adianta que essa consistência é muito importante para a análise dos dados. Ou seja, se registarmos diariamente concentrações de espuma num determinado local, e chegar um dia em que já não haja lá nada, esse “avistamento zero” também tem significado para os cientistas, sublinha. Entretanto, se tudo correr bem, o objectivo da equipa é dentro de algum tempo oferecer formação a quem queira participar na recolha de amostras de espuma e água do mar.

Agora é a sua vez.

Costuma passar junto ao litoral em passeio ou no caminho para o trabalho? Fotografe os avistamentos de fitoplâncton e envie-os, juntamente com o local, data e hora, para plancton@ipma.pt. Pode ver mais informações sobre o que é necessário nas páginas de Facebook e de Instagram do FitoAvista.

sábado, 21 de janeiro de 2023

British environmentalist Sir Jonathon Porritt and his long association with Aotearoa



From “pathetic” offshore wind energy technology, to livestock emission plans heading “in the right direction”, British environmentalist Sir Jonathon Porritt tells Katy Jones what Aotearoa is doing well - and not so well – tackling the climate crisis.

Jonathon Porritt raises his eyebrows when I ask if Aotearoa’s farming sector might be on the right track to reducing their greenhouse gas emissions.

He has just been describing moves by New Zealand multinational meat company, Silver Fern Farms, to produce net zero carbon beef for the American market – paying its Kiwi farmers a premium for the CO2 they sequester , through “insetting” (gaining carbon credits from the carbon sequestered on their farms, rather than elsewhere).

New Zealand may have come a long way since the uproar 20 years ago after the government first tried to introduce a levy on methane emissions from livestock – when farmers “invaded” Wellington, and the government backed down – he said.

The fact there was now a scheme for a levy on cows, put together by farmers, iwi representatives and the government, with the proceeds paying for research to help farmers innovate to become lower carbon farmers, was “definitely moving in the right direction”.

“But it's not a very ambitious target.The target is only for a 10% reduction in methane by 2030. Honestly, that's just barely trying.”

Even big buyers of Fonterra milk, Nestle and Danone, said the target was not ambitious, Porritt told me when I met him at the Cawthron Institute in Nelson – New Zealand's largest independent science organisation.

England-based Porritt added the Cawthron Institute to his places to visit in New Zealand in December, after Volker Kuntzsch was appointed chief executive in 2021.

“I've known Volker for a long time. He and I did some work on international fishing issues ... when he was at Sanford.”

Kuntzsch was now co-chair of The Aotearoa Circle, a voluntary initiative Porritt co-founded to try to help reverse the decline of natural resources in New Zealand.

Porritt’s visit just before Christmas also coincided with a meeting of the Air New Zealand Sustainability Advisory Panel – of which he was chair.

His association with Kiwi environmental initiatives stemmed back to his time living in New Zealand, when his father was appointed Governor-General in 1967.

The young Porritt developed a passion for the environment while planting trees and working on farms in Aotearoa.

Returning to England in the 1970s, he now has a long list of environmental credentials to his name.

Chair of the Ecology Party (now the Green Party of England and Wales) in the 1980s, a director of environmental campaigning organisation Friends of the Earth, and co-founder of the sustainable development charity, Forum for the Future.

He was made a CBE (Commander of the Order of the British Empire) in 2000 for services to environmental protection, and has written several books on issues including the climate emergency.

A book he published on the politics of ecology, in 1984, was found 30 years later to be prophetic in many respects.

What was needed globally to become net-zero by 2050, included vast investment in renewable energy, he said.

As far as offshore wind went, New Zealand could be doing a lot better.

“New Zealand is utterly pathetic when it comes to offshore wind.

“New Zealand has a huge amount of coastline. The wind blows quite a lot in many parts of New Zealand. And if people really wanted to double down and get some proper, large scale new renewable electricity into the system, then offshore wind is the way to go.”

He was less enamoured with hydrogen energy – “blue” or “grey” hydrogen at least.

“It really bugs me that people talk about hydrogen as the cleanest fuel.

“It's a clean fuel when you burn it. But to make it, is not clean.”

Ninety-five % of today’s 70 million tonnes of hydrogen production depended on burning huge amounts of either gas or coal, he said.

He was in favour of “green” hydrogen, produced using renewable electricity, but it would take time to scale up, and was expensive.
Green hydrogen would play an important part in decarbonising some so-called “hard-to-abate” industries like steel, fertilisers, cement and possibly aviation, but that was all, he said.

The aircraft manufacturer Airbus was very focused on hydrogen as the fuel source of the future, but it would be a “massive technological challenge”.

“You need to carry a lot of hydrogen to get that plane to fly thousands of kilometres.

“So you're not going to get long haul flights using hydrogen.”

Air New Zealand‘s target of substituting 10% of its planes’ fuel with Sustainable Aviation Fuels (SAF) by 2030 would be very demanding, due to limited availability of SAF, he said.

Rapid progress was being made on electric planes, with the airline looking to have a commercially-operated electric plane flying passengers at some point after 2026, Porritt said.

For short haul flights, electric planes would become the dominant way of substituting for jet fuel, he predicted.

Air New Zealand – 50% government owned – was among companies that would have to declare the financial consequences of its climate risk, which would help ordinary shareholders “wake up” to the costs, he said.

Natural gas and LPG are fossil fuels. Homes using these for heating and cooking have a higher carbon footprint than ones using electricity. When an appliance needs replacing, consider purchasing an electric heat pump or induction cooktop. As a bonus: these technologies are more efficient and therefore cheaper to run than fossil-fueled versions.

Environmental research was another area where New Zealand could benefit from greater financial backing, Porritt said.

Aotearoa could be a world leader in the field if the government increased and accelerated funding for such research organisations, he said.

New Zealand's biodiversity had been “absolutely hammered” over the last 30,40 years.

The country’s future prosperity depended on its natural capital.

So there was also every reason to prioritise funding for places like Cawthron Institute from a “self-interested” point of view, he said.

The institute specialised in science that supported the environment and development within primary industries, with its scientists including experts in aquaculture, marine and freshwater resources and food safety.

“New Zealanders love the marine environment, fishing industries are hugely important to New Zealand's exports.”

Water quality had been affected in New Zealand and elsewhere, by pine forestry blocks not being well-managed, Porritt said.

The government shouldn’t be “taken in by the notion that all trees anywhere are good”, because the right trees needed to be planted in the right place to get the benefits of carbon sequestration.

“I don't understand why the government has failed to come forward with really smart ways of encouraging investment in native forest.

“It makes sense for New Zealand to say we can really lead on many of these different controversial areas, how we manage our environment in particular.”

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Investigadores reutilizam subproduto do biodiesel em rações para peixes de aquacultura


Uma equipa de investigadores liderada por Ivan Viegas, da Universidade de Coimbra, testou com sucesso uma nova dieta para peixes de aquacultura, reutilizando um subproduto do biodiesel, revelou hoje fonte desta instituição de ensino superior.

Em comunicado, a Universidade de Coimbra (UC) explicou que esta nova dieta para peixes de aquacultura utiliza o glicerol, um subproduto do biodiesel, como ingrediente alternativo, que “pode ajudar a solucionar um dos grandes desafios desta área de negócio”.

Atualmente, as rações comercializadas “são demasiado dispendiosas e, muitas vezes, pouco sustentáveis, já que são produzidas à base de ingredientes de origem animal”.

A equipa, constituída por investigadores portugueses e franceses, é liderada por Ivan Viegas, do Centro de Ecologia Funcional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), que sublinhou ser urgente encontrar “ingredientes alternativos cujo conteúdo nutricional e energético, mas também a sua pegada ecológica, garantam uma produção mais rentável, segura, sustentável e resultando num produto final nutritivo”.

“Neste contexto, o desenvolvimento de rações para aquacultura deve apostar no aproveitamento de subprodutos de outras indústrias, com base na reutilização, recuperação e reaproveitamento de nutrientes como postulado no princípio da economia circular”, justificou.

O projeto que, além da Universidade de Coimbra, integra investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) e do Instituto Nacional da Agricultura, Alimentação e Ambiente de França (INRAE), apostou no glicerol, “um subproduto da indústria do biodiesel cujo aumento de produção global levou o glicerol a tornar-se num ingrediente abundante, disponível e atestado como seguro, pelas autoridades europeias para a segurança alimentar, para utilização em rações animais”.

“Com a crise de combustíveis que se avizinha, será até expectável que a produção de biodiesel aumente. Urge, portanto, encontrar utilizações para os seus subprodutos”, afirmou o líder do estudo.

De acordo com Ivan Viegas, o glicerol “é uma molécula que é estrutural para os humanos, presente, por exemplo, nos triglicerídeos”.

“Tem sido utilizado com sucesso como ingrediente alternativo para a suinicultura e avicultura, no entanto, o seu potencial como ingrediente em rações para peixes de aquacultura tem ficado por explorar”, evidenciou.

Para avaliar a fiabilidade, performance e limitações na utilização de rações suplementadas com glicerol, assim como as suas consequências, “foram testadas duas importantes espécies de peixes de viveiro em Portugal: a truta arco-íris e o robalo”.

As dietas experimentais preparadas pelos cientistas, “suplementadas com 2,5% e 5% de glicerol, foram digeridas de forma eficiente por ambas as espécies”, constatou.

As várias análises efetuadas permitiram concluir que “a performance no crescimento [dos peixes] poderá ser afetada na percentagem mais alta, no entanto, uma suplementação intermédia até 2,5% não altera substancialmente a performance e eficácia na utilização metabólica e perfil nutricional do filete”.

Segundo o investigador da UC, tal significa que “há margem para a incorporação do glicerol na dieta destas espécies”.

“Analisámos o fígado das espécies testadas, o principal órgão de regulação de toda a ‘maquinaria metabólica’, e, com a ajuda dos nossos parceiros do INRAE, em França, verificámos não haver alterações da regulação enzimática do metabolismo hepático destes peixes pelo glicerol”, apontou.

O estudo, desenvolvido nos últimos quatro anos, foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e deu origem a várias publicações científicas.