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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Turismo, migração e linguagem: o que acontece ao cérebro quando cruzamos fronteiras


O fim das férias  traz consigo o ruído inconfundível das malas de viagem a arrastarem-se pelo asfalto e a nostalgia difusa de quem regressa. Contudo, ao fazer a digestão dos dias fora, há uma reflexão mais profunda que se impõe: o ato de viajar de poder cruzar fronteiras por mera escolha, desacelerar e habitar temporariamente o quotidiano de outro país - é um dos maiores privilégios financeiros e sociais do mundo contemporâneo.

Nos aeroportos e nas estações de comboio do final de verão, este privilégio cruza-se com realidades humanas profundamente distintas. Na mesma sala de embarque, o olhar do turista, que viaja para consumir paisagens e acumular memórias leves, cruza-se com o do emigrante, que regressa à pátria apenas no verão para matar a sede da sua língua materna, e com o do imigrante, para quem a travessia de fronteiras não foi uma pausa da rotina, mas um ato de sobrevivência que exigiu o desmantelamento da sua própria identidade para tentar recomeçar.

É nesse encontro de geografias e disponibilidades que nos confrontamos com a linguagem. Durante uns dias, ao tentar decifrar um menu, entender um sinal de trânsito ou arriscar meia dúzia de palavras num idioma estrangeiro, sentimos na pele a fragilidade de não ser compreendido. Percebemos que as línguas não são meras ferramentas neutras de comunicação, mas paredes, pontes e mapas mentais que revelam quem somos, de onde vimos e até onde a nossa vida nos permitiu ir.

O ensaio que se segue nasce precisamente dessa digestão de fim de férias: o reconhecimento de que aprender a ouvir o mundo e a aceitar a complexidade do outro é a forma mais humana de retribuir o privilégio de ter a liberdade de o percorrer.


A imagem representa a teia neural e cultural da linguagem - uma rede conceptual onde diferentes idiomas do mundo (Deutsch, Português, Mandarim, Árabe, Húngaro, Guugu Yimithirr, Tukano, Aymara, entre outros) aparecem como nós interligados.

O mapa da mente humana: uma viagem pelas geografias da fala 
O fenómeno do idioma real
Nas conversas habituais de regresso de férias surge frequentemente o desabafo: "Ai, o alemão é muito difícil". Contudo, até os próprios alemães utilizam recursos orais/escritos gramaticalmente mais acessíveis. Esta adaptação que os próprios nativos fazem para simplificar o idioma é um fenómeno fascinante e muito presente na cultura germânica. Quando a gramática padrão, o chamado Hochdeutsch, se torna pesada ou distante demais da realidade prática, a própria sociedade alemã recorre a estratégias que vão desde hábitos do quotidiano até linguagens adaptadas por lei para garantir que a mensagem seja compreendida sem rodeios.

No dia a dia, a linguagem coloquial, conhecida como Umgangssprache, é o principal refúgio dos nativos. É nela que o complexo caso genitivo é quase inteiramente abandonado e substituído pelo dativo com a preposição von, trocando estruturas sofisticadas por formas muito mais diretas. Além disso, os alemães cortam sistematicamente o passado simples na oralidade, preferindo o passado composto, e simplificam a pronúncia encurtando verbos e fundindo artigos. Trata-se de uma busca natural por economia verbal para tornar o fluxo da conversa mais leve.

Para além da informalidade, existem iniciativas formais para democratizar a informação. A Einfache Sprache, ou linguagem simples, é amplamente adotada por jornais, empresas e órgãos governamentais para comunicar ideias complexas ao público geral sem o peso da burocracia gramatical, priorizando frases curtas na ordem direta e evitando termos arcaicos ou a voz passiva. Já a Leichte Sprache, um formato ainda mais acessível e regulamentado por leis de acessibilidade, chega ao ponto de dividir as famosas e gigantescas palavras compostas alemãs com hífenes para facilitar a leitura de pessoas com deficiência intelectual ou imigrantes.

Perceber que os próprios alemães precisam destas estruturas e atalhos para tornar a comunicação viável é libertador. Mostra que o objetivo principal do idioma é conectar pessoas, e que não precisa de se exigir um domínio académico perfeito para conseguir expressar-se e ser compreendido no mundo real.

A relatividade da dificuldade e o panorama global
Não existe uma única língua considerada universalmente a mais difícil do mundo, pois a complexidade de um idioma é sempre relativa à língua materna de quem o aprende. Para um falante nativo de português, por exemplo, o espanhol ou o italiano são bastante acessíveis devido às suas origens românicas comuns, enquanto idiomas com lógicas totalmente distintas exigem uma reestruturação completa da forma de pensar.

Ainda assim, quando se analisa o tempo médio necessário para atingir a fluência e o nível de complexidade gramatical ou gráfica, o Mandarim surge quase sempre no topo da lista. O grande obstáculo não reside na sua gramática — que é até bastante simples e carece de conjugações verbais —, mas sim no seu sistema de escrita não alfabético, composto por milhares de carateres individuais que precisam de ser memorizados um a um, e no facto de ser uma língua tonal, onde a intonação de uma única sílaba muda completamente o significado de uma palavra.

Logo ao lado do Mandarim, o Árabe impõe grandes desafios devido ao seu alfabeto próprio escrito da direita para a esquerda, à omissão de vogais na escrita quotidiana e à enorme discrepância entre o árabe padrão formal e os dialetos falados em cada região. Da mesma forma, o Japonês exige o domínio de três sistemas de escrita em simultâneo - dois silabários e os carateres de origem chinesa - para além de uma gramática profundamente enraizada em níveis de cortesia e hierarquia social.

Por fim, idiomas como o Coreano, com a sua estrutura gramatical baseada no encaixe sucessivo de sufixos verbais, e o Basco, uma língua isolada na Europa sem qualquer parentesco com os restantes idiomas conhecidos, demonstram que a dificuldade pode surgir tanto da falta de referências conhecidas como do nível de detalhe gramatical. Em última análise, a língua mais difícil será sempre aquela que mais se afasta da estrutura lógica e cultural a que o seu cérebro já está habituado.

A ciência da distância linguística
A perceção de complexidade ao aprender uma nova língua não é uma questão de capacidade individual nem de características culturais, mas sim um reflexo direto da distância linguística — a medida científica de quão afastadas estão as estruturas de dois idiomas na sua árvore genealógica e sintática. Quando a mente humana é exposta a uma língua de uma família distante, a dificuldade surge do esforço cognitivo necessário para desaprender padrões automatizados e construir novos modelos mentais.

Para falantes de línguas românicas (como o português, o espanhol ou o italiano), idiomas germânicos como o alemão exigem a habituação a casos gramaticais e a uma ordem de frase rígida onde o verbo migra para o final. Por sua vez, para falantes de línguas semíticas (como o árabe), o desafio ao aprender idiomas europeus é bidirecional: exige a transição de um sistema de escrita abjad (focado em raízes consonânticas e lido da direita para a esquerda) para o alfabeto latino, além de reajustar uma sintaxe habituada a colocar o verbo no início da oração.

De forma análoga, para os falantes das centenas de línguas da família Níger-Congo em África (como o zulu, o yoruba ou o lingala), a aprendizagem de línguas europeias impõe o abandono de sistemas de classes nominais complexos e de elementos tonais em favor de declinações ou conjugações verbais abstratas. O mesmo acontece no sentido inverso: um falante europeu enfrenta uma barreira cognitiva equivalente ao tentar assimilar a lógica de tons ou a aglutinação destas línguas.

A linguística cognitiva e a sociolinguística demonstram, assim, que nenhuma língua é intrinsecamente superior, mais lógica ou mais difícil do que outra. O cérebro humano está biologicamente equipado para aprender qualquer idioma com a mesma facilidade durante a infância; na idade adulta, a "dificuldade" é simplesmente o mapa da distância entre onde a nossa mente habita e o novo território que tenta desbravar.

A reestruturação do raciocínio
As dificuldades de um português nas línguas germânicas, no húngaro e no turco manifestam-se através de arquiteturas gramaticais que desafiam a lógica sequencial a que o cérebro lusófono está habituado. Em vez de construir frases através de sequências de palavras curtas e independentes ligadas por preposições, estas línguas exigem que a informação seja empacotada, combinada sonoramente ou posicionada com precisão quase matemática.

No Turco e no Húngaro, o cérebro precisa de adotar a lógica da aglutinação, que funciona como um encaixe de peças de Lego. Em vez de usar várias palavras para expressar uma ideia complexa, como "nas nossas casas", estes idiomas tomam uma única raiz e vão-lhe anexando múltiplos sufixos de posse, plural ou localização, fundindo uma frase inteira numa única palavra. Para tornar esse processo fluido, ambas as línguas aplicam o princípio da harmonia vocálica: o falante categoriza mentalmente as vogais em grupos segundo o ponto de articulação na boca e altera automaticamente os sufixos para que todas as vogais da palavra ecoem a mesma sonoridade. No caso do húngaro, a complexidade aumenta com a existência de mais de 18 casos gramaticais, o que obriga a mente a mapear com precisão cirúrgica a relação espacial e funcional de cada substantivo na frase.

Por outro lado, nas Línguas Germânicas como o alemão e o holandês, a mudança mental é sobretudo estrutural e sintática. A célebre regra V2 (Verbo na Segunda Posição) exige uma disciplina rígida: o verbo principal tem de ocupar obrigatoriamente o segundo elemento da frase, forçando a inversão do sujeito sempre que a frase começa com um advérbio ou indicação de tempo. Mais desafiante ainda é a estrutura das orações subordinadas, onde o verbo conjugado é atirado para o final absoluto da frase. Esta arquitetura obriga o ouvinte a manter toda a informação em suspenso na memória de trabalho até ao último segundo, altura em que o verbo final finalmente revela e fecha o sentido de tudo o que foi dito.

A reestruturação completa da forma de pensar acontece quando um idioma nos obriga a processar o mundo através de categorias que simplesmente não existem no português.

Na língua indígena australiana Guugu Yimithirr, por exemplo, a orientação espacial abandona a referência egocêntrica do próprio corpo - como "esquerda" ou "direita" - em favor de uma navegação absoluta baseada nos pontos cardeais. Para pedir a alguém que passe a salada, o falante indica a direção geográfica exata, dizendo algo como "passa a salada para sudoeste". Esta exigência gramatical faz com que os seus falantes desenvolvam uma bússola interna permanente, mantendo a noção precisa do Norte mesmo no interior de uma sala sem janelas.

A origem da informação também pode ser um requisito gramatical estrito, como acontece nas línguas Tukano da Amazónia. Através da evidencialidade obrigatória, é impossível emitir uma afirmação vaga como "o cão comeu o bolo" sem alterar a conjugação do verbo para especificar como se obteve esse conhecimento: se o evento foi visto diretamente, se apenas se ouviu o barulho, se foi deduzido por vestígios, se foi contado por terceiros ou se se trata de uma mera suposição.

No Japonês, a reestruturação foca-se na percepção das relações interpessoais através do sistema Keigo. Em vez de apenas ajustar o tom de voz para soar educado, a posição social, a idade e a hierarquia entre os interlocutores alteram drasticamente todo o vocabulário e a flexão dos verbos. O cérebro é forçado a calcular instantaneamente a matriz de poder e respeito social antes de formular qualquer frase simples.

A própria percepção do tempo pode ser invertida, como demonstra o Aymara do Altiplano andino. Ao contrário do português, onde o futuro está "à frente" e o passado "atrás", para os Aymara o passado posiciona-se à frente (nayra), porque já é conhecido e pode ser "visto" pela mente, enquanto o futuro se localiza atrás (qhipa), por ser desconhecido e invisível. Essa lógica reflete-se até na linguagem gestual, com os falantes a gesticularem para a frente quando abordam acontecimentos passados.

Por fim, a língua Basca desafia a categorização da própria ação através da sua lógica ergativa. Enquanto as línguas românicas usam a mesma forma para o sujeito de uma frase intransitiva ("o João dormiu") e transitiva ("o João comeu a maçã"), o Basco distingue gramaticalmente o agente que provoca uma alteração no mundo daquele que apenas experimenta um estado. A mente do falante precisa de categorizar a natureza do impacto da ação antes de decidir como declinar o próprio nome do indivíduo.

As disciplinas que estudam a linguagem
Esta teia fascinante entre estrutura gramatical, cérebro e cultura é o objeto de estudo de várias áreas do saber científico:
  1. Linguística geral e aplicada: examina as regras, estruturas, evolução e os processos de aprendizagem dos idiomas.
  2. Sociolinguística: estuda a relação entre a língua e o contexto social, analisando fenómenos como a Umgangssprache, os dialetos urbanos e o uso de linguagens simplificadas para inclusão social.
  3. Psicolinguística e neurociência da linguagem: investigam como o cérebro processa, armazena e produz a fala, como a gestão da memória de trabalho na regra V2 do alemão ou os processos cognitivos da aglutinação.
  4. Antropologia linguística (e etnolinguística): explora a forma como a língua reflete e molda a visão do mundo, os rituais e as percepções culturais (como a orientação espacial dos Guugu Yimithirr ou a perceção temporal dos Aymara).
  5. Pragmática: analisa a linguagem em ação no contexto real, focando-se na intenção do falante e nas dinâmicas interpessoais (como o sistema Keigo no japonês).
Conclusão
Em última análise, compreender a diversidade linguística é aceitar que a realidade não é um dado absoluto, mas uma construção cultural. Cada idioma oferece-nos um novo mapa mental - com os seus próprios pontos cardeais, percepções do tempo e nuances emocionais.

Esta viagem ganha o seu sentido mais visceral na figura de quem cruza fronteiras. Seja na pele do turista que busca o encanto da comunicação imediata, na do emigrante que precisa de reestruturar a sua própria mente para habitar uma nova realidade, ou na do imigrante que procura no novo país um lugar de pertença, a língua revela-se no seu estado mais puro. Ver que os próprios nativos simplificam o seu idioma para acolher e comunicar é o maior gesto de empatia cultural.

Aprender uma língua não é acumular regras num livro nem exigir um domínio académico perfeito; é construir uma ponte. Ao desarmarmo-nos perante a complexidade do outro, descobrimos que, por mais distantes que sejam as nossas gramáticas, a necessidade humana de nos conectarmos e pertencermos é exatamente a mesma.

Sugestões de Aprofundamento
Para quem desejar continuar a explorar a forma como a linguagem molda o pensamento e a sociedade, sugerem-se os seguintes eixos de leitura e reflexão:
  • Relativismo linguístico (a versão moderada da Hipótese de Sapir-Whorf): investigar até que ponto a estrutura de uma língua limita ou determina a forma como os seus falantes pensam e percepcionam o mundo.
  • Design universal e acessibilidade linguística: analisar o impacto da Leichte Sprache e da Einfache Sprache nas políticas públicas de inclusão de imigrantes e pessoas com neurodivergências na Europa.
  • Neuroplasticidade e bilinguismo no adulto: explorar como o cérebro adulto reorganiza as suas redes neurais ao aprender idiomas com lógicas não-românicas (como línguas aglutinantes ou tonais).

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Programa Nacional de Vacinação: as assimetrias regionais e o refúgio das redes antivacinas em Portugal

O Relatório Anual da Direção Geral de Saúde mostra que a maioria das vacinas infantis tem uma taxa de cobertura superior a 95% em Portugal, mas há concelhos que ficam abaixo dos 60%.A região algarvia mantem baixas taxas de vacinação Desigualdades persistem nas vacinas do HPV, gripe e covid-19.

As autoridades de saúde portuguesas estão a combater as baixas taxas de vacinação no Algarve através de uma estratégia focada na busca ativa de utentes e na proximidade comunitária Os centros de saúde realizam auditorias frequentes aos sistemas informáticos para identificar crianças e jovens com doses em atraso, avançando de imediato com contactos diretos através de telefonemas, SMS ou cartas registadas. Para mitigar o isolamento geográfico de concelhos como Aljezur e Vila do Bispo, equipas móveis de enfermagem deslocam-se às zonas rurais para administrar as vacinas localmente.Nas escolas da região, as autoridades cruzam os dados de matrícula com o registo vacinal para sinalizar alunos em falta e alertar os encarregados de educação. Paralelamente, os serviços de saúde pública trabalham com as autarquias locais para traduzir materiais informativos e integrar as comunidades estrangeiras residentes no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Por fim, os profissionais de saúde desenvolvem ações de esclarecimento direcionadas para combater mitos e a hesitação vacinal junto de grupos específicos da população. Parece-me insuficiente. 

O debate em torno do movimento antivacinas e da proliferação de comunidades dogmáticas em Portugal exige uma análise objetiva das causas e uma revisão urgente do enquadramento legal. A experiência demonstra que o confronto direto com correntes New Age e determinadas comunidades de permacultura é ineficaz: nestes meios, o ceticismo em relação às vacinas e ao conhecimento científico assenta na construção de identidades, no sentimento de pertença e na rejeição do que consideram a "frieza" do sistema dominante. Esta mentalidade, contudo, gera consequências graves e conduz a mortes perfeitamente evitáveis.

A fixação destas famílias estrangeiras em Portugal - com particular incidência no interior (Beira Alta, região Centro) e no Algarve - resulta diretamente de um fenómeno de "fuga às regras". Países como a França e a Alemanha identificaram o risco do isolamento comunitário e do desrespeito pela saúde pública, endurecendo substancialmente os seus regimes jurídicos. Entre 2018 e 2020, tornaram a vacinação infantil obrigatória para o acesso ao ensino e erradicaram ou restringiram severamente o ensino doméstico (homeschooling).

Enquanto a Europa Central fechou as brechas legais, Portugal manteve-se como um dos países mais permissivos do continente, tornando-se um refúgio para quem procura educar os filhos fora do sistema oficial em redes locais sem controlo rigoroso. Embora a adesão da população nacional ao Programa Nacional de Vacinação seja massiva, a vacinação de menores não é juridicamente obrigatória, o que deixa uma margem de manobra perigosa. 

De salientar que há uma faixa social portuguesa em que a hesitação vacinal dos pais são na maioria da classe média-alta e alta. [artigo científico aqui]

Para proteger a saúde pública e a integração social das crianças, Portugal precisa de importar medidas coercivas inspiradas no modelo alemão, assegurando a devida conformidade constitucional:
  1. Condicionamento de acesso e sanções: nenhuma criança deve ser admitida em creches, escolas (públicas ou privadas), ATL ou colónias de férias sem o boletim de vacinação em dia. Caso seja detetada a ausência de vacinas, deve aplicar-se um prazo limite de três meses para regularização, sob pena de cancelamento da matrícula. Paralelamente, ao tornar o ensino presencial obrigatório e banir o ensino doméstico, os pais incumpridores devem ficar sujeitos a multas administrativas pesadas (a exemplo dos 2.500 euros aplicados na Alemanha).
  2. Abrangência a adultos e profissionais de risco: a obrigatoriedade vacinal deve estender-se a quem lida diretamente com populações vulneráveis - pessoal médico, trabalhadores de hospitais e lares, professores e funcionários de creches ou centros de acolhimento. A ausência de imunização deve proibir a contratação ou motivar a suspensão de funções.
Cabe ao Estado Português atuar legislativamente antes que a permissividade jurídica continue a expor a comunidade a riscos evitáveis.

Ler mais:

sábado, 4 de julho de 2026

Criminalidade. Revisão da população mostra país ainda mais seguro

A taxa de criminalidade foi revista em baixa nos últimos anos, na sequência das alterações do INE. O país vive um dos períodos com menor incidência da criminalidade em quase trinta anos. Este artigo integra a rubrica Visão Periférica.
4 Julho 2026, 11h00

Muita tinta já correu na sequência da disrupção estatística provocada pela revisão populacional do INE. Mas não ficará por aqui. Esperam-se outras repercussões nos próximos tempos, tendo em conta que estão a ser revisitados vários indicadores que dependem da população, como a riqueza anual por habitante ou dados relativos ao emprego e à saúde. Um deles - a taxa de criminalidade - já foi atualizado esta semana pelo INE, mas passou despercebido.

Os novos dados mostram que houve 32 crimes por cada mil habitantes em 2025, uma subida face a 2024 (31,2), mas abaixo de 2023 (33,2). Estes últimos dois valores (tal como os dos dois anos anteriores) são já reflexo da revisão do INE — antes, estavam em causa mais dois crimes por mil habitantes (33 e 35, respetivamente, segundo as contas do Jornal Económico).

Isto significa que a taxa de criminalidade do ano passado é a quinta mais baixa desde 1998. E a taxa de 2024 passa a ser a terceira. Nesta comparação, estão incluídos os anos de 2020 (28,7 crimes) e 2021 (28,4) - períodos em que houve confinamentos e, por arrasto, menos oportunidades para várias tipologias de crime. Dito de outro modo, se não contássemos com este período de excepção, o valor de 2024 teria sido o mais baixo em pelo menos 28 anos. E a taxa de 2025 seria a terceira mais baixa.

Convém notar que a incidência da criminalidade em Portugal, nos últimos anos, já se encontrava em níveis reduzidos quando comparada com outros períodos da história recente. Mesmo antes desta revisão, o pico de 2023 era inferior a qualquer taxa entre 1999 e 2013.

Os valores mais elevados foram registados entre 2008 e 2010 (na casa dos 40 crimes), período que coincide com a crise financeira global. Nos anos seguintes, durante a Troika, houve uma progressiva redução, com quatro descidas consecutivas a partir de 2011 (até atingir 33,8 em 2014), num contexto de queda da população (menos 163 mil pessoas em quatro anos). E depois estabilizou: em seis dos últimos oito anos (com exceção do período da pandemia), andou sempre entre 31 e 32 crimes por mil habitantes.


Claro que nem todos os crimes são iguais, mas a análise por categoria não altera as conclusões. Nos crimes contra a integridade física, a taxa de criminalidade está em 5 por 1.000 habitantes, o valor mais baixo desde pelo menos 2011. O mesmo se aplica aos furtos de veículo e em veículo motorizado (2,4) e aos furtos e roubos por esticão e na via pública (0,6) — neste caso, ao mesmo nível do período 2021-2023. Os crimes contra o património (16,2) só não são o valor mais reduzido porque na pandemia houve menos (de 2020 a 2022 oscilou entre 14 e 15 por mil habitantes).

As duas únicas categorias em que a taxa de criminalidade não está em níveis historicamente baixos dizem respeito ao comportamento na estrada: a condução com taxa de álcool igual ou superior a 1,2 g/l é de 2 por cada mil (tinha sido inferior entre 2017 e 2021 e em 2024) e a condução sem habilitação (1,3), que supera nove dos últimos 15 anos.

Os imigrantes
Comparando com os dados imediatamente anteriores à pandemia, houve um aumento de 9% na criminalidade registada entre 2019 e 2025: mais 30 mil, para um total de 365 mil crimes, segundo as contas do JE, com base no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), publicado no final de março. Só que, sabemos agora, este aumento ocorreu enquanto a população crescia 10,1%, cerca de um milhão de pessoas desde 2019, sobretudo imigrantes.

Numa altura em que os cidadãos estrangeiros representam 14% da população, a incidência da criminalidade é uma das mais baixas em quase três décadas, comparando bem com o pré-pandemia (32,3 crimes por mil habitantes em 2019) e com o registo de há uma década (os mesmos 32 crimes em 2016). Nesses anos, porém, os cidadãos estrangeiros representavam apenas entre 3% e 4% dos residentes. Ou seja, o peso dos imigrantes duplicou no país, mas os níveis de criminalidade mantiveram-se estáveis em relação à população, contrariando as narrativas populistas.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Noruega destaca-se como “o país europeu que mais portugueses expulsou” em 2025?


Não. Em 2023, o Polígrafo já tinha verificado um post onde era visível um artigo do “Público”, ilustrado com os retratos de oito indivíduos negros, que supostamente teriam sido expulsos da Noruega. A notícia, apesar de verdadeira, não tem qualquer relação com a imagem utilizada. Agora, repete-se a alegação, completamente desprovida de contexto.

O artigo foi publicado em 2022 e, consequentemente, diz respeito a 2021. Nesse ano, dos 370 portugueses deportados, 276 (74%) foram realmente expulsos de países europeus, sendo que, de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2021, 95 desses foram obrigados a abandonar a Noruega, mais do que qualquer outro país. As autoridades norueguesas especificaram ainda que o número não só engloba expulsões, como também recusas de entrada e permanência.

A estatística, no entanto, volta a ser partilhada em 2026, referindo-se assim ao ano de 2025. Ora, o RASI de 2025 aponta para um total de 352 portugueses que receberam ordens de saída em todo o mundo, dos quais 219 foram afastados de países na Europa. Ao contrário do registado em anos anteriores, a Noruega não consta sequer dos países referidos neste contexto.

Tal como mencionado, as fotografias que acompanham o post não mostram portugueses afastados de qualquer país. Na realidade, são retratos de criminosos detidos em 2017 por tráfico de droga em Londres. De facto, alguns dos homens detidos têm nomes em língua portuguesa, como Bruno da Silva, Evanildo Gomes ou José Mário Sá. Porém, nenhuma das penas aplicadas consistiu na expulsão de qualquer um dos condenados, cujas penas variaram entre nove meses e quatro anos de prisão.

Em conclusão: os números indicados na publicação estão desatualizados e, no último ano (2025), a Noruega não foi o país europeu que mais portugueses deportou; as imagens não correspondem a indivíduos de nacionalidade portuguesa, nem a indivíduos deportados da Noruega. Duas falsidades numa mesma publicação.

terça-feira, 17 de março de 2026

Mohommad Paktyawal, cidadão norte-americano, serviu o País durante a guerra do Afeganistão, morreu 24 horas depois, nas mãos do ICE

Agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), em veículos não identificados, cercaram Mohommad Nazeer Paktyawal em frente à sua casa, no Texas, quando ele se preparava para levar os filhos à escola. O homem de 41 anos, pai de seis filhos, que tinha servido ao lado do 3.º Batalhão das Forças Especiais do Exército dos EUA no Afeganistão, morreu sob custódia do ICE no dia seguinte.

After working with the U.S. military in Afghanistan, Mohommad Nazeer Paktyawal died in the country he spent years of his life helping.
The cruelty is endless.

Toda a história aqui e aqui
História detalhada aqui



sábado, 7 de março de 2026

Mafalda Livermore: a ironia faz-se sózinha


O caso de Mafalda Livermore é o exemplo acabado de como a realidade, por vezes, se encarrega de expor as maiores contradições sem precisar de floreados. A ironia faz-se sozinha porque o choque entre a retórica e a prática é absoluto: uma criminologista, ligada a um partido que se apresenta como o único capaz de limpar a corrupção e combater o "sistema" de privilégios, acaba exonerada por um caso de nepotismo direto e pela exploração de condições de habitabilidade indignas. Rever Prova dos Factos

A situação torna-se particularmente gritante quando observamos que o lucro vinha precisamente da população imigrante, o grupo que o partido mais utiliza como alvo do seu discurso de insegurança e desordem. Quando uma estrutura política que reclama a exclusividade da moralidade e da "lei e ordem" se vê enredada em esquemas de favorecimento familiar e na precarização de seres humanos, a narrativa de "pureza" colapsa. Não é necessário um debate ideológico profundo para perceber a incoerência; basta olhar para os factos, que se revelam tão opostos às promessas eleitorais que a própria situação se torna uma sátira da mensagem política que o partido tenta vender.

O Chega é um verdadeiro poço de bandidos de toda a ordem. Quase não há dia nenhum em que não se descubra que mais um bandido chegano foi caçado numa das milhentas falcatruas possíveis de serem feitas neste mundo de pseudo empresários nascidos nas redes sociais.
As escandaleiras envolvendo cheganos são tantas e de tal ordem que já ninguém se admira quando um qualquer noticiário abre com a noticia de um chegano metido em vigarices ou enfiado num qualquer processo judicial. Escolheram-nos a dedo o que não admira numa seita montada sobre milhentas assinaturas falsificadas pelas quais ninguém foi responsável nem responsabilizado. Até hoje ninguém percebe como um gangue de bandidos pode concorrer a eleições com órgãos diretivos ilegais, com contas não aprovadas pelo tribunal Constitucional e com estatutos reprovados pelo mesmo Tribunal. O Chega utiliza estas derrotas no Tribunal Constitucional para alimentar a sua própria narrativa: presentam-se como vítimas de uma perseguição das elites ou dos juízes "do sistema" e quanto mais o TC chumba os seus estatutos, mais o partido diz aos seus eleitores que "eles" (os poderes instituídos) estão a tentar calar a voz do povo.
Mas se toda esta vigarice causa estranheza a muita gente mais estranheza causa que 25% dos eleitores nacionais estejam de tal forma alienados e hipnotizados com este bando de gangsters que lhes entregam o seu voto.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Era só o que faltava que eu não pudesse reflectir em voz alta - Amanhã votarei em António José Seguro!

Ainda tem dúvidas? 
Autarca do Chega de 49 anos aterrorizou um vizinho com tiros (!!). Além de lhe ter matado uma ovelha, o fulano causou danos avaliados em 20 mil euros à vítima, também resultantes de disparos de arma de fogo.
Amanhã voto ANTÓNIO SEGURO, faça chuva, faça Sol.

Amanhã irei votar contra o ódio, contra o fascismo, contra o racismo, contra a xenofobia, contra a homofobia, contra a misoginia, contra as touradas, contra a bufaria, contra a militarização das fronteiras, contra a criação de uma polícia migratória estatal e contra criminosos de colarinho branco. 

Não é só Portugal que está em causa. André Ventura partilha e difunde os pilares fundamentais do movimento Internacional Nacionalista, a saber: 

A. Nacionalismo Identitário: A defesa da "identidade cristã" e dos valores tradicionais contra o multiculturalismo. 

B. Populismo de Exclusão: A dicotomia entre o "povo de bem" e as "elites corruptas", estendendo-se frequentemente a ataques contra minorias (especialmente a comunidade cigana e imigrantes). 

C. Segurança e Autoritarismo: Defesa de penas mais pesadas (prisão perpétua, castração química) e um apoio incondicional às forças policiais. (vejam o ICE, nos EUA)

2. As Alianças Internacionais 
André Ventura tem sido muito eficaz a inserir-se na "Internacional Nacionalista". Ele não é apenas um admirador, é um parceiro ativo de figuras chave: 

Santiago Abascal (VOX) Espanha - O aliado mais próximo, com frequentes visitas mútuas e uma agenda comum para a Península Ibérica. 

Matteo Salvini (Lega) Itália - é parceiro no grupo parlamentar europeu Identidade e Democracia (ID). 

Marine Le Pen (RN) França - uma das principais referências e apoiante pública de Ventura em campanhas eleitorais. 

Viktor Orbán (Hungria)- Ventura aponta frequentemente a Hungria como modelo de defesa das fronteiras e da família. 

Donald Trump / Jair Bolsonaro- Ventura adoptou o estilo de comunicação direta e brutalista nas redes sociais e a retórica de "limpeza do sistema" destes líderes.

André Ventura pratica e abusa de deepfake, bots e mentiras.

Só tenho pena de não ter sido discutido o tema ecologia e ambiente.

Provavelmente este “ português de bem ”vai apresentar como defesa, que a ovelha o insultou ou era do Bangladesh (ironia)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O problema com Stephen Miller é que ele não sente vergonha. O arquiteto da política de imigração de Trump cometeu um erro em Minneapolis



Depois da morte do enfermeiro norte-americano Alex Pretti às mãos do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA, as atenções começam a virar-se para Stephen Miller, o principal conselheiro de Donald Trump, responsável por redesenhar a política de imigração do país.

Nas redes sociais, Miller não demorou a classificar a vítima como um “aspirante a assassino”, que tentou matar agentes federais”, apenas algumas horas depois do confronto fatal entre as forças do ICE e o homem de 37 anos. Mas nem Donald Trump parece concordar com a afirmação, tendo assegurado esta terça-feira que “não” acredita que Pretti fosse um assassino.

No mesmo dia, em declarações à CNN, Stephen Miller admitiu que os agentes “podem não ter seguido” o protocolo adequado antes do tiroteio que tirou a vida a Pretti - uma posição insólita vinda de alguém conhecido por reforçar as suas convicções, de acordo com o The Guardian.

Antes de ser contrariado pelo próprio presidente, já se levantavam dúvidas sobre a ausência do conselheiro na reunião de duas horas que Donald Trump realizou com a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, esta segunda-feira, de onde saiu um novo anúncio: foi destacado para Minneapolis o “czar da fronteira” da Casa Branca, Tom Homan, para “recalibrar as táticas” e melhorar a cooperação com as autoridades estatais e locais.

Além de Homan ser conhecido por criticar a abordagem de Stephen Miller, Donald Trump manteve ainda telefonemas cordiais com o governador do Minnesota, Tim Walz, e com o presidente da Câmara de Minneapolis, Jacob Frey.

“O problema com Stephen Miller é que o mal é resiliente. Ele não sente vergonha, não acha que isto seja algo mau. Está convencido de que outras pessoas o envergonharam, mas não acredita que ele esteja a conduzir um ataque às liberdades constitucionais dos americanos”, afirmou Rick Wilson, co-fundador do Lincoln Project (um grupo anti-Trump), citado pelo mesmo jornal.

Em maio do ano passado, o conselheiro de Trump encomendou ao serviço de imigração três mil detenções diárias, um aumento de quase dez vezes relativamente ao ano anterior. Segundo, Larry Jacobs, diretor do Centro para o Estudo da Política e Governação da Universidade do Minnesota, o abuso de poder de Miller foi um dos principais fatores a desacreditar a política de deportação de Donald Trump.

“O facto de ele ter sido afastado da reunião na Casa Branca é uma mensagem forte para Washington de que o presidente não aprova este processo e de que tem de haver uma mudança”, reforça o responsável, afastando, ainda assim, a possibilidade de Miller vir a ser despedido. “Não espero que Stephen Miller seja despedido, porque Donald Trump apoia a política, só não apoia a forma como foi executada”, sublinhou Larry Jacobs.

Apesar de os democratas terem avançado com uma iniciativa para destituir Kristi Noem, os especialistas não têm dúvidas de que o verdadeiro culpado da tragédia de Minneapolis é Miller, que ocupa ainda o cargo de vice-chefe de gabinete da Casa Branca.

Larry Jacobs destaca Stephen Miller como o verdadeiro “arquiteto” que “tem pressionado o ICE para endurecer e apresentar mais números, trazer pessoas e só depois ver se são as pessoas certas”.

“A imprudência, a brutalidade, a falta de processo legal. Tudo isso tem raízes em Stephen Miller”, frisou o especialista.

Depois do erro de Minneapolis, o principal conselheiro de Donald Trump “terá um papel público muito menor no futuro previsível”, afirmou Henry Olsen, investigador no Ethics and Public Policy Center, em Washington.

“É claro que Trump pessoalmente não gosta, do ponto de vista das relações-públicas, do que tem estado a acontecer, e é sensível a isso, sempre foi. Ele sabe, tanto pelo seu instinto como pelo que os dados lhe dizem, que Miller e Noem não se favoreceram com a forma como abordaram imediatamente a morte” de Pretti.

Mesmo assim, corrobora a opinião dos investigadores que não acreditam numa demissão de Miller: “Ele está com Trump há bastante tempo e o presidente não tem problemas em livrar-se de subordinados que não rendem, mas suspeita-se que Miller, em muitos aspetos, está a render e, por isso, Trump não o vai atirar borda fora precipitadamente.”

“Stephen Miller é demasiado dominante no esquema mental de Trump sobre o que a base MAGA quer, para ser verdadeiramente afastado do seu círculo. Não acho que exista um mundo em que Miller não mantenha a sua autoridade e o seu poder junto de Trump”, corrobora Rick Wilson.

Henry Olsen sublinha que é do interesse de Donald Trump manter Miller por perto, já que o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, rende onde interessa ao presidente: na televisão. É um defensor combativo de Trump, que caracteriza os democratas como uma “organização extremista doméstica” e a América como líder de um mundo “governado pela força, governado pela violência, governado pelo poder”.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Obrigado, Bangladesh

"À saída de uma vila alentejana dou com um dos muitos cartazes que o Chega e o seu chefe, André Ventura, espalharam por Portugal inteiro: “O Alentejo não é o Bangladesh.” Pois não, não é: o Bangladesh não precisa de importar alentejanos para conseguir sustentar a sua agricultura, para fazer as sementeiras e as colheitas, para apanhar a azeitona e a amêndoa. Tivesse o Bangladesh uma barragem como a do Alqueva  - “Construam-me, porra!” (a tal que ia dar trabalho a todos os alentejanos e tornar prósperos os seus agricultores) - e hoje não haveria ninguém a trabalhar no regadio do Alqueva nem a tornar próspera a sua agricultura. Mas, felizmente para os alentejanos, os “violadores, assaltantes e bandidos” com que, segundo Ventura, o “socialismo” e os “partidos de esquerda” encheram o país nos últimos anos, vindos de África, do Bangladesh ou do Brasil, não se importam de fazer o trabalho duro nos campos que a maioria dos alentejanos já não quer fazer. E, mesmo dormindo em barracões ou contentores, ou em casas onde cabem 30 no lugar de três e pagando aos senhorios alentejanos por 30 e não por três, essa gente estranha que o socialismo importou continua a trabalhar, recebendo o ordenado mínimo e vivendo em condições de indignidade. Ou mesmo fazendo trabalho forçado e semiescravo nos campos alentejanos, vigiados e ameaçados por guardas da GNR, em regime de supranumerário e ao serviço de “empresários” agrícolas apoiados por dinheiros europeus e que, tal como André Ventura, vão à missa todos os domingos e são contra o acordo com o Mercosul, porque, dizem, os do Mercosul podem vender mais barato porque não têm as preocupações sociais deles. Obrigado, Bangladesh!

Numa praça de uma aldeia algarvia entro num café cujo interior está submergido por uma intensa vozea­ria, digna de um souk árabe. Mas não - sossega, Ventura -, não são árabes, são algarvias, e esta é a sua ocupação diária: tagarelar e jogar à raspadinha. O dia inteiro, porque não há nada de necessário para fazer que os imigrantes não façam: eles trabalham e os algarvios votam no Chega - ao que parece porque temem que eles venham substituí-los e com isso fazer submergir esta nossa exaltante civilização judaico-cristã. Na mesa em frente da minha estão três mulheres em desabrida gritaria, às quais se vem juntar também uma empregada da casa. E ali estaciona à conversa, até que alguém lhe grita do balcão: “Ó Mena, anda trabalhar que há clientes à espera!” Aí, a provável votante do Chega vira-se, furibunda: “Eles que esperem, não vês que estou na conversa? Era o que faltava!” Por um momento imagino a mesma cena protagonizada por um empregado ou empregada que fizesse parte do rol dos assaltantes, violadores ou bandidos de que fala Ventura - devia ser bonito! Porque o Algarve - que vive quase exclusivamente da prestação de serviços aos turistas - dá-se ao luxo de votar no partido que quer expulsar os que prestam esses serviços e sem os quais todo o Algarve colapsaria em dois tempos. Porque os africanos, brasileiros, asiáticos, essa ralé de assaltantes e violadores, além de servirem nos hotéis, nos restaurantes e nos campos de golfe, também estão na construção civil, ajudando a construir os hotéis, vivendas e aldea­mentos onde os turistas dormem, servidos pelos imigrantes. Obrigado, Bangladesh!

Em Lisboa vou a um lar da terceira idade - por razões pessoais e não em campanha eleitoral. Ali, onde uma sociedade sem tempo para os pais nem espaço para a velhice entrega os seus velhos a guardar, não há um só, uma só trabalhadora portuguesa: uma só! São todas africanas e, sobretudo, brasileiras - que, com o seu feitio de ternura inata, substituem-se aos filhos ausentes, tratando os utentes por “minha querida”, “meu amor”. Suponho que sem estes imigrantes os nossos pais e avós estariam abandonados em casa ou ao frio nos jardins públicos, servindo de cenário para as reportagens televisivas sobre os reformados. Obrigado, Bangladesh!

Aliás, apesar de todas as lamentações, se muitos portugueses ainda recebem pensões de reforma, e actualizadas anualmente acima do valor da inflação, devem-no às contribuições dos imigrantes que cá trabalham para a Segurança Social, permitindo inverter o que parecia vir a ser um caminho sem retrocesso em direcção à insustentabilidade financeira. Em Espanha, o Governo socialista acaba de avançar para a legalização extraordinária de meio milhão destes imigrantes, desde que não tenham antecedentes criminais; em Portugal, André Ventura pretende expulsá-los todos ou, não o conseguindo, obrigá-los a pagar contribuições e impostos durante cinco anos antes de poderem ter acesso a quaisquer benefícios: um esbulho cristão. Perdoa-lhes, Bangladesh!

Ainda em Lisboa, como tantos de nós tantas vezes para não ter de sair para almoçar, chamo a Uber Eats, e lá aparece um indiano, paquistanês ou bengali escorrendo água da chuva e sem tempo a perder para tirar o capacete. Imagino-o à noite, no seu barracão atulhado de outros “assaltantes” como ele, longe do seu país, da sua aldeia, da sua mulher, dos seus filhos, dos seus pais — como outrora os nossos emigrantes na Alemanha ou em França, cujos descendentes hoje votam à distância no Chega. Imagino-o na sua solidão diária, contando os dias e os anos até que uma lei desumana lhe permita o reagrupamento familiar, e sem que nenhum de nós, a quem eles tanto servem, se detenha a pensar como viverão estes homens na flor da idade e privados de tudo — estes “violadores”, como assegura o Dr. Ventura -, mas de cujas violações, assaltos e bandidagem não temos notícia. Obrigado, Bangladesh!

O Dr. André Ventura, licenciado em Direito e candidato à Presidência da República, também está em guerra contra o comportamento deste “jornalismo”, que, tal como “os partidos de esquerda” e o “socialismo que mata”, desvaloriza “tudo o que é violador, assaltante e bandido que entra em Portugal”. O Papa Francisco, um homem que os cristãos e os não cristãos respeitavam, disse em tempos que o que matava era “este capitalismo”, e não o socialismo. Mas é sabido que Ventura não gostava do Papa Francisco, achava-o nada menos do que “um anti-Cristo”. Bem vistas as coisas, Ventura não é cristão, é católico português, coisa bem diferente. “Este jornalismo”, de que Ventura não gosta, é aquele que revela os números e as verdades que contrariam as suas teses sobre os imigrantes: que são eles que respondem pelos lucros da Segurança Social e, graças a isso, a contenção do défice público; que são eles que asseguram uma taxa de natalidade positiva; que são eles que garantem a viabilidade económica da agricultura, da construção civil, do turismo, das pescas; que são eles que limpam as ruas das nossas cidades, que nos trazem comida ou remédios a casa, que tomam conta por nós dos nossos pais e avós, que constroem as pontes, as estradas, as vias férreas e as Expo com que o país se quer mostrar modernizado - e, ao contrário do que queria Ventura, a taxa de criminalidade entre os imigrantes é irrelevante. O que Ventura não suporta é que o jornalismo recorde isso aos portugueses, que vá ouvir os empresários que reclamam mais imigrantes e não menos, que desfaça a tese insultuosa de Ventura de que os imigrantes vivem de subsídios. O que não suporta é que o jornalismo demonstre que é ele que vive de mentiras, chegando ao ponto de inventar, em directo na RTP, uma “notícia do dia” sobre um cigano que teria entrado aos tiros numa escola, “disparando para o ar sobre as crianças” (?) - e que era absolutamente falsa, como tantas outras que ele e o seu partido divulgam sem sombra de pudor. E não gosta que o jornalismo conte que há elementos do Chega entre os grupúsculos neo­nazis de camisas pretas que querem derrubar a democracia - a que Ventura prefere chamar o “sistema”.

“Deus, pátria, família e trabalho”, eis o credo de André Ventura, “o candidato do povo” contra o sistema. Soa familiar e é familiar. Pobre povo se algum dia voltar a querer viver em ditadura, às mãos de quem quer pôr isto na ordem! Logo verá o chefe dizer-lhe que se ocupe da família e do trabalho, que de Deus e da pátria ocupa-se ele. E assim viveremos mais 50 anos felizes, como as nações sem história.

Minha análise
Janala (janela), chabi (chave), balti (balde), almari (armário), baranda (varanda) ou saban (sabão) são apenas alguns dos vocábulos semelhantes entre o português e o bengali. Foi no século XVI, em plena época dos Descobrimentos, que os portugueses chegaram ao território de Bengala, atracando no porto de Chittagong. Por ali permaneceram e deixaram vestígios, não só na língua, mas também na arquitetura e na culinária. Aliás, o primeiro homem a escrever uma gramática bengali foi frade agostinho Manoel de Assumpção, já no século XVII. A obra, intitulada ‘Vocabulario em idioma Bengalla e Portuguez”, foi publicada em 1743.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

PJ desmantela grupo neonazi "Grupo 1143" responsável por crimes de ódio e detém 37 suspeitos


A Polícia Judiciária (PJ) desmantelou hoje uma associação criminosa que praticava crimes de ódio, tendo detido 37 suspeitos com “vastos antecedentes criminais” e “ligações a grupos de ódio internacionais”.

Em comunicado, a PJ adianta que, no âmbito da operação “Irmandade”, foram constituídos “mais 15 arguidos e realizadas 65 buscas domiciliárias e não domiciliárias”.

Os detidos, entre os 30 e os 54 anos, “adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema-direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes”.

São suspeitos de terem fundado a organização criminosa, com uma estrutura hierárquica e distribuição de funções, “com o exclusivo propósito de desenvolver atividades que incitavam à discriminação, ao ódio e à violência racial”.

A organização é “responsável pela prática de crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensas à integridade física qualificada e detenção de armas proibidas”.

Na operação, conduzida pela Unidade Nacional de Contraterrorismo, participaram cerca de 300 elementos da PJ.

Segundo a CNN Portugal, o líder do grupo é Mário Machado, conhecido neonazi que está a cumprir pena por crimes da mesma natureza e que dava as instruções a partir da cadeia, e as vítimas eram imigrantes de países islâmicos.

Fonte próxima do processo disse entretanto à Lusa que a cela de Mário Machado foi alvo de buscas hoje de manhã.

Os detidos têm marcado o primeiro interrogatório judicial, para aplicação das medidas de coação, na quarta-feira no Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa.

Há dois elementos "não civis" entre os 37 detidos do Grupo 1143 durante a Operação Irmandade, esta terça-feira. A PJ não quis explicitar se se tratam de elementos das forças e serviços de segurança, na conferência de imprensa realizada poucas horas após as buscas. Mas o Expresso apurou que um destes dois elementos é um militar e o outro polícia.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Anti-Imigrantes e Conservadores, pensem nisto - a vida de Lupe Vélez

Lupe Vélez, atravessou as Duas Grandes Guerras Mundiais. Uma Mulher muito à frente do seu tempo! Lupe Vélez, cujo nome verdadeiro era María Guadalupe Vélez de Villalobos, foi uma atriz Mexicana que fez carreira nos EUA, nascida a 18 de julho de 1908 em San Luis Potosí, México, e falecida em Beverly Hills, Califórnia, a 13 de dezembro de 1944. É conhecida pela sua prestação no filme "O Marido da Mulher Indiana" (1931), de Cecil B. DeMille.
A imagem que Lupe projetava na tela grande nada mais era do que um reflexo da sua própria personalidade. Vélez manipulava conscientemente a sua imagem. Com sua proclamação: "Eu não sou selvagem. Eu sou apenas Lupe", Vélez cultivou uma reputação pública como uma mulher explosiva e irreverente em Hollywood, e se identificava com papéis cinematográficos de mulheres da "classe média baixa" e personagens exóticas. Jornalistas de Hollywood a apelidaram de Whoopee Lupe , A Pantera Mexicana e La Chinampina . Chegaram ao ponto de proclamá-la a Garota Mexicana do Momento, em resposta ao sucesso da "flapper girl" da moda, Clara Bow , a chamada Garota do Momento . Vélez revelou: "A que atribuo meu sucesso? Acho, simplesmente, que sou diferente. Não sou bonita, mas tenho olhos lindos e sei exatamente o que fazer com eles. Mesmo que o público pense que sou uma garota muito selvagem, na verdade não sou." Sou apenas eu, Lupe Vélez, a simples e natural Lupe. Se estou feliz, danço, canto e ajo como uma criança. E se algo me irrita, grito e choro. Alguém chamou isso de "personalidade". Personalidade nada mais é do que ser você mesmo perto de outras pessoas. Se eu tentasse parecer e agir como Norma Talmadge , a grande atriz dramática, ou como Corinne Griffith , a aristocrata do cinema, ou como Mary Pickford , a doce e gentil Mary, eu não seria nada mais do que uma imitação. É por isso que eu só quero ser eu mesma, Lupe Vélez". Infelizmente teve um fim trágico. Naquela época, ser mãe solteira era socialmente inaceitável e teria acabado com sua carreira; ela descartou a alternativa de um aborto. Desesperada, cansada do amor não correspondido e deprimida pelo escândalo iminente, ela viu apenas uma saída: decidiu cometer suicídio.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Governo dos EUA faz ameaça anti-imigração em português



“Se você vier aos Estados Unidos para roubar os americanos, o presidente Trump vai te jogar na cadeia e te mandar de volta para o lugar de onde você veio.” A mensagem, escrita em português do Brasil, foi colocada esta semana na conta oficial do Departamento de Estado dos EUA no X (antigo Twitter).

A acompanhar a publicação, uma fotografia de Donald Trump a preto e branco com uma legenda em letras garrafais: “Envia-os de volta.”

O Departamento de Estado dos EUA, equivalente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros em Portugal, tem contas nas redes sociais em várias línguas - e aproveitou-as para passar, também na língua portuguesa, a mensagem anti-imigração de Donald Trump.

Ao longo do último ano, o Presidente dos EUA, Donald Trump, intensificou a ação contra a imigração ilegal nos Estados Unidos, promovendo rusgas em massa por todo o país para capturar imigrantes ilegais, deportações e perseguições judiciais — e mergulhando no medo várias comunidades imigrantes, incluindo a comunidade portuguesa de Nova Jérsia.

Na quarta-feira (14), o canal de televisão Fox News Digital comunicou que seria congelada a emissão de autorização para permanência nos Estados Unidos. Pouco depois, por meio de publicação em seu perfil no X, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, confirmou a informação. O Departamento de Estado justificou a medida por meio de postagem na mesma rede social.

“O Departamento de Estado suspenderá o processamento de vistos de imigrantes de 75 países cujos imigrantes recebem benefícios sociais do povo norte-americano em taxas inaceitáveis, o congelamento permanecerá em vigor até que os EUA possam garantir que os novos imigrantes não irão extrair riqueza dos [cidadãos] norte-americanos”, disse o órgão.

O departamento também afirmou que a interrupção do serviço afetava países “cujos imigrantes frequentemente se tornam um encargo público” para o país. “Estamos trabalhando para garantir que a generosidade do povo norte-americano não seja mais explorada”, escreveu. O órgão finalizou a publicação dizendo que “o governo Trump sempre colocará os Estados Unidos em primeiro lugar”.

Trump imigrante, mãe de Trump imigrante, mulher de Trump imigrante. Trump pedófilo. Aliado e alimentando com biliões de dólares ditadores de extrema-direita na América Latina  [aqui]  . Roubou e invadiu Venezuela e ameaça o mesmo noutros Países do Norte Gobal.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Seriously, what is a human being?


Friends,
It seems appropriate right now to try to clarify one of the most basic questions America is (or should be) struggling with: What does it mean to be a human being?
The confusion is mounting.

Three illustrations:

1. Corporations
Corporations are not human beings. That should be self-evident.

But in 2010, the Supreme Court ruled (in its Citizens United case) that corporations are the equivalent of “people” under the First Amendment to the Constitution, with rights to free speech.

This ruling has made it nearly impossible for the government to restrict the flow of money from giant corporations into politics. As a result, the political voices — and First Amendment rights — of most real human beings in America are being effectively drowned out.

But in coming years, states will have an opportunity to circumvent Citizens United by redefining what a “corporation” is in the first place. Absent state charters that empower them to become “corporations,” business organizations are nothing more than collections of contracts — between investors and managers, managers and employees, and consumers and sellers.

In the 1819 Supreme Court case Trustees of Dartmouth College v. Woodward, Chief Justice John Marshall established that:
“A corporation is an artificial being, invisible, intangible [that] possesses only those properties which the charter of its creation confers upon it …. The objects for which a corporation is created are universally such as the government wishes to promote.”

Montana is now readying a proposition for its 2026 ballot that would empower organizations that sought to be corporations there to do many things — except to fund elections. (I’ve written more on this, here.)

2. Artificial Intelligence
AI is not human, although it’s becoming increasingly difficult for many real people to tell the difference between “artificial general intelligence” and a real person.

As a result, some real people have lost touch with reality — becoming emotionally attached to AI chat boxes, or fooled into believing that AI “deepfake” videos are real, or attributing higher credibility to AI than is justified — sometimes with tragic results.

In his typically ass-backward pro-billionaire way, Trump has issued an executive order aimed at stopping states from regulating AI. But some governors — most interestingly, Florida’s Ron DeSantis — have decided to establish guardrails nonetheless.

DeSantis is calling on Florida’s lawmakers to require tech companies to notify consumers when they are interacting with AI, not to use AI for therapy or mental health counseling, and to give parents more controls over how their children use AI. DeSantis also wants to restrict the growth of AI data centers by eliminating state subsidies to tech companies for such centers and preventing such facilities from drying up local water resources.

In a recent speech, DeSantis said:
“We as individual human beings are the ones that were endowed by God with certain inalienable rights. That’s what our country was founded upon — they did not endow machines or these computers for this.”

I never thought I’d be agreeing with Ron DeSantis, but on this one he’s right.

Corporations are legal fictions. Human AI is a technological fiction. Neither has human rights. Both should be regulated for the benefit of human beings.

3. Non-Americans and suspected enemies
The third illustration of our current confusion over what is a human being is endemic in Trump’s policies toward immigrants and many inhabitants of other nations, now especially in and around Venezuela.

Yesterday, a federal agent shot and killed a 37-year-old woman during an immigration raid in Minneapolis. Despite what Trump and Kristi Noem say, a video at the scene makes clear that the shooting was not in self-defense. Minnesota Gov. Tim Walz said: “We have been warning for weeks that the Trump administration’s dangerous, sensationalized operations are a threat to our public safety,” adding that it cost a person her life.

ICE agents are arresting and detaining people on mere suspicion that they are not in the United States legally — sometimes deporting them to foreign nations where they’re brutalized — without any independent findings of fact (a minimum of “due process”).

Meanwhile, Trump and Stephen Miller, his assistant for bigotry and nativism, are busy dehumanizing immigrants. For example, Trump describes Somalian-Americans as “garbage.”

Last weekend, the U.S. killed an estimated 75 people in its attack on Venezuela, as it abducted Venezuelan president Nicolás Maduro and his wife. The U.S. has been bombing and killing sailors on small vessels in the Caribbean and off the coast of Venezuela on the suspicion they’re smuggling drugs into the United States — on the vague pretext that they’re “enemy combatants,” although Congress has not declared war.

Trump’s justification for all such killings has shifted from preventing drug smuggling to “regaining control” over oil reserves that Venezuela nationalized 50 years ago.

In all these cases, the Trump regime is violating fundamental universal human rights considered essential to human dignity.

Corporations and AI are not human beings, but people who come to the United States seeking asylum indubitably are human. So too are undocumented people who arrived in the United States when they were small children and have been here ever since. As are our neighbors and friends who, although undocumented, are valued members of our communities.

As are the Venezuelans who have been murdered by the Trump regime. So, what does it mean to be a human being?

It means the right to be protected from the big-money depredations of giant corporations, and from the emotional lure of AI disguised as a human.

And it means to be treated respectfully — as a member of the human race possessing inherent, inalienable rights.

These are moral imperatives. But America is doing exactly the reverse.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Mão de obra imigrante é nove anos mais jovem do que a portuguesa – estudo


Os imigrantes que trabalham em Portugal são, em média, nove anos mais novos que a força de trabalho portuguesa, segundo uma análise estatística hoje divulgada.

De acordo com uma pesquisa da plataforma Prepara Portugal, com base nos dados cruzados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), “em 2023, a idade mediana dos trabalhadores estrangeiros era de 33 anos, enquanto a dos trabalhadores portugueses atingia os 42 anos”, um sinal de que os imigrantes contribuem para o “rejuvenescimento do mercado de trabalho nacional”.

Por outro lado, o estudo indica que mais de 85% da população estrangeira residente em Portugal encontra-se em idade ativa, muito acima da população portuguesa.

“Entre os nacionais, o grupo com 65 anos ou mais representa mais de 24% da população, enquanto entre os imigrantes esse valor não ultrapassa 8,5%”, refere Higor Cerqueira, diretor pedagógico do Prepara Portugal, uma plataforma destinada a estudantes internacionais e imigrantes que procuram inserção profissional no mercado português.

Segundo o estudo, cuja versão final será apresentada em janeiro, os imigrantes “estão fortemente inseridos em setores estratégicos como construção civil, turismo, restauração, agricultura, serviços administrativos e tecnologia da informação, áreas que enfrentam escassez estrutural de mão de obra nacional”.

De acordo com Pedro Stob, formador do curso de Análise de Dados e Tecnologia da Informação Aplicada à Gestão, do Centro de Formação Prepara Portugal, o objetivo final foi formar “alunos a trabalhar com dados reais, interpretar fenómenos sociais complexos e comunicar conclusões com impacto para a sociedade”.

“O estudo aponta ainda para uma integração progressiva dos imigrantes no mercado laboral, refletida na melhoria das taxas de emprego e no aumento gradual das remunerações médias ao longo do período analisado, apesar da persistência de desafios como diferenças salariais, reconhecimento de qualificações e estabilidade contratual em alguns setores”, referem os autores.

A máquina da atenção: análise da cobertura do Chega e do seu líder


Há uma pergunta que não podemos evitar sempre que começa uma campanha eleitoral: quem define, de facto, os temas que ocupam o espaço público: os partidos ou as redacções dos Meios de Comunicação Social? Nas Autárquicas de 2025, a resposta ganhou contornos mensuráveis. Um levantamento exploratório do MDP: Movimento pela Democracia Participativa em que participei, baseado em pesquisas diárias realizadas no Google nos principais órgãos de comunicação portugueses entre 22 de setembro e 11 de outubro, mostra como a presença do Chega e, em particular, de André Ventura, foi não apenas dominante, mas também organizada em “ondas” temáticas com alto potencial de amplificação.

Com efeito, a curva de menções a “André Ventura” seguiu o padrão clássico dos ciclos mediáticos eleitorais: um pré-arranque relativamente discreto (André Ventura esteve três dias em parte incerta), uma explosão mediática no início oficial da campanha, um pico pronunciado e, por fim, uma retracção que permanece, ainda assim, acima do ponto de partida. Os números são eloquentes: de 1 700 referências no início da série para 9 080 na recta final, com um pico absoluto de 14 900 a 9 de outubro. Não é só volume; é o “timing”. O auge ocorre precisamente quando a disputa de mensagens é mais valiosa, ou seja, na fase em que os indecisos ainda escutam e os alinhados reforçam convicções.

Esta dinâmica não acontece no vazio: É construída. Entre 30 de setembro e 9 de outubro, a visibilidade de Ventura cresce de forma quase contínua, sinal de uma estratégia de “campanha de choque”: gerar acontecimentos (declarações, polémicas, episódios viralizáveis) capazes de puxar a cobertura para si, antes de a agenda estabilizar ou saturar.

Não basta contar menções: é preciso saber ao que remetem. O estudo isolou cinco enquadramentos discursivos recorrentes no discurso do Chega: justiça, corrupção, segurança, imigração e “comunidades ciganas” e seguiu a tração mediática de cada uma destas “frames”:

  1. A Justiça destacou-se como o eixo mais persistente e volumoso, liderando durante todo o período e batendo o recorde absoluto no dia 10 de outubro. Não é um acaso: “justiça” funciona como ponto de convergência para indignação, moralidade e punição: uma gramática que oferece ao Chega o papel autoatribuído de “voz do povo contra o sistema”.
  2. A Segurança mostrou-se o tema mais estável. Sem fogos-de-artifício, mas sempre alto. Se “justiça” dá a moral, “segurança” dá a ordem e sustenta a narrativa dia após dia.
  3. Imigração e “ciganos” operaram como boosters episódicos. Picos abruptos e quedas rápidas: sinais de ativação deliberada de polémicas com forte valor-notícia. Servem para reconfigurar a conversa nos momentos-chave, mas não se mantém como eixo estrutural da campanha.
  4. No agregado, o retrato é claro: o Chega agarrou a agenda com um tema estruturante (“justiça”), alimentou-a com um tema perene (“segurança”) e potenciou a sua visibilidade com detonadores de curto prazo (“imigração” e “ciganos”).

Comparando com PS e PSD, o Chega liderou o volume total de menções ao longo da série. O PS acompanhou a tendência na segunda metade da campanha, crescendo com intensidade na aproximação ao fecho. O PSD teve um pico precoce e perdeu tração logo depois. Três estilos distintos de presença mediática: exposição contínua e controversa (Chega), mobilização institucional concentrada (PS) e arranque forte com menor capacidade de retenção (PSD).

A consequência é um efeito de sobrerrepresentação temática: quando uma força política consegue impor, com regularidade, os seus temas preferidos, o risco não é apenas assimétrico, é cumulativo. A atenção puxa atenção; a polémica puxa cliques; e os cliques, por sua vez, reforçam o alinhamento editorial com aquilo que “rende”.

Este não é um apelo para “calar” ou silenciar ninguém ou nenhum partido (por muito extremista e radical que seja o Chega). É, sobretudo, um convite à existência de filtros editoriais mais conscientes: diversificar as fontes e os temas; distinguir o facto novo da provocação repetida; exigir contexto antes do título; medir o impacto de cobertura em narrativas que estigmatizam grupos sociais; e, sobretudo, não confundir barulho com relevância pública.

Do lado dos cidadãos, o antídoto chama-se literacia mediática: reconhecer quando um tema reaparece como trigger emocional; perguntar o que ficou de fora enquanto seguimos a polémica da semana; exigir contraditório e escrutínio simétrico para todas as forças políticas.

O estudo do MDP é exploratório, limitado na quantidade de media analisados e na duração dos dias medidos. O estudo assenta em contagens manuais de resultados do motores de busca da Google, restringidas a domínios jornalísticos de referência e recolhidas diariamente, sempre no mesmo intervalo horário. Como qualquer contabilização automatizada, pode incorporar duplicações, variações editoriais e ruído algorítmico. Por isso, o mais prudente é encarar estes números como indicadores de tendência, não como um estudo exaustivo e muito profundo.

Se quisermos um debate mais informado e plural, precisamos de monitorização periódica e transparente da agenda mediática. O MDP propõe-se fazê-la em ciclos regulares, incluindo as presidenciais que se avizinham. Não para limitar a pluralidade mas para iluminar as assimetrias que, invisíveis, decidem o que vemos, quando vemos e com que emoção vemos.

Democracia participativa também é isto: olhar para o espelho dos media, medir o reflexo e perguntar, sem receio, quem está a segurar a câmara ou o teclado que escreve as notícias.