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sexta-feira, 3 de maio de 2024

As virtudes da lentidão


Estou a começar a ter aulas de Tai-Chi desde Janeiro deste ano. Estou a adorar.
O nosso Presidente da República não podia estar mais certo quando afirmou que os orientais são lentos.
Siddhartha Gautama (o Buda) meditou durante seis meses (segundo alguns relatos) antes de descobrir as suas Quatro Nobres Verdades.
Na filosofia Taoísta apenas o lento e deliberado pode ser considerado Virtuoso ou Sábio.
Na estética japonesa "Ma" é o espaço vazio.
Na fotografia os espaços negativos (vazio) são importantíssimos para o sujeito "respirar".
Na escrita, a mesma tarefa. A lentidão contribui para a imaginação e vêm novas ideias. Acreditem.
Na actualidade ocidental com o nervosismo e stress das pessoas sempre ligadas a algo ou alguém distante, com os smatphones ligados na cabeceira da cama, no banho e ao lado dos talheres disputando a atenção, sinto-me grato pela aprendizagem diária desta arte de "lentidão oriental".
Ser lento é ser livre, evito respostas brutas e agressivas, degusto melhor (a slow-food é uma boa resposta) e prefiro falar do que teclar.
Acredito que chegámos a um ponto onde para evoluir é preciso regredir, reaprender com os antepassados e os bons exemplos asiáticos e também os africanos. E a sabedoria dos povos indígenas do Globo.

Adenda: Comentário de António Cerveira Pinto
Na China é uma prática comum, normalmente solitária. Vêem-se homens e mulheres, quase sempre de meia idade ou idosos, nos jardim d alamedas de Pequim realizando Tai Chi. Mas reparei também, corria o ano de 2007, nos avós que passeavam netos e netas, enquanto os pais trabalhavam. E ainda pequenos grupos de homens que escreviam caracteres no passeio, com água. Seria poesia, ou algum jogo? Não sei. Nos Estados Unidos há uma outra forma de escapismo (o que eu fui escrever!) muito em moda. Chama-se TM, ou Meditação Transcendental. Eu prefiro passear e filosofar, sozinho ou acompanhado. As ruas falam comigo, as casas falam comigo, as árvores reduzem-me à insignificância, as flores ensinam-me arte, os pequenos insectos atarefados explicar-me o que é uma vida de trabalho, e os corvos de Bruxelas, como os de Tóquio, ou da catedral de Évora, fazem de mim um irmão franciscano. Só vivemos uma vez.

P.S. De acordo com o Budismo, Siddhartha Gautama viveu várias reencarnações e relatou-as nos  chamados contos de  Jatakas.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Livro: Serge Latouche - A Abundância Frugal como Arte de Viver


A inovadora proposta do decrescimento para salvar o planeta da falência ecológica, económica e social

«Restaurar uma relação “saudável” com o tempo é muito simplesmente reaprender a habitar o mundo. E, portanto, libertar-se da dependência do trabalho para recuperar a lentidão, redescobrir os sabores da vida ligados à terra, à proximidade e ao próximo (...). O desaparecimento dos «tempos mortos» é, na verdade, a morte do tempo.» - 𝐒𝐞𝐫𝐠𝐞 𝐋𝐚𝐭𝐨𝐮𝐜𝐡𝐞

Assistimos hoje à falência da felicidade quantificada tal como fora prometida pela modernidade. Perante a crise da sociedade do crescimento é necessário inventar uma sociedade da «abundância frugal», já que a frugalidade elimina todo o consumo desnecessário.

Neste livro, Latouche mostra, com soluções práticas concretas e desejáveis, como o decrescimento não implica necessariamente um retrocesso, mas que, pelo contrário, pode potenciar a felicidade e o sentido de pertença dos indivíduos, ao mesmo tempo que enriquece a paleta de experiências sensoriais à nossa disposição.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Lentidão

Paul Klee- Sun Number One



A todas e todos os pescadores do silêncio, da sabedoria, da História e da profundidade e da lentidão. E a todas e todos os pescadores de bondade que ,em cada olhar espelhado na água da dor, estendem a mão, abraçam, abrigam e dizem vem comigo!- João Soares, 23/03/2016

terça-feira, 15 de março de 2022

Decrescimento económico - Uma proposta revolucionária


Vamos falar em decrescimento, esse assunto polémico. Não se trata de dietas mas de economia, modelos de sociedade, valores e estilos de vida. Serge Latouche no seu “Um pequeno tratado do decrescimento sereno” parece querer abalar toda a nossa existência.

Quando a economia de um país não está a crescer o dito país entra em crise. Mesmo se crescer abaixo de um determinado nível a crise pode ser inevitável. Mas como podemos continuar infinitamente a crescer, sendo que estes crescimentos acumulados geram evoluções exponenciais pois crescemos sempre relativamente ao acumulado anterior? Os recursos do planeta não são ilimitados. Se o planeta é finito como pode ser infinito o crescimento? Ainda que a tecnologia consiga tirar melhor partido dos recursos naturais, até aproveitando o que outrora era desperdício ou resíduo, haverá sempre limites materiais.

Latouche, no seu ensaio, quer preparar-nos para aquilo que considera inevitável. Vamos ter de decrescer, inverter todo este sistema de valores e organização social e económica. Se neste momento já se consome em média o equivalente a mais de uma terra, isto considerando uma pegada ecológica média, como poderemos manter este nível no futuro? O autor recusa o desenvolvimento sustentável, pelo simples facto de que manter os níveis de desenvolvimento não será sustentável de todo ao ser inviável continuar a consumir mais do que o planeta pode produzir sem perdas irreversíveis.

Imagine-se então como seria uma sociedade do decrescimento. Teríamos de consumir menos, evitar os atuais os reduzidos ciclos de obsolescência. Teríamos de produzir localmente para consumir localmente, tendo em conta as colheitas de época. Teríamos de impor restrições aos mercados impedindo que fossem apenas regulados pela lei da oferta e procura com base num sistema de livre circulação de capitais. Reduzir o número de horas trabalhadas, a intensidade e velocidade do que fazemos, pensando mais na prevenção e nos estilos de vida mais naturais e saudáveis. Teríamos de evitar o turismo como grande consumidor de recursos e desestabilizador dos ambientes naturais e humanos. Direcionar os ímpetos consumistas para o consumo de conhecimento e cultura que podem ser inesgotáveis. Isto e muitas outras coisas verdadeiramente radicais aos olhos contemporâneos. O mundo seria muito diferente.

Latouche alerta para esta necessidade, que será tanto mais forte quando os níveis de vida começarem a aumentar nos países onde os níveis de consumo e exploração estão abaixo da média. Se pensarmos que um Norte-americano consome em média o equivalente a 6 terras per capita, podemos ver o nível de desigualdade existente no planeta.

Tudo isto será uma utopia, mas, seguindo as alternativas propostas pelos defensores do decrescimento, a humanidade terá de repensar os seus modelos de desenvolvimento, pois será impossível manter determinados estilos e níveis de vida sem com isso arriscarmos o equilíbrio planetário.

Ficam aqui algumas passagens interessantes deste pequeno e lúcido tratado.

"Não podemos produzir frigoríficos, automóveis ou aviões a jacto «maiores e melhores» sem produzir também detritos «maiores e melhores». Nicholas Georgescu-Roegen "(...) a maximização do consumo baseia-se na predação e na pilhagem dos recursos naturais, à economia do cosmonauta, «para a qual a Terra se tornou um veículo espacial único, não possuindo recursos ilimitados, seja para dela os retirar, seja para nela vazar os seus poluentes»." Quem acredita que é possível o crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou economista. Kenneth Boulding
(p.28)

"Ao contrário doutras tradições religiosas como o budismo, a tradição cristã não favoreceu no Ocidente a relação harmoniosa entre o ser humano e o seu ambiente vivo e não vivo. O marxismo inseriu-se nesta tradição, o que levou Hans Jonas a dizer: «A humanização da natureza por Marx é um eufemismo hipócrita para designar a submissão total desta mesma natureza ao ser humano para uma exploração total com a finalidade de satisfazer as suas próprias necessidades.»"
(p.141)

"Os novos heróis do nosso tempo são os cost killers, estes gestores que as empresas multinacionais atraem a preço de ouro, oferecendo-lhes grandes quantidades de stock-options e indemnizações por rescisão. Formados geralmente nas business schools, que mais apropriadamente deveriam ser chamadas «faculdades de guerra económica», estes estrategos estão empenhados em transferir ao máximo os custos para o exterior, de modo a fazê-los recair sobre os empregados, os subcontratados, os países do Sul, os seus clientes, os Estados e os serviços públicos, as gerações futuras e sobretudo a natureza, transformada ao mesmo tempo em fornecedora de recursos e em caixote do lixo. Qualquer capitalista, qualquer financeiro, mas também qualquer homo oeconomicos (e todos o somos) tende a ser um «criminoso vulgar», mais ou menos cúmplice da banalidade económica do mal."
(pp.32-33)

"A economia transforma a abundância natural em raridade com a criação artificial da escassez e da necessidade através da apropriação da natureza e da sua mercantilização. Última ilustração do fenómeno, após a privatização da água: a apropriação do domínio vivo, em particular com os OGM. Os agricultores assim destituídos da fecundidade natural das plantas em benefício das empresas agro-alimentares. A imaginação do mercado», como diz Bernard Maris, «é incomensurável. Como se fosse um cuco, instala-se em tudo o que é gratuito. «Exclui estes e aqueles, estampilha a gratuitidade, impõe-lhe logotipos, marcas, portagens e depois revende-a.»"
(p.55)

"Finalmente, é preciso pensar em inventar uma verdadeira política monetária local. «Para manter o poder de compra dos habitantes, os fluxos monetários deveriam permanecer o mais possível na região e as decisões também deveriam ser tomadas o mais possível ao nível da região. Dêmos a palavra ao especialista (neste caso, um dos criadores do Euro): "Encorajar o desenvolvimento local ou regional ao mesmo tempo que se mantém o monopólio da moeda nacional é como tentar desintoxicar um alcoólico com gin."
(p.71)

"Segundo Yves Cochet, «uma alimentação mais económica em energia seguiria assim três orientações opostas às que hoje são correntes: seria mais local, mais sazonal e mais vegetariana». Continuará a ser «mais cara» se se continuar a fazer com que as vítimas paguem e a subsidiar os poluidores."
(p.76)

"A civilização capitalista caminha inexoravelmente para a sua derrota catastrófica; já não é necessária uma classe revolucionária para derrubar o capitalismo, porque ele cava a sua própria sepultura e a da civilização industrial no seu conjunto. É uma sorte, porque se vê bem que a luta de classes se esgotou com o triunfo do capital. (...) Neste sentido, o projecto da sociedade do decrescimento é eminentemente revolucionário. Trata-se não só de uma mudança de cultura, mas também das estruturas do Direito e das relações de produção." 
(p.92)

"Se a França aplicasse a directiva europeia e produzisse 20% da sua electricidade a partir de energias renováveis, como a solar ou a eólica, isso criaria 240 000 empregos. Um documento publicado em 2005 pela Comissão Europeia mostra que cada milhão de euros investido na eficácia energética cria 12 a 16 empregos a tempo inteiro, contra 4,5 numa central nuclear e 4,1 numa central a carvão. Ou seja, custa duas vezes menos economizar um quilowatt-hora do que produzi-lo."

A satisfação das necessidades de uma arte de viver convivial para todos pode realizar-se com uma diminuição importante do tempo de trabalho obrigatório, de tal forma são importantes as "reservas", porque, durante séculos, os ganhos de produtividade foram sistematicamente transformados em crescimento do produto, e não em decrescimento do esforço." 
(p.110-111)

"Nas condições actuais, o tempo liberto do trabalho não passa a ser apenas por isso liberto da economia. A maior parte do tempo livre não conduz a uma reapropriação do tempo da existência e não constitui um abandono do modelo mercantil dominante. O tempo continua a ser muitas vezes utilizado em actividades que ainda são mercantis, que não permitem ao consumidor assumir a via da auto-produção. Ele é desviado para uma via paralela. O tempo livre profissionaliza-se e industrializa-se cada vez mais. (...) Fundamentalmente, é com uma reconquista do tempo pessoal que nos confrontamos. Um tempo qualitativo. Um tempo que cultive a lentidão e a contemplação, ao ficar liberto do pensamento do produto. (...) Esta reconquista do tempo «livre» é uma condição necessária da descolonização do imaginário. Diz respeito também aos operários e aos assalariados, e não só aos quadros stressados, aos patrões acossados pela concorrência e às profissões liberaris apertadas em torno da compulsão ao crescimento. Podem passar de adversários a aliados na construção de uma sociedade do decrescimento." 
(pp.119-122)

"É tão fácil «convencer» o capitalismo a limitar o crescimento como «persuadir» um ser humano a deixar de respirar, escreve Murray Bookchin. O descrescimento é forçosamente contra o capitalismo, não tanto por lhe denunciar as contradições e os limites ecológicos e sociais, mas antes de mais porque lhe põe em causa "o espírito", no sentido em que Max Weber considera "o espírito do capitalismo" como condição da sua realização. Se, em abstracto, talvez seja possível conceber uma economia ecocompatível com a continuidade do capitalismo imaterial, esta perspectiva é irrealista no que respeita às bases imaginárias da sociedade de mercado, ou seja, a desmesura e o (pseudo)domínio sem limites.

O capitalismo generalizado não pode deixar de destruir o planeta tal como destruiu a sociedade e tudo o que é colectivo." 
(p.125)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Sem lentidão não há paladar

Ruta de Samieira, Galiza

"Sem lentidão não há paladar. (...) Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados. À conta disso, os ritmos de actividade tornam-se impiedosamente antinaturais." ~ José Tolentino Mendonça in "A mística do instante"

terça-feira, 12 de maio de 2020

Poema da semana - Concavidade, por António Ramos Rosa


Precisamos de ser côncavos
para o mistério natural que nos impele
à vacuidade silenciosa.
Fragmentos obscuros buscam a transparência
na novidade da brisa que acaria a luz.
O atalho onde estamos pronuncia uma pedra.
É ainda a ausência com o celeiro das sombras.
Podemos abrigar-nos sob as grandes árvores
das redondas colinas. Abundância de murmúrios
na delícia do ar. Crescemos lentamente
sob as umbrosas ramagens, germinamos
na lentidão de um barco. O intacto demora.
A casa é sossegada com sua carga de frutos.
Nenhuma inquietação no pleno entardecer
de uma serena abundância silenciosa.
Na oscilante leveza vegetal
somos unânimes, côncavos e ardentes.

António Ramos Rosa, Facilidade do Ar

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Que os cidadãos tenham voz! - Reflexões a propósito do 60º aniversário do Tratado de Roma

Recordando a assinatura do Tratado de Roma, há 60 anos,  reuniram-se, em 25 Março, naquela mesma cidade, berço da Comunidade Económica Europeia, os Chefes de Estado e de Governo dos países membros da actual União Europeia (ex CEE). 


O que se pode esperar desse encontro de alto nível, tendo em conta o período de tensão e de indefinição que se atravessa na Europa e no Mundo?

Há, certamente, espaço para recordar o que de muito positivo foi conseguido nestas últimas 6 décadas, com destaque para o desenvolvimento alcançado, a melhoria da qualidade de vida dos europeus, a sustentação e aprofundamento de diferentes modalidades de estado social nos diversos estados membros, a generosa cooperação com o desenvolvimento mundial e, acima de tudo, a paz entre as nações que integram a União, um bem primordial a preservar.

Estes bons resultados não podem, todavia, lançar uma cortina de fumo sobre as tensões e as disfuncionalidades latentes ou declaradas que, presentemente, se verificam, no espaço da União, com particular acuidade no sub-grupo da Zona euro.

De 1957 em diante, a União cresceu e abrange agora uma variedade de estados membros cujas economias, instituições políticas e culturas apresentam características próprias, sem que tenha havido o correspondente esforço no sentido da acomodação de interesses divergentes e, em alguns casos, aparentemente antagónicos. Veja-se que, por exemplo, não foi ainda possível chegar a consenso acerca de critérios comuns em matérias básicas, como sejam a definição de um salário mínimo e outros direitos laborais, de patamares de segurança social mínimos e fundos comuns de garantia dos mesmos ou de regras de fiscalidade uniformes. 

A livre circulação de pessoas, bens e serviços,  e capital com a qual se pretende alcançar a integração económica do espaço europeu vem sendo feita através de directivas minuciosas emanadas da Comissão, mas não tem sido acompanhada de correspondente esforço no domínio social e político, o que, em muitos casos, se tem traduzido em agravamento do fosso entre as economias mais prósperas e as que apresentam debilidades estruturais.

A desejada progressiva integração a nível político estipulada no Tratado de Roma tem conhecido não só uma lentidão excessiva como retrocessos vários materializados em recentes práticas grosseiras e desrespeitadoras de princípios básicos de democraticidade interna previstos nos tratados.

A saída do Reino Unido deve merecer não só uma leitura aprofundada acerca das suas possíveis consequências para a União e os seus países membros, de modo a minimizá-las, como também a indagação das causas profundas que subjazem à decisão que foi tomada por aquele país membro, para delas serem retiradas lições para futuro.

Presentemente, está em apreciação um conjunto de documentos técnicos elaborados com o objectivo de vir a dar novo impulso ao processo de integração, tendo em conta os desafios novos, internos e mundiais, com que a EU se depara. É, a meu ver, importante que os cidadãos conheçam esses documentos e discutam os seus respectivos conteúdos, formulem os seus juízos, e lhes dêem a devida visibilidade, fazendo pressão sobre os decisores políticos de cada estado membro para que se encontrem os melhores caminhos para levar por diante a visão que esteve na génese do Projecto europeu.

A UE é um projeto inacabado e o seu futuro não tem sentido único, razão maior para merecer a atenção e o cuidado das pessoas e dos povos que, hoje, a constituem, pensando sempre nas gerações futuras.

Por Manuela Silva, em Areia dos Dias

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Encontros Improváveis- José Tolentino Mendonça e Laurie Andersen- "Same time tommorrow"


"Sem lentidão não há paladar. (...) Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados. À conta disso, os ritmos de actividade tornam-se impiedosamente antinaturais." ~José Tolentino Mendonça in A mística do instante

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Na ponta do dedo, por Afonso Camões


Vão sair-nos caros os 2 mil milhões cortados à escola pública, nos últimos anos. E muito cara, também, a incapacidade dos nossos principais partidos em se entenderem sobre uma estratégia nacional para a educação e a inovação, os dois mais baratos investimentos em futuro.

A geração Google, que passa a maior parte do seu dia a comunicar e a interagir com o Mundo, encontra hoje na sua escola um modelo de desigualdades, não comunicativo, que fala muito e ouve pouco. E, no entanto, havemos de concordar que a educação é a pedra basilar da civilização, da competitividade e do sucesso. E que, com economia dentro, é nos domínios da educação e inovação que se disputam, cada vez mais, os campeonatos europeu e mundial entre povos.

Somos educados para acreditar no progresso permanente, num futuro melhor que todo o passado. Mas não é bem assim. E a história está pejada de casos de grandes retrocessos - até em potências consideradas imbatíveis, que entraram em declínio - a maior parte dos quais devido à cegueira de gerações de governantes que impediram ou asfixiaram a inovação. Exemplos?

Ainda Vasco da Gama não dobrara o Cabo das Tormentas e já a armada imperial chinesa andava pelas costas do Índico, carregando barcos quatro vezes maiores que a nossa nau São Gabriel. Em 1479, porém, a administração imperial, temerosa do crescente poder dos mercadores, queimou as cartas de navegação, proibiu o COMÉRCIO  externo, virou-se para a agricultura e construiu a grande muralha atrás da qual a China - que já inventara a bússola, o papel e a pólvora - se fechou ao Mundo durante séculos. Até há pouco.

Ainda que, nominalmente, a economia europeia seja maior que a dos Estados Unidos, as 10 maiores empresas do Mundo são americanas e quase todas na área da nova economia digital. Apple, Google e Microsoft são as três primeiras, Facebook e Amazon são a sexta e sétima.

Há 20 anos, sete das maiores empresas mundiais eram japonesas. Hoje não há nenhuma entre as primeiras 10. E das 100 empresas de criação recente, graças ao capital de risco orientado para a inovação, que superaram os mil milhões de euros de valor, 68 estão nos Estados Unidos, 25 na China e apenas oito na Europa.

Está em marcha uma grande revolução, a revolução digital, e a Europa a ficar para trás. E nós com ela. É uma revolução de magnitude comparável à Revolução Industrial. Mas revela um dado inquietante: a velocidade a que progride e a lentidão da Europa em acompanhá-la. E nós com ela... há quatro anos a desdenhar do Magalhães.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Pedagogia dos caracóis- por Rubem Alves


Escola- Balanço de Avaliações: "Electrónica" lenta! A lentidão é o orgulho da Escola! 

Colectivamente precisamos novamente do TEMPO para a focagem!

Os caracóis são moluscos lerdos. Andam muito, muito devagar. Ninguém tomaria os caracóis como exemplos. Embora suas conchas sejam belas e construídas com precisão matemática, o que chama a atenção de quem os observa é sua pachorra. Caracóis não têm pressa. Falta-lhes dinamismo, virtude essencial àqueles que vivem no mundo moderno. Quem anda devagar fica para trás. Quem iria imaginar que um educador, ao observar um caracol, tivesse uma inspiração pedagógica? Pois foi o que encontrei numa revista italiana, Cem Mondialità. A fotografia que ilustra o referido artigo é a de um menino, rosto apoiado na carteira, a observar tranqüilamente um caracol que se arrasta sobre a tampa da carteira. E o título do artigo é A pedagogia do caracol.
Caracol tem pedagogia a ensinar? O autor conta o sucedido com uma menininha que, ao voltar para a casa, queixou-se: "Mamãe, os professores dizem 'É preciso andar rápido, nada de vagareza, para frente, para frente. Mamãe, onde é a frente?". E aí ele passa a falar sobre a virtude pedagógica da
vagareza. Pode ser que "chegar na frente" não seja tão importante assim! Quem sabe o "estar indo" seja mais educativo que chegar! No "estar indo" aprende-se um jeito de ser. Nietzsche se ria dos turistas que subiam as montanhas como animais, estúpidos e suados. Não haviam aprendido que há vistas maravilhosas no caminho que sobe... Riobaldo acrescentaria: "O real não está nem na saída e nem na chegada; ele se dispõe para a gente é no meio da travessia". O adágio da Sonata ao Luar tocado "presto" seria um horror. As notas seriam as mesmas. Mas a beleza não se encontra no presto; ela está é na vagareza do "adágio". Ele aconselha os professores a estarem com seus alunos no ritmo "adágio". Sem pressa.
A lentidão é virtude a ser aprendida num mundo em que a vida corre ao ritmo das máquinas. Gastar tempo conversando com os alunos. Saber sobre as suas vidas, os seus sonhos. Que importa que o programa fique atrasado? A vida é vagarosa. Os processos vitais são vagarosos. Quando a vida se apressa é porque algo não vai bem.
Adrenalina no sangue, o coração disparado em fibrilação, diarréia. Observar as nuvens. Conversar sobre as suas formas. A observação das nuvens faz os pensamentos ficarem tranqüilos. As notícias dos jornais são escritas depressa. Por isso têm curta duração. Mas a poesia se escreve devagar. Por isso ela não envelhece. Inventaram essa monstruosidade chamada leitura dinâmica. Ela pressupõe que um texto é feito com poucas idéias centrais, tudo o mais sendo encheção de lingüiça. A técnica da leitura dinâmica é ir direto às idéias centrais, desprezando o resto como lixo.
Já imaginaram sexo dinâmico, que dispensa os "entretantos" e vai direto ao "finalmente"? Essa é uma maneira canina de fazer amor. Mas não é isso a que os jovens são obrigados quando, ao se preparar para o vestibular, se põem a ler "resumos" de obras literárias? Um resumo é o resultado escrito de uma leitura dinâmica. É preciso ler tendo a lesma como modelo... Devagar. Por causa do prazer. O prazer anda devagar. Você leu esse artigo dinamicamente ou lesmicamente?

fonte: Revista Educação, edição 100

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Escola- Balanço de Avaliações: "Electrónica" lenta! A lentidão é o orgulho da Escola! Colectivamente precisamos novamente do TEMPO para a focagem!

 "Electrónica" lenta! A lentidão é o orgulho da Escola! E colectivamente precisamos novamente do TEMPO para a focagem!




Ontem a minha escola convidou o Professor Doutor Joaquim Azevedo para nos falar sobre a  Escola para o séc. XXI e a autonomia das Escolas. E dessa palestra resultou algumas ideias que eu sublinharei nesta minha crónica.
Numa sociedade cada vez mais acelerada e informatizada e tele-comunicativa....o que observamos? Escolas a telecomando/telecontrolo central. Decreta-se isto, há prazos de entrega para ontem, despachos e decretos de lei via email aos sábados....

Voltando ao "interesse" da sociedade pelos trabalhos dos nossos alunos, ao mundo, à tele-informática, à questão dos tele-pais e à "realidade" do tele-mundo e tele-centrão no real das nossas vidas, e na Escola. Quando vi o video vencedor da ESAG no youtube ia apenas no meros 420 ontem de manhã. Coloquei no meu blogue http://bioterra.blogspot.com/2011/07/para-ser-grande-se-inteiro-trabalho-dos.html e subiu mais uns 42 visualizações. Mas que bom! É por aí! E porquê isto?

Porque a escola precisa deste TEMPO:)  Referiu o Professor Joaquim Azevedo, que ela é por natureza lenta, tranquila e de pequenos percursos... Acrescento eu até que alunos e professores atingem os patamares seguintes, após a transmissão do passado cultural, científico e artístico aos nossos jovens como estudantes e como agentes de mudança e de crescimento social e não como assistimos cada vez mais a Escola treinada para exames/testes. As Novas Oportunidades são a alavancagem de promoção social de muitos trabalhadores/reformados e  uma vida mais gratificante. Assim o desejamos todos. Contudo, como aconteceu com a formação de adultos para empresas, rapidamente os objectivos finais perdem-se em burocracias e rituais que desdignificam o acto ensino-aprendizagem-saídas profissionais (lembremo-nos que em Portugal continuamos a ter mão de obra muito mais qualificada que o próprio patronato e por vias legais a sub-contratação acaba por beneficiar quem tem menos habilitações). E depois temos um sub-mundo da economia paralela e de uma "familiarização" pela fuga ao fisco transversal a muito sectores da sociedade. Bem, creio que posso estar a fugir da focagem...Voltemos ao Poema Grande
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

                  Ricardo Reis
O Professor acusou ainda que a sociedade fixou-se no interesse pelos exames. É uma falsa questão. Se a sociedade quer mais exames, muitos serão resultados FABRICADOS. Queremos uma Escola- Empresa? Com as imensas injustiças já evidentes?

A escola é um local de trabalho, de sonho, onde é difícil deve medir o "invisível" que é o salto intelectual e o crescimento da PESSOA, tanto do mestre como do aprendiz.
Há várias Educações: a Educação Escolar, a Educação Familiar, a Educação Ambiental, a Educação Empresarial, etc...

O Professor Joaquim Azevedo frisou e repetiu imensas vezes que é urgente distinguir a Educação Escolar da Educação Familiar. São universos completamente distintos.
E já todos os portugueses se questionaram que a Escola é de FACTO uma das organizações sociais que mais gente bem qualificada agrega?

E concluiu a sua intervenção com uma pergunta provocadora: Não estaremos, nós a Escola e a sociedade, suficientemente confiantes em avançar com a verdadeira Autonomia das Escolas?

Mas acredito que noutros sectores, como no Ambiente. Justiça e saúde- precisamos todos de recuperar o TEMPO para nós próprios e para a focagem. Chega de mudanças e este mundo esgotado e disperso e "vazio" e cheio de mini-sociedades e vasos pouco comunicantes. Enquanto isso, vemos avenidas financeiras tremendamente eficazes e controladoras (para o bem e para o mal). Temos que trabalhar as fronteiras e permeabilizar os processos. É nos processos que a Humanidade cresce, fica mais justa e feliz. Não em econometrias e regulações "decretadas" e no cinismo das empresas de notação e mesmo nas posições sonsas dos peritos em "mercados". Primeiro conquistam-nos e depois desejam o mundo. 

As pessoas não são mercadorias nem comerciáveis.

Finalmente uma última provocação:
As organizações económicas até parecem que são as únicas com a pretensão social da "realidade" mas elas como vemos estão a espetar-nos para o abismo: o que dizem outras organizações sociais? Com gente muito mais graduada até que as sociedades banqueiras e os "cuscas" das dívidas soberanas dos povos? Não seremos capazes de tomar as rédeas e CONSTRUIR avenidas de sustentabilidade?!

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

O significado da Vida

Já pensaram que Vida já há muito tempo que não é mais um conceito natural?
Neste documento por exemplo, A global study on the state of forest tree genetic modification , vejam os números e os países já envolvidos em plantações de árvores GM.

Ou ainda Looking to a Future with Genetically Enhanced Humans , onde a eugenia de alta-tecnologia estará prestes a ser realidade...e resultam de trabalhos dos recém laureados este ano ao Prémio Nobel da Medicina.

Puro paradoxo, mas muita gente rejeitará a presença de falcões nas cidades, por exemplo...outros rejeitam as árvores nas suas ruas...colocam o lixo perto do tronco, como se mastros não fossem e são organismos vivos...
Que conceito de Vida queremos? E aceitamos? Que riscos trazem estas descobertas?

Seremos capazes de amar a lentidão, a vida simples, das crianças nas ruas, apelar a uma redução e maior resistência à publicidade e ao consumir por consumir (consumir paisagens, já agora....), amar os campos cultivados (e bosques, matos) de acordo com processos mais ecológicos e protegendo as sementes mais adaptadas aos climas e solos de cada região? Não seria importante que os nossos campos estivessem mais perto das cidades? Não seria importante requalificar os subúrbios - dormitório? Não seria importante apoiar os que preservam os pequenos quintais e quintas no interior da cidade do Porto e de outras cidades Portuguesas? Os que há muito desejam litorais com dunas e não ruas de buzinas e motores e cordões electrificados pelos passadiços.....

Há anos que cidadãos desesperam por um ordenamento ecológico das nossas cidades, que se apoie genuínamente a preservação da Rede Natura 2000,alertando para os princípios de precaução e prevenção, amando as árvores e a biodiversidade das nossas terras.


Leitura recomendada

sexta-feira, 23 de março de 2007

Carl Honoré homenageia a lentidão


Carl Honoré, jornalista, acredita que a ênfase do mundo Ocidental na rapidez agride a saúde, a produtividade e a qualidade de vida. Há porém um movimento oposto em que as pessoas começam a reduzir o ritmo das suas vidas modernas.

domingo, 28 de novembro de 2004

Metro e MetroBus (Trolei )


Por Armando Herculano
Parece-me agora evidente o motivo da pressa da Empresa do Metro em colocar o Metro na Boavista. Como não fizeram estudos aprofundados do tráfego que circularia no troço Trindade/S.ª da Hora, e com a aproximação da entrada em funcionamento das linhas Verde/Maia/Trofa e Vermelha/Póvoa, acrescida da futura linha até ao Aeroporto, esse troço estará congestionadíssimo, ou mesmo entupido, criando dificuldades de gestão de tráfego e dos sistemas de sinalização, pondo em causa a segurança.

Essa será também uma explicação para a lentidão da realização da linha da Póvoa, e para a tentativa de evitar a realização do Estudo de Impacto Ambiental, que atrasaria a obra e o desvio de tráfego da S.ª da Hora para a Boavista.

Para a BOAVISTA e de resto para complemento da rede do Metro, o conceito de METROBUS --ou TROLEYBUS-- é o mais adequado. O METROBUS é um Metro de superfície realizado com autocarros em canal segregado do restante tráfego.

O autocarro ou --melhor-- TROLEI idêntico em tudo ao que circula no Porto, mas sem carris, usa pneus vulgares, circula em canal próprio BUS, onde isso é possível, circulando com o restante tráfego nas restantes ruas. Este sistema é mais flexível, mais barato, mais rápido de construir e mais fácil de reconfigurar conforme as necessidades.

Tem ainda a vantagem futura, de evitar a retirada dos carris (de novo) se a tecnologia das células de combustível vier a confirmar todas as suas potencialidades. Se a energia puder ser produzida no próprio veículo (autocarro) --e já circulam três no Porto-- este será o menos poluente e mais flexível transporte colectivo, uma vez que além de dispensar os carris, dispensa também a catenária (rede aérea que fornece a energia nos tróleis e comboios) e assim pode circular sem emitir poluentes, e sem qualquer restrição de percurso.

O Trolei, poderia com vantagens, ser usado no corredor da Boavista para Matosinhos (desviando parte do tráfego do canal, S.ª da Hora/Trindade), é mais adequado à baixa procura deste troço, e poderia conviver com o tráfego rodoviário no viaduto sobe o Parque da Cidade.

Se for em diante o pagamento de portagens, haverá menos carros a entrar na cidade e menos necessidade de estacionamento à superfície.

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