domingo, 10 de maio de 2026

ICNF e APA: WWF, Zero, SPEA e Quercus questionam reestruturação anunciada pela ministra do Ambiente



As quatro organizações reagiram esta quinta-feira com preocupação ao anúncio feito pelo gabinete da ministra do Ambiente e Energia. Quercus pede reunião urgente com Maria da Graça Carvalho.

As mudanças planeadas para o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e para a Agência Portuguesa de Ambiente (APA), anunciadas esta semana pela ministra da tutela, Maria da Graça Carvalho, estão a ser vistas com apreensão por várias organizações ligadas à defesa do ambiente, que pedem para ser escutadas neste processo e receiam que a anunciada “simplificação profunda dos processos de licenciamento” enfraqueça ainda mais a conservação do património natural.

A WWF Portugal foi uma das primeiras a reagir, manifestando preocupação com os planos de reestruturação e exigindo que “qualquer processo de reforma reforce a capacidade técnica e operacional da APA e do ICNF, assegure qualidade técnica nas avaliações ambientais, garanta participação pública efectiva e transparente e mantenha elevados padrões de protecção da natureza e ordenamento do território”

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“O comunicado do Governo centra-se exclusivamente na linguagem da desburocratização e da facilitação do investimento, sem uma única menção à missão fundamental destas instituições: proteger o património natural de Portugal”, afirma a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), defendendo que “a eficiência administrativa não pode ser alcançada à custa do enfraquecimento dos mecanismos de proteção ambiental”.

A mesma opinião é partilhada pela ZERO, que aponta o dedo às reformas em cima da mesa, considerando-as “uma clara tentativa de fragilizar ainda mais as instituições que devem defender o bem comum, criando não só uma inaceitável pressão adicional sobre recursos técnicos que já estão há muito no limite das suas capacidades, mas também prejudicando a qualidade e o rigor das avaliações que serão efetuadas, o que poderá levar a decisões tecnicamente pouco ponderadas”.

A ONG questiona também se este processo de “debilitação” poderá ser agravado por “cortes nos orçamentos de funcionamento das instituições, situação que gerará a inoperacionalidade quase total dos serviços públicos”. E alerta para uma possível “tentativa de desestruturação da política pública de ambiente, em benefício de interesses que poderão não ser compatíveis com os instrumentos de gestão territorial ou com a conservação dos valores naturais protegidos”.

Também a Quercus exige cautela neste processo de reestruturação, admitindo que “a modernização, simplificação e automatização de processos é desejável”, mas desde que “não abra caminho ao eventual esvaziamento de competências e de autonomia destes organismos” nem comprometa a sua capacidade operacional e os meios necessários para fiscalizarem no terreno.

Fiscalizar antes ou no final?
Outra das medidas olhadas com preocupação, aliás, é a “simplificação profunda” dos processos de licenciamento, incluindo a passagem de um modelo de controlo prévio para a aposta na fiscalização a posteriori.

A Quercus teme que a simplificação anunciada tenha de facto como objetivo a criação de “um ‘livre-trânsito’ para atropelar os interesses e as regras ambientais”.

“A destruição de um habitat prioritário, a perturbação de espécies em época de nidificação ou a alteração irreversível de uma zona húmida não são danos que possam ser remediados com uma multa ou uma ordem de reposição”, acrescenta por seu lado a SPEA, que afirma que “enfraquecer os mecanismos de avaliação prévia não só agravaria a situação do património natural como exporia Portugal a sanções comunitárias acrescidas”.

“Proteger a natureza é proteger o futuro de Portugal e dos portugueses. As zonas húmidas que filtram a água que bebemos, as paisagens naturais saudáveis que nos protegem dos incêndios, os ecossistemas costeiros que defendem as comunidades piscatórias — tudo isto depende de instituições públicas capazes de fazer o seu trabalho. Quando se enfraquecem a APA e o ICNF, não é só a Natureza que fica desprotegida são só as aves que ficam desprotegidas: são as pessoas”, afirma Pedro Neto, diretor-executivo da SPEA.

Também a ZERO avisa para a necessidade de mais reflexão face a uma nova simplificação dos processos de licenciamento, depois das iniciativas do Governo socialista (Simplex) e do atual Executivo. “Não deixa de ser preocupante que se proponha mais simplificação sem uma efetiva avaliação de quais foram os resultados das medidas tomadas anteriormente. Não seria aconselhável avaliar o que já foi proposto antes de voltar a sugerir mais alterações?”, questionam.

Além do mais, acrescenta a mesma associação, “o discurso político parece querer passar a mensagem que o licenciamento não tem uma função ou dignidade próprias”. “Ele existe para garantir a equidade entre todos (todos devem ter de cumprir as mesmas obrigações) e garantir que o bem comum não seja usurpado ou prejudicado para interesse apenas de alguns. Nem todo o investimento contribui para o desenvolvimento sustentável do país, nem deve ser aprovado”, sustenta.

ONG de Ambiente querem ser ouvidas
A SPEA apela também à tomada de várias medidas da parte do Governo, incluindo que a missão de conservação da natureza seja assumida como “pilar central da reforma” e não como “o obstáculo a remover”, e lembra também a necessidade de reforço dos meios humanos, técnicos e financeiros do ICNF e da APA – “condição indispensável para que qualquer reforma produza resultados reais”.

Tanto a WWF, SPEA como a Quercus e a ZERO exigem que o processo de reestruturação envolva ouvir as organizações de conservação da natureza, mas também outras entidades como a comunidade científica, “garantindo que as decisões são informadas pelo melhor conhecimento disponível”.

A Quercus anunciou também que vai pedir uma reunião “com urgência” à ministra do Ambiente, “a fim de expôr as suas reservas, preocupações e obter todas as informações sobre esta reestruturação”. “Paralelamente, iremos solicitar uma audiência a todos os Grupos Parlamentares sobre este assunto no sentido de exigir a fiscalização necessária para garantir a defesa do Ambiente”, avisa esta ONG.

sábado, 9 de maio de 2026

Nick Drake - Pink Moon


Fez 3 álbuns e ninguém o ouviu em vida. Morreu de depressão aos 26 anos. No final dos anos 70, diversos músicos descobriram-no, como os vocalistas dos Cure e dos REM, que reconheceram a sua enorme influência na sua própria música. A Rolling Stone colocou-o entre os maiores guitarristas de sempre. Foi preciso a Volkwagen fazer um anúncio nos anos 80 com a magnífica Pink Moon, cujo piano seria adicionado depois, para dar a volta ao planeta. 
Às vezes cria-se cedo de mais, às vezes o mundo não está preparado para a mudança. E quase sempre basta alguém que nos ouça. Pena que ninguém o ouviu antes de tomar os comprimidos fatais, pois teríamos certamente um continuum de excelência musical. 
Se ainda não ouviu Pink Moon ou outra qualquer música de Nick Drake não sabe o que perde!

Nick Drake entrou num estúdio em Londres em outubro de 1971. Sem banda. Sem ensaios. Sem grandes planos. Apenas ele, a sua guitarra e onze canções que precisava libertar da sua mente.
Ele sentou-se. Colocou um microfone. E tocou.

O seu produtor, John Wood, assistiu chocado. Não era assim que se faziam os discos. Sem camadas. Sem cordas. Sem acompanhamento.
"É só isso?", perguntou Wood quando Nick parou. "Não quer acrescentar nada?"
"Não", respondeu Nick suavemente. "Este é o disco."

Pink Moon. Onze canções. Pouco mais de 28 minutos de duração. Apenas uma voz e uma guitarra, captadas em luz ténue.

Foi lançado em fevereiro de 1972. Nick tinha 24 anos. A sua editora, a Island Records, não sabia o que fazer com ele. Muito silencioso. Muito incomum. Muito pesado. Pressionaram um pequeno lote. Enviaram. Esperaram.

Quase ninguém o comprou.

Nick já tinha lançado dois álbuns antes de Pink Moon. Ambos belíssimos. Ambos ignorados. Five Leaves Left. Bryter Layter. Aclamados pela crítica. Sem vendas.

Quando Pink Moon chegou, a Island Records tinha perdido o interesse. Deixaram de promovê-lo. Deixaram de atender as chamadas.

Nick voltou a viver com os pais no interior de Inglaterra. Uma pequena aldeia chamada Tanworth-in-Arden. A sua depressão piorou. Sempre fora quieto, distante, desconfortável perto dos outros. Mas agora não conseguia funcionar. Não conseguia compor. Não conseguia tocar. Mal conseguia sair do quarto.

Os seus pais tentaram de tudo. Terapia. Remédios. Antidepressivos que atenuavam os sintomas, mas nunca aliviavam o peso. Os amigos afastaram-se. Os laços musicais desapareceram. A indústria seguiu em frente.

Nick Drake tornou-se invisível.

A 25 de novembro de 1974, a mãe foi acordá-lo. Não havia descido para o café da manhã. Ela encontrou-o na cama. Frio. Um frasco de comprimidos vazio na mesa de cabeceira. Nick Drake tinha 26 anos.
O médico legista não conseguiu determinar se foi intencional ou acidental. Um veredicto inconclusivo. Uma interrogação no fim de uma vida curta e tranquila.
O seu funeral foi pequeno. Família. Alguns amigos antigos. O seu produtor.

Nenhum músico. Sem representante da gravadora. Nenhum fã. Porque não havia fãs. Foi enterrado em um cemitério tranquilo. Uma lápide simples. Esquecido.
E esse deveria ter sido o fim.

Mas algo inesperado começou a acontecer. No final da década de 1970, os músicos começaram a encontrar os discos de Nick em alfarrabistas. Descobertas fortuitas em coleções de amigos. Eles ouviram Pink Moon. Five Leaves Left. Bryter Layter.
E ficaram impressionados.

Robert Smith, dos The Cure: "Mudou tudo para mim".
Peter Buck, dos R.E.M.: "Nick Drake moldou a nossa abordagem à música." Os Smiths. Radiohead. Belle and Sebastian. Bon Iver. Todos o citaram como influência.
A notícia espalhou-se discretamente. De músico para músico. De artista para artista.
Na década de 1980, Nick já tinha um público fiel. Na década de 1990, os seus álbuns vendiam-se com constância.
Depois, em 1999, a Volkswagen usou "Pink Moon" num anúncio publicitário. Trinta segundos. Um carro a deslizar sob a luz do luar.

A música explodiu. De repente, todos perguntavam: Quem é Nick Drake?

Pink Moon subiu nas tabelas. Vinte e sete anos após o lançamento. O álbum que mal vendeu enquanto estava vivo tornou-se um fenómeno após a sua morte. Hoje, os álbuns de Nick Drake venderam milhões de cópias em todo o mundo.

A Rolling Stone classifica-o entre os maiores guitarristas de todos os tempos. A TIME considera-o um dos artistas mais influentes do século XX.

O seu túmulo em Tanworth-in-Arden está coberto de flores. Fãs de todo o mundo visitam-no. Deixam palhetas. Bilhetes. Agradecimentos silenciosos.
Os festivais anuais homenageiam a sua música. Espetáculos tributo. Exposições. Documentários.

Tudo o que nunca experimentou na vida. Eis o que torna esta história dolorosa. Nick não precisava de fama. Não queria ser uma estrela. Ele só queria que a sua música tivesse importância. Que chegasse às pessoas. Que significasse algo.

Quando Pink Moon foi lançado, apenas alguns milhares de pessoas o compraram.Nick viu isso como um fracasso. Mas entre esses poucos milhares estavam as pessoas certas. Músicos que moldariam milhões. Artistas que definiriam décadas.

Robert Smith ouviu-o. Mudou o som dos The Cure. Os The Cure influenciaram uma geração.
Peter Buck ouviu-o. Mudou o rumo do R.E.M. O R.E.M. inspirou inúmeras bandas.

O pequeno público de Nick tornou-se multiplicador. É assim que funciona a influência. Não através da fama instantânea. Através das almas certas que o ouvem no momento certo.

O Nick nunca soube disso. Morreu pensando que havia fracassado. Pensando que a sua música não tinha importância. Mas ele tinha criado algo intemporal.

A sua mãe, Molly, viveu o suficiente para testemunhar parte do seu renascimento antes de falecer em 1993. Ela disse: "O Nick só queria fazer música bonita. Ele teria ficado feliz por as pessoas finalmente o ouvirem".

Hoje, as novas gerações descobrem Nick Drake todos os anos. A Pink Moon ainda vende. Ainda ressoa. Ainda transforma vidas. Se o Nick pudesse ter visto isto. Se pudesse ter sabido que a sua música lhe sobreviveria durante décadas. Que não era um fracasso. Que ele importava.Talvez ele ainda estivesse aqui.

Essa é a tragédia. Não que tenha morrido desconhecido. Mas que tenha morrido sem nunca saber a verdade:
As suas canções tranquilas ecoariam mais alto do que ele alguma vez imaginou.

Primeiros americanos: descoberta no Novo México recua povoamento em 23.000 anos


Durante décadas, os livros escolares afirmaram que os primeiros americanos chegaram há cerca de 13.000 anos. Contudo, pegadas fossilizadas descobertas no Parque Nacional de White Sands, no Novo México (EUA), acabam de deitar por terra essa cronologia. Os vestígios mais antigos têm quase 23.000 anos - e narram uma história de tirar o fôlego.

Cientistas utilizaram a datação por radiocarbono em sementes incrustadas nas pegadas para confirmar a sua idade milenar. Um dos trilhos mostra uma mulher, ou uma adolescente, a carregar uma criança ao colo, caminhando apressadamente sobre o leito lamacento de um antigo lago. Ela escorregou. Cansou-se. Pousou a criança por um momento. E depois continuou a avançar. 

Ao seu redor: lobos-terríveis (Aenocyon dirus) e tigres-dentes-de-sabre. Aquilo não era um passeio; era sobrevivência.

As pegadas estão tão bem preservadas que é possível distinguir os dedos dos pés da criança, a passada da mulher e até o local onde ela fez uma pausa. "Se alguma vez teve de correr para algum lugar importante enquanto carregava uma criança cansada, sentiu uma emoção muito semelhante", afirmou um dos investigadores. [toda a história aqui]

Naquele período, o continente atravessava o Último Máximo Glacial, uma fase marcada por um clima mais frio e pela presença de grandes carnívoros.

Esta descoberta no sul dos Estados Unidos reescreve, por completo, a história da presença humana na América do Norte.

Carta aberta ao Ministério do Ambiente e Energia contesta plano de gestão da ZEC Alvito/Cuba por ausência de espécie-alvo


Uma carta aberta subscrita pela Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural e pela CPADA – Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente contesta a proposta de Plano de Gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) Alvito/Cuba, acusando o documento de se basear na conservação da espécie Linaria ricardoi apesar de não existirem registos recentes da sua presença confirmada na área, segundo dados de prospeções realizadas entre 2019 e 2025.

Segundo a mesma fonte, a credibilidade da Rede Natura 2000 “assenta na eficácia em conservar valores naturais que ocorrem nas áreas classificadas para esse propósito, de forma significativa e comprovada. É por isso que constitui um dos pilares centrais da política europeia de conservação da biodiversidade”.

A proposta de Plano de Gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) Alvito/Cuba (PTCON0035), elaborada pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, que esteve em consulta pública entre os dias 2 e 30 de abril, foi criada com o objetivo exclusivo de conservação da planta endémica e prioritária Linaria ricardoi, espécie que consta do Anexo II da Diretiva Habitats da União Europeia. Contudo, “já não existe qualquer população confirmada de Linaria ricardoi dentro dos atuais limites da ZEC Alvito/Cuba, de acordo com os resultados das prospeções realizadas entre 2019 e 2020 pelo próprio ICNF, nem nas de 2025 ao encargo da SPB – Sociedade Portuguesa de Botânica”, alerta a nota.

A carta explica que o objetivo de conservação desta espécie, que se restringe ao Baixo Alentejo, deu origem ao Sítio Alvito/Cuba, incluído na Lista Nacional de Sítios, em 2000, tendo passado mais de duas décadas desde a classificação. Desde que passou de Sítio a Zona Especial de Conservação, esteve mais seis anos sem qualquer plano de gestão. O resultado é claro: “a extinção da espécie está em processo, o seu estatuto de ameaça tem-se elevado e a estratégia seguida falhou em travar essa tendência”.

No entanto, lê-se ainda, os próprios documentos oficiais do Estado português – incluindo o Relatório para a Conclusão do Processo de Designação da ZEC e o Plano de Gestão agora proposto – apresentam medidas “claramente incoerentes e desfasadas da realidade”:

O Plano de Gestão proposto insiste em propor metas como “aumentar o número de quadrículas ocupadas” ou “aumentar a densidade populacional” em ambas as parcelas classificadas como ZEC, aplicadas a um território onde a planta simplesmente não ocorre.

Uma ZEC que falha os critérios da Diretiva Habitats
De acordo com a Diretiva 92/43/CEE, a designação de Zonas Especiais de Conservação deve basear‑se, entre outros critérios, na existência real de populações das espécies que se pretendem conservar e na adequação ecológica do sítio para assegurar a sua sobrevivência a longo prazo.

Manter uma ZEC delimitada numa área onde:
  1. A espécie já não ocorre;
  2. Os solos não correspondem aos seus requisitos ecológicos;
  3. E as práticas agrícolas intensivas e super-intensivas dominantes são incompatíveis com o seu ciclo de vida, “representa um desvio claro dos objetivos da Diretiva Habitats e enfraquece a coerência da Rede Natura 2000”.
Atualmente, o Plano de Gestão em causa propõe manter os limites atuais da área e estender esta estratégia com vigência de dez anos, com base na escassa “possibilidade de persistência de um banco de sementes no solo”, enquanto há evidência científica de que a manutenção de um banco de sementes em olivais intensivos é improvável devido à modificação das condições ecológicas. Existem áreas alternativas, bem documentadas, onde a espécie ocorre com sucesso reprodutivo em vários municípios.

“Conservar mal é também perder tempo e colocar em causa a efetiva proteção da espécie”, sublinham as organizações.

E acrescentam: “persistir na implementação de um plano de gestão desajustado significa, na prática:
1 – Desviar recursos públicos para um território que não responde às necessidades da espécie;
2 – Impor condicionamentos territoriais a populações locais sem benefício ecológico comprovado;
3 – Adiar, mais uma vez, a proteção efetiva dos núcleos populacionais que garantem a sobrevivência de Linaria ricardoi”.

Um apelo à coerência, à ciência e à coragem institucional
A conservação da natureza “exige decisões difíceis, mas baseadas na evidência. Hoje, a própria documentação oficial reconhece que existe um desajuste entre a Rede Natura 2000 e as áreas de maior abundância de Linaria ricardoi”, alertam.

Perante este reconhecimento, “é incompreensível insistir na aprovação de um Plano de Gestão que perpetua esse erro”.

Defendem, por isso, que:
  • A atual proposta de Plano de Gestão da ZEC Alvito/Cuba não deve ser aprovada nos termos em que se encontra elaborada;
  • O processo deve ser reformulado com base na redefinição dos limites da ZEC para áreas onde a espécie efetivamente ocorre e onde existem núcleos populacionais que asseguram a diversidade genética nacional;
  • As entidades associadas e responsáveis pelo Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva, como a EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva, S.A., melhorem os efeitos das medidas estipuladas nas Declarações de Impacte Ambiental e nos Relatórios de Conformidade Ambiental (uma vez que falharam em impedir a extinção ou o processo de extinção em cerca de 87 núcleos de L. ricardoi, por destruição direta do seu habitat, num período de 20 anos).
“Proteger uma espécie ameaçada faz‑se onde ela existe, onde pode sobreviver e onde as medidas de conservação fazem sentido, em estreita colaboração com a população”, sublinham.

E concluem: “conservar a natureza exige rigor, mas também humildade para corrigir decisões passadas e atualmente erradas. Neste caso, essa correção é não apenas possível, mas urgente”.

Esta carta aberta é subscrita pela Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural e pela CPADA – Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente, a maior organização ambientalista do país, integrando cerca de 100 associações de defesa do ambiente ou organizações não governamentais de ambiente, de âmbitos nacional, regional e local, quer no Continente, quer nas Regiões Autónomas.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Churra da Terra Quente - A Aliança Antiga

Fonte

As ovelhas da raça Churra da Terra Quente atuam como bombeiras naturais ao consumirem a erva seca e os arbustos que, habitualmente, servem de combustível aos incêndios de verão nas montanhas da Terra Quente Transmontana e do Douro Superior. Este processo, conhecido como pastoreio dirigido, cria aceiros naturais em zonas declivosas ou rochosas onde a limpeza mecânica é impossível. Além de reduzirem a carga de combustível, estes rebanhos promovem a biodiversidade ao impedirem que o mato agressivo sufoque espécies vegetais de menor porte. Também regeneram o solo através da fertilização natural e da dispersão de sementes à medida que se deslocam pela paisagem. Ao manterem estes espaços abertos, as ovelhas representam uma alternativa sustentável e neutra em carbono face à utilização de maquinaria pesada. Esta prática tradicional não só protege a floresta, como também sustenta a economia rural, prestando um serviço ecológico vital para a região.

Foto de Carlos Aguiar

A Aliança Antiga
"Guardiãs das profundezas de esmeralda,
os seus passos suaves são uma canção silenciosa
sobre a terra.

Através do sol e da chuva, elas tecem
a tapeçaria do prado vivo,
uma dança harmoniosa de casco e erva.

Nesta aliança antiga, que possamos honrar
o seu fôlego, a sua lã, a sua natureza selvagem,
deixando-as pastar sob o céu vasto,
arquitetas eternas de um amanhã sustentável."
— João Soares, 08-05-2026

Fonte

A raça Churra da Terra Quente tem as suas origens genéticas no final do século XIX, mas apenas foi oficialmente reconhecida e caraterizada como raça independente em 1987

David Attenborough faz 100 anos: O maior aliado da Natureza ainda tem fé no Homem


Sir David Attenborough celebra esta sext-feira o 100.º aniversário e dispensa apresentações. A paixão e o entusiasmo com que deu a conhecer, ao longo das últimas sete décadas, o complexo e mágico mundo selvagem educou, entreteve e inspirou milhões de pessoas em todo o Mundo. Antes de alertar para questões ecológicas, ele ensinou-nos a amar cada espécie, mesmo as mais estranhas e perigosas.

David Frederick Attenborough nasceu a 8 de maio de 1926 em Isleworth, Londres, mas passou a infância em Leicester. Fascinado por fósseis, estudou Geologia e Zoologia. Em 1952 tornou-se estagiário na BBC e dois anos depois apresentava ‘Zoo Quest’ - apesar de acharem que os seus dentes eram “demasiado grandes” -, que combinava cenas de estúdio com imagens reais da vida selvagem, algo inédito até então. Imerso nos ambientes que visita, foi pioneiro em técnicas de filmagem e nunca hesitou em ultrapassar os limites para captar a essência dos 94 países que explorou, o que lhe permitiu viver experiências marcantes com alguns dos animais mais raros do planeta, como os gorilas da montanha no Ruanda. Na sua vida, apenas se arrepende de não ter sido um pai mais presente para Susan e Robert, frutos da sua relação com Jane Oriel, com quem casou em 1950. Esta viria a morrer em 1997, quando o britânico estava a filmar ‘The Life of Birds’, na Nova Zelândia. “Em momentos de luto - luto profundo - o único consolo que podemos encontrar é no mundo natural.”

Atualmente, Attenborough reduziu o ritmo das viagens, mas continua a trabalhar em estúdio: “No dia em que deixar de conseguir subir e descer as escadas é o dia em que paro.” O seu foco é agora na conservação do mundo natural: “É a maior fonte de tanta coisa na vida que a torna digna de ser vivida. Talvez um dia possa ser visto como alguém que documentou o início de uma nova relação entre a humanidade e a natureza.”

O centenário do naturalista é hoje assinalado com um evento no Royal Albert Hall, em Londres, e com o lançamento do documentário ‘Life on Earth: Attenborough’s Greatest Adventure’, da BBC.

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A evolução pode ser limitada por uma lei universal da temperatura


Todos os seres vivos, desde as bactérias, passando pelas algas e árvores, até aos elefantes e baleias, parecem ter um limite de temperatura em que o seu organismo pode viver. Isso é óbvio para os animais de "sangue quente", ou seja, os mamíferos e aves, que têm termorregulação e já estão no seu óptimo de temperatura, mas para todos os outros que dependem da temperatura ambiente, cujo limite, quando ultrapassado, causa stress nos seus organismos e podem extinguir populações inteiras.
Os cientistas descobriram um único padrão que parece governar como toda a vida responde à temperatura.
Numa análise maciça de mais de 30.000 medições em cerca de 2.700 espécies, pesquisadores descobriram que organismos de micróbios a mamíferos seguem todos a mesma regra subjacente - conhecida como Curva de Desempenho Térmico Universal.
O padrão é surpreendentemente simples.
À medida que a temperatura aumenta, a atividade biológica acelera - as células dividem-se mais rapidamente, os animais movem-se mais rapidamente, os ecossistemas tornam-se mais produtivos. Mas só até certo ponto. Então tudo muda.
Uma vez que um organismo atinge a sua temperatura ótima, mesmo um pequeno aumento pode causar a queda do desempenho rapidamente. O crescimento abranda, os sistemas falham e a sobrevivência torna-se mais difícil.
Este padrão de ascensão e queda forma uma curva universal - uma que parece aplicar-se em quase todas as formas de vida.
O que é impressionante é que organismos muito diferentes - desde bactérias e plantas a peixes, aves e mamíferos - podem ser mapeados nesta mesma forma quando os seus dados são ajustados corretamente.
Os cientistas há muito que estudam estas "curvas de desempenho térmico", mas esta pesquisa sugere que são todas variações de um único modelo partilhado.
Isso não substitui a evolução - mas revela um limite.
A evolução pode mudar onde uma espécie se senta na curva, ajudando-a a adaptar-se a diferentes temperaturas. Mas pode não ser capaz de escapar completamente da curva.
E isso tem sérias implicações.
Muitas espécies, especialmente em climas estáveis como os trópicos, já vivem perto da temperatura máxima. Isso significa que mesmo um pequeno aumento - apenas alguns graus Celsius - poderia levá-los para além do seu limite.
Pesquisadores dizem que este modelo pode ajudar a prever quais espécies estão mais em risco à medida que o planeta aquece.
Leia os estudos:

quinta-feira, 7 de maio de 2026

The Geometry of Peace: A Tribute to Susumu Yokota (1960-2015)


To listen to "Cherry Blossom" is to witness a digital sunrise over an ancient forest. It is not merely a song, but a living ecosystem of sound that bridges the gap between the pulse of the machine and the rhythm of the of the heart.

An Ecological Resonance
This track breathes. It captures the essence of ecological interconnectedness, where the repetitive, hypnotic loops mimic the cycles of the seasons. It suggests that our technology is not an enemy of nature, but a mirror of it—a "botanic electronica" where every synthesizer swell feels like a petal unfurling in slow motion. It reminds us that we are not separate from the Earth; we are the Earth processing beauty through frequency and light.

The Human Tapestry
In its ethereal textures, there is a profound human connection. Yokota weaves an invisible thread of silk that connects every listener across time and space. To be moved by this music is to participate in a collective meditation. It strips away the ego, leaving only a shared sense of wonder. It is a universal language that speaks of our common fragility and our capacity for grace.

An Act of Active Pacifism
Above all, this music is a manifesto of active pacifism. In a world defined by noise, aggression, and the sharpness of conflict, choosing to dwell in this sonic landscape is a radical act of resistance.
It is a unilateral disarmament of the soul.
It replaces the "iron and fire" of modern discord with a "transparency of spirit."
By refusing to be loud or violent, it achieves a strength that no weapon possesses.

To carry this melody within you is to walk through the world with an open heart, proving that softness is not weakness, but the ultimate form of resilience. It is a quiet revolution that begins in the ear and ends in a more peaceful way of being.


Yokota was at the forefront of Japan's electronic music scene as it blossomed in the early '90s. His vast and exceptional body of work found him fans from far beyond the realms of the dance community, with Bjork, Phillip Glass, and Radiohead's Thom Yorke just a few names from his long list of admirers. His music found homes on revered labels such as Harthouse, Sublime Records, Reel Musiq, Leaf, and his own Skintone imprint, and his music saw him invited to perform DJ sets at the world's best-loved dance venues. He was the first Japanese artist to play at Berlin's Love Parade, and – alongside Ken Ishii – represented Asia magnificently during dance music's halcyon days through the late '90s and early '00s. His sound veered from techno to acid, ambient to house, breaks to drum & bass, and he recorded under innumerable aliases – including Stevia, Ebi, Prism, Ringo, Yin & Yan, Anima Mundi.

Though he died tragically in 2015, his incredible back catalogue continues to shine brightly, and it's of little surprise that labels are opting to re-issue the best of his music. Earlier in 2021, UK label Cosmic Soup presented a collection of house and techno sounds Yokota recorded under the secret alias 246, and now it's the turn of his ambient-leaning 'Symbol' to enjoy another jaunt under the spotlight. Previously released on British imprint Lo-Recordings, the blissfully horizontal album is formed around a core of samples borrowed from classical music – manipulated and repurposed alongside Yokota's masterful programming.

Borrowing passages and snippets from classical masters including Debussy, Tchaikovsky, and Ravel, he expertly lifts the emotion behind the original music while uniquely reimagine the music. From the soothing strings of opening track 'Long Long Silk Bridge' to the mesmerising chants of 'Symbol', the album overflows with imagination and spellbinding beauty. Yokota was a true master of electronic music composition, and 'Symbol' is among his most playfully seductive albums. Penetrable but profound, its re-issue represents a wonderful opportunity for new audiences to marvel at his studio prowess.

Portugal esgotou hoje recursos que natureza lhe destinava para o ano inteiro, dois dias mais tarde do que no ano passado


Portugal esgota hoje os recursos naturais que tinha disponíveis para este ano, dois dias mais tarde do que no ano passado, passando a consumir "a crédito", indicam dados da organização internacional "Global Footprint Network".

O dia da sobrecarga, explica a organização, indica que de 01 de janeiro a 07 de maio os portugueses consumiram tantos recursos naturais quantos os diversos ecossistemas da Terra conseguem regenerar ao longo de um ano. A partir de agora os portugueses continuam naturalmente a consumir, mas usam mais recursos, em terra ou no mar, do que teoricamente estariam disponíveis, e emitem mais dióxido de carbono do que a natureza pode absorver.

No ano passado o dia em que o país esgotou os recursos foi a 5 de maio, o que quer dizer que melhorou ligeiramente em sustentabilidade.

A estabilização no consumo de recursos do planeta é notada pela associação ambientalista Zero, que, num comunicado no qual comenta a pegada ecológica do país, refere a ligeira melhoria, comparando com o ano anterior.

Mas ainda assim o país começa a exceder os recursos disponíveis para alimentar o estilo de vida dos portugueses decorridos menos de cinco meses do ano. Tal quer dizer que se cada pessoa na Terra vivesse como uma pessoa média portuguesa, a humanidade exigiria cerca de 2,9 planetas para sustentar as suas necessidades de recursos.

O resultado coloca Portugal na média da União Europeia (UE), que este ano teve o dia de sobrecarga em 03 de maio, uma ligeira melhoria também em relação ao ano passado.

Na UE há países que esgotaram há muito os recursos que tinham para o ano todo. Nas contas da "Global Footprint Network" o consumo do Luxemburgo esgotou os recursos logo no dia 17 de fevereiro.

A nível mundial o pior classificado é o Catar, que esgotou a sua parte a 04 de fevereiro. Do outro lado da tabela estão as Honduras, que só têm o dia de sobrecarga a 27 de novembro.

A pegada ecológica avalia as necessidades humanas de recursos renováveis e serviços essenciais e compara-as com a capacidade da Terra para fornecer tais recursos e serviços (biocapacidade).

A 05 de junho, Dia Mundial do Ambiente, a "Global Footprint Network" anuncia o "Earth Overshoot Day" de 2026, o momento em que a necessidade de recursos e serviços ambientais por parte da Humanidade excede a capacidade da Terra para regenerar esses mesmos recursos.

Em 2025 a humanidade esgotou os recursos desse ano no dia 24 de julho, uma semana mais cedo do que em 2024, 01 de agosto.

Shell reportou lucros avultados ($ 7 biliões) após a subida dos preços do petróleo provocada pela guerra entre os EUA - Israel contra o Irão.


Shell has become the latest energy giant to report a jump in profits following the sharp increase in oil prices since the beginning of the Iran war.

It reported profits of $6.92bn (£5.1bn) for the first three months of the year, which was higher than analysts had expected and up from $5.58bn in the same period a year earlier.

The price of oil has soared since the start of the US-Israel war with Iran as the key Strait of Hormuz, which usually carries about 20% of the global supplies of oil and liquid natural gas (LNG), has been effectively closed.

Last week, rival oil giant BP said its profits for the first three months of the year had more than doubled.

Other oil firms have also reported bumper results. On Wednesday, Norway's Equinor said profits in the first three months of the year had hit $9.77bn, its highest quarterly profit for three years.

Traders profit
Shell chief executive Wael Sawan said: "Shell delivered strong results enabled by our relentless focus on operational performance in a quarter marked by unprecedented disruption in global energy markets.

"The safety of our people remains our priority as we work closely with governments and customers to address their energy needs."

Like BP, one of the factors behind Shell's profits rise was better results from its oil trading business.

Before the conflict began, the price of Brent crude, the global benchmark for oil prices, was around $73 a barrel.

Since then, oil has seen sharp swings - peaking above $120 at one point, but also falling below $100 on other occasions as speculation has swirled over when the Strait of Hormuz will reopen.

The big movements in the oil price that have been seen since the Iran war began can widen the gap between buying and selling prices. This typically enables traders to make bigger profits.

Shell's profits were also boosted by higher margins at its refining business, which turns crude oil into finished products such as petrol and jet fuel.

However, the company said its oil and gas output had fallen by 4% compared with the final three months of last year due to the conflict.

Shell's LNG production in Qatar has been shut down since early March because of the conflict, and its Pearl GTL site in Qatar has been damaged by attacks.

Last week, Shell announced it was buying Canadian shale producer ARC Resources for $16.4bn, which Sawan said would "deliver value for decades to come".


Call to strengthen windfall tax
The surge in profits being reported by energy firms has led to criticism from environmental groups.

Danny Gross, climate campaigner at Friends of the Earth, said: "Once again, fossil fuel giants are pocketing monstrous profits while drivers are being squeezed at the petrol pump and households are set to pay higher energy bills.

"The answer is clear: strengthen the windfall tax on these indefensible profits and break our dependence on fossil fuels by powering our economy with homegrown renewables."What is the windfall tax?

Energy firms operating in the UK are subject to a windfall tax, called the Energy Profits Levy, that was introduced in 2022 as a response to soaring profits following Russia's full-scale invasion of Ukraine. Labour extended the life of the tax to March 2030.

However, the levy only applies to profits made from extracting oil and gas in the UK, whereas the bulk of energy giants' earnings are made overseas. The UK accounts for less than 5% of Shell's global oil and gas production.

Gas and electricity bills for most households in Britain are protected for the moment by the energy price cap.

Until 30 June, the typical annual bill for dual-fuel households who pay by direct debit will be £1,641.

However, the jump in wholesale oil and gas prices since the Iran war began means the cap is currently estimated to rise by about £200 when it is revised in July.

Shipping giant passing on costs

Meanwhile, the chief executive of Danish shipping giant Maersk told the BBC it was passing on rising costs due to the war to its customers.

Vincent Clerc said the sharp rise in energy prices was adding half a billion dollars of extra costs per month to the business.

"What is really important is actually to pass on these cost increases to our customers as much as possible, so that we can protect our margin and the operations' integrity going forward," he said.

He added there was uncertainty over whether this would eventually lead to inflation and lower demand.

Maersk's latest earnings show operating profits slightly above analysts' forecasts, although that was mostly for the period just before the Iran war started.

On Monday, Maersk said its US-flagged vessel, the Alliance Fairfax, which had been stranded in the Gulf since the end of February, had managed to exit the Strait of Hormuz accompanied by US military assets.

Clerc said Tehran's ambition for control of the Strait and eventual toll charges would be a significant change for the industry, "similar to the canals in Suez and in Panama, where we also pay to go through".

But he said at this stage any toll charges on the Strait of Hormuz were "very, very speculative" and it would have to reopen first.

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Já ouviu falar do Síndrome da Referência Móvel - Shifting Baseline Syndrome?



Do you suffer from Shifting Baseline Syndrome (SBS)? Well, the answer is that everyone probably does. While SBS is not an actual medical condition, it has been gaining traction across environmental disciplines, as well as featuring in modern environmental literature, as seen in Isabella Tree’s Wilding: The Return of Nature to a British Farm and George Monbiot’s Feral.

What is Shifting Baseline Syndrome?

Coined by Daniel Pauly in 1995, while speaking of increasing tolerance to fish stock declines over generations, SBS also has roots in psychology, where it is referred to as ‘environmental generational amnesia’. Simply put, Shifting Baseline Syndrome is ‘a gradual change in the accepted norms for the condition of the natural environment due to a lack of experience, memory and/or knowledge of its past condition’. In this sense, what we consider to be a healthy environment now, past generations would consider to be degraded, and what we judge to be degraded now, the next generation will consider to be healthy or ‘normal’. As Soga and Gaston (2018) argue, without memory, knowledge, or experience of past environmental conditions, current generations cannot perceive how much their environment has changed because they are comparing it to their own ‘normal’ baseline and not to historical baselines.

Evidence for Shifting Baseline Syndrome in Conservation
While Shifting Baseline Syndrome is acknowledged by environmental scientists, particularly by conservationists, there is little research to support its existence that is beyond anecdotal, yet this evidence occurs globally; for example, in Eastern Indonesia, where biodiversity has declined rapidly over 30 years, younger fishers were found to recall a lower abundance of wildlife in the past, meaning they were perceiving less of a decline in the wildlife population, compared to older fishers. Similarly, in the Bolivian Amazonia, it was found that younger generations perceived the number of locally-extinct tree and fish species as lower compared to older generations. Again, a study in the Seward Peninsula in Alaska, USA, an area that is facing rapid hydrological environmental change as a result of climate change, found that younger people were less aware of changes in the quality and availability of five local water resources. While these studies are not directly about SBS, they have each recorded a difference in how older and younger generations perceive environmental change locally, which draws back to Soga and Gaston’s framework, which emphasises the importance of differences in memory, knowledge, and experience.

Despite the lack of empirical evidence, Shifting Baseline Syndrome is being given attention, perhaps because it has implications for individuals and environmental policy in fighting against climate change.

On an individual level, SBS has increased our tolerance to environmental degradation, including wildlife population decline, increased pollution and loss of natural habitats. This is because people will evaluate the severity of environmental degradation by referencing it back to their own cognitive baseline. In the UK, George Monbiot summarises the state of conservation, saying, “conservation in this country has become indistinguishable from destruction because what we’re conserving is an ecocidal system of sheep ranching. Sheep eat everything, and as a result, there’s no birds, no insects. We’ve lost almost everything, and yet we regard that as normal and natural.” In the UK people are actively conserving ecologically desolate ecosystems as they have no reference to past British wilderness.

At a societal level, this unawareness of past environmental conditions or current rates of degradation has implications for policymakers. For example, in the UK, the Environment Act of 1995 (the original legislation for National Parks was introduced in 1949) revised the legislation stating the statutory purpose for National Parks. Their main goal is to ‘conserve and enhance the natural beauty, wildlife and cultural heritage’. Those who introduced this legislation originally had a perception of ‘natural beauty, wildlife, and cultural heritage’, and so current National Park conservation practise is driven by a static perception, despite itself studying a subject of constant dynamism. When National Parks were originally established they were characterised by traditional agriculture. While this may seem insignificant the inclusion of ‘cultural heritage’ protects agriculture as part of the landscape, despite its environmental impact. Therefore the conservation approach in these areas can be described as unambitious as they maintain what is simply there or set targets that are not inclusive of historical data and trends. However, people are satisfied because the landscape looks the same as when the legislation was introduced.

Thus, our conservation and policy efforts are becoming less effective with each generation, while we become more satisfied with our diminishing actions because our targets are weaker in terms of biodiversity and habitat heterogeneity. The result is a feedback loop, where every generation’s increasing tolerance for environmental decline results in insufficient conservation efforts that inevitably cannot forestall degradation which next generations will tolerate because they have no preconception of the state of the environment.

Despite the ‘doom and gloom’, Soga and Gaston have designed theoretical response frameworks that could help mitigate the effects of SBS. They argue that solutions to minimise the impact of SBS lie in environmental restoration, increased data collection, reducing the ‘extinction of experience’ (the decline of people interacting with nature) and education.

Environmental restoration, mainly in the form of rewilding, will be able to demonstrate historical baselines to those who are potentially affected by SBS. Data collection will help to better inform current and future generations how the environment is changing and has changed from past conditions. Soga and Gaston suggest that citizen science could play a huge role in creating ‘large-scale, long-term data sets’ as well as increasing people’s interactions with nature to reduce this extinction of experience. In addition to this, reducing the extinction of experience through the promotion of positive experiences with nature will help to increase interaction with the environment. Finally, education will help individuals to better assess the state of the environment and to accurately communicate its past and present condition.

Thus, even while we wait for the scientific study of Shifting Baseline Syndrome to begin, the acknowledgement of this concept in environmental science means that leaders in the field could take steps to help mitigate its potential effects. Soga and Gatson’s solutions, specifically rewilding and education, could increase people’s interactions with nature and promote the importance of effective conservation.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Diplomata do Mundo: O Papel de Ted Turner no Degelo da Guerra Fria

A influência de Ted Turner no fim da Guerra Fria é um exemplo notável de como o "soft power" e a convicção pessoal podem contornar os canais governamentais tradicionais para alterar o curso da história. Enquanto os diplomatas se mantinham bloqueados em batalhas ideológicas rígidas, Turner atuou como um "diplomata cidadão", alavancando o seu império mediático e a sua fortuna pessoal para perfurar a Cortina de Ferro e humanizar o "inimigo".
Uma das suas contribuições mais significativas foi a criação dos Goodwill Games (Jogos da Boa Vontade) em 1986. Após os boicotes sucessivos aos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, e de Los Angeles, em 1984, o intercâmbio atlético e cultural entre as superpotências tinha estagnado completamente. Turner financiou pessoalmente os jogos em Moscovo para reunir atletas americanos e soviéticos, perdendo milhões de dólares no processo, mas alcançando o seu objetivo de provar que a interação pacífica era possível.
Simultaneamente, Turner transformou a comunicação global através da CNN. Ao criar o primeiro ciclo de notícias globais de 24 horas, estabeleceu, de forma não intencional, uma ponte para a diplomacia em tempo real. Os líderes na Casa Branca e no Kremlin podiam subitamente ver os acontecimentos desenrolarem-se no país do outro sem o atraso dos relatórios de inteligência, e Turner utilizou a sua plataforma para transmitir entrevistas com oficiais soviéticos que desafiavam a narrativa simplista do "Império do Mal" frequentemente vista nos meios de comunicação ocidentais.
Esta era testemunhou também o desenvolvimento de uma amizade genuína entre Turner e Mikhail Gorbachev. Turner tornou-se um apoiante assumido das reformas de Gorbachev, a Glasnost e a Perestroika, ajudando a enquadrar estas mudanças como uma oportunidade para a paz e não como um engano tático. A relação entre ambos foi tão profunda que, mais tarde, associaram-se para formar a Green Cross International, unindo as causas da paz e do ambientalismo.
Em última análise, o ativismo de Turner foi movido por um medo visceral da aniquilação nuclear.
Turner defendeu incansavelmente a redução dos arsenais nucleares, argumentando que a verdadeira segurança não vinha da "Destruição Mútua Assegurada", mas da cooperação. Este ativismo culminou mais tarde na criação da Ele defendeu incansavelmente a redução dos arsenais nucleares, argumentando que a verdadeira segurança não vinha da "Destruição Mútua Assegurada", mas da cooperação. Este ativismo culminou mais tarde na criação da Nuclear Threat Initiative (NTI), que trabalha para reduzir os riscos de armas de destruição maciça.
Ele encarava a Guerra Fria não apenas como uma luta política, mas como uma ameaça existencial para o planeta. Ao defender o desarmamento nuclear e ao fomentar a compreensão mútua através do desporto e dos media, ajudou a criar a atmosfera psicológica necessária para que o conflito terminasse sem que um único tiro fosse disparado entre as duas superpotências. O seu legado permanece como um testemunho da ideia de que a segurança global é melhor alcançada através do diálogo e da humanidade partilhada.

O legado ambiental de Ted Turner


Ted Turner é frequentemente recordado como o magnata da comunicação que fundou a CNN, mas o seu impacto mais duradouro reside na escala colossal da sua filantropia e conservação ambiental. Ele não se limitou a doar dinheiro; transformou a forma como os grandes detentores de capital (bilionários) encaram a responsabilidade ecológica, integrando a preservação da natureza na gestão de grandes ativos.
Um dos pilares centrais do seu legado foi a histórica promessa, em 1997, de doar mil milhões de dólares para criar a Fundação das Nações Unidas. Esta iniciativa foi pioneira ao direcionar recursos privados para causas globais, com um foco acentuado na mitigação das alterações climáticas, na promoção de energias limpas e na proteção da biodiversidade, forçando a filantropia internacional a pensar de forma sistémica e transfronteiriça.
No terreno, Turner utilizou a sua vasta propriedade de terras — chegou a ser o maior latifundiário privado dos Estados Unidos — para implementar o que designou como "capitalismo sustentável". O exemplo mais emblemático deste esforço é a recuperação do bisão americano. Através das suas herdades, Turner geriu o maior rebanho privado do mundo, retirando a espécie do limiar da extinção e restaurando o equilíbrio ecológico das Grandes Planícies. Através do Turner Endangered Species Fund, financiou também a reintrodução de predadores e espécies nativas, provando que a exploração económica da terra pode coexistir com a conservação rigorosa.
Além da ação direta, Turner compreendeu o poder da narrativa. Ao co-criar a série de animação Capitão Planeta, educou uma geração sobre a importância da ecologia. Utilizou ainda o seu império mediático para dar palco a documentários e debates ambientais numa época em que o tema era ignorado pelo grande público. Para Ted Turner, a proteção do meio ambiente sempre esteve ligada à segurança global, levando-o a investir também no desarmamento nuclear como forma de prevenir o desastre ecológico definitivo. O seu legado é o de um visionário que transformou a figura do empresário na de um guardião do ecossistema.

Não queremos patentes das sementes e exigimos regulação das NTG´s

A UE está prestes a realizar a votação final sobre novas regras que desregulamentariam a maioria das culturas geneticamente modificadas desenvolvidas através de Novas Técnicas Genómicas (NGTs), prevista para 19 de maio. A proposta eliminaria a rotulagem, a rastreabilidade e a avaliação de riscos para a maioria destes produtos, levantando preocupações quanto à transparência, aos polinizadores e aos agricultores. O cenário atual confirma as minhas preocupações: o acordo provisório alcançado entre o Conselho e o Parlamento não inclui a proibição de patentes que o Parlamento tinha inicialmente exigido. Em vez disso, propõe apenas medidas de "transparência", o que na prática permite que grandes multinacionais continuem a patentear características genéticas de plantas, ameaçando a autonomia dos agricultores e a biodiversidade.
Portanto e por tudo isto e pela salvaguarda da nossa soberania alimentar e em defesa da agricultura biológica nacional - pondo em causa a Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica (ENAB 2027) - temos que agir!

𝐀 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐜𝐢𝐯𝐢𝐥 𝐞𝐬𝐭𝐚́ 𝐚 𝐦𝐨𝐛𝐢𝐥𝐢𝐳𝐚𝐫-𝐬𝐞 𝐚𝐭𝐫𝐚𝐯𝐞́𝐬 𝐝𝐞𝐬𝐭𝐚 𝐜𝐚𝐦𝐩𝐚𝐧𝐡𝐚.
𝐉𝐚́ 𝐪𝐮𝐚𝐬𝐞 𝟗𝟓.𝟎𝟎𝟎 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐞𝐧𝐯𝐢𝐚𝐫𝐚𝐦 𝐞𝐦𝐚𝐢𝐥𝐬 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐨𝐬 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨𝐬 𝐞𝐮𝐫𝐨𝐝𝐞𝐩𝐮𝐭𝐚𝐝𝐨𝐬.

Não brinquemos com a nossa alimentação nem mantenhamos os consumidores na ignorância – a rotulagem nas embalagens deve ser garantida ao longo de toda a cadeia de valor. Se estes novos produtos geneticamente modificados são tão promissores como a indústria de sementes afirma, então por que razão não devem ser rotulados em conformidade?
𝐄́ 𝐭𝐞𝐦𝐩𝐨 𝐝𝐞 𝐫𝐞𝐬𝐩𝐨𝐧𝐬𝐚𝐛𝐢𝐥𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐨𝐬 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨𝐬 𝐝𝐞𝐩𝐮𝐭𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐚𝐬 𝐬𝐮𝐚𝐬 𝐝𝐞𝐜𝐢𝐬𝐨̃𝐞𝐬; 𝐞𝐥𝐞𝐬 𝐝𝐞𝐯𝐞𝐦 𝐝𝐞𝐟𝐞𝐧𝐝𝐞𝐫 𝐨 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨 𝐝𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐨𝐥𝐡𝐚 𝐞 𝐩𝐫𝐨𝐭𝐞𝐠𝐞𝐫 𝐚 𝐚𝐠𝐫𝐢𝐜𝐮𝐥𝐭𝐮𝐫𝐚 𝐥𝐢𝐯𝐫𝐞 𝐝𝐞 𝐎𝐆𝐌.

𝐀𝐣𝐮𝐝𝐞-𝐧𝐨𝐬 𝐚 𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐫𝐯𝐚𝐫 𝐨 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨 𝐝𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐨𝐥𝐡𝐚 𝐞 𝐚 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐬𝐨𝐛𝐞𝐫𝐚𝐧𝐢𝐚 𝐚𝐥𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫! 



O Contexto
A desregulamentação das NGTs irá comprometer as normas de segurança alimentar e o direito de escolha dos consumidores, sendo também provável que conduza a uma maior concentração no setor das sementes através do patenteamento de culturas alimentares.

Um artigo do Corporate Europe Observatory e da GMWatch mostra que os grupos de pressão da indústria tentam acalmar as preocupações sobre o impacto das culturas patenteadas com argumentos superficiais e enganosos. Uma sondagem recente revela que a maioria dos cidadãos da UE se opõe às patentes sobre plantas e animais.

Documentos de lóbi obtidos junto da Comissão Europeia revelam que: 
(1) os grupos de pressão da indústria Euroseeds e CropLife Europe, que representam multinacionais biotecnológicas como a Bayer e a Syngenta, minimizam os problemas associados às patentes e propõem «soluções» inadequadas, e 
(2) o grupo de pressão agrícola Copa-Cogeca emitiu um forte aviso contra as patentes, mas posteriormente silenciou-se sobre o assunto. Outros grupos agrícolas, como a Deutsche Bauern Verband e a ECVC, continuam a manifestar abertamente as suas objeções às patentes.

A história do adufe na Beira Baixa é uma viagem fascinante que atravessa continentes e milénios, fundindo heranças religiosas, culturais e sociais


1. A Origem Árabe e a Expansão Islâmica
A palavra adufe deriva do árabe ad-duff. O instrumento chegou à Península Ibérica durante a ocupação muçulmana (a partir do século VIII). Naquela época, os panderos quadrados eram comuns em todo o Médio Oriente e Norte de África, sendo utilizados tanto em contextos festivos como religiosos.

2. A Reconquista e a Fixação no Interior
Com a Reconquista Cristã, muitos elementos da cultura árabe foram assimilados pela população local em vez de serem erradicados. A Beira Baixa, devido ao seu relativo isolamento geográfico e carácter fronteiriço, tornou-se um "baluarte" onde estas tradições se enraizaram profundamente. Enquanto noutras regiões o instrumento se perdeu ou evoluiu para o pandeiro redondo, na Beira Baixa ele manteve a sua forma quadrangular original.

3. O Papel das Mulheres e da Religião
O adufe sobreviveu e prosperou principalmente através das mãos das mulheres (as adufeiras). Houve uma transição curiosa do seu uso:
  1. Contexto Profano: Ritmos de trabalho no campo e festas populares.
  2. Contexto Sagrado: O instrumento foi adotado pelas irmandades e festividades católicas. Tornou-se indissociável do culto à Senhora do Almortão ou à Senhora da Póvoa, onde o toque do adufe acompanha os cânticos litúrgicos e as procissões.
4. Por que é que ficou "preso" na Beira Baixa?
Existem várias teorias para a exclusividade regional:
  1. Isolamento: As serras da Estrela e da Gardunha dificultaram a entrada de influências externas que pudessem substituir o adufe por instrumentos mais "modernos".
  2. Identidade Comunitária: O adufe tornou-se um símbolo de resistência cultural e identidade local, passado de mães para filhas como uma herança viva.

Curiosidade Técnica
O que torna o adufe da Beira Baixa especial é a sua construção: dois quadrados de madeira revestidos com pele de ovelha (ou cabra), contendo no seu interior sementes ou pequenas soalhas (pedrinhas), que conferem aquele som de "chuva" característico quando o instrumento é vibrado.

Sabia que? Apesar de ser o símbolo da Beira Baixa, existem registos históricos e iconográficos que mostram que o adufe foi usado em quase todo o Portugal até ao século XVII, incluindo na corte de Lisboa, antes de se tornar uma exclusividade do interior.


terça-feira, 5 de maio de 2026

Meta analisa estrutura óssea para detectar menores de 13 anos nas redes sociais


A Meta está a implementar uma nova forma de detectar utilizadores com menos de 13 anos nas suas redes sociais Instagram e Facebook, analisando a estrutura óssea através de inteligência artificial (IA).

Com o objetivo de continuar a reforçar as medidas de controlo para os menores que utilizam as suas plataformas, sobretudo os menores de 13 anos, a empresa liderada por Mark Zuckerberg estendeu à União Europeia (UE) o sistema de IA que detecta perfis de adolescentes, mesmo que estes afirmem ser adultos.

Este sistema determina a idade do utilizador analisando o contexto do perfil, como celebrações de aniversário ou menções a boletins escolares, além de incorporar análises visuais em fotos e vídeos para identificar pistas que poderiam passar despercebidas com base apenas no texto.

No entanto, a Meta pretende ir mais além e, dentro da análise visual, está a implementar uma nova forma de detectar utilizadores com menos de 13 anos no Instagram e no Facebook, analisando especificamente a estrutura óssea e a altura das pessoas que aparecem nas publicações da conta em questão.

“A nossa IA baseia-se em características gerais e pistas visuais, como a altura ou a estrutura óssea, para estimar a idade aproximada de uma pessoa”, explicou a empresa numa publicação no blogue, referindo que esta medida começou a ser implementada em países selecionados, incluindo os Estados Unidos, antes do seu lançamento geral.

A Meta enfatizou, contudo, que este não é um sistema de análise de "reconhecimento facial", já que "não identifica a pessoa específica na imagem".

Em vez disso, concentra-se na estrutura óssea, ou seja, no tamanho físico e na altura da pessoa.

Se a estrutura do seu perfil corresponder à de uma pessoa com menos de 13 anos, a Meta terá isso em conta, juntamente com o resto da análise dos "temas gerais e sinais visuais" das suas publicações, para determinar se é, em última análise, um utilizador menor de idade que não pode utilizar os seus serviços e desativar a sua conta ou adaptá-la às suas necessidades.

Philip Pilkington - O colapso do liberalismo global e ideias um pouco polémicas


No livro The Collapse of Global Liberalism (O Colapso do Liberalismo Global), o economista Philip Pilkington apresenta uma análise contundente sobre o declínio terminal da ordem liberal internacional, o sistema de cooperação política e comércio global liderado pelo Ocidente desde o pós-Segunda Guerra Mundial. A sua tese central baseia-se na ideia de que o "globalismo" não foi meramente um fenómeno económico de eficiência de mercados, mas sim um projeto ideológico falhado que pressupunha uma convergência universal para os valores da democracia liberal e do livre mercado. Pilkington argumenta que potências como a China e a Rússia demonstraram a fragilidade desta premissa ao integrarem-se na economia mundial sem abdicarem dos seus próprios modelos políticos e sociais, desmentindo a inevitabilidade da hegemonia ocidental.

Um dos pontos mais críticos da obra foca-se na desindustrialização do Ocidente. O autor sustenta que a busca desenfreada por lucros de curto prazo e eficiência logística impulsionou o offshoring, transferindo a base manufatureira para o exterior e criando uma dependência estratégica perigosa de rivais geopolíticos. Este processo não só enfraqueceu a segurança nacional das nações ocidentais, como também devastou a classe trabalhadora doméstica, servindo de combustível para a instabilidade política interna e para a ascensão de movimentos populistas. Paralelamente, Pilkington destaca a crise energética e de recursos, sublinhando que a prosperidade liberal dependia de energia barata e fluxos estáveis. Com a atual fragmentação geopolítica e os desafios da transição energética, o controlo do poder real deslocou-se para os países que detêm a produção física e os recursos naturais, deixando o Ocidente vulnerável na sua segurança material.

Para o economista, estamos a assistir ao fim da era do "idealismo liberal" e ao nascimento de um mundo dominado pelo "realismo geoeconómico". Neste novo paradigma, o comércio internacional deixa de ser visto como um instrumento de paz universal para ser utilizado como uma arma política, o que levará inevitavelmente à formação de blocos regionais fechados em detrimento de um mercado global único. Pilkington dirige ainda duras críticas às elites tecnocráticas ocidentais, acusando-as de estarem desconectadas da realidade material e de insistirem em estruturas obsoletas que apenas aceleram o colapso. Em última análise, o autor não prevê necessariamente o fim da civilização ocidental, mas sim o fim da ilusão do seu domínio global indefinido, defendendo que a sobrevivência nesta nova era de fragmentação exige um retorno pragmático à soberania nacional, à reindustrialização e à garantia da segurança material de cada Estado.


Minha análise
A tensão atual no liberalismo revela-se profunda quando confrontamos os ideais humanistas com a crueza da nova realidade geoeconómica. Para um liberal que se revê no Manifesto de Oxford, o cenário descrito por Philip Pilkington assemelha-se a um verdadeiro pesadelo, pois a fragmentação do mundo em blocos fechados e protecionistas coloca em causa a promessa fundamental de que cada indivíduo possa decidir o seu próprio rumo. Se a análise de Pilkington estiver correta, a mobilidade humana será drasticamente reduzida por fronteiras mais rígidas e o custo de vida sofrerá um agravamento inevitável, uma vez que o fim da eficiência global retira poder de compra às famílias, limitando as suas opções de vida reais e tangíveis.

Neste contexto, assistimos também a um crescimento perigoso do papel do Estado. Para garantir a reindustrialização e a segurança material exigidas pela soberania, o poder público tende a tornar-se cada vez mais interventivo, o que frequentemente resulta no atropelo da iniciativa privada e da autonomia individual. Ao admitir que Pilkington tem razão no seu diagnóstico do colapso, mas mantendo a fidelidade aos princípios de Oxford, o liberal contemporâneo mergulha num dilema intelectual fascinante: é o reconhecimento de que, embora o ideal de liberdade seja o destino desejado, a realidade material está a destruir a estrada que a ele nos deveria conduzir.

A questão crucial que agora se coloca é como salvar o espírito do Manifesto de Oxford num mundo que parece ter deixado de acreditar na cooperação global. O grande desafio passa por encontrar formas de preservar a dignidade e a liberdade da pessoa humana num ambiente que privilegia a segurança física e o poder estatal em detrimento da liberdade individual. Resta saber se o liberalismo terá a agilidade necessária para se reinventar, garantindo que o indivíduo não se torne um mero peão nas disputas geoeconómicas de uma nova era de fragmentação.