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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Dia Internacional do Tigre - do Sandokan à realidade

Quando Emilio Salgari criou o Sandokan no final do século XIX, batizou-o de "Tigre da Malásia" por uma razão simples: na altura, o tigre era o símbolo supremo de uma natureza selvagem, perigosa e indomável, reinando sem rival nas selvas aparentemente infinitas do Sudeste Asiático.

Décadas mais tarde, em 1976, essa figura nobre e invencível ganhou nova vida com a chegada da minissérie da RAI à RTP. Eu tinha 10 anos e o impacto foi enorme. Para os adolescentes da minha geração, o fascínio por Sandokan era inevitável. Tinha tudo: o exotismo de Bornéu e da Malásia, o carisma inegável de Kabir Bedi, a beleza de Marianna - a "Pérola de Labuan" e filha do seu grande inimigo -, a presença marcante do português Yanez de Gomera (interpretado por Philippe Leroy), o sopro irreprimível de aventura e liberdade e, claro, aquela música do genérico que nos ficava a soar na cabeça durante dias.

Fiquei tão rendido que fui de propósito à biblioteca requisitar o livro. Li-o de fio a pavio.

A RTP voltou a transmitir a minissérie, já a cores, na década de 1980
O problema é que, enquanto a ficção vendia o tigre como uma fera imparável, a vida real encarregava-se de fazer o oposto.

Ao longo do século XX, o avanço humano destruiu quase tudo à sua passagem. A desflorestação para a exploração de madeira e para as plantações de palma de óleo cortou as florestas ao meio. A juntar a isto, a caça ilegal para o comércio clandestino de peles e ossos deu o golpe final. Em poucas décadas, o tigre perdeu mais de 90% do seu território original.

A ironia é trágica: no Camboja, no Laos e no Vietname, o tigre já desapareceu completamente da natureza. E na própria Malásia - a terra do herói da televisão -, restam  menos de 150 tigres selvagens a lutar para não se extinguirem de vez.

Hoje, os esforços de conservação em países como a Índia ou o Nepal mostram que nem tudo está perdido e que o número de tigres começou finalmente a subir. Mas o contraste entre a lenda e a realidade fica para a história: o animal que serviu de inspiração para um dos maiores símbolos de coragem e liberdade da televisão revelou-se, afinal, extremamente vulnerável às ações do homem.

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Páginas oficiais

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A identidade de género é um resultado das sociedades patriarcais


A desigualdade de género refere-se às diferenças injustas no tratamento, oportunidades e direitos entre pessoas com base no género. Já o patriarcado é um sistema social e cultural em que o poder e a autoridade estão historicamente concentrados nos homens, o que cria e mantém essas desigualdades.

Fontes sobre Patriarcado
A United Nations Economic and Social Commission for Western Asia define patriarcado como «uma forma tradicional de organizar a sociedade que muitas vezes está na raiz da desigualdade de género… onde os homens, ou o que é considerado masculino, têm mais importância do que as mulheres, ou o que é considerado feminino». 

Um artigo teórico afirma que o patriarcado é «o principal obstáculo ao avanço e desenvolvimento das mulheres… as instituições e relações sociais patriarcais são responsáveis pelo estatuto inferior ou secundário das mulheres». 

Outro estudo explora como normas patriarcais (e atitudes de género inequitativas) funcionam como motoras de violência contra as mulheres, mostrando como a estrutura patriarcal se traduz em desigualdades práticas e de poder. 

Uma publicação académica define “patriarchy” como “sistemas de poder sociais, políticos e económicos estruturados à volta da desigualdade de género. As relações de poder no patriarcado fundamentam-se na primazia dos homens, ou da masculinidade, face aos não-homens”. 

Sobre desigualdade de género: um estudo na região de Nepal mostra que «as hierarquias baseadas no poder fazem com que as mulheres enfrentem subordinação e violência», sendo a desigualdade de género “resultado” dessas relações de género desiguais. 

“O que é patriarcado?” — artigo no site do Instituto Claro. Explica que «o patriarcado representa um sistema social e cultural em que o poder … privilegia homens». 

“Patriarcado: o que é, como funciona, hoje” — no site Mundo Educação. Define patriarcado como “um sistema de organização social e cultural baseado na dominação masculina” e explica consequências como desigualdade salarial, exclusão política das mulheres, etc. 

Patriarcado - GEDES” — página do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES). Explora o patriarcado, as relações de gênero e como ele se articula com outras opressões como raça, classe e sexualidade. 

Manual/relatório: “Patriarcado e Mulher: Análise da Violência na Ordem Patriarcal de Género à Mulher Idosa” (autor Cássius Chai et al.) — discute como a ordem patriarcal de género condiciona a violência. 

Capacitação Maria Penha/MS” — define patriarcado como «uma hierarquia entre homens e mulheres, com primazia masculina». 

Fontes sobre Desigualdade de Género
Dossier “Desigualdade de Género” do Centro de Estudos Sociais (CES) (Portugal) — aborda «as desigualdades decorrentes da identidade de género e/ou sexualidade, e o modo como se cruzam com variáveis como classe social, etnicidade, nacionalidade…» 

Artigo “Desigualdade de Gênero no Brasil: Desafiando o Patriarcado e Avançando rumo à Igualdade” — demonstra a ligação entre patriarcado e desigualdade de género. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Pedro Aibéo - Se sou um cidadão do mundo, que morra então como tal, no caminho


Desde pequeno que dizia querer ser engenheiro. Pedro Aibéo, 44 anos, nasceu no Porto e estudou no Liceu de Gaia, atualmente Escola Secundária Almeida Garret, antes de concorrer a Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) em 1997.

“A minha resposta standard às perguntas deste género era que queria construir coisas, mas que queria compreendê-las, antecipando-me à pergunta de porque então não arquitetura?” explica.

Mais tarde acabou mesmo por estudar Arquitetura em Darmstadt, na Alemanha, e diz que “obviamente entendi que saber como funciona em detalhe o betão armado e outros detalhes está longe de significar entender-se o que é uma casa ou uma ponte. O todo não é só maior que a soma das partes, mas algo completamente diferente e inesperado.”

Terminou o curso na FEUP em 2002. Um ano antes, quase por acaso, candidatou-se a uma mobilidade Erasmus e foi parar a Seinäjoki, na Finlândia, país que acabaria por escolher mais tarde para viver. “Mesmo no último dia de candidatura, um amigo falou-me desta possibilidade, num dia de chuva no novo Campus da Asprela (antigamente a FEUP era na Rua dos Bragas a poucos metros de onde eu tinha nascido) e eu escolhi a última opção ainda disponível, a Finlândia. Na altura, em 2001, ninguém realmente queria ir para a Finlândia”, explica o alumnus.

A vida de Pedro não se fica apenas pela Engenharia. É músico, escritor, investigador, empreendedor e ativista político com inúmeros projetos finalizados e outros tantos em progresso.

“Estou a finalizar um doutoramento em Architectural Democracy sobre política e construção com o famoso escritor John Keane da Austrália, criei três companhias à volta da “Gamified Cohousing”, criei uma organização sem fins lucrativos, a World Music School e sou Deputy Member do Departamento de Planeamento Urbano da cidade de Lohja. Além disso, faço parte de uma galeria de arte, a Myymälä, no coração de Helsínquia e tenho publicado vários livros, um deles o “Isto não é só Matemática”, já tendo em vista o próximo, que será sobre astronomia. Também escrevi peças de teatro para as Nações Unidas e para o teatro estatal alemão, toquei e toco música profissionalmente com os “Homebound” e os “Wolfenmond” e sou Vice-Chairman dos “Artists at risk”, uma associação que ajuda refugiados políticos através das artes”, resume o engenheiro civil.

Com uma vida cheia de planos, Pedro é muito mais que um engenheiro na verdadeira essência do querer construir e compreender o mundo à sua volta. E todo este trabalho tem dado os seus frutos.

“Tenho recebido vários prémios para alimentar o meu ego. O mais recente foi há uns meses atrás, o prémio estatal de artes (Taike), o maior prémio nacional deste género na Finlândia. Outros têm sido à volta da arquitetura e engenharia. Recentemente, desenhei um Hospital e um centro de estudo de reciclagem para o Nepal, patrocinado pela Koica – Korea International Cooperation Agency, a agência sul coreana para o desenvolvimento, tendo ambos os projetos sido premiados”, acrescenta.

O projeto que quer mudar as cidades
Em 2018, Pedro começou a “Gamified Cohousing”, uma spin-off da sua investigação sobre Architectural Democracy, que se traduz num projeto que quer resolver os problemas crescentes de solidão e desperdícios de recursos (naturais e humanos) nas cidades, combinando esse facto com o potencial de existirem vários edifícios vazios no mundo.

“Com a Gamified Cohousing temos agora cinco propriedades na Finlândia, quatro escolas antigas e uma estação de comboios que estamos a renovar e a implementar um misto de habitação e local de trabalho, com zonas partilhadas. Tudo gerido através de um jogo semelhante ao The Sims”, avança o antigo estudante da FEUP.

– Como surgiu a oportunidade de ir para a Finlândia?
Em 2001, através do projeto Erasmus e depois de ter vivido em muitos países, a fazer engenharia e arquitetura, como Oman, Alemanha, Índia, Austrália e China, resolvi seguir o meu caminho, parar de trabalhar por conta de outrem e criar as minhas empresas e investigação. A Finlândia parecia o sítio certo para tal, mais próximo da família e dos meus filhos e num país onde os apoios são fortes. Estatal e privado. Por exemplo, recebi a bolsa da Kone Foundation para a investigação. Mas o sistema não é perfeito, longe disso, se bem que os comboios quase o são. Estou agora a escrever isto de Kajaani para Lappeenranta, no restaurante do comboio.

– De que forma a Universidade do Porto teve impacto neste processo?
A Universidade do Porto deu-me oportunidade de ingressar no projeto Erasmus, com bolsa e um processo muito fácil de aplicação. A Faculdade de Engenharia fez-me crescer muito: de um rapaz confuso de 17 anos para alguém capaz de se organizar não só no trabalho, mas a ser independente na vida.

– Há quanto tempo estás fora de Portugal?
Desde 2002. 22 anos, exatamente metade da minha vida!

– O que te motivou a ir para fora?
Depois da experiência na Finlândia, ficar num só sítio pareceu muito redutor, havia um mundo por explorar e crescer. Não sou obcecado por viajar e por turismo, mas sou com certeza um irrequieto.

– Apesar de viveres na Finlândia, consideras-te um cidadão do mundo?
Não passo muito tempo na Finlândia, talvez metade do ano. Hoje em dia tenho passado muito tempo no Nepal e no Qatar em projetos de engenharia e arquitetura. Fui dando muitas aulas antes da pandemia que se viveu em 2020, ia anualmente à China, incluindo Wuhan, onde dei várias aulas e workshops. Passei também pelo México e Índia. Hoje em dia não tenho dado aulas porque acabo por ter pouco tempo para isso.

Cidadão do mundo? Essa definição é a de uma pessoa que pertence a todos os lados e a nenhum também. Há um sentimento de casa, quando estou em Oman e na Alemanha, tão intenso ou senão mais do que em Portugal, mas também um eterno sentimento de ser o estrangeiro em todos os lados. Mas voltar a Portugal é indesejável, porque seria frustrante fechar a minha história de vida com saudosismos constantes, do emigrante que de repente já não o é. Tornar-me naquele tio que muitos de nós certamente já experienciámos em várias ocasiões, a querer falar de que também antigamente viajava e era um cidadão do mundo com um olhar triste de não o ser mais! Se sou um cidadão do mundo, que morra então como tal, no caminho.

– Como foi a adaptação a viver fora de Portugal, noutros países, e à Finlândia em particular?
Na altura, em 2001, havia menos Internet e nada de câmaras digitais ou smartphones. Mas muita vida social que ajudou bem na transição. Tornou-se tudo rapidamente numa aventura. Hoje, continua a ser fácil e também difícil, por outro lado. As burocracias e línguas por vezes dificultam. Antigamente, era necessário aprendermos a língua do país onde estávamos, mas atualmente torna-se quase desnecessário com tanta ferramenta digital disponível.

Obviamente que sendo europeu, não estou iludido. Facilita a vida… e muito! Quando estive na Palestina a explorar Hebron e me vi rodeado de militares das Forças de Defesa de Israel, bastou-me levantar o passaporte português para que libertassem as armas apontadas a mim.

– Principais experiências que gostasses de destacar?
O nascimento dos meus dois filhos, na Alemanha e na Estônia, muitos romances e, claro, muitos projetos de trabalho!

Dos romances não se fala, fica para outra rubrica talvez, mas do trabalho, deixo uns destaques: a construção da GuTech em Oman, a graduação em Engenharia Civil e em Arquitetura, a compra da primeira escola em Hyrsylän Koulu, na Finlândia, para a “Gamified Cohousing” em 2019, expor na Bienal de Veneza, publicar um livro prefaciado pelo Nuno Markl, ter tocado música ao lado do Béla Fleck no Celtic Connections em Glasgow, ter feito uma peça de teatro nas Nações Unidas de Viena para um público recheado de astronautas, as tours de música pela Alemanha a tocar gaitas de foles em shows góticos, vender os meus desenhos de nus em galerias e pagar os meus estudos com esse valor, tocar música em casamentos na Índia, fundar uma escola de música no Benin, dar aulas de arquitetura na Austrália, representar a Finlândia numa palestra em Barranquilla, na Colômbia, e ser capa do maior jornal da Finlândia, Helsingin Sanomat, em protesto contra o Guggenheim em Helsínquia.

– O que gostas mais na Finlândia? E menos?
Gosto de um alto nível de honestidade e confiança, desgosto do constante uso da palavra “niin” nas conversas… Faz-me lembrar Monty Python e os cavaleiros que diziam “ni”.

–  Um conselho para quem visita a Finlândia?
Não esperem o país mais feliz do mundo, não é baseado em números de sorrisos por dia por pessoa, ou numa vida social intensa e muito menos, não esperem receber comida quando forem visitar alguém, é só café, quase sempre americano.

– Do que é que sentes mais falta em Portugal? Pensas em regressar?
Não tenho planos de regressar, só se fizermos algumas “Gamified Cohousings” por aí. Estamos já a expandir para a Ásia, mas Portugal ainda não. Quem sabe!

Não sinto realmente saudades, tento sempre fugir da clássica nostalgia, de viver no passado. Não sinto falta do Fado, mas sim de uma boa noite a tocar gaita de foles em Trás-os-Montes com os meus amigos, alguns dos quais com quem cresci a tocar música durante o curso de Engenharia Civil.

domingo, 19 de novembro de 2023

Os Hindus


O povo hindu é um dos mais antigos do mundo, que se desenvolveu na região do subcontinente indiano. A palavra hindu vem do persa e significa “o povo que vive do outro lado do rio Indo” . O hinduísmo é a religião predominante entre os hindus, mas não é uma religião monolítica, e sim um conjunto de tradições e crenças variadas.

A origem dos hindus remonta à civilização do Vale do Indo, que floresceu entre 3300 e 1300 a.C. nas margens do rio Indo e seus afluentes . Essa civilização tinha cidades planeadas, sistemas de escrita, comércio, arte e religião. Ela entrou em declínio por volta de 1500 a.C., possivelmente por causa de invasões, mudanças climáticas ou desastres naturais.

Nessa época, chegaram ao território indiano os árias, um povo nómada de origem indo-europeia, que trouxe consigo uma nova língua (o sânscrito), uma nova cultura e uma nova religião (o védico) . Os árias se impuseram sobre os povos nativos, os dravidianos, e estabeleceram um sistema de castas, que dividia a sociedade em quatro grupos principais: os brâmanes (sacerdotes), os xátrias (guerreiros), os vaixias (comerciantes) e os sudras (servos). Havia também os párias ou intocáveis, que eram excluídos do sistema e considerados impuros.

A religião védica era baseada nos Vedas, uma coleção de hinos, rituais e especulações filosóficas sobre a natureza do universo e dos deuses. Os principais deuses eram Indra (o rei dos deuses e senhor das tempestades), Agni (o fogo), Varuna (o céu) e Soma (uma bebida sagrada) . Os árias praticavam sacrifícios de animais e oferendas de fogo para obter favores divinos.

A partir do século VI a.C., surgiram novos movimentos religiosos e filosóficos na Índia, que questionavam a autoridade dos brâmanes e dos Vedas. Esses movimentos enfatizavam a busca pelo autoconhecimento, pela libertação do ciclo de renascimentos (samsara) e pela realização da verdade suprema (brahman). Entre esses movimentos estavam o budismo, o jainismo e o hinduísmo clássico .

O hinduísmo clássico é uma síntese das tradições védicas com as tradições dravidianas e outras influências culturais. Ele se baseia em novos textos sagrados, como os Upanixades (que exploram a relação entre o ser humano e o absoluto), os Puranas (que narram as histórias dos deuses) e os Épicos (como o Ramáiana e o Mahabharata, que contam as aventuras de heróis e reis)

O hinduísmo clássico também valoriza a diversidade de caminhos para se aproximar do divino, como o caminho da ação (karma marga), o caminho do conhecimento (jñana marga) e o caminho da devoção (bhakti marga). Cada um desses caminhos envolve práticas específicas, como rituais, meditações, mantras, yoga, ética e serviço.

O hinduísmo é uma religião viva e dinâmica, que continua se transformando e se adaptando aos tempos. Ele é a religião de mais de um bilião de pessoas no mundo, principalmente na Índia, mas também  noutros países, como Nepal, Sri Lanka, Bangladesh, Indonésia e Estados Unidos. Ele é uma religião rica e complexa, que reflete a história e a cultura do povo hindu.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Mensagem Secretário-geral sobre os Glaciares da Região do Monte Evereste


Alerta climático!
No Nepal, o secretário-geral das Nações Unidas envia uma mensagem para o mundo:
“Os telhados do mundo estão a desabar."

O Nepal perdeu cerca de um terço do seu gelo em pouco mais de 30 anos e os glaciares estão a derreter a um ritmo recorde.
O facto de os glaciares do Nepal terem derretido 65 % mais depressa na última década do que na anterior "significa que podemos estar perante uma tragédia: o desaparecimento total dos glaciares.”

Por isso, António Guterres apela ainda: "Os glaciares estão a recuar, mas nós não podemos. Temos de acabar com a era dos combustíveis fósseis. Temos de agir agora para proteger as pessoas que estão na linha da frente. E para limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC, para evitar o pior do caos climático. O mundo não pode esperar.”

terça-feira, 6 de junho de 2023

Pico do Evereste - uma montanha de lixo


Antes do descalabro, em 1991, o Comitê de Controle de Poluição de Sagarmatha (SPCC) foi fundado para ajudar a manter limpa a região de Khumbu, em parte por meio do gerenciamento de locais de coleta de lixo controlados. Tudo estava mais ou menos controlado. Com a chegada de nômadas digitais, turistas de toas a espécie, só pensavam nas selfies no pico do Everest, ignorando o lixo que produziam. 
A primeira grande denúncia chego em  2015, onde se mostravam que as pilhas de lixo têm aumentado exponencialmente nesta região.
Na língua tibetana, o Monte Evereste é chamado de “Chomolungma” (“Qomolangma” em chinês), que significa “deusa mãe do mundo”. Para o povo sherpa, a montanha é um lugar sagrado, merecedor de dignidade e respeito.

Hoje, o Evereste está tão superlotado e cheio de lixo que é chamado de “o depósito de lixo mais alto do mundo”.

Mais de 600 pessoas tentam escalar o Monte Evereste a cada temporada de escalada durante as poucas semanas do ano, quando as condições climáticas são perfeitas. Além disso, para cada alpinista há pelo menos um trabalhador local que cozinha, transporta equipamentos e orienta a expedição. A montanha ficou tão superlotada que muitas vezes os alpinistas precisam ficar na fila por horas em condições de frio congelante para chegar ao topo, onde o ar é tão rarefeito que é necessária uma máscara de oxigênio para respirar. Eles caminham em fila indiana a passos de tartaruga sobre o Degrau Hillary, o último obstáculo antes do cume. Quando os alpinistas finalmente chegam ao cume, mal há espaço para ficar de pé por causa da superlotação.

Cada um desses alpinistas passa semanas na montanha, ajustando-se à altitude numa série de acampamentos antes de avançar para o cume. Nesse período, cada pessoa gera, em média, cerca de oito quilos de lixo, e a maior parte desse lixo fica na montanha. As encostas estão repletas de cilindros de oxigénio vazios descartados, barracas abandonadas, recipientes de comida e até fezes humanas. No Acampamento Base, há banheiros em tendas com grandes barris de coleta que podem ser carregados e esvaziados. Mas é aí que terminam as instalações sanitárias. No restante da expedição, os alpinistas precisam se aliviar na montanha.

Ninguém sabe exatamente quanto lixo há na montanha, mas é em toneladas. O lixo está vazando das geleiras e os acampamentos estão transbordando com pilhas de dejetos humanos. A mudança climática está fazendo com que a neve e o gelo derretam, expondo ainda mais lixo que foi coberto por décadas. Todo esse lixo está destruindo o ambiente natural e representa um sério risco à saúde de todos que vivem na bacia hidrográfica do Evereste.

A bacia hidrográfica do Parque Nacional de Sagarmatha é uma importante fonte de água para milhares de pessoas que vivem em comunidades ao redor do Monte Evereste. A bacia hidrográfica inclui a terra que direciona as chuvas e o degelo das montanhas para os córregos e rios. Não há gestão de resíduos ou instalações sanitárias na área, então o lixo e o esgoto são despejados em grandes poços fora das aldeias locais, onde são levados para os cursos d'água durante a estação das monções. A bacia hidrográfica local foi contaminada, o que pode ser incrivelmente perigoso para a saúde da população local. Sabe-se que a água contaminada com matéria fecal causa a propagação de doenças mortais transmitidas pela água, como cólera e hepatite A.

O que sobe tem que descer
Tanto os governos quanto as organizações não-governamentais (ONGs) tentaram – e estão tentando – limpar a lixeira no Monte Everest. Em 2019, o governo nepalês lançou uma campanha para limpar 10.000 quilos  de lixo da montanha. Eles também iniciaram uma iniciativa de depósito, que está em andamento desde 2014. Quem visita o Monte Evereste tem que pagar um depósito de $ 4.000, e o dinheiro é devolvido se a pessoa retornar com oito quilos de lixo - a quantia média que um único pessoa produz durante a subida.

Não são apenas as autoridades locais tentando fazer a diferença. Durante anos, o Comitê de Controle de Poluição de Sagarmatha (SPCC) trabalhou incansavelmente para manter a região limpa. O SPCC é uma ONG sem fins lucrativos administrada por sherpas locais. Eles gerenciam o lixo na área ao redor do Monte Everest, garantem que as pessoas tenham permissão legal para escalar e educam os visitantes sobre como cuidar do meio ambiente.

O Projeto de Biogás do Monte Evereste também está a trabalhar para encontrar uma solução sustentável de longo prazo para o problema de saneamento da área. Eles têm planos de construir um sistema movido a energia solar que transformaria dejetos humanos em combustível para as comunidades locais. De acordo com o site do projeto, isso impediria que as fezes humanas fossem despejadas nas aldeias locais, o que reduziria o risco de contaminação da água e criaria mais empregos locais.

Desde que Edmund Hillary e Tenzing Norgay chegaram ao cume em 1953, mais de 4.000 pessoas seguiram seus passos, e outras centenas tentam a escalada a cada temporada. Algumas pessoas argumentaram que o governo nepalês deveria ter regras mais rígidas sobre quantas pessoas podem tentar escalar o Monte Everest a cada ano, mas o Nepal depende da renda que os alpinistas trazem para a área. No Nepal, uma em cada quatro pessoas vive abaixo da linha da pobreza, e as licenças de escalada geram milhões de dólares em receita para a economia local. Os visitantes do parque também geram empregos e salário para a população local que oferece hospedagem ou trabalha como carregadores e guias.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

O sherpa recordista de subidas do Evereste: “Não há futuro no Nepal”


Um alpinista malaio sobreviveu por pouco depois que um guia sherpa nepalês o puxou do cume do Monte Everest num resgate “muito raro” em alta altitude, disse uma autoridade do governo na quarta-feira. Gelje Sherpa, 30, estava guiando um cliente chinês até o cume do Everest, a 8.849 metros , em 18 de fevereiro, quando viu o alpinista malaio agarrado a uma corda e tremendo de frio extremo na área chamada de “zona da morte”, onde as temperaturas pode cair para menos 30ºC ou menos. Gelje puxou o alpinista 600 metros  para baixo da área de Balcony até o colo sul, durante um período de cerca de seis horas, onde Nima Tahi Sherpa, outro guia, se juntou ao resgate. “Nós envolvemos o alpinista  numa esteira de dormir, arrastamos na neve ou o carregamos nas costas até o acampamento III”, disse Gelje. 
Um helicóptero usando uma longa linha o ergueu do acampamento III de 7.162 metros de altura até ao acampamento base. “É quase impossível resgatar alpinistas nesta altitude”, disse Bigyan Koirala, funcionário do Departamento de Turismo, à Reuters. “É uma operação muito rara.” Gelje disse que convenceu seu cliente chinês a desistir de sua tentativa de cume e descer a montanha, dizendo que era importante para ele resgatar o alpinista. “Salvar uma vida é mais importante do que rezar no mosteiro”, disse Gelje, um budista devoto. Tashi Lakhpa Sherpa, da empresa Seven Summit Treks, que forneceu logística para o alpinista malaio, se recusou a identificá-lo, citando a privacidade de seu cliente. 
O alpinista foi colocado num voo para a Malásia na semana passada. O Nepal emitiu um recorde de 478 licenças para o Evereste durante a temporada de escalada de março a maio deste ano. Pelo menos 12 alpinistas morreram - o maior número em oito anos, e outros cinco ainda estão desaparecidos nas encostas do Evereste. examinava os altos e baixos da vida sentado em uma poltrona na pequena e organizada sala de estar de seu apartamento alugado, enquanto sua esposa servia chá. 
“Não há futuro no Nepal”, disse o pai de dois filhos de 53 anos à Reuters no fim de semana. “Por que ficar aqui?” ele perguntou, falando no seu nepalês nativo e um pouco de inglês quebrado. “Precisamos de um futuro para nós mesmos… para os nossos filhos.” 
Usando um boné de beisebol com a legenda “Everest Man” e seu rosto escurecido pelo vento e pelas queimaduras da neve, Kami Rita está claramente orgulhoso das suas conquistas. Mas ele também é grato porque o dinheiro que ganhou como guia em expedições nas montanhas o ajudou a se mudar para a capital do Nepal para que seus filhos pudessem ter a educação que ele nunca recebeu. 
O filho, de 24 anos, estuda turismo e a filha, de 22, faz curso de Tecnologia da Informação. “Isso não teria sido possível se eu tivesse continuado em Thame e não tivesse começado a escalar”, disse Kami Rita, que deixou a escola em seu vilarejo nas montanhas quando tinha cerca de 12 anos. 
Prémios e certificados do Guinness World Record enchem a vitrina atrás dele, e pósteres de Kami Rita no Monte Everest adornam as paredes, mas ele falou em emigrar para os Estados Unidos para encontrar novas oportunidades para sua família. Kami Rita nasceu na mesma aldeia do Himalaia que Tenzing Norgay, o sherpa que junto com o neozelandês Sir Edmund Hillary fez o primeiro cume do Monte Evereste há 70 anos. 
A vila de Thame fica em Solukhumbu, um distrito que se tornou a Meca dos montanhistas desde a primeira escalada bem-sucedida em 29 de maio de 1953. Localizada na fronteira com o Tibete da China, a maior glória de Solukhumbu é o Monte Evereste, o pico mais alto do mundo com 8.849 metros, mas também abriga Lhotse (8.516 metros), Malaku (8.481 metros), Cho Oyu (8.201 metros), Gyachung Kang (7.952 metros) e Nuptse (7.855 metros) - todos nomes que qualquer alpinista de ponta gostaria de ter seu currículo. 
Os sherpas, um grupo étnico que vive na região do Everest, sempre foram a espinha dorsal das expedições nas montanhas. Eles consertam cordas, escadas, carregam cargas e também cozinham, ganhando algo entre $ 2.500 e $ 16.500 ou mais, dependendo da experiência, durante uma única expedição. 
Mas os jovens sherpas, segundo Kami Rita, estão se afastando dessa vida. “A nova geração de sherpas não gosta de escalar. Eles querem ir para o exterior em busca de uma carreira melhor”, disse. “Em 10 a 15 anos haverá menos sherpas para guiar os alpinistas. O número deles já é baixo agora.” Muitos guias sherpas renomeados deixaram o Nepal em busca de melhores oportunidades no Ocidente, principalmente nos Estados Unidos. De fato, o famoso Tenzing Norgay também emigrou, mas apenas até a vizinha Índia, onde trabalhou para uma escola de escalada. O alpinismo e o trekking atraem milhares de estrangeiros ao Nepal todos os anos, contribuindo com mais de 4% para a economia de US$ 40 biliões. O país ganhou US$ 5,8 milhões em taxas de permissão - US$ 5 milhões apenas do Monte Everest - durante a temporada de escalada de março a maio deste ano. Funcionários de empresas de turismo estimam que mais de 500.000 pessoas estão empregadas no turismo, mas muitas permanecem economicamente vulneráveis ​​nesta nação empobrecida de 30 milhões de pessoas. “O governo faz pouco pelo bem-estar dos sherpas”, disse Kami Rita, instando as autoridades a lançar esquemas de bem-estar como um fundo de previdência, benefícios de aposentadoria e facilidades de educação para seus filhos. As expedições que contratam sherpas devem fazer um seguro de vida para eles, mas o pagamento é de apenas 1,5 milhão de rúpias nepalesas (cerca de US$ 11.300). Três sherpas morreram no mês passado ao cruzar a traiçoeira cascata de gelo Khumbu no Everest. “Isso deve ser aumentado para 5 milhões de rúpias (cerca de US$ 38.000)”, disse Kami Rita, esfregando suavemente um hematoma em sua bochecha. ($ 1 = 131,83 rúpias nepalesas). Quão relevante é este anúncio para você? 1.000 pessoas estão empregadas no turismo, mas muitas permanecem economicamente vulneráveis ​​nesta nação empobrecida de 30 milhões de pessoas. “O governo faz pouco pelo bem-estar dos sherpas”, disse Kami Rita, instando as autoridades a lançar esquemas de bem-estar como um fundo de previdência, benefícios de aposentadoria e facilidades de educação para seus filhos. As expedições que contratam sherpas devem fazer um seguro de vida para eles, mas o pagamento é de apenas 1,5 milhão de rúpias nepalesas (cerca de US$ 11.300). 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

O retorno dos golfinhos de água doce no Nepal


Depois de uma década sem ser visto, o Golfinho do Rio Ganges voltou ao Rio Narayani no Nepal, dando esperança de que os esforços de conservação estão a funcionar!

Toda a história e mais fotos aqui

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Notícias do Tibete




Por Miguel Sacramento (Tibete-Porto)

Namaste (ou Bom Dia) Caros Amigos,

Acabei de chegar a Kathmandu no Nepal.
Conseguimos sair ha 7 dias de Lassa, no Tibete (um autentico cenário de guerra). Arranjamos um Land Cruiser e percorremos toda a Friendship Highway, cruzando os Himalaias e fazendo uma escala obrigatória no Everest Base Camp.
Foi uma das viagens mais espectaculares que já fiz, mas ao mesmo tempo uma das mais complicadas e tristes da minha vida.
Fomos o ultimo grupo de estrangeiros a conseguir sair de Lassa sem sermos enviados de volta de avião e também os únicos a conseguir a licença (missão quase impossível) entrar no Everest Base Camp.
A minha viagem ao Tibete deixou-me um sabor muito amargo na boca. Se por um lado realizei um sonho de infância, estar na base do Everest (ainda não foi desta que fui lá cima), por outro, pude ver ao vivo com os meus próprios olhos o medo com que o Povo Tibetano vive e a brutalidade que o governo chinês usa para os controlar, silenciar e oprimir. Para nós, alem de violento psicologicamente, tornou-se mais complicado porque acabou por se saber que Eu e a Clara fomos as duas únicas testemunhas do principio de tudo (no mosteiro de Drepung, onde estávamos no dia 10 de Marco, por acaso). Ficamos imediatamente controlados pela policia ao ponto de, a caminho para o Nepal, nos dizerem que estávamos presos no hotel. O nosso mail e telefone ficaram, também, imediatamente controlados e as nossas maquinas fotográficas bem inspeccionadas.
Vimos a maior violência policial que podem imaginar, sobre pessoas desarmadas. Não vimos ninguém morrer, mas sabemos que muitos dos monges com quem estivemos durante todo o dia 10, morreram depois, nesse mesmo dia.
A situação que se vive no Tibete é verdadeiramente séria e complicada e testemunhamos pessoalmente situações muito graves e violentas.
Durante estes últimos dias, na viagem de Lasa-Everest- Kathmandu, fomos completamente controlados pelos policias e militares chineses.
No Tibete, como no resto da China toda a informação e controlada e censurada. Por isso soo agora pude enviar este mail.
Peco-vos um grande favor, divulguem o que se está a passar no Tibete a todos os vossos contactos.
A constante violação dos direitos humanos pelas autoridades chinesas, a propaganda, e a manipulação de toda a informação, e algo de inacreditável para nós Portugueses do pós 25 de Abril.
Os Tibetanos, como um dos povos mais pacíficos, acolhedores e generosos que já conheci, merecem ser Livres e Felizes!!!
Volto a referir: por coincidência, estávamos no Mosteiro de Drepung, precisamente no local e hora a que tudo começou e assistimos pessoalmente à forma como os militares chineses trataram os monges que apenas queriam celebrar, pacifica e ordeiramente, o 10 de março - o mesmo dia em que no ano de 1959 os militares chineses assassinaram centenas de pessoas que se manifestavam pacificamente na praça principal de Lassa pela falta de liberdade de expressão e violação continua dos Direitos Humanos pelo governo chinês.
Devido aos cortes de energia, tenho muito pouco tempo e a ligação a net está também muito complicada. Mais tarde contarei mais pormenores,
Muito obrigado pela atenção e também pelos vossos mails e comentários no nosso blogue Histórias do Mundo.
Espero que esteja tudo bem com vocês. Nós estamos muito bem, ao contrario dos Amigos que deixamos no Tibete.
Grande Abraço e Beijos
Miguel

Texto de Reflexão

português e com alguns acréscimos do Viriato do texto que se encontra na ONG Nuclear Age Peace Foundation

quinta-feira, 18 de março de 2004

Baraka



Baraka (1992) é um filme documentário experimental, dirigido por Ron Fricke, cinematografista de Koyaanisqatsi, o primeiro da trilogia Qatsi, de Godfrey Reggio.
Baraka é uma viagem pelos seis continentes, com escala em 24 países: Argentina, Austrália, Brasil, Camboja, China, Equador, Egito, França, Hong Kong, Índia, Indonésia, Irão, Israel, Itália, Japão, Quénia, Kuwait , Nepal, Polónia, Arábia Saudita, Tanzânia, Tailândia, Turquia e EUA. 
Baraka retrata a harmonia e o caos do planeta, as religiões, as guerras, a pobreza e a ligação do Homem à Natureza.
Ver também
Baraka
Espírito de Baraka