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sexta-feira, 10 de julho de 2026

HAEVN - Where Did You Go

Melhor som aqui
[Verse 1]
I have been chasing an old place in time
At the town station, we jump the fence at night
Do you ever think of you and I?
I have been waiting every day and night
Have you barricaded all your feelings dry?
Do you ever think of you and I?
Now you're living on the other side

[Chorus]
You left a hole in my world so long, long ago
So where did you go? Another life carried on
Where did you go? Where did you go?
Where did you go? Where did you go?

[Verse 2]
You said that we wasted our younger days in life
But you were just jaded in the heat of the fight
There's no reason to be out of sight
Now you're living on the other side

[Chorus]

[Bridge]
I, alone, love you
Bring me back to what we began
I, alone, love you
Show me all that I'll never have

[Pre-Chorus] 4X
Where did you go? Where did you go?

[Chorus]

Minha análise
Em "Where Did You Go", os HAEVN exploram com mestria a dor da ausência e a profunda dificuldade de lidar com a perda de alguém marcante. A repetição insistente da pergunta "Where did you go?" funciona não apenas como uma busca por respostas concretas, mas sobretudo como um reflexo da incapacidade de aceitar o vazio deixado por quem partiu. O verso "You left a hole in my world so long, long ago" sublinha que o passar do tempo foi insuficiente para cicatrizar esta ferida, reforçando o impacto duradouro e paralisante da separação na vida do narrador.

Inspirada por sentimentos de saudade e desolação após o término de uma relação, a composição recorre a memórias nostálgicas da juventude, como "chasing an old place in time" e "jump the fence at night", para traduzir o desejo desesperado de resgatar e reviver momentos felizes do passado. Versos como "Have you barricaded all your feelings dry?" e "Now you're living on the other side" sugerem uma dolorosa assimetria: enquanto a outra pessoa conseguiu seguir em frente e distanciar-se emocionalmente, quem canta permanece estagnado e refém das lembranças.

Esta divergência de perspetivas torna-se ainda mais evidente na passagem "You said that we wasted our younger days in life, but you were just jaded in the heat of the fight", que expõe ressentimentos antigos e visões opostas sobre o valor daquilo que viveram juntos. Toda esta narrativa melancólica e introspetiva é amplificada pela assinatura sonora dos HAEVN, cujas texturas atmosféricas, cinemáticas e subtilmente próximas do shoegaze intensificam a sensação de solidão, transformando a canção numa busca contínua de sentido num mundo que ficou incompleto.

sábado, 1 de outubro de 2022

Música do BioTerra: HOLYGRAM - Still There

Hoje celebra-se em todo o mundo o Dia Mundial da Música

Melhor som aqui

Letra
I saw you there 
We started walking in lines 
The sea was wild 
It left a taste in my mouth 
And I don’t know why 
We started falling apart 
So ease my mind 
With your dystopian hands 
And I’m still there 

And I don’t know why 
We started falling apart 
I saw you change 
In our dandelion grave 
And I’m still there 
I’m still there… 

I saw you there 
We started walking in lines 
The sea was wild 
It left a taste in my mouth 
And I’m still there 
Standing there 
You started walking away 

I saw you 
You started walking away 
The sea was wild

A letra de "Still There" é minimalista, poética e intencionalmente ambígua, mas carrega uma forte carga de isolamento urbano e desilusão amorosa. A música narra um distanciamento, no qual o eu lírico descreve um momento em que ele e outra pessoa "começaram a caminhar em linhas" - uma metáfora para uma rotina rígida e sem conexão real - até que, de repente, tudo começou a desmoronar sem que ele consiga compreender o motivo real.

Este cenário de ambientes distópicos e cinzentos é reforçado pelo uso de termos como "dystopian hands" (mãos distópicas) e "dandelion grave" (túmulo de dentes-de-leão), que traduzem perfeitamente a identidade do álbum Modern Cults, focado na exploração da vida nas grandes metrópoles, na solidão moderna e na forma como as relações humanas se tornaram frias, mecânicas e quase industriais.

Por fim, o refrão e o próprio título da canção entregam o verdadeiro peso psicológico da narrativa através da frase "And I'm still there" (E eu ainda estou lá). Enquanto a outra pessoa seguiu em frente e mudou, o narrador permanece estático, preso mentalmente ao exato momento e lugar em que o relacionamento acabou, transformando a faixa numa obra sobre a incapacidade de superar o passado e sobre como a memória se pode tornar uma espécie de assombração ou um "holograma" que se repete indefinidamente na mente.

Inspirações Filosóficas, Romancistas e Poéticas
No plano filosófico, a faixa ancora-se fortemente no conceito de Hauntology (Hantologie), teorizado por Jacques Derrida e mais tarde transposto para a cultura pop por Mark Fisher. Esta linha de pensamento aborda a persistência de fantasmas do passado que continuam a infetar e a moldar o presente, uma ideia que o Holygram traduz na dor de viver num loop temporal onde o ontem nunca morre. Esta suspensão do tempo remete também para o filósofo Henri Bergson e o seu conceito de "Duração" (Durée), que defende o tempo psicológico da mente — onde as memórias se sobrepõem à realidade cronológica do relógio — como a verdadeira experiência humana.

Na romancística, "Still There" bebe diretamente da literatura da memória involuntária de Marcel Proust em Em Busca do Tempo Perdido, onde pequenos fragmentos do quotidiano desencadeiam recordações avassaladoras, embora aqui despovoadas de doçura e transformadas numa prisão psicológica. A narrativa da canção aproxima-se ainda da literatura gótica de suspense de autores como Henry James, em A Volta do Parafuso, ou Daphne du Maurier, em Rebecca, obras onde os espaços físicos e as habitações estão permanentemente impregnados e assombrados pelo eco de traumas e de relações passadas, tornando o quarto do protagonista num espelho da sua própria ruína emocional.

Por fim, a fundação poética da canção assenta na melancolia e na decadência do Spleen de Charles Baudelaire e dos poetas simbolistas franceses do século XIX, que encontravam uma beleza trágica na agonia do isolamento. No entanto, é a obsessão de Edgar Allan Poe com a perda da mulher amada e a eterna vigília dos amantes face à morte — como nos poemas O Corvo ou Annabel Lee — que ressoa de forma mais pungente na lírica da canção, condenando o eu lírico a habitar a penumbra, crente de que aquela presença intangível continua, obstinadamente, ali.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

António Lobo Antunes - Acha que falo mal das Mulheres?


António Lobo Antunes detesta a palavra “viral”, fica arrepiado quando lhe fazem o gesto das aspas com dois dedinhos no ar. No seu último romance, Natureza dos Deuses, em que acompanha a ascensão e queda de uma família de banqueiros que prefere nunca nomear (o leitor se quiser pode adivinhar), Antunes vinga-se. Até da clareza, da cronologia clássica, dos cânones da sintaxe. A força torrencial da linguagem alaga tudo, num emaranhado de vozes, obsessivas mas nunca histéricas, quase sempre perplexas, que se sobrepõem, atropelam, sem querer saber do espaço e do tempo, num “delírio caótico”. Como uma partitura musical, onde a melodia se perde e regressa ao refrão. Ou como um ecrã com várias janelas abertas, em que um leitor, ultraconcentrado, e com olhos de camaleão, assiste a tudo, em simultâneo. Logo ele que nem sabe abrir um computador (continua a escrever em caligrafia de formigueiro miniatural) e recusa o telemóvel. Porque, como dizia o (Umberto) Eco: “O telemóvel só serve a três classes de pessoas: os médicos ou os bombeiros; as pessoas portadoras de doenças, como diabetes; e os adúlteros.”

Costuma ser o escritor da marquise e do naperon, mas desta vez detém-se numa família de milionários. Porquê?
Como dizia Flaubert, “é preciso vasculhar toda a vida social para ser um verdadeiro romancista, visto que o romance é a história privada das nações”.

Vasculhou muito?
Não, porque não sou do século dele.

Os ricos do seu livro são tratados como sádicos na cama, que fazem das mulheres “os seus palhaços” e os empregados emprestam a mulher ao patrão…
Eu assisti tanto a isso na vida real, sobretudo no mundo dos ricos. Homens a oferecerem as próprias mulheres. Fitzgerald dizia a Hemingway que os ricos eram uma “espécie diferente”, e o Hemingway “pois são, têm mais dinheiro”. Mas não é só isso…

O desprezo?
Não desprezam, ignoram… Aqueles a que eles chamam “as criaturas”… A ambição de poder sempre me assombrou. Eu só queria fazer livros bons.

Onde se sentiu mais em casa: nos meios intelectuais, nos salões literários, na tropa, no hospital, quando era médico?
Sei lá. Faz-me cada pergunta… Frequento pouco os meios literários… Mas é quando estou com pessoas de quem gosto. Passei a infância num bairro pobre que era Benfica. Estou muito ligado a essas pessoas. Mais do que supunha. Apanhei uma tuberculose porque passava os dias em casa do sapateiro e de uns vizinhos que nós tínhamos. Era gente muito pobre. A minha mãe dizia que tinha herdado isso do meu pai: só gostava dos pobres, mas sentia-me tão bem com eles. Quando ia para a Beira Alta e se tomava banho numa selha, era tão bom… Eu estava sempre a transbordar de ternura, ainda estou, só que escondo. Gosto de pessoas que tenham gostos diferentes de mim. Custa-me quando são do Sporting, mas enfim, ninguém é perfeito…

Passou pela guerra, por três cancros, agora a morte de um irmão e da sua mãe… E reverteu muito do seu sofrimento para a escrita?
A gente não inventa nada. Estes dois anos foram terríveis, e agora o cancro do meu irmão João, que aguenta tudo com uma dignidade, uma coragem, que eu sempre encontrei nos cancerosos, sem uma única queixa… Quando passei 19 dias no hospital lembrava-me do Proust, sempre a olhar para a janela à espera que fosse dia como se o dia me viesse salvar de alguma coisa, não me salvava de nada. Tenho passado muito. Mas começamos a relativizar muita coisa… Eu tenho uma ideia sobre o meu trabalho… 
Posso dizer em off?

Preferia que dissesse em on…
Eu acho que nunca ninguém escreveu como eu em Portugal. Mas é só uma opinião.

Já atingiu um patamar em que pode escrever como bem entender e até dizer o que lhe apetece, sem se preocupar com as consequências?
Está a pensar no Fernando Pessoa e de eu ter dito que ele não fodia?

Por exemplo.
Isto está cheio de patetas, as perguntas nunca são bem aquelas e as respostas também nunca são bem aquelas. Primeiro era uma boutade. Foi num almoço, estávamos a gozar, e de facto eu acho mesmo que ele teria sido melhor poeta se tivesse feito amor… Como se pode viver sem fazer amor ? Não entendo. Mas só um palerma é que me vai atacar por eu dizer isso. Mas não. Não houve medíocre que não viesse morder. Não gosto da Mensagem, é evidente, como acho que o Livro do Desassossego é um conjunto de banalidades e lugares-comuns. Não sei para que estamos a falar do Fernando Pessoa, coitado, não tem culpa nenhuma… Isto é para dar matéria aos idiotas, para me virem morder os calcanhares, não chegam mais alto…

Pessoa e Eça são intocáveis?
Pois, e isso é extraordinário. Achava Eça um romancista extraordinário, já não acho. Tenho admiração pelo Antero e pelo Herculano. O meu pai citava Herculano: “Por meia dúzia de moedas Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita.” Não é bonito?

É.
Era um foco de discussão entre mim e o Zé [Cardoso Pires], ele achava que o Herculano era um chato. O que se faz agora é muito fraco, nem no estrangeiro há grandes escritores.

Os génios aparecem ciclicamente?
Pois, aparecem assim por revoadas. O milagre do século XIX, a quantidade de génios… só na Rússia havia dez ao mesmo tempo… [desfia os nomes com pronúncia russa], como em França e em Inglaterra. Agora não há. No século XX: Faulkner, Hemingway, Proust, Céline, Fitzgerald. O Thomas Mann é bom, mas chateia-me. O Musil chateia-me…

E o Joyce?
Admiro a proeza, mas às vezes penso se não será a proeza pela proeza.

O que encontra num livro bom?
O charme. Qualquer coisa indefinível que certos livros têm, certos homens têm, certas mulheres têm. É que não é ser bom tecnicamente. Têm que ter charme, não sei explicar. É qualquer coisa que nos faz tornar no verso do Neruda, “como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo”. E depois como se racionaliza sobre emoções? Gosto porque gosto, porque era ele, porque era eu. As amizades são assim, como o amor. A gente conhece uma pessoa e fica amiga de infância. As minhas amizades foram sempre fulminantes, e depois duram para a vida, depois morrem antes de mim. É uma traição horrível um amigo morrer.

No seu livro diz: “A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado”…
Tem a ver com a memória. E sem memória não há imaginação. Aquilo que as pessoas chamam imaginação não é mais do que a maneira como nós arranjamos e desarranjamos os acontecimentos da vida. Nada se inventa. Pode-se misturar as coisas, ou mostrar só metade, mas todos os livros falam da mesma coisa. E todos os escritores são uniformemente infelizes. Porque se fossem felizes não tinham necessidade de passar 16 horas por dia a escrever. Há uma dor com que se nasce… Os artistas sofrem muito.

Não é uma pessoa alegre?
Conhece pessoas alegres?

Conheço. Do seu livro, também: “Este atraso mental das pessoas felizes que dá vontade de corrigir ao estalo, o que vale é que passa depressa.”
Isso é alguém a falar lá dentro. Não tenho de subscrever isso [risos]. As taxas de suicídio entre os humoristas são muito grandes… Um sorriso é a tal lágrima entre parêntesis.

Já o vi a dançar, a cantar alto, pareceu-me feliz…
Estava a fazer muita cerimónia. É tão raro não haver inveja neste meio. No mundo provinciano, pequeno e saloio como é o meio literário em Portugal. Há muito poucas pessoas que me possam interessar e respeitar aqui. Tirando o Eduardo Lourenço. Rimo-nos imenso, ele tem muito humor. O Zé também, mas havia nele sempre uma amargura.

Uma vez disse que ninguém podia fazer um bom livro antes dos 24…
Ai, isso também gerou polémica?

Um bocadinho.
É verdade, não se pode escrever um bom romance antes de ter vivido. Poesia pode ser. Olhe, eu com essa idade só escrevia merda. Nunca tive pressa em publicar. Essa qualidade eu tenho. Não percebo porque isso causa polémica… mas cada vez que abro a boca…

Mas não faz de propósito?
Claro que não. Agora tudo tremelica. Há para aí umas criaturas, por causa das relações sexuais e poesias, ficaram insultuosos. Não era nada disso, aquilo passou-se num contexto diferente, quero lá saber se o homem fodeu ou não…

Tem teorias acerca disso?
Tenho lá… Olhe a Santa Teresa d’Ávila…

Também era virgem.
Não sei o que é pior, se isso, se aturar um homem… Deve ser terrível. Os homens não merecem as mulheres, reduzem tudo à genitalidade. Quando lhes deveria dar muito mais prazer estar sentado no sofá, de mãos dadas, a ver uma novela, do que um em cima do outro a esbracejar. O verdadeiro prazer vem do amor, que é uma coisa em que ninguém é bom, ninguém é mau. Tive de fazer muita sexologia… E o medo que os homens têm das mulheres? E como nós, homens, ligamos tudo à potência… Já comeste aquela gaja, e esta, e a outra?

Nunca entrou nesse registo?
Provavelmente entrei, não sou melhor que os outros. E no fundo os homens andam sempre à procura de uma outra coisa, andam tão perdidos como elas, querem ser amados, querem ser protegidos, gostados. Temos a ilusão de que assim afastamos a morte, porque ninguém está preparado para morrer.

Houve um cirurgião que lhe agarrou a mão durante a anestesia…
Foi um ato de amor, nem imagina como foi importante para mim. Há mãos de homem que apertam bem. As mulheres são muito mais exigentes. “O que fizeste da tua irmã gémea que abandonaste ao nascer?” Se os homens conseguissem não abandonar a irmã gémea ao nascer… O sexo não é o mais importante numa relação. A gente entrar um no outro numa relação, sem precisar de recorrer a esse apêndice. Eu já não sou um homem bonito.

Dá assim tanta importância a isso?
Ai, eu gostava de ser bonito. Fazer uma cara sorrir para mim. Mas sob esse aspeto convivo bem comigo. O meu medo é começar a escrever porcarias e não ter consciência disso, o Simenon chegou aos 70 e, como ele dizia, resolveu partir o lápis.

Continua a ler muito?
Claro. Olhe, o primeiro livro que me fez chorar foi o Love Story [de Erich Segal], emprestado por um sargento, na guerra. Chorei como uma Madalena. Porque todos nós temos uma criada de servir cá dentro, no sentido antigo da palavra. Todos nós somos muito pirosos.

Mas ainda lê os livros que a criada de servir que tem dentro de si lhe pede?
Às vezes, não sei se são bons ou maus. Um meu editor francês citava muitas vezes a frase de um general veneziano do século XVI: “É preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mas não esquecer que ela é careca.” A gente a escrever é assim, eu sinto-me um pobre… Gosto muito de ler, é um prazer enorme. O meu pai estimulou muito a leitura aos filhos e a minha mãe deve ser a única mulher que eu conheço que leu o Proust duas vezes.

Porque não disse a “única pessoa”? Dito assim pode parecer um comentário misógino…
Acha que eu falo mal das mulheres? Deus me livre. Isso era dantes, não era? Eu devo tanto às mulheres, à minha avó, à minha mãe… Estava aqui sozinho, a escrever, e de repente sai-me, sem eu dar conta, um berro: “Quero a minha mãe!” Todos os homens quando estão aflitos querem a mãe, tenham a idade que tiverem. Vi morrer tanta gente nos hospitais e nunca vi um homem chamar pelo pai. É espantoso. Velhos e doentes com mais de cem anos: “quero a minha mãezinha”. Com mais de cem anos continuam a chamar pela mãe. É extraordinário.

Mas uma coisa são ‘as mulheres’, outra as nossas mães, irmãs…
Não tenho ideia de as tratar mal. Só tenho filhas, as pessoas que mais me marcaram foram todas mulheres, como é que eu poderia? O livro que estou a escrever agora anda todo à roda de uma mulher com Alzheimer, é também um desafio técnico, como é que eu vou descrever uma mulher que vai perdendo a memória? Sinto-me mais à vontade com mulheres. Ou então são elas que vêm ter comigo nos meus livros, sentam-se à boca de cena e começam a falar.

Dá ideia de que tem um ouvido absoluto para captar as marcas de oralidade, mas também repara tanto nos detalhes, nos pequenos pormenores… Também deve ter um espécie de olhar absoluto…
É só trabalho. Sou capaz, sem olhar para si, de dizer como está vestida, de cima abaixo. Se se tiver aberto aos outros, as coisas entram dentro de nós. E as pessoas são tão interessantes, mas depois há os chatos.

Fala dos políticos?
Fui infeliz durante este governo de direita, os erros, a maneira de falar, a arrogância, a ambição social que se notava naquela gente toda, e nos tipos que estão por detrás… É uma chatice, os alfaiates mudaram isto, porque dantes percebia-se quem eram as pessoas com dinheiro, agora vestem-se todos de igual.

Ficou contente com o acordo da esquerda?
Então não fiquei? Não pertenço a nenhum partido, mas estou mais à esquerda do partido socialista. Mas isso também não é importante: o pai do meu pai era conservador, salazarista, monárquico e era a pessoa mais democrata, bondosa e tolerante que eu conheci. Continuo a simpatizar com o Louçã. Gostei do Álvaro [Cunhal], era um homem irresistível, exceto quando se punha a falar de política, aí era impossível. Mas a falar de Bruegel era fascinante. A Catarina Martins tem uma inteligência cândida, que é uma coisa de que eu gosto. Uma cara, um ar e convicção que me é agradável. Parece-me a mim pureza. Oxalá não esteja enganado.