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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Papel ecológico das traças ou borboletas nocturnas


As traças são estudadas através de uma combinação de trabalho de campo, análise laboratorial e monitorização a longo prazo, uma vez que a sua diversidade e sensibilidade às alterações ambientais fazem delas sujeitos ideais para a investigação ecológica. 

Um dos métodos mais utilizados é a captura por luz, em que as luzes ultravioleta ou de vapor de mercúrio atraem as traças noturnas para que os investigadores possam registar a presença, a abundância e os padrões sazonais das espécies. Técnicas complementares, como armadilhas com isco, levantamentos diurnos de traças diurnas e amostragem de larvas em plantas hospedeiras, ajudam a capturar espécies que não são atraídas pela luz e fornecem informações sobre as relações planta-inseto. 

A identificação é tradicionalmente baseada na morfologia, incluindo padrões de asas e estruturas genitais, mas é cada vez mais apoiada pelo código de barras de ADN, que permite a identificação precisa e a deteção de espécies crípticas. As coleções de museus e os registos históricos são essenciais para comparar os dados atuais com as distribuições e abundâncias passadas, permitindo aos investigadores detectar tendências a longo prazo.

Para além de simples inventários, as traças são estudadas para compreender a sua ecologia, incluindo a especialização nas plantas hospedeiras, os ciclos de vida, as capacidades de dispersão e as respostas a factores como as alterações climáticas, a intensificação do uso da terra, os pesticidas e a luz artificial durante a noite. 

A ciência cidadã tornou-se particularmente importante na investigação sobre traças, com os voluntários a contribuírem com grandes quantidades de dados de jardins e levantamentos locais, expandindo consideravelmente a escala espacial e temporal dos esforços de monitorização.

O estudo das traças é altamente relevante para a conservação da natureza, pois são excelentes bioindicadoras da saúde do ecossistema. Muitas espécies têm requisitos de habitat específicos e respondem rapidamente a perturbações ambientais, o que significa que as alterações nas comunidades de traças sinalizam frequentemente uma degradação ecológica mais ampla. 

Diminuições na abundância e diversidade de traças foram documentadas em muitas regiões e estão intimamente ligadas à perda de habitat, à intensificação agrícola, à poluição e às alterações climáticas. As traças desempenham também papéis funcionais importantes nos ecossistemas: são importantes polinizadoras noturnas de plantas silvestres e culturas agrícolas, e as suas lagartas constituem um recurso alimentar crucial para as aves, morcegos e outros animais. Como resultado, o declínio das traças pode propagar-se através das teias alimentares e perturbar o funcionamento do ecossistema.

Do ponto de vista da conservação, os dados sobre traças são utilizados para identificar habitats prioritários, avaliar a conectividade da paisagem, avaliar práticas de gestão e orientar a restauração de habitats. Uma vez que as traças respondem de forma mensurável às alterações na estrutura da vegetação, na diversidade de plantas e nos regimes de luz, são particularmente úteis para avaliar a eficácia das ações de conservação. Desta forma, o estudo das traças não só ajuda a proteger um grupo diversificado e muitas vezes negligenciado de insectos, como também apoia a conservação da biodiversidade em geral e a resiliência a longo prazo dos ecossistemas.

Referências Bibliográficas

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A Força dos Polinizadores



A polinização é um serviço dos ecossistemas (SE) vital para a natureza, a agricultura e o bem-estar humano, e é na grande maioria dos casos levada a cabo por animais, desde abelhas e borboletas a morcegos, roedores e répteis.


Os polinizadores assumem assim um papel vital na manutenção das populações de plantas silvestres, que por sua vez albergam muitos outros organismos, e no fornecimento de alimento, com cerca de 75% das nossas culturas a beneficiar de serviços de polinização.  


No entanto, as pressões globais representam atualmente uma ameaça aos polinizadores, e consequentemente à produção agrícola sustentável e à conservação da biodiversidade. 


As alterações no uso do solo causam fragmentação, perda e simplificação de habitat e conduzem a uma redução contínua de reservatórios naturais de biodiversidade funcional, quebrando interações mutualísticas e ameaçando a persistência das populações de polinizadores e plantas silvestres, bem como o funcionamento dos ecossistemas. 


O papel essencial dos polinizadores foi reconhecido pelas entidades políticas quando a Convenção para a Diversidade Biológica (CBD) estabelece a Iniciativa Internacional de Polinizadores (IPI), apoiada e coordenada pela FAO, para proteger os polinizadores selvagens e domesticados, e promover o uso sustentável dos serviços de polinização.  


No entanto, temos ainda um longo percurso a percorrer para salvaguardar a conservação deste grupo vital de organismos. É assim crucial, valorizar o seu papel, desenvolver planos de avaliação e monitorização, desenvolver ferramentas de apoio à decisão e implementar práticas amigas dos polinizadores, assim como aumentar a consciencialização para a importância dos polinizadores.

 

Oradora Sílvia Castro


sábado, 12 de junho de 2021

Morreu o escritor António Torrado

                                        

O escritor português António Torrado, autor de mais de uma centena de obras literárias, em particular para a infância, morreu hoje em Lisboa, aos 81 anos, revelou à Lusa o escritor José Jorge Letria.

Segundo José Jorge Letria, que disse ter perdido um amigo de mais de 50 anos, António Torrado morreu em casa, em consequência de doença prolongada.

Poeta e dramaturgo premiado, antigo professor do ensino secundário, António Torrado esteve desde cedo ligado à pedagogia, à produção literária para os mais novos, à recuperação e reinterpretação do conto tradicional e à promoção da leitura.

"O mercador de coisa nenhuma", "Teatro às três pancadas", "Donzela guerreira" e "O veado florido" são algumas das obras escritas por António Torrado, distinguido em 1988, pelo conjunto da obra, com o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens.

Torrado recebeu esta distinção outras quatro vezes, em reconhecimento de títulos literários distintos: em 1980, com o livro "Como se faz cor-de-laranja", em 1984, com "O livro das sete cores", em 1996, com "O mercador de coisa nenhuma" e, em 1988, com "As estrelas - Quando os reis eram príncipes".

Este foi um dos seus títulos incluídos na Lista de Honra do International Board of Books for Young People (IBBY), assim como "O veado florido".

António Torrado nasceu em Lisboa, em 1939, formou-se em Filosofia em Coimbra e dedicou-se ao ensino na década de 1960, até ser afastado por motivos políticos.

Escreveu para jornais, trabalhou na área editorial, foi chefe do Departamento de Programas Infantis na RTP e "fundador de uma escola infantil e básica, pioneira em Portugal do Movimento da Escola Moderna", como refere a biografia na página da Direção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas.

António Torrado, que já deu o nome a várias escolas do ensino básico, foi ainda cofundador da Associação Portuguesa de Escritores, do Instituto de Apoio à Criança e da Sociedade Portuguesa de Autores.

Era membro da Associação Internacional de Críticos Literários, e foi responsável pela cadeira de Escrita Dramatúrgica da Escola Superior de Teatro e Cinema.

Formou professores em Portugal e noutros países de língua portuguesa, coordenou o curso anual de Expressão Poética e Narrativa do antigo Centro Artístico Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian, e trabalhou de perto em dramaturgias com o Teatro da Comuna, de que foi dramaturgo residente.

Em entrevista em 2010 ao jornal Público, quando completou quarenta anos de vida literária, António Torrado manifestava-se feliz por ser acarinhado pelos leitores e por ser lido por diferentes gerações.

"Já fiz tudo, já encantei gente. Tenho razões para me sentir feliz e realizado, mas, por outro lado, penso: e agora? O que é que me resta? Se isto é o resumo do que fiz, parece que é quase uma notícia necrológica, e eu não quero que seja. Não é por causa do medo da morte. Se ela viesse de um dia para o outro, não me custava nada. Ficar incapaz é que é chato, morrer não", afirmou na mesma entrevista.

A extensa obra literária de António Torrado, que soma perto de centena e meia de títulos, está traduzida em diversas línguas.

sábado, 2 de julho de 2016

Guia Ilustrado para saber o que comem estas 10 Borboletas

Uma lagarta de borboleta é uma máquina de comer. A sua função é armazenar energias para conseguir ganhar asas e voar. E se há lagartas que não são esquisitas, há outras que têm um menu limitado a uma única planta. Patrícia Garcia-Pereira apresentou-nos 10 espécies e Jeanne Waltz desenhou-as.

Não se mexem muito, a visão é fraca e os sentidos não estão muito apurados. Para as lagartas de borboleta, a sua missão é comer e não ser comido.
Estas 10 espécies que ocorrem em Portugal foram escolhidas por Patrícia Garcia-Pereira, do Centro para a Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (Ce3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, por serem especiais. Cada espécie só se alimenta de uma única planta (chamadas de monófagas), o que significa desafios ecológicos maiores.

Axadrezada-mediterrânica (Sloperia proto):


Planta: Marioila (Phlomis purpurea)
Esta é uma espécie claramente do Sul, estando presente no Norte de África e no Sul da Europa. Em Portugal ocupa a metade meridional.
Época de voo: fins de Abril até Outubro (mais frequente no Verão)

Borboleta-carnaval (Zerynthia rumina):


Planta: Erva-bicha (Aristolochia paucinervis)
Esta é outra espécie mediterrânica da fauna portuguesa. No território continental está presente em quase todo o país, mais comum no Sul.
Época de voo: de Fevereiro a Maio

Ponta-laranja-do-Douro (Anthocharis euphenoides):


Planta: Biscutella valentina
Esta espécie só sobrevive em locais muito quentes, preferindo os vales mediterrânicos do Douro interior. Pode considerar-se uma espécie rara no nosso país, com uma distribuição localizada e com poucos registos de observações.
Época de voo: Abril a Junho

Lucina (Hamearis lucina):


Planta: Prímula ou rosa-da-páscoa (Primula acaulis)

Já a lucina é um bicho do Norte. Está presente na Europa Central e Meridional estendendo a sua distribuição até à Rússia. Em Portugal ocupa apenas as florestas de carvalhos da região norte.
Época de voo: Maio e Junho

Borboleta-azul-das-turfeiras (Phengaris alcon): 


Planta: Genciana-de-turfeiras (Genciana pneumonanthe)
Espécie europeia com uma distribuição localizada em todos os países. Em Portugal está presente nos lameiros de altitude da região Norte, tendo populações abundantes e saudáveis especialmente no Alvão e Montemuro.
Época de voo: Julho e Agosto

Verdinha-da-primavera (Tomares ballus):


Planta: Alfavaca-dos-montes ou alfavaca-silvestre (Erophaca baetica)
Espécie mediterrânica, presente no Norte de África, na Península Ibérica e no Sudoeste de França. Em Portugal é mais abundante no Sul.
Época de voo: Fevereiro a Abril

Aricia-Do-Nordeste (Eumedonia eumedon):


Planta: Gerânio-sanguíneo (Geranium sanguineum)
Esta é uma borboleta do Norte. Em Portugal só é conhecida do Parque Natural de Montesinho, em florestas de carvalho-negral.
Época de voo: Junho

Borboleta-do-medronheiro (Charaxes jasius):


Planta: Medronheiro (Arbutus unedo)
É a maior diurna da Europa. De origem africana, encontra-se dispersa pela região mediterrânica, sempre que hajam matos com abundantes medronheiros. Em Portugal só não ocupa a faixa litoral Norte. É particularmente abundante no Alentejo e Algarve.
Época de voo: Março a Outubro

Fritilária-mediterrânica (Euphydryas desfontainii):


Planta: Cardo-penteador (Dipsacus comosus)
Esta espécie ocorre no Norte de África, metade meridional da Península e Sul de França. Em Portugal só está no barlavento algarvio e sudoeste alentejano. Talvez seja a espécie mais ameaçada do nosso país pela destruição dos seus habitats preferenciais, especialmente a conversão de baldios e prados húmidos em áreas de produção de eucalipto.
Época de voo: Abril e Maio

Nariguda (Libythea celtis):


Planta: Lódão (Celtis australis)
Esta espécie – que vive na Argélia, Sul da Europa e Ásia – é relativamente comum no nordeste de Portugal. É uma espécie que passa o período desfavorável na fase adulta. Deste modo, nos dias quentes e solarengos dos meses de Inverno é possível observar os indivíduos que estiveram a hibernar.
Época de voo: Junho a Setembro

Fonte: Wilder

domingo, 15 de junho de 2008