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domingo, 4 de janeiro de 2026

Este é o sistema hidroelétrico mais potente do mundo. Projeto secreto de Pequim pode dar início a conflito entre duas potências nucleares


Megabarragem está a ser edificada no curso inferior do rio Yarlung Tsangpo, no Tibete. Este projeto no remoto rio dos Himalaias exigirá o realojamento de aldeias onde vivem grupos indígenas que dependem da agricultura para a sua subsistência. Na Índia, já a imprensa apelida a construção megalómana chinesa como a "bomba de água"

A centenas de quilómetros da populosa linha costeira da China, uma curva acentuada num remoto rio dos Himalaias está prestes a tornar-se a peça central de um dos mais ambiciosos - e controversos - projetos de infraestruturas do país até à data.

Ali, espera-se que um sistema hidroelétrico de 168 mil milhões de dólares (cerca de 143 milhões de euros) produza mais eletricidade do que qualquer outro no mundo - um grande benefício para a China, à medida que se aproxima de um futuro em que os veículos elétricos dominam as suas estradas e os modelos de IA, ávidos de energia, correm para superar os rivais internacionais.

O líder chinês, Xi Jinping, apelou a que o projeto “avançasse de forma enérgica, sistemática e eficaz” durante uma rara visita no início do ano ao Tibete, uma região onde Pequim continua a apertar o cerco em nome do crescimento económico e da estabilidade.

Segundo os especialistas, o sistema hidroelétrico, construído no curso inferior do rio Yarlung Tsangpo, no Tibete, será um feito de engenharia sem igual. Aproveitando uma queda de 2 mil metros de altitude, através da abertura de túneis numa montanha, permitirá à China aproveitar um rio importante numa região conhecida como a torre de água da Ásia e numa altura em que os governos estão a concentrar-se mais na segurança da água.

O projeto poderá contribuir para os esforços globais no sentido de abrandar as alterações climáticas e ajudar a China - atualmente o maior emissor de carbono do mundo - a abandonar a energia produzida a partir do carvão. Mas a sua construção poderá também perturbar um ecossistema raro e imaculado e as casas ancestrais dos habitantes indígenas.

Dezenas de milhões de pessoas também dependem do rio a jusante, na Índia e no Bangladesh, onde os especialistas dizem que o potencial impacto no ecossistema, incluindo na pesca e na agricultura, continua a ser pouco estudado.

As manchetes na Índia já apelidaram o projeto de uma potencial “bomba de água” - e a sua proximidade da fronteira disputada entre a China e a Índia coloca-o em risco de se tornar um ponto de inflamação numa disputa territorial há muito acesa entre as duas potências com armas nucleares.

Apesar destes riscos, o projeto continua envolto em secretismo, aprofundando as questões sobre um plano que mostra as imensas capacidades técnicas da China e a sua vontade de obter energia limpa, mas também a sua falta de transparência, mesmo quando se trata de um empreendimento com consequências potencialmente de grande alcance.

Pistas sobre a conceção do projeto - tanto referenciadas em relatórios oficiais ou científicos como em informações de fonte aberta compiladas pela CNN - sugerem um sistema complexo que poderá incluir barragens e reservatórios ao longo do rio Yarlung Tsangpo, bem como uma série de estações hidroelétricas subterrâneas ligadas por túneis, aproveitando a energia à medida que uma parte desviada do rio faz um declínio acentuado da elevação.

“Este é o sistema de barragens mais sofisticado e inovador que o planeta já viu”, disse Brian Eyler, diretor do Programa de Energia, Água e Sustentabilidade do Centro Stimson, em Washington. “É também o mais arriscado e potencialmente o mais perigoso”.

A China discorda. Num comunicado enviado à CNN, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China afirmou que o projeto “passou por décadas de investigação aprofundada” e “implementou medidas rigorosas de segurança de engenharia e proteção ecológica para garantir que não afetará negativamente as áreas a jusante”.

“Desde a preparação inicial e o início oficial do projeto, a parte chinesa sempre manteve a transparência em relação às informações pertinentes e manteve linhas abertas de comunicação com os países a jusante”, disse o ministério, acrescentando que “à medida que o projeto avança” Pequim “partilhará as informações necessárias com a comunidade internacional” e “reforçará a comunicação e a cooperação com os países a jusante”.

O projeto, explicou, “visa acelerar o desenvolvimento de energia limpa, melhorar os meios de subsistência locais e abordar ativamente as alterações climáticas”.

Mas Pequim pode também ter outras prioridades em mente. A ambiciosa iniciativa em matéria de infraestruturas surge numa altura em que Xi se esforça por reforçar a segurança nacional, não só assegurando o fornecimento de energia à China, mas também reforçando o controlo ao longo das fronteiras disputadas e das regiões onde vivem as minorias étnicas.

“Se ligarmos os pontos do desenvolvimento das infraestruturas chinesas nos Himalaias, especialmente nas áreas onde a China faz fronteira com a Índia ao longo do Tibete, elas estão estrategicamente colocadas”, aponta Rishi Gupta, diretor adjunto do Asia Society Policy Institute em Nova Deli.

“O projeto alinha-se com o objetivo mais amplo da China de aproveitar os seus recursos naturais para consolidar o controlo sobre regiões críticas como o Tibete e as suas fronteiras.”

Informações de fonte aberta dão pistas sobre o que poderá ser o projeto de barragem maciça da China
A CNN e especialistas do Centro de Estudos Stimson criaram esta simulação de um possível projeto utilizando informações de fonte aberta e avaliações técnicas. Prevê-se que o projeto inclua cinco estações hidroelétricas em cascata e um sistema de túneis que desvie uma parte do rio, permitindo-lhe perder cerca de 2.000 metros de elevação ao longo de 50 quilómetros e gerar energia através desta rápida queda de elevação.

Jogo de poder nos Himalaias
Conhecido como o maior rio do mundo, o Yarlung Tsangpo serpenteia a partir de um glaciar nos Himalaias, atravessando o planalto que abrigou o budismo tibetano, em direção ao extremo sul do país.

Um dos troços do rio, junto à fronteira de facto do Tibete com um estado indiano cujas terras a China reivindica, há muito que chama a atenção pelo seu potencial de produção de energia.

Aí, a via fluvial faz uma dramática curva em ferradura ao contornar uma massa de montanhas no que é conhecido como a Grande Curva - uma trajetória que faz com que o rio perca cerca de 2 mil metros de altitude em aproximadamente 50 quilómetros.

Estima-se que essa descida tenha potencial para gerar cerca de 300 mil milhões de quilowatts-hora de eletricidade por ano - aproximadamente o triplo da produção da barragem chinesa das Três Gargantas, atualmente a mais potente do mundo.

O desenvolvimento hidroelétrico no curso inferior do Yarlung Tsangpo “não é apenas uma iniciativa hidroelétrica”, é também um projeto de segurança nacional, que engloba a segurança dos recursos hídricos, a segurança territorial e muito mais, afirmou Yan Zhiyong, então presidente da Power Construction Corporation of China (PowerChina), num discurso proferido em 2020, de acordo com a publicação da imprensa estatal chinesa.

Há décadas que se fala de um projeto deste tipo ao longo do curso inferior do rio, mas nunca foi tentado - há muito que é visto como um desafio notório numa zona remota e traiçoeira, difícil mesmo para um país que lidera a construção de megabarragens a nível mundial.

Agora, imagens de satélite, documentos empresariais disponíveis ao público e publicações nas redes sociais da zona analisadas pela CNN mostram que estão em curso obras de construção e alargamento de estradas, construção de pontes, construção de instalações de armazenamento de explosivos, expansão do serviço de telemóvel e realojamento de aldeões - tudo esforços aparentes para abrir caminho à construção, que começou oficialmente em julho.

Os documentos oficiais referem-se frequentemente ao projeto utilizando as iniciais romanas “YX” para designar uma abreviatura do curso inferior do Yarlung Tsangpo, mas fornecem poucas informações sobre a sua conceção. Os meios de comunicação social estatais afirmam que o projeto emprega principalmente um método de “endireitar e desviar o rio” através de túneis e inclui cinco estações hidroelétricas em cascata.

A análise da CNN de informações de fonte aberta, incluindo trabalhos de investigação académica, concursos oficiais, patentes de projetos de centrais elétricas registadas por uma subsidiária da PowerChina, um documento de planeamento urbano local, bem como imagens de satélite e publicações nas redes sociais da zona, permitiram esclarecer melhor a forma como este projeto de grande envergadura pode estar a tomar forma.

Uma simulação baseada nesta informação e produzida em conjunto com especialistas do Programa de Energia, Água e Sustentabilidade do Centro Stimson, que forneceram análises técnicas e geográficas, sugere que o projeto poderá ser um sistema extenso de centrais hidroelétricas, túneis e reservatórios, que no seu conjunto poderão estender-se por cerca de 150 quilómetros em linha reta desde a primeira até à última central elétrica.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Os cartazes abjectos do Chega - como denunciar



Não partilho as fotos dos cartazes abjectos.
Partilho que já mandei queixa para CNE, PGR, Internet Segura e outros órgãos de soberania. Qualquer cidadão pode fazer. Não é preciso ser especialista em direito para perceber a violação do artigo 240 do código penal.
Aproveitem agora, porque se continuarmos muito por este caminho e voltarem novos salazares, piar é verbo que pode deixar de existir no dicionário.

"Venho por este meio denunciar e solicitar a atuação da Comissão Nacional de Eleições, Ministério Público e demais órgãos de soberania perante os cartazes colocados em locais públicos associados à candidatura presidencial de André Ventura.
Cartazes que têm por objetivo difamar e acicatar o ódio relativamente a comunidades imigrantes e à comunidade cigana. Tais mensagens, além de chocantes do ponto de vista social e humanitário, além de causarem alarme público e social, violam claramente a Constituição e em específico o Artigo 240 do Código Penal português, "Discriminação e incitamento ao ódio e à violência".
Para mim, enquanto cidadão, é inconcebível que num estado de Direito como é Portugal, cartazes daquele teor sejam expostos e mantidos no espaço público sem serem rapidamente retirados. Tal como não é compreensível que os continuados promotores destas mensagens, contrárias aos princípios da democracia, continuem impunes, apesar de o Artigo 240 prever até penas de prisão em diferentes alíneas."

Seguro diz que cartazes do Chega são inaceitáveis e violam valores constitucionais

domingo, 19 de outubro de 2025

Inside the planet’s race to adapt - Por dentro da corrida do planeta para se adaptar


Esta década decisiva exige ações sem precedentes para enfrentar o maior desafio da humanidade. Com acesso global, esta série em três partes examina as consequências reais das alterações climáticas para a nossa civilização, ao longo do século XXI e mais além.

O jornalista irlandês Philip Boucher-Hayes visita pontos críticos do clima, desde o degelo dos glaciares da Gronelândia até aos extremos climáticos da África Subsariana, desde a inundação de terras agrícolas no Bangladesh até ao degelo do permafrost siberiano. Encontra-se com especialistas e testemunhas que explicam a interconectividade da frágil ecologia mundial, à medida que atingimos pontos de inflexão dos quais pode não haver retorno.

A série analisa a nova ciência climática e enfrenta as duras realidades de um mundo em mudança – ecossistemas em colapso, mortandade marinha e fenómenos climáticos extremos crescentes. Mas também explora uma visão positiva para reimaginar economias, paisagens e infraestruturas – e soluções práticas, formas de mobilizar a determinação colectiva e desafiar a humanidade a tornar-se uma força transformadora, aproveitando a inovação para salvaguardar o futuro da civilização.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Relembrar a fascinante obra de Albert Camus - "O Estrangeiro"


O "estrangeiro" por vezes somos nós próprios!! É essa a grande lição deste livro. Não há fronteiras. Nesta obra profundamente simbólica e do absurdo, alerta-nos que a condição humana é sufocante e "estranha" a toda a gente. Há que alertar para a situação que as pessoas podem ser estrangeiras quando tu és estranho.

E no mundo actual o absurdo regressou. O absurdo é o discurso do ódio, levantar esqueletos do armário do imperialismo dos séculos atrás da nossa civilização, incluindo Portugal. Fazer basófia da barbárie contra os Palestinianos, denegrir a flotilha. Publicar um vídeo piroso do Ventura sobre Bangladesh. Por isso é importante RELER o "Estrangeiro" de Albert Camus.

O "Estrangeiro" é um dos livros da trilogia do absurdo, de Albert Camus. O livro conta a história de Meursault, um homem que vive completamente alheio à importância das coisas ao seu redor. O protagonista é indiferente a tudo, sendo que uma das palavras mais usadas por ele é: “tanto faz”. Albert Camus desenvolve uma história simples, escrita em frases curtas, evidenciando conceitos segundo o qual o homem é livre e seus atos são responsáveis por seu destino.

Meursault, é descrito como “um cidadão da França, homem do Mediterrâneo, um homem que dificilmente compartilha da cultura mediterrânea tradicional”. Semanas após o funeral de sua mãe, ele mata um homem árabe na Argélia francesa, que estava envolvido num conflito com um dos vizinhos de Meursault. Mersault é julgado e condenado à morte. A história é dividida em duas partes, apresentando a visão narrativa em primeira pessoa de Mersault antes e depois do assassinato, respectivamente.

Esta história, cuja narração me fez lembrar um conto ou um texto diarístico, deve ser encarada como uma reflexão acerca da existência humana. Através da indiferença extremada e quase absurda do Sr. Meursault, captamos uma perspetiva diferente da vida, alheia a sobressaltos, à importância das decisões, a questões filosóficas e a figuras transcendentes. Meursault limita-se a viver consoante o que lhe calha na sina, sem se entregar à extravagância das emoções ou à indignação contra o destino. Em vez disso, permanece apático e ultrapassa as reviravoltas da vida através do hábito.

Se há uma sensação que predomina, implacável, nesta obra, essa sensação é o calor. Um calor asfixiante, insuportável, captada pelo autor com tanta autenticidade e intensidade que o leitor se sente tentado a tirar o casaco. Essa impressão prolonga-se pela capa do livro, de um cor de laranja forte que me faz pensar nele como um deserto tórrido comprimido em menos de uma centena de folhas de papel.
Camus serve-se deste personagem principal para mergulhar no absurdo existencial. A vida banal de Mersault até ao momento em que ocorre um crime processa-se dentro do clima do absurdo da vida humana, que não pode ser logicamente explicado, mas simplesmente apreendido e vivido.

Para Camus, a vida é absurda e filosoficamente, isso quer dizer que a situação existencial humana é caracterizada essencialmente pela ausência de sentido e, dessa forma, não existem consistências, certezas e/ou garantias. Não há finalidade última e não há causas primeiras no mundo absurdo.

Para uma melhor compreensão do absurdo é necessário fazer uma análise do próprio quotidiano. As loucuras do dia-a-dia, o corre-corre e a busca do sentido para as coisas e acontecimentos já são indícios do absurdo. O homem cria uma rotina de vida, uma monotonia e acaba deixando levar-se pelo absurdo, perde o sentido da sua existência, passando a não dar mais importância aos factos e acontecimentos no seu trabalho, com os amigos, na família…tudo se torna comum, rotineiro.

Outro ponto que ilustra o absurdo é o facto do homem já não conseguir mais dar conta dos acontecimentos e tudo lhe foge da percepção e ele mesmo constata que o mundo não tem sentido nem razão, e que a vida é absurda e fantasiosa.

É necessário VER esta época, sair do absurdo e criar coragem e buscar inovações e outros caminhos para as atividades do dia-a-dia.

Albert Camus ele próprio dá pistas! Aconselho por isso a leitura "O Homem Revoltado", e em seguida "A Queda". E depois, "A Peste" que é um intermédio entre os dois temas.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Relatório liga crimes no Cerrado a gigantes da moda europeus

Fornecedoras de algodão para fabricantes de peças vendidas por Zara e H&M, fazendas no oeste da Bahia têm histórico de desmatamento e grilagem, aponta investigação da ONG Earthsight.

Até chegarem nas vitrines de gigantes como Zara e H&M, calças, bermudas, camisetas e meias de algodão deixam para trás um rastro de desmatamento, grilagem de terras e violação de direitos humanos no Brasil. Para o consumidor, as peças parecem acima de qualquer suspeita: a maioria estampa um selo de produção sustentável.

A denúncia faz parte do relatório Fashion Crimes da organização Earthsight, publicado nesta quinta-feira (11/04). Ao longo de um ano, uma investigação detalhada focou nos negócios que conectam as lavouras do Brasil, quarto maior produtor da commodity no globo, às marcas europeias.

A ONG analisou o caminho percorrido por 816 mil toneladas de algodão com a ajuda de imagens de satélite, registros de envios de mercadoria, arquivos públicos e visitas às regiões produtoras.

Segundo o relatório, essa matéria-prima foi destinada especialmente a oito empresas asiáticas que, entre 2014 e 2023, fabricaram cerca de 250 milhões de itens para as lojas. Muitos deles, alega a investigação, abasteceram marcas como H&M e Zara, entre outras.

"É chocante ver estas ligações entre marcas globais muito reconhecidas, mas que, ao que tudo indica, não se esforçam o suficiente para ter controle sobre estas cadeias de fornecimento, para saber de onde vem o algodão e quais tipos de impacto ele provoca", diz Rubens Carvalho, chefe de Pesquisa sobre Desmatamento da Earthsight, à DW.

Crimes no Cerrado
O problema, afirma a ONG baseada no Reino Unido, está na origem da matéria-prima. O algodão exportado sai principalmente do oeste da Bahia, região imersa no Cerrado brasileiro muitas vezes desmatado ilegalmente para ampliar o cultivo. Em alta, o corte desta vegetação dobrou nos últimos cinco anos, segundo monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Dentre os casos analisados no relatório, está o grupo SLC Agrícola. Fundado em 1977 no Rio Grande do Sul, o grupo diz ser responsável por 11% do algodão brasileiro exportado (safra 2019/2020).

O estudo da Earthsight também diz que, nos últimos 12 anos, estima-se que 40 mil campos de futebol de Cerrado tenham sido destruídos dentro das fazendas do SLC. Em 2020, a empresa, que também planta soja, foi apontada como a maior desmatadora do bioma, calculam pesquisadores do Chain Reaction Research.

Em 2021, o SLC se comprometeu junto a fornecedores com uma política de desmatamento zero. Um ano após a promessa, um relatório da Aidenvironment identificou o corte de 1.365 hectares de Cerrado dentro das propriedades que cultivam algodão, o equivalente a 1.300 campos de futebol. Quase metade estava dentro da reserva legal.

Uma consulta feita pela Earthsight no banco de dados do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra mais de R$ 1,2 milhão de multas aplicadas por infrações ambientais desde 2008 nas fazendas do grupo no oeste da Bahia.

Uma das acionistas da SLC é a britânica Odey Asset Management. Em 2020, numa entrevista para o diário britânico Financial Times, o fundador da empresa disse que arcar com as penalidades ambientais no Brasil era algo corriqueiro como "pagar multas de trânsito".

Questionado, o grupo afirmou por meio de nota à DW que "todas as conversões de área com vegetação nativa da SLC seguiram os limites estabelecidos por lei". Especificamente sobre a área desmatada em 2022 apontada no relatório da Aidenvironment, a empresa diz que a destruição se deu por "um incêndio natural, não ocasionado para a abertura de novas áreas para produção".

Sobre as multas aplicadas pelo Ibama, a SLC Agrícola diz ter recorrido administrativamente de todas as autuações. "As multas que foram objeto de recurso estão em tramitação e não houve, até o momento, um julgamento definitivo", diz a nota.

"Grilagem verde"
Outro grupo analisado em detalhes é o Horita, original do Paraná e atuante na Bahia desde a década de 1980. Dentre as várias denúncias feitas pela Earthsight está a chamada grilagem verde: imposição de reservas legais, ou áreas de preservação de propriedade privada, em zonas onde vivem comunidades tradicionais. A manobra impede que famílias realizem atividades de subsistência e, nos piores casos, permaneçam nas terras.

O conflito fundiário entre as famílias geraizeiras, como se identificam essas comunidades tradicionais na região, e fazendeiros data de 1970. Na década seguinte, a companhia Delfin Rio compra terras e registra o empreendimento como Agronegócio Condomínio Cachoeira do Estrondo. Segundo a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais do estado (AATR), o grupo Horita é um dos sócios do complexo de fazendas.

Em 2017, as famílias geraizeiras da zona rural de Formosa do Rio Preto, no oeste baiano, ajuizaram uma ação contra a Estrondo por grilagem de terra e ganharam, em caráter liminar, a posse coletiva de 43 mil hectares que o empreendimento dizia ter comprado. A maior parte está no coração da Matopiba, zona de expansão do agronegócio que integra os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, habitada há mais de 200 anos pelos geraizeiros.

Em 2019, a Operação Faroeste da Polícia Federal revelou um conluio do alto escalão do magistrado baiano para favorecer fazendeiros na mesma região. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), um esquema de compra de sentenças teria movimentado cifras bilionárias em disputas de terras e tinha participação de magistrados, empresários, advogados e servidores públicos. Walter Horita, um dos fundadores do grupo, é um dos réus no processo, ainda em julgamento.

Um dos magistrados acusado de vender sentença para grileiros, segundo a Operação Faroeste, atuou na ação que julgava a posse coletiva dos geraizeiros. Segundo a AATR, a liminar a favor das comunidades só passou a ser cumprida após o afastamento e prisão do juiz.

Procurado pela DW, o Grupo Horita declarou nesta quarta-feira que "aguardará a divulgação do relatório para qualquer nova manifestação, para além das que já foram proferidas pelo seu departamento jurídico, em resposta às acusações da ONG".

"Todas as alegações negativas contra o Grupo Horita constantes da Carta da Earthsight, datada de 23/08/2023, como supostos 'achados', não correspondem à verdade", diz um trecho da resposta enviada à ONG.

Rota até as marcas europeias
Durante a investigação, a Earthsight seguiu a rota de 816 mil toneladas de exportações de algodão que saíram da SLC Agrícola e Grupo Horita entre 2014 e 2023 para os principais destinos: China, Vietnam, Indonésia, Turquia, Bangladesh e Paquistão. Com base em dados que permitem rastreio – o que não ocorre no caso chinês –, as pistas levaram a oito fabricantes de roupas na Ásia.

Todas as intermediárias identificadas (PT Kahatex, na Indonésia; Noam Group e Jamuna Group, em Bagladesh; Nisha, Interloop, YBG, Sapphire, Mtmt, no Paquistão) fornecem produtos acabados a marcas como Zara e H&M, segundo aponta a ONG.

"O algodão que associamos aos abusos de direitos à terra e ambientais na Bahia tem certificação Better Cotton. Essa iniciativa falhou em impedir que este algodão chegasse aos consumidores preocupados", afirma o relatório da Earthsight.

Criada em 2009 pela indústria e outras organizações, incluindo a WWF, a iniciativa criou um selo para atestar a origem da matéria-prima no intuito de garantir qualidade e respeito ao meio ambiente. No Brasil, segundo dados da Better Cotton, há 370 fazendas certificadas em parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Em 2018, uma análise feita pela Changing Markets Foundation, organização que visa alinhar mercados a padrões de sustentabilidade com sede na Holanda, sobre certificadoras apontou problemas na Better Cotton. "Em geral, os padrões para o algodão certificado são baixos e aplicam-se apenas ao início da cadeia de abastecimento de algodão. Considerar o certificado uma garantia de sustentabilidade é enganoso", dizia o levantamento.

A Better Cotton, sediada em Genebra, disse à DW que acaba de concluir uma auditoria aprimorada feita por terceiros das fazendas envolvidas e que precisa de tempo para analisar as conclusões e implementar mudanças, caso sejam necessárias. "As questões levantadas [pelo relatório] demonstram a necessidade premente de apoio governamental na abordagem das questões trazidas à luz e na garantia de uma implementação justa e eficaz do Estado de direito", diz o e-mail da iniciativa.

Mais controle das cadeias
À DW, a H&M afirmou que "as conclusões do relatório são altamente preocupantes" e que encaram a questão com muita seriedade. "Estamos em estreito diálogo com a Better Cotton para acompanhar o resultado da investigação e os próximos passos que serão dados para fortalecer e revisar seu padrão", respondeu a varejista, também por e-mail.

A Zara disse à DW que leva "as acusações contra a Better Cotton extremamente a sério" e exige que a certificadora partilhe o resultado da sua investigação o mais rápido possível.

"Além disso, solicitamos com urgência as providências tomadas pela Better Cotton para garantir a certificação de algodão sustentável nos mais altos padrões", disse a varejista por meio de nota.

Nesta quarta-feira, a Inditex, proprietária da Zara, exigiu mais transparência da Better Cotton após anúncio da divulgação do relatório para esta quinta. A Inditex enviou uma carta à iniciativa com data de 8 de abril, pedindo esclarecimentos sobre o processo de certificação e progressos em práticas de rastreamento de cadeias produtivas. A Inditex não compra o algodão diretamente dos fornecedores, mas as empresas produtoras são auditadas por certificadoras como a Better Cotton.

Para Rubens Carvalho, da Earthsight, responsabilizar os europeus é parte da solução para acabar com o desmatamento e violações de direitos nos centros produtores de commodities, como o Brasil.

"O algodão ainda é pouco regulamentado nos mercados europeus. Eles precisam regular seu consumo e desvinculá-lo de impactos negativos ambientais e humanos. É preciso uma regulamentação séria, que puna em caso de incumprimento. Isso aumenta a pressão sobre os produtores", defende Carvalho.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Dezenas de milhões de pessoas neste país bebem água contaminada com arsénico. A situação pode piorar muito


Incolor, insípido e inodoro. O arsénio é um assassino furtivo, naturalmente abundante nas rochas e no solo da Terra. É muito tóxico na sua forma inorgânica, sendo encontrado nos níveis elevados das águas subterrâneas. Há vários países onde se verificam contaminações por arsénico

Começou com pontos espalhados pelo peito e costas das pessoas. Manchas duras invulgares na pele das palmas das mãos e nas solas dos pés. Para alguns, um escurecimento dos dedos dos pés.

Médicos e investigadores começaram a observar pacientes no Bangladesh que apresentavam este tipo de sintomas na década de 1980. Rapidamente se tornou claro o que estavam a ver: sinais clássicos de envenenamento por arsénico.

Numa trágica ironia, a razão acabou por ser atribuída a um programa de saúde pública de enorme sucesso.

Na década de 1970, as crianças do Bangladesh morriam em grande número devido a doenças como a disenteria e a cólera, depois de beberem água suja dos rios, lagos e ribeiros. Em resposta, o governo do Bangladesh, juntamente com agências de ajuda lideradas pela UNICEF, lançou um enorme esforço para obter água mais limpa no subsolo.

Ao longo das duas décadas seguintes, milhões de poços tubulares - tubos estreitos perfurados a profundidades relativamente pequenas - foram enterrados na terra. "No espaço de uma geração, mudaram o comportamento da água potável de toda uma população", disse Seth Frisbie, químico e professor emérito da Universidade de Norwich, que passou décadas a investigar a contaminação por arsénico.

Os números de crianças a morrer diminuíram significativamente. Ainda assim, nos anos 90, tornou-se claro que o projeto tinha falhado a ter em conta um problema enorme e mortal: grande parte das águas subterrâneas continha níveis elevadíssimos de arsénico, um conhecido agente cancerígeno ligado a uma série de outros impactos negativos para a saúde.

Os especialistas em saúde classificaram-no como o "pior envenenamento em massa" de uma população na história - com dezenas de milhões de pessoas afetadas. Embora o governo, a UNICEF e outras agências de ajuda humanitária se tenham esforçado por combater a contaminação, os impactos do envenenamento continuam a ser generalizados. Estima-se que 43.000 pessoas morrem todos os anos devido a doenças relacionadas com o arsénico no Bangladesh, de acordo com um estudo.

Agora, numa reviravolta cruel, a situação pode estar a piorar. Novas evidências sugerem que os impactos da crise climática causada pelo homem - incluindo as inundações e o aumento do nível do mar - estão a alterar a química da água no subsolo e a aumentar ainda mais os níveis de arsénico.


O problema estende-se muito para além do Bangladesh.
Um número crescente de estudos realizados noutros países, incluindo os Estados Unidos, sugere que o aquecimento global pode estar a superalimentar o problema da água contaminada com arsénico em todo o mundo.

"Afeta todos os órgãos do corpo"
O arsénico é naturalmente abundante nas rochas e no solo da Terra. É muito tóxico na sua forma inorgânica, sendo encontrado nos níveis elevados das águas subterrâneas, não só no Bangladesh, mas também em países como a Índia, China, Taiwan, Vietname, Argentina, Chile, México, partes da Europa, Austrália e EUA.

Enquanto as águas superficiais poluídas adoecem rapidamente as pessoas, o arsénico é um assassino furtivo.

É incolor, insípido e inodoro. Não há forma de o detetar sem testes e os seus impactos tendem a surgir ao fim de muitos anos.

A exposição crónica pode revelar-se através da pele endurecida das mãos e dos pés, chamada queratose, do aparecimento de manchas pigmentadas na pele e até da "doença do pé negro", uma doença vascular que pode causar gangrena - tecido morto causado pela falta de fluxo sanguíneo.

Os seus efeitos nocivos continuam no interior do corpo das pessoas, onde aumenta o risco de cancro da pele, do fígado, dos pulmões e da bexiga, bem como de doenças cardíacas e diabetes. O arsénico também tem sido associado à perda da gravidez, a atrasos no desenvolvimento das crianças e a doenças respiratórias.

"Afeta todos os órgãos do corpo", afirma Rubhana Raqib, cientista sénior do Centro Internacional de Investigação sobre Doenças Diarreicas no Bangladesh (ICDDR,B - na sigla original).

Alguns peritos sugeriram que a escala do envenenamento no Bangladesh ultrapassa largamente a de outras catástrofes mais conhecidas causadas pelo homem, como o desastre nuclear de Chernobyl. Mas o número exato de mortos é quase impossível de calcular, em parte devido às dificuldades em desvendar as causas do cancro.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que cerca de 140 milhões de pessoas em pelo menos 70 países têm bebido água contaminada com arsénico a níveis que excedem o limite recomendado de 10 microgramas por litro.

No Bangladesh, onde as diretrizes do governo estão fixadas numas menos restritivas 50 microgramas, acredita-se que milhões de pessoas terão sido afetadas.

Um enorme estudo de análise de poços realizado pelo British Geological Survey, que teve início em 1998 e abrangeu a maior parte do Bangladesh, revelou que 27% dos poços tubulares menos profundos excediam as diretrizes do país, afetando cerca de 35 milhões de pessoas. Cerca de 57 milhões de pessoas foram expostas a níveis que violavam as indicações de 10 microgramas da OMS, de acordo com o estudo - aproximadamente 45% da população.

Frisbie, que passou algum tempo no Bangladesh a produzir mapas da água potável afetada pelo arsénico, disse que o número era evidente.

"Percorri aldeias onde ninguém tinha mais de 30 anos", disse à CNN.

Mesmo as normas mais rigorosas em matéria de arsénico recomendadas pela OMS e adotadas por países como os EUA não proporcionam proteção suficiente, afirmou. "O arsénico é extremamente tóxico. Só porque está a um determinado nível que o governo diz ser seguro... não significa que seja seguro, não significa que as pessoas não vão morrer."

O aquecimento global pode aumentar os riscos
Os riscos são cada vez maiores à medida que os seres humanos continuam a queimar combustíveis fósseis que aquecem o planeta.

Os impactos cada vez mais graves das alterações climáticas podem mudar a química das águas subterrâneas, de acordo com um estudo recente de que Frisbie é coautor.

Isto significa mais problemas para o Bangladesh, que está firmemente na linha da frente da crise climática. Baixa e densamente povoada e com uma longa costa, enfrenta uma imensidão de ameaças, desde a subida do nível do mar até às inundações - todos os anos, cerca de 20% do país fica submerso.

As inundações podem impedir que o oxigénio da atmosfera penetre nas águas subterrâneas, de acordo com a investigação, o que, por sua vez, pode aumentar a libertação de arsénico dos sólidos e sedimentos para a água - um processo designado por "redução".

A subida do nível do mar representa outro desafio, provocando a infiltração de água salgada nas fontes de água subterrâneas. Isto não só faz com que a água tenha um sabor mais salgado, como a presença de sal pode também aumentar as concentrações de arsénico, fazendo com que este se dissolva na água através de um fenómeno chamado "efeito salino".

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Entramos em 2024. Ano bissexto e 76 países do mundo com eleições agendadas


Em 2024, países que têm mais da metade da população mundial - mais de quatro biliões de pessoas - realizarão eleições. Os pleitos vão dar uma chacoalhada no já conturbado cenário político global.

De acordo com a revista britânica The Economist serão as maiores eleições da história. Em 2024, 76 países estão programados para realizar eleições nas quais todos os eleitores terão a hipótese de votar.

A Europa, com 37 países, e a África, com 18, são os continentes com o maior número de eleições no próximo ano. Países africanos com uma população combinada de mais de 330 milhões, incluindo Argélia, Gana e Moçambique, realizarão eleições.

A mais significativa será na África do Sul, com mais de 60 milhões de habitantes. Uma oposição dividida e fraca sugere que, apesar de escândalos de corrupção, o Congresso Nacional Africano governista quase certamente vencerá novamente.

Países mais populosos do mundo irão às urnas
Oito dos dez países mais populosos do mundo - Bangladesh, Brasil, Índia, Indonésia, México, Paquistão, Rússia e Estados Unidos - realizarão eleições no ano que vem 2024.

Este ano eleitoral crucial começa com eleições em Bangladesh em janeiro, onde protestos antigovernamentais e tensões políticas sinalizam um possível endurecimento do governo de Sheikh Hasina. A primeira-ministra de Bangladesh está na posição desde janeiro de 2009 e é líder da Liga Awami de Bangladesh, um partido político de centro-esquerda. Ela é filha de Sheikh Mujibur Rahman, o primeiro presidente de Bangladesh e uma figura central na independência do país em 1971.

Aqui no Brasil haverá eleições municipais em outubro, quando eleitores escolhem prefeitos e vereadores. O resultado deve emular a polarização política nacional entre o PT, do presidente Lula, e o PL, do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na Índia em maio, espera-se que o BJP, partido do primeiro-ministro Narendra Modi, de extrema direita, vença apesar do crescente sentimento anti-incumbente.

Em fevereiro, as atenções se voltam para as nações muçulmanas mais populosas - Paquistão e Indonésia.

No Paquistão, o cenário é marcado pela destituição do ex-primeiro-ministro Imran Khan e sua influência contínua na política.

Já a Indonésia se prepara para as maiores eleições do mundo em um único dia, marcadas para fevereiro, desafiando o domínio das elites empresariais e militares. O centro-esquerda PDI-P provavelmente vencerá as eleições legislativas e presidenciais.

O México pode eleger sua primeira presidente mulher no dia 2 junho. Claudia Sheinbaum, ex-prefeita da capital e candidata do governo, enfrentará a opositora Xóchitl Gálvez, senadora e empresária de origem indígena. O fato é marcante em país marcado por violência relacionada ao tráfico de drogas, uma onda de feminicídios e uma longa tradição de machismo.

Em novembro, os eleitores dos Estados Unidos elegerão seu próximo presidente, assim como a totalidade da Câmara dos Representantes e um terço do Senado. O presidente democrata Joe Biden provavelmente enfrentará Donald Trump, o favorito republicano, em uma repetição de 2020.

Na Rússia, o presidente Vladimir Putin pela reeleição marcada para o dia 17 de março. Ele anunciou que vai concorrer à reeleição numa live de quatro horas, que misturou perguntas do público e de jornalistas e o depoimento de militares na frente de batalha.

O evento lançou a campanha para as eleições de 2024, que podem prorrogar sua presença no poder até 2030. Se for reeleito, Putin poderá completar 31 anos no poder, menos que o czar Pedro o Grande (39 anos), mas o mesmo que Josef Stálin (31 anos).

Outros pleitos importantes
A Turquia, governada pelo extremista de direita Recep Tayyip Erdogan também realizará pleito municipal no dia 31 de março de 2024.

A Venezuela se prepara para uma nova candidatura do líder nacionalista Nicolás Maduro, que deve enfrentar a candidata ultraliberal Maria Corina Machado. O pleito deve ocorrer no segundo semestre de 2024

O governo e um setor da oposição da Venezuela assinaram nesta terça-feira (17) um acordo sobre cronograma e definições técnicas para as próximas eleições presidenciais. Segundo o documento, o pleito deve ser realizado no segundo semestre de 2024 e contará com missões de observação da União Europeia, do Centro Carter e da Organização das Nações Unidas (ONU).

Na Europa, nove eleições parlamentares estão agendadas, com destaque para as eleições em Portugal, após a renúncia do primeiro-ministro socialista António Costa, e na Áustria, onde a extrema direita ganha força.

O Parlamento Europeu também realizará eleições em junho, com a possibilidade de uma significativa guinada à direita.

Estes eventos eleitorais, em países com biliões de eleitores, têm o potencial de remodelar a ordem política global. À medida que os cidadãos se dirigem às urnas, o mundo aguarda os resultados e suas consequências com grande interesse e expectativa.

Calendário de eleições em destaque em 2024
  • Taiwan - Eleição presidencial em 13 de janeiro, que será central nas tensões entre os EUA e a China.
  • Rússia - Eleição presidencial em 17 de março, onde é esperado que Vladimir Putin busque a reeleição.
  • Índia - Eleições presidenciais em abril e maio, com Narendra Modi provavelmente buscando a reeleição em um contexto de nacionalismo hindu.
  • União Europeia - Eleições para o Parlamento Europeu de 6 a 9 de junho, um grande pleito transnacional que pode ver um avanço das forças eurocéticas.
  • Estados Unidos - Eleição presidencial em 5 de novembro, com o potencial retorno de Donald Trump como um dos candidatos.
  • Portugal - Eleições legislativas em 10 de março, após a renúncia do primeiro-ministro socialista António Costa.
  • Bélgica - Eleições federais em 9 de junho, coincidindo com as eleições europeias.
  • Áustria - Eleições legislativas previstas para o outono, com a possível ascensão do partido de extrema-direita FPÖ.
Além disso, serão realizadas eleições na Finlândia, Lituânia, Croácia, Ucrânia, e Irão. No continente africano, serão realizadas dez eleições presidenciais em 2024, incluindo no Senegal, onde o pleito está previsto para 25 de fevereiro.

Estas eleições marcadas para o ano que vem ocorrerão num contexto marcado por desafios políticos, económicos e sociais em várias regiões do mundo.

domingo, 19 de novembro de 2023

Os Hindus


O povo hindu é um dos mais antigos do mundo, que se desenvolveu na região do subcontinente indiano. A palavra hindu vem do persa e significa “o povo que vive do outro lado do rio Indo” . O hinduísmo é a religião predominante entre os hindus, mas não é uma religião monolítica, e sim um conjunto de tradições e crenças variadas.

A origem dos hindus remonta à civilização do Vale do Indo, que floresceu entre 3300 e 1300 a.C. nas margens do rio Indo e seus afluentes . Essa civilização tinha cidades planeadas, sistemas de escrita, comércio, arte e religião. Ela entrou em declínio por volta de 1500 a.C., possivelmente por causa de invasões, mudanças climáticas ou desastres naturais.

Nessa época, chegaram ao território indiano os árias, um povo nómada de origem indo-europeia, que trouxe consigo uma nova língua (o sânscrito), uma nova cultura e uma nova religião (o védico) . Os árias se impuseram sobre os povos nativos, os dravidianos, e estabeleceram um sistema de castas, que dividia a sociedade em quatro grupos principais: os brâmanes (sacerdotes), os xátrias (guerreiros), os vaixias (comerciantes) e os sudras (servos). Havia também os párias ou intocáveis, que eram excluídos do sistema e considerados impuros.

A religião védica era baseada nos Vedas, uma coleção de hinos, rituais e especulações filosóficas sobre a natureza do universo e dos deuses. Os principais deuses eram Indra (o rei dos deuses e senhor das tempestades), Agni (o fogo), Varuna (o céu) e Soma (uma bebida sagrada) . Os árias praticavam sacrifícios de animais e oferendas de fogo para obter favores divinos.

A partir do século VI a.C., surgiram novos movimentos religiosos e filosóficos na Índia, que questionavam a autoridade dos brâmanes e dos Vedas. Esses movimentos enfatizavam a busca pelo autoconhecimento, pela libertação do ciclo de renascimentos (samsara) e pela realização da verdade suprema (brahman). Entre esses movimentos estavam o budismo, o jainismo e o hinduísmo clássico .

O hinduísmo clássico é uma síntese das tradições védicas com as tradições dravidianas e outras influências culturais. Ele se baseia em novos textos sagrados, como os Upanixades (que exploram a relação entre o ser humano e o absoluto), os Puranas (que narram as histórias dos deuses) e os Épicos (como o Ramáiana e o Mahabharata, que contam as aventuras de heróis e reis)

O hinduísmo clássico também valoriza a diversidade de caminhos para se aproximar do divino, como o caminho da ação (karma marga), o caminho do conhecimento (jñana marga) e o caminho da devoção (bhakti marga). Cada um desses caminhos envolve práticas específicas, como rituais, meditações, mantras, yoga, ética e serviço.

O hinduísmo é uma religião viva e dinâmica, que continua se transformando e se adaptando aos tempos. Ele é a religião de mais de um bilião de pessoas no mundo, principalmente na Índia, mas também  noutros países, como Nepal, Sri Lanka, Bangladesh, Indonésia e Estados Unidos. Ele é uma religião rica e complexa, que reflete a história e a cultura do povo hindu.

sexta-feira, 3 de março de 2023

Vanuatu reúne mais de 100 países em defesa da Justiça Climática na ONU


A pequena nação insular de Vanuatu, no Pacífico, angariou o apoio de mais de 100 países em torno de um projeto de resolução da Assembleia Geral da ONU que pretende solicitar à Tribuna Internacional de Justiça (TIJ) um parecer sobre as obrigações legais dos governos em relação à crise climática. O apoio de peso mais recente foi da Austrália, que aderiu ao pedido nesta semana.

A proposta foi apresentada em dezembro passado por Vanuatu, com o apoio de países como Alemanha, Angola, Bangladesh, Moçambique, Nova Zelândia, Portugal e Vietname, além de outras pequenas nações insulares. De lá para cá, outros países aderiram à proposta, entre eles Bélgica, Canadá, Chile, França, México, Holanda e Reino Unido.

Pela proposição, a TIJ seria requisitada pela Assembleia Geral da ONU a definir uma interpretação acerca das responsabilidades legais dos países em torno da mudança do clima, principalmente no que diz respeito à responsabilidade de agir sobre as causas e consequências do problema.

Ou seja, até que ponto os países responsáveis pela ocorrência do problema (leia-se economias desenvolvidas) são responsáveis do ponto de vista legal pelos esforços de mitigação e compensação por perdas e danos sofridos por outras nações vulneráveis.

A expectativa de Vanuatu e de outras nações insulares vulneráveis à mudança do clima é de que a opinião da TIJ possa dar mais suporte legal e político a esses países nas negociações internacionais da ONU.

Um dos tópicos que certamente seria afetado pela interpretação da Corte seria a discussão em torno do fundo para perdas e danos, definido na COP27, depois de um duro embate diplomático entre países ricos e pobres.

ABC Australia, AFP, Climate Home e Guardian repercutiram a notícia.

Em tempo: Por falar no fundo para perdas e danos, o secretariado da UNFCCC marcou para 27 de março a primeira reunião do comitê de transição encarregado de definir a estrutura, o modelo e as regras desse mecanismo. Os países desenvolvidos demoraram mais de dois meses além do prazo de 15 de dezembro para indicar seus representantes. No entanto, como o Climate Home destacou, ainda falta a indicação dos nomes da região da Ásia-Pacífico, curiosamente, uma das áreas mais vulneráveis e recipiente potencial dos recursos do fundo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

The climate crisis is destroying the human rights of those least responsible for it



The UN must urgently appoint a special rapporteur on climate change and human rights to galvanise action on the biggest threat to fundamental freedoms.

By Patrick Verkooijen and AK Abdul Momen

Climate breakdown is making a mockery of human rights.

Start with the most fundamental right of all: the right to life, liberty and security. Two million people have died as a result of a five-fold increase in weather-related disasters in our lifetimes. And given that 90% of these deaths have occurred in developing countries, which have contributed the least to global heating, the climate crisis is also making a mockery of the notion that we are all born equal – as the UN Declaration of Human Rights and numerous national constitutions assert.

Next, consider other fundamental freedoms, such as the right to work, to an education, to own property. These too are being undermined by the climate emergency. UNHCR, the UN refugee agency, estimates that 21.5 million people are displaced by climate change-related disasters every year – more than twice the number of those forced to flee conflict or violence.


Rights that most of us take for granted – the right to nationhood, for example – could soon be denied to citizens of island nations if rising sea levels continue unchecked.

The climate crisis is setting back the clock on human progress. More than 2 billion people live in countries with high exposure to climate-related hazards.Their capacity to recover when disaster strikes is limited. And when those affected are refugees and displaced populations, the impact is simply heartbreaking. When flooding and landslides struck the Rohingya refugee camps in Bangladesh this summer, thousands of people relived the nightmare of losing everything and being displaced yet again.


We believe it’s time to train the spotlight on the impact our climate emergency is having on human rights. It may sound obvious, but it is not happening.

Take the reality of climate refugees. At present, neither they nor environmental migrants nor environmentally displaced people are recognised by the 1951 UN Convention on Refugees. They are not entitled to even the minimum protection accorded under international human rights law. This must change.

Consider also the rights of younger generations who will come of age during the current climate emergency, and the rights of those who have yet to be born. As Greta Thunberg reminds us, should they be denied their fundamental human rights because of our failure to act on climate breakdown?

The rights of climate refugees, of young people and of future generations are now being tested through the courts. Climate litigation is increasing. At the last count, there were more than 1,800 cases outstanding in dozens of countries around the world, rich and poor.



The supreme court of the Netherlands has mandated emissions cuts on both the government and Royal Dutch Shell. Families from the EU, Kenya and Fiji are taking the European parliament and the Council of the EU to court in an attempt to enforce more ambitious climate-change mitigation targets. In Pakistan, the supreme court has upheld the right of Punjab to protect its water-stressed areas against further industrial development, specifically citing climate change and the rights of unborn generations in its ruling.

“The tragedy is that tomorrow’s generations aren’t here to challenge this pillaging of their inheritance. This court should be mindful that its decisions also adjudicate upon the rights of the future generations of this country,” Justice Syed Mansoor Ali Shah said in his summing up.

But lawsuits are a slow and piecemeal way of enforcing human rights. More importantly, they don’t work in countries with weak legal systems or where human rights are not respected.

We will not win the battle against the climate emergency one lawsuit at a time.


This is just one of the reasons why the Climate Vulnerable Forum (CVF), a group of 48 nations on the frontlines of climate breakdown, which is supported by the Global Center on Adaptation, has been backing a motion for a new UN special rapporteur on climate change and human rights since 2019. We are asking the UN Human Rights Council, whose mission it is to protect human rights, to create this new position.

Only this month, Michelle Bachelet, a former President of Chile and current head of the Human Rights Council, called the “triple planetary crises” of climate change, pollution and nature loss “the greatest challenge to human rights of our era.”


We agree, and it is why we believe climate threats to human rights deserve a higher priority within the UN.

The new special rapporteur would have a mandate to protect people from the worst impacts of the climate crisis. He or she will have their work cut out. Sea levels are rising, sea ice is retreating, glaciers are melting and rainfall patterns have become more unpredictable. Extreme weather events are becoming more frequent and more intense. The UNHCR predicts that the number of climate refugees and displaced people could reach 200 million a year by 2050 – nearly double the number today.

The special rapporteur will have a duty to witness the impact of climate breakdown on human rights first-hand, visiting countries affected by climate disasters and galvanizing action across the family of UN organizations and the wider public sphere.

There is no time to lose. The longer we delay action to support people who are vulnerable to climate breakdown, the worse the consequences are likely to be, making responses even more complex and costly.

The UN’s top scientists warned in August that even if we were to succeed in reining in emissions, we still face many decades of climate disruption because of the greenhouse gases that are already trapped in the atmosphere.

This decision to appoint a UN special envoy on climate and human rights is long overdue. The UN Human Rights Council, currently in session, could take this decision now. This is precisely what the CVF has called for in its manifesto for Cop26. By doing so, the Council would demonstrate that UN bodies can take decisive climate measures, a much-needed positive impulse for the Glasgow summit on which our planet’s fate hinges. That move is also the international community’s strongest signal it is prepared to staunch the climate emergency’s hemorrhaging of human rights. We sincerely hope it will.

Patrick Verkooijen is CEO of the Global Center on Adaptation, AK Abdul Momen is the Minister of Foreign Affairs of Bangladesh that is presiding the Climate Vulnerable Forum

Fonte: aqui

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Documentário - Beyond Borders


Em todo o planeta, as vidas estão mudando à medida que o colapso climático altera o mundo ao nosso redor. Os piores impactos estão sendo sentidos de forma desproporcional por pessoas pobres que já vivem em condições precárias e agora são obrigadas a se adaptar ou se mudar para sobreviver. Como resultado, uma pessoa a cada 1,3 segundo deixa sua casa e sua comunidade devido aos impactos relacionados ao clima.

Amargamente, suas histórias raramente chegam à comunidade global. Mas ouvi-los é crucial para todos nós. Somente compreendendo o alcance do colapso climático e entendendo as implicações pessoais dessa tragédia coletiva, podemos propor soluções eficazes e justas.

"Além das Fronteiras" traça o perfil das pessoas por trás das estatísticas, fornecendo espaço para as histórias de testemunhas do aquecimento global do Ártico a Bangladesh. Também apresenta políticos e acadêmicos que ajudam a entender a complexa ligação entre o colapso climático, a migração internacional e o conflito violento.


sexta-feira, 7 de maio de 2021

Modi, de vilão nos EUA a pai da “Nova Índia” em menos de uma década



No ano em que comemora o seu sétimo aniversário na liderança do Governo indiano, Narendra Modi recebeu, em Março passado, uma notícia que veio pôr em causa décadas de promoção do gigantesco país como a maior democracia do mundo. No ranking do instituto sueco V-Dem, a Índia deixava a companhia das democracias liberais e deslizava para o grupo das autocracias eleitorais – em grande parte, segundo a organização sueca, graças ao culto da personalidade à volta de Modi e à centralização do poder na sua figura em menos de uma década.
E o diagnóstico preocupante da V-Dem para a democracia indiana não foi o único a ser conhecido desde o início do ano. Nos EUA, a organização sem fins lucrativos Freedom House tirou a Índia da coluna das “democracias livres” e passou-a para a das “democracias parcialmente livres”, com um total agregado de 67 pontos em termos de direitos políticos e liberdades civis – o que deixou o país numa posição entre o Equador e a Albânia e muito atrás de Portugal, que ocupa a 14.º lugar em todo o mundo com 96 pontos.
“O movimento nacionalista hindu que lidera o país encorajou a perseguição de muçulmanos, que foram acusados de espalharem o vírus e foram atacados por multidões de vigilantes. Em vez de actuar como defensor e promotor das práticas democráticas, e como um contrapeso à influência autoritária de países como a China, Modi e o seu partido estão a empurrar a Índia de forma trágica para o autoritarismo”, diz a Freedom House no seu relatório.
A sueca V-Dem é ainda mais cáustica na avaliação que faz dos sete anos de governação Modi: “Antes da eleição de Narendra Modi, em 2014, o Governo indiano raramente recorria à censura. Em 2020, os actos de censura tornaram-se rotineiros e já não se limitam a assuntos sensíveis do Governo. Neste aspecto, a Índia é agora tão autocrática como o Paquistão e mais autocrática do que o Bangladesh e o Nepal.”
A resposta do Governo indiano, pela voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, S. Jaishankar, pôs em causa a independência e o rigor de institutos ocidentais como a Freedom House e o V-Dem, acusadas de fazerem uma leitura superficial das realidades no terreno e de serem menos duras com governos mais à esquerda.
“Vocês usam a dicotomia entre democracia e autocracia. Mas eu chamo a isso hipocrisia”, disse S. Jaishankar, a 15 de Março, ao jornal Indian Express. “Os vossos auto-intitulados guardiões do mundo não aceitam que alguém na Índia não ande à procura da aprovação deles, e que não esteja disposto a jogar o jogo deles.”
Os relatórios das organizações internacionais são corroborados por inúmeros artigos de opinião e notícias publicadas em vários países, por jornalistas e por académicos.
Em Março, o jornalista e escritor indiano Kapil Komireddi questionou, num texto publicado no The Washington Post e no PÚBLICO, “se haverá algum culto da personalidade no mundo democrático que rivalize com o de Narendra Modi”.
Komireddi deu alguns exemplos de como se vai materializando esse culto na Índia, como a mudança de nome de um estádio de críquete, em Fevereiro, de Estádio Sardar Patel (o primeiro vice-primeiro-ministro da Índia e um dos pais da independência) para Estádio Narendra Modi.
Num texto em que recorda o culto da personalidade e os escândalos de corrupção à volta da família Nehru-Ghandi (sem ligação a Mohandas Gandhi), o jornalista sublinha que Modi suplantou, em poucos anos, a marca deixada pelos seus antecessores ao longo de décadas.
“Uma vez acomodado no cargo, Modi empenhou-se em canonizar-se como pai daquilo a que os seus admiradores chamam de ‘Nova Índia’”, diz Kapil Komireddi. Uma Índia onde já nem resiste a tradição democrática no acesso ao poder no Partido Bharatiya Janata – “onde havia nepotismo, mas, teoricamente, qualquer pessoa que aderisse à ideologia pró-hindu poderia aspirar a liderá-lo”.
Apresentando-se como o líder que ia salvar a Índia da burocracia e de um Estado que sufocava a iniciativa privada e o desenvolvimento económico, Narendra Modi preparou a sua eleição para a chefia do Governo, em 2014, com uma década de governação no estado de Gujarat, no noroeste do país junto à fronteira com o Paquistão.
Logo no seu primeiro ano como ministro-chefe de Gujarat, Modi ficaria marcado pela forma como reagiu aos violentos motins de 2002, que fizeram mais de mil mortos em três dias (ou mais de 2000, segundo fontes não oficiais), a esmagadora maioria muçulmanos.
Apesar de nunca ter sido responsabilizado nos tribunais, a contribuição de Modi para os dias de ódio sectário é hoje vista com algum consenso na comunidade académica. Principalmente a acusação de que Modi agiu de forma lenta para controlar a situação e de não ter condenado os ataques de forma clara.
Segundo o historiador indiano Gyanendra Pandey – um especialista em pós-colonialismo no projecto Subaltern Studies –, os acontecimentos de 2002 não foram motins, mas sim “massacres politicamente organizados” – e outros investigadores, como o norte-americano Paul Brass, falam mesmo na existência de uma “campanha de limpeza étnica anti-muçulmanos, executada com excepcional coordenação e brutalidade”.
Entre os motins de 2002 e os anos que antecederam a sua primeira eleição como primeiro-ministro, em 2014, Modi foi alvo de condenação internacional, sendo proibido de entrar no território dos EUA, no Reino Unido e na União Europeia. Até hoje, foi a primeira e única personalidade a quem foi negado um visto de entrada nos EUA com base nas recomendações da Comissão de Liberdades Religiosas Internacionais.
O cerco internacional seria quebrado entre 2012 e 2013, quando se formou a convicção de que a sua vitória nas eleições era inevitável.