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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

PJ desmantela grupo neonazi "Grupo 1143" responsável por crimes de ódio e detém 37 suspeitos


A Polícia Judiciária (PJ) desmantelou hoje uma associação criminosa que praticava crimes de ódio, tendo detido 37 suspeitos com “vastos antecedentes criminais” e “ligações a grupos de ódio internacionais”.

Em comunicado, a PJ adianta que, no âmbito da operação “Irmandade”, foram constituídos “mais 15 arguidos e realizadas 65 buscas domiciliárias e não domiciliárias”.

Os detidos, entre os 30 e os 54 anos, “adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema-direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes”.

São suspeitos de terem fundado a organização criminosa, com uma estrutura hierárquica e distribuição de funções, “com o exclusivo propósito de desenvolver atividades que incitavam à discriminação, ao ódio e à violência racial”.

A organização é “responsável pela prática de crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensas à integridade física qualificada e detenção de armas proibidas”.

Na operação, conduzida pela Unidade Nacional de Contraterrorismo, participaram cerca de 300 elementos da PJ.

Segundo a CNN Portugal, o líder do grupo é Mário Machado, conhecido neonazi que está a cumprir pena por crimes da mesma natureza e que dava as instruções a partir da cadeia, e as vítimas eram imigrantes de países islâmicos.

Fonte próxima do processo disse entretanto à Lusa que a cela de Mário Machado foi alvo de buscas hoje de manhã.

Os detidos têm marcado o primeiro interrogatório judicial, para aplicação das medidas de coação, na quarta-feira no Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa.

Há dois elementos "não civis" entre os 37 detidos do Grupo 1143 durante a Operação Irmandade, esta terça-feira. A PJ não quis explicitar se se tratam de elementos das forças e serviços de segurança, na conferência de imprensa realizada poucas horas após as buscas. Mas o Expresso apurou que um destes dois elementos é um militar e o outro polícia.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O futuro será verde ou não será - a lição de Mancuso


Stefano Mancuso, botânico italiano e um dos maiores especialistas em neurobiologia vegetal, afirmou recentemente, em entrevista à Lusa, que os humanos deveriam aprender com as plantas a resolver problemas, em vez de fugir deles.

Mancuso recordou uma evidência antiga. As plantas não fogem, transformam o lugar onde estão. Essa imobilidade criativa, resultado de milhões de anos de evolução, encerra uma lição de enorme atualidade. Num mundo que procura soluções tecnológicas para todos os males, é nelas que se encontra a sabedoria de permanecer, adaptar e regenerar.
Concordar com Stefano Mancuso é reconhecer uma evidência que se tem tornado impossível de ignorar. Serão as plantas, e não a tecnologia, a oferecer soluções para a resolução de alguns dos maiores problemas da humanidade. Esta é uma afirmação que fere a vaidade moderna, habituada a ver nas máquinas a extensão gloriosa do cérebro humano. E, no entanto, tudo na história da Terra aponta para o contrário.

Muito antes de existirem ferramentas, cidades ou linguagem, os organismos fotossintéticos já haviam criado o oxigénio que respiramos, e as plantas contribuíram para estabilizar o solo e os ciclos que permitem a vida. Quando o homem ainda era sonho, elas já trabalhavam em silêncio na arquitetura do planeta.

A neurobiologia vegetal, campo que Mancuso ajudou a fundar, revela o que a intuição antiga já pressentia. As plantas processam informação, comunicam, ajustam respostas e resolvem problemas sem precisar de cérebro, através de mecanismos fisiológicos e bioquímicos.

Cada raiz, cada folha e as redes subterrâneas da rizosfera, onde fungos micorrízicos e bactérias simbióticas ligam plantas, funcionam como um tecido vivo de processamento e troca. Nesta descentralização está a sua força.

Enquanto a civilização humana constrói sistemas hierárquicos e frágeis, onde a queda de um centro pode paralisar o todo, as plantas operam numa estrutura descentralizada e resiliente. A raiz que morre não compromete o organismo, porque outras se estendem, outras aprendem, outras ocupam o vazio.

Esta lição de organização descentralizada desfaz a crença ingénua de que a tecnologia, criação habitualmente vertical e centralizada, pode substituir a sabedoria dos sistemas vivos. Um algoritmo pode processar dados, mas não compreende a textura da interdependência.

Uma máquina pode reproduzir formas, mas desconhece o ritmo paciente com que a vida se refaz. As plantas, pelo contrário, vivem no tempo longo da Terra. Não correm, não consomem, não conquistam. Regeneram.

É esta paciência vegetal que o homem perdeu. A era digital, com o seu ruído incessante, fez-nos confundir velocidade com progresso. O crescimento tornou-se uma corrida, o desenvolvimento uma métrica de exaustão. As plantas mostram-nos outro caminho. Crescem devagar, mas nunca em vão.

O carvalho que demora décadas a atingir a sua copa é o mesmo que cria sombra, abrigo, alimento e estabilidade para tudo o que o rodeia. Nenhum servidor informático, por mais potente, produzirá jamais uma floresta.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Ensaio - Contra a boçalidade, polarização, ódio, desinformação e reforço positivo nos jovens


Bom dia, amigos. Um dia de resistência. Uma greve geral!                            
Lembrei-me deste tema que se tronou um ícone da música gótica nos anos 80 e é muito actual.
Há músicas que falam de paisagens interiores — desertos de emoção, mares contidos, ventos que nos atravessam sem deixar rasto. “No Time to Cry”, dos Sisters of Mercy, é uma dessas paisagens sonoras: fria à superfície, mas pulsante por dentro.
Lançada em 1985, é uma confissão disfarçada de resistência. O narrador ergue-se entre ruínas afectivas e declara: “não há tempo para chorar”. Não por falta de sentimento, mas porque a dor já se tornou parte do caminho.
A voz grave de Andrew Eldritch ecoa como um mantra urbano — o cântico de uma humanidade que aprendeu a conter o pranto para sobreviver num mundo acelerado e distraído.
"I've got no time to cry" — sugere que o narrador tenta fugir das emoções, mantendo-se ocupado ou emocionalmente desligado.

Acontecimentos recentes daquele jovem de 14 anos que matou a mãe, ou ainda a filha que esfaqueou o pai. Chocou o País. Já foram ditas muitas opiniões. Na minha opinião a falta de barreiras na educação nos anos iniciais leva a que filhos pensem que podem tudo, que têm direito a tudo sem perceberem que têm igualmente deveres. Incapacidade de aceitarem o "não" às suas vontades, leva a comportamentos destes. Porém há que dizer sempre aos filhos que tal como a natureza, também o ser humano alterna entre ciclos de retraimento e renascimento. Há que dizer aos filhos o Não com convicção, para lhes fornecer ferramentas de integração social.  Há épocas em que o inverno domina a alma, e o gelo emocional é a única defesa possível. Nessa altura cabe à família a escuta e dizer-lhes sempre acreditar no Amor, porque na Natureza também há que sobreviver e as espécies, mesmo nesse silêncio, progridem e reinventam-se. Adaptam-se e avançam com novas estratégias.   

Claro que hoje em dia a tarefa dos pais é muito mais desafiante.. As redes sociais criam dependência, espalham violência, das mais variadas formas. A extrema direita está a alimentar o lado mais fraco que todos temos, está-se a banalizar o ódio, afectando a saúde mental de pais e filhos. Estas situações curam-se com pedagogia, da presença, dos bons exemplos, na família, amigos e até em comunidades. A comunicação social podia e devia ajudar. Porém o que se vê é explorar a violência até ao infinito (Correio da Manhã, p.ex.), dar palco à extrema-direita,  que alimentam o tal lado mau da humanidade. A média perdeu todo o seu sentido pedagógico: não fornece exemplos de altruísmo, de educação ambiental.  E também não podemos esquecer o espectáculo de boçalidade que ocorre com cada vez maior frequência e maior intensidade na AR. Porém, chegar a casa e conversar. Sem net, sem  TV. Ouvir os filhos, netos. 

Aos pais, avós e jovens, estou sempre a dizer: confiem, inspirem-se, leiam mais, adiram a alguma associação ambiental e ou de solidariedade. E façam actividades comuns junto da Natureza. Não adiem o Amor universal.

"No Time to Cry” é, assim, um espelho do nosso tempo: uma elegia à contenção, um hino à resistência emocional e, quem sabe, um lembrete de que até o mais frio dos corações espera pela primavera. É um processo individual e de escuta. E isso faz-se com activismo pró-activo, afectos, cooperação e gregarismo 🌿

sexta-feira, 6 de junho de 2025

A Nação das Plantas

Existe uma nação sem hierarquias ou fronteiras onde é proibido o uso de recursos naturais não renováveis. É a “Nação das Plantas”, cuja Constituição foi escrita pelo botânico italiano Stefano Mancuso.

Ver as coisas do ponto de vista das plantas é revolucionário. Somos quase o oposto delas. Nós consumimos energia e recursos. Elas produzem. Nosso organismo é concentrado e hierárquico. O delas é difuso, em rede. Fizemos o mundo à nossa imagem: todas as organizações são hierárquicas, há sempre uma “cabeça” no topo que toma todas as decisões. Isso é muito ineficiente. As plantas não têm nada que se compare ao nosso cérebro. Funcionam em rede, como a internet. Todas as decisões são tomadas localmente.

“A Nação das Plantas” imagina uma Constituição vegetal.
A Constituição das plantas tem oito artigos. O primeiro afirma que a nação das plantas reconhece a Terra como o lar comum de toda a vida e que todo ser vivo é soberano. A nação das plantas não reconhece nenhuma hierarquia ou fronteiras e proíbe o consumo de quaisquer recursos que não sejam renováveis para as próximas gerações.

Sobre o Autor
Stefano Mancuso nasceu em 1965, em Catanzaro, na Itália. É formado pela Università degli Studi di Firenze (UniFI). Em 2005, fundou o LINV – International Laboratory of Plant Neurobiology, um laboratório dedicado à neurobiologia vegetal, que explora a sinalização e a comunicação entre plantas em todos os seus níveis de organização biológica. Em 2012, participou do projeto Plantoid e projetou um robô para que agisse e crescesse como uma planta. Em 2014, ele abriu, na UniFI, uma start-up dedicada à biomimética vegetal, ramo que envolve artefatos tecnológicos imitando determinadas capacidades das plantas, e desenvolveu um modelo de estufa flutuante chamado “Jellyfish Barge”. É considerado um dos expoentes da neurobiologia vegetal. Publicou, entre outros, os livros, "Revolução das plantas", "A incrível viagem das plantas" e "Planta do mundo"

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Citação de Brian Eno


"Estou cada vez mais convencido de que a nossa única esperança de salvar o nosso planeta é se começarmos a ter sentimentos diferentes sobre ele: talvez se ficarmos reencantados pela incrível improbabilidade da vida; talvez se sofrermos arrependimento e até vergonha por o que já perdemos; talvez se nos sentirmos entusiasmados com os desafios que enfrentamos e com o que ainda poderá tornar-se possível. Resumidamente, precisamos de nos voltar a apaixonar, mas desta vez pela Natureza, pela Civilização e pelas nossas esperanças para o futuro."

Brian Eno quote:
"I’m more and more convinced that our only hope of saving our planet is if we begin to have different feelings about it: perhaps if we became re-enchanted by the amazing improbability of life; perhaps if we suffered regret and even shame at what we’ve already lost; perhaps if we felt exhilarated by the challenges we face and what might yet become possible. Briefly, we need to fall in love again, but this time with Nature, with Civilisation and with our hopes for the future."

sábado, 8 de junho de 2024

Música do BioTerra: The Culture Club - The War Song

Melhor som aqui
Letra
[refrão]
War, war is stupid
And people are stupid
And love means nothing
In some strange quarters
War, war is stupid
And people are stupid
And I heard them banging
On hearts and fingers
(War)

People fill the world
With narrow confidence
Like a child at birth
A man with no defense
What's mine is my own
I won't give it to you
No matter what you say
No matter what you do

Now we're fighting
In our hearts
Fighting in the street
Won't somebody help me?

[refrão]

Man is far behind
In the search for something new
Like a Philistine
We're burning witches too
This world of fate
Must be designed for you
It matters what you say
It matters what you do

Now we're fighting
In our hearts
Fighting in the street
Won't somebody help me?

[refrão]

(War)

After the bird has flown
He walked ten thousand
Miles back home
You can't do that to me, no
You can't do that to me
You can't do that to me, no
You can't do that to me

(War, war)

In this heart of mine
I find a place for you
For black or white
For all the children, too

Now we're fighting
In our hearts
Fighting in the street
Won't somebody help me?

[refrão]

No more war
(War, war is stupid)
Said no more war
(And people are stupid)
Said war
(And love means nothing
In some strange quarters)
I said war
No more war
(War, war is stupid)
Said no more war
(And people are stupid)
Said war
(And I heard them banging
On hearts and fingers)

Said no more war
(War, war is stupid
And people are stupid)
I said no more war
(And love means nothing
In some strange quarters)
Senso hant-ai
(War, war is stupid
And people are stupid)
Senso hant-ai
Say no more war
(And I heard them banging
On hearts and fingers)
Say no more

No more war
(War, war is stupid)
Say no more war
(And people are stupid
And love means nothing)
Say no more war
(In some strange quarters
War, war is stupid)
And no more war
(And people are stupid)
Oh, war
(And I heard them banging
On hearts and fingers)
I said no more war

(War, war is stupid)
And no more war
(And people are stupid)
Oh, war
(And love means nothing
In some strange quarters)

Quando Boy George lançou o tema The War Song, tive uma reacção cínica e achei o video muito light: como é que o pessoal pode dançar com o sofrimento de tantas vítimas das armas e guerras? Algumas guerras são motivações espúrias e estúpidas: gente maluca, com ideias  neoimperialistas, eugenia, nacionalistas, falsas interpretações da realidade etc... Agora, que envelheci vejo o clip de outra forma. Há alguma ingenuidade do cantor, mas realmente o mundo devia ser mais divertido, baseado em jogos tradicionais, mais pacifista e aproveitar os bons momentos da vida, como por exemplo, dançar.

Crítica à ignorância e apatia em "The War Song"
Em "The War Song", dos Culture Club, Boy George utiliza um refrão repetitivo e direto - “War is stupid and people are stupid” (A guerra é estúpida e as pessoas são estúpidas) - para ironizar a forma simplista e superficial com que a sociedade encara a guerra. O próprio artista já afirmou em entrevistas que a opção por uma linguagem simples foi intencional, servindo como crítica à apatia coletiva e à glamorização dos conflitos. Excertos como “love means nothing in some strange quarters” (o amor não significa nada em certos lugares) reforçam a ideia de que valores humanos básicos são facilmente descartados em contextos de intolerância e violência.

A letra também aborda como o egoísmo e a intolerância alimentam guerras, exemplificado em “What's mine is my own, I won't give it to you, no matter what you say, no matter what you do” (O que é meu é meu, não te vou dar, não importa o que digas, não importa o que faças). Ao citar comportamentos como o de “um filisteu” e mencionar “queimando bruxas também”, a música faz referência à repetição histórica de perseguições e violência irracional. O videoclipe, com crianças mascaradas de esqueletos, reforça visualmente a mensagem de que a guerra destrói o futuro e a inocência. O apelo final por “no more war” (chega de guerra) e a inclusão de versos noutros idiomas, como “senso hant-ai” (anti-guerra, em japonês), ampliam o alcance da mensagem pacifista, tornando-a relevante para diferentes culturas.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Livro "A abolição do trabalho" de Bob Black (para descarregar)


Tão estimulante quanto contagioso, este texto escrito em 1985 continua a manter intacta a força para impulsionar as nossas vidas para uma busca da plenitude e enfrentar a mutilação que a economia nos impõe. Nesta altura do século XXI, a obra do anarquista Bob Black continua a ser uma heresia para muitos. Para nós, a abolição do trabalho é além de um harmónico canto à vida um monumental corte de mangas à ordem mental estabelecida.

[... ] Ninguém deveria trabalhar nunca. O trabalho é a fonte de quase toda a miséria existente no mundo. Quase todos os males que podem ser nomeados vêm do trabalho ou da vida num mundo desenhado em função do trabalho. Para parar de sofrer, temos que parar de trabalhar. Isso não significa que tenhamos que parar de fazer coisas. Significa que há que criar uma nova forma de vida baseada no jogo: por outras palavras, uma revolução lúdica. Por "jogo" também se deve considerar festa, criatividade, convivialidade, comida e talvez até arte. O jogo vai além dos jogos infantis, por mais dignos que sejam. Apelo a uma aventura coletiva baseada na alegria generalizada e na exuberância livre e recíproca. [... ]

E-Livro que pode descarregar aqui

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Margaret Mead - O fémur curado


Anos atrás, uma estudante perguntou à antropóloga Margaret Mead o que ela considerava ser o primeiro sinal de civilização numa cultura. O aluno esperava que Mead falasse sobre anzóis, potes de barro ou pedras de amolar.
Mas não. Mead disse que o primeiro sinal de civilização numa cultura antiga foi um fémur que foi quebrado e depois curado. Mead explicou que no reino animal, se você quebrar a perna, você morre. Você não pode fugir do perigo, ir ao rio para beber ou caçar para comer. Você é carne para feras rondantes. Nenhum animal sobrevive a uma perna quebrada por tempo suficiente para que o osso cicatrize.
Um fémur partido que cicatrizou é evidência de que alguém reservou um tempo para ficar com aquele que caiu, tratou o ferimento, carregou a pessoa para um local seguro e cuidou dela durante a recuperação. Ajudar alguém em dificuldades é onde a civilização começa, disse Mead."
Damos o nosso melhor quando servimos aos outros. Seja civilizado.

Fonte: Forbes

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Olá - Dia Mundial do Olá


Today is World Hello Day 👋 📞 📱🖱 🖲 📥 
On this day, people get together and start conversations with a hello.
To celebrate World Hello Day, we should say hello to ten people we have never spoken to before. While conversations can start a friendship, it should also bridge gaps in existing relationships. We should remember the friendships and relationships that have got strained over the years – we should connect with them and mend the relationship. All we need to remember is – it can start with a simple hello.
The start of a conversation can be a significant instrument in preserving peace and sanity in the world.

domingo, 19 de novembro de 2023

Encontros Improváveis - Priotr Kropotkin e Philippe Janin

Philippe Janin  (1959- ). França- "Paisagem"

"Somos ricos, muitíssimos mais ricos do que cremos. Ricos pelo que possuímos agora; ainda mais ricos pelo que podemos conseguir com os instrumentos atuais; infinitamente mais ricos pelo que poderíamos obter de nosso solo, de nossa ciência e de nossa habilidade técnica, caso se aplicassem a procurar o bem estar de todos”.- Priotr Kropotkin, in "A Conquista do Pão" (1892)

Piotr Alexeyevich Kropotkin foi um geógrafo, economista, cientista político, sociólogo, zoólogo, historiador, filósofo e ativista político russo, um dos principais pensadores do anarquismo no fim do século XIX, considerado também o fundador da vertente anarco-comunista.

Philippe Janin concluiu os seus estudos em Grenoble para conseguir o Diploma de Arquiteto. Oscilou então entre estas duas paixões antes de se dedicar exclusivamente à pintura em 1989. Pintor figurativo de inspiração provençal, Philippe Janin construiu o seu estilo combinando exigências rigorosas no estabelecimento, no desenho da obra e na exigência técnica na aplicação de materiais e pastas coloridas.
O princípio é dominar a técnica para libertar a mente dos obstáculos materiais e ter essa espontaneidade e instinto neste mais sensual eles encontram seu lugar e expressão natural. Daí a primazia do trabalho.
Nada de intelectual nesta pesquisa e é simplesmente alcançar a emoção.

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

O anarquismo


O anarquismo é uma corrente filosófica e política que valoriza a liberdade individual, a autogestão, a igualdade e a abolição de todas as formas de autoridade e hierarquia. Embora haja diversas interpretações e abordagens dentro do anarquismo, todas compartilham a visão de uma sociedade baseada na cooperação voluntária, na solidariedade e no respeito mútuo. Aqui estão alguns aspectos interessantes do anarquismo:
1. Valorização da Liberdade Individual: O anarquismo coloca a liberdade individual como um valor fundamental. Acredita-se que as pessoas são mais livres e realizadas quando não são submetidas a estruturas de poder opressivas.
2. Autogestão e Democracia Direta: Os anarquistas defendem a ideia de autogestão, onde as decisões que afetam as comunidades são feitas de forma descentralizada e democrática. A democracia direta é vista como o caminho para garantir que todos tenham uma voz igual nas questões que os afetam.
3. Crítica ao Capitalismo e ao Estado: O anarquismo critica tanto o capitalismo quanto o Estado, argumentando que essas instituições muitas vezes perpetuam a desigualdade e a injustiça social. Em vez disso, propõe sistemas económicos e sociais baseados na cooperação e na Natureza.
4. Foco na Solidariedade e na Comunidade: Os anarquistas enfatizam a importância da solidariedade entre as pessoas. Eles acreditam que, por meio da colaboração e do apoio mútuo, as comunidades podem prosperar de maneira mais justa e sustentável.
5. Ativismo e Resistência: O anarquismo historicamente esteve associado a movimentos de resistência e ativismo social. Anarquistas têm desempenhado papéis importantes em lutas por direitos civis, igualdade de gênero, direitos dos trabalhadores e outras causas progressistas.
6. Sensibilidade Ambiental: Muitos anarquistas são sensíveis às questões ambientais e defendem práticas que respeitam o meio ambiente. Eles frequentemente apoiam ideias de sustentabilidade, simplicidade voluntária e uma relação mais equilibrada entre humanos e natureza.
7. Experimentação Social: O anarquismo, em várias ocasiões, inspirou experiências sociais interessantes, como comunidades autónomas, cooperativas e ecoaldeias que servem como modelos de como a sociedade poderia ser organizada sem hierarquias rígidas.
É importante notar que o anarquismo, como qualquer outra ideologia, tem as suas variações e interpretações. Alguns críticos argumentam que, na prática, a ausência de estruturas de autoridade poderia levar ao caos, enquanto os defensores veem o anarquismo como uma aspiração nobre para uma sociedade mais justa e igualitária. Cada pessoa pode interpretar o anarquismo de maneira diferente, mas a sua ênfase na liberdade, igualdade e solidariedade continua a inspirar muitos ao redor do mundo.

Minha arte digital. Saudades dos cafés, que eram espaços de tertúlias longas e não, como agora, toma-se o café, está-se cerca de 10-20 minutos, lê-se rapidamente o jornal disponível e cada um segue o seu caminho.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Bancos de tempo – onde a moeda vale mais do que dinheiro


Se o grau académico, os rendimentos e as condições de acesso à saúde de uma pessoa variam devido a uma série de fatores, as 24 horas do dia são as mesmas para toda a humanidade. Ainda que a gestão do tempo esteja relacionada à realidade socioeconómica de cada indivíduo, é do princípio de igualdade de posse desse recurso que parte a ideia dos bancos de tempo. Trata-se de um artifício da economia solidária que possui como moeda de troca as horas despendidas em serviços voltados à comunidade, promovendo a confiança e a colaboração entre pessoas de diferentes contextos.

As primeiras referências históricas a transações baseadas no tempo datam do século XIX e mencionam a sua popularidade entre os grupos anarquistas e socialistas da altura, na Europa e nos Estados Unidos. Em 1973, Teruko Mizushima foi a responsável pela fundação do primeiro banco de tempo do mundo, em Osaka, no Japão. Uma hora dedicada a atividades requisitadas por membros do Banco de Trabalho Voluntário, atual Rede Voluntária de Recursos Humanos, corresponde a um crédito que pode ser trocado por outra hora de serviços no futuro – uma lógica pensada especificamente para as mulheres cuidadoras de idosos.

A iniciativa foi internacionalizada no início dos anos 90 pelo norte-americano Edgar Cahn. No livro No More Throw-Away People, o professor de Direito definiu os cinco valores da lógica dos bancos de tempo: todos têm um valor; alguns trabalhos estão além de um preço monetário; ajuda recíproca; fortalecimento das comunidades; e respeito por todos os seres humanos.

Tendo o tempo investido sempre o mesmo valor, não existem tarefas mais valiosas do que outras. Em países como a Itália e o Reino Unido, as horas passadas a cuidar da casa de um vizinho, por exemplo, podem pagar procedimentos de estética ou aulas de diversas áreas. Os bancos de tempo, também estabelecidos em diversos locais da América Latina, funcionam ainda através de trocas indiretas, ou seja, os serviços não são sempre realizados entre os mesmos dois membros.

O caso português
O Graal, movimento internacional de mulheres, inspirado pelas atividades da associação catalã Salud y Família, implementa a ideia do banco de tempo em Portugal. Aberta em 2002, a agência de Abrantes é a primeira das 25 que hoje existem, as quais somam 1.900 membros pelo país. Da mesma forma, a proposta portuguesa promove o encontro entre a oferta e a procura de serviços disponibilizados, reunidos numa lista constantemente aberta a novas sugestões.

Eliana Madeira, coordenadora da Rede Nacional do Banco de Tempo, sublinha o princípio estruturante da reciprocidade. Apesar da forte ligação à noção de voluntariado, a representante não considera a iniciativa como caritativa, uma vez que olham para cada indivíduo «como um ser humano com as suas vulnerabilidades, que precisa dos outros e pode, potencialmente, beneficiar do tempo das outras pessoas». Eliana enfatiza igualmente a estimulação dos talentos dos membros e a dispensa de certificações para realizar as tarefas requisitadas. «Não há qualquer intenção de que as pessoas se sacrifiquem por outras, mas que expandam o seu bem-estar, que façam aquilo que efetivamente gostem e que obtenham ajuda para fazer exatamente aquilo que é mais custoso para si», afirma ao Gerador.

O balanço dos 20 anos do Banco de Tempo de Portugal é positivo, garante a coordenadora, mas a ação não escapa dos obstáculos de uma sociedade individualista e presa aos bens materiais, em que «para ser, é preciso ter». Somente ao remeter o valor do dinheiro para segundo plano, continua Eliana, a cooperação é facilitada e permite o êxito de uma conceção de solidariedade mais igualitária e próxima do companheirismo. É desta forma que o conceito, na sua opinião, se configura como uma resposta social revolucionária, visibilizando as capacidades e necessidades de grupos discriminados, como as pessoas com deficiência, migrantes e mais velhas.

Tempo (não) é dinheiro
Mais recentemente, em 2022, o governo da Suíça anunciou a implementação da iniciativa como uma medida de saúde pública, cujo funcionamento parece retomar a ideia de Teruko Mizushima para o cuidado de idosos. As horas investidas, pela juventude, nesse acompanhamento são registadas pela segurança social e disponibilizadas como créditos para que os jovens recebam, quando mais velhos, o mesmo apoio.


Ainda no ano passado, a capital chinesa anunciou um esquema semelhante, no qual as horas de trabalho podem ser resgatadas quando os cidadãos completam 60 anos ou, antes disso, doadas a familiares e amigos a partir desta idade. Em Pequim, o acúmulo de dez mil horas garante, inclusive, uma vaga num lar de cuidados do estado.


Seja o banco de tempo pensado exclusivamente como uma política de combate ao envelhecimento da população mundial ou um projeto de entidades não-governamentais que abarca quaisquer demandas, Eliana Madeira acredita que o essencial é a rutura da analogia reducionista entre tempo e dinheiro. «Tempo é a matéria-prima de que são feitas as nossas vidas», conclui.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Matemática, Ciências Sociais e Biologia


Muito bem e em parte. Vemos nos advogados com mais de 50 anos que se recusam a usar o PC que não seja só os textos Word. O resto (plataformas, burocracias digitais) isso é para o/a estagiária. Falta a biologia no seu texto. A Biologia já é a ciência do séc. XXI. Milhares de seres vivos já estão editados genéticamente. O que fazer com esses dados? Tentador! Além disso a Comissão Europeia anunciou em 5 de julho (2023) a sua proposta legislativa para a nova geração de Organismos Geneticamente Modificados. Também chamados organismos de edição genética ou «novas técnicas genómicas», são organismos sintéticos patenteados que, com esta proposta, fogem ao Princípio de Precaução e ao escrutínio público. Não haverá avaliação de risco ou do impacto na saúde e no ambiente. Não haverá rotulagem, nem rastreabilidade, nem sequer monitorização. A proposta representa um desrespeito completo pelos consumidores, pelos agricultores, pela indústria não OGM e pela deliberação do Tribunal Europeu de Justiça que, em 2018, determinou que os «Novos OGM» devem ser abrangidos pelo regime legal atual dos OGM. No mesmo dia em que divulgou esta proposta de lei, a Comissão Europeia também apresentou o seu regulamento para a produção e comercialização de sementes, que vai restringir drasticamente o direito a usar, trocar ou vender sementes tradicionais, ignorando e desconsiderando deliberadamente as boas práticas oferecidas pela agricultura biológica e pela agroecologia. Finalmente, os jovens nascidos em 1997-99. Nativos digitais. Afectou-lhes algumas (muitas) competências que conseguiu retratar e estamos de acordo. Exemplos não faltam: Sebastião Bugalho, Rita Matias, Gaspar Macedo e Gonçalo Sousa.

Sobre a matematização das questões sociais um leitor deixou-me este comentário: "A palavra matemática tem origem na palavra grega “mathema”, que significa ciência, conhecimento, aprendizagem. Um matemático é, na sua essência, um pensador, um filósofo. Não somos engenheiros tecnocratas".
Deixe-me agradecer e responder algumas notas.
Em geral a ciência foi toda ela transformada numa técnica, espartilhada da vida social. É funcional ao mercado. Com a automação e a IA os desejos delirantes de que a sociedade se pode explicar por algoritmos levam a uma crise que deixa a nu as situações mais ridículas, como as que vimos na pandemia, em que se faziam as mesma contas para a Quinta da Marinha e a Amadora, nem percebendo que 25% dos internamentos no Amadora Sintra de pessoas com Covid eram pessoas sem problemas, não tinham casa onde isolar-se. Apenas isso. Isto resulta da perigosa desvalorização das ciências sociais, aliás recentemente sobre França apressaram-se a responder-me que a França tem um bom Estado social, pelo que os jovens nada têm do que se queixar. É só contas, recebem para comer? Está bem.
Não, tão importante quanto a sobrevivência é a perspetiva de futuro, e aqui entra a psicanálise e a filosofia do trabalho.
O inverso também é verdade. Há imensa gente que acredita que os cientistas sociais podem ter umas vagas noções de "matemática aplicada às ciências sociais" quando deixaram de ter matemática com 14 anos. Trabalho muito com estatística, e sei criticá-la, acho que com algum saber, mas não me passa pela cabeça achar que posso fazer contas ou dados. Os meus colegas de matemática ficam loucos com as parvoíces que ouvem, e estão cheios de razão. O que se tem que fazer é pensar junto - e isso a Universidade e o Mercado obstaculizam, porque a avaliação é individual e a concorrência é total.
As épocas de maior progresso científico e artísticos são as revoluções sociais, porque se pensa junto. Andamos há décadas com os mesmos tratamentos de cancro, os mesmo motores, o que temos é uma sucessão de aplicações novas, desde a II Guerra estamos muito mais parados porque estamos em concorrência e não em cooperação.
Nós não podemos deixar de ter matemática, filosofia, português e história aos 14 anos, é um absurdo. Até ao 12º pelo menos estas disciplinas têm que ser exigentes e obrigatórias para todos.
Dito isto há um problema de fundo. Uma batalha minha. Ler, ler os clássicos, ou seja, conhecer a teoria e não apenas a técnica. Por isso a mãe de todas as ciências é a filosofia e a história, porque elas nos ensinam como pensaram antes de nós. As pessoas se querem dar saltos de compreensão da realidade têm que voltar a estudar a sério não o que se aplica, faz, constrói mas como se pensa. É preciso não fazer só o caminho mas conhecer o caminho e não rejeitar os gigantes antes de nós.
Sou filha de dois Engenheiros, na minha casa debatia-se história, filosofia e literatura tanto ou mais do que engenharia florestal. Há uma geração ou duas que acha que não tem que ler, conhecer e compreender profundamente a sociedade para opinar. Se for física quântica calam-se mas de ciências sociais dizem qualquer coisa. E isso foi passado pelos governos que aligeiraram os saberes e convenceram a sociedade que economia é contas, que história são só factos, que filosofia é impenetrável, que a literatura é um hobby. O resultado é a disseminação da ignorância. 
Mais, ninguém tem, a começar pelos dirigentes políticos, vergonha de falar do que não sabe, não lê, não conhece, e quando se diz que são ignorantes ficam ofendidos, não ficam ofendidos com serem ignorantes e com as políticas educativas e com a sociedade que temos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

O seu espaço de “Coworking” pode estar a matar a sua criatividade


Os espaços de trabalho partilhados têm vindo a aumentar nos últimos anos. Mas embora a ideia seja a de que poderiam fomentar a colaboração e a inovação criativa através de ideias partilhadas entre start-ups, estudos de casos recentes sugerem que durante períodos mais longos, poderá suceder o oposto.

Haefliger e o seu colega Ghassan Yacoub, professor de inovação e estratégia na Escola de Gestão do IESEG, investigaram as colaborações emergentes no espaço de coworking num dos maiores centros dedicados da Europa, o nível 39. Construíram um caso de estudo em torno das sete empresas de tecnologia financeira em fase de lançamento utilizando este espaço, através de entrevistas, material de arquivo e observações.

“Apesar da emergência de espaços de coworking como novas práticas de trabalho, pouco se sabe sobre a formação de colaboração e especificamente sobre a emergência de práticas de colaboração, atendendo a estes espaços de trabalho abertos e flexíveis para encontrar e interagir com empregados de outras organizações”, escreveu a dupla no seu artigo.

Um sentido de comunidade e abertura são processos bem conhecidos para encorajar a produtividade, a colaboração e, por sua vez, a inovação. Por isso, parece contraditório que a equipa tenha encontrado, ao longo do tempo em que trabalhou neste ambiente partilhado, dificuldades nas práticas de colaboração entre as empresas que poderiam semear a inovação.

Inicialmente, os espaços partilhados ajudaram a fomentar a confraternização entre as start-ups, com interacções informais e planeadas, incluindo eventos, workshops e palestras nas áreas comuns (cozinha comunitária, sala, e áreas de breakout), tudo isto facilitando os primeiros passos de uma prática colaborativa.

Mas quando essas atividades continuaram, também interferiram com as colaborações, com tentativas de organizar o espaço para eventos vistos como distração.

Das sete novas empresas, três acabaram por sair do espaço de coworking, dizendo que os benefícios dos espaços colaborativos não duraram e que as constantes mudanças à medida que mais empresas foram acrescentadas foram perturbadoras.

“Talvez esteja a tornar-se demasiado grande para que todos possam beneficiar igualmente”, especulou um representante de uma empresa.

“Penso que há lá demasiadas empresas e a área principal do salão está superpovoada com membros que se encontram lá, em vez de ser um lugar casual para as empresas permanentes se reunirem e conversarem e se conhecerem umas às outras”, explicou outro grupo.

Com o objetivo da empresa de coworking a ser o de aumentar a escala, a perspetiva dos seus utilizadores que valorizam qualidades baseadas em torno de um crescimento limitado poderá ser vista como um conflito.

Haefliger e Yacoub descobriram que, para que as colaborações continuassem de forma sustentável, precisavam de ser geridas ativamente, mas que existe um equilíbrio ténue entre o incentivo à inovação e a sua asfixia.

“É da responsabilidade do anfitrião do espaço e daqueles que o utilizam para fazer dele um cenário que possa ver parcerias florescentes e um viveiro de ideias da próxima geração”, explica Haefliger.

Este é, naturalmente, apenas um exemplo das experiências de coworking que agora acontecem em todo o mundo, com base em sete empresas de tecnologia financeira. Outras indústrias, como as criativas ou sem fins lucrativos, podem achar que o processo de coworking difere para elas, salientam os investigadores, mas as suas descobertas podem fornecer uma comparação útil para futuras pesquisas.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O fim da Nova Paz — Ensaio de Yuval Noah Harari


Ao longo da era da Nova Paz os políticos procuraram deixar a sua marca lançando reformas dos sistemas de Saúde, e não pilhando cidades estrangeiras. Líderes de todo o mundo — influenciados pelo receio de uma guerra nuclear, pelas mudanças na natureza da economia e pelas novas tendências culturais — juntaram forças para construir uma ordem global que funcionasse. Esta ordem global tem-se baseado nos ideais liberais e humanistas, nomeadamente em que todos os seres humanos merecem as mesmas liberdades fundamentais. 
Apesar de esta ordem global estar longe de ser perfeita, melhorou a vida de muita gente, não apenas em antigos pólos imperiais, como o Reino Unido ou os EUA, mas também em muitas outras partes do mundo, da Índia ao Brasil e da Polónia à China. Não foram apenas a Dinamarca e o Canadá a desviar recursos da compra de tanques para formação de professores — a Nigéria e a Indonésia fizeram a mesma coisa.
Qualquer pessoa que discurse acerca das falhas da ordem liberal global deveria antes responder a uma simples pergunta: consegue indicar uma década na qual a humanidade tenha estado em melhor condições do que nos anos 2010? Que década é a sua época dourada? Os anos 1910, com a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Bolchevique, as leis de segregação racial nos Estados Unidos, e os impérios europeus a explorar brutalmente a maior parte de África e da Ásia? Talvez os anos 1810, com Napoleão no pico das suas campanhas sangrentas, os camponeses russos e chineses esmagados pelos seus senhores aristocratas, a Companhia das Índias Orientais a assegurar o controlo da Índia, e a escravidão ainda legal nos Estados Unidos, no Brasil e na maior parte do mundo? Talvez sonhe com os anos 1710, com a Guerra da Sucessão de Espanha, a Grande Guerra do Norte, as guerras de sucessão do Império Mongol, e um terço das crianças a morrer de má nutrição e doenças antes de atingirem a idade adulta?
A Nova Paz não foi o resultado de um qualquer milagre divino. Foi alcançada por seres humanos. Infelizmente, demasiadas pessoas tomaram este feito como um dado adquirido. Talvez achassem que a Nova Paz estava garantida e que poderia sobreviver até sem a ordem global. Consequentemente, essa ordem foi primeiro negligenciada, e depois atacada com uma ferocidade crescente.
O ataque iniciou-se através de Estados-pária como o Irão e líderes-pária como Putin, mas sozinhos não seriam suficientemente fortes para acabar com a Nova Paz. O que de facto minou a ordem global foi que tanto os países que mais beneficiaram com ela (incluindo a China, a Índia, o Brasil e a Polónia) como os países que iniciaram a sua construção (nomeadamente o Reino Unido e os EUA) lhe voltaram as costas. O voto pelo “Brexit” e a eleição de Donald Trump em 2016 simbolizaram esta viragem.
Os que desafiaram a ordem global não desejavam a guerra. Apenas queriam avançar naquilo que acreditavam ser os interesses do seu país, e argumentavam que cada Estado-nação devia defender a sua identidade e tradições sagradas. O que nunca chegavam a explicar é como todas essas diferentes nações iriam lidar umas com as outras na ausência de valores universais e instituições globais. Os oponentes da ordem global não ofereciam qualquer alternativa clara. Pareciam pensar que as várias nações iriam dar-se bem e que o mundo iria tornar-se uma rede de fortalezas muradas, mas amistosas . Mas as fortalezas raramente são amistosas. Cada fortaleza nacional quer um pouco mais de prosperidade para si própria, à custa dos seus vizinhos, e sem a ajuda de valores universais não conseguem chegar a acordo em relação a qualquer regra comum. O modelo de rede de fortalezas era um caminho para o desastre. E o desastre não demorou a surgir. A pandemia demonstrou que, na ausência de uma cooperação global eficaz, a humanidade não se consegue proteger de ameaças comuns, como os vírus. Então, talvez por ter observado como a covid-19 diminuiu ainda mais a solidariedade global, Putin concluiu que poderia levar a cabo o golpe de misericórdia, quebrando o maior dos tabus da era da Nova Paz. [Pensou] que se conquistasse a Ucrânia e a absorvesse na Rússia, alguns países poderiam mostrar-se espantados e indignados e condená-lo — mas que ninguém tomaria alguma acção efectiva contra si.
O argumento de que Putin foi empurrado para invadir a Ucrânia e assim antecipar-se a um ataque por parte do Ocidente é propaganda sem qualquer sentido. Alguma vaga ameaça ocidental não é uma razão legítima para destruir um país, pilhar as suas cidades, violar e torturar os seus cidadãos. Quem acredita que Putin não tinha alternativa deve dizer que país se estava a preparar para invadir a Rússia. O exército alemão estava a reunir forças para passar a fronteira? Napoleão levantou-se do túmulo para mais uma vez liderar a Grande Armée até Moscovo, e que Putin não tinha outra alternativa a não ser antecipar-se ao massacre iminente por parte dos franceses? Putin preparou a sua invasão ao longo de muito tempo. Nunca aceitou o desmantelamento do Império Russo, e nunca viu a Ucrânia, a Geórgia ou qualquer das repúblicas pós-soviéticas como nações independentes e legítimas. Enquanto — como referi antes — os gastos com as Forças Armadas eram, em média, de 6,5% dos orçamentos dos governos pelo mundo fora, e de 11% nos Estados Unidos, na Rússia têm sido muito mais elevados. Não sabemos exactamente quanto mais elevados, porque são um segredo de Estado. Mas algumas estimativas põem o número algures pelos 20% por cento, e poderá até chegar a mais de 30%.
Se a aposta de Putin for bem sucedida, o resultado poderá ser o colapso final da ordem global e da Nova Paz. Autocratas um pouco por todo o mundo irão perceber que guerras de conquista são de novo uma possibilidade, e as democracias também serão forçadas a militarizarem-se para se protegerem. Já vimos que a agressão da Rússia levou a um aumento imediato das verbas para a Defesa em países como a Alemanha, e a que países como a Suécia voltassem a impor o serviço militar obrigatório. O dinheiro que devia ser destinado a professores, enfermeiros e assistentes sociais irá para a compra de tanques, mísseis e ciberarmas. Aos 18 anos, jovens de todo o mundo irão cumprir o serviço militar obrigatório. O mundo inteiro irá ficar parecido com a Rússia — um país com um Exército desmesuradamente grande e hospitais com falta de pessoal. O resultado será uma nova era de guerra, pobreza e doença. Mas há uma alternativa: se Putin for parado e punido, a ordem global não será destruída por aquilo que ele fez, mas reforçada. Quem quer que tivesse ideias perceberia que simplesmente não pode fazer coisas destas.
Qual destes dois cenários irá concretizar-se? Felizmente para todos nós, e apesar de todos os seus preparativos militares, Putin estava imensamente mal preparado para uma coisa crucial: a coragem do povo ucraniano. Os ucranianos repeliram os russos numa série de espantosas vitórias perto de Kiev, Kharkiv (Carcóvia) e Kherson. Mas até agora Putin tem-se recusado a reconhecer o seu erro, e reage à derrota com crescente brutalidade. Ao ver que o seu Exército não consegue vencer os soldados ucranianos na frente de batalha, Putin está a tentar matar de frio os civis ucranianos nas suas casas. É impossível prever como vai acabar esta guerra, tal como o destino da Nova Paz.
A História nunca é determinista. Após o final da Segunda Guerra Mundial, muita gente acreditou que a paz era inevitável, e que iria manter-se, mesmo que negligenciássemos a ordem global. Após a Rússia ter invadido a Ucrânia, alguns viraram-se para o extremo oposto. Agora afirmam que a paz sempre foi uma ilusão, que a guerra é uma incontrolável força da Natureza, e que a única escolha que os seres humanos têm é ser a caça ou o caçador. Ambas as posições estão erradas. A guerra e a paz são decisões, não são inevitabilidades. As guerras são feitas por pessoas, não por uma lei da Natureza. E tal como os seres humanos fazem a guerra, também podem fazer a paz. Mas fazer a paz não é uma decisão isolada. É um esforço a longo prazo para proteger normas e valores universais, e para criar instituições de cooperação.
Reconstruir a ordem global não significa regressar ao sistema que se desintegrou nos anos 2010. Uma nova e melhor ordem global deveria atribuir papéis mais destacados a poderes não ocidentais que estejam dispostos a fazer parte dela. Também deverá reconhecer a importância das lealdades nacionais. A ordem global desintegrou-se principalmente devido ao assalto das forças populistas, que argumentam que as lealdades patrióticas são incompatíveis com a cooperação global. Os políticos populistas declaram que quem é patriota deve opor-se às instituições globais e à cooperação global. Mas não existe qualquer contradição intrínseca entre patriotismo e globalismo, porque patriotismo não significa odiar os estrangeiros. Patriotismo significa amar os nossos compatriotas. E no século XXI, se queremos proteger os nossos compatriotas da guerra, pandemias e colapso ecológico, a melhor forma de o fazer é cooperando com os estrangeiros.

sábado, 5 de novembro de 2022

Livro - A Economia Social Numa Visão Plural


O setor da economia social está longe de ver a sua importância reconhecida pela sociedade portuguesa, tanto pelo seu papel decisivo na coesão social, como pelo seu contributo para o emprego e a geração de riqueza. 
As razões para esta desvalorização da economia social são múltiplas e diferenciadas, sendo umas referentes ao próprio setor e outras de origem externa. 
Nas causas externas, talvez a mais importante seja o conhecimento superficial do setor e da sua complexidade, o que provoca visões fortemente estereotipadas e preconceituosas na opinião pública e nos decisores políticos. 
Do lado dos estereótipos salienta-se a ideia de que o setor é apenas caritativo, não produz riqueza, vive de subsídios estatais, remetendo-o para uma identidade negativa – aquela parte da economia que não é pública nem privada com fins lucrativos. 
Ao nível do preconceito ideológico a direita conservadora mostra a sua desconfiança conotando a economia social com a ideologia “esquerdista”, já a direita neoliberal mostra uma visão mais pragmática, combatendo a economia social quando esta se centra em atividades suscetíveis de gerar lucros, ao mesmo tempo que acarinha a economia social quando esta se dedica a atividades pouco atrativas para o setor privado. 
Da parte dos setores de esquerda também podemos encontrar posições diversas: desconfiança pelo facto da economia social não ser anti-capitalista; ou encorajamento, por entenderem a economia social como algo com valores democráticos e de solidariedade, que prezam. 
Todos tenderão a concordar que há perigo de desvirtuar esses valores podendo a economia social ser apenas uma maneira encapotada do Estado se livrar de funções que lhe competiria desempenhar. As responsabilidades do setor por esta imagem distorcida prendem-se, essencialmente, com um enorme défice de comunicação e com a dificuldade de construir uma identidade forte e diferenciada a partir de um  conjunto muito heterogéneo de atividades e de tipos de organizações: cooperativas, associações, fundações, mutualidades, misericórdias, etc. 
Apesar de todas estas dificuldades o setor da economia social vive hoje, em Portugal e no mundo, um momento de crescente afirmação e expansão pela capacidade que tem demonstrado em dar resposta a problemas sociais complexos que nem os Estados nem as empresas privadas estão preparados para resolver. 
O setor constitui também uma alternativa de realização para um número crescente de pessoas que não se reveem numa economia estatizante ou no oposto, altamente competitiva e inigualitária. 
Esta afirmação do setor da economia social é bem visível no crescente número de entidades que vai agregando e na atenção legislativa que ultimamente lhe tem sido dispensada por vários países e por organizações internacionais, como o Parlamento Europeu e as Nações Unidas.

CPES- Confederação Portuguesa de Economia Social 

E-livro - aqui

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Charles Eisenstein - Repensar o mundo - As transformações económicas, políticas e pessoais


As nossas histórias nos governam. Elas sintetizam e dão sentido à caminhada humana. Muitas vezes, contudo, as histórias saem de sintonia com a realidade e passam a não mais orientar, mas a se fixar em padrões estabelecidos e desconectados. É possível imaginarmos uma matriz sociopolítica e económica que faça sentido para os conhecimentos de que já dispomos? O que seria uma postura de vida que nutra um futuro desejável?

Charles Eisenstein é conferencista e escritor, voltado para os temas da civilização, consciência, dinheiro e evolução cultural humana. Em primeira visita ao Brasil, lança também seu primeiro livro em língua portuguesa, "O mundo mais bonito que os nossos corações sabem ser possível", pela Palas Athena Editora. Seus vídeos virais e textos online fizeram dele um filósofo social e um intelectual da contracultura, que não pode ser facilmente rotulado. Graduou-se em Matemática e Filosofia pela Universidade de Yale em 1989, e trabalhou nos dez anos seguintes como tradutor do chinês para o inglês. Autor de Sacred Economics (Economia Sagrada) e Ascent of Humanity (A Ascensão da Humanidade), ele hoje vive em Camp Hill, Pennsylvania.

𝐑𝐞𝐩𝐞𝐧𝐬𝐚𝐫 𝐨 𝐦𝐮𝐧𝐝𝐨
A velha história é a história da separação. Precisamos de novas histórias, porque a velha história é mentira. Nós não estamos separados um dos outros, nem estamos separados das plantas, dos animais, da natureza, do cosmos. A nova história é, afinal, a mais antiga de todas, e os povos indígenas sabem disso: que estamos todos todos interligados, que somos feitos da mesma matéria uns e outros  e as estrelas! Inspire-se na palestra de Charles Eisenstein em S. Paulo.

Biografia:

domingo, 24 de julho de 2022

Música do BioTerra: Allegria chante Montanha d'Héas au Cirque de Troumouse


Os dialectos, a comunidade e a biofilia dos grupos corais.
Em todo o mundo, existem grupos corais: nativos, indígenas, insulares, de montanha, da pesca, etc. Um traço comum, dentro desta enorme variedade é a expressão da pertença, do cuidado, elogio à beleza natural, louvor do sacrifício e empenho do trabalho colectivo, os ritos de passagem da adolescência a adulto, louvor à paisagem. Acontece que na era global, mesmo o chamado turismo sustentável, acaba por não ser verde. Sucedeu a gentrificação. O turista aprecia e paga um serviço. Encara o que observa e escuta como um tempo bem passado. O grupo coral vende um produto nas redes sociais e na televisão. Há que refocar novamente o "espírito" e a ligação aos ritmos da terra e das localidades que os grupos corais incorporam. Um bom dia.

domingo, 17 de julho de 2022

Música do BioTerra: Siouxsie And The Banshees - Song From The Edge Of The World

Os românticos. Os sonhos. O amor. Este vídeo tem uma história: Siouxsie nunca estava satisfeita com as primeiras filmagens. Valeu a pena! Tão angélico este tema. Bom domingo.

 


Let me take you down
To testify
Under the brow of a sparkling sky
We'll dance away
A distant day
And shout our sins
In a passion play

Over we go
Diving for pearls
Over we go
From the edge of the World

Let the fire fall in
The footsteps we leave
Painted on the ground
We'll watch the stars
Come crashing down
Upon our heads
Like a madding crown

Over we go
Diving for pearls
Over we go
From the edge of the World

Let me take you down
To testify
Under the brow of a sparkling sky
We'll dance away
'Til the day is done
Then rise again
To unwrap the Sun

Over we go
Diving for pearls
Over we go
From the edge of the World
This is the song from the edge of the World

sexta-feira, 15 de julho de 2022

The idea that humans aren't separate from nature redefines life, language and knowing.


The theory of autopoiesis 50 years on.

The popular slogan ‘we are Nature defending itself’, seen at environmental protests across the world, says something about how the idea that humans are not separate from nature is becoming far more mainstream.
From this perspective, as readers of Resurgence & Ecologist will know, the climate and biodiversity crises are intrinsically linked with the fate of humanity and the living planet.
A key reason for this understanding is the work of Chilean biologists Humberto Maturana and Francisco Varela, who published their theory of autopoiesis, which defined life as a system of interactions, in 1972.

Division
Fifty years later, as we face the sixth mass extinction, the legacy of this theory is now more relevant than ever.
Maturana died just one year ago. His systems approach led him to study the organisation of life, rather than its components separately, seeing life as an uninterrupted circular process of self-creation.
This is the fundamental basis of Maturana and Varela’s Santiago theory of cognition, which identified the process of knowing as the activity that allowed the self-generation of living systems – cognition is the process of life. In the case of humans, this includes language and conceptual thought.
Although autopoiesis does not answer the old question of what life is, it tells us what life does. Many scientists consider it one of the best scientific definitions of life.
In the view of the physicist Fritjof Capra, the Santiago theory of cognition is “the first scientific theory that really overcomes the Cartesian division of mind and matter” and “for the first time, we have a scientific theory that unifies mind, matter, and life.”

Absolute
Lynn Margulis became interested in autopoiesis in her search for the microbiological foundations of Gaia theory. Both the Gaia hypothesis and autopoiesis state that organism and environment co-evolve coupled; there is not one without the other.
Self-regulation on a planetary scale would also be a form of autopoiesis: life creating the suitable environment for the creation and subsistence of life itself.
Why has this theory spread to so many fields of knowledge? Because it redefines life, language and knowing. This just changes everything, including what we understand by reality and consciousness.
Maturana states that reality is different for every living being because it is perceived according to the sensory processes of each organism.
Therefore no living being has access to a reality independent of its own organism, and therefore no one can claim to have access to an absolute truth.

Organisms
We always knew in science that an absolute truth is not reachable: the Santiago theory provides a theoretical basis for it, undermining one of the most important assumptions of modern science: objectivity.
The ‘truth’ arises in conversations, as a consensus with others, and therefore constantly changes according to each historical moment.
Moreover, as beings living in language, each new truth (accepted idea) has the potential to change us too: paradoxically, language creates reality as well.
But, contrary to our current understanding, for Maturana emotions are more important than language and reason: “We humans are emotional beings that use reason to justify or deny according to our own preferences.”
Why are these ideas relevant for the future? They free us from a worldview separated between body and mind, subject and object, organisms and environment, hard and soft sciences, individual and society.

Transformation
They show us that in evolution, cooperation is stronger than competition. Instead of being in a race for getting to the ultimate truth through reasoning, we are free to decide how we want to be.
To achieve that depends on our ability to reach consensus together through language as the cooperative behaviour that made us humans.
Democracy is not simply a system of government, but rather a way of living in mutual acceptance. What we believe really matters because we are co-creating our reality as we think it.

In conclusion, the ideas of Humberto Maturana involve a radical shift in the understanding of life, opening the door to possibility and whole systems transformation towards a more just existence among us humans and with the rest of the living world.

This article first appeared in the Resurgence & Ecologist magazine, out now.