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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ondas de calor desencadeiam “relação tóxica” entre ervas marinhas e microrganismos


As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes devido ao aquecimento contínuo do planeta, são já consideradas das maiores ameaças atuais à biodiversidade dos mares e dos oceanos por toda a Terra.

Uma investigação recente revela que os efeitos desses fenómenos não se limitam apenas a gerar águas mais quentes, mas que causam alterações importantes nas relações entres seres vivos que podem ter consequências nefastas para todo o ecossistema.

Quatro cientistas das universidades australianas de Sydney e da Nova Gales do Sul dizem que o stress térmico causado pelas ondas de calor marinhas desencadeia uma “relação tóxica” entre as ervas marinhas e “um ecossistema oculto de bactérias” que com elas normalmente coexiste, num arranjo que beneficia ambas as partes.

Tal como os microrganismos nos solos em terra firme são fundamentais para a vida das plantas, ajudando-as a manter-se saudáveis e a adquirir nutrientes, também na água as bactérias que vivem no leito aquático desempenham um papel semelhante em relação às ervas marinhas. Essas são plantas que vivem na água do mar e que dão flor, podendo formar extensas pradarias que servem de refúgio a muitos animais, purificam a água e ajudam a sequestrar carbono.

No que descrevem como uma “experiência de jardinagem subaquática”, os investigadores encontraram um ecossistema bacteriano de grande diversidade no solo e em torno das raízes das ervas marinhas. Num artigo publicado na ‘New Phytologist’, explicam que o aumento da temperatura da água, como durante uma onde de calor marinha, faz proliferar bactérias conhecidas por produzirem ácido sulfídrico, um composto que dizem ser tóxico para as ervas marinhas e que pode limitar o seu crescimento.

“Embora as ervas marinhas possam, à primeira vista, parecer bem, o que encontrámos no subsolo, em condições de temperatura elevada, revela uma realidade bem diferente”, avisa Renske Jongen, primeira autora do estudo.

“Sob stress térmico, as comunidades microbianas em torno das raízes das ervas marinhas alteram-se de formas que podem prejudicar a planta em vez de ajudá-la.”

sábado, 18 de maio de 2024

Como surge a chuva ácida?


A chuva ácida  é consequência da poluição atmosférica. A queima de combustíveis fósseis –principalmente por motores movidos a diesel e centrais térmicas– liberta muito dióxido de azoto, NO2, para a atmosfera. Algumas atividades industriais – principalmente produção de aço, de alumínio, baterias, borracha e fertilizantes– libertam uma quantidade absurda de dióxido de enxofre, SO2, para a atmosfera.

Já em forma de gases, esses elementos formam moléculas polares com alta solubilidade em água. Assim, reagem rapidamente com a água em vapor na atmosfera e formam dois ácidos corrosivos e tóxicos: o ácido sulfúrico, H2SO4, e o ácido nítrico, HNO3.
SO3 + H2O → H2SO4
NO2 + H2O → HNO3

Essas substâncias voltam para a terra em forma de chuva ácida com desastrosas consequências ambientais:
– alteram o PH do solo, geralmente abaixo do valor 5,6 e essa acidificação mata a microbiota;
– alteram o PH de córregos, rios, lagos e mananciais, acidificando a água, desequilibrando o ambiente e causando a morte de peixes e outros seres aquáticos;
– causam patologias em vegetais e animais;
– destroem extensas áreas florestais e lavouras;
– danos à saúde humano, com agravamento de problemas respiratórios e oculares;
– corroem metais, pedras, rochas calcárias, madeira (ação desidratante);
– desgastam construções.

A chuva ácida é um dentro de tantos outros problemas causados pela emissão excessiva e descontrolada de gases do efeito estufa, como o aquecimento global, as secas prolongadas, as enchentes violentas cada vez mais frequentes e tantos eventos climáticos extremos.

Saiba mais:
Chuva ácida - Prepara ENEM
Aulão ENEM 2020 - Professor Paulo Jubilut

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Dia Mundial da Jardinagem Nua 2024


Dia Mundial da Jardinagem a Nu 2024 (World Naked Gardening Day) decorre no primeiro sábado de Maio e incentiva as pessoas de todo o mundo a fazerem jardinagem sem roupas em locais, sejam em espaços públicos ou privados, apropriados para a prática naturista.

Assim, se és adepto da jardinagem, aproveita este dia e celebra praticando a nu as tuas tarefas.

Segundo o programa Today da NBC, o Dia Mundial da Jardinagem Nua (WNGD, na sigla em inglês) "tornou-se uma tradição anual que celebra a jardinagem, a plantação de flores e a poda de sebes em trajes de banho. Embora esteja ligado a um movimento de nudistas que promovem a aceitação saudável e despudorada do corpo humano, o dia pretende ser divertido, descontraído e apolítico, dizem os fundadores."

Os organizadores afirmam que "além de ser libertador, a jardinagem nua só perde para a natação como atividade que as pessoas estão mais dispostas a considerar fazer nuas".

Para além da positividade corporal, Corky Stanton, da Clothes Free International, uma organização que promove o lazer nu, afirmou que o evento oferece os "benefícios adicionais do lazer nu e sem pudor: a satisfação de fazer exercício ao ar livre; a beleza de um bronzeado uniforme; mais vitamina D em todo o corpo; a experiência incomparável de nadar nu se o evento naturista envolver uma praia ou um lago."

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Organizações ambientalistas reivindicam 15 medidas urgentes pela água


Mais de 70 organizações de seis movimentos ambientalistas, de norte a sul do país, apresentaram esta quinta-feira um manifesto reivindicativo que apela aos partidos políticos para que olhem para 15 medidas consideradas urgentes para proteção dos rios e da água.

"Aquilo que se pretende é efetivamente pôr na agenda política as questões da gestão da água e do uso eficiente da água, por forma a que esse recurso, que é finito, seja bem usado e para aquilo que é efetivamente necessário", disse à Lusa Paulo Constantino, porta-voz do Movimento pelo Tejo -- proTEJO, com sede em Vila Nova da Barquinha (Santarém).

Segundo alertou o dirigente, "as práticas que se vislumbram e que têm vindo a ser propostas conduzirão ao seu esgotamento e a uma escassez contínua por um excessivo consumo".

Entre as 15 reivindicações apresentadas, a poucas semanas das eleições legislativas de 10 de março, estão, por exemplo, medidas de combate à seca, de proteção de rios e águas subterrâneas, ou contra os transvases e construção de novas barragens, açudes e dessalinizadoras.

"Não pode haver ofertas ilimitadas de água", afirmou Constantino, tendo defendido a importância de "gerir as necessidades e as disponibilidades de água em cada bacia hidrográfica, satisfazendo as necessidades humanas e as necessidades ecológicas".

'Não aos transvases entre bacias hidrográficas' é a primeira reivindicação que consta num documento que os signatários enviaram na quarta-feira aos partidos políticos com assento parlamentar na Assembleia da República e a que a Lusa teve acesso.

Na lista de 15 reivindicações apresentadas, divididas entre o sim e o não, do lado a combater, segundo os signatários, está o "não aos transvases entre bacias hidrográficas, ao desperdício de água, aos projetos sustentados num aumento do consumo de água (dessalinizadoras, barragens), à construção da dessalinizadora do Algarve, e "à proliferação de barragens e açudes".

Do lado positivo elencam o "sim à proteção das águas subterrâneas, ao cumprimento integral e urgente da legislação comunitária e nacional (Diretiva Quadro da Água, Lei da Água) e à implementação urgente das medidas previstas nos Planos de Bacia Hidrográfica (PGRH), à definição e implementação rigorosa de regimes de caudais ecológicos", e à "implementação de processos de recuperação ecológica".

Ainda do lado positivo está o "sim ao efetivo controlo físico-químico e biológico dos efluentes libertados nos meios hídricos", à redução dos valores limite de emissão dos efluentes libertados pelas estações de tratamento, à definição de políticas eficazes no sentido de regulamentar a proliferação de monoculturas, à disseminação da informação 'online' de acesso livre, a uma estratégia de desenvolvimento conduzida por planos nacionais de restauro fluvial, de eliminação de barreiras transversais, de erradicação de invasoras e de eficiência hídrica a par do "desenvolvimento de programas que de uma forma massiva combatam a iliteracia ecológica".

Os movimentos ambientalistas pedem a "introdução destas questões na campanha eleitoral", e a "observação de um discurso com pensamento estratégico que represente um projeto viável de ação coletiva e individual responsável e com sentido de justiça intergeracional".

As 15 reivindicações pelos rios e pela água são subscritas por mais de 70 organizações nacionais e locais - que incluem Organizações Não Governamentais (ONG, ONGA, associações e municípios -, bem como cidadãos a título individual que fazem parte de seis movimentos com representatividade nas principais bacias hidrográficas do país (AMORA, Mondego Vivo, #MovRioDouro, MUNDA, PAS e proTEJO).

"(...) Chegámos à situação que nos coloca no limiar da sobrevivência face à rapidez das alterações climáticas e, em particular, face à degradação da quantidade e qualidade das águas superficiais e subterrâneas e respetivos ecossistemas", alertam os movimentos subscritores, num documento em que pedem aos decisores políticos para se "agir prioritariamente sobre as causas como forma de combater os efeitos".
Fonte: DN

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Libélula- Camuflagem

Crothemis erythraea, fêmea
Libélula-escarlate
Crocothemis erythraea (Brullé, 1832)
Estatuto de Conservação: LC - Pouco Preocupante

Libélula com tamanho variável, sendo que os adultos podem ultrapassar os 40 mm de comprimento, e atingir os 33 mm de envergadura de asa. Os machos maduros são robustos e vermelhos-escarlate (tórax, abdómen e patas); os olhos são vermelhos com a parte inferior azulada. As fêmeas e os imaturos são castanho-amarelados ou dourados, podendo apresentar uma linha negra abdominal (vista dorsal). O abdómen é largo e achatado. Os dois pares de asas apresentam nervuras anteriores vermelhas e pterostigmas longos, castanho-amarelados. A base das asas posteriores apresentam manchas basais bastante características, que são laranjas no macho e amarelas/âmbar na fêmea. Voam de Fevereiro a Novembro.

Habitat / Ecologia
Encontra-se junto de águas com pouca profundidade, estagnadas e eutróficas tais como lagoas, arrozais e canais de drenagem. É tolerante a alguns graus de salinidade.

Os adultos passam muito do seu tempo empoleirados na vegetação. Os machos têm um voo lançado e rápido, pairando frequentemente no ar. 

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Poesia da Semana - "Os rios acodem", de Pablo Neruda


Os rios acodem

"Amada dos rios, combatida
por água azul e gotas transparentes,
uma árvore de veias é teu espectro
de deusa escura que morde maçãs:
então ao acordares despida
eras tatuada pelos rios,
e nas alturas molhadas a tua cabeça
enchia o mundo de novos orvalhos.
A água te estremecia na cintura.
Eras de mananciais construída
e lagos te brilhavam na fronte.

De tua floresta mãe recolhias
a água como lágrimas vitais,
e arrastavas as torrentes às areias
- através da noite planetária,
cruzando ásperas pedras dilatadas,
quebrando no caminho
todo o sal da geologia,
cortando bosques de compactos muros,
separando os músculos do quartzo."

Pablo Neruda, in "Canto Geral" (1950)

Foto: Um dos rios de Qimper (Bretanha- França)

Tese de Mestrado: "Memória e literatura no canto geral de Pablo Neruda: reinvenção do outro e de si mesmo" de Rahissa Oliveira de Lima

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Limpar, dessalinizar, reciclar: há mais água a chegar aos europeus


Com o aumento da procura e as alterações climáticas, a Europa está a investir em novas formas de reaproveitar um dos recursos mais valiosos do mundo: a água.

A vida na Terra depende da água doce, um recurso sob pressão. A explosão da procura global e as alterações climáticas estão a torná-la cada vez mais preciosa. Mesmo na Europa, onde inundações e secas são cada vez mais brutais e estão a afetar a vida de milhões de pessoas.

Também corremos o risco de os químicos presentes no nosso quotidiano estarem a passar para o que bebemos e persistirem no ciclo da água.

Mas, por outro lado, a qualidade dos cursos de água está a melhorar, em geral, e o acesso à água potável é elevado, indo ao encontro da nova diretiva europeia sobre a água potável visa garantir o acesso de todos a uma água de qualidade.




O maior reservatório de água potável da Europa

O Lago de Constança, na região alemã de Baden-Württemberg, é o maior reservatório de água potável da Europa, bebida por milhões de pessoas. Orgulho da cidade, rege-se por um princípio simples: quanto menos poluída for a água, menos terá de ser limpa.

Marie Launay, uma cientista francesa radicada na Alemanha, trabalha na região, à frente de uma unidade dedicada à luta contra os micropoluentes, nocivos para os peixes, os ecossistemas e seguramente para os seres humanos.

"Estamos a usar cada vez mais químicos em casa, nos produtos domésticos. Estamos a usar mais medicamentos e também mais pesticidas. E estas substâncias, quando são persistentes, também persistem no ambiente. Por isso, é importante poder eliminá-las para preservar a qualidade da água”, afirma.

Parte da solução está nas estações de tratamento de águas residuais que tratam a água que usamos, antes de a devolver à natureza.

Várias estações deste estado federal alemão foram equipadas com um tratamento adicional, por ozono, em que os poluentes são decompostos.

A tecnologia deverá ser desenvolvida noutros locais, numa altura em que a regulamentação europeia sobre as águas residuais está a mudar e é provável que a lista de poluentes a eliminar aumente.

"Existem planos para eliminar os micropoluentes das grandes estações e das regiões sensíveis a nível da União Europeia. Está previsto que as indústrias farmacêutica e cosmética paguem o financiamento destas instalações de proteção ambiental.

Espanha aposta na rega com água do mar

Espanha, o nível das reservas de água é preocupante, sobretudo em algumas regiões como Valência, regularmente afetada pela seca.

Para fazer face a esta situação, o país criou instalações de dessalinização, que produzem água doce a partir da água do mar e são responsáveis por cerca de 9% da água doce consumida a nível interno.

Trata-se de uma tecnologia cara e que consome muita energia, mas necessária,

José Luis Zaplana, diretor da fábrica de dessalinização Cadagua, na zona industrial valenciana. explica que, por exemplo, a sua central "permite que a água do rio Jucar seja devolvida a outras populações que não dispõem deste recurso".

"Pode pensar-se que dessalinizar a água do mar é caro, mas é melhor do que não ter água", defende.

Também Mariola Dura, responsável pelas operações da companhia de saneamento Acuamed, reconhece as vantagens da tecnologia.

"Ajuda muito o motor económico, o turismo, a agricultura, neste caso a indústria. Não temos de nos preocupar tanto se chove, ou não".

Águas residuais contribuem para bebida local

Espanha é também campeã europeia na reutilização de águas residuais. Sobretudo para a agricultura, que capta muitos recursos.

Da horta, uma grande zona agrícola perto do centro da cidade de Valência, saem regularmente produtos frescos para os habitantes, por vezes regados na totalidade com águas recicladas na estação de tratamento de águas residuais.

A prática será incentivada e regulada através de novas regras europeias, que vão entrar em vigor este verão.

Mas as vantagens destas fábricas de reciclagem de água, lembra Juan Ángel Conca, diretor da Companhia Pública de Saneamento de Águas Residuais da Comunidade Valenciana (EPSAR), não se ficam apenas pela água para rega.

"Há lugares no mundo onde a água que sai das estações de tratamento de águas residuais pode ser bebida! Tudo isto, que parece uma fábrica, é uma fábrica de recursos. É uma fonte de água limpa para a agricultura, de água limpa para o ambiente, mas também de lamas, que são utilizadas para fazer fertilizantes para a agricultura. E, finalmente, uma fonte de energia, porque produzimos biogás que usamos nas nossas instalações".

A água é usada para regar diferentes frutas e legumes e em muitos casos, chufa, tubérculo típico de Valência, usado como principal ingrediente da orchata, a bebida local.

Enrique Aguilar é agricultor e lembra-se de como, no início, as águas tratadas deixavam os produtores de pé atrás. “No início, os agricultores tinham dúvidas. Mas já usamos esta água há mais de 25 anos e o resultado é muito positivo.

E será que com água reciclada a chufa sabe ao mesmo? Enrique não hesita na resposta: “Água é água. Ela tem todas as qualidades necessárias. Regamos com água reciclada há muitos anos e nunca ninguém notou nada".

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Remoção de barreiras fluviais obsoletas bate novos recordes em 2022 – relatório


Pelo menos 325 barreiras fluviais obsoletas foram removidas na Europa em 2022, um novo recorde, segundo um relatório da organização “Dam Removal Europe”.

A remoção de 325 barreiras desnecessárias e prejudiciais à natureza representou um aumento de 36% em relação ao recorde do ano anterior, indica a organização, uma coligação de sete organizações internacionais.

As barreiras foram removidas em 16 países europeus, na maior parte dos casos represas, quase sempre antigas e obsoletas e sem a remoção representar grandes custos.

A organização atribui o grande número de remoções a novas oportunidades de financiamento disponíveis, como o “Open Rivers Programme”, os esforços coordenados de autoridades públicas para divulgar a informação e uma maior sensibilização para o problema.

Espanha é o país europeu que mais barragens removeu, seguindo-se a Suécia e a França. O Luxemburgo registou a primeira remoção de barragens. Portugal não tem expressão nesta matéria.

Os responsáveis da organização referem a proposta da Comissão Europeia para uma lei da Restauração da Natureza para afirmar que é importante continuar a destacar a remoção de barragens como uma ferramenta crucial para a restauração de ecossistemas. A Estratégia para a Biodiversidade 2030 quer libertar pelo menos 25.000 quilómetros de rios europeus.

A remoção de barreiras também contribui para o Desafio Global da Água Doce, de restaurar 300.000 quilómetros de rios degradados até 2030, um objetivo lançado na Conferência das Nações Unidas sobre a Água, realizada em Nova Iorque em março passado.

Os ecossistemas de água doce enfrentam problemas de poluição, degradação de habitats, exploração excessiva de recursos naturais e também de excesso de obstáculos, como barragens e açudes, que prejudicam a biodiversidade mas também as comunidades que dependem dos cursos de água.

Mais de 1,2 milhões de barreiras fragmentam os rios europeus, sendo muitas delas estruturas abandonadas (pelo menos 150.000 segundo a organização internacional WWF). Essas barreiras impedem as migrações de peixes de água doce, cujas populações sofreram na Europa um declínio de 93% (76% a nível mundial).

A “Dam Removal Europe” junta as organizações “World Wide Fund for Nature” (WWF), “The Rivers Trust”, “The Nature Conservancy”, “The European Rivers Network”, “Rewilding Europe”, “Wetlands International”, e “World Fish Migration Foundation”.

Na semana passada o ministro do Ambiente disse que o programa de recuperação da rede hidrográfica vai incluir um plano nacional de remoção de barreiras obsoletas nos rios portugueses, contando com a colaboração das organizações não-governamentais na identificação das prioridades.

Duarte Cordeiro falava numa sessão que decorreu na margem do rio Alviela, em Vaqueiros, no concelho e distrito de Santarém, que se seguiu à remoção de um antigo açude que impedia o curso livre do rio, no âmbito de um projeto da organização não-governamental (ONG) Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), financiado pela fundação suíça MAVA.

A responsável pelo projeto “Rios Livres”, do GEOTA, Catarina Miranda, afirmou na altura que se estima em cerca de 30.000 as barreiras à conectividade fluvial em Portugal, muitas delas obsoletas, apelando para que, a exemplo do que acontece em outros países da Europa e do mundo, Portugal inicie um programa de remoção de pequenos açudes a grandes barragens “que já não têm nenhum papel atual, nem económico, nem social, nem cultural”.

Em março, a associação ambientalista ANP/WWF lançou uma petição pública para pedir ao Governo prioridade na remoção de barreiras desnecessárias em rios e atenção ao restauro fluvial.

Na altura a associação procedeu à primeira remoção de uma barreira fluvial obsoleta, o açude de Galaxes, no concelho de Alcoutim.

O relatório da “Dam Removal Europe” do ano passado indicava que em 2021 foram removidas 239 barragens em 17 países europeus.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

A Batalha pela Água Intensifica-se em Espanha


Em Espanha, o parlamento da Andaluzia aprovou recentemente um projeto de lei que prevê legalizar cerca de mil hectares de regadio ilegal na zona envolvente do Parque Nacional de Doñana, uma das zonas húmidas protegidas mais notáveis da península ibérica, situada na margem direita do rio Guadalquivir. A atual iniciativa legislativa, liderada pelo PP e com o apoio do Vox, implicará a expansão do regadio e a regularização de centenas de poços ilegais, os quais retiram a água que é essencial à sobrevivência de Doñana. Legalizam-se assim as culturas nas imediações do parque, que vive já uma situação crítica devido à sobre-exploração dos aquíferos e à falta de chuva. A iniciativa política ignorou as recomendações contrárias da comunidade científica e dos ambientalistas, que não se têm cansado de alertar para o estado crítico de Doñana. A esperança reside agora na atuação das entidades europeias e internacionais: a UNESCO manifestou o seu desacordo e a Comissão Europeia avisou que, se a proposta de lei for bem-sucedida, não hesitará em tomar todas as medidas necessárias, incluindo a apresentação de um novo recurso no Tribunal de Justiça, e a imposição de sanções. O momento é dramático para o Parque Nacional de Doñana; cerca de 60% das maiores lagoas temporárias não são inundadas desde 2013, o que já provocou perda de biodiversidade. A preocupação é maior porque a seca é grave em Espanha, com as reservas de água abaixo de metade da média dos últimos 10 anos, especialmente no sul. Os dados disponíveis são claros e impõem uma redução do número de hectares que são irrigados legalmente e a preparação de uma alternativa ecológica para os agricultores e território. No entanto, a iniciativa promovida pelo parlamento não só foge a este propósito, como promove o contrário, alargando o número de hectares com direito a dotações de água. Aproximam-se as eleições e PP e Vox afirmam-se garante da prosperidade económica na região de Doñana, especialmente nos municípios com maiores áreas de culturas de frutos vermelhos (morango, framboesa), como os da província de Huelva. Estas forças políticas assumem facilmente discursos que contrariam os critérios dos cientistas, do Governo de Espanha, da União Europeia, da Unesco, e a própria realidade, prometendo extensões de rega e, implicitamente, as correspondentes dotações de água. E não se inibem de incentivar o confronto entre os agricultores e o governo central.Num tempo em que é cada vez mais evidente a pressão sobre a água, em que percebemos a insensatez dos que nos querem convencer que nada mudou, não se compreende que não sejamos capazes de nos entender através do diálogo e da razão. Como é que não são os próprios interessados a defender o extraordinário valor ecológico do Parque Nacional de Doñana? Em Espanha, tal como em Portugal, os novos cenários revelam a complacência com que, ao longo de décadas, fechámos os olhos às práticas agrícolas insustentáveis. Vamos ter que encontrar soluções rápidas e justas, e não vai ser fácil. Certo é que não há país em que a destruição ambiental não tenha trazido a ruína económica a longo prazo. Estas culturas intensivas de frutos vermelhos da região de Doñana podem alimentar esta geração, mas não vão alimentar a seguinte.

Helena Freitas, Diário de Coimbra, 25.04.2023

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Algas: Um recurso subaquático oculto que vale mais do que se esperava



Os investigadores acabaram de calcular o valor que a sociedade obtém de um recurso subaquático comum, mas escondido, e descobriram que é muito mais elevado do que alguma vez se esperava.

As florestas de algas há muito que fazem tanto pela humanidade, operando sempre fora da vista sob as ondas.

Abraçando um terço das nossas costas, elas fornecem alimento e casas para grande parte dos nossos mariscos costeiros. Ao fazê-lo, estas vibrantes selvas oceânicas ajudaram a ousadas migrações humanas como a colonização das Américas a sul, há 20.000 anos.

Também comemos a própria algas, usamo-las para fertilizar culturas, adicionamo-las a medicamentos e cuidados com a pele, e respiramos o oxigénio que produz.

No entanto, as florestas de algas estão em declínio catastrófico, e não compreendemos bem a extensão, e muito menos o valor, do que estamos a perder. Assim, uma equipa de investigadores apresentou uma estimativa dos serviços que os ecossistemas de algas nos proporcionam.

“Pela primeira vez, temos os números que demonstram o considerável valor comercial das nossas florestas globais de algas”, diz o ecologista marinho da Universidade de New South Wales, Aaron Eger.

“Encontrámos 740 milhões de pessoas que vivem num raio de 50 quilómetros de uma floresta de algas. Portanto, estes sistemas têm um papel significativo a desempenhar no apoio à subsistência destas pessoas e vice-versa”.

Eger e colegas fizeram um levantamento de 1.354 peixes e invertebrados em seis tipos diferentes de florestas de algas em oito áreas oceânicas diferentes. Também tomaram medidas de utilização de nutrientes desde o carbono ao fósforo.

Contributo económico das algas para produção pesqueira é de 29.851 dólares

O valor económico da contribuição das florestas de algas para a produção pesqueira é em média de 29.851 dólares e 904 quilogramas por hectare por ano, relata a equipa.

Surpreendentemente, apenas 50 tipos de animais dos 193 identificados contribuíram com a maior parte do valor para a pesca, principalmente invertebrados como lagostas, ouriços-do-mar e abalone.

Estas “árvores” oceânicas não só fornecem habitat a milhares de espécies marinhas, como também desempenham um papel enorme nos ciclos globais de nutrientes. As algas são um tipo de algas que são protistas, não plantas, mas tal como as plantas, a sua fotossíntese coloca energia nas teias de vida que abrigam, removendo o dióxido de carbono do seu ambiente e produzindo oxigénio no processo.

A remoção de dióxido de carbono, por sua vez, eleva os níveis de pH e o fornecimento de oxigénio nas áreas imediatas – ajudando a mitigar os efeitos locais da acidificação dos oceanos.

As algas também absorvem outros nutrientes, como azoto e fósforo, para alimentar o seu rápido crescimento, com algumas espécies capazes de adicionar até 50 centímetros de altura num dia. Pesquisas anteriores descobriram que as florestas de algas são ainda mais produtivas em termos de crescimento do que as culturas intensamente cultivadas, como o arroz e o trigo.

“Dos três elementos, a remoção de azoto forneceu o maior valor económico por hectare por ano (média = $73.831, 620 quilogramas), seguida pela remoção de fósforo (média = $4.075, 59 quilogramas), e por último a captura de carbono (média = $163, 720 quilogramas)”, escreve Eger e colegas.

Embora a captação de carbono das algas possa não ser tão impressionante como a sua remoção de azoto, ainda é equivalente a florestas terrestres e ervas marinhas.

“Globalmente, estas florestas de algas produzem uma média estimada de 500 mil milhões de dólares por ano”, conclui a equipa. Isto é três vezes mais do que as melhores previsões anteriores e é apenas uma medida de base que tem ainda de considerar outras contribuições significativas para a nossa economia.

“Houve também muitos outros serviços que não avaliámos, incluindo turismo, experiências educativas e de aprendizagem, e algas como fonte de alimento, pelo que antecipamos que o valor real das florestas de algas no mundo seja mais elevado”, qualifica Eger.

A algas também têm um potencial incrível como biocombustível sustentável e ajudam a proteger as nossas costas contra a erosão.

Cerca de um terço de todas as florestas de algas sofreram perdas profundas

Mas, tal como em grande parte do mundo à nossa volta, as florestas de algas estão a ter dificuldades. Nas últimas décadas, cerca de um terço de todas as florestas de algas sofreram perdas profundas. Uma combinação de ondas de calor e de ouriços-do-mar invasivos e esfomeados provocou um declínio de 95% das algas ao largo da costa da Califórnia desde 2014. A meio mundo de distância, as florestas de algas da Austrália foram listadas como ameaçadas após declínios igualmente drásticos.

Também sofrem de poluição por actividades humanas, e à medida que estas florestas flutuantes diminuem, o mesmo acontece com lagostas, abalone, peixes, e todas as outras vidas que contam com a sua existência.

“Colocar o valor do dólar nestes sistemas é um exercício para nos ajudar a compreender uma medida do seu imenso valor”, diz Eger. “É importante recordar que estas florestas também têm um valor intrínseco, histórico, cultural e social por direito próprio”.

Os investigadores esperam que as suas descobertas chamem a atenção para este ecossistema há muito negligenciado. Eles estão a lutar para restaurar e proteger milhões de hectares a nível mundial em conjunto com a Kelp Forest Challenge.

sábado, 4 de março de 2023

Os benefícios do castor

O estudo Renaturalizar com o Castor na Península Ibérica – Potencial Económico para Restauro Fluvial, da autoria de Daniel Veríssimo e Catarina Roseta-Palma, acabou de ser publicado na revista científica Nature Based Solutions. O documento partiu da análise do programa de recuperação de rios e ribeiros desenvolvido pela Agência Portuguesa de Ambiente. Este programa, com um custo aproximado de 12 milhões de euros, incluiu muitas intervenções que poderiam ser feitas de forma equivalente pelo castor livres de custo, como suavizar as margens das ribeiras, criar pequenas barragens com ramos, promover a dispersão de sementes ou até controlar espécies invasoras.

O regresso do castor
Duas das estatísticas mais notáveis que surgiram do recente Relatório de Regresso da Vida Selvagem de 2022, encomendado pela Rewilding Europe, ilustram o quão longe o castor chegou num espaço de tempo relativamente curto – principalmente devido à proteção legal, uma redução dramática na pressão de caça e reintroduções e translocações. A abundância destes engenheiros aquáticos aumentou uns incríveis 16.000% entre 1960 e 2016, com a atual população europeia (excluindo a Rússia) totalizando mais de 1,2 milhões!

Além disso, a sua distribuição em todo o continente europeu aumentou cerca de 835% entre 1955 e 2020. Concluindo, os castores estão em alta, o que é uma ótima notícia para a biodiversidade e para uma grande variedade de outras espécies que beneficiam do impacto desta espécie na paisagem.

Gerador de biodiversidade
As lagoas e os canais de água que os castores criam à volta dos seus alojamentos através da construção de diques, atraem uma infinidade de insetos, peixes e anfíbios. Isso, por sua vez, atrai pássaros, morcegos e outros pequenos mamíferos. À medida que derrubam árvores sobre a água, os castores ajudam a criar um habitat vital de madeira morta, bem como a abrir áreas de floresta, o que estimula uma maior diversidade de crescimento de plantas em clareiras ensolaradas e prados alagados.

As árvores ribeirinhas, como os salgueiros, evoluíram com os castores e geralmente não morrem quando um castor abre caminho através do tronco. Em vez disso, isso estimula o crescimento de novos caules, o que gera uma maior complexidade estrutural que beneficia muitas espécies. Sabe-se que os répteis usam-nos como abrigo, enquanto as lontras e martas usam tocas abandonadas. Grandes represas podem até atuar como corredores ecológicos na paisagem, funcionando como pontos de passagem que poupam energia para espécies de topo à base da cadeia alimentar.

Defensor de cheias
As represas dos castores, a teia de cursos de água que se estendem ao seu redor e todos os galhos e ramos usados para criá-las podem reter grandes quantidades de água. Isso ajuda a diminuir a velocidade geral do fluxo a jusante e a recarregar os lençóis freáticos subterrâneos, podendo reduzir os impactos das inundações em terras agrícolas e em áreas urbanas. Os diques agem como esponjas, libertando água lentamente através da sua estrutura permeável, o que significa que imensas pequenas lagoas e riachos podem formar-se em áreas mais altas.

Essa redistribuição da água interrompe e diminui o leito máximo do rio à medida que se move em direção às áreas de planície. Permitir que os rios libertem gradualmente os seus benefícios hídricos beneficia também a terra à sua volta, pois evita que o precioso solo superficial seja arrastado durante períodos de chuvas fortes.

Bombeiro
Os ambientes aquáticos do castor também podem fornecer santuários à prova de fogo que salvam vidas para uma grande variedade de plantas, animais – e até pessoas. Com os incêndios florestais a aumentar tanto em frequência como em intensidade, como resultado das mudanças climáticas, o valor dos castores não pode nem deve ser subestimado. Como um sábio disse uma vez: “água não queima!”

Quando as habilidades magistrais de engenharia do castor têm rédea solta numa escala grande o suficiente, o habitat que eles criam pode até tornar-se uma barreira natural que impede que o fogo se espalhe ainda mais. No mínimo, a exuberante vegetação verde encontrada dentro e na envolvência dos habitats dos castores irá amortecer o progresso de um incêndio – ao contrário da vida vegetal combustível, muitas vezes seca, normalmente encontrada em áreas sem castores, que podem alimentar incêndios florestais. E a vegetação costuma ser um salva-vidas para herbívoros no calor do verão e nos períodos de seca também.

Purificador de água
Os castores também nos podem ajudar na luta contra a poluição. As suas represas podem atuar como peneiras gigantes que retêm sedimentos contendo nitratos e fosfatos da agricultura, que podem desenvolver proliferação de algas nocivas. Estas algas podem impactar negativamente a vida selvagem, o gado e as pessoas, pois podem produzir toxinas perigosas.

Estas também consomem todo o oxigénio da água e bloqueiam a luz solar, que pode ser fatal para a vida aquática. A poluição por nitrogénio, em particular, pode ser bastante reduzida, já que as bactérias que prosperam em lagoas com castores podem digerir nitratos, com qualquer excesso confinado a sedimentos. Esta é uma boa notícia para as pessoas, já que o nitrogénio e o fósforo precisam de ser removidos da água para esta se tornar segura para beber.
 
Mitigador de secas
Toda a água que as zonas húmidas criadas pelos castores retêm pode ser muito útil durante os períodos de seca. A necessidade que o castor tem de lagoas e canais profundos significa que, quando tudo à sua volta está a ser afetado pela seca, a região habitada por castores não. Esse fluxo constante de água a jusante e nos solos circundantes pode ser vital durante os períodos quentes de verão: um serviço gratuito de armazenamento de água que pode ser uma tábua de salvação para uma infinidade de espécies. A temperatura da água nas lagoas com castores também permanece fria no verão, enquanto os rios mais rasos sobreaquecem – um potencial assassino para algumas espécies de peixes, como os salmonídeos. Essas lagoas também são uma fonte vital de água no inverno, pois a sua profundidade significa que são as últimas a congelar.

Apoiar o regresso do castor
Em todas as áreas rewilding da Rewilding Europe – através do restauro de zonas húmidas e da criação de iniciativas de turismo de vida selvagem – estamos a apoiar o incrível trabalho dos castores e as suas contribuições para o rewilding. A última área a sentir os amplos benefícios do castor foi a área ucraniana do Delta do Danúbio, com avistamentos a surgirem na Reserva da Biosfera do Danúbio em 2021. Os castores já estão bem estabelecidos na Lapónia sueca e no Delta do rio Oder, onde são uma importante fonte enquanto presa para jovens lobos. Um estudo polaco também descobriu que estes beneficiam populações de aves invernantes em florestas temperadas.

Os castores também estão presentes na área de rewilding das Affric Highlands, na Escócia, onde uma união de proprietários de terras públicas e privadas acaba de finalizar uma consulta pública – realizada pela Trees for Life – sobre uma proposta de reintrodução em Glen Affric. Nenhuma decisão foi ainda tomada, mas já foi identificado um habitat adequado num estudo realizado em junho de 2022. Também sabemos que os castores vivem perto das áreas rewilding dos Cárpatos do Sul e dos Apeninos Centrais, com o seu regresso natural a ser esperado nas próximas décadas.

O castor de regresso a Portugal?
Na Península Ibérica, registos históricos indicam que a espécie esteve presente pelo menos até ao final do século XVI. Em 2003, o castor regressou a Espanha através de uma reintrodução não autorizada na bacia do rio Ebro. Desde então a espécie, catalogada como espécie protegida neste pais desde 2011, tem recolonizado novas áreas do Ebro, chegando também às bacias do Douro e do Tejo. Recentemente foram avistados indícios de presença de castor no rio Tormes, a cerca de oito quilómetros da fronteira com Portugal, e portanto muito próximos do lado português do Parque Natural do Douro Internacional. Apesar de ainda não existirem dados sobre qual o tamanho da população nesta zona e ritmo de expansão, é possível que brevemente o castor se disperse pelo noroeste da bacia do Douro desde este novo núcleo no Tormes e regresse a Portugal após a sua extinção na idade média.

Na Rewilding Portugal, encaramos esta possibilidade com grande optimismo e com vontade de ajudar a preparar a paisagem e as pessoas para o regresso desta espécie-chave.

Com a proteção e o habitat adequados, esperamos que os castores continuem a recolonizar mais da Europa, renaturalizando-a com todos os benefícios que trazem!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Salvar a zona húmida das Alagoas Brancas

Para: Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Excelentíssimo Senhor Presidente da Assembleia da República, Excelentíssimas Senhoras Deputadas e Excelentíssimos Senhores Deputados da Assembleia da República, Excelentíssimo Senhor Primeiro-Ministro, Excelentíssimo Senhor Ministro do Ambiente,


No concelho de Lagoa, reside uma das últimas zonas húmidas de água doce do Algarve, conhecida como Alagoas Brancas. Esta zona é tudo o que resta de uma vasta zona húmida que deu nome à cidade e concelho de Lagoa, que se depara agora com a possibilidade de ficar sem qualquer tipo de zona natural de água doce.

Esta zona, que apesar do seu valor histórico, patrimonial, cultural, assim como imprescindível valor enquanto ecossistema e de instrumento natural para a mitigação das alterações climáticas e prevenção de inundações, acabou por ser classificada no anterior plano de ordenamento do território municipal, como área de expansão comercial e em 2009 aprovado um loteamento da mesma para fins comerciais. E, por fim, em Outubro de 2022 foi iniciado o processo de construção do último conjunto de superfícies comerciais que colocarão um fim definitivo à existência da referida zona como um centro de vida selvagem e “tampão natural” para cheias e recarga de aquíferos.

Face ao facto do conhecimento que temos em 2022 ser muito diferente do existente e importância dada em 2009 para a proteção dos ecossistemas naturais, não apenas para a preservação das espécies, mas como meio de combate às alterações climáticas;

Face ao facto de nunca se ter efetuado um estudo de impacto ambiental como instrumento de avaliação para a concessão de qualquer licenciamento para construção na zona;

Face ao facto de ter sido realizado um trabalho de investigação em 2019, levado a cabo pela Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental do Algarve, ALMARGEM, em conjunto com outras entidades como a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, financiado pelo Fundo Ambiental, que resultou na identificação de 114 espécies de aves que utilizam a zona das Alagoas Brancas sobretudo para se alimentarem, nidificar e pernoitar; inclusive de espécies consideradas protegidas ou em perigo por diretivas europeias e portuguesas;

Face ao facto de que atualmente a contagem do número de espécies observadas na zona e registadas na plataforma internacional ebird.org ser já de 142;

Face ao facto da Associação Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, GEOTA, com o apoio do Laboratório de Geologia e Minas, ter apresentado o seu parecer em 2022 em que refere que do ponto de vista geomorfológico a área das Alagoas Brancas “constitui tipologia Reserva Ecológica Nacional como área estratégica de infiltração e de proteção à recarga de aquíferos e não deve ser impermeabilizada”;

Face ao facto de não ter sido cumprida a ordem do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para a suspensão dos trabalhos, o início das obras já causou a destruição significativa do coberto vegetal, margens e zonas alagadas e não só nenhum animal foi retirado do local, como muitos já foram enterrados vivos;

Face ao facto de que em Novembro de 2022 ter dado entrada no Tribunal Administrativo de Loulé uma providência cautelar, que prontamente se pronunciou com ordem para a interrupção das obras;

Os presentes peticionários requerem que este assunto seja discutido no Parlamento, com a maior celeridade a que o contexto da situação exige, com vista à publicação das seguintes recomendações dirigidas aos órgãos do poder local do concelho de Lagoa:

Que se encontre uma solução para o fim imediato a qualquer possibilidade de construção urbana na referida zona;

Que se faça a devida revisão do plano director municipal com vista à classificação das Alagoas Brancas como zona de importância ecológica local (ZPE, Convenção de Ramsar, Natura 2000), à imagem do que municípios algarvios como Loulé e Silves já fizeram em zonas com características e contextos similares.

Que os instrumentos financeiros nacionais e europeus existentes para projectos de conservação da natureza sejam utilizados para a necessária reabilitação das Alagoas Brancas, como um espaço de excelência para a observação da natureza e até reforçando o valor turístico já reconhecido internacionalmente antes do início da sua destruição.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Zonas húmidas: O que são e por que razão é tão importante protegê-las


As zonas húmidas, como o próprio nome indica, são áreas alagadas, permanentes ou sazonais, em que a água é o elemento central no funcionamento dos ecossistemas. Lagos, rios, pauis, charcos, pântanos, estuários e turfeiras são apenas algumas das tipologias de zonas húmidas.

Esta quinta-feira, dia 2 de fevereiro, assinala-se o Dia Mundial das Zonas Húmidas, uma efeméride das Nações Unidas desde o ano passado e que pretende alertar para a urgência e importância de proteger, restaurar e conservar estas áreas de grande relevância para a biodiversidade, para a regulação do clima, para o ciclo da água e para a mitigação dos efeitos das alterações climáticas.

Apesar de cobrirem apenas cerca de 6% da superfície do planeta, as zonas húmidas albergam 40% de todas as espécies de plantas e animais, que aí se fixam para viver e para se reproduzirem. Além disso, de acordo com o Conselho para a Defesa dos Recursos Naturais (NRDC), uma organização ambientalista nos Estados Unidos, as zonas húmidas armazenam nos seus solos uma quantidade de carbono equivalente às emissões geradas todos os anos por cerca de 189 milhões de carros.

Há mesmo quem lhes chame ‘Rins da Terra’. Só as turfeiras, por exemplo, absorvem duas vezes mais dióxido de carbono do que todas as florestas do mundo juntas. Contudo, as turfeiras, bem como “outras zonas húmidas com pouca representatividade à escala nacional, mas que albergam flora e fauna ameaçadas, estão fortemente pressionadas pela drenagem, pelo sobrepastoreio, pela extração excessiva de recursos hídricos”, contou à ‘Green Savers’ Nuno Forner da associação ambientalista Zero.

“Se tivermos em atenção todos estes serviços, podemos ter a noção de como a conservação das zonas húmidas e da biodiversidade associada é fundamental para as sociedades humanas serem resilientes às alterações climáticas”, explicou-nos também Ana Antão-Geraldes, Professora Auxiliar da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Bragança.

Por sua vez, Nuno Gomes Oliveira, Presidente da Direção da FAPAS – Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade, apontou que “há muito” que se sabe que as zonas húmidas desempenham um papel de relevo, por exemplo, na mitigação das cheias e na modelação do clima, além de serem ‘hotspots’ de biodiversidade.

“Sendo as zonas húmidas dos ecossistemas com maior biodiversidade e com maior concentração, por exemplo, de aves migratórias, a sua conservação é fundamental”, avisou o dirigente associativo, além de que “enquanto paisagens privilegiadas, dão dinheiro a ganhar às economias locais e nacional”.

Por isso, a sua degradação ou destruição terá consequências devastadoras para todo o planeta, incluindo para nós, humanos, e corremos o risco de transformar ‘cemitérios de carbono’ em fontes de grandes emissões.

Lamentavelmente, estima-se que entre 1700 e 2000 aproximadamente 80% de todas as zonas húmidas a nível global tenham desaparecido, e que cerca de 35% se tenham perdido só nos últimos 30 anos.

Entre as principais ameaças, disse-nos Ana Antão-Geraldes, está um “conjunto grande de causas interrelacionadas”, como a poluição, “o desordenamento territorial, a ineficiência hídrica (urbana, agrícola e industrial), o consumismo, as alterações climáticas”. E salientou que, acima de tudo, falta “conhecimento sobre a importância destes ecossistemas para a sobrevivência da humanidade” e que estão a desaparecer três vezes mais rápido do que as florestas, colocando em risco milhares de espécies de plantas e animais, incluindo nós.

Para inverter essa tendência de acentuado declínio das zonas húmidas, Ana Antão-Geraldes afirmou que é preciso “cumprir a legislação e as convenções que protegem estes ecossistemas”, mas acredita que o mais importante será mesmo “mudar mentalidades e consciencializar a população para a importância destes ecossistemas”.

“Sim, educar e informar é sem sombra de dúvida o mais importante”, defendeu.

A organização Geota reconhece que “é necessário manter o desenvolvimento económico e social”, mas tal pode ser feito de forma a “reduzir os impactos negativos da atividade humana nas zonas húmidas, recuperando a biodiversidade e as funções dos ecossistemas e melhorando o bem-estar humano e a resiliência face aos fenómenos de alterações climáticas”.

É por essa razão que considera que “urge uma mudança de paradigma face às alterações climáticas, à perda de biodiversidade (enfrentamos a sexta extinção em massa, e a primeira causada pelo Homem – o Homem é o cometa) e ao aumento da frequência dos desastres naturais”.

A Convenção de Ramsar sobre as Zonas Húmidas

Foi a consciência dessa importância incontornável para a saúde e sustentabilidade da Terra, e de todas as formas de vida que nela habitam, que levou os líderes mundiais no dia 2 de fevereiro de 1971, reunidos em Ramsar, no Irão, a adotarem a ‘Convenção sobre Zonas Húmidas de Importância Internacional, especialmente como Habitat de Aves Aquáticas’, que tem como principal objetivo conservar as zonas húmidas e promover o seu uso adequado.

No artigo 2.º da Convenção, os Estados signatários são obrigados a indicar pelo menos uma zona húmida no seu território para que seja incluída no que ficou conhecido como a ‘Lista de Ramsar’.

Essa lista passou a ser uma espécie de repositório de zonas húmidas escolhidas, pelos Estados, pela “sua importância internacional em termos ecológicos, botânicos, zoológicos, limnológicos ou hidrológicos”, sendo que a prioridade foi dada às “zonas húmidas de importância internacional para as aves aquáticas em qualquer estação do ano”.

Atualmente, mais de 2.500 zonas húmidas em todo o mundo fazem parte da ‘Lista de Ramsar’, com uma área total conjunta superior a 2,5 milhões de quilómetros quadrados, quase 27 vezes a área de Portugal continental. E os países continuam a indicar novas áreas, uma vez que a lista é aberta e dinâmica.

Ana Antão-Geraldes considera que a Convenção de Ramsar “é extremamente importante”, tendo começado por ser “um tratado para a conservação dos habitats das aves aquáticas e, com o tempo, passou a ser muito mais abrangente”. Sem essa convenção, o estado de conservação das zonas húmidas seria “bem pior”, disse-nos a docente universitária.

Zonas húmidas em Portugal
Portugal assinou a Convenção de Ramsar em setembro de 1980, pelo Decreto n.º 101/80, entrando em vigor a 24 de março do ano seguinte, e tem atualmente listadas 31 zonas húmidas, 79% de todas essas áreas que existem a nível nacional, num total combinado de 132.487 hectares: uma na região Norte, 6 na região Centro, 7 na região de Lisboa e Vale do Tejo, 4 na região Sul e 13 no arquipélago dos Açores. O Estuário do Tejo e a Ria Formosa foram as primeiras zonas húmidas portuguesas a entrar na Lista de Ramsar.

No entanto, Ana Antão-Geraldes, do Instituto Politécnico de Bragança, disse-nos que, à semelhança do que vemos no resto do mundo, as zonas húmidas em Portugal “são dos ecossistemas mais ameaçados e degradados”.

Mais de 40 anos depois de a Convenção de Ramsar ter entrado em vigor em Portugal, a avaliação feita pelos especialistas não é positiva.

“Quando se chega ao ponto de pensar em construir aeroportos e outras infraestruturas em zonas húmidas, quando se chega ao ponto de canalizar rios e construir barragens desnecessárias, e quando a comunicação social não consegue ligar inundações catastróficas à degradação e destruição de zonas húmidas, vemos que ainda há muito para fazer em termos de educação e ordenamento territorial para que estes ecossistemas possam ser alvo de medidas de conservação efetivas”, salientou Ana Antão-Geraldes.

Nuno Gomes Oliveira, do FAPAS, acredita mesmo que o estado de conservação das zonas húmidas em Portugal é “uma miséria”, apontando que “as pequenas zonas húmidas não têm qualquer tipo de proteção, e mesmo as grandes, com excecional valor paisagístico, turístico e para a biodiversidade, como a Ria de Aveiro, a Pateira de Fermentelos ou a Barrinha de Esmoriz, estão ao abandono, sujeitas à pressão imobiliária e outras atrocidades ambientais”.

No país, “as principais ameaças às zonas húmidas ocorreram no passado, quando se drenaram imensas e inúmeras zonas húmidas” e sublinha que “hoje essa drenagem continua, como é o caso das Alagoas Brancas, no município ironicamente designado ‘Lagoa’ e cujo nome irá mudar para ‘ex-Lagoa’”. Esta é uma referência a um projeto de desenvolvimento imobiliário no concelho de Lagoa que, de acordo com as organizações de defesa do ambiente, coloca em risco a zona húmida de Alagoas Brancas, uma das últimas de água doce da região algarvia, bem como diversas espécies de animais e de plantas que ocorrem nessa área.

“Outra das ameaças é a construção de passadiços que, supostamente valorizariam as zonas húmidas, mas só as degradam, como a aconteceu, por exemplo, na Barrinha de Esmoriz e no Paul do Taipal”, contou-nos o ambientalista, acrescentando que, apesar de Portugal ter 31 zonas húmidas na Lista de Ramsar “não se notam os resultados”, uma vez que no Estuário do Tejo, um desses locais, “até queriam fazer um aeroporto” e que “todo os pauis e o Sapal de Castro Marim estão muito perto do abandono e à pequena Reserva Natural do Paul do Boquilobo acertaram-lhe com o TVG em cima, com tanto espaço que havia ao lado”.

Para ele, “falha totalmente a gestão dos habitats e a fiscalização (e punição) dos usos impróprios e proibidos, falta promover a conservação da natureza, e não apenas desenhar áreas protegidas nas cartas geográficas”. A agravar tudo isso, relata-nos que “falta cultura aos decisores e vontade política para darem mais importância ao futuro do que aos favores do presente” e que os tribunais deveriam ser “mais atuantes, apesar, neste particular, das boas notícias dos últimos tempos”.

Nuno Forner, da Zero, disse que também “a extração desproporcionada de caudais”, em especial no Sul de Portugal, “a construção de barragens e outros aproveitamentos hidráulicos que promovem uma drástica alteração dos regimes naturais, a rutura na continuidade dos habitats fluviais, bem como a alteração dos fluxos de sedimentos, a poluição e proliferação de espécies exóticas invasoras são alguns dos exemplos de ameaças que que hoje afetam as zonas húmidas e, consequentemente, o fornecimento de serviços de ecossistemas”.

Embora “as massas de água artificializadas”, tais como as barragens, sejam consideradas zonas húmidas e representem 27% das zonas húmidas portuguesas na Lista de Ramsar, “o seu valor ecológico é diminuto e não compensa a perda de zonas húmidas naturais”, acrescentou. Apesar de essas zonas estarem legalmente protegidas, “os dados comunicados pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas à Comissão Europeia (no âmbito do Relatório dos Estados Membros sobre o estado de conservação de espécies e de habitats referente ao período 2013-2018) são preocupantes”.

Isto, porque se estima que “77% dos habitats relacionados com as zonas húmidas de Portugal e Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira se encontram degradados”, e que as turfeiras e habitats de água doce “estão em mau estado de conservação, o que demonstra que o Estado português tem falhado por inação na conservação de zonas húmidas, não bastando conferir uma figura legal de proteção a um determinado local”, pois isso “nem sempre significa uma garantia de conservação ou do seu uso sustentável”.

Por isso, devemos olhar para o futuro “com muita apreensão”, disse Nuno Forner, pois “as ameaças e pressão humana sobre estas áreas continuam a fazer-se sentir de forma muito acutilante”. O ambientalista disse-nos que “as zonas húmidas devem ser parte integrante do planeamento e gestão criteriosos dos recursos hídricos por parte das autoridades públicas” e devem ser contempladas no planeamento do território e das atividades económicas.

Dessa forma, “é urgente” que o Governo crie “planos que efetivamente salvaguardem estes espaços com programa de uso e restauro de zonas húmidas”, atribua “financiamento adequado” a projetos que pretendam “manter e restaurar zonas húmidas contribuindo para a melhoria do seu estado de conservação” e que defina “uma verba anual em cada orçamento do Fundo Ambiental para iniciar um programa de aquisição de áreas naturais importantes para a conservação, incluindo zonas húmidas”.

A Geota recordou-nos que “o Mediterrâneo perdeu aproximadamente 50% da área de zonas húmidas ao longo do século XX”, uma tendência que tem vindo a agravar-se. Em Portugal, “muitas espécies de água doce estão criticamente ameaçadas”, principalmente devido “à perda e fragmentação de habitat por ações humanas”.

Essa organização destacou “a grande pressão para a expansão da monocultura intensiva de regadio”, como uma das grandes ameaças às zonas húmidas, “incluindo por exemplo a recente decisão de construção da Barragem do Pisão”. E frequentemente, “a construção de reservatórios de água não compensa a degradação dos habitats, o declínio da biodiversidade, e a perda de serviços de ecossistemas assegurados por estas zonas húmidas”, disse-nos a Geota, lamentando que “não se pensa seriamente em alternativas”.

Quanto às zonas húmidas integradas por Portugal na Lista de Ramsar, a organização ambientalista acredita que “pouco adianta submeter no papel para proteção quando na prática, no terreno, as pressões e os interesses económicos se sobrepõem à proteção destas áreas naturais”.

A Liga para a Protecção da Natureza (LPN), a este respeito, defende que para combater as ameaças às zonas húmidas em Portugal, que “têm em comum o facto de as estarmos a tentar travar há décadas, ainda sem os resultados desejados”, é preciso “melhorar a gestão territorial e gerir de forma sustentável as águas ao nível das bacias hidrográficas”. E essa é uma luta que tem de ser travada “em várias frentes”: na educação e sensibilização, na conservação e monitorização, na gestão e na fiscalização, e, quando necessário e possível, na punição dos “responsáveis pela degradação e destruição, obrigando-os ao seu restauro ecológico”.

A organização avisa que “atingimos um ponto em que o que nos resta não é suficiente” e que, de facto, é “tempo de promover a renaturalização e a recuperação ambiental das zonas húmidas e áreas circundantes, envolvendo as comunidades locais nessas ações”.

Embora os país seja parte da Convenção de Ramsar, as zonas húmidas por cá são “um assunto preocupante”, pois “muitas áreas ainda enfrentam desafios significativos”.

A LPN avança que “as zonas húmidas em Portugal estão a perder área devido ao desenvolvimento imobiliário, à construção de barragens e a outras atividades humanas” e as suas águas “continuam a ser poluídas e estão a sofrer com a pressão turística, como é o caso do que estamos a observar no Paúl do Taipal, com a implementação de projetos mal concebidos que exercem um impacto significativo e injustificável sobre as espécies nativas que nelas encontram refúgio”.

“Embora Portugal tenha ratificado a Convenção de Ramsar há mais de 40 anos, ainda existem algumas falhas na sua implementação, que dificultam a efetiva proteção e conservação das zonas húmidas em Portugal. É preciso investir mais esforço”, referiu a LPN.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Miradouro da Porta do Inferno - Ilha São Miguel, Açores


Subi ao vulcão das Sete Cidades para contemplar a sua beleza do topo do miradouro da Porta do Inferno. As vistas são imbatíveis, as melhores da ilha, sobre lagoas, povoações e caldeiras vulcânicas. 

Neste local é possível observar, em simultâneo, mais do que uma lagoa, na zona das Sete Cidades. Na realidade são quatros as lagoas que poderá observar a partir do miradouro, nomeadamente: a Lagoa das Sete Cidades, a Lagoa Rasa, a Lagoa de Santiago e a Lagoa do Canário.

Para além das lagoas terá ainda uma vista privilegiada sobre parte da freguesia das Sete Cidades e da Serra Devassa.

Estive quase uma hora à espera que as nuvens permitissem a entrada dos raios solares que abrilhantam este lugar. Compensou. Os Açores é um dos lugares mais bonitos do mundo e só quem nunca viajou pode ter dúvidas.

Summary
My visit to São Miguel wasn´t complete without to climb to the Sete Cidades volcano to contemplate its beauty from the top of the Porta do Inferno viewpoint. The views are unbeatable, the best on the island, over lagoons, villages and volcanic calderas. I had almost an hour waiting for the clouds to let in the sun's rays that brighten this place. It paid off. The Azores is one of the most beautiful places in the world and only those who have never traveled can have doubts.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

1,9 biliões de pessoas estão em risco de escassez de água


O abastecimento de água doce do mundo está em grave perigo, de acordo com um estudo recente de 32 cientistas publicado na Nature. Eles analisaram o Water Tower Index, que classifica as torres de água totalmente naturais das cadeias montanhosas mais altas do mundo.

Com cada torre, a equipa avaliou as áreas de dependência a jusante dos ecossistemas e da sociedade. Eles analisaram o stress hídrico, as mudanças socioeconómicas, os climas futuros e as tensões hidropolíticas. Estas torres abastecem um número substancial de pessoas de todo o mundo.

Nas suas descobertas, eles concluíram que um quarto da população mundial está em risco. Aproximadamente, 1,6 biliões de pessoas nas serras e outros 0,3 biliões de pessoas podem ser afetadas a jusante, colocando o total de pessoas em risco em 1,9 bilião. Os glaciares e os níveis de neve estão a diminuir em altitudes mais altas em todo o mundo, como resultado direto do aumento das temperaturas globais.

Eles consideraram o Indo como a torre de água mais importante e vulnerável. Esta área de cordilheiras inclui as montanhas Karakoram, Hindu Kush, Ladakh e Himalaias. Estes fluem rio abaixo para as áreas densamente povoadas do Paquistão, Índia, China e Afeganistão. As pessoas aqui dependem muito desse abastecimento de água para a irrigação das plantações.

O Indo é a “torre de água” mais importante e vulnerável, de acordo com o primeiro inventário de fontes de água de alta altitude

Com o esperado aumento da população junto com o aumento das temperaturas globais, os cientistas concluíram que o planeta não consegue sustentar esse ritmo. Eles consideram que uma ação imediata é necessária para tentar impedir que a temperatura suba para os 1,9°C projetados.

Bethan Davies, da Royal Holloway University, um dos autores do estudo, comenta: “Isso não está acontecendo apenas nos Himalaias, mas também na Europa e nos Estados Unidos, lugares que geralmente não dependem das montanhas para as pessoas ou para a economia.”

O aumento das temperaturas globais está a afetar essas elevações mais rapidamente, fazendo com que os glaciares e a neve derretam e desapareçam.

“As alterações climáticas ameaçam todo o ecossistema montanhoso”, conclui o relatório. “É necessária uma ação imediata para salvaguardar o futuro das torres de água mais importantes e vulneráveis do mundo.”

Os cientistas disseram que a melhor maneira de ajudar nessa situação é reduzirmos as emissões de carbono. Se conseguirmos manter o aquecimento global dentro de 1,5°C, seremos capazes de reter 75% da neve das montanhas. Se falharmos em fazer isso e continuarmos a destruir o planeta, eles preveem que 80% serão perdidos até 2100.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Alagoas Brancas- um fim desolador


1- Ajude-nos a travar a destruição das Alagoas Brancas Começou há dias a destruição das Alagoas Brancas em Lagoa, no Algarve, pondo em risco não só os valores naturais locais mas também a própria segurança da população face a cheias e enxurradas. Para contestar esta ação ilegal, convocámos, juntamente com as organizações não-governamentais Associação Almargem, A Rocha Portugal, GEOTA, FAPAS, Liga para a Proteção da Natureza (LPN), Sociedade Portuguesa de Ecology (SPECO), Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal, e ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, e o movimento de cidadãos pelas Alagoas Brancas, uma marcha de protesto para o próximo sábado, 22 de outubro de 2022, às 17h, no Largo do Auditório Municipal Carlos do Carmo, em Lagoa.

Mesmo que não possa juntar-se à manifestação, pode ajudar a travar este atentado ambiental juntando-se aos mais de 6.650 cidadãos que já assinaram a petição pública contra a destruição das Alagoas Brancas: Assine e divulgue a petição.

2- Em defesa dos cágados, tribunal manda parar empreendimento nas Alagoas Brancas O Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé considerou procedente a providência cautelar interposta pelo Pessoas-Animais-Natureza (PAN) no passado dia 7 de Novembro e determinou a suspensão imediata dos trabalhos de construção de uma nova superfície comercial na zona das Alagoas Brancas, no concelho de Lagoa, acaba de anunciar aquele partido em comunicado.

3- Alagoas Brancas: quando a vida pode ser substituída por um retail park  As máquinas de construção foram obrigadas a parar, mas quem se aproximar das Alagoas Brancas, na cidade de Lagoa, no Algarve, confronta-se com um cenário desolador, de um espaço natural que está sob ameaça. Muita vegetação foi retirada e, apesar de já não haver máquinas no terreno, ficaram montes de terra revolvida, lixo disperso e novas acumulações de água que desnaturalizaram parte daquela zona húmida. É necessário olhar para lá da frente lamacenta para começar a observar, à distância, o movimento que atraiu pela primeira vez o biólogo alemão Manfred Temme às Alagoas Brancas, há quase 15 anos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Cidades-esponja. O que são e como podem ser resposta às cheias e secas em meio urbano

Parque Urbano da Várzea, Setúbal

Enquanto ainda se fazem contas ao prejuízo causado pelas duas vagas de cheias que afetaram várias zonas do país, com a Área Metropolitana de Lisboa à cabeça, há uma certeza de que ninguém duvida: o cenário de catástrofe provocado por fenómenos climáticos extremos vai repetir-se. E, apontam os especialistas, com uma intensidade e frequência cada vez maiores. Importa, por isso, alterar o comportamento reativo para uma atitude progressivamente mais preventiva. "Estamos num processo de perdas pós-enchentes, somos reativos. Há uma crise e reagimos, não fazemos planeamento", lamenta José Carlos Ferreira, doutorado em Ambiente e Sustentabilidade.

Ultrapassadas as dificuldades do momento, o professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-Nova) afirma que facilmente "nos esquecemos que estes fenómenos existem e que se estão a intensificar".

Responsável pela coordenação dos temas relacionados com a água na Associação Natureza Portugal (ANP/WWF), Ruben Rocha concorda com a ideia de que, ao nível da sociedade e dos decisores políticos, falta "capacidade de resposta a longo prazo", o que alimenta a continuação de um ciclo de eventos climáticos extremos, como os incêndios, a seca ou as chuvas intensas. "Falaremos novamente de seca quando começarmos a chegar a níveis muito baixos de água nas barragens", critica, enquanto pede uma mudança de paradigma no que à prevenção diz respeito.

Situações de inundações como as vividas nas últimas duas semanas "não são completamente novas", diz Pedro Nunes, que defende que "não podemos justificar tudo com base nas alterações climáticas". O ambientalista da Associação ZERO fala na necessidade de adotar uma visão holística dos desafios climáticos, que obrigam à implementação de políticas públicas desde o ordenamento do território à adaptação das infraestruturas urbanas para que se tornem mais resilientes.

Um dos fatores a considerar passa por incentivar uma ocupação mais equilibrada do país, revertendo os números anunciados pelo Censos 2021. De acordo com os dados definitivos divulgados em novembro, 20% da população portuguesa concentra-se em apenas 1,1% do território, sobretudo na zona litoral. "Isso acaba por ser um fator que contribui para que estas situações sejam mais graves, porque são, normalmente, zonas urbanas mais impermeabilizadas", justifica Pedro Nunes.

Os efeitos das alterações climáticas, que vêm agravar a intensidade e frequência de eventos extremos, não são facilmente reversíveis. Esses impactos podem ser mitigados através da descarbonização, mas os resultados só serão visíveis a longo prazo. "Mesmo que transformássemos a nossa vida de um dia para o outro, os efeitos continuariam cá. Mais do que mitigar, é preciso adaptar. Porque ou nos adaptamos ou sofremos", reforça João Carlos Ferreira.

O coordenador do mestrado em Urbanismo Sustentável e Ordenamento do Território da FCT-Nova acredita que a resposta está na alteração do modelo de desenvolvimento das cidades e na concretização de soluções que "transformem o território, ocupando-o de forma ecológica". Este caminho passa, sobretudo, pela alteração dos planos diretores municipais (PDM), para que evitem a construção em zonas de perigo, como em leito de cheias, mas também que integrem estratégias relacionadas com o conceito de cidade-esponja.

O termo foi cunhado pelo arquiteto paisagista e urbanista chinês Kongjian Yu e refere-se, essencialmente, a cidades ambientalmente adaptáveis que apostam em planos de gestão integrada da água. As soluções adotadas variam consoante a realidade hidrográfica das zonas urbanas e a sua configuração, mas podem incluir pavimentos permeáveis, jardins biodiversos e edifícios com coberturas verdes. É uma forma de "incorporar, de forma plena e holística, o ciclo da água no ordenamento dos espaços urbanos", explica Rafael Marques Santos.

O professor e investigador da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa detalha que o urbanismo sustentável permite "intervenções cirúrgicas" em áreas com "grandes erros estruturais", sempre com o objetivo de reduzir os impactos, por exemplo, em cheias. Umas são mais fáceis, outras mais complexas e dispendiosas, como demolições pontuais em zonas particularmente perigosas.

"Não vamos conseguir retirar toda a urbanização de Alcântara ou de Algés", aponta. Mas a criação de elementos de contenção é uma opção, desde logo com bacias de retenção nos pontos mais altos das cidades que "atrasem" a chegada da água, a grande velocidade, às partes baixas. O essencial, esclarece, é "olhar de forma muito atenta para a água numa perspetiva de todo o ciclo" e implementar medidas que cumpram dois objetivos de uma só vez - prevenir os riscos de momentos em que existe água em excesso, assim como atenuar situações de seca.

"Os edifícios podem ter espaços de cisterna para acumulação de água que podem ser úteis", afiança. Se em tempo de chuva intensa os edifícios conseguem guardar alguma dessa água e evitar que seja escoada para a rua, noutros momentos esse recurso pode ser usado para regas, lavagens e outros fins.

O mesmo poderá ser feito em estruturas municipais e há bons exemplos de como isso pode ser feito. Em Roterdão, nos Países Baixos, a Waterplein Benthemplein Waterplein Benthemplein é uma praça de betão usada durante todo o ano para atividades de lazer dos habitantes, mas é pensada para que em época de chuva intensa possa inundar e evitar a sobrecarga dos sistemas de escoamento da cidade.

Outra ferramenta complementar é a criação de jardins alagáveis, biodiversos e compostos por plantas com capacidade de absorção da água. Estes locais podem inundar e continuar a servir como espaço de recreio, bem como ajudar a refrescar as cidades durante o verão - exemplo disso são cidades como Taizhou, na China, ou Nova Iorque, nos EUA.

Em Setúbal, refere João Carlos Ferreira, o Parque Urbano da Várzea foi "muito eficaz nestas cheias", apesar de aquela cidade piscatória ter tido 30% mais chuva do que Lisboa. "Foi todo redesenhado para ser uma grande bacia de retenção e não inundar a Baixa de Setúbal. Esteve no limite, mas está a funcionar e a cumprir o seu propósito", atesta.

Ambientalistas, arquitetos e urbanistas concordam ser preciso agir, revendo os planos de ordenamento, criando estruturas verdes e multiusos nas cidades, mas, acima de tudo, implementando estratégias de longo prazo diversas e adaptadas à realidade de cada local. "Estes momentos de crise também servem para as adaptações necessárias", remata Rafael Marques Santos.