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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Peter Singer- Libertação Animal

E-livro aqui

Como muitos dos debates internacionais que animam a opinião pública, as universidades e os intelectuais dos países mais desenvolvidos, o problema dos direitos dos animais tem passado despercebido em Portugal. Temos até o caso de Barrancos a lembrar-nos até onde a crueldade portuguesa pode ir em nome da tradição (como se qualquer tradição, só por ser uma tradição, devesse ser respeitada — afinal, também a escravatura era uma tradição milenar e foi abandonada). Com a publicação em Portugal da obra Libertação Animal, de Peter Singer, a Via Óptima vem dar aos portugueses a possibilidade de participar no debate internacional de ideias e de repensar algumas das suas convicções mais enraizadas. Esta obra foi originalmente publicada em 1975 e foi responsável pela vitalidade dos mais importantes movimentos em prol dos direitos dos animais. A edição a que agora temos acesso em português, traduzida por Maria de Fátima St. Aubyn, é a edição revista de 1990.

O livro tem 6 capítulos, dois prefácios (referentes às edições de 1975 e de 1990), três apêndices e várias fotografias ilustrativas do modo como os animais são tratados. Os apêndices apresentam uma útil bibliografia comentada, indicações que ajudam a viver sem pactuar com a crueldade para com os animais, e ainda uma listagem de organizações que, um pouco por todo o mundo, lutam contra o modo como tratamos os animais. O editor português incluiu nesta lista, e bem, referências a organizações congéneres portuguesas.

O primeiro capítulo é semelhante ao capítulo 2 da obra Ética Prática e tem por título "Todos os animais são iguais". Trata-se de discutir a ideia de igualdade e de mostrar que restringir esta ideia aos seres humanos é uma forma de "especismo" — um preconceito indefensável e semelhante em tudo ao racismo. A ideia de igualdade é muitas vezes mal compreendida pelo grande público. Pensa-se que as mulheres e os negros ou os ciganos têm os mesmos direitos que as outras pessoas por serem iguais às outras pessoas. Mas isto esconde ainda uma forma de racismo e de sexismo. Em primeiro lugar, os homens são muito diferentes das mulheres: têm sexos diferentes. Mas daí não se segue que os direitos das mulheres se subordinem aos direitos dos homens. Em segundo lugar, é óbvio que há pessoas mais inteligentes que outras. Newton ou Einstein ou Descartes foram mais inteligentes do que a maior parte de nós; mas daí não se segue que tenham mais direitos do que nós. Em conclusão: não é por os ciganos, negros, etc. serem iguais aos outros seres humanos que têm os mesmos direitos. É verdade que são realmente iguais, em termos genéricos, nomeadamente quanto à inteligência; mas mesmo que não fossem, isso não determinaria que tivessem menos direitos. Afinal, um deficiente mental não tem a mesma inteligência de uma pessoa normal, mas não deve ser discriminada por isso.

Quando compreendemos a igualdade correctamente, compreendemos que é difícil não a alargar aos outros animais; discriminar com base na espécie é tão aleatório como discriminar com base na etnia ou no sexo. O que é moralmente relevante para ter direitos é a possibilidade de sofrer. Dado que os animais podem sofrer, têm direitos. No primeiro capítulo, Singer procura mostrar que a correcta compreensão da noção de igualdade implica que os animais têm direitos, respondendo a muitas das objecções que é comum levantar neste ponto do debate: será que os animais sofrem realmente, ou serão meros autómatos incapazes de sentir dor por não terem alma, como defendia Descartes? Será que faz sentido falar de direitos dos animais quando eles não têm sequer a noção do que é um direito? Singer responde com imparcialidade, rigor e bonomia a estas e outras objecções.

O segundo capítulo, intitulado "Instrumentos para a investigação" apresenta a realidade das experiências científicas com animais. Tanto este capítulo como o seguinte baseiam-se em ampla documentação. O autor conduziu uma investigação sobre o modo como os animais são usados na investigação científica — e os resultados são surpreendentes. A ideia que se tem geralmente é que as experiências com animais permitem avanços importantes em medicina, o que ajuda a salvar vidas humanas. Isto é falso. Grande parte das experiências científicas com animais são levadas a cabo por psicólogos que estudam o comportamento dos animais em situações anormais. Por exemplo: colocam um cão vivo numa espécie de forno, o qual aquecem lentamente até o cão morrer por ser incapaz de suportar o calor. Dão choques eléctricos a ratos e cães, para determinar como reagem a situações de dor permanente. Grande parte deste capítulo consiste em descrever experiências deste género, com base nos relatórios publicados nas revistas da especialidade.

Além de grande parte das experiências com animais levadas a cabo pelos cientistas ser perfeitamente irrelevante para o progresso do conhecimento, não é também verdade que algumas experiências sejam determinantes para salvar vidas humanas. Na verdade, nunca tal coisa aconteceu; e o contrário está mais próximo da verdade. Alguns avanços médicos cruciais que salvaram milhares de vidas jamais teriam sido alcançados caso se baseassem em experiências com animais: "a insulina pode provocar deformações em coelhos e ratos pequenos, mas não nos seres humanos. A morfina, que actua como calmante nos seres humanos, provoca delírios em ratos" (p. 53). E a penicilina é tóxica para os porquinhos-da-índia.

A maior parte das pessoas que defendem os direitos dos animais estarão dispostas a concordar com os argumentos do autor até chegarem ao capítulo 3, intitulado "Visita a uma unidade de criação intensiva". Neste capítulo descreve-se a forma como os animais que comemos são tratados pelas modernas unidades de criação intensiva e o sofrimento a que são sujeitos. E é aqui que começam as dificuldades para o defensor dos animais, pois agora não se trata só de uma opinião sobre coisas que não o afectam; para ser consequente, o defensor dos direitos dos animais terá de deixar de comer animais, dado que é o nosso gosto por carne e peixe que determina o modo como os animais são tratados. O modo como as galinhas, os porcos e as vacas são tratados nas unidades de criação intensiva é descrito de forma imparcial, com base nas revistas da especialidade.

Dada a forma como os animais são tratados para produzirem carne, ovos e leite, que pode o defensor dos direitos dos animais fazer para ajudar a resolver a situação? O tema do capítulo 4, "Ser vegetariano", defende um estilo de vida vegetariano como resposta a esta questão, para que o defensor dos direitos dos animais não seja hipócrita e inconsequente, defendendo com palavras o que contraria nos seus actos: "É fácil tomar posição acerca de uma questão remota, mas os especistas, como os racistas, revelam a sua verdadeira natureza quando a questão se torna mais próxima. Protestar contra as touradas em Espanha, o consumo de cães na Coreia do Sul ou o abate de focas bebés no Canadá enquanto se continua a comer ovos de galinhas que passam as suas vidas amontoadas em gaiolas, ou carne de vitelas que foram privadas das mães, do seu alimento natural e da liberdade de se deitarem com os membros estendidos, é como denunciar o apartheid na África do Sul enquanto se pede aos vizinhos para não venderem a casa a negros" (p. 152).

Surpreendentemente, há ainda outras razões para abandonar o consumo de carne. A produção intensiva de animais para abate é, em termos ecológicos, um disparate. "São necessários cerca de 11 kg de proteínas em ração para produzir o 1/2 kg de proteína que chega aos seres humanos. Recuperamos menos de 5 % daquilo que investimos" (p. 155). As fezes dos animais que são produzidos para abate contribuem em larga medida para o efeito de estufa; as urinas contaminam os solos e os lençóis subterrâneos de água. A água é consumida em grandes quantidades pelos animais para abate, contribuindo assim para o esgotamento progressivo das reservas de água potável. "A água necessária a um boi de 500 kg faria flutuar um contratorpedeiro" (p. 157). Os animais para abate são alimentados com rações que são produzidas a partir de cereais que os seres humanos podem consumir directamente, de forma muito mais vantajosa. "Se os americanos reduzissem o seu consumo de carne em 10 % durante um ano, libertariam pelo menos 12 milhões de toneladas de cereal, que […] seria suficiente para alimentar 60 milhões de pessoas" (p. 156).

O capítulo 5, intitulado "O domínio do Homem" procura dar conta das origens históricas do especismo. O pensamento grego, romano, islâmico e cristão é profundamente especista — coloca os animais fora da consideração moral, tratando-os como meros objectos inanimados. A ideia de ver um animal a sofrer e de explorar o seu comportamento nessa situação tem raízes antigas, subsistindo ainda nos dias de hoje em espectáculos como a tourada. Peter Singer acompanha a história do especismo, que começa a tornar-se cada vez mais difícil de sustentar, sobretudo depois de Darwin. Mas trata-se de um preconceito de tal modo enraizado que mesmo T. H. Huxley, um dos maiores defensores do darwinismo, compreendendo que não há um fosso biológico entre nós e os outros animais, continua a acreditar nele, resistindo à refutação do especismo. Mas "a resistência à refutação é uma característica distintiva de uma ideologia. Se os fundamentos de uma posição ideológica lhe forem retirados, encontrar-se-ão novas construções ou, então, a posição ideológica permanecerá suspensa, desafiando o equivalente lógico da lei da gravidade" (p. 197).

O capítulo final do livro, "O especismo hoje", apresenta objecções e respostas à causa dos direitos dos animais e alguns dos resultados prometedores a que já se chegou. Diz-se por vezes que os animais não podem ter direitos porque não têm deveres nem entendem o que é ter direitos. Mas os deficientes mentais e os bebés também não têm deveres nem compreendem o que é ter direitos — e no entanto têm direitos. Afirma-se também por vezes que os seres humanos não podem passar sem comer carne; mas isto é pura e simplesmente falso, como o atestam os milhões de vegetarianos saudáveis em todo o mundo. Também se coloca por vezes a questão de saber por que motivo nos devemos coibir de matar os animais para comer, se os animais se matam uns aos outros com o mesmo fim. Mas ninguém acha que podemos matar outros seres humanos para comer, apesar de sabermos que os animais matam seres humanos para comer se tiverem oportunidade de o fazer.

Libertação Animal é uma obra de leitura obrigatória. Pela clareza, seriedade e honestidade. Pelo rigor lógico. Pela inteligência dos seus argumentos. Está de parabéns a Via Optima. E quando uma editora está de parabéns, somos todos nós que ganhamos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Cartaz do PAN perfeitamente estúpido


A atividade tauromáquica recebe todos os anos 19 milhões de euros do Estado, dinheiro que é de todos os contribuintes, ao invés de serem canalizados para a verdadeira cultura ou para a promoção do bem-estar animal.
Por muito que não apoio a tauromaquia, fazer amor não tem nenhuma relação com a tortura. O PAN em queda-livre.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

"As Vidas dos Animais" de John Coetzee

Publicada originalmente em 1999, a obra "A Vida dos Animais" (The Lives of Animals) afirma-se como um dos textos mais singulares e influentes de J.M. Coetzee, tendo surgido a partir das Tanner Lectures on Human Values que o autor proferiu na Universidade de Princeton entre 1997 e 1998. Em vez de seguir o formato de um ensaio académico tradicional, Coetzee optou pela estratégia da metaficção, criando a personagem Elizabeth Costello, uma romancista idosa que, ao ser convidada para dar uma palestra, utiliza esse espaço para proferir um discurso visceral e perturbador sobre o tratamento humano dado aos animais. Esta estrutura permite a Coetzee utilizar a literatura para testar os limites da razão, com Costello a argumentar que a filosofia ocidental padece de uma obsessão pela "razão" como único critério de valor, o que serve apenas para excluir os animais da esfera de consideração moral. Em alternativa, a personagem propõe a comiseração — a capacidade profunda de sentir o que o outro sente — como base ética. O ponto mais polémico desta análise surge na analogia do Holocausto, onde Costello compara os matadouros modernos ao extermínio nazi, sugerindo que a humanidade vive num estado de negação coletiva semelhante ao dos cidadãos que ignoravam a existência dos campos de concentração ao seu redor.

A obra promove um verdadeiro embate com a tradição filosófica ao incluir respostas reais de académicos, gerando um diálogo interdisciplinar de grande fôlego. Entre os intervenientes destaca-se Peter Singer, filósofo de ética utilitarista e autor de Libertação Animal, que responde através de um conto onde debate se a base para os direitos deve ser a razão ou a capacidade de sofrer, focando-se nos interesses, enquanto a visão de Costello se centra na experiência subjetiva. Embora não esteja diretamente presente no livro, o pensamento de Tom Regan também ressoa na narrativa ao defender que os animais são "sujeitos-de-uma-vida", possuindo um valor inerente que transcende a utilidade humana. Esta crítica estende-se às perspetivas da biologia e da etologia, com Costello a atacar a ciência que reduz os animais a objetos de estudo mecânicos. Sobre este ponto, o primatologista Frans de Waal contribui com um comentário argumentando que a moralidade e a empatia têm raízes evolutivas profundas e não são exclusivas da nossa espécie, ideia reforçada pela frequente citação de Jane Goodall, que desafia o antropocentrismo radical ao demonstrar que os animais possuem personalidades e emoções complexas.

No âmago da obra reside a tese da falha da linguagem humana, considerada insuficiente para capturar a essência da existência animal. Coetzee sugere que apenas através da imaginação poética, e não da lógica silogística, podemos aspirar a compreender o "ser" de um animal. Nesta jornada intelectual, surgem referências fundamentais como René Descartes, alvo central das críticas de Costello por ter definido os animais como "autómatos" desprovidos de consciência, e a filósofa moral Mary Midgley, que defendeu deveres mistos para com a comunidade biológica. A obra evoca ainda Jeremy Bentham, o precursor do utilitarismo que famosamente instigou a humanidade a perguntar não se os animais podem raciocinar ou falar, mas se podem sofrer. Em conclusão, "A Vida dos Animais" transcende o debate sobre o vegetarianismo para se tornar uma exploração profunda sobre a solidão da consciência humana e a nossa dificuldade em reconhecer a alteridade radical, obrigando o leitor a confrontar o "crime silencioso" que sustenta os pilares da nossa civilização.

Saber mais:
J.M. Coetzee and Elizabeth Costello: Landscapes and Animals

Mirror neurons and literature: Empathy and the sympathetic imagination in the Fiction of J.M. Coetzee

domingo, 1 de março de 2020

Peter Singer: O "porquê" e o "como" do altruísmo eficaz


Se você tem a sorte de viver sem passar necessidades, ser altruísta para com os outros é um impulso natural. Mas, pergunta o filósofo Peter Singer, qual a forma mais eficaz de doar? Ele fala através de surpreendentes experiências de pensamento para ajudar você a equilibrar sentimento e viabilidade -- e causar o maior impacto com o que quer que você possa compartilhar.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Simplicidade voluntária, por Filipe Duarte Santos



Mais postagens de Filipe Duarte Santos e sua biografia.

É interessante observar e refletir sobre a capacidade de a humanidade reformular e expressar de modo diferente, sob o impulso de novas situações e razões, conceitos que caracterizam a essência do seu comportamento milenar. Em 1936, o filósofo americano Richard Gregg (1885-1974) introduziu o conceito de “simplicidade voluntária” num artigo publicado na revista indiana Visva-Bharati Quaterly. Para o autor, a simplicidade voluntária era uma forma de reagir ao consumismo então emergente nos EUA, contrariando a ideia de Henry Ford de que a civilização progride por meio do aumento do número dos desejos das pessoas e da sua satisfação. Nas suas próprias palavras, a simplicidade voluntária significa “unicidade de objetivos, sinceridade e honestidade interior e evitar a desordem exterior associada à acumulação de possessões irrelevantes para o objetivo principal da vida”. Gregg não defende o ascetismo como finalidade, mas uma forma de vida simples, sem procurar acumular bens materiais, embora compatível com o mundo moderno.

A essência destes propósitos é muito antiga, com exemplos tanto no domínio secular como religioso, mas as razões que os motivam são agora novas. Sócrates, condenado por Atenas a beber cicuta, deu-nos provavelmente o primeiro registo do exemplo de uma vida simples, sem bens materiais, do controlo de si próprio e da dedicação ao conhecimento e à sabedoria. Diógenes de Sinope, a figura central dos filósofos cínicos, levou a doutrina ao seu limite vivendo em Atenas como um mendigo em pobreza extrema, o que, segundo Diógenes Laércio, levou Platão a dizer que era um “Sócrates louco”.

No domínio religioso, a vida simples ou o ascetismo foram defendidos e praticados pelos fundadores das principias religiões, tanto na Era Axial, entre 800 a.C. e 200 a.C. – Sidarta Gautama (o Buda), Zaratustra, Lau Zi e Confúcio –, como no período que se seguiu – Jesus Cristo. No Cristianismo, a simplicidade, a pobreza, o desprendimento dos bens materiais, a ascese, têm sido preocupações recorrentes, num contexto dinâmico de avanços e recuos, embora reconhecendo sempre que a ascese não deve obliterar todo o desejo, porque este é o motor da vida. O movimento dos Padres do Deserto, no Egito, a partir do século III, liderado por São Paulo de Tebas e Santo Antão do Deserto, que serviu de modelo ao monasticismo cristão, e a Ordem dos Franciscanos, fundada por São Francisco de Assis, no século XIII, são dois dos exemplos mais notáveis.

Depois da Revolução Industrial, Henry David Thoreau (1817-1862) defendeu, antes de Gregg, uma vida simples e sustentável no seu célebre livro Walden or Life in the Woods (1854), onde descreve as suas experiências ao viver cerca de dois anos numa cabana construída por ele numa floresta do Massachusetts, à beira do lago Walden, propriedade do seu amigo e mentor Ralph Waldo Emerson. Thoreau advoga abrandar o ritmo da vida até estarmos plenamente disponíveis para usufruir o valor existencial da consciência plena de cada momento e libertar o pensamento, sem limites de tempo. O objetivo não é o ascetismo, mas a otimização da possibilidade de florescimento humano por meio de uma vida simples, com as necessidades básicas asseguradas e voltada para o que é verdadeiramente essencial.

Há razões plenamente justificadas para nos preocuparmos com o atual paradigma de desenvolvimento, baseado na aceleração da tecnologia e no consumismo, gerador de desigualdades crescentes, escassez de recursos naturais, acumulação de resíduos e degradação ambiental. Foi nos EUA, depois da Segunda Guerra Mundial, que se inventou a economia movida pelo consumismo massificado descrito eloquentemente por Lizabeth Cohen no seu livro Consumers’ Republic. Os seus promotores tinham a convicção de que ela geraria uma sociedade mais próspera, mais equitativa e mais democrática. O modelo teve um sucesso enorme, tornou-se global e criou mais prosperidade e bem-estar, mas também mais desigualdades e insustentabilidade.

A tecnologia alicerçada num conhecimento científico em expansão contínua é actualmente, para a humanidade, um veículo não só imprescindível como incontrolável. Por um lado, é o motor dos nossos sonhos mais arrojados e o único verdadeiro mito que ainda nos resta e, por outro, é o agente de profundas transformações sociais e económicas que lança para o desemprego ou para salários desvalorizados centenas de milhões de trabalhadores que se tornam progressivamente desnecessários para a economia.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Peter Singer: O "porquê" e o "como" do altruísmo eficaz


Você já teve vontade de mudar a vida de alguém, sua comunidade, ou até mesmo o mundo? A maioria de nós quer fazer a diferença, nosso instinto humanitário se manifesta principalmente quando nos deparamos com situações de sofrimento, mortes ou injustiça. Mas escolher sabiamente a causa ou instituição a qual apoiar é muito importante, pois definirá como seu tempo e dinheiro será melhor aproveitado, aumentando as chances de fazer a diferença no mundo, do jeito certo.

 Em sua palestra para o TED chamada “O Porquê e o Como do Altruísmo Eficaz” o filósofo e professor australiano Peter Singer chamou a atenção para a seguinte situação: se víssemos uma criança em situação de risco certamente seríamos tomados pelo sentimento de defesa e socorreríamos aquela criança. É algo óbvio e que qualquer pessoa com o mínimo de amor ao próximo pensaria, não é mesmo? Mas se aprofundarmos melhor a nossa análise ficaremos diante do número assustador de 6,9 milhões de crianças menores de cinco anos que morrem por ano por razões relacionadas à pobreza, segundo a UNICEF em 2011, mencionou o professor. Pensar nessa quantia me faz questionar: Quantas pessoas querem o fim da fome, por exemplo? Imagino que todas, mas quantas pessoas realmente trabalham para isso? A questão não é uma informação nova, esse número parece muito distante quando julgamos não poder fazer nada, mas sim, nós podemos.

O altruísmo, segundo o pensamento do filósofo Auguste Comte, significa tendência ou inclinação de natureza instintiva que incita o ser humano à preocupação com o outro, ou de uma forma bem mais simples de entender: é o “amor desinteressado ao próximo”. E como podemos alinhar a emoção do altruísmo com o bom senso de otimizar esses investimentos e obter o maior impacto possível ao ajudar aqueles que se encontram em pobreza extrema? Essa é a função do Altruísmo Eficaz, garantir que doadores utilizem seu tempo ou dinheiro fazendo a diferença do jeito certo.  

Na mesma palestra, Peter fez uma relação bastante prática e que melhor ilustra o objetivo do altruísmo eficaz: Fornecer um cão guia para uma pessoa cega é uma ótima ação a se fazer não é? Mas se levarmos em conta o fato de que custa cerca de U$40.000 dólares treinar o cão e seu receptor e em contrapartida curar uma pessoa cega num país em desenvolvimento, que apresente tractoma, custa cerca de U$20 a U$50 dólares, qual seria a melhor opção? Um americano cego com seu cão guia ou 400 a 2.000 pessoas curadas da cegueira? Qualquer um saberia responder essa pergunta, já que é algo óbvio.

Seguindo este pensamento, as empresas e seus líderes compreenderam que negócios e filantropia não só podem andar juntos, como também podem ser armas poderosas para mudar o mundo. Um exemplo disso é o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, e a sua esposa, Priscilla Chan, que em dezembro de 2015 prometeram doar 99% de suas ações do Facebook – cerca de US$ 45 bilhões – durante suas vidas, para isso criaram a Chan Zuckerberg Initiative com investimentos em educação e saúde. Esse tipo de investimento efetivo está ganhando força nos mais diversos setores, como educação e inclusão financeira, e as organizações perceberam que assim como nos negócios, a mensuração de resultados é parte essencial para observar o impacto que suas ações podem ter

Por essa razão, doadores estão buscando melhores formas de contribuir com causas. Cada um de nós tem a capacidade para motivar um impacto positivo na vida de pessoas que precisam de nossa ajuda.

Por fim, o Altruísmo Eficaz é capaz de despertar mudanças, assim como qualquer outro tipo de doação, a diferença entre essas duas formas de tornar o mundo melhor é que no altruísmo eficaz o objetivo é gerar o máximo de mudanças positivas que puder.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Fotografia da semana: Nick Brandt



Nick Brandt, que também trabalhou com Michael Jackson, tem no seu primeiro livro On This Earth- com prefácio de Jane Goodall e Peter Singer- , as mais intensas fotografias de África que até agora encontrei.

Mais fotos nesta ligação

Todas as Postagens sobre Jane Goodall no Bioterra

quinta-feira, 1 de abril de 2010

10 Maneiras de Ser um Patriota Global - 10 Ways To Be A Global Patriot


Num idealismo progressista, há a sensação de que é possível um patriotismo sem fronteiras, Um Só Mundo, claro que com todas as implicações políticas e hegemonias e segurança dos Estados.
Não sei até que limites ou barreiras estaremos dispostos a aceitar, discutir, negociar e quais os termos, regras desse novo ecos humano. Temo muito ideias como pensamento único, agricultura única, impérios económico-militares, mistificação ambiental.
A globalização tem reduzido um pouco a pobreza no mundo, trouxe mais socialização, mas ainda há um muro enorme a derrubar: o capitalismo.
Retomando o primeiro parágrafo, aqui vai uma ideia interessante da Global Patriot Foundation: 10 maneiras de ser um patriota global
We promote the belief that everyone deserves to live on a healthy planet, in peace and prosperity, using sustainability, compassion and respect as our guiding principles.

1. Educate Everyone
: We often take education for granted in the developed world, and while progress is being made on a global basis with respect to getting children in school, according to the United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization’s (UNESCO) Education For Everyone, 2010 Global Monitoring Report, there were still an estimated 72 million children out of school in 2007. Many nonprofit organizations, such as Epic Change, are helping educate children in the developing world and need your support. And don’t forget yourself when it comes to continuing education – when was the last time you took a college extension course to expand your horizons? Get Smart – Stay Smart!

2. Support Human Rights: On December 10, 1948 the General Assembly of the United Nations adopted and proclaimed the Universal Declaration of Human Rights. Over 60 years later we’re still struggling to bring the essence of these 30 points to people around the world. Organizations such Amnesty International and Human Rights Watch spend countless hours monitoring situations in Africa, the Americas, Asia, Europe and the Middle East. Whether the issue is torture, warfare, discrimination, political or religious freedom, women’s and children’s rights, health or arms trafficking, let your voice be heard and demand that governments adhere to the basic principles of human rights for all citizens. Democracies are not immune to these issues, as civil societies have on many occasions enacted laws through popular vote that clearly violated the rights of citizens.

3. Seek Sustainability: In addition to the prominent issues related to CO2 and climate change, the combination of an ever-increasing world population and decreasing levels of nonrenewable natural resources has brought sustainability to the forefront. You can play your part by paying closer attention to the products you buy and consume, the car you drive, and the extent to which you recycle your waste. It’s also important to be knowledgeable on the latest news and trends, and that’s something you can do by reading a few blogs. Grist Magazine, Worldchanging, TreeHugger, The Good Human, and the Dot Earth column in The New York Times are prime examples of online resources that will keep you informed.

4. Foster Health: A very complex issue, health involves nutrition, disease and pollution. From a personal perspective the two most important things you can do are eat well and exercise, but it’s also vital to think about the environmental factors that affect the quality of your health. To learn more about the state of global health, the World Health Organization is constantly monitoring and assessing health trends. Doctors Without Borders/Médecins Sans Frontières is focused on providing emergency health care to those who whose survival is threatened by violence, neglect, or catastrophe, while the innovative (Red) campaign is bringing brands together in an effort to fight AIDS through the power of capitalism. Thousands of organizations are addressing the heath needs of the homeless and need your support.

5. Believe in Biodiversity: Mankind has long sought to control nature and to use natural resources for pure financial gain without consideration of the biological consequences, but we are already seeing the harmful effects of such practices. Scientists are alarmed by the number of species lost each year. (Biologist Edward Wilson estimates that 27,000 species are currently lost per year.) Tropical rainforests absorb nearly a fifth of all man-made CO2 emissions around the world, yet according to The Prince’s Rainforests Project, these same rainforests are currently being destroyed at the rate of an area the size of a football pitch every four seconds. For years the National Wildlife Federation has promoted biodiversity and has excellent suggestions for how you can help protect wildlife.

6. Practice Water Wisdom: There is no resource more unique than water. It exists as liquid, solid and gas, while constantly flowing above, below and around this planet. Humans do not exist without H2O, and while our population continues to rise, the amount of water available to us is fixed. According to Blue Planet Run, over a billion people do not have access to safe drinking water, and over 2 million people (most of them children) die each year from diseases caused by unsafe water and sanitation. The need to use water wisely is obvious, and you should do your part to conserve this valuable resource. Another way to help this dire situation is by supporting organizations such as Charity: Water and Water.org – both are dedicated to providing clean water to those in need.

7. Alleviate Hunger: We’ve all been hungry from time to time, but few of us have experienced what it feels like to be hungry all the time, to the point of starvation – the sad fact is that over one billion people are undernourished at this very moment. You can see more hunger statistics at Stop the Hunger. The World Food Programme is doing their part, as is Action Against Hunger, but have you ever reached out to the food banks in your own city? You can check out Feeding America to see if there is an organization in your neck of the woods that could use a little support. In downtown San Diego Sean Sheppard’s Embrace is performing miracles for the homeless in need of a meal.

8. Eradicate Poverty: The reality of severe poverty can be found in all cultures, and has been with us for as long as human societies have existed. Oxfam International is an organization working with partners and allies around the world to create lasting change. Another fine example is ONE.org. Cofounded by Bono and other campaigners, ONE is nonpartisan and works closely with African policy makers and activists to alleviate extreme hunger. But such problems require the involvement of companies and governments to effect long term, substantial change – and your voice can make a difference! Are your representatives doing their part?

9. Protect Our Children: The future of civilization depends upon our ability to raise children that are healthy, happy and educated, yet they remain our most vulnerable asset. Whether dealing with the trauma of domestic abuse, the plight of child warriors, or the lack of proper schools and medical attention, children depend upon us for protection. UNICEF is dedicated to protecting every aspect of children’s rights on a global basis. As champions of war-affected children in east Africa, Invisible Children has made a big difference to thousands of children. We are storytellers. We are visionaries, humanitarians, artists, and entrepreneurs. We are individuals part of a generation eager for change and willing to pursue it.

10. Think Beyond Borders: The essence of being a Global Patriot is the ability to move beyond the artificial borders of nationality, religion, ethnicity and politics in order to address the most critical problems that we face as a global society. All of our thoughts, words and actions have an a profound effect on the health and well-being of this fragile world, and it is up to us to bring about positive change. We promote the belief that everyone deserves to live on a healthy planet, in peace and prosperity, using sustainability, compassion and respect as our guiding principles.

Tell us how you are changing the world by being a Global Patriot!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Peter Singer : Um Só Mundo - A ética da globalização


Um livro fundamental para a compreensão de tão fortes contestações e críticas à inoperância de instituições transnacionais como a OMC, G8 e Banco Mundial face à globalização, cujas decisões em defesa do ambiente e preocupação com os interesses dos países mais pobres ainda são meras manifestações de boas relações públicas. Seguidamente passo a citar o texto da edição Portuguesa desta sua obra:
Nesta obra estimulante, desafia-nos a pensar para além das fronteiras nacionais dos Estados e a considerar o possível significado de uma ética global no mundo actual. Singer coloca questões originais acerca de uma tal ética e fornece respostas esclarecedoras e práticas. O livro trata quatro grandes questões mundiais: as alterações climáticas, o papel da Organização Mundial do Comércio, os direitos humanos e a intervenção com fins humanitários, e a ajuda externa. Singer aborda cada uma destas questões fundamentais de uma perspectiva ética e apresenta alternativas à abordagem estadocêntrica que caracteriza actualmente a teoria e as relações internacionais. Em relação às alterações climáticas, por exemplo, o autor vê a questão ética como dizendo respeito a um recurso mundial comum - a capacidade da atmosfera para absorver gases residuais. De que parte deste recurso se devem apropriar os países desenvolvidos e que parte deve ser deixada aos países em vias de desenvolvimento? Relativamente à OMC, Singer pergunta se a organização permite que o comércio livre se sobreponha a todos os outros valores e passa em revista os dados que comprovam os que desmentem a ideia de que a globalização é benéfica para os pobres. Ao considerar os direitos humanos, o autor pergunta até que ponto podemos criar leis mundiais de protecção dos direitos humanos e quais deverão ser os critérios determinantes de uma intervenção quando estes direitos são violados. Por fim, Singer analisa as obrigações dos países ricos no auxílio dos países pobres. Colocando um desafio ousado às perspectivas limitadas e nacionalistas dos definidores de políticas, dos políticos e dos líderes dos Estados Unidos e de outros países, Singer apresenta pormenorizadamente uma forma prática de considerar as questões mundiais contemporâneas sob o prisma da ética. [Fonte: Gradiva]

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sexta-feira, 9 de março de 2007

Cinco notas sobre Mobilidade e as Alterações Climáticas, por Mário J. Alves


As alterações climáticas não deverão ser tratadas como um problema, mas sim como um sintoma. As nossas formas habituais de fazer e viver, estão esgotadas. Alterações climáticas provocarão e impulsionarão necessariamente alterações globais. Soluções tecnológicas baseiam-se na ausência de limites e não nos vão salvar. A civilização terá que preparar alterações profundas no plano ético, ambiental e politico para evitar situações de catástrofe que a comunidade científica prevê como muito prováveis e iminentes.

1- Mesmo que estas previsões se revelem ser o mais espectacular falhanço na história das ciências, o limite dos recursos e as questões éticas obrigam-nos a repensar o futuro e o presente. A forma como nós, membros das sociedades ocidentais, nos comportamos já põe não só em causa o nosso bem-estar, como leva à devastação de áreas do globo mais pobres. É obvio, mas pouco sentido, que muitos dos comportamentos de uma pequena minoria só são possíveis porque, neste momento, uma vasta maioria de pessoas no planeta não têm a possibilidade de se comportar da mesma forma. É agora claro que a continuação dos nossos padrões de consumo, destruirão a possibilidade de bem-estar das gerações futuras.

- No plano ético temos que ponderar o que é bem-estar. O que queremos da vida e como a queremos viver (2). Temos que ter a consciência e a responsabilidade de que estamos a viver para além dos nossos limites e a envenenar o futuro que não nos pertence de forma irreversível.

- No plano ambiental temos que ponderar e respeitar limites. A liberdade não consiste em fazer o que nos apetece. Bem ao contrário, a liberdade consiste na existência de regras, normas, limites e a encontrar em nós a força moral de respeitá-los. Comunicar e participar com os outros que respeitam as mesmas regras ou limites.

- No plano político temos que ampliar a participação e a transparência das decisões. A bem ou a mal, terá que haver uma reinvenção do que consideramos político - passará a pertencer a todos. A ética e os limites ambientais terão que ser a base de visões participadas de futuro.

Na prática:

- Seja optimista, pense e observe que os melhores prazeres da vida não implicam consumo e são gratuitos.

- Cuide do planeta, da cidade e da rua com mais cuidado que a sua própria casa. Porque é de todos.

- Consuma sem sentimentos de culpa, mas com a consciência plena das consequências que todos os pequenos actos têm nos outros e na natureza. Tenha diálogos internos sobre ética a olhar a imensidão do mar.

- Feche os olhos e imagine como gostaria que fosse a sua rua, o seu bairro e a sua cidade. Partilhe e melhore a sua visão com os amigos e o mundo. Comunique. Converse sobre os dilemas éticos da sua visão.

- Perceba que exercer a liberdade perante limites físicos e morais é perfeitamente possível e desejável. Comprar todos os móveis e electrodomésticos que deseje e apetece poderá ser a melhor forma de transformar a sua casa num inferno. Comer tudo o que lhe apetece, poderá ser a forma mais rápida para chegar a uma vida miserável de doença e eventualmente a uma morte prematura e dolorosa.

- Participe sempre no limite das suas possibilidades. Escreva cartas. Vá a reuniões da sua freguesia. Faça perguntas. Aprenda a escrever. Como? Porquê? Quando? Exija respostas. Inscreva-se numa ONG ou num partido político. Pinte a manta.

- Escolha uma causa útil e não largue. Amplie a sua voz. Abrace as tecnologias. Seja sereno.

- Informe-se o melhor que pode. Exija transparência nas decisões e nos processos. Esteja atento. Seja transparente - a política é de todos.

- Não tenha medo da autoridade nem dos mais fortes.

- Dê o exemplo. Se tiver posições de responsabilidade, mais força terá o seu exemplo.

- Seja positivo.

2. Não há uma solução, fazemos todos parte da solução. A dimensão do problema é de tal forma colossal que não há mezinhas. A alteração comportamental é fundamental com alguma ajuda da tecnologia ao serviço da ética e da política. As alterações comportamentais terão que ser várias, por vezes radicais e da responsabilidade de todos e de cada um. Muitas das soluções terão que ser de natureza fiscal e regulamentar. As soluções tecnológicas terão que respeitar as gerações futuras, propositadamente diversas, descentralizadas e democráticas. Mas existem muitos pacotes diferentes de soluções. O pacote escolhido depende muito da forma como o problema é enquadrado. Como é habitual em problemas complexos, uma solução que pode ser considerada eficaz e desejável de um ponto de vista, poderá ser considerada contraproducente e indesejável noutro ponto de vista. Infelizmente é comum o enquadramento de problemas de forma reducionista e fazermos asneiras com boas intenções. Ao resolver o problema que identificamos podemos estar a criar outros problemas mais graves. Identificar a emissão de carbono para a atmosfera como um problema único é um enquadramento reducionista da mobilidade de pessoas e bens.

Na prática:

- Exija a adopção de medidas que contribuam para a diminuição de padrões de consumo e mais eficiência energética. Mesmo e principalmente aquelas que o afectam a si e aos seus. Na mobilidade significará essencialmente diminuir o uso do carro. Para reduzir o uso do automóvel serão necessário medidas fiscais e regulamentares duras que precisam do apoio eleitoral de quem está informado e sabe as consequências do seu uso desregrado.

- Exija a adopção de comportamentos exemplares por parte de quem deve dar o primeiro exemplo: o poder político. Por exemplo, o uso do comboio em vez do avião em viagens oficiais às regiões do país. A publicação do número de km realizados em viagens oficiais por cada modo de transportes é um exercício de transparência e responsabilidade.

- Exija a integração de soluções baseadas em visões coerentes de futuro. É demasiado frequente cada instituição andar à deriva a resolver os problemas que identifica e usar soluções que melhor os resolvem a curto prazo.

- Entenda que para diminuir as emissões todas as contribuições são importantes e essenciais por mais pequenas que sejam. Não podemos ficar à espera que os cidadãos Americanos ou Chineses mudem de comportamento.

- Perceba bem as consequências das tecnologias propostas. Algumas soluções parecem ajudar a resolver as alterações climáticas, mas envenenam o futuro de outras formas. Outras ainda, intrinsecamente boas, quando aplicadas em isolamento podem inicialmente baixar as emissões, mas finalmente contribuir para o aumento dos padrões de consumo e não podem ser consideradas soluções sérias.

3- As emissões do sector dos transportes são na quase totalidade devido ao uso e abuso do automóvel. Contrariamente às emissões industriais, são emissões dispersas pelo território, estão directamente dependentes de decisões de mobilidade individual e serão mais difícil de controlar. Associamos o uso do automóvel a uma forte aspiração social, a um direito e à livre escolha. Reduzir as distâncias percorridas pelo automóvel levará também mais tempo do que a redução de emissões noutros sectores, porque exigirá também alterações dos usos do solo que levarão décadas a ter consequências. É também o sector onde mais tem crescido os padrões de consumo e emissões - estamos todos a conduzir mais automóveis, mais longe. A aviação, fora do protocolo de Quioto, é o modo de transporte que mais polui por quilómetro e têm crescido muito nas últimas décadas. As emissões de carbono no sector dos transportes em Portugal duplicaram desde 1990. Por outro lado é o sector onde a eficiência energética poderá ter mais efeitos, porque é dos sectores onde há mais desperdícios:

- O automóvel que continuamos a usar é baseado num invento do século XIX, melhorado mas altamente ineficiente - o motor de explosão só usa 15% da energia que emite carbono para a atmosfera para movimentar o veículo, o resto é desperdiçado;

- Este desperdício de 85% de energia é necessário para mover 1 tonelada e meia de lata, para habitualmente transportar uma pessoa de poucas dezenas de quilos;

- Cerca de 30% das viagens em automóvel cobrem distâncias inferiores a 3 km, que podem perfeitamente ser efectuadas por outros modos (bicicleta, a pé ou transportes públicos).

Na prática:

- Saiba e assuma que o uso do automóvel, para além de ser o elemento que mais prejudica a vivência das cidades, é um dos maiores contributos para as alterações climáticas do planeta.

- Tente reduzir o uso do automóvel. Sempre que possível ande mais a pé ou de bicicleta. Para além de reduzir os Gases de Efeito de Estufa, poucas medidas podem ter um efeito tão avassaladoramente positivo em toda a sociedade que a redução do uso do automóvel.

- Exija qualidade e segurança na sua rua, no seu bairro e na sua cidade. Passeios mais largos, mais árvores, mais espaços de estadia, menos automóveis a menos velocidade.

- Para distâncias demasiado longas para andar a pé, ande de transportes públicos. Exija que os Transportes Públicos sejam acessíveis a todos e que possa levar consigo a bicicleta, os patins, o segway.

- Exija mais investimento em Transportes Públicos, bilhética mais simples e justa, assim como uma melhor integração de modos de transporte.

- Exija comportamentos semelhantes e exemplares de quem é eleito, decide e exerce o poder. O uso dos Transportes Públicos, andar a pé ou de bicicleta, por parte da classe política e dirigente, para além de ser um exercício de humildade democrática é a melhor forma de potenciar a alteração de comportamentos a maior escala.

- Exija que a publicidade divulgue os verdadeiros custos de mais um automóvel em circulação:...ao sair da fábrica este carro já produziu 26 toneladas de lixo e 922 milhões de metros cúbicos de ar poluído. Durante a sua vida útil este carro produzirá 44.3 toneladas de dióxido de carbono, 4.8 kg de dióxido de enxofre, 46.8 kg dióxido de azoto, 325 kg monóxido de carbono, 36 kg de hidrocarbonetos. Cada 50 minutos será fabricado um carro que matará alguém, cada 50 segundos será fabricado um carro que ferirá alguém (3). Este carro terá um custo aproximado de 865 euros por mês em seguro, imposto automóvel, gasolina, depreciação (4)...

- Conduza mais devagar e de forma menos brusca. Aumenta a segurança, poupa dinheiro e reduz as emissões de carbono. Exija o mesmo de quem elege.


4- Temos que repensar a forma de intervir, planear, gerir e usar a cidade. Cada vez mais pessoas habitarão megalopolis de dezenas de milhões de habitantes. Mesmo as cidades europeias e portuguesas expandiram de forma pouco sustentável nas últimas décadas. O aumento das velocidades permitidas pela massificação do uso do automóvel, cada vez mais barato, e o aumento dos investimentos em infra-estruturas rodoviárias, levou a que as pessoas procurassem e comprassem mais metros quadrados de residência em zonas menos densas - a suburbanização. Este fenómeno gera dependência do automóvel. Muitas das pessoas que vivem fora da cidade não podem movimentar-se no seu o dia-a-dia sem o uso do carro. Temos que inverter tendências.

Na prática:

- Perceber e assumir que o aparente ganho de tempo a curto prazo pela construção de infra-estruturas rodoviárias é tendencialmente anulado a médio prazo pela realização de mais viagens, com percursos cada vez mais longos. Ao reduzir o tempo de viagem num determinado percurso, várias coisas sucedem ao mesmo tempo - geração de tráfego de pessoas que anteriormente andavam de Transportes Públicos; alterações de residência para zonas mais baratas e mais longe dos destinos habituais; aumento de congestionamento nas zonas centrais: a construção de infra-estruturas rodoviárias contribui sempre para mais emissões de gases de efeito de estufa.

- A redução de capacidades da rodovia, por outro lado, reduz o uso do automóvel e reduz a emissão de gases de efeito de estufa. Ao reduzir o espaço dedicado ao automóvel (por exemplo, através da pedonalização de ruas comerciais, alargamento de passeios, redução do número de lugares de estacionamento, ocupação de espaço pelo Transporte Público, etc.) várias coisas sucedem - existe uma retracção do tráfego automóvel porque as pessoas desistem da viagem; combinam viagens; deslocam-se a pé, de bicicleta ou Transporte Publico; reduz o congestionamento e os locais de residência regressam progressivamente ao centro.

- Temos que planear zonas mais densas e multi-funcionais (bairros onde é possível viver, trabalhar, brincar, passear, etc.). A separação da cidade por zonas mono-funcionais (grandes superfícies comerciais, campus universitários, bairros exclusivamente residenciais, etc.) foi uma das soluções reducionistas do século passado que é um desastre em termos de mobilidade. A situação é ainda mais desastrosa porque estas áreas são construídas geralmente em zonas não servidas por Transporte Público. A densidade de construção e a mistura de usos é a única forma de fomentar o investimento e o uso dos transportes públicos: grande frequência, com clientes ao longo de todo o dia, e consequentemente economicamente viável. Um bairro denso com bons passeios e com poucos automóveis, encoraja a marcha a pé e o uso da bicicleta.

- O espaço público tem que ter qualidade para que o modo de transporte mais importante e acarinhado na cidade tenha uma emissão de gás de efeito de estufa igual a zero: andar a pé. O desenho urbano tem que ser feito a pensar na vida, nas pessoas, nos espaços, nos edifícios e finalmente no automóvel. Nunca o contrário. Ao pensarmos nas pessoas, se pensarmos primeiro nos mais vulneráveis (as crianças, os idosos, os invisuais, etc.) a cidade será melhor para todos andarmos a pé.

- É imprescindível proteger os passeios e melhorar a segurança pedonal. Carros sobre os passeios contribuem indirectamente para as alterações climáticas: muitas pessoas andam de carro porque é desagradável e inseguro andar a pé.

- A gestão e o rigor na fiscalização do estacionamento é a forma mais eficaz de restringir o uso do automóvel nos centros urbanos. Não podemos continuar a construir áreas de serviços e comércio, bem servidas por Transporte Público, com demasiados lugares de estacionamento - nestas circunstâncias, há que estabelecer índices máximos de estacionamento e não exigir mínimos excessivos como é prática corrente em Portugal.

- Os municípios têm que realizar Planos de Transporte e Programas de Mobilidade multimodais, com objectivos claros, baseados em visões politicas participadas e partilhadas.

5- Usar a criatividade para pensar novas formas de mobilidade e usar tecnologias inovadoras mas coerentes com a visão de um futuro desejado. Caminhamos para um mundo altamente tecnológico que terá novos problemas, mas que também permitirá novas formas de os encarar e esboçar soluções. Mas não devemos ser tecno-optimistas - as tecnologias da informação que aparentemente diminuem a mobilidade (teleconferências, Internet, telefone, etc.) acabam sempre por exacerbar a necessidade de viagem, pela potenciação de contactos em rede mais densos. No entanto, a nossa vontade de mudar, associado a um uso inteligente das tecnologias, deverá ter consequências positivas na racionalização da mobilidade.

Na prática:

- Incentivar o aparecimento de serviços de partilha de viaturas (car-sharing) - membros do serviço podem usufruir de uma frota de viaturas que estão distribuídas pela cidade e são pagas pelo seu uso. "Um serviço de aluguer rápido, no bairro, à distancia a pé". Um serviço que já existe em mais de 600 cidades em 18 países (5).

- Organizar em instituições (ministérios, câmaras municipais, universidades, escolas, etc.) Planos de Acessibilidade que, entre outras coisas, incentivem sistemas de boleias (carpooling) - um sistema informático que junta pessoas da mesma instituição com residência próxima para partilharem o carro na viagem, reduzindo os custos e as emissões. Podemos incentivar a partilha do carro, com a implementação de faixas exclusivas para veículos com 3 ou mais pessoas ou através do pagamento de bónus salariais a quem não ocupa 15 m2 de estacionamento à porta do local de trabalho.

- Fomentar o uso de veículos de Transporte Público movidos a combustíveis alternativos: Gás Natural, Biocarborantes, Electricidade e finalmente Hidrogénio Renovável.

- Incentivar o uso de veículos híbridos (por eg. eléctrico-tradicional) ou flex-fuel (por eg. bioetanol-tradicional) de baixas emissões.

- Fazer reviver tecnologias do passado que fazem todo o sentido no futuro das cidades: o eléctrico e o trolley. Retomar, por exemplo, a rede histórica de eléctricos em Lisboa. Adoptar os trolleys em situações de transição (mais económicos e mais flexíveis).

- Retomarmos o uso intenso de um dos mais extraordinários inventos do último milénio: a bicicleta (6).

Seja positivo.
Apague a luz.

Mario J Alves, Março 2007

Notas:

* Texto escrito a pedido da produção do programa da RTP2 Sociedade Civil, para a preparação de uma emissão dedicada às alterações climáticas - um texto não-técnico e com conselhos práticos.

2) Fazer, por exemplo, uma leitura critica do livro do Prof. de bioética Peter Singer, Como Havemos de Viver? A ética numa época de individualismo.

3) Oeko-bilanz eines autolebens. Umwelt-und Prognose, Institut Heidelberg. Landstrasse 118a, D- 69121, Heidelberg, Germany.

4) Valor calculado pelo Automobile Association of Ireland, possivelmente um pouco menor em Portugal

5) Shaheen, Susan A. and Adam P. Cohen (2006) Worldwide Carsharing Growth: An International Comparison. Institute of Transportation Studies, University of California, Davis, Research Report UCD-ITS-RR-06-22

6) Poderemos inundar as nossas cidades de bicicletas partilhadas. Aprender com o exemplo pioneiro de Aveiro com as BUGAS, ou Lyon, ou no verão de 2007 de Paris, que irá disponibilizar 20,600 bicicletas em 1,450 locais - com um espaçamento médio de 230 metros - com utilização gratuita durante a primeira meia hora.

sábado, 26 de novembro de 2005

Declaração Universal dos Direitos Animais


Preâmbulo
Considerando que todo o animal possui direitos, Considerando que o desconhecimento e o desprezo destes direitos têm levado e continuam a levar o homem a cometer crimes contra os animais e contra a natureza, Considerando que o reconhecimento pela espécie humana do direito à existência das outras espécies animais constitui o fundamento da coexistência das outras espécies no mundo, Considerando que os genocídios são perpetrados pelo homem e há o perigo de continuar a perpetrar outros, Considerando que o respeito dos homens pelos animais está ligado ao respeito dos homens pelo seu semelhante, Considerando que a educação deve ensinar desde a infância a observar, a compreender, a respeitar e a amar os animais, PROCLAMA-SE O SEGUINTE:

Artigo 1º
Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos direitos à existência.

Artigo 2º
1 - Todo o animal tem o direito a ser respeitado.
2 - O homem, como espécie animal, não pode exterminar os outros animais ou explorá-los violando esse direito; tem o dever de pôr os seus conhecimentos ao serviço dos animais.
3 - Todo o animal tem o direito à atenção, aos cuidados e à protecção do homem.

Artigo 3º
1 - Nenhum animal será submetido nem a maus tratos nem a actos cruéis.
2 - Se for necessário matar um animal, ele deve de ser morto instantaneamente, sem dor e de modo a não provocar-lhe angústia.

Artigo 4º
Todo o animal pertencente a uma espécie selvagem tem o direito de viver livre no seu próprio ambiente natural, terrestre, aéreo ou aquático e tem o direito de se reproduzir. 1 - Toda a privação de liberdade, mesmo que tenha fins educativos, é contrária a este direito.

Artigo 5º
Todo o animal pertencente a uma espécie que viva tradicionalmente no meio ambiente do homem tem o direito de viver e de crescer ao ritmo e nas condições de vida e de liberdade que são próprias da sua espécie.
1 - Toda a modificação deste ritmo ou destas condições que forem impostas pelo homem com fins mercantis é contrária a este direito.

Artigo 6º
Todo o animal que o homem escolheu para seu companheiro tem direito a uma duração de vida conforme a sua longevidade natural.
1 - O abandono de um animal é um acto cruel e degradante.

Artigo 7º
Todo o animal de trabalho tem direito a uma limitação razoável de duração e de intensidade de trabalho, a uma alimentação reparadora e ao repouso.

Artigo 8º
A experimentação animal que implique sofrimento físico ou psicológico é incompatível com os direitos do animal, quer se trate de uma experiência médica, científica, comercial ou qualquer que seja a forma de experimentação.

1 - As técnicas de substituição devem de ser utilizadas e desenvolvidas.
Artigo 9º
Quando o animal é criado para alimentação, ele deve de ser alimentado, alojado, transportado e morto sem que disso resulte para ele nem ansiedade nem dor.
Artigo 10º
Nenhum animal deve de ser explorado para divertimento do homem.

1 - As exibições de animais e os espectáculos que utilizem animais são incompatíveis com a dignidade do animal.
Artigo 11º
Todo o acto que implique a morte de um animal sem necessidade é um biocídio, isto é um crime contra a vida.
Artigo 12º
Todo o acto que implique a morte de um grande número de animais selvagens é um genocídio, isto é, um crime contra a espécie.

1 - A poluição e a destruição do ambiente natural conduzem ao genocídio.
Artigo 13º

O animal morto deve de ser tratado com respeito.

1 - As cenas de violência de que os animais são vítimas devem de ser interditas no cinema e na televisão, salvo se elas tiverem por fim demonstrar um atentado aos direitos do animal.
Artigo 14º
Os organismos de protecção e de salvaguarda dos animais devem estar representados a nível governamental.
1 - Os direitos do animal devem ser defendidos pela lei como os direitos do homem.

domingo, 25 de julho de 2004

Enfrentar a globalização


Estou a ler o livro mais recente do filósofo Peter Singer UM SÓ MUNDO-A ÉTICA DA GLOBALIZAÇÃO. Este livro, publicado pela Editora Gradiva, que é inteiramente dedicado aos desafios éticos colocados pela globalização, baseia-se num conjunto de conferências proferidas na Universidade de Yale em Novembro de 2000, tendo sido revisto após o 11 de Setembro. Claro que é de leitura obrigatória! No que respeita à regulação do comércio mundial, caracterizado por uma globalização predatória, Singer preparou um capítulo inteiro, o capítulo 3, "Uma Só Economia", que consiste quase exclusivamente numa avaliação da política de comércio livre protagonizada pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Sobre a OMC pesam quatro principais acusações: de enfraquecer a soberania nacional, de não ser democrática, de deixar as pessoas mais pobres numa situação ainda pior e de colocar as preocupações económicas acima das preocupações com o ambiente, o bem-estar dos animais e os direitos humanos. Singer discute cada uma destas acusações de uma forma escrupulosamente cuidada, mostrando-nos como esta organização, embora precise de reformas urgentes, pode desempenhar um papel positivo na globalização. Por outro lado considero que ao educarmos os jovens e nossos filhos devemos ter em atenção ao consumo responsável...principalmente fugirmos da alienação de uma publicidade predatória. A Desordem da Organização Mundial do Comércio.

Não é possível uma melhor economia? Penso que podemos optar.

quarta-feira, 21 de abril de 2004

A blogosfera está a crescer no apoio aos Direitos dos Animais


Pela adesão à campanha Boicote ao Turismo no Canadá, apoiada pela ANIMAL e pelas referências que tenho encontrado nos seus blogs sobre os Direitos dos Animais, agradeço os amigos que já se associaram:
Ondas;
Reciclemos
MeioAmbienteUrgente(BR)
O Vizinho
Espanto
Continuação de um bom trabalho.Um abraço