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terça-feira, 23 de junho de 2026

Alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies em zonas temperadas

Salamandra-europeia (Salamandra salamandra)

As alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies nas regiões temperadas do que nos trópicos, revelou um estudo da Universidade do Arizona divulgado no dia 18 de junho.

Segundo os cientistas, a principal razão é que as regiões temperadas estão a aquecer mais depressa dos que as tropicais.

Os investigadores descobriram que 49% das espécies de regiões temperadas sofreram extinção local nas áreas mais quentes em que se encontram implantadas, em comparação com 33% das espécies tropicais.

O trabalho, publicado na revista científica ‘Nature Climate Change‘, abrangeu cerca de 5.100 espécies de animais e plantas e desafia as ideias de longa data relativamente às espécies que estão mais ameaçadas, de acordo com os autores.

Entre os objetos de análise, estão centenas de espécies de borboletas e besouros, centenas de peixes e aves, mamíferos, rãs, salamandras e lagartos e quase 3.000 plantas.

A investigação, apresentada como a maior análise já realizada sobre extinções locais de espécies impulsionadas pelo clima, baseou-se em levantamentos da biodiversidade em quase 40.000 locais no mundo e permitiu comparar registos históricos com dados recolhidos mais recentemente.

“Durante décadas, os cientistas acreditaram que as espécies de climas temperados eram menos vulneráveis às alterações climáticas”, disse o autor principal do trabalho, Gopal Murali, da Universidade do Arizona, Estados Unidos, citado em comunicado. “Estamos surpreendidos com os resultados”, admitiu.

Os novos dados revelaram-se consistentes em diferentes grupos de organismos, incluindo insetos, vertebrados, plantas e espécies marinhas e de água doce.

Outro autor sénior da investigação, John Wiens, afirmou ter publicado em 2016 um estudo com 976 espécies, utilizando o mesmo tipo de dados, mas com conclusões diferentes: “Mostrou o padrão exatamente oposto, com mais extinções locais entre espécies tropicais”.

“O mundo mudou desde 2016”, disse Wiens, referindo que houve mais aquecimento na zona temperada da Terra, especialmente em latitudes mais elevadas.

“É possível que o padrão se tenha simplesmente invertido nas últimas décadas, o que ajuda a explicar a mudança nos resultados. Verificamos que as extinções em regiões temperadas superaram as das regiões tropicais”, disse.

As extinções locais observadas não significam que a espécie inteira foi extinta em todo o mundo, mas demonstram que as populações não conseguem sobreviver à transformação das condições ambientais numa determinada região.

“Perdas semelhantes ao longo da área de distribuição de uma espécie podem levar à extinção da espécie como um todo”, precisaram os cientistas.

“Normalmente, as pessoas pensam que uma espécie se move, simplesmente, para uma zona mais fria quando o clima aquece. Mas descobrimos que mais de 70% das espécies não está a fazer isso”, revelou Wiens.

“No essencial, a vida e a morte da maioria das espécies pode ser determinada por essas extinções locais e pela capacidade de as populações conseguirem, ou não, sobreviver no próprio local”, concluiu.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Serra da Estrela ganha novo selo da UNESCO e passa a ter dupla proteção internacional


A Serra da Estrela foi integrada esta sexta-feira, dia 3 de junho, na Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO, uma distinção internacional que premeia territórios que conciliam a conservação da natureza com o desenvolvimento sustentável

A Serra da Estrela passa a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera, distinção atribuída pela UNESCO a territórios que conciliam "a conservação da natureza com o desenvolvimento humano sustentável", foi divulgado esta sexta-feira.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) adiantou, em comunicado, que a aprovação da candidatura foi anunciada hoje na 38.ª sessão do Conselho Internacional de Coordenação do Programa Homem e Biosfera (MAB), que decorre no Centro de Convenções Itaipu Roga, em Hernandarias, Paraguai, desde 3 de junho.

Com esta aprovação, Portugal passa a contar com 14 Reservas da Biosfera da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), lembrou o ICNF.

Já a Serra da Estrela passa a deter duas designações UNESCO para o mesmo território: o Geopark Global UNESCO, reconhecido em julho de 2020, e agora a Reserva da Biosfera.

"Os dois estatutos serão geridos de forma integrada, numa lógica de governança conjunta que permitirá otimizar recursos humanos, financeiros e materiais", referiu o ICNF.

De acordo com o instituto, a nova Reserva da Biosfera da Estrela abrange uma área total de 2.372,99 quilómetros quadrados (km²), distribuída pelos seis municípios do Parque Natural da Serra da Estrela, Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Guarda, Manteigas e Covilhã.

A Reserva da Biosfera da Estrela está estruturada em três zonas complementares: uma Zona Núcleo onde se concentram os valores naturais mais relevantes (212,55 km²), uma Zona Tampão de mediação ecológica (679,65 km²) e uma Zona de Transição dedicada às atividades humanas sustentáveis (1.480,80 km², correspondendo a 62% da reserva).

A candidatura foi promovida pela AGE - Associação Geopark Estrela, com coordenação científica de Helena Freitas, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra.

O ICNF realçou que a iniciativa resultou "de um amplo processo participativo que envolveu autarquias, sociedade civil, comunidade educativa e organizações ambientais, tendo como base o Plano de Cogestão do Parque Natural, aprovado em novembro de 2024".

"Esta designação não é apenas um reconhecimento internacional, é um compromisso ativo com os objetivos globais de conservação da biodiversidade inscritos no Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, e uma oportunidade para afirmar a Serra da Estrela como referência nacional e internacional em práticas inovadoras de sustentabilidade e educação ambiental", salientou ainda o ICNF.

Já a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, realçou que o reconhecimento é "uma oportunidade para reforçar a sustentabilidade da Serra da Estrela, colocando a inovação e a educação ambiental ao serviço das comunidades e das gerações futuras".

Numa nota divulgada pelo ministério, Maria da Graça Carvalho destacou "o forte envolvimento dos autarcas e da sociedade civil, que tanto contribuíram para o sucesso do projeto, o papel da Associação Geopark Estrela, que promoveu a candidatura, e da professora Helena Freitas, que assegurou a sua coordenação científica".

Ler mais:
Serra da Estrela: Quo vadis biodiversidade?

quinta-feira, 12 de março de 2026

Vítimas silenciosas da guerra: como o conflito do Irão está a envenenar a vida selvagem e o mar


Florestas queimadas, fauna em fuga, mares contaminados: o impacto ecológico do conflito pode durar décadas — muito para além do fim da guerra.
A guerra no Irão continua em fúria — e não é apenas uma guerra entre estados. É também uma guerra contra a natureza.
Enquanto o mundo debate geopolítica, sanções e equilíbrios de poder, as verdadeiras vítimas silenciosas -florestas, zonas húmidas, fauna selvagem e ecossistemas marinhos - estão a ser destruídas, contaminadas e abandonadas.
Os recentes ataques a centrais de dessalinização no Médio Oriente realçam a vulnerabilidade das infraestruturas hídricas nas guerras modernas.
Isto não é simplesmente “dano colateral”. É sabotagem ecológica com efeitos que poderão durar décadas.
Investigadores e organizações independentes têm vindo a alertar para os riscos ambientais associados ao conflito. O Conflict and Environment Observatory tem documentado incidentes ambientais relacionados com operações militares e infraestruturas energéticas na região, demonstrando como a guerra pode gerar impactos ecológicos prolongados 

Florestas queimadas, habitats destruídos
Nas províncias de Lorestan e Kermanshah, ataques militares desencadearam incêndios que devastaram áreas florestais e zonas naturais. Animais fugiram ou morreram queimados enquanto as chamas se propagavam pelos habitats.
As explosões e os incêndios não destroem apenas árvores. Fragmentam ecossistemas inteiros.
Quando os habitats desaparecem, espécies que dependem deles — desde pequenos insetos até mamíferos e aves migratórias - ficam sem abrigo, sem alimento e sem rotas de migração seguras.
Segundo análises do Gulf International Forum, os danos ambientais provocados pelo conflito podem agravar problemas ecológicos já existentes no país, como desertificação, escassez de água e perda de biodiversidade .

Guerra tóxica, legado tóxico
Cada bombardeamento deixa para trás muito mais do que crateras.
A destruição de instalações militares, depósitos de combustível e infraestruturas industriais pode libertar uma mistura perigosa de poluentes: combustíveis, metais pesados, compostos tóxicos e partículas finas.
Incêndios em instalações petrolíferas libertam grandes quantidades de carbono negro e partículas tóxicas que permanecem na atmosfera e acabam por regressar ao solo através da precipitação, contaminando solos e águas subterrâneas.
Essas substâncias podem permanecer no ambiente durante décadas. O resultado é uma contaminação lenta da cadeia alimentar — um processo invisível, mas devastador para a fauna e para as comunidades humanas.
Organizações de investigação ambiental, como a Environmental Protection Knowledge Network, têm alertado para a necessidade urgente de monitorizar os impactos ecológicos do conflito 


O Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz: um ecossistema sob risco
O conflito não se limita ao território iraniano.
No Golfo Pérsico, ataques a portos, navios e infraestruturas petrolíferas aumentam o risco de derrames de petróleo e contaminação marinha. Navios danificados e instalações energéticas atingidas podem libertar grandes quantidades de combustível no mar.
O Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, é também uma área crítica para a biodiversidade regional. Mangais, recifes de coral e praias de nidificação podem ser rapidamente afetados por petróleo e produtos químicos.
Projetos internacionais de investigação e proteção ambiental, como o Eco Servants Project, sublinham que conflitos armados podem provocar danos ecológicos irreversíveis e dificultar a recuperação dos ecossistemas 


Quem será responsabilizado?
A comunidade internacional discute cessar-fogos, sanções e diplomacia.
Mas quase ninguém discute as florestas que arderam, os rios que foram contaminados ou as espécies empurradas para a extinção.
E, no entanto, as consequências ambientais da guerra podem durar muito mais tempo do que o próprio conflito.
A restauração de ecossistemas destruídos pode levar décadas — quando é possível restaurá-los.
Enquanto isso, a destruição continua.
Os animais, as florestas e os mares não esperam por tratados de paz.
Eles estão a desaparecer agora.

terça-feira, 10 de março de 2026

What are the world’s deadliest animals, and can we protect ourselves against them?

O artigo explica que, embora tenhamos medo de tubarões ou lobos, os animais que mais matam humanos são os mosquitos (cerca de 700.000 a 1 milhão de mortes/ano por doenças) e as cobras. O gráfico do Our World in Data mostra que o risco real está muito mais ligado à exposição a doenças e parasitas do que a ataques diretos de grandes animais.

One and a half million people are killed by animals every year. Almost one million by other animals, and more than half a million from direct conflict among ourselves.

Almost all of these deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

In the chart above, we’ve brought together estimates of the number of people killed by different animals.

These numbers are estimates, and some come with significant uncertainty. That’s why we’ve published a detailed methodology explaining our sources and how they compare. Despite this uncertainty, we feel confident about the relative orders of magnitude across different animals.1

The biggest killers, by far, are mosquitoes. They have been one of our biggest threats for millennia, and still kill approximately 760,000 people every year.2 Over 80% of those deaths are the result of malaria, which is transmitted and spread by the Anopheles mosquito. Malaria still kills close to half a million children every year.

Another 100,000 people die every year from other mosquito-borne diseases, including dengue fever and yellow fever (spread by the mosquito species Aedes aegypti) and Japanese encephalitis.

Almost all deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

Snakes are one of the most common phobias, and you can see why. They are the second largest killers. The death toll from venomous snakes is surprisingly uncertain, as many of these deaths occur in rural areas where death records are often poor.3 But the figure is likely to be around 100,000 deaths per year. That means snakes kill more than all animals below them on the list combined.4

Most of those remaining deaths are caused by dogs, the animals that humans have grown to love as domesticated pets. The majority are due to rabies, rather than direct wounds.

Near the bottom of the list, we reach the animals that dominate our nightmares — sharks and wolves. They make for gripping headlines and blockbuster films. But in reality, shark and wolf attacks are very rare.

Of course, they don’t kill fewer people because they’re less dangerous. We’d rather be locked in a room with a mosquito than a lion. The real difference is exposure: it’s much easier to avoid large predators than it is to avoid disease-carrying insects and parasites.5

The good news is that most deaths from animals — especially the largest killers — are preventable. We have bednets and insecticide sprays to reduce exposure to mosquitoes, and medication to treat malaria if someone does become infected. New techniques, such as the Wolbachia method, have been developed to stop the spread of dengue fever. Antivenoms can often save someone from a potentially fatal snakebite.6

The problem is that not everyone has access to these preventive and treatment methods when they need them.7 If these small killers received the same global attention as large predators, more effort might go into stopping them. That is one reason why these comparisons are useful: as a reminder of what people are actually dying from, and where the most lives could be saved.There are other diseases — in particular, neglected tropical diseases — that could also be dramatically reduced with better access to treatment.

In many regions, deaths from mosquitoes have decreased dramatically. Malaria was once prevalent in countries that are now free of it. If we could achieve this in all parts of the world, the number of deaths caused by other animals would be almost six times smaller.8

If we were to also eliminate deaths from snakes through the use of antivenoms and better diagnostics, the death toll would be again reduced by almost two-thirds.9


Methodology

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Documentário - Côa Mais Selvagem (Wilder Côa)


O lado mais selvagem de Portugal. A premissa não podia ser melhor. O documentário de natureza “Côa Mais Selvagem” dá exatamente a conhecer o lado mais selvagem de Portugal que é esta região do Grande Vale do Côa. 

Acompanhe a entusiasmante viagem do rio Côa, que corre de sul para norte, surpreenda-se com as suas paisagens de perder de vista, conheça a vida selvagem que o rodeia e que a ele está a regressar, e saiba como a Rewilding Portugal está a renaturalizar todo este grande corredor de vida selvagem nos últimos cinco anos. Uma paisagem onde os processos naturais são repostos, o ciclo da vida volta a estar completo e funcional e onde pessoas e vida selvagem coexistem de forma positiva e duradoura. 

Vencedor de vários prémios internacionais: Gold Medal in Wildlife Conservation (International Tourism Film Festival Africa 2025); 1st place in Green Movie (International Disaster Film Festival 2025); Best DOP Documentary (Fest5 International Film Festival 2025) and Best Wildlife Documentary (Xposure International Photography Film Awards).

Realizador: João Cosme
Produção: Fernando Teixeira | Rewilding Portugal 
Voz: Ana Varela 
Estúdio: Rádio Cova da Beira
Financiamento: Rewilding Europe, ELSP, LIFE - Comissão Europeia

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

France Jodoin

France Jodoin (pintora Canadiana, nascida em 1961)
Estilo:
É uma artista contemporânea cujas obras se situam entre o impressionismo e o romanticismo europeu moderno.
A sua pintura tem um caráter etéreo e sugestivo, equilibrando representação e abstração, com cenas que parecem vista através de névoa ou luz difusa. 
Os temas muitas vezes evocam marinas, paisagens, cityscapes, flores, figuras e animais, sempre com uma sensação de tempo efémero e uma atmosfera poética. 

Técnica:
Trabalha principalmente com óleo sobre linho, aplicando a tinta de forma gestual e intuitiva, construindo e reconstruindo a imagem com pinceladas fluídas.
Também faz desenhos e gravuras, incluindo técnicas de aquitinta e sugar lift em gravura. 
O seu processo de pintura é instintivo e não preconcebido, permitindo que a obra se desenvolva organicamente no suporte. 

As suas composições convidam o espectador a construir narrativas pessoais, em vez de retratar lugares ou pessoas específicos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Estudo confirma pelo menos 10 castores em afluentes espanhóis do Douro, junto à fronteira portuguesa


Mais vídeos e fotos aqui
José Jambas e Francisco Álvares, que participaram num estudo luso-espanhol sobre a nova população de castores, explicaram à Wilder o que a equipa encontrou e quais são as expetativas para o futuro.

Um novo estudo, publicado na revista científica Galemys, confirma que há castores a reproduzirem-se nas margens do rio Tormes, onde foram encontrados os primeiros vestígios na bacia hidrográfica do Douro, mas agora também no Uces, outro rio próximo da fronteira portuguesa. A nova população foi estudada em observações diretas destes mamíferos, registados também por câmaras de foto-armadilhagem e por inúmeros vestígios – como troncos cortados, ramos com marcas de dentes e construção de abrigos – e ainda por um estudo genético.Castor no Tormes. Vídeo: José Jambas

“Confirmamos a presença de pelo menos 10 castores em dois afluentes do Douro, incluindo dois grupos familiares com reprodução em 2023 e um possível terceiro [grupo com reprodução]”, escreve a equipa de sete investigadores responsáveis pelo estudo recentemente publicado, liderada por Teresa Calderón, da Universidade de Saragoça.
  
A investigadora espanhola já tinha estado à frente do estudo anterior, que em 2023 anunciou a presença da espécie no rio Tormes e concluiu que esta terá resultado de uma libertação não autorizada de castores. Isto porque está demasiado distante a outra população mais próxima desta espécie, em Espanha, onde a espécie regressou em 2003 em resultado de outra libertação ilegal.

No entanto, os cientistas suspeitam agora de que a nova população recém-descoberta na bacia do Douro resulta de pelo menos duas libertações realizadas separadamente, uma no rio Tormes e a outra no rio Uces. Isto, como explicam, devido à “distância relativamente grande” entre estes dois rios e à existência de barreiras que dificultam a passagem de um curso de água para o outro, incluindo “grandes cascatas”.

Por outro lado, para além de confirmarem a presença de dois grupos familiares reprodutores, um no Tormes e outro no Uces, a equipa admite também a hipótese de haver um segundo casal com crias no primeiro rio, com base em observações diretas e vestígios encontrados.

Esta possibilidade, embora ainda sem certezas, é apoiada pela descoberta de vários montes de cheiro nas margens do Tormes. Trata-se de pequenas pilhas formadas por lama e vegetação misturadas com castóreo, uma substância oleosa glandular que estes mamíferos utilizam para marcar território e impermeabilizar o pelo.

Os vestígios de castores encontrados junto a este rio estendem-se por 15 quilómetros, desde a barragem espanhola de Almendra até ao estuário onde o Tormes se une ao Douro, “apenas a uns poucos metros de distância da fronteira portuguesa”, descrevem no estudo.

Muito menor é a área onde a equipa identificou sinais de castores no Uces, “ao longo de dois quilómetros do rio, a maior parte concentrados num charco durante o verão, tal como nalguns pontos isolados das margens”.

O que se passa em Portugal?
Embora o trabalho de campo cujos resultados foram agora conhecidos se tenha realizado essencialmente em 2023, desde então mantiveram-se os trabalhos de monitorização nesta zona que pertence ao Parque Natural Arribes del Duero. Esta área protegida espanhola está colada ao Parque Natural do Douro Internacional, do lado português da fronteira, onde a equipa tem estado igualmente atenta a sinais no terreno – até porque em julho passado foram divulgadas imagens de pelo menos um castor no estuário do Tormes, “apanhado” em território português por câmaras de foto-armadilhagem.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Extração de minerais no fundo do mar pode devastar ecossistemas marinhos, alerta estudo


A extração de minerais nas profundezas do oceano pode trazer efeitos devastadores aos ecossistemas marinhos, alertaram cientistas da Universidade do Havai num estudo publicado na revista Nature Communications.

A investigação concluiu que as nuvens de partículas suspensas na água geradas pela extração de minerais no fundo do mar podem privar de alimento os organismos microscópicos que sustentam toda a cadeia alimentar oceânica, com impacto potencial nas pescas e no consumo humano.

Esta extração em mar profundo visa perfurar o fundo do oceano para recolher materiais ricos em cobre, ferro, zinco e outros minerais críticos usados em veículos elétricos, tecnologias digitais e aplicações militares. Embora ainda não tenha começado à escala comercial, vários países estão já a preparar operações à medida que cresce a procura por estes materiais essenciais à transição energética.

Os investigadores estudaram amostras recolhidas em 2022 numa zona do Pacífico situada entre os 200 e 1.500 metros de profundidade. Segundo o estudo, os resíduos libertados durante os testes de extração criaram nuvens de partículas com o mesmo tamanho dos alimentos ingeridos pelo zooplâncton, pequenos organismos que servem de base à cadeia alimentar marinha.

Ao contrário de estudos anteriores centrados nos danos causados no leito oceânico, esta investigação foca-se nos efeitos no ecossistema marinho. Os cientistas consideraram urgente avaliar a profundidade e qualidade adequadas para devolver a água e sedimentos ao oceano.

Brian Popp, autor principal do estudo, defendeu que “poderá nem sequer ser necessário escavar o fundo do mar” e sugere fontes alternativas de metais, como a reciclagem de baterias e equipamentos eletrónicos ou o reaproveitamento de resíduos mineiros.

Já Michael Dowd, coautor do estudo, advertiu ainda que “se apenas uma empresa operar numa pequena área, o impacto será limitado, mas se várias empresas explorarem durante anos, os efeitos podem espalhar-se por toda a região”.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Oposição à Central Solar Fotovoltaica SOPHIA e às Linhas de Muito Alta Tensão (LMAT) - posição da Rewilding Portugal


A Rewilding Portugal manifesta a sua oposição firme e fundamentada ao projeto de instalação da Central Solar Fotovoltaica SOPHIA (CSF Sophia), e às Linhas de Muito Alta Tensão (LMAT) associadas, atualmente em consulta pública. Esta posição assenta na análise detalhada dos dados oficiais do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e na avaliação dos riscos ecológicos, sociais e territoriais que o projeto representa para o centro interior de Portugal, em particular para os concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, com impactos significativos e irreversíveis para os ecossistemas locais, para a paisagem, para as comunidades desta região e para o modelo de desenvolvimento sustentável do território que defendemos.

Embora reconheçamos a urgência e a importância da transição energética, consideramos que o projeto em causa não cumpre critérios mínimos de sustentabilidade territorial, ecológica e social. Foram revelados impactos significativos e irreversíveis sobre ecossistemas de elevado valor, sobre a paisagem rural da Gardunha e sobre comunidades que têm vindo a investir na regeneração ecológica e no turismo de natureza. As medidas de mitigação e compensação apresentadas são insuficientes e não respondem à escala dos danos previstos e não acreditamos que exista mitigação possível para tamanha destruição e artificialização da paisagem em causa. Entendemos por isso que o projeto SOPHIA não representa uma transição energética justa, mas sim um modelo de artificialização do território incompatível com os princípios de conservação, restauro ecológico e coesão territorial.

O que está em causa?
Segundo o EIA, esta central solar ocupará uma área total superior a 3.500 hectares, dos quais cerca de 434 serão diretamente impermeabilizados por painéis solares, caminhos e infraestruturas associadas. O projeto estende-se por três concelhos e integra duas linhas de muito alta tensão (400 kV), com cerca de 22 km cada, para ligação à subestação do Fundão. Estas linhas atravessam zonas agrícolas, povoamentos florestais e vales de ribeiras que mantêm ainda uma conetividade ecológica relevante.

Reconhece-se ainda que a área de implantação abrange e marginalmente intercepta zonas classificadas, nomeadamente a Zona Especial de Conservação (ZEC) da Serra da Gardunha (Rede Natura 2000) e a Área de Paisagem Protegida Regional da Serra da Gardunha. O limite sul do projeto aproxima-se também do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, inserido numa paisagem de alto valor natural e patrimonial. Foram identificados portanto sete tipos de habitats naturais de elevado valor ecológico, incluindo montados de Quercus de folha perene, carvalhais, salgueirais, freixiais e florestas aluviais, ecossistemas protegidos pela legislação nacional e comunitária.

O mesmo estudo regista 231 espécies de vertebrados na área em causa, das quais 30 com estatuto de ameaça. Entre as espécies mais sensíveis estão a Cegonha-preta (Ciconia nigra), o Abutre-preto (Aegypius monachus), a Águia-imperial (Aquila adalberti) e várias espécies de quirópteros, anfíbios e répteis protegidos. No domínio florístico, foi confirmada a presença de Bufonia macropetala, endemismo ibérico raro e indicador de solos mediterrânicos intactos. Espécies frágeis, com estatutos de conservação preocupantes e habitats disponíveis já reduzidos e fragmentados.

O estudo confirma ainda que a construção implicará a desmatação e abate de árvores legalmente protegidas, nomeadamente azinheiras e sobreiros isolados, com impacto qualificado como negativo e significativo. As medidas compensatórias propostas, como a conversão de 135 hectares de eucalipto em azinheiras e sobreiros, num total de 228 hectares de compensação ecológica, não demonstram ganhos líquidos de biodiversidade e não eliminam a perda irreversível de habitats locais. Não podemos continuar a substituir habitats complexos, bem estabelecidos e com influência num enorme número de espécies com populações estabelecidas por novas plantações que demorarão muito tempo a chegarem a esse estado de funcionalidade. A análise técnica confirma também a interrupção dos corredores ecológicos designados “Raia Norte” e “Raia Sul” (PROF Centro Interior), fragmentando áreas críticas para deslocação e reprodução de fauna selvagem. Numa altura em que falamos na necessidade urgente de criar e reforçar corredores ecológicos que permitam movimentos de fauna pela paisagem, um corte a meio num desses corredores é incoerente, perigoso e injustificável.

A nossa posição contra este projeto assenta por isso em três pilares: biodiversidade, comunidades e visitação:

1. Biodiversidade
A natureza precisa de espaço e conectividade para prosperar e o projeto SOPHIA ignora esse princípio de forma flagrante, ao implantar uma megaestrutura solar num mosaico de habitats que funciona como corredor ecológico regional, cortando a continuidade entre áreas naturais da Gardunha, Raia e Malcata, e criando assim uma barreira física e ecológica difícil de reverter.

A fragmentação e impermeabilização do solo comprometem a mobilidade de mamíferos de grande e média dimensão, como o lobo-ibérico (Canis lupus signatus), entre outros, e afetam espécies frágeis e a flora mediterrânica adaptada a solos pobres, como a rara Bufonia macropetala. A destruição destes habitats e comunidades vegetais, reconhecida pelo próprio EIA como um impacto negativo e significativo, prejudica polinizadores, aves insectívoras e a cadeia trófica nesta região.

Esta postura contraria compromissos nacionais e europeus de proteção de habitats prioritários, que continuam a ser ignorados em situações como esta e nos quais falhamos metas sucessivamente, incorrendo em constantes multas que continuam a ser pagas como o preço de uma inação nacional difícil de compreender.

A chamada “transição verde” não pode justificar a repetição de erros de fragmentação da paisagem que a conservação e muitas entidades neste sector lutam por corrigir há décadas, com dificuldades e muitas vezes em contexto de subfinanciamento.

2. Comunidades
A Rewilding Portugal sublinha que as comunidades locais afetadas por este projeto estão a ser duplamente penalizadas pela sua interioridade: sofrem o impacto direto desta instalação e, apesar das promessas genéricas de retorno económico e de mitigação de impacto, não têm garantido qualquer benefício tangível ou proporcional aos custos ambientais e sociais que estarão a suportar. A ausência de processos verdadeiramente participativos para as comunidades, revela uma falta de transparência que não pode ser aceite em projetos de tamanha dimensão e risco.

Importa referir que as populações locais serão confrontadas com: perda de áreas agrícolas e florestais, ruído e poeiras durante a construção, alteração irreversível da paisagem rural até do ponto de vista visual, desvalorização de propriedades e limitação de usos tradicionais da terra e principalmente: a perda das paisagens biodiversas e ricas que são muitas vezes o motivo da sua continuidade no território. Os territórios da Beira Interior têm uma forte identidade rural e ecológica, hoje dinamizados por pequenos negócios de turismo, agricultura biológica e iniciativas de restauro ecológico com impacto positivo na paisagem em que se inserem. A sua substituição por uma megaestrutura de painéis solares representa um choque cultural e económico.

É inaceitável que a transição energética seja feita à custa dos territórios de menor densidade populacional, destruindo-lhes o maior ativo que ainda existe e perpetuando assim desigualdades históricas e contrariando o princípio de justiça ambiental que devia imperar.

3. Visitação
A Beira Interior tem vindo a afirmar-se como destino emergente de turismo de natureza e conservação. A Serra da Gardunha, a ZEC adjacente e o Geopark Naturtejo oferecem uma combinação única de paisagem, biodiversidade e património cultural. O impacto visual deste projeto, com intrusão paisagística e reflexos visíveis a grandes distâncias vai impactar de forma irreversível a perceção de “natureza intacta” que ainda persiste neste território e que o torna tão atrativo.

Este tipo de impacto ameaça diretamente o turismo de natureza, que tem crescido consistentemente nos últimos anos, assente num modelo de desenvolvimento sustentável que tem pautado a estratégia recente destes territórios e da qual temos sido promotores, vendo agora todo o trabalho realizado a ser colocado em causa.

Muitos dos nossos parceiros da Rede Côa Selvagem, que têm criado novas oportunidades e emprego local baseado na natureza, em comunhão com o território e garantindo novas estratégias de atração para esta região, enquanto contribuem também para o restauro ecológico destes espaços naturais, vão ser diretamente ou indiretamente afetados por este projeto: ou porque operam também no território afeto ao projeto ou porque, mesmo estando em localizações limítrofes como é o caso do Grande Vale do Côa, sentirão também os inevitáveis impactos negativos do projeto principalmente no que diz respeito à severidade com que o mesmo afetará a biodiversidade e ecossistemas locais, podendo criar uma descontinuidade profunda na paisagem.

Um modelo de desenvolvimento como este que agora nos é apresentado, destrói a paisagem e a biodiversidade e elimina assim o próprio ativo que sustenta a economia verde da região: o próprio verde da paisagem.

Posto isto,
A falta de transparência neste processo é um aspeto grave que já devia sido endereçado mais cedo. A falta de clareza quanto às origens e intenções do investimento suscita dúvidas legítimas sobre o seu enquadramento estratégico e ambiental. Uma transição energética justa exige transparência total: quem ganha, quem perde e como são tomadas as decisões.

Rejeitar o SOPHIA não significa rejeitar a energia solar. Significa exigir planeamento responsável, transparência e justiça ecológica. Existem muitas outras áreas já artificializadas, abandonadas após uso e intervenção humana, ou mesmo a cobertura de edifícios públicos e outras faixas, que permitiriam a produção desta mesma energia sem implicar a destruição de habitats e a criação de uma monocultura tecnológica. Exista coragem para tomar essas decisões, porque centrais solares de grande escala, se mal localizadas, substituem ecossistemas vivos por superfícies mortas, criando desertos ecológicos num país que precisa de se renaturalizar, reconectar e restaurar.

Propomos por isso ao Governo e às entidades competentes que promovam: o mapeamento de áreas artificializadas disponíveis para este tipo de instalações; incentivos fiscais robustos à colocação de painéis em edifícios públicos, logísticos e industriais; e a criação de um programa de Transição Energética com Natureza, que assegure que cada megawatt produzido contribui também para restaurar ecossistemas, e que é produzido sem os colocar em causa.

Perante os factos expostos e a gravidade dos impactos reconhecidos pelo próprio EIA, a Rewilding Portugal apela à rejeição integral do projeto SOPHIA e das LMAT associadas.

Acreditando que o futuro da energia deve caminhar lado a lado com uma recuperação da biodiversidade e de ecossistemas completos e funcionais, a Rewilding Portugal defende ainda que Portugal deve liderar uma verdadeira transição ecológica, e não apenas energética. A crise de biodiversidade e climática a que estamos a assistir exige decisões corajosas, não susceptíveis a pressões externas e fins meramente económicos.

Não existe mitigação possível para se cortar um corredor ecológico ao meio, criando novas barreiras a uma natureza já por si tão obstruída e fragmentada. Se o preço a pagar é a própria biodiversidade, não lhe chamem energia verde.


Segue um dossier com textos e intervenções dos editores do Jornal O Maio. "Não comemos painéis solares"

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Central Solar Sophia - O negócio do filho de Marques Mendes


O projecto Sophia, localizado no concelho do Fundão, prevê a ocupação de 428 hectares de Reserva Ecológica Nacional, abrangendo zonas de leitos e margens de cursos de água, áreas de risco de erosão e territórios classificados pela sua sensibilidade ambiental. O empreendimento implicará o abate de cerca de 1.500 sobreiros e afectará habitats de mais de 140 espécies de aves, incluindo a Águia-imperial-ibérica, o Abutre-preto e a Cegonha-preta — todas espécies protegidas em áreas de Reservas Naturais.

O Projecto Sophia é promovido pela empresa Coloursflow Unipessoal, Lda, cujo capital social é 1 euro, foi constituída em 27 de Maio de 2021, e é gerida por Miguel Ricardo Fernandes Lobo. O único sócio desta sociedade é a Lightsource Renewable Energy, Lda, detida por João Pedro Pinto Salazar Marques Mendes, filho de Luís Marques Mendes.

Trata-se de um investimento de grande escala (600 milhões de euros), inserido num conjunto mais vasto de empreendimentos fotovoltaicos actualmente em desenvolvimento em diversas regiões do País. A localização, no interior da Beira Baixa, tem suscitado críticas de associações ambientais e das populações locais, que alertam para o impacto irreversível sobre os solos, os recursos hídricos e os ecossistemas.

Em paralelo, o nome de João Marques Mendes, advogado, surge referido nas escutas da Operação Influencer, investigação conduzida pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). Segundo o Ministério Público, o advogado, ligado à Start Campus, participou na elaboração de uma portaria do então ministro João Galamba, destinada a viabilizar o grande centro de dados de Sines — considerado o maior investimento estrangeiro em Portugal desde a Autoeuropa. As escutas telefónicas transcritas pelo DCIAP documentam contactos entre o advogado e administradores da Start Campus, considerados relevantes para o esclarecimento do processo. A investigação assinala coordenação entre agentes públicos e privados com vista à criação de condições favoráveis à aprovação do projecto.

O projecto solar Sophia enquadra-se num contexto de expansão acelerada da produção fotovoltaica, em que a dimensão e a localização dos empreendimentos levantam questões ambientais e sociais de grande alcance. Os estudos técnicos apontam para aumento da temperatura local entre 3 e 5 graus, perda de biodiversidade, alterações na drenagem natural e degradação dos solos, com repercussões directas sobre a agricultura, as comunidades rurais e o equilíbrio ecológico da região. Prevê-se também o isolamento de pequenas povoações e a transformação definitiva da paisagem, com impactos duradouros no território e na qualidade de vida das populações locais.

O processo encontra-se sujeito a avaliação ambiental e a pareceres técnicos que determinarão a sua viabilidade final. A discussão pública em torno do projecto reflecte uma preocupação crescente com a forma como os grandes investimentos energéticos estão a ser conduzidos em Portugal e com a necessidade de assegurar que a política de transição ambiental decorre de forma transparente, equilibrada e compatível com a preservação do património natural.

O projecto Sophia, localizado no concelho do Fundão, prevê a ocupação de 428 hectares de Reserva Ecológica Nacional, abrangendo zonas de leitos e margens de cursos de água, áreas de risco de erosão e territórios classificados pela sua sensibilidade ambiental. O empreendimento implicará o abate de cerca de 1.500 sobreiros e afectará habitats de mais de 140 espécies de aves, incluindo a Águia-imperial-ibérica, o Abutre-preto e a Cegonha-preta — todas espécies protegidas em áreas de Reservas Naturais.

Trophic convergence of marine vertebrate communities worldwide


Marine vertebrate communities globally exhibit trophic convergence, meaning communities in different locations with similar environmental conditions develop similar feeding structures and functional roles. This functional similarity, driven primarily by temperature, productivity, and depth, results in the emergence of six distinct types of trophic communities worldwide. This convergence challenges traditional biogeographic models based on geographic isolation and supports the idea that shared environmental pressures shape marine ecosystems, even with different species.[artigo aqui]

Key findings

Six global trophic community types: Studies have identified six consistent types of marine trophic communities (TC1-TC6) that appear across the globe.

Environmental drivers: The specific type of trophic community that emerges in a region is largely determined by environmental factors, especially:
  • Temperature: As temperatures get colder towards the poles, overall trophic complexity tends to decrease.
  • Productivity: The availability of energy at the base of the food web is a fundamental driver of community structure.
  • Depth: Shallower coastal areas tend to support more complex and specialized trophic communities.
Functional similarity over evolutionary history: The findings show that geographically distant communities with different evolutionary origins can converge into the same functional type when they share similar environmental conditions. This indicates a strong role for convergent evolution in shaping global marine biodiversity patterns.

Implications for conservation: The existence of these global trophic analogs provides a new benchmark for conservation and management efforts, helping scientists to better understand and predict the impacts of environmental change on marine biodiversity.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Relatórios e críticas académicas sobre o REACH

Em complemento ao que já foi dito aqui, sugiro a leitura da seguinte informação. Apesar dos seus progressos, diversos estudos académicos têm apontado limitações importantes que comprometem a sua eficácia ambiental.

Entre as principais críticas destaca-se a lentidão dos processos de avaliação e autorização, que faz com que muitas substâncias perigosas permaneçam no mercado durante anos antes de qualquer restrição efetiva. A qualidade e transparência dos dados submetidos pelas empresas também suscitam dúvidas: análises recentes revelam que mais de metade dos estudos utilizados não seguem padrões regulatórios consistentes.

Outro ponto central é a avaliação insuficiente dos efeitos combinados de misturas químicas. O REACH tende a analisar substâncias isoladamente, ignorando o chamado efeito cocktail, em que misturas de compostos aparentemente inofensivos podem causar sérios impactos sobre ecossistemas aquáticos e terrestres. Investigadores e organizações ambientais defendem a introdução de um mixture assessment factor para refletir melhor a realidade ecológica.

Estudos em ecotoxicologia demonstram que os dados de toxicidade ambiental no REACH são incompletos ou de baixa qualidade, o que dificulta a avaliação da pegada ecológica das substâncias. Isto tem implicações diretas na biodiversidade, na contaminação da água e do solo, e na saúde dos ecossistemas.

Além disso, há disparidades na aplicação entre Estados-Membros, o que fragiliza a coerência da proteção ambiental. A indústria, por seu lado, reconhece o valor do REACH, mas critica os custos e a burocracia associados.

1. Comissão Europeia / ECHA


Socio-economic analysis in REACH. Portal da ECHA que explica como são feitas as análises socioeconómicas para autorizações e restrições.

Evaluation under REACH. Página da ECHA que explica como funcionam os processos de avaliação (compliance check, substance evaluation, testing proposals).


2. Relatórios de avaliação económica ou de custo-benefício

SWD (2018) – Cost and benefit assessments in the REACH restriction dossiers. Este é um relatório da Comissão Europeia (Serviço de Apoio) que analisa os custos e benefícios das restrições propostas sob o REACH (Anexo XVII).

ECHA (2021) “REACH authorisation has positive health and environmental impacts”. Notícia / estudo de impacto socioeconómico que mostra que a exigência de autorização fez muitas empresas substituir substâncias muito preocupantes.

10 REACH Tests (ECHA) — relatório da EEB (European Environmental Bureau) com críticas sobre a metodologia socioeconómica da ECHA e propondo “10 testes” para melhorar a atuação da agência.


3. Críticas Académicas e Impactos Ambientais

1.Santos, A. C. T. e outros. Towards a more effective REACH legislation in protecting human health. Toxicological Sciences. Este artigo discute a lentidão do processo de avaliação/substância e a necessidade de decisões mais rápidas sob o REACH.

2.Spielmann, H. e outros   A critical evaluation of the 2011 ECHA reports on compliance with the REACH and CLP regulations and on the use of alternatives to testing on animals for compliance with the REACH regulation.  Este artigo faz uma crítica aos primeiros relatórios da ECHA sobre conformidade e uso de alternativas a testes em animais.


4. Beyer, Petersen, Song, Ruus, Grung, Bakke, Tollefsen (2014) — Environmental risk assessment of combined effects in aquatic ecotoxicology: a discussion paper. Efeitos combinados de contaminantes aquáticos; relação com REACH, Water Framework Directive (WFD) e Marine Strategy Framework Directive (MSFD).  Aborda desafios ecológicos concretos — misturas aquáticas, biodiversidade, várias espécies de fauna aquática

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Novo estudo mostra que a expansão das plantações de eucalipto no País Basco levantou preocupações em relação à biodiversidade, particularmente, aos efeitos adversos sobre as comunidades aviárias


A expansão das plantações de eucalipto no País Basco levantou preocupações em relação à biodiversidade, particularmente, aos efeitos adversos sobre as comunidades aviárias. Este estudo examinou as diferenças na diversidade de espécies de aves em três grandes ecossistemas florestais (florestas nativas, plantações de pinheiros e plantações de eucalipto) e avaliou os fatores que influenciam estas variações, incluindo a vegetação, a paisagem circundante, a estrutura da floresta, a localização e a madeira morta. 
Os nossos resultados indicaram que as plantações de eucalipto suportam uma menor riqueza e abundância de espécies de aves em comparação com as florestas nativas e as plantações de pinheiros, e que a composição de espécies de aves nas plantações de eucalipto era distinta dos outros dois ecossistemas florestais, especialmente em comparação com as florestas nativas. Embora as plantações de pinheiros acolhessem algumas espécies de aves florestais, as comunidades aviárias permaneceram distintas das das florestas nativas, enfatizando o papel insubstituível das florestas nativas como habitat das aves. 
Além disso, uma análise das interações entre aves e plantas sugeriu que a maioria das interações entre plantas e aves eram com plantas nativas, uma vez que as espécies de plantas e a diversidade estrutural das florestas nativas fornecem um conjunto mais amplo de nichos para as aves, em comparação com comunidades mais simplificadas de plantações florestais. 
Além disso, estas interações ocorreram principalmente com plantas de frutos silvestres em comparação com espécies arbóreas. 
O nosso estudo destaca a necessidade urgente de conservação e restauro das florestas nativas para manter a diversidade aviária e sublinha a importância de estratégias de gestão florestal sustentável que priorizem a conservação da biodiversidade.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Para garantir circulação "mais segura e permanente" entre Campo do Gerês e Portela do Homem

Estrada da Mata de Albergaria vai ser pavimentada por 1 milhão de euros

Uma intervenção que só vai fazer aumentar a carga em Albergaria e consequentemente a poluição atmosférica e sonora, o abandono de lixo, a deposição de poeiras que recobrem a vegetação, o pisoteio descuidado de plantas e a perturbação constante da fauna — não é raro o atropelamento de animais como corços, martas ou raposas. E o problema é que estes danos não são temporários. Acumulam-se num ciclo contínuo de degradação que ameaça transformar uma área que deveria ser de proteção rigorosa num exemplo preocupante de desleixo ambiental. Senhor Presidente, ainda é tempo de reconsiderar a dita requalificação de Albergaria. Não transforme um património único, que deveria ser defendido com visão e coragem, num instrumento de conveniência política. A proteção da Mata exige responsabilidade. O que está em causa não é apenas o presente, mas sim a herança que deixaremos às gerações do futuro.

Será gasto um milhão de euros desviando um montante que deveria ser investido em projetos que inspirassem e orientassem a população a uma relação com a Mata que viabilizasse a sua manutenção, estudo e contemplação. 

Fonte: O Minho 

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Naturalmente Flores


O filme foi realizado e editado por Paulo Ferreira e tem a narração a cargo de Eduardo Rêgo. Paulo Ferreira esteve a gravar na ilha das Flores durante 15 dias em 2022 e mostra-nos algumas singularidades ao nível da flora e da fauna, incluindo a marinha. As imagens do fundo do mar das Flores despertam em nós a consciência ambiental necessária para que todos possamos reverter o sentido das alterações climáticas. As imagens noturnas (da Via Láctea), gravadas ao redor da ilha das Flores são uma visão diferente do que estamos habituados a ver. Isto porque a Ilha das Flores possui pouca poluição luminosa, algo que a todos deveria preocupar. Durante o filme quase que damos por nós sentados à beira mar, a ouvir o som dos Cagarros, sob um céu estrelado salpicado pela luz da Via Láctea. São imagens belas de uma Ilha especial para Paulo Ferreira.

A Ilha das Flores, nos Açores, é conhecida pela sua rica biodiversidade, com destaque para a presença de várias espécies endémicas e habitats únicos. A ilha possui uma área protegida, o Parque Natural da Ilha das Flores, que integra diversas zonas classificadas na Rede Natura 2000 e um Sítio Ramsar. A Reserva da Biosfera da Ilha das Flores, reconhecida pela UNESCO, reforça a importância da conservação deste património natural. 
Biodiversidade:
Espécies endémicas:
A Ilha das Flores possui uma elevada concentração de espécies endémicas, tanto na flora como na fauna. Entre os vertebrados endémicos dos Açores, nove aves, um morcego e um peixe marinho são conhecidos apenas na ilha. 
Plantas:
Mais de 50 espécies e subespécies de plantas vasculares são endémicas do arquipélago. Destacam-se a Myosotis azorica (não-me-esqueças) e a Veronica dabneyi, duas plantas raras que só são encontradas em estado selvagem nas ilhas do Grupo Ocidental. 
Fauna terrestre:
Três espécies endémicas de artrópodes são exclusivas da Ilha das Flores: o escaravelho-cascudo-da-mata (Tarphius floresensis), Agyneta depigmentata e Cheiracanthium floresense
Aves marinhas:
A ilha é um local de nidificação importante para várias espécies de aves marinhas, muitas delas protegidas pela Diretiva Aves da União Europeia. 

Parque Natural e Reserva da Biosfera:
O Parque Natural da Ilha das Flores é responsável pela conservação da natureza na ilha e nas áreas marinhas circundantes. 
A Reserva da Biosfera da Ilha das Flores, reconhecida pela UNESCO, destaca a importância da ilha como um local com valores ambientais e culturais únicos. 
A Reserva da Biosfera promove atividades de turismo sustentável, investigação e valorização da biodiversidade. 

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Declínio de animais dispersores de sementes dificulta combate às alterações climáticas


Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Grande parte das árvores da Amazónia (90%), da Mata Atlântica (90%) e do Cerrado (60%) depende dos animais para espalhar as suas sementes, garantir a sua reprodução e manter a floresta em pé. São aves, mamíferos, peixes e até uma espécie de anfíbio que desempenham um papel crucial para a diversidade das florestas em todo o mundo. No entanto, esse processo tem se desintegrado à medida que populações de animais dispersores de sementes vêm diminuindo drasticamente.

A perda de animais frugívoros (cuja dieta alimentar é composta principalmente de frutos) provoca outro efeito: altera a composição das florestas, enfraquecendo a sua capacidade de absorver dióxido de carbono e, assim, reduzindo o  seu papel em mitigar as alterações climáticas.

Mas grandes esforços globais para proteger e recuperar ecossistemas continuam subestimando os animais dispersores de sementes nas estratégias de conservação da biodiversidade e recuperação florestal.

“Muito se comenta hoje sobre créditos de carbono e restauração da floresta, mas quem ‘planta’ o carbono? É o tucano, a cutia, a anta, a jacutinga. Para se ter uma copaíba, por exemplo, a floresta precisa ter tucanos e macacos para dispersarem suas sementes. Portanto, precisamos incluir os animais frugívoros na equação da restauração, pois já há ciência suficiente para se quantificar quanto do carbono florestal é plantado pelos animais”, diz Mauro Galetti, um dos diretores do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro.

Galetti e pesquisadores dos Estados Unidos, Suíça, Panamá, Alemanha, Espanha e Portugal publicaram um artigo na Nature Reviews Biodiversity alertando sobre as consequências da perda de dispersores de sementes nas mudanças no clima. O papel dos animais frugívoros é tão central na manutenção da biodiversidade das plantas que, segundo os pesquisadores, os esforços de restauração e proteção de ecossistemas correm o risco de não atingir as metas se o declínio dos dispersores de sementes não for mitigado.

Um estudo recente, publicado na revista Science por alguns dos pesquisadores que assinam o alerta, mostrou que a perda de aves e mamíferos em todo o mundo resulta na redução de 60% da propagação de sementes. “Avançamos muito para resolver esses problemas da perda de dispersores de sementes e, apesar de o Brasil ser o país com mais estudos científicos sobre dispersão de sementes, é preciso se aprofundar no problema e entender, por exemplo, que plantas e ecossistemas estão mais vulneráveis a essa perda. Além disso, é claro, precisamos identificar quais estratégias restauram melhor a dispersão de sementes", diz o pesquisador.

Heróis desconhecidos
Ao comer um fruto, o animal dispersor é “contaminado” pela semente que passa pelo tubo digestivo e recebe um tratamento químico (por ação do suco gástrico) ou mecânico – no caso das aves, por exemplo, a moela amassa a semente –, o que permite a entrada de água na semente e a deixa pronta para germinar onde quer que o animal a deposite posteriormente, ao defecar.

“Portanto as sementes consumidas por animais vão germinar mais, mais rápido e vão se estabelecer em lugares mais seguros para crescer. E se não tiver um animal para ‘machucar’ a semente e levá-la para longe da planta-mãe, ela não vai germinar e, mesmo que germine perto da planta-mãe, provavelmente vai morrer porque haverá competição entre elas", conta Galetti.

Mas é importante ressaltar que não há um padrão: em cada lugar do mundo, em cada espécie de árvore e de animal vertebrado essa interação é diferente. “A castanha-do-pará, por exemplo, só tem um dispersor: a cutia. Se a cutia for extinta localmente, o serviço de dispersão de sementes da castanha-do-pará sucumbe. Dependemos então de um serviço ecológico fundamental da cutia", afirma Galetti.

Enquanto na Mata Atlântica aves, morcegos, macacos e antas são os principais dispersores de sementes, na Amazónia e no Pantanal os peixes desempenham um papel crucial. “Os pacus e tambaquis, por exemplo, percorrem grandes distâncias e comem grandes quantidades de frutos, o que os torna superdispersores de diferentes espécies nas matas ciliares", conta o pesquisador.

Serviços ecossistémicos
Assim como abelhas e outros polinizadores, o papel dos animais frugívoros é essencial para a reprodução de plantas. Mas, embora ambos os serviços estejam ameaçados por fatores como mudanças no uso da terra e exploração direta, cada grupo responde de maneira diferente aos impactos. Enquanto os polinizadores sofrem mais com pesticidas, os dispersores de sementes são mais afetados pela perda de hábitats e pela caça.

Outra diferença é que o declínio dos polinizadores tem recebido mais atenção pública e política, já que a sua ausência afeta diretamente a produção de alimentos. Já os impactos da perda de dispersores de sementes são mais difíceis de medir, influenciando a biodiversidade e o armazenamento de carbono ao longo do tempo.

“Ambos são importantes e devem ser levados em conta nos projetos de restauração e conservação. Porém, o declínio dos polinizadores é mais facilmente medido no curto prazo, ele gera impactos económicos imediatos como a perda de produtividade das lavouras, enquanto os efeitos da perda de dispersores de sementes ocorrem de forma lenta e ampla, comprometendo a funcionalidade e a resiliência dos ecossistemas", explica Galetti à Agência FAPESP.

O cientista afirma que os custos económicos do declínio dos dispersores de sementes – como perda de armazenamento de carbono, redução do fornecimento de produtos florestais e declínio da resiliência natural a eventos ambientais extremos – ainda não foram quantificados globalmente. “A restauração não consiste em apenas plantar árvores, é preciso considerar quem vai manter o futuro dessa floresta, que são os animais dispersores. Há alguns anos acreditava-se que ao plantar a floresta esses animais iriam até ela. Mas não é assim que acontece. É muito mais complexo ter uma floresta restaurada funcionando", conta.

No artigo, os pesquisadores destacam que novas sínteses e modelos de dados estão captando mudanças funcionais em grande escala e ajudando a revelar impactos de longo prazo, como a recuperação prejudicada de incêndios florestais e a degradação de hábitats para animais. “Enfrentar o declínio dos dispersores de sementes é fundamental para preservar a biodiversidade animal, garantir a conectividade das florestas e o equilíbrio das comunidades vegetais”, afirma Galetti.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Transformando Tradições em Novos Ciclos


Hoje lembrei-me de África. Um super-continente riquíssimo de recursos naturais, mas politicamente cheio de regimes ditatoriais, milícias, refugiados, exploração e escravidão. Incontáveis os maus momentos, mesmo desumanos.
Quem vai a África fica marcado. Há uma sensação em nós que foi ali a diáspora do Homo Sapiens.
Os céus de dia são de um azul cobalto. Os céus de noite amplos e luminosos. Milhões de estrelas e galáxias.
O calor e o sorriso das gentes de várias tribos. Imensas lições de bondade e família quando regressamos.
O exotismo da fauna e flora também incluídos.
Os dias parecem demorar mais que 24 horas.
Porém as mudanças por uma democracia e autodeterminação dessas gentes são muito lentas e bem merecidas. Muito culpa nossa, o Norte Global e a China.

domingo, 27 de março de 2022

Ernst Haeckel – Ascidiae - Kunstformen der Natur – 1899


Ernst Heinrich Philipp August Haeckel foi um biólogo, naturalista, evolucionista, artista, filósofo e médico alemão que dedicou a vida a pesquisar a flora e a fauna, desde o topo das montanhas até o mais profundo dos oceanos. Defensor ardoroso e desenvolvedor das teorias evolucionistas de Darwin, Haeckel denunciou o dogma religioso, escreveu tratados filosóficos, obteve um doutorado em zoologia e cunhou termos científicos que passaram ao uso comum, incluindo ecologia, filo e células embrionárias..
O legado de Haeckel tornou-se ainda mais precioso por sua motivação não apenas de descobrir, mas também de explicar. Artista talentoso, criou centenas de desenhos, aquarelas e esboços detalhados de suas descobertas, e publicou-os em volumes que incluem várias coleções de organismos marinhos e o majestoso Kunstformen der Natur (Formas de Arte da Natureza). Como uma enciclopédia visual minuciosa de coisas vivas, o trabalho de Haeckel era tão notável por sua precisão gráfica e sombreamento meticuloso quanto por sua compreensão da evolução orgânica. De morcegos à água-viva, lagartos a líquens e aranhas a anêmonas do mar, Haeckel enfatizou as simetrias essenciais e a ordem da natureza, e encontrou beleza biológica até mesmo nas criaturas mais improváveis.
Ernst Haeckel nasceu em Potsdam, em 16 de fevereiro de 1834.

A Wikimedia Commons disponibiliza as 100 lâminas originais da obra Kunstformen der Natur de Ernst Haeckel, publicadas entre 1899 e 1904. A coleção completa está organizada por número de placa, permitindo visualizar e descarregar as ilustrações detalhadas de organismos marinhos e botânicos.

segunda-feira, 14 de março de 2022

Altitude - A Natureza da Serra da Estrela


O documentário "Altitude - A Natureza da Serra da Estrela", partilhado no canal de Diogo Santos, oferece um retrato profundo, poético e cientificamente rico sobre o maior ecossistema de montanha em Portugal Continental. Longe de se focar apenas na faceta turística da neve ou da mítica Torre, a obra funciona como um ensaio visual e ecológico sobre a resiliência da vida selvagem, o impacto histórico da ação humana e a beleza cíclica das estações nesta região imponente.

A narrativa estrutura-se de forma fluida através da passagem do tempo, usando a água e o degelo como o fio condutor que une o topo do planalto central aos vales profundos. O inverno abre o documentário como um elemento de beleza solene, mas acima de tudo como uma imensa reserva hídrica. A neve que cobre os cumes atua como uma dádiva que, ao derreter na primavera, alimenta os caudais dos rios Alva, Zêzere e Mondego. É nesta transição que a câmara capta a mestria biológica da fauna local. Descobrimos o melro-de-água, um passeriforme especialista em mergulho com penas perfeitamente impermeáveis, e a lontra, o caçador eficaz que habita o Mondego. À noite, o documentário revela um reino mais secreto e frágil, habitado por anfíbios como os tritões e a salamandra-lusitânica, uma espécie endémica do noroeste da Península Ibérica que encontra na serra o seu limite meridional e que depende crucialmente da pureza das águas e da humidade dos musgos para respirar através da pele.

Outro pilar fundamental desta análise é a geologia e a marca do passado glaciar. O Vale Glaciar do Zêzere é apresentado como um testemunho monumental de uma era que, há cerca de trinta mil anos, moveu milhões de toneladas de gelo e moldou a paisagem, deixando espalhados os icónicos blocos erráticos de granito. Estas formações rochosas, além de servirem de abrigo a répteis como a lagartixa-ibérica ou a cobra-de-escada, ganharam contornos antropomórficos e nomes que passaram de geração em geração, como a famosa Cabeça da Velha. O documentário realça que estas pedras contam a história da simbiose entre o homem e a montanha, visível na arquitetura de granito das encostas norte e leste, que contrasta com o xisto utilizado nas vertentes sul e oeste.

No entanto, a mensagem central da obra não é apenas contemplativa, mas sim de alerta ecológico e conservacionista. Através do testemunho do pastor Joaquim, que cuida do seu rebanho de ovelhas e cabras no distrito da Guarda, expõe-se o declínio das atividades tradicionais e a consequente perda de identidade cultural devido ao isolamento que outrora protegia estes modos de vida. Mais grave ainda é a degradação da biodiversidade provocada pela alteração intencional da paisagem através de fogos e da desflorestação ao longo dos séculos. O desaparecimento de grandes predadores, como o lobo, que foi perseguido até ao extermínio na região, gerou um desequilíbrio profundo no ecossistema: sem o lobo, a população de javalis cresceu de forma descontrolada, causando prejuízos agrícolas avultados e demonstrando o impacto dramático que a extinção de uma única espécie pode ter em toda a cadeia alimentar.

Apesar das cicatrizes humanas e da ameaça das monoculturas intensivas, como os eucaliptais que oferecem pouco mais do que suporte físico a aves de rapina como a águia-de-asa-redonda, o documentário termina com uma nota de esperança. Nos bosques nativos que ainda subsistem — compostos por carvalhos-negrais, castanheiros, faias e bideiros —, assiste-se ao milagre da regeneração e ao ciclo perfeito da matéria orgânica impulsionado pelos fungos decompositores. É nestes refúgios preservados que a vida selvagem reconquista o seu espaço. O regresso recente do esquilo-vermelho, vindo do norte de Espanha após séculos de extinção em solo português, serve de exemplo perfeito. Ao enterrar milhares de bolotas durante o outono para se precaver de predadores silenciosos como a coruja-do-mato, o esquilo acaba por reflorestar a serra involuntariamente. "Altitude" é, portanto, um hino à resiliência da natureza e um apelo urgente para que se protejam as pequenas e complexas interações que mantêm vivo o coração da Serra da Estrela.