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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Dia Mundial dos Oceanos alerta para importância das áreas marinhas protegidas


O Dia Mundial dos Oceanos, que se celebra hoje, alerta para a importância de uma rede global de Áreas Marinhas Protegidas (AMP) que “restaure ecossistemas”, lembrando que “todas as nações dependem de oceanos saudáveis”.

Reconhecido pelas Nações Unidas desde 2008, o Dia Mundial dos Oceanos envolve mais de duas mil organizações em 180 países.

Este ano, a efeméride tem como tema “Áreas Marinhas Protegidas Robustas para o Nosso Planeta Azul”.

“Podemos acelerar o progresso e ajudar a criar uma rede global de Áreas Marinhas Protegidas que restaure ecossistemas, construa resiliência e inspire esperança para o futuro”, lê-se na mensagem que assinala a data.

Segundo o portal do Dia Mundial dos Oceanos, a criação de AMP “rigorosamente regulamentadas” será “essencial para transformar os compromissos globais em resultados reais de conservação” e alcançar a meta de proteção de pelo menos 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030.

Atualmente, à escala global, menos de 17% da área terrestre e apenas 8% dos oceanos estão protegidos.

Em outubro, Portugal previa antecipar para 2026 a meta de 30% de AMP, com a criação Reserva Natural Marinha D. Carlos, que cobre 173.000 quilómetros quadrados, abrangendo uma vasta cadeia de montes submarinos e planícies abissais entre Sagres e o Arquipélago da Madeira.

“Todas as nações dependem de oceanos saudáveis [para garantir] a estabilidade climática, a biodiversidade e o bem-estar humano. A proteção dos oceanos, incluindo o alto-mar, é uma responsabilidade partilhada”, acrescenta a mensagem do Dia Mundial dos Oceanos 2026.

Em janeiro entrou em vigor o Tratado do Alto-Mar, que estabelece o enquadramento legal para a designação de AMP em águas internacionais.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ondas de calor desencadeiam “relação tóxica” entre ervas marinhas e microrganismos


As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes devido ao aquecimento contínuo do planeta, são já consideradas das maiores ameaças atuais à biodiversidade dos mares e dos oceanos por toda a Terra.

Uma investigação recente revela que os efeitos desses fenómenos não se limitam apenas a gerar águas mais quentes, mas que causam alterações importantes nas relações entres seres vivos que podem ter consequências nefastas para todo o ecossistema.

Quatro cientistas das universidades australianas de Sydney e da Nova Gales do Sul dizem que o stress térmico causado pelas ondas de calor marinhas desencadeia uma “relação tóxica” entre as ervas marinhas e “um ecossistema oculto de bactérias” que com elas normalmente coexiste, num arranjo que beneficia ambas as partes.

Tal como os microrganismos nos solos em terra firme são fundamentais para a vida das plantas, ajudando-as a manter-se saudáveis e a adquirir nutrientes, também na água as bactérias que vivem no leito aquático desempenham um papel semelhante em relação às ervas marinhas. Essas são plantas que vivem na água do mar e que dão flor, podendo formar extensas pradarias que servem de refúgio a muitos animais, purificam a água e ajudam a sequestrar carbono.

No que descrevem como uma “experiência de jardinagem subaquática”, os investigadores encontraram um ecossistema bacteriano de grande diversidade no solo e em torno das raízes das ervas marinhas. Num artigo publicado na ‘New Phytologist’, explicam que o aumento da temperatura da água, como durante uma onde de calor marinha, faz proliferar bactérias conhecidas por produzirem ácido sulfídrico, um composto que dizem ser tóxico para as ervas marinhas e que pode limitar o seu crescimento.

“Embora as ervas marinhas possam, à primeira vista, parecer bem, o que encontrámos no subsolo, em condições de temperatura elevada, revela uma realidade bem diferente”, avisa Renske Jongen, primeira autora do estudo.

“Sob stress térmico, as comunidades microbianas em torno das raízes das ervas marinhas alteram-se de formas que podem prejudicar a planta em vez de ajudá-la.”

sábado, 14 de fevereiro de 2026

The Veins of the Earth


"It is not "water" that moves here,
but the mountain’s cold blood
seeking the lowest prayer.

The white rush of the stream
is the only clock that matters,
carving a dialogue between stone and gravity
long before we learned to speak.

Look at the moss—
those emerald lungs clinging to the bark.
The tree does not own the moss,
nor does the moss steal from the tree;
they are a single, breathing yes
to the dampness of the world.

We stand on the ridge,
clinging to our names and our borders,
while the ivy bridges the gap
between the root and the sky.

Under the floor of copper leaves,
the mycelium whispers in the dark,
proving that to be alone is an illusion
we invented to feel important.

The forest does not look at you.

It invites you to be quiet enough
to hear your own heart beating
in sync with the falling water,
until you can no longer tell
where the wood ends
and you begin. "

João Soares, 14.02.2026

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Documentário - Côa Mais Selvagem (Wilder Côa)


O lado mais selvagem de Portugal. A premissa não podia ser melhor. O documentário de natureza “Côa Mais Selvagem” dá exatamente a conhecer o lado mais selvagem de Portugal que é esta região do Grande Vale do Côa. 

Acompanhe a entusiasmante viagem do rio Côa, que corre de sul para norte, surpreenda-se com as suas paisagens de perder de vista, conheça a vida selvagem que o rodeia e que a ele está a regressar, e saiba como a Rewilding Portugal está a renaturalizar todo este grande corredor de vida selvagem nos últimos cinco anos. Uma paisagem onde os processos naturais são repostos, o ciclo da vida volta a estar completo e funcional e onde pessoas e vida selvagem coexistem de forma positiva e duradoura. 

Vencedor de vários prémios internacionais: Gold Medal in Wildlife Conservation (International Tourism Film Festival Africa 2025); 1st place in Green Movie (International Disaster Film Festival 2025); Best DOP Documentary (Fest5 International Film Festival 2025) and Best Wildlife Documentary (Xposure International Photography Film Awards).

Realizador: João Cosme
Produção: Fernando Teixeira | Rewilding Portugal 
Voz: Ana Varela 
Estúdio: Rádio Cova da Beira
Financiamento: Rewilding Europe, ELSP, LIFE - Comissão Europeia

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Portugal tem de adaptar-se aos fenómenos extremos


As alterações climáticas vão trazer cada vez mais fenómenos extremos a Portugal, diz o físico da atmosfera Pedro Matos Soares, que avisa que Portugal tem de mudar radicalmente, começando nas infraestruturas e acabando nos alertas.

Portugal Continental foi atingido, entre 22 e 28 de janeiro, por três tempestades consecutivas, Ingrid, Joseph e Kristin, a última das quais deixou pelo menos dez mortos e um rasto de destruição sobretudo nos distritos de Leiria, Coimbra e Santarém.

Em entrevista à Lusa sobre este “comboio de depressões”, o especialista explicou o fenómeno, mas não o relacionou com as alterações climáticas, salientando que estas estão e vão provocar no país cada vez mais fenómenos climáticos extremos, seja por exemplo episódios de chuva intensa seja de secas.

Devem os portugueses ter medo? Pedro Matos Soares diz que não. Mas acrescenta que devem lembrar-se de que a mudança no clima tem impactos diretos sobre as pessoas, as atividades económicas e os ecossistemas.

São as ondas de calor, os incêndios, as tempestades mais severas, recorda, afirmando: Em vez de paralisarmos com medo, temos é de fazer uma coisa mais inteligente, perceber que temos de dimensionar a nossa sociedade, no ordenamento do território, para salvaguardar as pessoas e a economia.

Pedro Matos Soares, professor e investigador principal do Instituto Dom Luiz, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, responsável da PHAIR-EARTH, uma “start-up” que faz projeções climáticas de alta resolução, identifica perigos e faz avaliações de risco, alerta que perante “mais extremos” climáticos é preciso “preparar a sociedade de uma forma diferente”.

Por exemplo nas estruturas, que têm de ser repensadas, que quer sejam novas ou reabilitadas terão de estar preparadas para um novo clima, de hoje ou dos próximos 20 anos e não do século XX.

“Quer dizer que nós temos que aumentar a resiliência das nossas estruturas”, com novos códigos de construção mais resistentes a precipitação extrema, telhados que resistam a vento extremo.

Nas palavras do especialista, isso aplica-se especialmente a “estruturas críticas”, da rede elétrica às escolas, a estradas ou pontes, bibliotecas ou mesmo igrejas e outros locais de encontro, que se forem bem reabilitadas, se forem resilientes podem ser “refúgios climáticos”.

Pedro Matos Soares defende planos locais de resposta acelerada para eventos extremos, que hoje não existem, porque a solução não é as pessoas receberem um SMS e “que se desenrasquem”.

As pessoas, quando recebem o SMS da Proteção Civil, deviam receber “imediatamente quais as recomendações para se protegerem, para protegerem os seus bens e, em última instância, onde é que se devem dirigir para estarem protegidas”.

“Para isso precisamos ter estruturas públicas, ou privadas, que tenham uma grande resistência a fenómenos extremos e que possam servir de refúgios”, diz.

Defendeu também mais educação e literacia, porque há pessoas a viver em leito de cheias sem o saberem. “Hoje temos tanta tecnologia e a informação não flui para as pessoas”, lamenta.

Aponta ainda que em Portugal não se percebeu o risco climático, não está mapeado o que é o risco climático destes diferentes extremos para os próximos 10 anos, 20 anos, 30 anos, apesar de toda a gente saber esse risco está a aumentar.

E isso impede o país de perceber como priorizar investimentos ou aumentar a resiliência de estruturas.

Diz ainda que também não há no país um “plano de recuperação pós-catástrofe”.

“Ficamos todos à nora, o Governo fica paralisado”, considera, enfatizando a necessidade de um sistema de alerta precoce, que avise por exemplo para uma onda de calor e explique o que as pessoas devem fazer e para onde ir.

É preciso uma sociedade mais preparada, ancorada no conhecimento e não apenas um SMS que não explica o que fazer em resultado dele.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Pretendem vender a Beira e outros territórios nacionais para serem a pilha eléctrica da Europa do norte



O primeiro flyer oficial já está pronto e pode ser impresso!

O que você pode fazer?

Compartilhe este post em todas as suas redes sociais, envie para seus amigos e use todos os meios digitais que tiver à disposição.

Leve a mensagem para o mundo real. Imprima flyers e cartazes – alguns poucos exemplares por conta própria, se puder. Ou peça apoio à sua administração local. Ninguém deve se comprometer financeiramente demais – mas se cada um fizer um pequeno esforço, podemos criar uma grande campanha.

Distribua os flyers nas ruas. Pergunte aos seus comércios e cafés favoritos se você pode deixar flyers ou colocar cartazes. Use o espaço público dentro dos limites legais. Cole um cartaz no interior do vidro do carro (onde não atrapalhe a visão). Incentive seus amigos a fazer o mesmo.

IMPORTANTE: Antes de imprimir, sempre verifique se o QR code funciona. Já circula um flyer onde isso não ocorre. Portanto, use apenas esta versão por enquanto. Nas próximas semanas, vamos lançar novos designs.

Claro, todos estão convidados a criar seu próprio design! A única solicitação: inclua o QR code correto. 
Sejamos criativos!

Mostremos solidariedade e senso de comunidade. Demonstremos força e determinação.
Vamos fazer Lisboa vibrar em 31 de janeiro!

Juntos somos fortes!

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Parecer negativo: Proposta de definição de âmbito da Central Solar Fotovoltaica da Beira


O meu texto na Consulta Pública
"Discordo da implementação da Central Solar Fotovoltaica de Sophia e das Linhas de Muito Alta Tensão associadas, pois o impacto ambiental e paisagístico em concelhos como o Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova é demasiado elevado face aos benefícios apresentados.
Isto é um crime ambiental! As duas centrais preveem o abate de cerca de 2.000 árvores "protegidas". Mas serão muitos milhares mais! As que não são protegidas não as contam! Em qualquer terreno da Beira Baixa, além dos sobreiros e azinheiras (espécies protegidas) há oliveiras. Muitas delas centenárias. É previsível que sejam arrancadas milhares delas. Iremos ter terras estéreis, de onde antes provinha um azeite de excelente qualidade. Além disso nidificam aves nessa região aves de relevância ecológica (águia-de-bonelli, abutre preto, águia imperial ibérica, águia real) e localiza-se perto do Parque Natural do Tejo Internacional.
Não existe "energia verde" à conta do extermínio do verdadeiro verde da vida, do abate de milhares de árvores, da destruição de ecossistemas, provável extinção de aves sensíveis já referidas e alteração grave de uma ZPE ambientalmente rica e, repito, muito sensível."
E anexei o parecer da SPEA.



sábado, 11 de outubro de 2025

Data de origem dos parques nacionais mais antigos da Europa

A ideia de parque nacional nasceu longe daqui — em 1872, com Yellowstone, nos Estados Unidos — mas foi na Europa que ela ganhou uma identidade própria: menos selvagem e mais humana, onde a natureza e a cultura se entrelaçam há séculos. 
Tudo começou em 1909, quando a Suécia criou os seus nove primeiros parques nacionais, entre eles Sarek e Abisko. Eram territórios de montanha e tundra, quase intocados, que simbolizavam o orgulho nacional e a necessidade de preservar paisagens únicas. Foi o nascimento oficial da conservação europeia moderna. 
Poucos anos depois, em 1914, a Suíça instituiu o seu Parque Nacional na Engadina — o mais antigo parque alpino e ainda hoje um exemplo de rigor científico. Em 1922, a Itália seguiu o caminho com o Gran Paradiso, criado a partir de uma antiga reserva de caça real. Um ano mais tarde nasceu o Parque Nacional dos Abruzos, reforçando a ideia de que proteger a natureza também é cuidar do património cultural e da vida rural. Nos Balcãs, o atual Parque Nacional do Triglav (Eslovénia) foi proposto em 1924, unindo montanhas, lagos e tradições locais — uma visão de natureza como paisagem vivida, não separada do humano. 
Depois da Segunda Guerra Mundial, o movimento expandiu-se: Reino Unido (1951), França (1963) e Espanha (1918, com Covadonga/Picos de Europa) integraram a rede de parques. A conservação deixou de ser elitista e passou a envolver o direito de todos a usufruir e proteger a natureza. A partir dos anos 1970, os parques nacionais tornaram-se também espaços de educação ambiental e sustentabilidade, com comunidades locais no centro das decisões. 
Hoje, a Europa conta com mais de 350 parques nacionais, cobrindo cerca de 1,3 milhão de quilómetros quadrados. São refúgios de biodiversidade, mas também laboratórios de convivência entre o humano e o natural — talvez a verdadeira marca do espírito europeu.

Fontes e referências
  1. Sveriges Nationalparker (oficial)
  2. Parco Nazionale del Gran Paradiso 
  3. Swiss National Park
  4. EUROPARC Federation 
  5. Terrestrial protected areas in Europe

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Áreas protegidas em risco na Europa. Trezentos hectares em Melides perdidos para grupo americano



A Europa está a perder áreas verdes a um ritmo de 600 campos de futebol por dia. Esses espaços, que antes abrigavam vida selvagem, capturavam carbono e forneciam alimentos, estão a desaparecer para darem lugar a novas construções, incluindo em Portugal. Uma investigação do jornal britânico The Guardian destaca o caso de Melides, onde um grupo norte-americano comprou quase três centenas de hectares para erguer um resort de luxo no qual várias personalidades estrangeiras já terão adquirido propriedades milionárias.

Pela primeira vez, replicando o que já acontece para medir a desflorestação na Amazónia, investigadores usaram imagens de satélite para avaliar a perda de áreas verdes na Europa ao longo de um período de cinco anos. O que antes era verde é agora cinzento devido à construção de estradas e edifícios, revelou o projeto Green to Grey, uma iniciativa do Guardian que contou com a colaboração de vários parceiros europeus.

Em Portugal, quase 300 hectares de área protegida em Melides, no município de Grândola, foram comprados pelo grupo imobiliário norte-americano Discovery Land Company para construir um resort e um campo de golfe.

O projeto CostaTerra Golf and Ocean Club, cujas propriedades rondam os 6,4 milhões de euros, ainda está em construção mas já terá casas vendidas a algumas celebridades estrangeiras, entre as quais a atriz Nicole Kidman, a duquesa de Sussex, Meghan Markle, e o seu marido príncipe Harry.

O grupo norte-americano que adquiriu os hectares de terreno decidiu, em 2021, encerrar o parque de campismo da Galé, que dava acesso à praia da Galé, em Melides, originando vários protestos ao longo dos últimos anos pelos antigos utilizadores do parque, que estava em funcionamento há várias décadas.

Toda essa área de Melides integra a Rede Natura 2000, uma iniciativa europeia que pretende assegurar a biodiversidade e conservar a natureza em zonas protegidas.

Os regulamentos europeus apenas preveem exceções ao desenvolvimento de projetos em áreas da Rede Natura 2000 em caso de interesse público superior. As autoridades portuguesas, incluindo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), aprovaram a construção do resort, com algumas entidades a destacarem os benefícios económicos que este trará.

No entanto, Ioannis Agapakis, advogado da ONG de direito ambiental ClientEarth, afirmou que um campo de golfe não preenche os requisitos ambientais. "É óbvio que não se trata de um interesse público superior", afirmou, já que "o simples facto de se encontrarem benefícios económicos num projeto não o torna de interesse público superior".

No seu site oficial, o resort CostaTerra promete “o luxo simples da vida europeia” na “última costa atlântica intocada do sul da Europa”.

Em comunicado, o grupo Discovery Land Company garantiu estar a desenvolver o CostaTerra “para ser um modelo de gestão ambiental e de sustentabilidade na região”, prometendo ser a “propriedade mais responsável do seu género”.

Segundo o Guardian, só a manutenção do campo de golfe, que ocupa 75 hectares, implica o consumo de cerca de 800 mil litros de água por dia.

“Todos os aspetos da propriedade, desde a conceção do campo de golfe, passando pelas práticas de gestão das águas pluviais e dos resíduos, até ao desenvolvimento e preservação do habitat e dos corredores de vida selvagem, foram concebidos para satisfazer ou exceder as normas da UE, incluindo as da Rede Natura 2000”, assegurou o grupo.

O projeto Green to Grey conclui que, em toda a Europa, cerca de 9.000 quilómetros quadrados de terreno - uma área equivalente à do Chipre - passaram da cor verde à cinzenta entre 2018 e 2023. Este número traduz-se em quase 30 quilómetros quadrados por semana, ou 600 campos de futebol por dia.

A análise abrangeu 30 países, cobrindo 96 por cento da área do Espaço Económico Europeu (EEE). Os cinco países com as maiores perdas de vegetação entre 2018 e 2023 foram a Turquia, Polónia, França, Alemanha e Reino Unido.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Contributo sobre o Manifesto por um Pacto Nacional pela Floresta e pelo Território

A SPECO e 23 outras ONGA enviaram para o governo um contributo sobre o manifesto que ainda continua aberto à subscrição individual e de grupo sobre a necessidade de se estabelecer um Pacto Nacional sobre a Floresta e o Território.



São 23 as Organizações Não Governamentais e/ou Associações de Ambiente que se juntaram à Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO) e assinaram este manifesto, que abaixo se junta, aberto à subscrição pública desde 25 de Agosto. Mais de 1500 cidadãos de diferentes quadrantes da sociedade, nomeadamente técnicos, professores, investigadores de laboratórios de Estado e de fundações, já o subscreveram.

Não podemos ficar parados. Cansámo-nos de esperar que as políticas estratégicas surtam efeito. Têm sido formadas comissões de estudo, disponibilizados financiamentos do PRR, do Fundo Ambiental, mas a acção continuada, a efectiva melhoria que se almeja para levar um pouco de dignidade e sustentabilidade ao Portugal interior tarda em concretizar.

Para além das povoações, também as Áreas Protegidas têm sido delapidadas e deixadas ao abandono. Depois de 1985 e 2017, 2025 foi já considerado o terceiro ano que afectou consideravelmente Áreas Protegidas, espaços que mereciam uma atenção redobrada pelo valor que representam, não só a nível nacional como europeu.

Precisamos de acção, já! Estamos dispostos a ajudar e a apoiar, a convocar a ciência, as empresas, os autarcas e as comunidades. Não podemos esperar por diagnósticos, novas comissões técnicas e independentes. As anteriores já diagnosticaram as causas e propuseram soluções, mas nada foi feito. Os erros perpetuam-se e o plano de ordenamento do território tarda em ser posto em prática.

É este apelo que as 22 ONGA transmitem ao Governo. Através deste Manifesto mostramo-nos disponíveis para apoiar um plano de acção que tenha efeitos directos no território. O ordenamento do território e a conservação da natureza nas suas Áreas Protegidas são as melhores ferramentas para o combate às alterações climáticas e para a sustentabilidade das populações do interior do país.

As organizações signatárias:



Leia o manifesto abaixo, e assine aqui.

sábado, 2 de agosto de 2025

A máfia do eucalipto

Fogo no parque da Peneda-Gerês já consumiu cerca de seis mil hectares (dados de 31 de Julho)

Por Nuno Gomes
Todos os anos, alguns com extrema gravidade, observamos a calamidade dos fogos florestais em Portugal. Portugal é o país da Europa que mais arde, tanto em termos absolutos como relativos, ultrapassando Espanha e Roménia por largos ha, com uma média anual de 155.000 ha ardidos. 
A tragédia de Pedrógão, em 2017, quando arderam mais de 500.000 ha, mais que em toda a Comunidade Europeia, lançou o alerta e foram identificados vários problemas no território, como o abandono florestal, o descontrolo urbanístico, o aumento da temperatura no Verão que torna a floresta mais inflamável e, claro, a expansão do eucalipto. A IA diz, com uma elevada carga de humor, que não é fácil plantar eucaliptos em Portugal. De facto foram estabelecidas regras e hoje não deveria ser possível plantar ou rearborizar eucaliptos sem autorização do ICNF, não se devia plantar em área de Rede Natura 2000, mas como se viu no Gerês é o que mais há por lá, a menos de 5 m do vizinho florestal ou de linhas de água temporárias (na prática as linhas de água de escorrência das encostas deviam ter faixas de 10 m sem eucaliptos), a 10 m dos terrenos agrícolas e linhas de água permanentes, e a 30 a 50 m das linhas de água navegáveis. 
E não se pode plantar onde não tenham existido eucaliptos nos últimos 10 anos. Contudo, o que se observa na prática é uma eucaliptação progressiva de Portugal, ultrapassando o eucalipto os 1,2 milhões de ha, a maior área florestal, que já pertenceu ao pinheiro-bravo, seguido do sobreiro. Qualquer pessoa pode na prática plantar eucaliptos nas suas propriedades sem regras porque o ICNF não fiscaliza, ou porque não tem meios ou porque os votos dos proprietários são importantes para os partidos no poder. 
Em breve, teremos um país totalmente eucaliptado, escarrando em todas as normas legais e do bom senso. E todos os anos teremos o drama de 2017 e deste ano, que só agora começou e ameaça tornar-se no pior de todos, com maior ou menor intensidade. 
Bastava que os eucaliptais que continuam a nascer ilegalmente tivessem mão pesada nas multas, que as celuloses fossem responsáveis e fizessem pedagogia nas suas próprias plantações e cumprissem as regras mínimas a que estão sujeitas, plantando, por exemplo, folhosas em todas as faixas onde os seus eucaliptos não podem estar, etc. 
Mas não, vivemos numa república das bananas onde as regras não são para cumprir mas para contornar. 
E não se pense que a máfia do eucalipto são as celuloses, são todos os que contornam as regras e aqueles que o permitem, ou seja, todos ou quase todos nós!

terça-feira, 17 de junho de 2025

Câmara de Loulé viabilizou construção de aparthotel numa recém-criada área protegida - Petição para assinar


A Câmara Municipal de Loulé viabilizou a construção de um aparthotel e de um estacionamento com 377 lugares dentro da Reserva Natural da Foz do Almargem-Quarteira, uma recém-criada área protegida. O aparthotel ficará situado a 600 metros da praia, numa faixa litora odne o mar já engoliu o antigo forte novo e onde três restaurantes se encontram à beira da derrocada.

O projeto foi criado em agosto de 2024, por proposta do município. Três meses depois, a autarquia deu um parecer favorável ao projeto da unidade hoteleira. Segundo o jornal Público, o projeto do aparthotel implica uma área bruta de construção de 21.500 metros dentro de um pinhal centenário.

Movimentos locais e ambientalistas já se mobilizaram numa petição com mais de 3.500 assinaturas para pedir aos municípios que trave as obras. Segundo estes, na discussão pública da aprovação da reserva natural, nada foi mencionado sobre os projetos imobiliários.

O espaço da reserva natural é um ecossistema que faz parte de uma zona húmida com 11 habitats naturais e seminaturais, numa abrangência de 135 hectares. Desde o início do ano que os movimentos locais denunciam a ocupação da reserva natural. Foi nessa altura que a construção de um restaurante levou ao abate de duas dezenas de pinheiros centenários.

Na petição, que pode ser assinada online, denuncia-se o cercamento da área privada, a movimentação de terras em larga escala, a destruição de vegetação nativa e a remoção de árvores não apenas no terreno do projeto, mas também fora dele, “comprometendo ainda mais o ecossistema da reserva”.

É também apontada a falta de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) atualizado que considere o novo estatuto da área protegida. Os movimentos esclarecem que o projeto “ignora espécies protegidas e habitats frágeis, comprometendo o equilíbrio ecológico da reserva”.

As exigências dos cidadãos passam pela suspensão imediata das obras do restaurante e do estacionamento, a realização de um EIA atualizado, a reconsideração da licença do hotel, a responsabilização dos órgãos envolvidos e medidas para assegurar a recuperação da área, porque “a natureza não se defende sozinha”.

A Almargem, associação de defesa do património cultural e ambiental do Algarve, reagiu às obras ainda em Maio, pedindo esclarecimentos às autarquias e solicitando a realização de uma reunião extraordinária da Comissão Diretiva da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal.

A associação considera "insuficiente" a resposta das autarquias e reafirma que continuará a acompanhar o processo "com firmeza".

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Dia Mundial do Ambiente - relatório da Pordata


Portugal ocupa a 3.ª posição entre os países da UE27 com as mais baixas emissões de gases com efeito de estufa. Em 2023, o valor per capita foi o equivalente a 5 toneladas de CO2, colocando-nos no pódio da União Europeia a competir com os países mais evoluídos em políticas de proteção ambiental, revela um estudo da Pordata baseado nos últimos números oficiais (2023), publicado hoje, 5 de junho, no âmbito do Dia Mundial do Ambiente. De acordo com o relatório, para este esforço contribui também a significativa redução das emissões de CO2 pelos carros novos registados em Portugal, passando-se de 169g por km em 2000 para 90g por km em 2023. Uma tendência comum aos países da União Europeia, com especial destaque para o top 6, onde Portugal está incluído: não só apresentam os valores mais baixos como são os que mais reduziram emissões desde o ano 2000.   

O estudo, porém, não traz apenas boas notícias. Em 2022, Portugal emitiu 2,24 gramas de partículas finas por cada euro de riqueza gerada pela indústria. Ou seja, o total de partículas finas emitidas para a atmosfera não conseguiu ser compensado pela riqueza gerada pela indústrias, nomeadamente as que mais contribuem para esta disparidade: a química e a dos produtos químicos, e a do papel e a de produtos de papel.   

Igualmente muito preocupante: mais de metade do lixo ainda vai, hoje, para aterro. Os resíduos urbanos, que incluem o lixo produzido pelas famílias, pelo comércio, restauração, empresas e entidades públicas, tem vindo a aumentar ao longo dos últimos 20 anos. Em 2023, ascenderam a 5,6 milhões de toneladas, correspondendo esse valor a uma média diária de 1,4kg por habitante (mais do dobro do registado em 1995). Números que deixam Portugal na 8.ª posição da UE27 entre os países com maior valor per capita na produção de resíduos municipais, um ranking liderado por Luxemburgo, Bélgica e Chipre. O estudo é claro: Portugal é dos países que conduz para aterro uma maior proporção de resíduos (54%), estando, desde 2020, entre os 10 países onde esta percentagem é mais elevada.  
 
O valor das renováveis  
Além da proteção do ambiente, a PORDATA analisa e reúne um conjunto de indicadores em outras três grandes áreas: produção, consumo e dependência energética; temperatura do ar e pluviosidade; configuração e proteção do território, fornecendo dados que ajudam avaliar a viabilidade de o país atingir as metas definidas pela União Europeia no âmbito do Pacto Ecológico Europeu (PEE), com horizontes temporais ambiciosos para 2030 e 2050.  

“O país está no bom caminho no que a esforços diz respeito”, diz ao DN Luísa Loura. A diretora da Pordata destaca “a diminuição das emissões de CO2 provenientes dos carros e nas renováveis”.  

De facto, na área energética, verifica-se que o país tem registado uma evolução significativa: desde 1990, a produção nacional de energia mais do que duplicou, impulsionada pelas renováveis, responsáveis, em 2023, pela produção de 35% - 16 pontos percentuais acima do registado em 2004- da energia consumida. No entanto,  Portugal produz apenas um terço das suas necessidades – e, desse, mais de metade destina-se à exportação.  Em 2023, consumimos 22 milhões de TEP, quase o dobro dos valores de 1990, o que resulta na maior taxa de variação face a 1990 entre os países da União Europeia. Ainda assim, o consumo per capita português está abaixo do europeu.  

Estando a produzir mais, apesar de termos de importar a quase totalidade do que consumimos, a dependência energética de Portugal tem vindo a reduzir-se: o último dado disponível indica 67% (eram 85% no início do século). Ainda ficamos acima da média europeia, ao lado de Espanha, Alemanha e Itália que, apesar de serem grandes produtores de energia, têm uma dependência energética de mais de 60%.  Lideram a lista dos mais dependentes Malta, Chipre e Luxemburgo. No lado oposto estão Estónia, Suécia e Roménia.   
 
Aquecimento de 2ºC na temperatura média do ar   
Há um claro padrão de aquecimento desde os anos 2000, tanto na temperatura mínima como na máxima. O estudo avaliou os registos das temperaturas nas estações meteorológicas de Bragança, Castelo Branco, Lisboa, Beja e Funchal para concluir que, quando agregados em termos de médias, revelam um padrão comum de aquecimento a partir do início dos anos 2000 face a anos anteriores, uma conclusão válida para a temperatura máxima, média e mínima. A diferença face à década de sessenta aproxima-se dos 3ºC em Bragança, para a temperatura máxima, e supera os 2ºC no Funchal, para a temperatura média.  

No que diz respeito à pluviosidade, os registos do número de dias sem chuva nas mesmas estações meteorológicas, divulgados no relatório, revelam que Bragança tem, em média, mais dias de chuva por ano que as restantes estações (em cada 3 dias, 1 é de chuva) e que é no Funchal que menos chove (em cada 5 dias, só 1 é de chuva). Em Lisboa chove em 30% dos dias, um pouco menos do que em Bragança.  

Contrariamente ao que se passa com a temperatura, o padrão temporal da pluviosidade não apresenta sinais de tendência sistemática nos mais de sessenta anos em análise. Para qualquer das estações consideradas, os períodos mais e menos chuvosos vão alternando.  É o caso de Lisboa: choveu relativamente pouco entre 2000 e 2009, os anos sessenta e setenta foram mais chuvosos e, entre 2020 e 2024, o número de dias sem chuva esteve em linha com a média.  
 
Mais terreno para arbustos, menos para agricultura  
Olhando o território, Portugal é dos países com mais terreno ocupado por arbustos, e dos que têm menos terreno para produção agrícola. As áreas artificializadas (com casas, estradas e outras construções) representam apenas 6,4% da superfície do país, segundo a Pordata, citando dados do levantamento feito pelo Eurostat em 2018, os últimos dados disponíveis.   
A floresta ocupa quase 40% do território e as terras para cultivo não atingem a quinta parte. Em percentagem de área terrestre protegida, Portugal ocupa a 12.ª pior posição da UE27.  “Uma situação que é claramente contrastante com o mar”, comenta Luísa Loura, sublinhando a importância marítima, na história e na economia do país.   

No mar, seremos os primeiros  
 No mar, Portugal poderá tornar-se o país da UE com maior extensão de áreas marítimas protegidas. Este aumento é reflexo das novas áreas do Parque Natural Marinho do Recife do Algarve - Pedra do Valado (156 km2) e da Revisão do Parque Marinho dos Açores (adicionais 252355 km2). Em setembro de 2025, com a entrada em vigor do diploma, Portugal terá protegido cerca de 19% da sua área marítima.  Estão em causa cerca de 300 mil quilómetros quadrados.   

A qualidade das praias costeiras é outro ponto positivo: Nove em cada dez praias costeiras têm águas com qualidade excelente. Em 2023, Portugal ocupava, em 2023, o 9.º lugar entre os 22 países da União Europeia banhados pelo mar. Uma situação oposta da que se observa nas águas balneares interiores, onde a posição de Portugal é a 6.ª pior. Com apenas 67% das praias fluviais e lacustres com água de qualidade excelente, Portugal figura entre os 11 países da UE27 em que essa percentagem é inferior a 70%.  

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Dia Mundial da Biodiversidade

24-hour armed guards protect the last remaining Northern White Rhinos

Uma recente fotografia viral de um guarda armado 24 horas sentado ao lado de um dos últimos rinocerontes brancos do norte na Reserva Ol Pejeta, no Quénia, trouxe esta situação crítica à tona.
Esta imagem emocionante destaca as medidas desesperadas tomadas para proteger estas majestosas criaturas da extinção.

Em Março de 2018, Sudan faleceu. Houve tentativas de reprodução assistida (fertilização in vitro) para tentar preservar a espécie, mas sem sucesso.

A população total estimada de rinocerontes brancos, incluindo rinocerontes brancos do sul e do norte, é de cerca de 17.464. Os rinocerontes brancos do sul são a subespécie de rinoceronte mais abundante. No entanto, o rinoceronte-branco-do-norte está criticamente ameaçado de extinção, restando apenas dois indivíduos.

Apesar da caça ilegal contínua, os esforços para salvar as populações de rinocerontes e elefantes da região continuam. O rinoceronte-branco-do-sul serve como um farol de esperança no campo da conservação da vida selvagem. Como subespécie distinta, testemunhou uma reviravolta notável, graças aos esforços conjuntos de governos e conservacionistas dedicados no Sul de África. Estavam quase extintos com uma população de menos de 100 indivíduos. No entanto, as medidas de conservação proativas e sustentadas conseguiram aumentar os seus números para mais de 16.000. Esta incrível recuperação é uma prova do que pode ser alcançado através de esforços estratégicos e da colaboração internacional.

Conclusão
A fotografia emocionante do guarda armado e do rinoceronte-branco-do-norte serve como um poderoso lembrete dos desafios e responsabilidades que enfrentamos na conservação da vida selvagem. Salienta a necessidade de vigilância contínua, financiamento e cooperação global para proteger os tesouros insubstituíveis do nosso mundo natural. À medida que assistimos à potencial extinção do rinoceronte-branco-do-norte, precisamos de garantir que o seu destino não se repete com outras espécies ameaçadas.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Qual a dimensão do património natural de Portugal?

A diversidade topográfica e edafoclimática do nosso país
permite uma multiplicidade de áreas com valor de conservação (mapa do continente).
Fonte (adaptada): Relatório Estado do Ambiente, APA, consultado em Abril 2025 (ICNF, 2024)

O património natural de Portugal inclui cerca de 35 mil espécies de animais e plantas, segundo a União Internacional da Conservação da Natureza (IUCN), citada na Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ENCNB 2030). Estes valores representam 22% da totalidade das espécies descritas na Europa e 2% das espécies mundiais.

As áreas portuguesas com valor de conservação e biodiversidade encontram-se integradas no Sistema Nacional de Áreas Classificadas – SNAC. Além de incluir as áreas classificadas como a Rede Natura 2000, o SNAC abrange também a Rede Nacional de Áreas Protegidas (RNAP) e outras áreas classificadas na sequência de compromissos internacionais assumidos pelo Estado português.

De acordo com o geocatálogo do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (consultado em março de 2025), existem no território continental 55 áreas protegidas:

Todas elas integram a RNAP e juntas correspondem a uma área de 816 mil hectares (dos quais 746 mil hectares de área terrestre), que ocupa cerca de 9% do território nacional.

Além destas tipologias de proteção, o ICNF refere ainda:
  1. 05 Sítios Natura 2000, com uma área de 4,5 milhões de hectares, dos quais 1,6 milhões de hectares em área terrestre;
  2. 6 Reservas da Biosfera, com 1,1 milhões de hectares, maioritariamente em área terrestre;
  3. 18 Sítios Ramsar, que se estendem por 117 mil hectares de área terrestre;
  4. e 4 Geoparques, que ocupam 836 mil hectares de área terrestre (em vez de quatro, a lista de Geoparques Mundiais da UNESCO, indicada por esta organização, refere cinco em território continental: Naturtejo da Meseta Meridional, Arouca, Terras de Cavaleiros, Serra da Estrela e Oeste, tendo este último sido integrado ainda em 2024).
No seu conjunto, estas áreas classificadas ocupam 3,1 milhões de hectares de área terrestre – 34,8% do território terrestre de Portugal continental – e 3,4 milhões de hectares de área marinha – 10,7% do território marítimo de Portugal continental. E não está ainda aqui considerado o Geoparque do Oeste.

Quanto à Rede Natura 2000, esta rede ecológica para o espaço da União Europeia (UE) integra cerca de 22% da área total terrestre nacional, da que acrescem uma área marinha de cerca de 10,7%. O país ocupa, a propósito, o 10.º lugar entre os 28 Estados-Membros da UE em termos de percentagem de área total integrada na Rede Natura 2000, realça a ENCNB 2030.

Os ecossistemas agrícolas e florestais ocupam cerca de 80% das áreas protegidas ou classificadas em Portugal continental, segundo a ENCNB 2030. O 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6, publicado pelo ICNF em 2019), que fornece um retrato mais focado na importância da área florestal para a biodiversidade, indica que a área florestal integrada no SNAC corresponde a 18,7% da floresta nacional e que 5,5% da floresta está incluída na RNAP, com várias espécies presentes.

Aproximadamente 25% da área florestal sob Planos de Gestão Florestal está englobada no SNAC, ou seja, em áreas classificadas e, por isso, sujeitas a Planos de Gestão da Biodiversidade, reforça o 5.º Relatório Nacional à Convenção sobre a Diversidade Biológica.

Património natural das regiões autónomas
Ao património natural continental somam-se ainda inúmeras áreas terrestres e marinhas nos arquipélagos dos Açores e da Madeira:

– Na Região Autónoma dos Açores, estão classificadas 24 Reservas Naturais, 10 Monumentos Naturais e 16 Paisagens Protegidas; 4 Reservas da Biosfera; 13 sítios Ramsar, 1 Geoparque e 40 áreas de Rede Natura 2000.

– Na Região Autónoma da Madeira, contabilizam-se o Parque Natural da Madeira (que abrange cerca de dois terços da ilha da Madeira), 4 Reservas Naturais, 2 Áreas Protegidas e a Rede de Áreas Marinhas Protegidas de Porto Santo.

quinta-feira, 28 de março de 2024

O contributo tecnológico que uma árvore pode ter para o planeta


Parece um processo altamente tecnológico, mas apenas envolve… plantas. As espécies vegetais absorvem e retêm carbono conforme o seu tamanho, fase de crescimento e ciclo de vida. É através da fotossíntese que plantas, como árvores, absorvem CO2 e emitem oxigénio. A existência de florestas – naturais ou bem geridas – contribui por isso para o arrefecimento de áreas urbanas, para o enriquecimento de áreas agrícolas e para sustentabilidade do planeta.

As mudanças climáticas estão na ordem do dia pelas piores razões: o aumento da temperatura e dos fenómenos climáticos extremos está a espalhar-se por todo o mundo.

No mês em que se comemorou o Dia Internacional das Florestas, a 21 de março, importa lembrar a importância das árvores no sequestro de CO2 e no armazenamento feito pelos produtos gerados a partir da madeira, caso seja essa a sua finalidade.

O relatório Emissions Gap Report 2023: Broken Record – Temperatures hit new highs, yet world fails to cut emissions (again) confirma que as temperaturas no mundo estão a aumentar relativamente aos níveis pré-industriais. E o papel das florestas é mais importante do que nunca. Estima-se, de acordo com o site florestas.pt, que o CO2 removido pela floresta à escala global tenha rondado os 15,6 mil milhões de toneladas (gigatoneladas ou Gt) de CO2 por ano, entre 2001 e 2019. À escala global, as florestas armazenam entre 662 e 861 gigatoneladas de carbono.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Teias de aranha capturam DNA ambiental de vertebrados terrestres


A rica tapeçaria da vida na Terra está a desgastar-se, em grande parte devido à perda de habitat causada pelo homem e às alterações climáticas. À medida que mais espécies desaparecem, os investigadores correm para acompanhar este declínio global da biodiversidade para compreender as suas consequências e combatê-lo através de iniciativas de conservação.

Esses esforços dependem de uma monitorização precisa dos animais, o que pode ser difícil, demorado e caro. Agora, numa nova investigação publicada na revista iScience, os investigadores apresentam evidências de uma nova ferramenta não invasiva e de baixo custo que pode ser usada para monitorizar animais: as teias de aranha.

Veja como as coisas funcionaram por um tempo: se você quisesse saber quais animais estavam em um determinado lugar, você caminharia ou entraria em seu habitat e esperaria para vê-los ou ouvi-los. Mas essa abordagem pode ter suas desvantagens.

“Se você entrar em um ambiente inóspito várias vezes para fazer pesquisas visuais”, diz Josh Newton, Ph.D. estudante de biodiversidade genética na Curtin University em Perth, Austrália, "isso é um pouco complicado".

Outro problema do monitoramento tradicional é que ele pode envolver a captura de animais. “Isso coloca estresse nos animais”, diz Newton. “Especialmente se você está procurando uma espécie rara e ameaçada de extinção, isso não é uma grande coisa – não é algo que você queira fazer.”

O DNA está em toda parte
Nos últimos anos, os cientistas recorreram a uma forma diferente de monitorizar a biodiversidade. Eles estão usando DNA ambiental, ou eDNA, que é simplesmente DNA de diferentes criaturas espalhadas pelo ambiente. Você pode pensar nisso como a versão ecológica de "tudo em todos os lugares ao mesmo tempo".

“Todas as espécies que existem num determinado ambiente, num determinado ecossistema – podem estar a morrer, a decompor-se, a urinar, a defecar, a respirar, o que quer que seja”, diz Morten Allentoft, biólogo evolucionista da Universidade Curtin. E esse conjunto de processos “facilita a liberação de células no meio ambiente, e todas as células contêm DNA”.

Os pesquisadores retiraram o eDNA de folhas e flores, filtraram-no da água, retiraram-no do ar e até o coletaram nas entranhas de besouros de esterco e nas refeições de sangue de sanguessugas.

Um dia, enquanto Allentoft caminhava ao redor do Lago Bibra em sua casa em Perth, ele notou nas árvores montes de teias gigantes que foram formadas por aranhas tecendo orbes douradas.

“Nos meus tempos de biologia, disseram-me que as teias de aranha [são] pegajosas”, diz ele com uma risada. "Você pode ver que eles estão bagunçados, estão sujos. E eu estava pensando comigo mesmo: 'Talvez essas teias de aranha [sejam] grandes filtros de ar passivos. Eles ficam lá por dias ou semanas - meses até. Eles podem muito bem estar capturando o DNA que [está] flutuando.'"

Trabalhos anteriores mostraram que as teias são boas fontes de DNA de insetos, incluindo o que as aranhas comem. Mas Allentoft e Newton queriam ver se as teias também retinham ADN de animais vertebrados, talvez levados para lá pelo vento ou depositados por insectos.

Cangurus e cangurus e outros animais.Meu Deus!
Então Newton dirigiu até o Karakamia Wildlife Sanctuary, uma floresta a cerca de 48 quilómetros de Perth, e coletou teias de aranha nos galhos e arbustos. “Se você olhar para Shrek, onde a princesa Fiona coleta fio dental de teia de aranha para Shrek, é muito semelhante a esse processo”, diz Newton. "Basta pegar um pedaço de pau e envolvê-lo."

Nenhuma aranha foi ferida ou coletada, mesmo que suas teias tenham sido desmanteladas. “Nós simplesmente os retiramos da web”, diz Newton.

É claro que não está claro o que as aranhas pensaram dessa abordagem.

“Então, quando dizemos que isto não é invasivo”, acrescenta Allentoft com um sorriso, “bem, as aranhas podem realmente não pensar isso”.

De volta ao laboratório, Newton amplificou as pequenas quantidades de DNA das teias. Eles estavam cheios de material genético de animais de Down Under.

“Foi maravilhoso”, diz Allentoft. "Podíamos ver esses cangurus [e] cangurus." Havia outros nove mamíferos, 13 espécies de pássaros, o sapo motociclista e o lagarto-olho-de-cobra. A análise da floresta também foi capaz de coletar DNA da raposa vermelha, do rato doméstico e do rato preto – espécies invasoras que não pertencem à Austrália.

Para confirmar que as teias estavam captando DNA de animais locais, Newton também coletou amostras no Zoológico de Perth. E essas teias continham DNA de 21 aves, cinco répteis, dois anfíbios e 33 mamíferos, incluindo girafas, elefantes, rinocerontes, orangotangos, lémures e suricatos.

Por outras palavras, a técnica funcionou. Representa uma nova forma de rastrear a biodiversidade animal e de nos alertar quando devemos intervir para conservar as espécies nativas e intensificar os esforços para eliminar as invasoras.

“Acho que é inteligente e fofo”, diz Elizabeth Clare, ecologista molecular da Universidade York, em Toronto, que não esteve envolvida no estudo. "É uma boa forma não invasiva de amostragem de vertebrados terrestres. Existem milhares de documentos em papel que estão a  estudar o movimento do DNA através da água e muito poucos na terra. E por isso precisamos realmente de mais explorações como esta para começar a diminuir a distância que o material viaja, como se acumula e quanto tempo duram estes sinais."

Por exemplo, Newton não sabe se as teias que coletou estavam no lugar há dias, semanas ou meses. Mas existem certas aranhas orbe que constroem uma nova teia todas as noites antes de destruí-la pela manhã. “Imagine que você pode obter DNA dessas teias de aranha”, diz Allentoft. “Então eles capturariam, em um momento muito preciso, quais espécies realmente existem no momento”.

A seguir, Newton e Allentoft investigarão o que a localização e a vida útil das teias de diferentes espécies de aranhas podem lhes dizer sobre quais animais estão rondando nas proximidades. É a versão deles da rede mundial de computadores – não menos cheia de informações importantes.

domingo, 17 de dezembro de 2023

Como e porquê instalar caixas-ninho para as aves?


Os meses de Novembro a Janeiro são a melhor altura do ano para a colocação de caixas-ninho para aves como chapins, carriças, trepadeiras ou pica-paus. Filipa Coelho e João Pires, da associação 30Por1Linha dizem-lhe o que precisa saber.

Porque é esta a melhor altura do ano para a colocação de caixas-ninho?
A colocação de caixas-ninho deve ser realizada, preferencialmente, entre os meses de Novembro e Janeiro, porque desta forma as aves têm tempo de se habituarem a elas e estas deixarem de ser um elemento estranho no habitat. Desta forma, na época de escolha do local para fazer o ninho, normalmente fim do inverno, início da primavera, as aves já estarão familiarizadas com estas estruturas e poderão aproveitá-las. 

Que espécies de aves podem aproveitar estas caixas-ninho?
As caixas-ninho poderão ser ocupadas por diferentes espécies de aves dependendo da sua forma, tamanho e diâmetro de entrada. Por exemplo, no que diz respeito ao orifício de entrada, as caixas-ninho com orifício circular com 25mm ou 28mm de diâmetro, poderão ter como “inquilinos” o chapim azul, o chapim real, a carriça, a trepadeira comum ou a trepadeira azul.  As caixas-ninho com diâmetros superiores poderão receber o pardal comum, o estorninho ou mesmo os pica-paus.

As caixas-ninho com um género de “janela” (em vez do orifício redondo) poderão ser utilizadas por piscos de peito ruivo, rabirruivo, melros ou tordos. 

Porque é importante colocar caixas-ninho?
Algumas espécies de aves aproveitam buracos de árvores antigas para fazerem os seus ninhos. No entanto, nos ambientes urbanos, as árvores mortas ou doentes são removidas por razões de segurança, diminuindo desta forma a disponibilidade de cavidades para as aves que têm assim dificuldades em encontrar locais disponíveis para a construção de ninhos e se conseguirem reproduzir. Também os edifícios antigos vão sendo recuperados, e a existência de fissuras disponíveis para as aves vão diminuindo. Nesse sentido, as caixas-ninho são consideradas uma boa solução para tentar reduzir o problema da falta de locais disponíveis ao abrigo e nidificação.

Onde podemos adquirir caixas-ninho? Ou podemos fazê-las nós próprios?
As pessoas poderão construir as suas próprias caixas-ninho, reaproveitando/reutilizando madeiras (ex: paletes), ou no caso de não serem muito habilidosos ou não terem tempo de as fazer, podem adquiri-las junto da 30Por1Linha, outras associações ou entidades que se dediquem a esta causa. Desta forma, estarão também a contribuir para que essas associações possam continuar a sua missão no que toca à conservação da natureza.

Importa frisar que as caixas-ninho não devem levar qualquer tipo de tratamento na madeira. A presença de cheiros fortes pode inviabilizar a ocupação do ninho e em alguns casos ser tóxico para as aves. Outra nota importante é que não deve ser colocado qualquer material sintético ou vegetal no interior, pois as próprias aves transportam o material que encontram disponível em meio natural para forrar o interior do ninho. No final da época de reprodução, em meados de Agosto ou Setembro, é importante limpar a caixa-ninho e voltar a colocá-la no local para que esteja disponível na próxima época de reprodução.

Quais os melhores locais para colocar as caixas-ninho?
As caixas-ninho podem ser colocadas em árvores, postes ou edifícios, se possível a mais de dois metros de altura do chão, de modo a evitar predadores. Devem ficar viradas a sul e a leste, de forma a estarem protegidas dos ventos dominantes de norte ou oeste. Ter atenção para não colocar em locais com exposição prolongada à luz solar directa para que não aqueçam muito. Colocar o mais protegidas da chuva possível para aumentar a sua durabilidade. 

O que podem as pessoas fazer para ajudar as aves no Inverno?
Para além da colocação de caixas-ninho, no Inverno também poderemos construir comedouros para disponibilizar alimento às aves, uma vez que esta época do ano, devido às baixas temperaturas, há uma disponibilidade alimentar mais baixa como por exemplo de sementes e insectos. Nos comedouros poderemos colocar uma mistura de sementes como girassol, sésamo, trigo, milho e amendoins (sem sal e sem serem tostados). Não colocar alimento em excesso para não atrair predadores. O comedouro deverá ser colocado num local seguro de predadores e ter uma protecção para a chuva e assim o alimento não se molhar.

Quem tiver quintal com jardim poderá optar por espécies arbustivas que dão bagas no outono/inverno – como o pilriteiro, a murta ou a aroeira – para as aves se alimentarem. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Mamíferos procuram as florestas (que ainda existem) para fugir ao calor

Urso a arrefecer-se numa ribeira no Parque Nacional de Yellowstone (EUA)

A presença de vegetação, especialmente de árvores, tende a reduzir a temperatura sentida. Não é por acaso que nas estratégias de adaptação das cidades aos efeitos das alterações climáticas medidas para aumentar a cobertura arbórea surjam frequentemente.

Se isso é verdade para os humanos, é também para outros mamíferos. Uma investigação norte-americana, divulgada esta semana na revista PNAS, revela que animais como pumas, lobos, coiotes, ursos, coelhos e veados tendem a frequentar mais as florestas e a evitar cidades, zonas agrícolas e áreas com forte presença humana em regiões mais quentes.

Conduzido na América do Norte, o estudo indica que, em zonas onde as temperaturas sejam mais elevadas, esses mamíferos têm 50% mais probabilidades de ocuparem florestas longe dos humanos do que espaços abertos. E o contrário acontece em regiões mais frias.

Mahdieh Tourani, da Universidade do Montana e primeira autora, explica que “diferentes populações da mesma espécie respondem de forma diferente ao habitat consoante o local onde estão”. Por isso, aponta que o clima é a causa dessas diferenças.

Os investigadores dão o exemplo do coelho da espécie Sylvilagus floridanus, ou coelho-da-Flórida, que dizem preferir florestas em áreas mais quentes e áreas agrícolas em regiões mais frias.

Com este trabalho, os cientistas consideram que fica claro que não é possível simplesmente ‘arrumar’ as espécies em categorias que as definem como vivendo bem em áreas com presença humana ou não. Ao invés, defendem que existe uma “flexibilidade ecológica” mesmo entre populações da mesma espécie e que é preciso ter isso em conta quando se fala de conservação da biodiversidade.

Defendendo que não existe uma ‘solução de tamanho único’ para preservar espécies, os autores argumentam que se podem estar a ignorar medidas de conservação possivelmente indispensáveis para impedir a sua extinção.

“Por um lado, se assumimos que as espécies serão sempre capazes de viver ao nosso lado, então poderemos estar a desperdiçar esforços a melhorar o valor de conservação de paisagens dominadas por humanos em áreas onde está simplesmente demasiado calor para as espécies”, avisa Daniel Karp, da Universidade da Califórnia e outro dos autores.

Como tal, a conservação da biodiversidade, dizem, não poderá limitar-se a áreas protegidas e deve adotar uma visão mais ampla, abrangendo também áreas ocupadas por humanos, como quintas, pastagens e até mesmo espaços urbanizados.

No contexto do avanço das alterações climáticas, os investigadores dizem que “extremos de temperatura quente (…) tornar-se-ão ainda mais frequentes e extremos” e podem “constranger ainda mais as distribuições das espécies e comprometer os esforços para conservar a biodiversidade em paisagens dominadas por humanos”.

Ainda assim, acreditam que se forem bem geridos, espaços como zonas agrícolas podem tornar-se “refúgios microclimáticos” para vários animais, mantendo porções de vegetação nativa, cobertura arbórea e sebes naturais, “especialmente em locais que se tornarão mais quentes com as alterações climáticas”.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

O que ninguém diz sobre o novo aeroporto de Lisboa


Hoje, dia 6 de Dezembro de 2023, o velho aeroporto de Lisboa está saturado. Suponho que amanhã também estará, assim como para a próxima semana e possivelmente no próximo ano (já sem tantas certezas). Contudo, depois não sei.

O que eu aprendi nos estudos que fiz sobre obras de vulto foi que é necessário cenarizar o futuro. Atenção, cenários não são predições, nem são truques de astrologia – são futuros plausíveis!
No desenvolvimento dos cenários são utilizados modelos quantitativos e análises qualitativas. São simulações de sistemas multivariados que permitem perceber tendências.
Ou seja, quais as tendências do tráfego aéreo nos próximos 10-30-50 anos.
À partida ter-se-ão que avaliar todas as hipóteses: (a) o tráfego aéreo vai aumentar? (b) o tráfego aéreo vai manter-se? (c) o tráfego aéreo vai diminuir? e (d) a que velocidade?

Quais as variáveis que condicionam o tráfego aéreo?
A elaboração dos cenários que estão em cima da mesa baseia-se nas actuais condições e tendências e essas apontam claramente para um rápido aumento do tráfego aéreo.
Mas a questão não é linear e um estudo sério deverá considerar outros cenários hipotéticos que levem em conta outras variáveis plausíveis. Dou apenas um exemplo que tem a ver com as alterações climáticas que são uma realidade dramática.
Os acordos internacionais sobre a redução da emissão de gases com efeito de estufa são manifestamente insuficientes para retardar de forma significativa os efeitos do aquecimento global: alterações do calendário agrícola, alterações biogeográficas, alterações demográficas, conflitos territoriais, fomes, secas, cheias, aumento da frequência de acontecimentos imprevisíveis, subida do nível do mar particularmente acentuada no Atlântico, etc..
A breve prazo, a fim de evitar o descalabro ambiental e o social dele decorrente, novos acordos muito mais draconianos terão de ser assinados. A redução significativa de gases com efeito de estufa será feita, de forma significativa, à custa da redução do tráfego terrestre e aéreo.
Serão impostas quotas de tráfego e tudo leva a crer, importantes ao nível do tráfego aéreo. A decisão é simples: ou temos planeta, ou o destruímos a uma velocidade estonteante.
Portanto o que é espectável, em alternativa ao suicídio planetário, é uma diminuição significativa do tráfego aéreo. Isto leva de novo à questão: justificar-se-á um novo aeroporto?
Obviamente que isto é mau para uma economia de acumulação cada vez mais baseada no turismo (e não directamente no trabalho) como a nossa. Porque numa primeira fase a única forma que o sistema económico tem de cumprir acordos de diminuição de tráfego aéreo será tornar os preços das viagens proibitivos. Volto a questionar: justificar-se-á um novo aeroporto?
A minha resposta não é um não imediato. É, simplesmente, que faltam estudos sérios, honestos, que considerem os vários cenários plausíveis e que fundamentem a necessidade (ou não) da obra.

E coloca-se a questão central do Impacto ambiental.
Claro que há estudos de impacto ambiental honestos e também desonestos. Conheço exemplos de ambos os tipos.
Um estudo de impacto ambiental do presumível novo aeroporto, obrigatoriamente, vários capítulos. Logo o primeiro deverá incidir sobre a própria obra: o impacto da construção de estaleiros, o impacto do tráfego de camiões (ou outros meios) para transporte de materiais, o impacto da própria obra, depois o levantamento dos estaleiros, depois o próprio tráfego aéreo em função da época do ano (por exemplo, será diferente o impacto durante a nidificação das aves do impacto durante as migrações e do impacto durante o inverno, etc.), depois o impacto do transporte de passageiros ou de mercadorias para os seus destinos (não imagino que, por exemplo os turistas, venham fazer turismo exclusivamente para o Alcochete ou trincar bifanas para Vendas Novas)… e, um dia, o impacto da desactivação do aeroporto (para quem não sabe as regras aconselham).