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domingo, 21 de junho de 2026

Na China, algumas mulheres pagam 100 euros para passar algumas horas com um desconhecido


E se a companhia se tornasse apenas mais um serviço?
Na China, um conceito surpreendente está a ganhar terreno: contratar companhia humana. Por algumas horas ou um dia inteiro, algumas pessoas (geralmente mulheres) optam por pagar a um desconhecido para partilhar uma atividade, conversar ou simplesmente evitar a solidão. Este fenómeno diz muito sobre a evolução dos estilos de vida urbanos.

Quando a solidão cria novos serviços 
Nas principais cidades chinesas, a solidão tornou-se uma realidade cada vez mais visível. Entre carreiras exigentes, mobilidade profissional e a distância da família, muitos moradores vivenciam a falta de ligação social no seu quotidiano. Diante desta situação, surgiram novas plataformas com uma promessa simples: ligar pessoas que desejam partilhar um momento de convívio, sem qualquer compromisso. O objetivo não é criar um romance, mas sim oferecer companhia humana por algumas horas.

Uma plataforma que oferece a opção de "alugar" a companhia 
Um dos serviços mais conhecidos é o Zuwobo, nome que significa literalmente "aluga-me" em mandarim. O seu funcionamento é tão simples quanto original: o utilizador escolhe uma atividade e a plataforma encontra um acompanhante disponível. O conceito agrada a quem quer aproveitar um momento agradável sem precisar de organizar uma saída com o grupo de amigos de sempre. É uma fórmula que prioriza a simplicidade e a flexibilidade.

Caminhada, restaurante ou jogos de vídeo: há opções para todos os gostos 
Um dos motivos para o sucesso destas plataformas reside na variedade de atividades disponibilizadas. Alguns optam por um passeio pela cidade, outros por um trilho, uma refeição num restaurante ou até mesmo uma sessão de jogos de vídeo em casa. A ideia é adaptar-se aos desejos de cada um e oferecer uma presença que acompanhe diferentes momentos do quotidiano. Esta abordagem transforma a companhia num serviço personalizável.

Até 300 euros por dia 
Os preços variam dependendo da duração e do tipo de atividade escolhida. Para partilhar um café ou uma refeição, os valores geralmente variam entre 7 e 20 euros. No entanto, quando se trata de companhia durante um dia inteiro, a conta aumenta rapidamente. Alguns serviços podem ultrapassar os 100 euros e chegar a mais de 300 euros, dependendo dos pedidos. Um gasto único que alguns consideram "o preço de uma experiência social agradável".

Um sucesso particular durante o Ano Novo Chinês 
Todos os anos, o Ano Novo Chinês lembra-nos a importância dos laços familiares e dos reencontros. Fora aqueles que moram longe dos seus entes queridos ou sozinhos, este período pode, por vezes, exacerbar os sentimentos de isolamento. É por isso que as plataformas deste género costumam registar um aumento na procura durante as festividades. Para alguns utilizadores, partilhar estes momentos com alguém torna-se uma forma de vivenciar a época festiva num ambiente mais acolhedor.

Uma tendência que levanta questões 
O desenvolvimento destes serviços reflete as profundas transformações na sociedade chinesa. Por um lado, oferecem uma resposta concreta à necessidade de ligação humana e permitem que algumas pessoas se libertem do isolamento por algumas horas. Por outro lado, levantam uma questão fundamental: o que significa, numa sociedade, a presença de outras pessoas poder ser reservada como qualquer outro serviço? Entre uma solução prática e um símbolo da transformação dos laços sociais, o debate permanece em aberto.

Uma coisa é certa: o sucesso destas plataformas demonstra que a necessidade de partilhar, trocar ideias e estar presente continua a ser mais importante do que nunca.

domingo, 31 de maio de 2026

A nobreza estratégica do esquecimento na era da inteligência artificial



Lembra-se de tudo o que fez na semana passada? Provavelmente não. E quer saber uma coisa? Isso é ótimo. A verdade é que está a esquecer-se das coisas, e isso pode ser a salvação da sua capacidade de pensar. Durante anos, o mundo da tecnologia vendeu-nos uma promessa tentadora: a memória digital total.

Arquivos infinitos, históricos guardados, conversas gravadas, assistentes de IA que se lembram de cada clique que deu desde os primórdios da sua vida digital. Parecia o paraíso da produtividade, mas a fatura chegou, e os juros são cobrados diretamente na nossa saúde mental.

Recentemente, os investigadores começaram a notar um fenómeno apelidado de "AI brain fry", a fritura cerebral por IA. Os profissionais que usam a inteligência artificial intensamente no trabalho estão a relatar exaustão mental, sobrecarga de decisões e, ironicamente, mais erros.

A tecnologia que nasceu para aliviar o nosso dia a dia acabou por criar uma camada de vigilância sobre a nossa própria cabeça.

Por décadas, a ciência e os entusiastas da tecnologia trataram a memória humana como uma máquina defeituosa. Afinal, nós esquecemo-nos de onde deixámos as chaves, confundimos datas e perdemos detalhes. Mas essa crítica é injusta.

O cérebro esquece por um motivo simples: porque precisa de continuar vivo. Para não enlouquecer, a nossa mente comprime dados, elimina o que é inútil, reorganiza as memórias e guarda apenas o que tem valor real, seja prático ou emocional.

Esquecer não é um defeito; é uma forma de inteligência. Já um arquivo perfeito, onde tudo tem o mesmo peso e nada é eliminado, não serve para julgar ou criar. Serve apenas para auditar e vigiar. O grande risco de usarmos a IA como a nossa "memória externa" o tempo todo é a atrofia dos próprios neurónios.

Quando consulta a máquina antes sequer de tentar elaborar uma ideia, subcontrata o esforço que transforma a informação em conhecimento real. Passa a ser um mero revisor que apaga ou corrige um texto gerado por terceiros.

Existe também um lado mais invisível e perigoso nesta história, que é a assimetria de poder. Pense bem. O utilizador conversa com um sistema de IA que se lembra de absolutamente tudo o que já lhe disse. Sendo humano, guarda apenas fragmentos. Quando a máquina recorda tudo e o utilizador só tem pedaços, a relação perde o equilíbrio.

A memória deixa de ser uma base de dados e passa a ser uma ferramenta de influência sobre si. No mundo corporativo, esta idolatria pelo "registo total" tornou-se uma obsessão. Reuniões gravadas e transcritas, cliques monitorizados, relatórios de acessos...Ufa! Virámo-nos para um grande depósito de contexto. Só que o contexto em excesso paralisa.

Os executivos cercados por painéis em tempo real e assistentes que recuperam anos de histórico podem até sentir-se superinformados, mas isso raramente se traduz em decidir melhor.

Estudos recentes mostram que a IA melhora o desempenho imediato, mas destrói a nossa autonomia a longo prazo. Quando voltamos a trabalhar sozinhos, o tédio aumenta e a motivação desaba. O cérebro aceita a facilidade da IA de braços abertos, mas cobra o preço mais tarde.

Quanto mais confiamos cegamente na máquina, menos usamos o nosso pensamento crítico. A solução para o futuro, portanto, não é acumular mais dados. É exatamente o oposto. Precisamos de desenhar uma inteligência artificial que tenha a capacidade de esquecer.

Os sistemas inteligentes de verdade deveriam saber o que guardar de estratégico, mas também o que apagar de banal, o que proteger de confidencial e o que descartar por ser repetitivo. Guardar tudo não é uma governação eficiente; é preguiça disfarçada de organização. Preservar com critério, sim, é estratégia.

A IA que merecerá a nossa confiança no futuro será aquela que reconhecer que nem todos os dados devem transformar-se em lembranças. O segredo da produtividade não está em assistentes que sabem tudo, mas sim em filtros implacáveis que deitam o irrelevante para o lixo.

Num século em que absolutamente tudo pode ser registado, lembrar-se seletivamente voltou a ser o maior ato de inteligência.

A inteligência artificial só será útil de verdade quando devolver ao ser humano a liberdade de pensar de forma leve, sem carregar o peso de cada resto do caminho. O maior avanço da tecnologia para a mente humana será, definitivamente, abandonar a vaidade do registo perfeito e aprender a nobreza do esquecimento seletivo.

terça-feira, 24 de março de 2026

Agência Internacional de Energia recomenda teletrabalho e transportes públicos para aliviar pressão dos preços do petróleo devido a interrupções no fornecimento no Médio Oriente


Medidas surgem como resposta à maior interrupção de abastecimento na história do mercado global de petróleo e abrangem transporte rodoviário, viagens aéreas, cozinha e indústria. AIE destaca que governos podem liderar pelo exemplo.

Trabalhar a partir de casa sempre que possível, reduzir a velocidade em autoestradas e recorrer aos transportes públicos são três das dez medidas que a Agência Internacional de Energia (AIE) recomenda para aliviar a pressão dos preços do petróleo sobre os consumidores.

Num relatório publicado nesta sexta-feira, a autoridade mundial recomenda ainda evitar viagens aéreas sempre que existam alternativas e recorrer à eletricidade em substituição do gás na cozinha.

As medidas surgem como resposta às perturbações nos mercados petrolíferos causadas pela guerra no Médio Oriente. O conflito desencadeou a maior interrupção de abastecimento na história do mercado global de petróleo, com o tráfego através do Estreito de Ormuz, que normalmente transporta cerca de 20% do consumo global de petróleo, reduzido a níveis mínimos, segundo a AIE.

Cerca de 20 milhões de barris por dia de petróleo bruto e produtos petrolíferos transitam habitualmente por este estreito. A perda destes fluxos apertou significativamente os mercados, fazendo subir os preços do petróleo bruto acima dos 100 dólares por barril e provocando aumentos ainda mais acentuados em produtos refinados como o gasóleo, o combustível de aviação e o gás de petróleo liquefeito (GPL).
Para estabilizar os mercados energéticos globais, os países membros da AIE acordaram, a 11 de março, libertar 400 milhões de barris de petróleo das reservas de emergência, a maior libertação de stocks na história da Agência. Porém, a autoridade refere que atuar do lado da oferta não é suficiente para compensar a dimensão da perturbação. “Atuar sobre a procura é uma ferramenta crítica e imediata para reduzir a pressão sobre os consumidores, melhorando a acessibilidade e apoiando a segurança energética”, defende a AIE.

As medidas do lado da procura disponíveis para governos, empresas e famílias abrangem o transporte rodoviário, as viagens aéreas, a cozinha e a indústria.

“A guerra no Médio Oriente está a criar uma grande crise energética, incluindo a maior interrupção de abastecimento na história do mercado global de petróleo. Na ausência de uma resolução rápida, os impactos nos mercados energéticos e nas economias tenderão a agravar-se cada vez mais”, afirmou o Diretor Executivo da AIE, Fatih Birol.

As recomendações do lado da procura agora apresentadas “baseiam-se em décadas de experiência da AIE nesta área e destaca medidas que já provaram funcionar na prática em diferentes contextos. Acredito que será útil para governos em todo o mundo, tanto em economias avançadas como em desenvolvimento, nestes tempos desafiantes”, assinala Fatih Birol.

A AIE refere ainda que os governos podem liderar pelo exemplo através de medidas no setor público, ações regulamentares e incentivos direcionados, assegurando simultaneamente que o apoio aos consumidores é bem calendarizado e dirigido a quem mais precisa.

Ações imediatas para reduzir a procura
1 – Trabalhar a partir de casa sempre que possível
Reduz o consumo de petróleo nas deslocações, sobretudo em funções compatíveis com o trabalho remoto.

2 – Reduzir os limites de velocidade em autoestradas em pelo menos 10 km/h
Velocidades mais baixas reduzem o consumo de combustível em automóveis, carrinhas e camiões.

3 – Incentivar o uso de transportes públicos
A mudança do carro particular para autocarros e comboios pode reduzir rapidamente a procura de petróleo.

4 – Alternar o acesso de carros particulares às estradas nas grandes cidades em dias diferentes
Sistemas de rotação de matrículas podem reduzir o congestionamento e a condução intensiva em combustível.

5 – Aumentar a partilha de automóveis e adotar práticas de condução eficiente
Maior ocupação dos veículos e condução ecológica reduzem rapidamente o consumo.

6 – Condução eficiente para veículos comerciais rodoviários e distribuição de mercadorias
Melhores práticas de condução, manutenção e otimização de cargas reduzem o consumo de gasóleo.

7 – Desviar a utilização de GPL do transporte
Transferir veículos bi-combustível para gasolina pode preservar o GPL para a cozinha e outras necessidades essenciais.

8 – Evitar viagens aéreas sempre que existam alternativas
Reduzir viagens de negócios pode aliviar rapidamente a pressão sobre o combustível de aviação.

9 – Sempre que possível, recorrer a outras soluções modernas de cozinha
Incentivar o uso de eletricidade e outras opções modernas pode reduzir a dependência do GPL.

10 – Tirar partido da flexibilidade nas matérias-primas petroquímicas e implementar medidas de eficiência e manutenção de curto prazo
A indústria pode ajudar a libertar GPL para usos essenciais, ao mesmo tempo que reduz o consumo de petróleo através de melhorias operacionais rápidas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Trabalho precário - Portugal a caminho do Laos do Ocidente

Por Tiago Franco, 9 de Novembro
Enquanto as eleições do Benfica ocupavam boa parte do espaço mediático e das transmissões televisivas, mais de 100 000 trabalhadores saíram à rua para se manifestarem contra as alterações às leis laborais. Eu sou Benfiquista, daqueles que levam aquilo mesmo no osso, mas consigo perceber, acho eu, onde devem estar as prioridades de uma sociedade sob ataque.

Enquanto escrevo isto vejo um noticiário da CNN que abre com um direto, a partir de uma feira qualquer, onde a jornalista entrevista anónimos Benfiquistas a propósito do resultado de ontem. Às vezes acredito mesmo que temos o que merecemos.

As alterações ao código do trabalho, que foram passando entre burcas, futebol e imigrantes, serão, provavelmente, o momento que marcará a passagem de Montenegro pelo governo português e que, nos anos seguintes, ficará como a sua imagem de marca. Passos Coelho ficou colado, para a vida, à emigração dos professores. O Luís, da Spinumviva, ficará agarrado ao maior ataque aos trabalhadores desde Abril de 74. A propósito...algum dia teremos desenvolvimentos no caso dessa empresa extraordinária, que nunca teve conflitos laborais entre patrão e empregados?

O novo pacote laboral, para a minha geração pelo menos, deveria ser a primordial preocupação. Era este o debate que nos devia ocupar as horas televisivas. Era importante que os portugueses, que vivem do seu trabalho, percebessem o que está a ser alterado e de que forma isso os afecta.

O governo PSD-Chega vai conseguir ir para lá daquilo que seria o sonho molhado dos liberais em relação ao código do trabalho. Horários maiores, contratos mais precários e durante mais tempo. Facilitação do despedimento, maiores limitações às greves e ao trabalho sindical. Flexibilização de horários de trabalho nocturnos ou ao fim-de-semana. Possibilidade de fazer outsourcing (trabalho externo) para substituir trabalhadores despedidos (ou seja, incentivar mão de obra mais barata e precária).

Curiosamente...nem uma palavra sobre o aumento do salário mínimo. Em resumo, o novo código do trabalho far-nos-á mais pobres (se é que isso ainda é possível) e muito mais precários. Para quem não acompanha esta coisa dos sindicatos, pensem apenas nisto meus amigos...quando a CGTP e UGT dão a mão, é porque a coisa está mesmo preta.

Acho importante desmistificar aqui uma ou duas coisas que ouço, aqui e ali, dos liberais e radicais de direita, quando tentam defender estas medidas como um avanço em direção à Europa do norte. Meus amigos...há duas diferenças enormes, nisto do trabalho, entre Portugal e os países mais ricos a norte.
A primeira é o nível de formação da população e, como consequência disso, o tipo de trabalho desenvolvido.

Não é a mesma coisa flexibilizar as leis laborais num país cheio de indústrias ou hubs tecnológicos ou, noutro, que vive de serviços e turismo. A facilidade de encontrar novos empregos é muito maior no primeiro.

A segunda é que, ao contrário do que nos vendem, os sindicatos são fortíssimos nos países do norte e parceiros indispensáveis para a concertação social. Já para não falar da rede social de apoio. Portanto, os trabalhadores são protegidos e os sindicatos ouvidos.

Na minha área laboral é particularmente chocante perceber onde Portugal chegou nas últimas duas décadas. Deixámos de ser um país formador com potencial para passarmos a ser o hub da engenharia europeia do baixo custo. Já perdi a conta às multinacionais que vão para Portugal porque há "engenheiros bem formados, que falam inglês e trabalham 10h por dia por 1.000 e tal euros por mês". Este tipo de discussão é frequente e eu ouço-a envergonhado.

Aliás, é curioso, a propósito de um texto que aqui escrevi sobre deslocação de trabalho (meu) para o Vietname e, contas feitas, Portugal está em condições de competir com o custo do sudeste asiático. Algo absolutamente impensável em qualquer país da Europa civilizada.

O que Luís Montenegro e seus comparsas tentam é baixar, ainda mais, o nível já de si sofrível, deixando-nos à mercê dos baixos salários com a chantagem do despedimento ao virar da esquina. E mais do que isso, fazer com que a precariedade seja regra e o planeamento de uma vida familiar uma autêntica aventura.

Quem é que quer viver num país assim, pergunto. Quem é que fica, depois, surpreendido, que a imigração para Portugal se resuma a povos de países ainda mais miseráveis? Não é por demais óbvio que, em momento algum, o triunvirato PSD-Chega-Il poderá melhorar a qualidade de vida do português comum?

Aliás...qual é a diferença, nos dias de hoje, entre as políticas de Montenegro, Ventura ou Mariana Leitão?

É importante que compreendam o seguinte. Com a realidade do tecido empresarial português, a nossa formação e os empregos que a economia gera, este pacote laboral não nos leva para o norte europeu. Nem a Espanha chegamos, quanto mais ao norte.

Tudo o que podemos aspirar é continuar a formar gente que se vai embora, deixando para trás uma população envelhecida, pobre e com ódio ao vizinho do lado.

Esta é a grande luta que nos bateu à porta. Não são os tik-toks do Ventura, os paquistaneses da Uber ou a bola que foi ao poste. Temos que interromper, por uns tempos, a degustação de palha e focar no essencial.

Caso contrário, não nos poderemos queixar se, um dia, acordarmos no Laos do Oeste.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

A Inteligência Artificial é o maior engodo. Está à vista de todos.


Se eu tivesse sido aluna com power points, IA, tinha fugido - podiam ter tentado medicar-me com ritalina, e aí talvez eu ficasse quieta, dopada. A única coisa que vale a pena nas aulas não é aprender a usar uma tecnologia (ou aprender a mentir sobre ela). É a paixão do conhecimento, é saber que algo era óbvio e afinal é irrelevante, que comichão se dá na barriga a essa hora, ou quando estávamos plenamente convencidos de um argumento e ele se demonstra muito mais complexo, é a ousadia de pensar algo que nunca foi pensado, é pensar juntos, que invenção, senhores, uma aula é uma relação colectiva. Face a face, em diálogo, não a olhar para um quadro, ecrã, é em relação, olhar a olhar, grande parte de uma aula, recorda Dejours, está no corpo, no olhar surpreso dos alunos, entusiasmado do professor, na postura inquieta dos colegas, tudo isso são sinais de sublimação (prazer, sim prazer hoje está associado ao sexo, mas prazer deve estar associado ao trabalho, desejo, desejo de saber mais, desejo de ensinar mais, desejo de criar depois de falhar, errar). Por isso as aulas em U são maravilhosas. Parem de nos enfiar pela goela abaixo - através da imposição de governos - o lucro do Zuckerberg. 

As Plataformas foi a saída da Banca para a crise de 2008 e está a ser a saída prestes a rebentar numa bolha bancária mais apocalíptica. Entretanto, serviu para nos colocar a todos horas por dia a alimentar a IA, exaustos, como o nome de "modernização digital", impedindo-nos de ter serviços públicos. Tudo financiado com impostos nossos nos "fundos europeus" que são impostos nossos.  Nada funciona, estamos exaustos, e o grosso da IA serve para uma coisa - indústria militar. É aí a sua mais eficaz aplicação. Estamos em coma, sem ver o óbvio. Na educação atingiu-se o ponto mais baixo de sempre - a mentira, o plágio, estamos a caucionar como docentes a legitimação da mentira social. Estamos a ensinar a mentir como um acto "normal".

Serviu para nos colocar em situação patéticas online, sem conseguir ser atendido, na educação é a completa catástrofe,  na saúde os erros do algoritmo acumulam-se, recolhemos testemunhos de enfermeiras da saúde 24 que dizem "o resultado do telefonema é um algoritmo errado, nós sabemos porque estamos a falar com o doentes, mas temos x tempo e o algoritmo dá uma conclusão errada e ficamos ali, o que fazer?". Os médicos estão em sofrimento ético, cúmplices com estas práticas. Há robot maravilhosos a fazer cirurgias mas as maternidades fecham, com o financiamento a robots... Uma loucura! Há aeroportos bloqueados, serviços que colapsam. 

E milhões de pessoas todos os dias obrigadas a alimentar estas plataformas, com a cumplicidade de directores "amigos", capatazes de serviço, que obrigam a que professores, médicos, enfermeiros, dentistas, advogados, jornalistas, designs, arquitetos, passem horas a alimentar com dados gratuitos a sua própria forca. Mais - as plataformas obrigam a que façamos erros, porque elas erram e porque é exaustivo, e esses erros são usados contra quem trabalha como ameaça pelos direcções.  A IA, que tem meia dúzia de donos, trilionários, visa substituir o trabalho humano com garantias de qualidade zero ou perto disso - nada pode substituir  o trabalho real, o engenho, a relação presencial, nem pelo trabalho em si, nem pelas pessoas, que se realizam no trabalho. O que se está a fazer é escravizar milhões. 

A vida tornou- se um inferno, pós-covid. Passamos uma parte esmagadora do nosso dia a fazer tarefas inúteis que consistem em alimentar de dados as plataformas. A subir aulas online já prontas, a dar dados de alunos com avaliações, sumários detalhados, a colocar os trabalhos em detectores de plágio (como se fossemos polícias, e como se não soubéssemos quando eles copiam, mentem ou não sabem).
Já houve colapsos em aeroportos, programação, o ChatGPT acabou de contratar uma equipa de criativos para vender a IA porque a IA não consegue fazer nada critativo.  Trump, cujo apoio vem dos donos da IA e Plataformas, colocou esta semana um vídeo de IA a distribuir merda sobre os mais de 13 milhões de manifestantes. É este o estado a que chegámos. 

Chamam-nos objectores de consciência. Quando eu peço a alunos para ler e escrever um ensaio, há 20 anos que o faço, sem qualquer IA, eu não estou a pedir que ele saiba, estou a fazer com que ele aprenda. Aprenda errando, falhando, juntos. Eu não estou a dar-lhe "competências" mas conhecimento.  Ao fazer o ensaio ele vai-se deparar com a estrutura, como identificar  o tema, o problema, como estruturar argumentos, como corrigir gralhas, como escolher um título, tudo isso é conhecimento que passa de mim para ele, e dele para mim porque é uma relação de ensino-aprendizagem. 

Os donos da IA têm os filhos em escolas sem IA. 

O que se está a fazer com os filhos de quem trabalha, com o dinheiro de quem trabalha, é um gigante processo de expropriação de conhecimento dos filhos de quem trabalha. Da mesma forma que não sabem pregar um prego, andar sem GPS, não saberão pensar, escrever, dialogar, criticar. E por isso não saberão relacionar-se, a violência no namoro não se resolve com uma missa de um power Point sobre respeito, resolve-se nas relações reais de cooperação. Deixo uma nota de optimismo, nas minhas aulas, há quase 20 anos, só avalio por ensaios, escritos e debate oral em seminário, e tenho quase zero de absentismo. Os alunos estão a fugir das aulas power-point. E os professores estão fartos. Só falta organizar esta gente toda para resistir a este colapso ético, e em breve, bolha sistémica. Lê-se copos dos milhões de lucros dos donos destas plataformas, que sugam recursos públicos recorrendo à pilhagem generalizada de direitos de autor. E à nossa exaustão. São ladrões, de facto.

O texto do Dejours chama-se O Teletrabalho à Luz do Corpo está no novo livro do nosso Observatório para as Condições de Vida - OCV Trabalhar e Viver no Século XXI (Humus)

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Dia Mundial da Economia de Energia - A energia mais limpa é a que não se consome


O Dia Mundial da Economia de Energia foi criado em 21 de outubro de 1973, logo após a crise mundial do petróleo que começou nesse mesmo ano. O aumento repentino do preço e a escassez deste recurso essencial despertaram a consciência global sobre a dependência energética e a necessidade urgente de racionalizar o consumo.

Esta data convida-nos a repensar a forma como usamos a energia — em casa, no trabalho e nas cidades — e a adotar hábitos mais eficientes e sustentáveis. Economizar energia não significa apenas gastar menos; significa usar melhor, reduzir desperdícios e proteger o planeta.

Todos sabemos que economizar energia é bom para o planeta. Mas, e para o negócio? Neste Dia Mundial da Economia de Energia, vale a pena lembrar que cada kWh poupado é mais um passo dado para empresas se tornarem mais eficientes, competitivas e até mais inovadoras. Porque inovar também é repensar processos, otimizar recursos, fazer mais com menos. A energia mais limpa é, afinal, a que não se consome.

A verdade é que a eficiência energética deixou de ser apenas uma exigência legal: tornou-se uma alavanca estratégica. Não se trata apenas de instalar tecnologia verde ou de cumprir regulamentos; trata-se de criar uma cultura de consumo consciente. É perceber que cada processo, cada equipamento e cada decisão de investimento podem gerar impacto direto nos resultados da empresa. E essa transformação começa dentro de casa: ao mapear processos, identificar desperdícios e agir de forma proativa, as empresas conseguem produzir mais com menos, reduzir emissões e aumentar a competitividade.

Um exemplo claro desta abordagem é a monitorização em tempo real. Quando conseguimos acompanhar, minuto a minuto, como a energia é consumida, deixamos de reagir a problemas e começamos a preveni-los. Os dados deixam de ser números isolados e transformam-se em decisões inteligentes, traduzindo-se em ação e, consequentemente, em resultados. É aqui que se esconde o verdadeiro valor da eficiência: na capacidade de transformar informação em vantagem concreta.

Outro vetor estratégico é a eletrificação da indústria. Portugal tem dado passos importantes, mas ainda há muito a fazer. A eletrificação só é eficaz se estiver integrada com soluções digitais, energias renováveis e armazenamento. Esta transformação exige visão de longo prazo e um trabalho contínuo de melhoria, um processo incremental, mas consistente, capaz de gerar valor real e sustentável.

Depois, a economia de energia também é um exercício de liderança. Empresas que olham para a eficiência como uma prioridade estratégica não estão apenas a cortar custos: estão a construir resiliência, a reforçar a reputação e a abrir portas para novos investimentos.

No fundo, a mensagem é simples: criar hábitos, investir em soluções inteligentes e integrar a eficiência energética na estratégia do dia a dia não é apenas bom para o planeta, é essencial para as empresas que querem liderar o futuro.

⚡ Algumas ações simples que fazem diferença:
  • Substituir lâmpadas incandescentes por LED.
  • Desligar aparelhos e carregadores da tomada quando não estão em uso.
  • Aproveitar a luz natural e melhorar o isolamento térmico das casas.
  • Optar por transportes sustentáveis.
  • Escolher equipamentos com selo de eficiência energética.

terça-feira, 22 de julho de 2025

Editors - No Harm


I'll boil easier than youCrush my bones into glueI'm a go-getterThe system's in redThe room is inbredI'm a go-getter
Don't hold no harmDon't hold no harm
My children despise my wonderful liesI'm a go-getterI see through your wallsAnd your space down your hallsI'm a go-getter
Don't hold no harmDon't hold no harm
The fever I feel, the fake and the realI'm a go-getterMy world just expandsThings just break in my handsI'm a go-getter
Don't hold no harm

A música 'No Harm' da banda britânica Editors explora a complexidade da ambição e as suas consequências. A letra é introspectiva e revela um eu-lírico que se autodenomina um 'go-getter', alguém que busca incessantemente alcançar seus objetivos, mesmo que isso signifique enfrentar adversidades e sacrifícios. A expressão 'I'll boil easier than you, crush my bones into glue' sugere uma disposição para suportar dor e sofrimento em nome de suas ambições, destacando a resiliência e a determinação do personagem.

A repetição da frase 'Don't hold no harm' pode ser interpretada como um mantra de autoafirmação, uma tentativa de minimizar ou justificar os danos causados por suas ações. O eu-lírico parece estar em conflito com as repercussões de sua busca incessante pelo sucesso, reconhecendo que suas 'maravilhosas mentiras' são desprezadas pelos seus filhos. Isso sugere uma reflexão sobre os custos pessoais e familiares de sua ambição, trazendo à tona a tensão entre o desejo de realização pessoal e as responsabilidades sociais e emocionais.

A música também aborda a percepção da realidade e a distinção entre o falso e o verdadeiro, como evidenciado na linha 'The fever I feel, the fake and the real'. O eu-lírico parece estar ciente das ilusões e das verdades que permeiam sua vida, e essa consciência contribui para a expansão de seu mundo, embora as coisas 'quebrem em suas mãos'. Essa metáfora pode simbolizar a fragilidade das conquistas materiais e a efemeridade do sucesso, reforçando a ideia de que a ambição, embora poderosa, pode ser destrutiva e insustentável a longo prazo.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Chaves para atrair os nossos jovens talentos, mantê-los no nosso País e outros a regressar Portugal

Portugal precisa acreditar mais no potencial empreendedor dos jovens. A falta de espírito empreendedor mata a inovação, a geração de empregos, a capacidade enriquecimento da população como um todo. Enfim, a solução não está no Estado, mas nas pessoas.


O empresário tem que trabalhar para tornar a sua empresa num ambiente amigável, motivador e positivo para todos os seus empregados. E tenha em mente as chaves que atraem e satisfazem especialmente a Geração Z e Millennials. Reuni o plano de ação em dez áreas muito práticas.
1. Assegurar horários de trabalho flexíveis
Os jovens de hoje não compartimentam as suas vidas, eles vivem-nas como um todo. É por isso que os horários fixos os estão a restringir e a repelir. Têm de se sentir no controlo do seu tempo e definir o seu dia de trabalho de acordo com as suas necessidades e circunstâncias pessoais. Isto permite-lhes conciliar o trabalho com a sua vida privada, satisfazer o seu desejo de outras experiências fora do trabalho e sentir-se muito mais felizes no dia-a-dia. Como resultado, a sua motivação e empenho são melhorados. Sempre que possível, não tente restringir as suas almas livres ou deixarão de ser criativos, produtivos e envolvidos.

2. Apostar no teletrabalho
O tempo é mais do que dinheiro para eles. Consideram-no o seu bem mais precioso. Eles não estão dispostos a perdê-lo ou desperdiçá-lo. Também o sabe, a deslocação pendular – especialmente em algumas grandes cidades – é um ladrão de tempo e experiência. É por isso que preferem evitá-los e trabalhar a partir de casa sempre que possível. Acolhem bem as fórmulas híbridas, mas não estão dispostos a abdicar desses momentos únicos por uma mera rotina. Portanto, o teletrabalho é um bem inquestionável para eles. Preferem ir fisicamente à empresa apenas em caso de necessidade. A sua empresa está preparada para satisfazer esta procura fundamental para atrair jovens talentos?

3. Oferecer numerosas oportunidades pessoais
Eles querem crescer, desenvolver-se e evoluir, e estão conscientes disso diariamente. Assim, a sua organização deve tornar-se uma fonte permanente de novas possibilidades de crescimento e desenvolvimento. É um fator de diferenciação fundamental quando escolhem uma empresa em detrimento de outra. O conformismo é alheio à sua natureza. Eles querem melhorar como profissionais enquanto fazem o seu trabalho.

4. Pagar uma remuneração justa e necessária
Todos nós trabalhamos para ganhar dinheiro. No entanto, a vida dos jovens de hoje não gira apenas em torno do trabalho. Trata-se de uma mudança de atitude muito clara e inegável. É por isso que não estão satisfeitos com um salário que lhes permita satisfazer as suas necessidades básicas. Eles também querem viajar, divertir-se, conhecer pessoas interessantes, socializar e ser felizes. Não é surpreendente, portanto, o facto de termos mencionado alguns parágrafos atrás: a maioria deles está a planear mudar de emprego dentro de dois anos. E a melhoria do seu salário é uma das principais razões.

5. Praticar a remuneração emocional
No entanto, a secção anterior não é apenas económica. Estes profissionais também valorizam muito outros complementos não monetários para a sua remuneração. Por exemplo, são estimulados por seguros médicos, descontos em ginásios, lojas ou infantários, viagens gratuitas…

6. Ser uma referência para a inclusão, diversidade e tolerância
Se não partilharem a essência da empresa, desistirão dela. Aspetos como a tolerância, diversidade e inclusão são pilares da sua existência e da sua forma de pensar. Não toleram a desigualdade e a injustiça, e não perdoam aos seus empregadores por isso. Exigem que todas as pessoas tenham igualdade de oportunidades na sua empresa. Independentemente da sua origem, etnia, sexo, idade e preferência sexual.

7. Proporcionar formação inovadora e personalizada
Lembre-se desta ideia: eles querem melhorar, desenvolver-se e crescer como um todo. Eles precisam de aprender coisas novas. Se eles sentirem que isto não está a acontecer, os jovens abandonarão a empresa. Por isso, implementar uma estratégia global para estimular e reforçar o talento. A formação mais recente tem de ser uma parte regular do seu trabalho. Deve ser adaptado às características específicas de cada empregado.

8. Gerar contactos e networking
De volta à órbita do desenvolvimento profissional, todos nós sabemos que a nossa rede de contactos é essencial. Os jovens também estão cientes disto. Encontrar pessoas importantes, esfregar ombros com referências sectoriais, ter líderes estimulantes e aproveitar as sinergias derivadas é muito estimulante e atrativo para estes profissionais. Não hesite em encorajar este clima de inter-relação e facilitar estes contactos.

9. Criar e consolidar um ambiente de trabalho positivo
Os jovens de hoje são sociais, solidários e de espírito aberto por natureza. E, não se esqueçam, são experienciais e hedonistas. Se não se sentirem à vontade com o ambiente e a relação com os colegas, despedir-se-ão do trabalho. Deve fomentar uma cultura de empresa baseada na colaboração, comunicação, tratamento impecável e um bom ambiente. A interfuncionalidade, a escuta empática e a preocupação sincera com as pessoas são valores essenciais para recrutar este talento e mantê-los à vontade.

10. Recrutar os melhores
O recrutamento de jovens talentos alimenta-se a si próprio. Se contratar trabalhadores brilhantes – zetas ou milenares – e os fizer sentir-se bem, eles atrairão os seus pares. Há muitas empresas com um espírito jovem, atual, renovado, empenhado e motivador para este segmento da força de trabalho. Todos eles têm uma equipa humana que é uma referência, facilitadora e admirável para os jovens de hoje.

É o primeiro passo: recrutar os melhores. Então a sua organização deve acolhê-los, acompanhá-los, motivá-los, estimulá-los e encorajá-los a atuar no seu melhor. Quando se trata de jovens talentos, a questão é ainda mais exigente. Porque este sector da população é muito mais fiel às suas expectativas, critérios e desejos do que os seus anciãos. Se quiser continuar a beneficiar deles, tem de os fazer sentir realizados, reconhecidos e altamente valorizados. Além disso, é preciso contribuir para os tornar mais felizes.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

A riqueza acumulada desde 2015 por 1% dos mais ricos do mundo permitiria erradicar a pobreza 22 vezes.



Um relatório divulgado esta quinta-feira pela Oxfam Internacional concluiu que a riqueza acumulada desde 2015 por 1% dos mais ricos do mundo permitiria erradicar a pobreza 22 vezes.

No documento "Do lucro privado ao poder público: Financiar o desenvolvimento, não a oligarquia", a organização não governamental (ONG) denunciou que a riqueza dos 1% mais ricos aumentou 33,9 biliões de dólares (cerca de 29 biliões de euros) em termos reais desde 2015, quando foram acordados os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

O montante seria o suficiente para acabar com a pobreza anual 22 vezes, denunciou a ONG, no relatório publicado no âmbito da preparação da Conferência Internacional sobre o Financiamento do Desenvolvimento, que se realiza na próxima semana em Sevilha, no sul de Espanha.

Esta nova análise revelou um "aumento astronómico" na riqueza privada entre 1995 e 2023, com um crescimento de 342 biliões de dólares (296,4 biliões de euros), oito vezes maior que o da riqueza pública.

O documento acusa os governos ricos de estarem a fazer os maiores cortes na ajuda ao desenvolvimento, "algo essencial para a sobrevivência", desde que os registos de ajuda começaram em 1960.

"A riqueza de apenas três mil multimilionários aumentou 6,5 biliões de dólares [5,63 biliões de euros] em termos reais desde 2015 e representa agora o equivalente a 14,6% do PIB mundial", afirmou a ONG.

A análise argumentou ainda que só os países do G7 (grupo dos sete países mais desenvolvidos do mundo), que representam cerca de três quartos de toda a ajuda oficial, estão a reduzi-la em 28% até 2026, em comparação com 2024.

Ao mesmo tempo, a crise da dívida "está a levar à falência os países pobres, que estão a pagar muito mais aos seus credores ricos do que podem gastar em salas de aula ou hospitais".

O relatório também examina o papel dos credores privados, que "representam mais de metade da dívida dos países de baixo e médio rendimento, exacerbando a crise da dívida com a sua recusa em negociar e as suas condições punitivas".

"Os países ricos colocaram Wall Street no comando do desenvolvimento global. Trata-se de uma tomada de controlo global das finanças privadas que ultrapassou as estratégias com base empírica, para combater a pobreza através do investimento público e de uma tributação justa", afirmou o diretor-geral da Oxfam, Amitabh Behar.

A Oxfam apelou aos governos para que subscrevam as propostas políticas "que propõem uma mudança radical, combatendo a desigualdade extrema e transformando o sistema de financiamento do desenvolvimento".

Estas propostas incluem:
  1. desenvolvimento de novas parcerias estratégicas contra a desigualdade;
  2. rejeição do financiamento privado como uma "solução milagrosa" para o desenvolvimento;
  3. tributação dos ultraricos;
  4. reforma da arquitetura da dívida, bem como a revitalização da ajuda.
"É tempo de rejeitar o consenso de Wall Street e, em vez disso, dar o controlo aos cidadãos. Os governos devem atender às exigências generalizadas de tributar os ricos e acompanhá-las com uma visão de construção de bens públicos, desde os cuidados de saúde à energia", acrescentou Behar.

A investigação foi elaborada pela empresa de estudos de mercado Dynata, entre maio e junho, no Brasil, Canadá, França, Alemanha, Quénia, Itália, Índia, México, Filipinas, África do Sul, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos.

Em conjunto, estes países representam cerca de metade da população mundial, segundo a Oxfam.

sábado, 24 de maio de 2025

Lucros da banca: riqueza para uns, sacrifício para o povo

Os números falam por si: os grandes bancos portugueses anunciaram lucros astronómicos. Milhões e milhões acumulados — não por mérito produtivo, mas à custa do aperto que o povo enfrenta todos os dias.

Enquanto as famílias vivem com salários estagnados, enfrentam rendas insustentáveis e veem os serviços públicos a degradar-se, os bancos celebram em festa. Crescem comissões, aumentam juros nos créditos à habitação, e lucra-se com a dívida de quem só quer viver com dignidade.

É o retrato de um sistema invertido: os que produzem riqueza são penalizados, os que a acumulam sem produzir são premiados. Um sistema onde a especulação vale mais do que o trabalho, onde os direitos de quem trabalha são tratados como obstáculos, enquanto os lucros dos acionistas são tratados como intocáveis.

Esta situação não é inevitável. É o resultado de escolhas políticas:
– Escolhas que protegem o grande capital.
– Que alimentam desigualdades.
– Que empobrecem a maioria para enriquecer uma minoria.

É inaceitável que se continue a tratar a banca como se fosse um setor “sagrado”, imune a qualquer responsabilização social ou fiscal. O que hoje existe não é economia — é um sistema de extração, onde os bancos funcionam como máquinas de sugar o pouco que resta às famílias trabalhadoras.

A solução não é dar mais benefícios aos banqueiros.
A solução é romper com a política de direita que desmantela o Estado social e entrega o país aos interesses financeiros.

Está na hora de dizer basta.
Está na hora de valorizar quem trabalha, de garantir direitos, de regular a banca com coragem, e de reconstruir um país onde o lucro de uns não se faça à custa da miséria dos outros.

O povo não pode continuar a pagar a fatura do privilégio

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Portugal esgota hoje os recursos naturais que tinha para todo o ano


Portugal esgota hoje os recursos naturais que tinha disponíveis para este ano, 23 dias mais cedo que em 2024, começando a partir de agora a consumir “a crédito”, indicam dados da organização internacional “Global Footprint Network”.

Tal significa que os recursos do planeta disponíveis para este ano terminariam hoje se todas as pessoas do mundo consumissem como os portugueses.

No ano passado Portugal atingiu o chamado dia da sobrecarga a 28 de maio, pelo que recuou 23 dias no calendário e está a consumir recursos mais rapidamente.

A associação ambientalista Zero admite, num comunicado sobre o assunto, que os melhores resultados do ano passado refletiam o período da pandemia de covid-19, quando houve um abrandamento da produção e consumo.

A associação destaca que 5 de maio é o pior resultado dos últimos anos e avisa que se cada pessoa do planeta vivesse como uma pessoa média portuguesa a humanidade precisaria de cerca de 2,9 planetas para sustentar as suas necessidades de recursos.

“Portugal é, já há muitos anos, deficitário na sua capacidade para fornecer os recursos naturais necessários às atividades desenvolvidas (produção e consumo)”, diz a associação, recordando que o resultado aproxima Portugal da média da União Europeia (UE) que teve o seu dia de sobrecarga no dia 29 de abril.

A associação diz no comunicado que o modelo de produção e consumo que suporta o estilo de vida dos portugueses é responsável pelo desequilíbrio, e explica que o consumo de alimentos (30% da pegada global do país) e a mobilidade (18%) estão entre as atividades humanas diárias que mais contribuem para a Pegada Ecológica de Portugal.

A Zero sugere medidas para inverter a tendência de antecipação do dia em que Portugal começa a usar o “cartão de crédito ambiental”, como apostar numa agricultura de qualidade, com mais produção de proteína vegetal, preservando os solos e reduzindo a poluição e consumo de água.

Também sugere reduzir as deslocações e viagens recorrendo ao teletrabalho e teleconferências, aumentar os modos suaves de transporte, como a bicicleta, e regulamentar para que os produtos colocados no mercado sejam sustentáveis (duráveis, podendo ser reparados, reutilizados e reciclados, por exemplo).

Cada português, diz ainda a Zero, pode contribuir privilegiando o uso de transportes públicos, consumindo de forma mais circular (não usar e deitar fora), e reduzindo o consumo de proteína animal.

Os dados para Portugal indicam, diz a associação, que cada português consome cerca de três vezes a proteína animal que é preconizada na roda dos alimentos, metade dos vegetais, um quarto das leguminosas e dois terços das frutas.

Os Países Baixos esgotam também hoje os recursos que a Terra pode renovar num ano. E os neerlandeses, como os portugueses, vivem como se existissem quase três planetas e tratam a natureza como um recurso inesgotável, diz a “Global Footprint Network”.

Segundo a organização o primeiro país a esgotar os recursos este ano foi o Qatar, logo em 6 de fevereiro. O Luxemburgo aparece em segundo lugar, consumindo tudo a 17 de fevereiro.

Do outro lado do mapa, dos países que conseguem poupar mais os seus recursos destaca-se o Uruguai, que apenas esgota os que lhe estão destinados a 17 de dezembro, e a Indonésia, a 18 de novembro.

A “Global Footprint Network” é uma organização internacional de investigação que fornece a decisores ferramentas para ajudar a economia humana a funcionar dentro dos limites ecológicos da Terra.

A 5 de junho, Dia Mundial do Ambiente, a organização anuncia a data do “Earth Overshoot Day”, o momento em que a necessidade de recursos e serviços ambientais por parte da Humanidade excede a capacidade do Planeta Terra para regenerar esses mesmos recursos.

domingo, 5 de novembro de 2023

Novas baterias. Vamos a isso! NASA desenvolve baterias mais seguras e potentes que as de lítio

As tecnologias desenvolvidas pela NASA não se restringem às missões espaciais e vem sendo usadas para desenvolver outros importantes setores, entre eles a aviação. O carbono proveniente das viagens aéreas equivale a cerca de 2% de todas as emissões globais de gases com efeito de estufa e a busca por combustíveis mais sustentáveis e baterias elétricas que possam substituir motores à combustão é um dos desafios da indústria.



A NASA tem uma divisão que trabalha justamente com pesquisa e desenvolvimento de baterias e está a trabalhar em projetos de baterias mais leves e seguras – e muito mais potentes do que as baterias de íões de lítio, usadas hoje nos veículos elétricos.

As baterias de íons de lítio, o atual padrão da indústria automóvel, contêm líquidos que as tornam vulneráveis ​​ao superaquecimento, incêndio e perda de carga ao longo do tempo. Por outro lado, o projeto SABERS (Baterias de Arquitetura de Estado Sólido para Maior Recargabilidade e Segurança) da NASA está desenvolvendo baterias experimentais de estado sólido que não têm estas desvantagens. Além disso, as baterias Até agora, testadas pela equipe conseguiram alimentar objetos a 500 watts-hora por quilograma – o dobro de um carro elétrico.

Dentro da bateria, células de enxofre e selénio empilhadas diretamente umas sobre as outras, sem invólucros, eliminando peso das baterias. Juntamente com as próprias células, múltiplas baterias podem ser empilhadas sem qualquer separação entre elas.

“Este design elimina até 40% por cento do peso da bateria e nos permite duplicar ou mesmo triplicar a energia que pode ser armazenada, excedendo em muito as capacidades das baterias de íons de lítio”, disse Rocco Viggiano, investigador principal do SABERS no Glenn Research Center da NASA em Cleveland.

Armazenar mais energia e diminuir o peso das baterias são dois requisitos básicos para a aviação. No entanto, a quantidade de energia que uma bateria pode armazenar é apenas um lado da equação. Uma bateria também deve descarregar essa energia a uma taxa suficiente para alimentar grandes componentes eletrónicos, como uma aeronave elétrica ou um veículo aéreo não tripulado.

O site da NASA traz uma explicação didática sobre esta questão: “uma bateria poderia ser descrita como um balde. A energia (ou capacidade) de uma bateria é a quantidade que o balde pode conter, enquanto a sua potência é a rapidez com que o balde pode ser esvaziado. Para alimentar uma aeronave elétrica, a bateria deve descarregar a sua energia, ou esvaziar o seu balde, a um ritmo extraordinariamente rápido”.

Para garantir maior potência, novos testes estão a ser realizados com materiais que ainda não foram usados em baterias, mas que que produziram um progresso significativo na descarga de energia. E esses novos materiais vão permitir ainda mais ajustes no design dos equipamentos.

Segurança
A segurança é outro requisito fundamental para o uso de baterias em aeronaves elétricas. Ao contrário das baterias líquidas, as baterias de estado sólido não pegam fogo quando apresentam mau funcionamento e ainda podem funcionar quando danificadas.

Para avaliar a segurança, os pesquisadores testaram as baterias sob diferentes pressões e temperaturas e descobriram que ela pode operar em temperaturas quase duas vezes mais altas que as baterias de lítio, sem tanta tecnologia de resfriamento. A equipe continua testando-o em condições ainda mais quentes.

Segundo a NASA, o principal objetivo do SABERS para este ano é mostrar que as propriedades da bateria atendem às suas metas de energia e segurança, ao mesmo tempo que demonstra que ela pode operar com segurança em condições realistas e com potência máxima.

Em parceria com a Georgia Tech, o projeto SABERS conseguiu utilizar diferentes metodologias. “A Georgia Tech tem um grande foco na micromecânica de como a célula muda durante a operação. Isso nos ajudou a observar as pressões dentro da bateria, o que nos ajudou a melhorar ainda mais os equipamentos”, disse Viggiano. “Isso também nos levou a entender do ponto de vista prático como fabricar uma célula como essa e a algumas outras configurações de design aprimoradas”.

Apesar de ainda estarem em fase de testes, as baterias desenvolvidas pela NASA trazem esperança de uma eletrificação mais sustentável, não apenas para a indústria aeronáutica, mas também para a automotiva. Vale lembrar que a mineração necessária para a fabricação de baterias de lítio e os processos de reciclagem destes equipamentos ainda são um desafio.

Com informações da NASA

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domingo, 13 de agosto de 2023

Será que continua a ser produtivo trabalhar 5 dias por semana?


Depois da pandemia e com a crescente tendência para o teletrabalho,  a discussão de cinco ou quatro dias de trabalho semanais e o trabalho híbrido tem vindo a ficar mais unânime. Em muitos países já foi implementada a lei que permite aos trabalhadores decidirem se querem trabalhar quatro ou cinco dias por semana.

Guiadas por dados administrativos, inquéritos e entrevistas feitas aos trabalhadores, algumas empresas no Reino Unido decidiram realizar testes de seis semanas. Citados pelo Jornal de Negócios e pela Euronews, os investigadores classificaram este projeto piloto como um "sucesso" quando testada a semana de 4 dias. A Escócia e o País de Gales também se juntaram a esta iniciativa e começaram a realizar testes no início deste ano. Entre 2015 e 2019, a Islândia realizou o maior projeto piloto mundial de uma semana de 35 a 36 horas de trabalho, tornando-se assim num dos líderes na semana de trabalho de quatro dias.

Este acabou por ser considerado um sucesso por investigadores e sindicatos islandeses e levou a que quase 90% da população ativa tenha agora horários reduzidos. Em Portugal este tema também já começou a ser debatido e em fevereiro de 2023 várias empresas começaram a ser alvos de inquéritos de forma a perceber se este método também terá futuro no nosso país, este teste ainda durará até ao final de 2023 e só em fevereiro de 2024 é que o inquérito pós-piloto será iniciado.

Steven Roth, presidente de uma das maiores empresas de investimento imobiliário, começou a apostar na possibilidade de o trabalho híbrido ter vindo para ficar. Para além do investidor ter descrito, ao The Wall Street Journal, que as sextas-feiras estão "mortas para sempre", disse ainda que as segundas são do género "toca a foge" [por serem dias em que os funcionários vão lá picar o ponto].

A Placer.ai, uma empresa que analisou os dados de tráfego de 800 edifícios de escritórios nos Estados Unidos, concluiu num relatório, que as pessoas após a pandemia optaram por regressar ao escritório apenas a meio da semana, concluindo também que às terças os níveis de ocupação do escritório rondavam os 62% e que às quartas e quintas estavam próximos dos 60%. Às segundas e sextas registaram-se apenas metade do que o que era antes da pandemia.

Apesar de serem muitos os interessados nesta semana de quatro dias e no trabalho híbrido, existem outros tantos que não concordam. Em fevereiro, a Amazon anunciou que os trabalhadores tinham obrigatoriamente de ir ao escritório três dias por semana, uma ordem que os trabalhadores não aceitaram da melhor maneira e têm, até agora, lutado contra ela. Já o CEO da Disney, Robert Iger, disse aos trabalhadores que teriam de frequentar o escritório quatro dias por semana afirmando ainda que "nada pode substituir o trabalho presencial". Mais uma vez, os trabalhadores não gostaram da ideia e responderam com uma petição que reuniu mais de duas mil assinaturas.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Proteger os nossos oceanos e o meio ambiente do 5G e da radiação sonar sem fios


Tecnoecocídio: a destruição sistemática de nosso ecossistema pelo uso abusivo da tecnologia

Embora muitos tenham visto anúncios promovendo as capacidades sem fio rápidas do 5G conectando tudo e todos...e prometendo que essas tecnologias inteligentes fornecerão um futuro de energia renovável, a pesquisa científica e os esforços de defesa ambiental mostram o oposto do que essas indústrias com fins lucrativos prometem - com centenas de cientistas , ativistas de alterações climáticas e especialistas em saúde pública exigindo uma moratória na implantação dessas tecnologias.

Nossa missão é apoiar o movimento global para controlar a expansão sem fio na Terra, nos céus e no oceano porque representa uma ameaça imediata a toda a vida. É nossa esperança trazer uma maior consciencialização pública sobre os danos do 5G, satélites e oceanos “inteligentes” e iniciar um diálogo sobre opções tecnológicas mais sábias e equilibradas para um futuro mais seguro e que afirme a vida.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

ONU apresenta avanços no trabalho para alcançar justiça para as vítimas do Daesh


Procurar justiça para todos os iraquianos afetados pelas atrocidades cometidas pelos membros do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, conhecido como Daesh, é o trabalho de Christian Ritscher.

Nesta quarta-feira, ele falou aos membros do Conselho de Segurança sobre o último relatório divulgado pela equipa que chefia, criada há cinco anos a pedido do Iraque.

Investigações
Segundo Christian Ritscher, a Equipa de Investigação da ONU para a Responsabilização por Crimes Cometidos pelo Daesh (UNITAD) continua a trabalhar para promover a responsabilização por crimes internacionais e apoiar o julgamento dos autores desses delitos em todo o mundo.

Ele também explicou a ação da equipa com as comunidades afetadas por crimes e sobreviventes dos ataques, bem como anciãos tribais e clérigos.

Ritscher também abordou o progresso das investigações para avaliar uma série de questões, incluindo o desenvolvimento e uso de armas químicas pelo Daesh, crimes contra crianças e muçulmanos sunitas, bem como ataques a cristãos além de investigações contínuas sobre atentados a yazidis e xiitas.

Crimes internacionais
O representante da ONU afirma que a cooperação com as autoridades iraquianas foi essencial para o trabalho, acrescentando que três pilares devem ser implementados para garantir que o sucesso seja alcançado: "tribunais competentes, provas aceitáveis e quadro jurídico adequado".

Para alcançar este objetivo, a Equipa de Investigação está empenhada em apoiar o processo liderado pelo Iraque “para estabelecer um quadro legal que permita que os crimes do Daesh sejam autuados como crimes internacionais perante os tribunais nacionais”.

Ritscher adiciona que a medida deve enquadrar a brutalidade dos ataques como crimes internacionais e não apenas como organização terrorista.

Longo trabalho
O chefe da investigação destacou que a cooperação com a Justiça iraquiana inclui o reforço da capacidade dos magistrados do país, trabalho contínuo e conjunto na construção de casos, além de um projeto de digitalização.

Até o momento, 8 milhões de páginas de documentos relacionados com o Estado Islâmico em posse das autoridades iraquianas e das autoridades da região do Curdistão foram digitalizados.

Ritscher elogiou o sucesso alcançado até agora, mas também alertou que o trabalho está longe de terminar: "O que queremos ver são julgamentos justos perante tribunais especializados no Iraque, com a participação ativa de vítimas e sobreviventes".

Ele acrescentou que a equipa está atualmente a trabalhar para fornecer apoio para investigações e julgamentos a 17 jurisdições de diferentes países.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Teste nacional à semana de quatro dias arranca hoje. Sim ou não?

Quem não gostaria de trabalhar apenas quatro dias por semana, ganhando um dia extra de descanso e mantendo o seu rendimento? Se a semana de quatro dias de trabalho veio para ficar ainda não é claro, mas teve o dom de dar impulso à discussão sobre flexibilidade, saúde mental e até produtividade. Agora é a vez de Portugal testar este modelo, num piloto promovido pelo Governo, projeto que arranca com 39 empresas, abrangendo um total de 1.000 trabalhadores. Quais as vantagens e desvantagens deste novo modelo de trabalho?

Múltiplos benefícios têm sido apontados relativamente à adoção da semana de trabalho de quatro dias, sendo que o maior equilíbrio entre a esfera privada e a profissional é o que mais pesa na balança, em prol da saúde mental e do bem-estar. Recentemente, o Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (LABPATS) recomendou a concretização da semana de quatro dias de trabalho, sem perda de remuneração, para uma melhor conciliação da vida profissional e familiar, e também para uma melhor e maior capacidade retenção das novas gerações.

“O trabalho é uma área da sua vida, mas não é a área da sua vida”, afirma Tânia Gaspar, coordenadora do trabalho desenvolvido pelo LABPATS. Mas a semana de quatro dias só funciona com algumas condições, defende. “Não pode haver decréscimo salarial, ou seja, que a pessoa não fique a receber menos, e que a pessoa não tenha que fazer o trabalho de todos os dias naqueles quatro dias, senão acaba por ficar completamente sobrecarregada.”

Reconhecendo que há atividades profissionais em que a semana de quatro dias é mais fácil de aplicar do que noutras, a psicóloga acrescentou ainda que “se a pessoa tiver de fazer o mesmo número de horas [da semana] numa fábrica, por exemplo, em quatro dias, vai haver quatro dias muito pesados e isso pode levar à exaustão”.

Na experiência que arranca esta segunda-feira, e tendo em conta as últimas informações divulgadas pelo Ministério do Trabalho, não haverá, perda de rendimento para os trabalhadores que beneficiarem de uma redução de horário, e também não é esperada concentração horária nos restantes dias. Haverá, sim, alguma flexibilidade no que toca à dimensão da redução horária.

No caso da Crioestaminal, Evolve e Onya Health, três das empresas que anunciaram publicamente que farão parte do piloto do Governo, a semana de quatro dias será alternada com a tradicional semana de cinco dias, o que dará uma redução das habituais 40 horas semanais para 32 horas semanais, de 15 em 15 dias.

Redução do stress, absentismo e rotatividade

Um relatório publicado no final de fevereiro por investigadores da Universidade de Cambridge, a partir do projeto-piloto de 61 empresas no Reino Unido, concluiu que trabalhar quatro dias por semana reduz o stress e mantém os níveis de produtividade.

Os investigadores sustentam que durante os seis meses em que estas organizações reduziram o horário de trabalho dos seus colaboradores em 20%, sem redução salarial, as baixas por doença diminuíram na ordem dos 65% e a rotatividade reduziu em 57%.

A investigação aponta também que 79% dos funcionários indicaram que o seu burnout (exaustão) foi reduzido e 39% disseram que os seus níveis de stress diminuíram.

Números especialmente importantes para a realidade nacional quando sabemos que, atualmente, os problemas relacionados com stress e saúde mental dos trabalhadores, resultando em absentismo, presentismo e quebras de produtividade, estão a custar às empresas portuguesas até 5,3 mil milhões de euros por ano, uma subida face aos 3,2 mil milhões estimados no ano passado, dava conta o II Relatório “Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho”, da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Mas, voltando ao Reino Unido, 61 empresas e 2.900 trabalhadores experimentaram, de junho a dezembro de 2022, este modelo de trabalho. E o piloto inglês ‘passou no teste’ com distinção.

Feito o balanço final, a maioria das empresas participantes (91%) não planeia voltar à semana de cinco dias. Só três empresas interromperam a experiência e duas ainda ponderam horários de trabalho mais curtos. As restantes encaram a experiência como bem-sucedida, tendo em conta os aumentos de receitas ou os menores níveis de burnout.

“Questionava-me se seria muito mais difícil para as empresas fazer semanas de trabalho de quatro dias e a resposta parece ser não. As organizações fizeram um excelente trabalho e estão realmente satisfeitas com ele”, comentava Juliet Schor, responsável pela investigação, à Bloomberg (acesso pago, conteúdo em inglês), no final de fevereiro, aquando da divulgação destes dados.

A economista e socióloga indica que foram obtidos “resultados muito semelhantes” aos de testes mais pequenos de empresas nos Estados Unidos, Irlanda e Austrália.

Os trabalhadores com uma semana mais curta gostaram da experiência devido às melhorias sentidas ao nível do stress e fadiga, mas também em termos do impacto na vida pessoal. O tempo que os homens passaram a cuidar das crianças aumentou, enquanto as mulheres dizem ter beneficiado do dia extra de folga, em simultâneo com uma maior satisfação com a vida e o trabalho.

Num exemplo entre diferentes áreas, os trabalhadores dos serviços e de organizações sem fins lucrativos encontraram mais tempo para praticar exercício físico, enquanto os da construção civil sentiram maiores benefícios em termos do sono.

Nenhum dos trabalhadores que participaram disse querer abandonar o modelo e 15% garantiram que nenhuma quantia de dinheiro os motivaria a regressar à semana de cinco dias. O absentismo, por sua vez, diminuiu de dois dias por mês para 0,7. E as receitas das organizações aumentaram 35% relativamente a períodos semelhantes do ano anterior e 1,4% durante o teste.

De forma geral, as empresas classificaram a experiência, que foi coordenada pela organização sem fins lucrativos 4-Day Week Global, com um 8,5, numa escala de um a dez.

O que acontece à produtividade?

Os resultados esperançosos no Reino Unido devem ser contrastados com outras realidades, e mais próximas ainda. Em Espanha, nove em cada dez profissionais preferiam trabalhar quatro dias por semana. Contudo, um novo estudo da Hays España, divulgado pelo Expansión (acesso pago, conteúdo em espanhol), revela que apenas 5% das empresas pensou realmente em implementar a semana de trabalho reduzida. Uma percentagem que fica muito distante da vontade de 93% dos colaboradores espanhóis.

Porquê? Receios ao nível da produtividade persistem. Cerca de 70% das empresas espanholas inquiridas pela Hays admitiram que não estão preparadas para implementar este modelo de trabalho. Preocupa-lhes que comprometa a produtividade (39%) e não estarem preparadas a nível operacional (37%).

Receios partilhados pelos empresários portugueses. Um inquérito realizado junto de 1.130 empresas associadas da Associação Empresarial de Portugal (AEP) mostra que “cerca de um terço dos empresários considera que a implementação da semana dos quatro dias não será benéfica para nenhuma das partes, e outro tanto que apenas é benéfica para os trabalhadores”.

Do inquérito resulta que os mais de mil empresários inquiridos temem os impactos que a generalização da medida teria: 71% antecipam que a medida teria um impacto “negativo ou muito negativo” nos lucros, na competitividade (69%) e na produtividade (65%). As preocupações dos gestores abrangem também o aumento das queixas dos clientes (70%) e dificuldades resultantes da organização dos processos internos (70%).

Para os empresários, quem terá mais benefícios com a implementação da semana dos quatro dias, “serão seguramente os trabalhadores e não as empresas”. Cerca de um terço considera que a implementação da semana dos quatro dias “não será benéfica para nenhuma das partes” e mais de um terço considera que “apenas é benéfica para os trabalhadores”.

A esmagadora maioria das empresas (77%) concorda (parcial ou totalmente) que, em alternativa, “seria preferível uma total flexibilidade no modelo a adotar, por acordo entre o trabalhador e a empresa”.

Se olharmos para a própria preparação do piloto português que arranca hoje, vemos esses recuos. Das 90 empresas que manifestaram, inicialmente, interesse em aderir à semana de quatro dias de trabalho, apenas 46 decidiram avançar para a segunda fase do piloto e, destas, “39 empresas, distribuídas por 10 distritos” passaram a esta nova fase, informa o Ministério do Trabalho. Destas 39, um total de “12 empresas são associadas do projeto e iniciaram a semana de 4 dias no final de 2022, ou início de 2023”.

“Lisboa, Porto e Braga são as principais localizações das empresas, entre as quais está um instituto de investigação, uma creche, um centro de dia, um banco de células estaminais que trabalha 7 dias, e empresas do setor social, indústria e comércio. Ao todo, o piloto arranca com cerca de mil colaboradores“, refere o Ministério. Na fase anterior, a mais de quatro dezenas de empresas abrangiam um total de 20.000 colaboradores.

“Das empresas que optaram por ainda não avançar nesta fase, a maioria mantém o interesse em implementar a semana de 4 dias, mas preferiu adiar para durante o segundo semestre de 2023 ou início de 2024“, refere a mesma fonte.

“O número de inscrições no projeto piloto em Portugal assemelha-se com a realidade internacional. O projeto piloto europeu contou com 20 empresas europeias, em Inglaterra 61 empresas avançaram com a experiência e, nos Estados Unidos, o piloto arrancou com 30 empresas assim como na Nova Zelândia”, conclui.